18 de jan de 2014

Como a internet está revolucionando a transmissão de esporte ao vivo

Victoria Azarenka

Posso ver Nadal numa quadra. Ou Sharapova em outra. Ou Serena William. Ou Federer.

Tudo isso no site do Aberto do Austrália, o primeiro grande torneio de tênis do ano.

A internet, como em tantas coisas, está revolucionando a maneira como você vê tênis.

Quer perde com isso é a tevê, que monopolizou por décadas a transmissão de grandes eventos esportivos ao vivo.

A única coisa que o espectador tem que enfrentar antes de ver a partida, pelo site do Aberto da Austrália, é um anúncio do Rolex.

Não há como fugir dele, ao contrário dos anúncios do YouTube, mas é um preço irrisório diante das vantagens que você tem.

Você pode ver os jogos onde estiver. Basta haver conexão. No clube, na padaria, numa praça. E escolhe os jogos que desejar. No Brasil, as transmissões do torneio estão sendo feitas pela ESPN. É um jogo, ou no máximo dois, caso exista algum interesse especial. (Na sexta-feira, fora a partida principal, a ESPN num segundo canal passou o jogo de duplas em que havia um brasileiro.)

Como a tevê pode competir?

Não dá.

Cada vez mais grandes eventos tendem a separar em dois nos contratos de transmissão. Os organizadores negociam com emissoras o direito de passarem pela tevê, e num site deles mesmos buscam anunciantes para que os internautas possam acompanhar por lá mesmo.

Num determinado momento, é provável que a receita publicitária conseguida na internet seja maior – com o crescimento exponencial dos internautas no mundo.

Uma pesquisa recente mostrou que 43% dos americanos já possuem tablets. Pela portabilidade, eles são a melhor escolha para você ver esporte ao vivo pela internet, onde esteja.

É a minha, para ficar num caso.

A internet é uma mídia disruptora, ao contrário das demais. As outras mídias que surgiram, no correr dos tempos, acabavam se acomodando com as que já existiam.

A tevê não acabou com o rádio, por exemplo, e nem com o cinema. As revistas de informação acabaram convivendo com os jornais.

Mas a internet chega, observa e mata.

Tornou obsoletos jornais e revistas. É difícil encontrar hoje quem, fora por questões de hábito de muitos anos, ainda se informe pelas páginas de um jornal ou de uma revista, e não pela internet.

Repare, nos espaços públicos, a idade média de quem está com um jornal ou uma revista nas mãos.

O mesmo agora começa a se dar com as transmissões esportivas de televisão, o que vai ser uma catástrofe para as emissoras, dadas as cifras que o negócio gera.

Mas não há como fugir disso. Não é escolha, é destino.

E agora desculpe que vou ver Nadal no tablete ao vivo. Ou Sharapova. Ou Federer. Ou Serena.

A quadra que quiser, onde quiser, como quiser.

Mais uma vez: como competir?

Paulo Nogueira
No DCM
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O panorama visto de janeiro

Este mês sempre apontou o favorito no ano das presidenciais. Na perspectiva atual, Dilma Rousseff já ganhou

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Seguindo as tendências das outras eleições,
Dilma ganhará este ano
Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr
Desde o fim da ditadura, em todas as eleições que fizemos, as pesquisas disponíveis em janeiro conseguiram antecipar o que as urnas mostraram.

Em três, os favoritos no início do ano eleitoral terminaram vencendo. Em janeiro de 1998, Fernando Henrique Cardoso liderava e nenhum adversário apresentava fôlego para derrotá-lo. Lula chegou a quase empatar nas pesquisas de junho, mas a vantagem do tucano prevaleceu.

Nas duas oportunidades em que Lula teve sucesso, a mesma coisa: em janeiro de 2002, obtinha índices parecidos à votação que recebeu no primeiro turno. José Serra, Anthony Garotinho e Ciro Gomes, cada um de sua vez, cresceram, mas nenhum se firmou. Quatro anos mais tarde, algo semelhante. De janeiro de 2006 para a frente, o petista nunca perdeu a dianteira.

Em 1989, 1994 e 2010 o líder de janeiro não venceu. Mas, adequadamente interpretadas, as pesquisas identificaram o que acabou acontecendo. A eleição mais difícil de prever foi a primeira. Ninguém apostava na vitória de Fernando Collor.

Era, no entanto, uma hipótese admissível. O desejo de renovação do eleitorado, sua disposição para o risco, a rejeição ao governo José Sarney, tudo se conjugava para torná-la possível. Feitas em maio de 1988 e janeiro de 1989, pesquisas da Vox Populi indicavam que quase 40% do eleitorado queria votar em “um candidato novo, desvinculado dos partidos tradicionais”. Collor surgiu como oferta para aquela procura.

Em 1994, o fraco desempenho de Fernando Henrique nas pesquisas de janeiro só enganava quem desconhecia a formidável armação em curso. Nada menos que um plano anti-inflacionário havia sido sincronizado com o calendário eleitoral, de forma a turbinar a candidatura do ministro da Fazenda que por ele era responsável.

(E ainda há quem, na oposição hoje, se diga “indignado” quando, por exemplo, o governo Dilma Rousseff anuncia, para 2014, metas mais ambiciosas para programas como o Minha Casa Minha Vida, achando que é “intervenção” do governo na eleição. Quem viu o tamanho da “intervenção” que foi o Plano Real só pode achar cômica a acusação.)

Quanto a 2010, a vantagem que Serra apresentava em janeiro tinha a consistência de uma quimera, na qual talvez apenas seus amigos na “grande imprensa” acreditavam. Qualquer um medianamente versado na análise de pesquisas percebia que Dilma seria eleita.

Assim, em todas nossas eleições modernas, seja quando apontaram o nome do vencedor, seja quando deixaram claros os sentimentos com que o eleitorado estava indo para as urnas, as pesquisas feitas a distância em que estamos da eleição foram capazes de mostrar o que terminou por ocorrer.

Há alguma razão para imaginar que, em 2014, será diferente? Considerando o cenário provável (em que enfrentaria Aécio Neves, pelo PSDB, e Eduardo Campos, pelo PSB) Dilma tem, nas pesquisas recentes, mais vantagem que Fernando Henrique em 1998 e Lula em 2002 e 2006, em momento semelhante. Seus 42% superam os 35% do tucano e os 30 e poucos pontos porcentuais de Lula em janeiro daqueles anos (dados do Datafolha e do Ibope).

Ou seja: se repetirmos, este ano, o padrão daquelas eleições (das quais duas de reeleição), ela deve ser considerada favorita absoluta.

Poderíamos, ao contrário, ter algo análogo às eleições de 1989, 1994 e 2010?

Nada indica que exista hoje um sentimento parecido àquele da primeira. O eleitor brasileiro típico não aceita aventurar-se na procura de mudanças vagas e calcula que tem muito a perder se acreditar na conversa de candidatos que mal sabem quem são. Um “novo Collor” é, a bem dizer, impossível.

Existe, nas oposições, alguém que possa ser um “novo Fernando Henrique”? Têm elas instrumentos para voltar a fabricar um personagem como aquele de 1994? Fora do governo, é certo que não.

Caberia pensar em uma “nova Dilma”, um nome de desempenho modesto nas pesquisas atuais, mas apoiado por uma liderança do calibre de Lula, capaz de superar qualquer adversário?

Não. O que Aécio enfrenta são problemas com seus correligionários. Eduardo Campos conta, no máximo, com o endosso de Marina Silva, que, comparada a Lula, é uma força miúda.

Sempre é possível que o inesperado aconteça. Mas o provável é que as pesquisas de agora sejam confirmadas em outubro, como nas eleições anteriores.

Marcos Coimbra
No CartaCapital
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Mitos Econômicos Brasileiros #4: “2014 será o ano da ‘tempestade perfeita’ no Brasil”

Apesar das profecias apocalípticas, indicadores de vulnerabilidade contra choques externos mostram que fundamentos macroeconômicos do país nunca estiveram tão sólidos

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Nos últimos meses, os analistas econômicos vêm batendo na tecla de que uma hecatombe, ou melhor, uma “tempestade perfeita” vai atingir o país em 2014 – especialmente se a oposição, qualquer que seja ela, não ganhar as eleições gerais de outubro. O conceito, lançado pelo ex-ministro da Fazenda e economista Antonio Delfim Netto, supostamente próximo ao governo, rapidamente caiu no gosto de seus pares de orientação mais neoliberal e, claro, dos jornalistas que reverberam suas opiniões. A inspiração anglófona da expressão (“perfect storm”) certamente ajudou no marketing. A tempestade que traria um desastre econômico sem paralelos na história seria causado por uma conjunção de fatores: fim das medidas de estímulo (expansionismo monetário) dos EUA, que resultaria uma grande desvalorização, que por sua vez geraria pressões inflacionárias, tudo isso aliado a uma deterioração das contas externas e a uma forte desconfiança em relação à política fiscal. Fujam para as colinas!

Mas faltou combinar com São Pedro. Olhando mais friamente, não se percebe na “tese” da tempestade perfeita nenhum vestígio de análise rigorosa, baseada em fatos. Trata-se de um exercício livre de futurologia, no qual são traçados nexos causais com base em pressupostos puramente especulativos.

Quando a tempestade encontra a frieza dos dados econômicos, ela vira uma garoazinha, ou no máximo uma chuva de verão, daquelas que enganam aqueles que não conhecem muito a realidade local.

Ontem, dia 8, o Banco Central divulgou o último balanço das reservas internacionais. Reservas que, entre 1998 e 1999, derreteram à metade (ficando quase sempre no patamar de US$ 30 bilhões até 2002), deixaram o país extremamente vulnerável a choques externos e internos – que vieram, três vezes –, forçando o país a buscar socorro no FMI e a se sujeitar às determinações do Fundo.

Pois bem, as reservas internacionais Brasileiras fecharam 2013 em US$ 375,8 bilhões, quase 10 vezes mais que em 2002. O número praticamente mantém o patamar de 2012, quando elas alcançaram valor recorde de US$ 378,6 bilhões – leve queda de 0,7%, irrisória perto da alta base de comparação.

Isso já seria um indicador para debelar qualquer “zica” trazidas pelos mensageiros do apocalipse. Mas não pode ser levado em conta sozinho. Uma análise econômica minimamente razoável, mesmo a de um blog, precisa levar em conta outros indicadores para determinar o quão vulnerável está o país.

O economista francês Pierre Salama sugere em um artigo (2010) três lentes de comparação. Vamos a elas:

1) Necessidade de Financiamento Externo(NFE)/PIB

O conceito de NFE é definida por Salama pela soma do saldo das transações correntes do Balanço de Pagamentos (BdP) com os recursos usados para pagar a amortização da dívida externa, dividido pelo PIB. A princípio, quando mais baixa for esta relação, melhor. Usando informações dos Orçamentos da União e do BdP temos o seguinte resultado:

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Observamos que, segundo este primeiro indicador, a partir de 1996, o número do indicador cresceu, isto é, o país se tornou cada vez mais vulnerável. A necessidade de financiamento externo chegou a 6,16% do PIB em 2001. A explicação está nos elevados déficits no saldo das transações correntes da BdP.

As coisas começaram a melhorar de maneira mais consistente só depois de 2004. Em 2012, o indicador fechou em 3,6%. Resumo da ópera: por esse indicador, o Brasil está menos vulnerável agora do que no início da década passada (isso apesar de crescentes déficits nas transações correntes).

2) Reservas internacionais

A segunda linha de indicadores proposta por Salama consiste em calcular as reservas internacionais como porcentagem de quatro variáveis: PIB; importações; dívida externa bruta; e serviço dessa dívida. Quanto mais alta for essa relação, melhor.

2.1) Reservas/PIB. O primeiro sub-indicador de reservas internacionais mostra que nos seis anos entre 1995 e 2000, a tendência era de estagnação em níveis baixos ou leve queda, isto é, a situação era de grande vulnerabilidade, com tendência a piorar. Depois, apesar da leve recuperação em 2001 a 2003, a situação só melhorou de maneira consistente depois de 2005. Naquele ano, o nível das reservas era de 6,1% do PIB. Passou para 13,19% do PIB em 2007, até chegar em 16,8% do PIB em 2012. Resumo da ópera: por esse indicador, o Brasil está menos vulnerável agora do que no início da década passada.

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2.2) Reservas/importações. A partir do Plano Real, voltamos a ser grandes importadores. O que não é ruim em si: importações de máquinas e equipamentos podem melhorar a produtividade da economia local no médio/longo prazo; e a importação de bens de consumo aumentam o bem-estar da população. Importar muito, pois, pode até ser bom. Com tanto que você também exporte muito ou tenha recursos para “financiar” esse comércio com o resto do mundo.

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Assim, o segundo indicador mostra que, apesar de estar importando muito, as reservas estão acompanhando o ritmo deste crescimento: as reservas representaram 169% das importações em 2012. Uma bela melhora em relação ao início da década passada, quando, em 2000, as reservas cobriam só pouco mais da metade das importações. De fato, entre 1993 e 2000, o indicador foi piorando sistematicamente, caindo de 127,5% para 59% das importações. Resumo da ópera: por esse indicador, o Brasil está menos vulnerável agora do que no início da década passada.

2.3) Reservas/DEB. O terceiro indicador se refere às reservas internacionais como porcentagem da dívida externa bruta (DEB). Apesar de não termos mais uma dívida externa líquida, ainda temos uma dívida externa bruta (isto é, temos mais o que receber do exterior do que a pagar).

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Aqui, a série histórica disponível é mais curta (2002-2013), mas já dá uma boa ideia. A tendência quase contínua é de melhora: as reservas, que em 2002, representavam apenas 17,85% de nossa dívida externa bruta, em 2013 passaram para 120,8% da DEB. Resumo da ópera: por esse indicador, o Brasil está menos vulnerável agora do que no início da década passada.

2.4) Reservas/juros da dívida externa. Por fim, o último indicador de reserva (e penúltimo deste post, eu prometo) é a relação das reservas com os juros da dívida externa. Aqui, de novo, a série que tenho vai só de 2002 a 2013, mas para o propósito deste texto é o suficiente. E também já dá para imaginar o que acontece aqui: no início da década passada, em 2002, as reservas não eram suficientes para “cobrir” os juros da dívida externa, e representavam 97,5% do montante. A partir daí, novamente, o indicador melhorou continuamente até atingir 376,3% dos juros da dívida externa bruta. Resumo da ópera…

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3) Passivo externo/PIB

Um indicador chave é a chamada “posição internacional de investimento”, no qual estão incluídos “passivos” e “ativos” externos. O passivo externo é o nome dado à soma do investimento que estrangeiros fizeram no país e que estão atualmente aqui (é uma medida de estoque). Já o ativo externo é a soma dos investimentos feitos lá fora por brasileiros. Só a título de curiosidade, o passivo externo líquido é o valor do passivo externo (bruto) descontado o ativo externo (bruto).

O indicador é construído dividindo o passivo externo bruto (PEB) pelo PIB. Este é o único indicador em que o país não melhorou, pelo menos na série histórica disponível (2002-2013). Mas também não piorou. Em 2002, o PEB representava 68% do PIB. Em 2012, depois de altos e baixos, o indicador era de 69%.

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Só que aqui tem um detalhe: nem todo investimento estrangeiro é igual. Existem os chamados investimentos “produtivos”, em ativos físicos (os investimentos estrangeiros diretos) e financeiros, como o mercado de títulos públicos e de ações, além de empréstimos a juros. Para entender se o Brasil está mais ou menos vulnerável, é preciso ver sua composição:

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O resultado da análise da composição do “passivo externo” não é tão preto-no-branco como nos outros indicadores: por um lado, o investimento estrangeiro direto aumentou sua proporção: em 2001, representavam 29,5% do total do estoque de investimentos vindos de fora. Em 2012, essa proporção foi para 47,7%. Isto é, aos poucos, ao longo da década, o país foi mudando seu perfil de inserção internacional, passando de um oásis financeiro (como se queria nos anos 1990), para um local privilegiado para investimentos produtivos.

Já os chamados investimentos em carteira aumentaram sua participação até 2007 (chegando a 55,5%), para perder gradualmente terreno e voltar ao patamar semelhante ao de 2002, representando, em 2012, 39,4% do total de investimentos.

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Somando os investimentos em carteira, investimentos estrangeiros em derivativos e outras modalidades (em especial empréstimos), vemos que há uma tendência a redução da “financeirização” do perfil do investimento de fora: os investimentos em modalidades financeiras representavam 70% do passivo externo em 2002. Essa proporção foi caindo de maneira lenta, mas consistente, até chegar em 52,3% do total do estoque de investimento estrangeiro no país em 2012. Isto é, a “fotografia” mostra que o investimento financeiro ainda é preponderante no país, mas o “filme” mostra uma tendência de mudança em favor de investimentos em ativos físicos (produção).

O problema de uma inserção “financeirizada”, como vinha sendo nos anos 1990, é que esse capital é muito mais “volátil” que o capital produtivo. Ao menor rumor de “tempestade”, esses investidores podem, teoricamente, se desfazer rapidamente de seus ativos financeiros brasileiros. É como um castelo de cartas num vendaval. Isso é mais difícil se uma multinacional abre uma fábrica no país. Mas mesmo em se tratando de investimentos financeiros, especialistas dizem não ser recomendável tirar ou pôr dinheiro ao sabor do noticiário diário, já que investimentos em ações e em títulos da dívida dão maior rentabilidade a longo prazo.

Por isso é bom ver quão vulnerável o país está, antes de alardear o Juízo Final. Afinal, tempestades são fenômenos naturais, mas se você estiver em um abrigo sólido, ela passa e a vida segue. A tempestade perfeita já atingiu o Brasil – e por três vezes -, só que foi entre 1998 e 2002, quando nossas bases econômicas eram frágeis. Mas, hoje, quem cair no conto da tempestade vai perder.

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