2 de fev de 2014

Primeiro beijo gay em uma novela brasileira não foi na Globo

Atualização


A TV Globo não pode — ou não deve — continuar se jactando de ser a primeira emissora de TV na história do veículo no Brasil a exibir uma cena de beijo na boca entre dois personagens homossexuais – no caso dela, entre os atores Matheus Solano e Thiago Fragoso, no último capítulo da novela Amor à vida.

Mulheres protagonizam primeiro beijo Lésbico da TV brasileira.

Nada de selinho ou cena rápida. O primeiro beijo gay da telenovela brasileira durou longos 40 segundos — com direito a levantada de perna.

A cena foi levada ao ar na noite de quinta-feira, dia 12, na novela do SBT Amor e Revolução, que se passa no período da ditadura militar.

O beijo aconteceu exatamente uma semana depois que o Supremo Tribunal Federal — STF julgou o reconhecimento da união estável homoafetiva. A trama fala de ditadura no momento em que se discute a criação de uma comissão para investigar os crimes do período.

Confira a cena entre as lindas atrizes Luciana Vendramini e Giselle Tigre.


Atualização:

De acordo com informações de Roberto Silva RJ, o primeiro beijo gay foi na TV Manchete há mais de 20 anos:

Enquanto todos esperam pelo dito primeiro beijo gay — que nunca chega — nas sucessivas novelas das oito, a extinta TV Manchete já tomava a dianteira em 1990 na série "Mãe de Santo", em uma cena muito bonita e delicada.

Ou seja, o tão esperado primeiro beijo gay já foi dado e há 24 anos atrás no 11º episódio da série!

Na estória, Lúcio e Rafael são dois jovens universitários da Bahia que constroem uma amizade através de suas diferenças. A amizade, porém, acaba por evoluir para algo mais. Apesar da resistência de Rafael e do afastamento dos dois, eles se reencontram anos depois, quando Lúcio é um reconhecido artista e Rafael, um professor universário.


Pataxó diz tudo:

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Defesa de Perrela em Minas é feita por filho de presidente do TJ

Escritório de advogado recebeu ainda R$ 234 mil de verba de gabinete


BELO HORIZONTE - Processados no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG) por enriquecimento ilícito, o senador Zezé Perrella (PDT-MG) e seu filho, deputado estadual Gustavo Perrella (SDD-MG), contrataram o escritório do advogado Sérgio Santos Rodrigues, filho do presidente do tribunal, desembargador Joaquim Herculano Rodrigues, para defendê-los no caso. Sérgio Rodrigues também presta serviços para o gabinete do senador, em Brasília.

No caso do Tribunal de Justiça mineiro, a defesa pretende contestar efeitos de uma ação de improbidade movida pelo Ministério Público (MP) na qual pai e filho tiveram, na semana passada, bens bloqueados e as quebras de sigilo bancário e fiscal decretadas, em decisão liminar da juíza Rosimere das Graças do Couto, da 3ª Vara da Fazenda Pública e Autarquias de Belo Horizonte. Conforme O Globo revelou em novembro do ano passado, o MP sustenta que uma fazenda do senador recebeu verbas públicas do governo estadual para o fornecimento de insumos agrícolas. O bloqueio de bens alcança bens móveis e imóveis que perfazem o valor total de R$ 14,5 milhões.

R$ 234 mil para escritório

De julho de 2011 a dezembro de 2013, Zezé destinou um total R$ 234 mil da verba indenizatória do Senado para o escritório de advocacia, conforme levantamento feito no site da Casa na internet. O advogado afirmou que o recurso da verba é usado exclusivamente para cobrir despesas relativas a serviços voltados ao mandato parlamentar.

Ele nega com veemência ter recebido do Senado Federal para atuar em processos particulares da família Perrela. Em 2011, o senador destinou R$ 54 mil para o escritório de advocacia. No ano seguinte, R$ 108 mil. Em 2013, R$ 72 mil. O valor das parcelas é de exatos R$ 9 mil. Zezé paga, apresenta notas fiscais, e depois recebe o reembolso da Casa.

“No Senado é outro trabalho. Faço assessoria do gabinete, sem relação com os processos particulares da família. Presto consultoria para elaboração de projeto de lei, parecer sobre a constitucionalidade de projetos, acompanhamento do senador em audiências públicas e assuntos do seu interesse. Todas as outras contratações são feitas a parte e são pagas pela pessoa física do Gustavo e do Zezé”, argumentou.

Presidente diz que jamais atuou em ações do filho

Por meio de assessoria de imprensa, o presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Joaquim Herculano Rodrigues, declarou que nunca atuou e jamais irá atuar nos processos em que parentes participem como advogados.

O magistrado confirma que possui filhos que trabalham em grandes escritórios, mas que eles não advogavam em causas na área de atuação do presidente.

“Dessa forma, eles não aceitaram processos eleitorais ou criminais, quando desembargador Herculano era presidente do Tribunal Regional Eleitoral ou quando ele atuava na área criminal do Tribunal de Minas”, informou.

Ainda conforme a nota, o presidente do tribunal esclareceu que somente participa de julgamentos de processos administrativos ou em situação de empate — ainda assim, neste último caso, ele manifestaria sua condição de impedimento.

Por fim, o desembargador destaca que “seus filhos são profissionais preparados, com mestrado, tendo, inclusive, exercido o magistério, além de integrar o Conselho Federal da OAB, com obras publicadas e grande reconhecimento no meio jurídico”.

Sérgio Rodrigues ocupa ainda o cargo de assessor jurídico da presidência do Cruzeiro, time que Zezé comandou durante 16 anos seguidos e ainda exerce forte influência. Tanto que o atual presidente, Gilvan Tavares, pré-candidato a deputado estadual, só chegou ao poder com a ajuda do grupo político do senador.

Além do processo de bloqueio de bens, o advogado representa Gustavo em dois outros inquéritos de improbidade administrativa instaurados pelo MP. Um investiga se verbas da Assembleia de Minas foram usadas para abastecer o helicóptero em viagens particulares.

A outra investigação foi aberta para descobrir se o piloto do helicóptero da família, apreendido com 443 quilos de cocaína no Espírito Santo, no final do ano passado, era funcionário fantasma da Assembleia. A reboque do escândalo da cocaína, veio a tona a informação que o piloto tinha um cargo de confiança na Casa.

De acordo com Sérgio Rodrigues, no caso que envolve as investigações sobre os negócios da Limeira com a Epaming, o primeiro passo para derrubar a liminar e impedir a devassa fiscal nos negócios da família será protocolar um pedido de reconsideração à juíza, o que será feito na próxima segunda-feira. Caso a medida tenha efeito, o advogado adiantou que irá protocolar um agravo para análise de desembargadores do TJ-MG.

Ezequiel Fagundes
No O Globo
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Joaquim Barbosa deve satisfações pela foto com um foragido


Circula pela internet uma foto que é um embaraço — mais um numa longa série — para Joaquim Barbosa.

Nela, JB aparece confraternizando, nos Estados Unidos, com um homem que parece um a mais na multidão.

Mas não é.

Ao lado de JB está Antonio Mahfuz, que os amigos chamam de Toni ou Toninho. A foto foi postada por Mahfuz no seu Facebook, e nela ele sauda o “justiceiro” JB.

Não haveria problema nenhum não fosse Mahfuz a chamada chave de cadeia. Ele fugiu do Brasil, há quinze anos, e deixou atrás de si copiosos calotes. Uma contabilidade recente coloca Mahfuz como réu em 221 processos.

Foi exatamente para escapar da cadeia que ele se refugiou na Flórida, numa cidade chamada Hollywood, perto de Miami. Miami, sabemos, é onde JB comprou um apartamento em nome de uma empresa imaginária, para não pagar imposto.

Quando fugiu, a sentença de prisão de Mahfuz estava decretada, por conta do processo movido contra ele pelo seu principal credor, o banco Chase Manhattan.

Dono de uma rede de lojas nascida na região de Rio Preto, em São Paulo, e depois expandida para outras partes, Mahfuz deu em garantia para empréstimos bens.

Ele não honrou as dívidas, e o banco, quando o executou, simplesmente não encontrou os bens penhorados. Ele foi decretado pela justiça “depositário infiel”. Quando sua prisão foi pedida, ele foi para os Estados Unidos.

Deixou no Brasil as dívidas, e uma situação judicial extraordinariamente complicada.

Suas irmãs o estão processando sob a acusação de que ele falsificou a assinatura do pai numa procuração que lhe dava poderes para administrar os negócios do patriarca, Elias Mahfuz, um imigrante sírio que montou do nada um patrimônio respeitável no interior de São Paulo.

Um perito contratado por elas atestou que a assinatura no documento que investe Antonio Mahfuz não “partiu do punho” do pai. Um site da região conta com detalhes essa história.

Elas querem que todos os negócios realizados a partir da procuração sejam anulados. Seria a maneira de recuperaram a herança paterna que o irmão fez desaparecer.

É ao lado de Mahfuz, com esta folha corrida, que JB aparece na foto.

Tudo bem?

Não, evidentemente. Na hipótese mais benevolente, JB estava em algum lugar quando foi abordado por alguém que o reconheceu, e para quem ele é um herói.

Na pior, ele conhece Mahfuz, o que criaria um conflito ético profundo.

Num mundo menos imperfeito juízes não teriam amigos, porque isso pode afetar suas sentenças, mas vivemos num país em que Merval Pereira se abraça sem cerimônia com magistrados como Ayres Britto e Gilmar Mendes, com todas as partes aparentemente sem noção da gravidade dos abraços.

Seja qual for a origem da confraternização de Mahfuz e Joaquim Barbosa, está claro que JB deve uma satisfação aos brasileiros.

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O Facebook de Mahfuz

Paulo Nogueira
No DCM
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Advogada cega a Barbosa: será que ele é cego?


Em vídeo, a advogada Deborah Prates atacou a "desumanidade" de Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, que lhe negou o direito de peticionar por escrito; "ele cortou o meu trabalho", afirmou; advogada também criticou a suposta cegueira do ministro e afirmou que ele "só tem olhos para o mensalão"; mais adiante, bateu ainda mais duro: "se um ministro descumpre a lei para as pessoas cegas, vai fazer de forma igual para vocês que estão me assistindo"; liminar do ministro Ricardo Lewandowski garantiu a ela o direito de voltar a peticionar por escrito.

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O Bolsa Família na eleição

Tão certo como 2 e 2 são 4, o Bolsa Família voltará a ser assunto na eleição presidencial de 2014. Desde a reeleição de Lula, há oito anos, o programa é personagem do debate eleitoral. Agora, seu papel talvez seja fundamental.

Os dois principais candidatos oposicionistas já deixaram claro que não permitirão que Dilma Rousseff seja sua única “dona”. Especialmente Aécio Neves, que sabe quanto o cidadão comum duvida das reais intenções do PSDB de mantê-lo.

Como mostram as pesquisas, o PSDB perdeu a guerra pela paternidade do programa. Na verdade, nunca chegou a ameaçar a primazia de Lula como seu criador, por mais que tenha tentado se apresentar como responsável por ele.

Ninguém comprou a tese de que “tudo começou” em Campinas, onde a prefeitura tucana, em 1994, lançou um modesto programa local de complementação de renda. Se o argumento fosse bom, não seria difícil dizer que foi Alziro Zarur, com seu “sopão”, o verdadeiro início.

Para o PSDB, o problema é que o Bolsa Família não tem a “cara” tucana, não se parece com aquilo que o eleitor associa a suas ideias e políticos. Por isso, toda vez que um candidato peessedebista o defende, soa artificial — para não dizer falso. Daí a ênfase que Aécio precisa empregar para afirmar que não apenas o continuaria, mas o “melhoraria”, sem que nunca fique muito claro em quê.

É o mesmo que diz Eduardo Campos. Sem padecer do problema tucano de incompatibilidade, não precisa desperdiçar tempo na discussão genética. Não sendo e não posando de “criador” do Bolsa Família, promete “apenas” que vai “aprimorá-lo”.

Enquanto, com mais ou menos naturalidade, os candidatos da oposição fazem o que podem para ficar perto do programa, o PT volta a disputar uma eleição sem resolver a contraditória relação que tem com ele. Pois, se é fato que o Bolsa Família possui a “cara” de Lula e do partido, nem sempre o discurso das candidaturas petistas é adequadamente afirmativo.

Salvo em seus primórdios, quando não tinha adversários, sua defesa nunca foi firme. Foi prioridade nos governos Lula e Dilma e recebeu tratamento orçamentário compatível à sua importância (o que permitiu que crescesse e se consolidasse), mas o discurso sobre o Bolsa Família permaneceu tímido. Como se tivesse que sempre se justificar e se explicar perante seus muitos inimigos na sociedade.

No fundo, se é verdade que a oposição não tem a paternidade do programa, o PT não venceu a luta ideológica a seu respeito.

O paradoxo do papel eleitoral do Bolsa Família está em que, embora os candidatos oposicionistas façam o possível para mostrar-se seus defensores, os eleitores de oposição o repudiam. A rigor, a maioria o detesta.

A partir de 2006, quando a oposição na sociedade e na mídia culpou o Bolsa Família pela reeleição de Lula, ele tornou-se vilão. Em 2010, a vitória de Dilma foi nova confirmação de seu poder “deletério”.

“Esperteza do Lula”, “compra do voto dos miseráveis”, “fonte de indolência”, “incentivo à procriação”, são apenas exemplos do que se ouve sobre o Bolsa Família em pesquisas qualitativas com antipetistas. É o que dizem os intelectuais da “grande imprensa”.

O grave é a ausência de um contradiscurso, que apresente o programa pelo ângulo da solidariedade e da cidadania. Que enfrente estereótipos e preconceitos. Que não fique preso às noções de “condicionalidade”, “contraprestação” e “porta de saída”. Que não aja como se o correto fosse não haver Bolsa Família.

O programa chega a esta eleição vulnerável, sem o vigor da juventude. Mais que isso, com as mudanças sociais e econômicas dos últimos anos, o Bolsa Família tornou-se obsoleto para muitos cidadãos.

Isso é especialmente verdade na tênue e instável fronteira que separa os beneficiários do programa dos segmentos de menor renda das “classes emergentes” urbanas. Às vezes, vizinhos de rua, integrantes da mesma família, sentem que “dão duro” e arcam com pesados impostos, enquanto outros apenas “se escoram”. Uns pagam, outros recebem benefícios.

Sem um discurso positivo e enfático em sua defesa, o Bolsa Família pode deixar de ser um patrimônio para Dilma. Pode tornar-se um problema: um símbolo de política errada.

Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi.
No CartaCapital
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O chefe da nova direita brasileira

Ele

A direita brasileira está sem farol há muitos anos. Mais precisamente, desde a morte de Roberto Campos, em 2001.

Não que o Brasil tenha em algum momento produzido expoentes mundiais do pensamento conservador, gente do nível de Hayek e Mises, ou mesmo de Milton Friedman.

Mas, ainda que longe de Nobeis ou coisa do gênero, o Brasil teve no século passado representantes ilustres da direita: Eugenio Gudin, Octávio Bulhões, Roberto Campos e Mario Henrique Simonsen.

Não por coincidência, todos eles ocuparam posições de destaque no comando econômico dos governos militares depois do golpe de 1964. Fizeram o que se esperava que fizessem: contribuíram poderosamente para tornar o Brasil um campeão mundial da desigualdade social. Administraram economias de ricos, por ricos e para ricos.

Terminada a ditadura, os economistas da direita perderam o poder. Mas continuaram a divulgar suas ideias na mídia, sempre generosa em conceder espaço a eles.

Com a morte do último dos conservadores notáveis, Roberto Campos, o pauperismo tomou de assalto o pensamento de direita. Não houve reposição no mesmo nível de antes.

Foi neste vazio que cresceu Olavo de Carvalho. Ele não tem o gabarito intelectual Gudin ou Simonsen, mas, talvez por isso mesmo, é mais fácil de ler. Quem não é afeito a leituras tem a alternativa de ouvi-lo em vídeos postados no YouTube.

Em consequência de tudo isso, ele acabou tendo apelo sobre pessoas de capacidade limitada de absorção de ideias mais complexas.

A direita se vulgarizou com ele. Com Olavo de Carvalho tomou vulto no Brasil o que podemos definir como direita para dummies.

Olavo de Carvalho é, hoje, uma espécie de chefe de seita para a direita brasileira, incluídos aí analfabetos políticos que costumam ziguezaguear ao sabor dos ventos e dos modismos.

Uma peça importante no marketing de Olavo de Carvalho é a autocaracterização como “filósofo”, título que a rigor qualquer pessoa pode reivindicar desde que faça pose de pensador com alguma regularidade.

“Filósofo” lhe confere um ar doutoral que tem mesmeriza seus discípulos usuais. Morar nos Estados Unidos, ainda que numa cidade remota, é outro fator que ajuda na imagem dele perante sua manada.

(Ele se apresenta como correspondente nos Estados Unidos do DCI, jornal de Guilherme Afif, integrante do ministério de Dilma. É mais uma mostra da confusão ideológica do governo e dos rumos estranhos da chamada governabilidade.)

O poder de Olavo de Carvalho na nova direita brasileira se manifesta nos vários seguidores — ou ex-seguidores porque o chefe é encrenqueiro e dado a rupturas – presentes na mídia.

Três deles estão na Veja: Rodrigo Constantino, Felipe Moura Brasil e Lobão. Este último compilou frases do guru e as transformou num livro lançado recentemente.

O número expressivo de aprendizes de Olavo de Carvalho na Veja faz supor que sua pregação esteja chegando à nova geração da família Civita, os irmãos Gianca e Titi. Editorialmente, a impressão que se tem é que saiu Roberto Civita e entrou Olavo de Carvalho na Veja.

Outro seguidor conspícuo dele na mídia é a comentarista de TV Rachel Scherazade, do SBT. Há poucos dias, em sua página no Facebook, Olavo de Carvalho conclamou sua tropa a “gostar” de um vídeo no YouTube no qual Rachel dava uma cacetada nos rolezinhos.

Zeloso, ele contabilizou depois o número de aprovações registradas no vídeo de Rachel, e comemorou com os fieis.

Há na pregação de OC um fundamentalismo que remete aos pastores evangélicos. Também isso atrai um tipo de seguidor que quer certezas definitivas sem mergulhar nas asperezas das dúvidas existenciais.

Num artigo, Euclides da Cunha definiu assim o marechal Floriano Peixoto: cresceu não porque fosse grande, mas porque acontecera uma depressão a seu redor. O mesmo vale para Olavo de Carvalho. No deserto que caracteriza o pensamento de direita no Brasil destes dias, ele acabou por se tornar a principal referência no conservadorismo.

Keynes escreveu que todo economista é filho de algum economista morto. No Brasil de hoje, todo reacionário é filho de um reacionário vivo: Olavo de Carvalho.

Paulo Nogueira
No DCM
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Com Dilma, renda da população cresce 3% ao ano e supera a era Lula

Enquanto a maior parte dos principais indicadores econômicos tem se deteriorado nos três primeiros anos do governo Dilma Rousseff, o mercado de trabalho permanece uma exceção, de acordo com dados de diversas fontes, estatais e privadas.

A renda da população teve um crescimento real (acima da inflação) acumulado de 2,6% em 2011, 3,2% em 2012 e outros 3,2% no ano passado, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Na média anual, portanto, o ritmo de crescimento da renda no governo Dilma é de 3%, o que dá mais que o dobro do registrado durante o período do seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva (1,3% ao ano). Isso aconteceu porque, no primeiro ano do ex-presidente, a renda caiu mais de 10%, puxando para baixo a média dos seus oito anos.



Não é possível comparar com o governo Fernando Henrique Cardoso porque o IBGE mudou a metodologia da pesquisa em 2002.

A série histórica do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) em São Paulo, no entanto, é mais longa. Ela registra que, na média anual, a renda no governo Dilma cresceu mais do que nos dois mandatos de Lula e do que no segundo de Fernando Henrique Cardoso. Por outro lado, avançou em ritmo mais lento do que na primeira gestão de FHC e no período Itamar Franco.

renda media variacao por presidente dieese

Sempre que cito algum dado sobre o crescimento da renda, boa parte dos leitores diz que seu próprio salário não subiu e que, portanto, os dados estão errados ou manipulados.

Isso acontece provavelmente porque tais leitores devem ser de classe média. O aumento real da renda praticamente só ocorreu na classe baixa (e provavelmente na altíssima, que tem tão pouca gente e por isso não aparece nas pesquisas). Um estudo do próprio IBGE, por exemplo, mostrou que o rendimento da população com nível superior subiu só 0,7% de 2003 a 2012, enquanto o dos que têm até oito anos de estudo aumentou 37%.

Uma pesquisa da consultoria Mercer, citada neste blog, constatou que, nas grandes empresas privadas do país, somente os profissionais de nível operacional (o mais baixo da hierarquia) tiveram aumento salarial acima da inflação em 2013.

Para quem não acredita em pesquisas, nem estatais nem privadas, sugiro fazer o seu próprio levantamento. Tente se lembrar de quanto uma faxineira, um pedreiro ou um pintor cobrava pelo dia há três anos e veja quanto eles cobram hoje. Pergunte ao síndico do seu prédio qual foi o aumento dos porteiros. Caso ande de ônibus, pergunte ao cobrador qual foi o dissídio da categoria.

Desemprego

A taxa de desemprego é outro indicador de que o mercado de trabalho continua aquecido. Ela ficou em 5,4% em 2013, segundo o IBGE, sendo o menor valor desde o início da série histórica da Pesquisa Mensal de Emprego, em 2002.

O Dieese, que usa outra metodologia, apontou que o desemprego foi de 10,4% em São Paulo no ano passado, a menor desde 1990.

Uma observação a ser feita é que, nos últimos meses, o desemprego tem caído não por causa o aumento do emprego, mas porque o número de pessoas que procuram trabalho está diminuindo.

Segundo o IBGE, em março de 2002, 76% da população que estava fora do mercado dizia não ter interesse em trabalhar. Hoje, 91% afirmam não querer emprego. Não se trata necessariamente de preguiça. Entre essas pessoas, há aposentados e menores de 18 anos, além de donas de casa.

Uma hipótese é de que o envelhecimento da população e o desejo de cada vez maior dos jovens de estender os estudos podem ter contribuído para o aumento da população que não deseja trabalhar. De qualquer maneira, se elas não querem um emprego, não podem ser chamadas de desempregadas.

Quanto menos pessoas estão disponíveis para o mercado, maior a chance de os trabalhadores conseguirem reajustes, pois a disputa por cada vaga fica menor. A população chamada de “nem-nem”, que não estuda nem trabalha, contribui, indiretamente, para o aumento da renda dos demais.

Nos próximos meses poderemos ter uma noção melhor do mercado de trabalho, quando saírem os próximos resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (chamada de Pnad Contínua), bem mais ampla que a atual Pesquisa de Emprego. Ela cobre mais de 3.000 cidades do país, enquanto a atual abrange apenas seis regiões metropolitanas.

Perspectiva

O bom momento do mercado de trabalho é ameaçado pelo menos por dois fatores. Primeiro, a alta do dólar torna o preço das mercadorias importadas mais caro. Dessa forma, os assalariados tendem a perder poder de compra.

Em segundo lugar, por causa do aumento da inflação, o Banco Central tem elevado sua taxa básica de juros. Com isso, as empresas ficam menos estimuladas a investir na produção (uma vez que podem ganhar mais com aplicações financeiras) e dessa forma a geração de empregos fica comprometida.

O aumento de juros também afeta o consumo. O crediário fica mais caro e, se o as empresas vendem menos, tendem a contratar menos ou até demitir trabalhadores.

O lado positivo é que o real mais fraco tende a ajudar a indústria nacional na competição com a estrangeira – mesmo que as máquinas importadas fiquem mais caras, os salários ficam mais baixos quando medidos em dólares. A questão agora é se o ganho das empresas com o câmbio vai ser suficiente para traze investimentos e compensar as incertezas do mercado e o custo gerado pelo aumento dos juros.

* Atualização:

Notei que o IBGE destacou no texto de apresentação da Pesquisa Mensal de Emprego um número diferente do que eu usei. A instituição diz que a renda média no ano passado foi 1,8% maior do que em 2012. Ela somou a renda média de todos os meses de 2013 e dividiu por 12. Fez o mesmo com 2012. Depois, dividiu o resultado de 2013 pelo de 2012.

Já eu optei por um caminho diferente. Calculei quanto a renda aumentou de dezembro de 2012 para janeiro de 2013, de janeiro para fevereiro etc, até chegar a dezembro de 2013. O resultado foi uma expansão de 3,2% acumulada no ano passado.

De qualquer modo, as duas formas de cálculo levam à conclusão destacada nesta postagem, de que o aumento médio anual da renda nos três primeiros anos do governo Dilma (de 3% ao ano no meu cálculo e 2,9% no do IBGE) foi superior ao registrado no segundo (3,1% no meu cálculo e 3,4% no do IBGE) e no primeiro mandato (-0,5% e -2,1%) de Lula.

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À beira do abismo

Até hoje penso naquela viagem como uma experiência surreal. Talvez, com o tempo, eu tenha exagerado seus perigos e seus mistérios, mas na minha memória ela ficou como uma passagem estreita entre tragédia e encanto, que tanto poderia terminar em reminiscências indolores como esta, muitos anos depois, quanto no fundo de um abismo.

Tínhamos alugado um carro em Los Angeles para irmos a San Francisco pela estrada da costa. Depois de passar pela praia de Malibu, rumo ao Norte, a estrada começa a subir e em pouco tempo nos vimos numa via de apenas duas pistas, contornando as montanhas, com uma magnifica vista do pôr do sol no Pacifico à nossa esquerda. Até aí, tudo ótimo. Curvas sinuosas atrás de curvas sinuosas, mas nada que um motorista experiente, de vida limpa e confiante no seu braço, não pudesse enfrentar. Mas com a noite veio a cerração, e dentro da cerração a chuva. E eu passei a não ver nada, a só enxergar a curva sinuosa seguinte quando já estava em cima dela, obrigado a frear, com o risco de levar uma bangornada (termo de origem obscura, não encontrado em dicionários, o mesmo que chapuletada, só mais forte) de algum carro que viesse de trás, às cegas como eu, e ser atirado para a pista da esquerda, onde um caminhão gigantesco nos pegaria e nos lançaria no Pacifico, em chamas. Pensei: só falta o freio falhar para isto se transformar num filme de suspense. Um filme que eu decididamente não queria ver.

Vislumbrei, no meio da bruma letal, o anúncio de um motel. Salvação! Entramos na recepção do motel — que não era a recepção de um motel, ou pelo menos de um motel convencional. Um enorme salão atapetado e mal iluminado. Um clima fantasmagórico. Parecia que tínhamos interrompido um coquetel. Pessoas jovens e elegantes, segurando drinques coloridos, nos examinaram com divertida curiosidade. O que era aquilo? Cheguei a pensar que o acidente tinha acontecido, que o caminhão tinha mesmo nos jogado no abismo, e que estávamos no céu, ou no mínimo numa antessala. Uma moça nos sorria de trás de uma mesa que, deduzi, era onde deveríamos nos registrar. Recuamos, cautelosamente, e saímos pela porta com alguma pressa. O risco da estrada parecia menor comparado ao que nos esperava naquele saguão lúgubre — que até hoje eu não imagino o que seria.

A poucos quilômetros dali encontramos outro motel, simples e nada ameaçador. Dormimos bem e na manhã seguinte retomamos a estrada, agora sem cerração ou chuva. O Pacífico continuava no lugar, à nossa frente estavam Big Sur, Carmel, Monterrey e a bela San Francisco. A volta de carro para Los Angeles foi pelo interior, longe dos abismos, por uma estrada reconfortadoramente reta.

Luís Fernando Veríssimo
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O desemprego caiu, mas subiu

O leitor olhe bem a imagem do gráfico acima. Existe alguma dúvida de que em 2013 o percentual do desemprego no Brasil tenha caído para o seu nível mais baixo? O leitor verá que essa pergunta não é assim tão estúpida. Podemos até acreditar que não há dúvida de que 12,4 é maior que 5,4. Ou que, no gráfico, o número 12,4 corresponda a 2003 na linha horizontal, assim como 5,4 a 2013. Para esse óbvio, haveria duvida? Há, porque na luta política os números sempre dizem outra coisa, até mesmo contra as provas.    

Quando toda a mídia divulgou a notícia “IBGE: Desemprego é o menor da história” e continuou com a informação de que, em mais um ano de recorde de desemprego, a Pesquisa Mensal do Emprego do IBGE havia registrado em 2013 a menor taxa de desocupação do Brasil, houve, como é natural, a repercussão mais negativa nos focos de oposição ao governo Dilma. Mas como, o IBGE teria enlouquecido? E logo, logo, começaram a discutir os números. Acreditem, passaram a tentar uma penetração na alma da porcentagem. Aquela, que imaginamos existir na loucura que não aceita os fatos. Mas como alma dos números?   

De imediato, reabilitaram a iluminação de um consultor da revista Exame, que em um inspirado dia de 2010 declarara que o Bolsa Família mascarava os números do desemprego no Brasil. "Para não perder a verba recebida, muitos preferem continuar sem trabalho. Isto os exclui da População Economicamente Ativa, e também dos números no cálculo do desemprego". Essas coisas uma pessoa tem que ler com os próprios olhos, esfregá-los, para acreditar no que viu. O que têm a ver Bolsa Família e População Economicamente Ativa? Pouco importa, à margem do bom senso e da conhecimento, que buscassem uma entrevista antes da pesquisa em 2014. Importam mais, no sentido de dar importância e de trazer de fora, importam mais a cegueira  e a miopia, como nestes comentários de bárbaros na web:

“E os bolsa esmola, os que desistiram de procurar trabalho? Com quase 40% vivendo de favores do Estado com aposentadoria vitalícia, para que procurar emprego?

Porque os quase 14 milhões de Bolsa família não entram no índice? Teoricamente estão sem renda e sem emprego? ou são 14 milhões de fantasmas?”

A miopia ideológica estabelece relações entre fenômenos que não se relacionam, na procura da alma dos números. Ela não vê a multidão de jovens com idade de trabalhar, mas que não procuram de imediato um emprego, como um fenômeno social, recente. Em vez de investigar uma razão fora da alma dos números,  preferem escrever, diria  melhor, berrar, velhos preconceitos.  

Assim, relacionam Bolsa Família e queda no desemprego. Como seria bom que pesquisassem antes e vissem as informações disponíveis no site da Caixa Econômica Federal. Lá se vê que somente as famílias em situação de extrema pobreza podem acumular o benefício Básico e o Variável, até o máximo de R$ 230,00 por mês. Isso é o suficiente para alguém viver e passar a curtir uma doce malandragem? Ou para usar o último assalto à razão, passar a fugir do número de desempregados no IBGE?

Parece que teremos sempre de refutar a mentira, a farsa do garçom de Jarbas Vasconcelos. Vocês lembram da lendária personagem (me refiro ao garçom). Segundo o senador Jarbas, numa entrevista à revista Veja, o empregado que lhe servia em um  restaurante largara o emprego para viver no bem-bom do Bolsa Família. Sobre isso publiquei reportagem na Carta Capital e neste espaço.

Apesar dos malandros do Bolsa Família, do garçom fantasma de Jarbas Vasconcelos e da alma dos números, atingimos em 2013 o menor nivel de desemprego de todos os tempos. Para essa queda, informou o jornalismo da Veja, aquele cheio de conjunções adversativas:

Contudo, vale ressaltar que este resultado não engloba a nova metodologia que o instituto anunciou há duas semanas. Na Pesquisa Mensal do Emprego (PME), a amostra de dados abrange apenas seis regiões metropolitanas - Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Na nova, serão usados detalhes da nova Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), chamada pelos pesquisadores de "PNAD Contínua".

Ou seja, agora vão comparar pesquisas com índices e métodos diferentes. As feitas antes com as novas, que chegarão a resultados discordantes. Pode?  Pode, daí que também podemos concluir: o Brasil é o maior país da América Latina, mas, porém, contudo, todavia tem uma oposição que desrespeita até os números”. 

Urariano Mota
No DR
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Oposição: procura-se


A crítica competente é fundamental para o desempenho de qualquer governo. Quanto a isso, estamos à míngua. A oposição brasileira é rústica como oposição. 

Se depender da oposição o País não vai andar. A infantilidade de seus protestos explica o agônico socorro que está pedindo à descabelada desordem urbana. De seu próprio ventre, nada. Criticar a autoridade fiscal, por exemplo, por ter usado tributos e dotações dos leilões para fechar as contas equivale a desancar o quitandeiro porque equilibra o livro-caixa recebendo o que lhe devem. É curial que o governo troca tributação por serviços, administração e projetos. Lá uma vez ou outra parte dos impostos se transforma em subsídios diretos e indiretos ao consumo e às despesas dos grupos vulneráveis. Chama-se redistribuição de renda e vem ocorrendo há pouco mais de dez anos no Brasil. É isso que provoca espuma na garganta oposicionista e a faz perder o senso de ridículo.
Nenhuma oposição que se preze tenta condenar um governo por fazer uma parada técnica voltando de longa viagem. Aliás, nem mesmo se fosse para simples recuperação física, independente de considerações meteorológicas ou de segurança de vôo. Pois este foi um dos brados de guerra, sem eco, da semana oposicionista.  

Desdobrar desembolsos no tempo é uma espécie de versão macroeconômica da compra a crédito, o uso calculado da renda e do gasto futuros. A dívida das pessoas deve ser compatível com a proporção comprometida da renda esperada face ao dispêndio incompressível que virá a ter. Trata-se de uma questão de ser ou não leviano em relação à própria economia. E é preciso muita leviandade para que eventuais desmandos, ou desvairada presunção, conduzam à falência. Desde a redemocratização de 1945 foram necessárias décadas dos mais variados governos, inclusive ditatoriais, até que os livrescos sábios do PSDB conseguissem a proeza de quebrar a economia brasileira três vezes em não mais do que oito anos.

Quando as mesmas vozes do passado esgoelam-se em advertências sobre a dívida pública, bruta ou como proporção do produto interno, com que diabos de autoridade pensam estar falando? Não possuem nenhuma imaginação ou criatividade e o bolor das receitas sugeridas tem um só resultado, se aviadas: desemprego. Existe uma crônica morbidez no pensamento conservador que o faz recuar diante da saúde e saudar os sintomas patológicos de vida social. Talvez por isso aplauda a proliferação dos micróbios (pequenos grupos de desordeiros, em geral), sem se dar conta de que estes são a hiperbólica evidência do fracasso oposicionista, ele mesmo.

Mas a pantomima máxima revela-se na busca de recordes. Os furos pelos quais compete a grande imprensa foram transferidos das páginas de esportes e da previsão do tempo para as manchetes, mas com significados distintos.

Excepcionais desempenhos em natação, maratona e salto a distância refletem o aprimoramento físico da espécie, o apuro no treino e a perseverança nos treinos. Já os indicadores de temperatura nos explicam o bem estar ou seu contrário em condições de exacerbado calor ou frio. Por isso comparam números de hoje com os de ontem ou de há dez anos conforme o caso. Mas as manchetes das primeiras páginas são pândegas. Títulos chamativos advertem que aumentou a ameaça inflacionária enquanto o texto explica que houve uma variação para mais no quarto dígito depois da vírgula, algo que não acontecia há dezoito, vinte e três ou não sei lá quantas semanas. Ou seja, o furo jornalístico não quer dizer absolutamente nada.

Pelo andar da carruagem é de se esperar escândalos informando que o desemprego na tarde de quarta feira passada foi o maior já registrado em tardes de quartas-feiras de anos bissextos. Ao anunciá-los os apresentadores de noticiários televisivos farão cara de fralda de bebê, suja.

Enquanto o País muda a pele, subverte rotinas, enfrenta e experimenta uma realidade inédita — a liquidação da miséria extrema — e veloz reestruturação de seus contingentes sociais, o reduto oposicionista balbucia indignações esfarrapadas. E a crítica competente é fundamental para o desempenho de qualquer governo. Quanto a isso, estamos à míngua. A oposição brasileira é rústica como oposição, não está preparada para governar. 

Wanderley Guilherme dos Santos
No Carta Maior
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