9 de fev de 2014

Jornal Nacional descobre o que Dilma falou, assista



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Este relógio coloca um planetário no seu pulso


Caso você planeje permanecer por aqui por mais — muito mais — do que um ciclo padrão de vida humana, você precisará de um relógio que mostre o tempo em um nível galático. O novo Complication Poétique Midnight Planétarium, da Van Cleef & Arpels, certamente dará conta do recado. Em vez de mostrar horas e minutos, ele incorpora seis dos planetas do nosso sistema solar orbitando uma versão minúscula do Sol em tempo real.

Então enquanto Mercúrio demora cerca de 88 dias para completar uma volta na face do relógio, Vênus precisará de 224 e a Terra, obviamente, de um ano. Saturno, por sua vez, o planeta mais distante do Sol presente no relógio, não voltará à sua posição inicial por 29 anos e meio.

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Com 396 pequenas peças trabalhando juntas para completar o pequeno movimento do relógio, o Midnight Planétarium obviamente não é nada barato. Mas é o fato de cada um dos planetas ser feito de peças preciosas ou semi-preciosas que realmente faz com que ele seja caro. Disponível em algum momento deste ano, ele custará US$ 245.000.  [Van Cleef & Arpels via Cool Hunting]

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E se Pizzolato decidir contar o que sabe na Itália?

Na Itália, ele pode ser ouvido

A cinematográfica fuga de Pizzolato para a Itália tem um curioso efeito colateral sobre o mundo político nacional.

Na Itália, Pizzolato vai poder falar sobre coisas que ele não teria a quem dizer no Brasil: nem a mídia lhe daria voz e nem muito menos a Justiça o levaria em conta.

Uma pequena amostra disso se viu neste final de semana. Cercada de jornalistas depois de visitar seu marido na cadeia, Andrea Haas, mulher de Pizzolato, produziu uma mistura de desabafo e manifesto ao ver gente da Globo ali presente.

Ela se dirigiu para a reportagem da Globo. Disse que seu marido tem documentos que provam que a Globo ficou com 5 milhões de reais do dinheiro da Visanet que alegadamente foi desviado no Mensalão.

(Pizzolato afirma ter como comprovar a utilização de todo o dinheiro que segundo os acusadores teria sido subtraído pelo PT aos cofres públicos para comprar apoio.)

Mais que isso, ela tocou num assunto que é proibido na mídia brasileira: o escândalo da sonegação da Globo.

A Globo, como revelaram documentos publicados pelo site Cafezinho, trapaceou e sonegou na compra dos direitos da Copa de 2002.

Num desdobramento inacreditável, uma funcionária da Receita foi flagrada tentando destruir a documentação que provava os delitos da Globo. (Gilmar Mendes, e aí não existe surpresa, concedeu habeas corpus para a amiga da Globo.)

Quanto a mídia foge deste assunto sabemos todos. Perguntei ao editor executivo da Folha, Sérgio Dávila, por que a Folha ficou de fora de uma história que o UOL dera.

Sob pressão, a Globo acabou admitindo ao UOL a multa da Receita, e afirmou ter pagado sem jamais exibir o Darf, o recibo fiscal, o que é motivo de chacota até hoje.

Dávila pareceu sensível a minha ponderação jornalística, e no dia seguinte a Folha deu uma nota para o assunto.

Eu imaginava que fosse o começo, mas foi o fim. Nunca mais a Folha voltou ao assunto, e nem o UOL.

A Globo com certeza se movimentou, e quando os Marinhos não querem que se toque em algum assunto, a manada se comporta bem, dado seu descomunal poder de intimidação e sua conhecida falta de escrúpulos em fazer o que tiver que ser feito para obter o silêncio.

O problema — ou solução — é que a Globo não controla a Itália. Não manda na mídia italiana, não manda na justiça italiana.

Se um repórter italiano decidir ouvir Pizzolato em profundidade, ouvirá. Se o que ele tiver a dizer afetar a Globo, azar dela.

Isso pode mudar muita coisa.

A explosão de Andrea mostrou que os Pizzolatos estão com muita vontade de falar.

Caso isso efetivamente ocorra, a Globo não terá como deter o vento, como faz usualmente no Brasil.

Isto é muito bom.

Paulo Nogueira
No DCM
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As mentiras de Ramona


A oposição sem bandeira está a agradecer penhoradamente à médica cubana Ramona Matos Rodrigues por ter abandonado o programa Mais Médicos e acusar o governo de receber salário reduzido.

A mídia de mercado está deitando e rolando, mas, como sempre, apresentando a versão de um dos lados, exatamente a que está sendo aproveitada pela oposição sem bandeira.

Não foi informado em nenhum momento a existência no Departamento de Estado norte-americano de um programa com a denominação de Cuban Medical Profesional Parole, que tem por objetivo buscar a deserção de cubanos médicos e do pessoal de enfermagem atuando em várias partes do mundo. Para se ter uma ideia, segundo informação do governo cubano, nos últimos quatro anos cerca de 83 mil médicos e enfermeiros prestaram ou estão prestando serviços médicos no exterior. E deste total, 1,89%, ou seja 1574 foram cooptados pelo organismo do Departamento de Estado em 65 países.

Trata-se, na verdade, de uma batalha ideológica desencadeada pelo governo dos Estados Unidos contra o regime da ilha caribenha.

O episódio da médica Ramona parece ser mais um da série em que são ofertados mundos e fundos ao pessoal médico. Tudo indica que Ramona caiu no canto da sereia e além do esquema norte-americano conta com a ajuda de parlamentares oposicionistas e da direita brasileira.

É curioso o fato do protetor de Ramona, o deputado ruralista Ronaldo Caiado, um crítico veemente da “escravidão médica” de Cuba ser no Brasil opositor radical ao Projeto de Emenda Constitucional (PEC) do trabalho escravo, apresentado exatamente para acabar com essa excrescência ainda existente no país em pleno Terceiro Milênio.

Destino final

O caso da médica cubana é sintomático. Tão logo ela chegou em Brasília a primeira coisa que fez foi tentar conseguir na Embaixada dos Estados Unidos pedido de asilo para entrar no país distante 200 milhas de Cuba e que a propaganda diz para os cubanos ser um “paraíso”. É interessante acompanhar qual será mesmo o destino final da doutora Ramona.

O governo estadunidense e de quebra a direita brasileira a ele vinculado está apoplético com vários acontecimentos das últimas semanas envolvendo Cuba.

Primeiro enfurecimento: a reunião realizada em Havana da CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), que contou com a presença de 30 chefes de Estados da região, além de outros representantes, e que Estados Unidos e Canadá não participam.

Como se não bastasse, a inauguração de parte do Porto de Mariel, que na prática amenizará alguns efeitos do bloqueio norte-americano a Cuba enfureceu ainda mais Washington. E por aqui, a direita brasileira, para variar, seguiu os mesmos passos de fúria do governo norte-americano ao afirmar a todo momento que o governo de Dilma Rousseff está financiando “a ditadura dos irmãos Castro”. Esse é o termo empregado pela mídia de mercado de um modo geral ao se referir a Cuba.

Foi praticamente omitido do noticiário que o empréstimo do BNDES para a obra em Mariel será ressarcido e possibilita mais de 150 mil empregos para os brasileiros.

Diferenças de contrato

A mida de mercado destas bandas comprou a versão de Ramona de que não está ganhando integralmente os 10 mil reais como os demais médicos, o que para a direita caracteriza-se como “trabalho escravo”.

O argumento não resiste a menor análise. Os mais de seis mil médicos cubanos que participam do programa Mais Médicos não vieram para o Brasil forçados e aceitaram o contrato oferecido com a intermediação da Organização Pan-americana de Saúde.

Aceitaram o salário de 900 dólares a receber no Brasil e a outra parte através do depósito de 600 dólares mensais em uma conta bancária em Cuba. Com isso, no fim de três anos de contrato, o pessoal cubano terá a seu dispor 21.600 dólares ou moeda local correspondente.

É necessário assinalar as diferenças entre o médico que vem ao Brasil individualmente e o que vem com a intermediação do Estado, no caso cubano, que investiu na formação do profissional. Aliás, o Estado brasileiro, deveria cobrar do formando em medicina em escolas públicas a prestação de serviços médicos pelo que nele foi investido, por exemplo, no interior do país, pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Se isso fosse feito, provavelmente os brasileiros nesses rincões não estariam tão carentes de médicos. É possível até que o Brasil não necessitasse, tanto como agora, da presença de médicos de outros países para suprir a carência.

Se o Estado investe nas escolas públicas para a formação dos médicos tem todo o direito de fazer alguma cobrança. Houve até um momento, no ano passado, de tentativas no sentido de se exigir que os médicos formados em universidade públicas prestassem serviços de dois anos no SUS. A grita classista foi geral e irrestrita. Os médicos formados nas universidades públicas e a mídia de mercado esqueceram de lembrar que as referidas universidades são mantidas com os impostos dos cidadãos brasileiros.

A formação do médico não é apenas um mérito individual, mas também, e sobretudo, devido ao esforço coletivo do povo brasileiro que paga impostos e de onde também sai a grana para as universidades públicas.

O mesmo raciocínio é válido para brasileiros que estudam nas mesmas universidades públicas e vão se especializar no exterior com bolsas fornecidas pelo Estado brasileiro e acabam ficando fora do país, em algum centro mundial de referência, onde é rotina a cooptação de cérebros.

Em outras palavras: mais uma vez o cidadão contribuinte paga e não leva, já que é visto com muita naturalidade nenhum retorno para a sociedade brasileira.

Esse ressarcimento ao Estado independe da vigência no país de um regime regime econômico socialista ou capitalista.

Mário Augusto Jakobskind
No DR
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A Partir de Agora - As jornadas de junho no Brasil


Realizado a partir de entrevistas com ativistas de cinco capitais brasileiras, o material não é apenas uma ferramenta para o debate e a compreensão das Jornadas de Junho, mas também um instrumento de organização da luta política, característica marcante da militância audiovisual de Carlos Pronzato, que também dirigiu, entre outros, "O Panelaço - a rebelião argentina" (2002) e "Carlos Marighella - Quem samba fica, quem não samba vai embora" (2011).

Direção, roteiro e concepção: Carlos Pronzato
Direção de produção: Cristiane Paolinelli
Edição: Ricardo Gomes (Coletivo Das Lutas RJ)
Edição teasers e pesquisas de imagens adicionais: Richardson Pontone
Trilha: Apanhador Só
Realização: Lamestiza Audiovisual

Brasil, fevereiro de 2014.

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Caiado fez "pós" em Miami sobre deserção cubana


Deputado Ronaldo Caiado (DEM/GO), que teve participação ativa no caso da cubana Ramona Rodríguez, que abandonou o programa Mais Médicos, fez antes uma espécie de cursinho em Miami, junto à comunidade cubana, sobre como estimular médicos a desertar e pedir refúgio

Personagem central no caso da cubana Ramona Rodríguez, que abandonou o programa Mais Médicos e passou a comparar a situação dos profissionais de saúde com a de escravos, o deputado Ronaldo Caiado (DEM/GO), fez antes uma espécie de treinamento em Miami, antes de abraçar a causa. É o que informa Ilimar Franco:

Pós-graduação

O deputado Ronaldo Caiado (DEM) esteve em Miami durante o recesso, e conversou com a comunidade cubana sobre formas e instrumentos para estimular os médicos que estão no Brasil a pedir refúgio para não retornar a seu país.
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O bombardeador gente boa


Depois do cafetão que se apaixona, o Brasil apresenta ao mundo um novo personagem criminoso inverossímil: o bombardeador pacífico. A versão do tal Fábio Raposo, que confessou ter passado o rojão para o cara que o disparou, atingindo o coleguinha Santiago Andrade, da Band, tem mais furos que um ralo de pia. Vou apresentar só os três mais absurdos:



1. Ele diz que foi à manifestação sem intenção de brigar, mas, ao ver uma bomba cair no chão — ele identificou o rojão como bomba até na matéria da Globonews, dois dias depois, imagina na hora —, a pegou, mas não tinha intenção de machucar ninguém com ela. Ia fazer o quê? Doá-la a um museu?

2. Depois de pegar o artefato, entregou-o para um cara desconhecido que disse (palavras dele) “passa pra mim que eu jogo” . Ou seja, se não tinha intenção de machucar ninguém com o artefato de artilharia que tinha em mãos, passou, conscientemente, a alguém que ele sabia que tinha;

3. Fábio diz que vem recebendo ligações de pessoas desconhecidas tentando obrigá-lo a assumir a culpa pelo crime. Como é que pessoas desconhecidas conseguiram os telefones dele? Pela foto que apareceu nas mídias sociais? Mediunidade?

O que provavelmente aconteceu… Fábio levou o rojão para mandar em cima dos PMs, mas, na hora do vamos ver, encagaçou-se e passou a arma para o cara mais decidido que aparece nas imagens recebendo-a das mãos dele, provavelmente, o líder da sua célula “black bloc” (insistiu demais que foi sozinho à manifestação, um erro na montagem do discurso de “garoto-legal- pego-na-confusão”). Este mandou o rojão para qualquer lugar que tivesse bastante gente (e não só PMs), a fim de garantir que alguém realmente se machucasse. Quando viu que o vacilão Fábio foi flagrado, o tal líder ameaçou arrebentá-lo (ou coisa pior) se não assumisse a culpa. Aí, já completamente borrado, ele se apresentou e contou a história da carochinha lá de cima.

Na boa? Desde setembro, quem vai a essas manifestações é com intuito de machucar alguém – de preferência, mas não necessariamente, um PM. Elas viraram brigas de gangue, de torcida organizada, só que com “black blocs” de um lado e PMs de outro. Ninguém dos dois lados se dá realmente mal, ao contrário de gente como Santiago e aquele serralheiro paulista, o do fusquinha incendiado.

No Coleguinhas, uni-vos!
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A historietografia de Marco Antonio Villa: um negacionismo à brasileira

Desde que publicou sua biografia do ex-presidente João Goulart,[1] Marco Antonio Villa vem defendendo a tese de que aquele presidente também pretendia “um golpe” em 1964.[2] Sendo assim os eventos de 31 de março/2 de abril daquele ano seriam uma espécie de “contra-golpe preventivo” — uma tese, aliás, que nada mais é do que o argumento dos verdadeiros golpistas. Do mesmo modo, o celebrado jornalista Elio Gaspari, em seu livro A ditadura envergonhada defende a mesma “tese”.[3] A questão é: mas o quê os dois apresentam como prova do suposto “golpismo” de Jango? Simplesmente um memorando do Embaixador Lincoln Gordon, onde este relatou à Washington os supostos intentos de Jango em “conseguir poderes ditatoriais”, além de informações retiradas de um livro comprometido com a ditadura, A história das revoluções brasileiras, de Glauco Carneiro. [4] A crítica ao trabalho de Gaspari já foi feita de forma eficiente pelo historiador Mario Maestri e o pelo jornalista Mario Augusto Jacobskind,[5] e essa nossa contribuição que segue irá se ater a Villa, que acaba de lançar outro livro.

Ditadura à brasileira é o que podemos definir como negacionismo, termo usado contra aqueles que nos anos 1980 difundiram a ideia de que o “Holocausto foi um mito”, autores classificados por Pierre Vidal-Naquet de “assassinos da memória”. A tese básica de Ditadura à brasileira apareceu há alguns anos em um artigo na Folha, que vale contextualizar.

Em 2009, quando um editorial do jornal Folha de São Paulo resolveu amenizar a ditadura brasileira através do termo “ditabranda”,[6] Villa não demorou muito para comparecer nas páginas do mesmo periódico paulistano propondo uma leitura ainda mais amenizadora sobre aquele período: a ideia de que no Brasil só houve mesmo ditadura entre o AI-5 de dezembro de 1968, e 1979. Com a “certeza da impunidade”, escreveu:

“Não é possível chamar de ditadura o período 1964-1968 (até o AI-5), com toda a movimentação político-cultural. Muito menos os anos 1979-1985, com a aprovação da Lei de Anistia e as eleições para os governos estaduais em 1982.”[7]

Em suma, se fosse possível levar a sério essas palavras do autor, as milhares de pessoas nas ruas em 1968 na passeata dos 100 mil contra a Ditadura deveriam ser praticamente taxadas de loucas; tal como seriam insanos os milhões de cidadãos que ocuparam as praças e avenidas do Brasil na campanha pelas Diretas já em 1984.

Mas voltemos a 1964 e pensemos em Gregório Bezerra, líder camponês e comunista, já idoso e arrastado pelas ruas do Recife amarrado a um jipe no dia do golpe; pensemos nos presos políticos, nas lideranças políticas banidas do país e nas denúncias de tortura já nos primeiros dias da ditadura;[8] nos Atos Institucionais e na Constituição de 1967. Poderíamos ficar aqui arrolando uma lista interminável de aspectos daquele regime, que obviamente sofreu uma radicalização a partir do AI-5.

Em breves palavras o filósofo Paulo Arantes sintetizou o espírito dessa operação revisionista:

“Pelas novas lentes revisionistas, a dita cuja só teria sido deflagrada para valer em dezembro de 1968, com o Ato Institucional nº 5 (AI-5) — retardada, ao que parece, por motivo de “efervescência” cultural tolerada – e encerrada precocemente em agosto de 1979, graças à autoabsolvição dos implicados em toda a cadeia de comando da matança. O que vem por ai? Negacionismo à brasileira? Quem sabe alguma variante local do esquema tortuoso de Ernest Nolte, que desencadeou o debate dos historiadores alemães nos anos 1980 acerca dos campos da morte.[9] Por essa via, a paranoia exterminista da ditadura ainda será reinterpretada como o efeito do pânico preventivo disparado pela marcha apavorante de um Gulag vindo em nossa direção.”[10]

Como intelectual de bolso dos talibãs do neoliberalismo, presença constante  como comentarista político — não, certamente, por algum mérito como pesquisador —, da TV Cultura à Globo News, da VEJA à blogosfera direitista, que Villa cumpra esse papel não deve espantar nenhuma pessoa bem informada. Sua Ditadura à brasileira não é um livro que precise ser lido; assim como os intragáveis Guias politicamente incorretos “disso e daquilo” não precisam de qualquer consulta atenta para se saber o tipo de literatura temos pela frente: mera manipulação ideológica.

Mais produtivo do que esquadrinhar o festival de bobagens escritos dessa vez pelo autor será observar como manipulações dessa natureza não são incomuns. Ao contrário, sempre ganham repercussão na ocasião de efemérides, como a dos 50 anos do golpe de 1964, como foi no bicentenário da Revolução Francesa,[11] ou, pior, nos 80 anos da Revolução Russa (1997), quando, além do Livro negro do comunismo, teve lugar também o filme Anastásia, da Disney, cuja função precípua era reabilitar o czarismo. Um exemplo recente é bem ilustrativo.

A “historietografia” espanhola

Desde o início dos anos 2000 as livrarias do Estado Espanhol têm sido invadidas por um tipo de literatura muito similar. Capitaneada por um ex-maoísta, Pío Moa,[12] e muito apoio midiático, agora se diz que a Guerra Civil dos anos 1930 foi uma “guerra patriótica contra a invasão vermelha”.[13] Enquanto isso o jornalista César Vidal, em publicações que são best-sellers, defende a tese de que o massacre de Guernica, imortalizado na tela de Picasso, não teria passado de um “mito vermelho”.[14]

Outra peça de propaganda desse revisionismo espanhol está expresso no Diccionario Biográfico Español, feito sob os auspícios da Real Academia de la Historia de España. No  verbete dedicado  a Franco, por exemplo, deixado a cargo do historiador medievalista Luis Suarez — nada menos que o presidente da Fundación Francisco Franco —, o caudilho aparece como um político “moderado” e “prudente” que encabeçou um “regime autoritário”, não uma “ditadura”, muito menos uma “ditadura fascista”. É evidente que não há consenso na historiografia sobre o enquadramento do franquismo como uma experiência fascista, mas deve-se observar que o propósito desta absolvição não opera a partir de uma rígida elaboração conceitual, mas com flagrante propósito apologético.

Em resposta, En el combate por la historia. La república, la guerra civil, el franquismo (Contradiccionario),[15] editado por Ángel Viñas e que conta com 45 capítulos temáticos e 12 verbetes biográficos  escritos por especialistas de três gerações, como veteranos do porte de Paul Preston, Julia Casanova, Julio Aróstegui, Alberto Reig Tapia, além de Josep Fontana. Com um título que rememora o clássico livro Combats pour l’Histoire (1952) de Lucien Febvre (1878-1956), o propósito do Contradiccionario é o de combater o que os autores denominam de “historietografia”, e também apresentar o resultado da investigação histórica dos últimos 30 anos sobre a evolução da sociedade espanhola no período compreendido entre 1931 até 1975.

Em sua Introdução, Ángel Viñas confessa que relutou algumas vezes antes de aceitar a ideia de organizar uma obra de resposta a essa manipulação neo-franquista da história, mas que acabou convencido por entender o problema ético de fundo que significava a popularização desse tipo de literatura no grande público. Isso por que, ao contrário do que pensam muitos profissionais da Clio, o tipo de atividade que exercem tem profundas implicações nas disputas políticas contemporâneas.

Normalizar um passado ditatorial pode ser uma arma eficiente na construção do consenso em torno ao desmonte do Estado Social — que o Brasil nunca conheceu, diga-se de passagem — e a instituição de um Estado Policial. Não se trata de um debate sobre o passado, mas sobre o aqui e o agora, seja no Sul da Europa dos pacotes de austeridade, seja no país da Copa e dos Megaeventos.

Um negacionismo à brasileira

Definitivamente, Marco Antonio Villa está longe de ser um historiador que a comunidade acadêmica tem levado a sério. Embora esteja vinculado ao Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, é só mais um exemplar daqueles escribas da ordem apresentados na TV como “especialistas”, como o sociólogo Demétrio Magnoli e tantos outros ex-esquerdistas que, como Villa, estão sempre à disposição para vocalizar os interesses da oposição de direita ao governo do PT.

Alguns colegas, sérios pesquisadores por sinal, acreditam que infelizmente trabalhos como o de Villa vendem, e vendem muito. E é muito provável que tenham razão. Tal como literatura de aeroporto, é muito possível que Ditadura à brasileira encontre seu lugar entre os best-sellers na categoria dos livros de não-ficção, o que ironicamente só revela o lado decadente  de amplas parcelas semiletradas da classe média brasileira, mais afeitas a churrascarias do que  a bibliotecas.[16] Pois é propriamente o tipo de livro que interessa a gente que adora uma boa justificativa para não ler mais nada.


[1] VILLA, Marco Antonio. Jango, um perfil (1945-1964). São Paulo: Globo, 2004.

[2] Idem, p.9.

[3] GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.51.

[4] VILLA, op. cit., p.191. GASPARI, op. cit., p.79.

[5] Cf. MAESTRI, Mário & JAKOBSKIND, Mário Augusto. “A historiografia envergonhada” Revista História & Luta de Classes. Ano 1, nº 1, p. 125-131, 2005. Disponível em http://www.espacoacademico.com.br/024/24res_gaspari.htm

[6] Editorial do jornal Folha de São Paulo, de 17 de fevereiro de 2009, p.2.

[7] VILLA, M. A. “Ditadura à brasileira.” Folha de São Paulo, 5 de março de 2009, p.3.

[8] Tortura como uma prática estrutural do novo regime, já que num país de passado escravista como o Brasil sua origem é imemorial.

[9] Sobre o revisionismo de Nolte, remeto o leitor à nossa contribuição: MELO, Demian Bezerra de. “Revisão e revisionismo historiográfico: as disputas pelo passado e os embates políticos contemporâneos.” Marx e o Marxismo, Niterói, v.1, n.1, p.49-74 jul/dez 2013. Disponível em http://www.marxeomarxismo.uff.br/index.php/MM/article/view/11

[10] ARANTES, Paulo. “1964, o ano que não terminou.” In. TELES, Edson & SAFATLE, Vladimir (orgs.). O que resta da ditadura: a exceção brasileira. São Paulo: Boitempo, 2010, p.209.

[11] Para o qual existe o incontornável livro de HOBSBAWM, Eric. Ecos da Marselhesa: dois séculos revêem a Revolução Francesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

[12] Pío Moa pertenceu à organização de extrema-esquerda Grupo de Resistência Antifascista Primero de Octubre (GRAPO), fundada em 1975, o braço armado do maoísta Partido Comunista de España (reconstituído).

[13] MOA, Pío. Los mitos de la Guerra Civil. Madrid: La esfera de los libros, 2003.

[14] VIDAL, César. Paracuellos-Katyn. Un ensayo sobre el genocídio de la izquierda. Madrid: Libros libres, 2005.

[15] VIÑAS, Ángel (ed.). En el combate por la historia. La república, la guerra, el franquismo. Barcelona: Pasado & Presente, 2012.

[16] Classe média essa que adora recomendar aos jovens de periferia que  façam seus “rolezinhos” em bibliotecas.

Demian Melo
No Blog Convergência
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Preconceito, homofobia e machismo não existem. E todo pobre pode ser rico

O brasileiro não é racista.

Nem machista.

Muito menos homofóbico.

Ricos e pobres têm acesso iguais a direitos.

Só havia uma negra na minha sala de aula na graduação em jornalismo na USP.

O que faz sentido. Até porque, como todos sabemos, os negros representam 4% da população brasileira.

A proporção de negros na maioria dos cursos da PUC, onde leciono, também é menor que sua incidência na sociedade. Quando descontados quem conta com bolsa ou financiamento estatais então, nem se fala.

Mas isso não importa, porque não existe preconceito por cor de pele.

Ou como diria Laerte:


Ignorar um machucado não faz ele desaparecer.

Confiar no mito da democracia racial brasileira, construído para servir a propósitos, é tão risível quanto ser adulto e esperar um mamífero entregador de chocolate (a.k.a. Coelho) ou um idoso que possui um negócio de produção e entrefa de brinquedos (a.k.a. Noel).

Tratar pessoas que desfrutam de níveis de direitos diferentes como iguais é manter em circulação coisas que a gente ouve por aí:

- Tinha que ser preto mesmo!…

- Amor, fecha rápido o vidro que tá vindo um escurinho mal encarado.

- Olha, meu filho não é preconceituoso, não. Ele tem amigos negros.

- Eu adoro o Brasil porque é um país onde não existe racismo como nos Estados Unidos. Aqui, brancos e negros vivem em harmonia. Todos com as mesmas oportunidades e desfrutando dos mesmos direitos. O que? Se eu deixaria minha filha casar-se com um negro? Claro! Se ela conhecesse um, poderia sem sombra de dúvida.

- Vê se me entende que eu vou explicar uma vez só. A política de cotas é perigosa e ruim para os próprios negros, pois passarão a se sentir discriminados na sociedade – fato que não ocorre hoje. Além disso, com as cotas, estará ameaçado o princípio de que todos são iguais perante a lei, o que temos conseguido cumprir, apesar das adversidades.

Mas o brasileiro não é homofóbico.

Nem machista.

Muito menos racista.

E não é o berço que nasceram que influencia se você vai vencer na vida e, sim, o nível da sua dedicação pessoal. Afinal, todos são filhos de Deus.

Preconceito, de verdade, existe contra quem tem dinheiro e, através de sua boa vontade, faz este país crescer. Preconceito é o que sofre a elite deste torrão de terra ao Sul do Equador que passou a ter medo de mostrar a todos como é bom ser rico em um país pobre. Preconceito contra quem sempre tratou bem suas empregadas e recebe, agora, a ingratidão como resposta.

O blogueiro, “um japonês safado que não honra sua raça'', é que é um idiota.

Leonardo Sakamoto
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Censura, abuso judicial e policial em Minas Gerais


O mês de janeiro começou mal para a liberdade de imprensa em Minas. O "empastelamento" do Novo Jornal, site de notícias crítico ao governo de Minas Gerais, teve ação do Ministério Público, Justiça e execução pela Polícia Civil para se efetivar.

Independentemene do que se pense ou se avalie da qualidade desse portal de notícias, de propriedade do polêmico Marco Aurélio Carone, o que se denuncia é o uso do aparato público mineiro para que seja promovido um ato de truculência jamais visto em Minas, desde os tempos do Regime Militar.

Primeiro: a entrada do Ministério Público na trama revela o "vício de origem". O promotor de Justiça, André Pinho, é o signatário do pedido de prisão de Carone. Ora, Carone reportou no Novo Jornal, uma querela envolvendo o citado promotor e seu próprio irmão. A partir daí, Pinho resolveu usar de seus poderes de "parquet" para pedir a prisão do proprietário do Novo Jornal, sob a suspeita de que ele teria incendiado seu carro! Isso mesmo: o promotor, supostamente vítima de Carone, pede a prisão de Carone?

Segundo: o despacho da juíza Maria Isabel Flek pedindo sua prisão é uma peça rancorosa, que justifica o ato de detenção sob argumento de que ele, em liberdade, poderia pressionar testemunhas e destruir provas, atrapalhando as investigações sobre os supostos delitos a ele atribuídos! Ora, sabe-me muito bem que o Novo Jornal comprou brigas homéricas com setores da justiça mineira.

Terceiro: as autoridades policiais que efetivaram a prisão e a busca e apreensão de pertences em seu escritório e na residência de um histórico jornalista mineiro, Geraldo Elísio (há sete meses afastado do Novo Jornal), são também desafetos de Carone. No caso dos policiais, estes são subordinados à cúpula da Polícia Civil. Carone, inclusive, faz uma denúncia gravíssima: o delegado Nabak lhe propôs "delação premiada", em troca de que ele – Carone – acusasse os deputados Sávio Souza Cruz, Rogério Correia, Durval Ângelo e o ministro Fernando Pimentel, como mentores editoriais e financiadores do Novo Jornal.

Ou seja, essa ação atabalhoada será, obviamente declarada nula nas instâncias superiores da justiça, por todos os vícios de origem acima resumidos. Ela tem fins políticos claros: intimidação e produção artificial de provas contra desafetos de Aécio e Andrea Neves, Danilo e Rodrigo de Castro, o delegado Nabak, o promotor André Pinho, Azeredo, desembargadores, juízes, barões da mídia mineira, empresários etc.

Perguntas e respostas sobre o caso

Por que as autoridades e personalidades, supostamente constrangidas por Carone, não pediram direito de resposta às denúncias contra eles lançadas no portal? Por que, já que o processaram, não aguardam o rito se concluir? Afinal, a justiça é célere quando se trata dos interesses de proeminentes aliados de Aécio.

Por que não desmentem o rumoroso caso da Lista de Furnas, com dados mais consistentes, já que a mesma foi considerada autêntica pela Polícia Federal e reconhecimento em, pelo menos, duas ações judiciais? Por que não respondem sobre o caso da modelo assassinada, como suposta queima de arquivo do mensalão tucano? Por que o promotor que se ameaçado por ele não se declarou impedido de pedir sua prisão? Enfim, os desafetos dele, ao invés de percorrer o legítimo e ordinário rito judicial para incriminá-lo, adotam a espalhafatosa operação de censura e pressão.

E agora?

O Bloco Minas Sem Censura não entra no mérito da qualidade e editorial do Novo Jornal. Tudo que ali for escrito e documentado, independentemente do estilo, é material jornalístico, goste-se ou não de seu conteúdo e forma. E quem dele discordar pode e deve acionar os devidos canais judiciais regulares e não o uso da truculência estatal para calá-lo. O "Estado de exceção" que perdura em Minas Gerais é comprovado por esse gesto de autoridades e celebridades que gravitam em torno do clã Neves. Resistir a isso é um dever moral e uma necessidade republicana!

Do Minas Sem Censura
No Língua de Trapo
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Uso sem moderação


O repúdio do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio ao que considerou apoio de Rachel Sheherazade, do jornal "SBT Brasil", aos que agrediram e acorrentaram nu a um poste um adolescente, por eles acusado de roubos, expressa bem a confusão de conceitos e de condutas que se dissemina, e degrada, quase sem resistência.

A apresentadora e seu parceiro, Joseval Peixoto, invocaram, como base institucional do seu argumento, a "absoluta liberdade de expressão". "E nós não abrimos mão desse direito", o que motiva os votos de que continuem ou passem a defendê-lo. Mas o que foi posto em questão não é aquela liberdade nem o respectivo direito.

A liberdade de expressão foi plenamente exercida pela apresentadora em seu comentário à agressão e ao acorrentamento do adolescente. No caso e em infinitos outros, o problema está no modo como essa custosa liberdade é usada. O direito à liberdade de expressão não inclui o direito à liberdade de fazer com ela o que quer que seja. Se não fosse assim, a liberdade de expressão incluiria até a de pregar a extinção do regime que a mantém. E, para não haver sequer vapor de dúvida a respeito, a Constituição adotou como cláusula pétrea, ou seja, irremovível e imutável, a absoluta proibição de qualquer ato contrário ao pleno Estado de Direito.

A nota do sindicato apontou, no comentário de Sheherazade, violação dos direitos humanos, do Estatuto da Criança e do Adolescente e apologia à violência. Tréplica da apresentadora: "O que eu defendi foi o direito da população de se defender quando o Estado é omisso, quando a polícia não chega. Isso está na lei". Não há nenhuma lei que conceda à sociedade, nem mesmo à polícia e a juiz fora de função, o direito de fazer pretensa justiça por conta própria. O que, é óbvio, se dá quando uma pessoa é surrada, posta nua e acorrentada a um poste na rua.

O uso da liberdade de expressão degenera com amplitude e velocidade. A internet tem a desculpa do amadorismo, do desabafo diletante, se bem que muitos dos seus jornalistas profissionais já se tenham entregue aos modos dos outros.

Nos jornais e revistas, que seriam o repositório do jornalismo sério, a coisa está pior do que na internet, se consideradas, relativamente, a permissividade congênita da internet e os princípios éticos de que a imprensa sempre se pretendeu portadora. O esforço com a veracidade informativa cede à lassidão, seja pelo convívio com o espírito internet, e sua resultante queda de interesse pelo leitor, seja por desmedidas na quase inevitável politização. O comentarismo, por sua vez, avança no vale-tudo, não é difícil imaginar para onde.

Pudera. Quando um ministro do Supremo Tribunal Federal, sem sequer indício de indício, assaca suspeitas que já são meias acusações de lavagem de dinheiro até de advogados de alta reputação, por doarem para as multas penais de petistas, o que mais se passe como confusão de conceitos e degradação de princípios talvez seja de total irrelevância. Gilmar Mendes é bastante para mostrar e explicar tudo.

Janio de Freitas
No fAlha
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