16 de jan de 2014

A histeria racista da criminalização dos ‘rolezinhos’


De todos os rolezinhos desde o final do ano passado, não houve nenhuma ocorrência de furtos ou roubos.

A palavra de ordem mais contundente dos organizadores, até agora, tem sido mais ou menos a seguinte: “A gente quer se divertir, curtir e ficar com as minas”.

Foi o que falou o jovem A.F., que criou uma página no Facebook chamando para um encontro no Shopping Itaquera no próximo dia 18.

As intenções de A.F.:

“A gente não quer arrastão”

“Todo mundo diz que funkeiro é favelado, não gosta de trabalhar. Mas a maioria dos meus amigos trabalha como eu e tem pai e mãe”

“Queria falar com eles [a direção do centro de compras] para eles se prepararem”

“Tem pegação, a gente tira foto juntos. Conheci gente de outras regiões, da Vila Alpina, Mauá”

“Aqui a gente só tem o shopping. Antes a gente fazia uns encontros na rua, ficava ouvindo música, mas a polícia já chegava batendo. Então decidimos voltar a se encontrar nos shoppings”

Em determinada altura dos eventos, costuma haver uma correria. Lojas fecham as portas. A violência, quando aconteceu, foi após a chegada da PM, que faz o de sempre: desce a porrada.

Repetindo: não houve roubos ou furtos nos rolês.

No entanto, os participantes já foram criminalizados e condenados ao degredo. De todas as coisas irresponsáveis e estúpidas proferidas sobre eles, eis a conversa da apresentadora do SBT Rachel Sheherazade em dezembro:

Foi justamente a violência, o caos urbano, que forçou o consumidor a abandonar o comércio de rua, as praças públicas, os cinemas, teatros, restaurantes e migrar para espaços fechados e vigiados.

Mas, agora, até esse refúgio foi violado! 

O que fazer? 

Fechar os olhos? Fingir que não há perigo nos “rolezinhos”, como fizeram os shoppings para ofuscar a propaganda negativa? 

Devemos defender o direito dos arruaceiros de se reunir em locais privados, sem prévia autorização, tumultuando a ordem pública, espalhando o medo, afastando as famílias, intimidando os frequentadores?

Ou só vamos tomar providência quando os arrastões migrarem das periferias para os shoppings de luxo?

Onde houve arrastão? Refúgio de quem? A histeria de Rachel lembra, em certos momentos, o hoje clássico comentário de Arnaldo Jabor sobre as primeiras manifestações em junho passado (o primeiro, não o mea culpa 48 horas depois, abraçando os manifestantes por ordens superiores porque seriam “contra o governo”).

O blogueiro da Veja Rodrigo Constantino foi além: “Não toleram as ‘patricinhas’ e os ‘mauricinhos’, a riqueza alheia, a civilização mais educada. Não aceitam conviver com as diferenças, tolerar que há locais mais refinados que demandam comportamento mais discreto, ao contrário de um baile funk. São bárbaros incapazes de reconhecer a própria inferioridade, e morrem de inveja da civilização”.

Ao ver isso comparado às teorias de superioridade racial dos nazistas, Constantino teve de escrever outro texto para explicar esse trecho. Em “Mein Kampf”, aliás, Hitler diz que “em toda mistura de sangue entre o Ariano e povos inferiores, o resultado foi sempre a extinção do elemento civilizador”.

Os povos inferiores, para Hitler, serviram apenas como ferramenta para a civilização superior. “O ditado: ‘o negro fez a sua obrigação, pode se retirar’, possui infelizmente uma significação profunda. Só os bobos pacifistas é que podem enxergar nisso um indício de maldição humana”, escreveu Hitler.

Não adianta o  secretário de segurança do Rio, José Mariano Beltrame, e o de São Paulo, Fernando Grella Vieira, declarararem, textualmente, que “rolezinho não é crime”. Eles estão acima da lei.

A simplificação racista e preconceituosa de um movimento complexo (que existe inclusive nos EUA, como você pode ler aqui) é uma espécie de torcida para que as coisas saiam dos trilhos e a turma do apocalipse possa bradar: “Eu não disse, eu não disse?”

Kiko Nogueira
No DCM
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Sérgio Vaz: No rolezinho, periferia devolve “educação de qualidade”; negros vivem a sua Primavera de Praga




Há algo novo no ar. Sabemos disso com absoluta certeza desde as grandes manifestações de junho de 2013.

É possível sentir que o tremor subsiste neste bar que é sede do Sarau da Cooperifa, nas proximidades da avenida M’Boi Mirim, na Zona Sul de São Paulo.

Para quem não tem intimidade com a capital paulista, há imensos dormitórios de trabalhadores na megalópole: estamos num deles. É o que se chamaria, numa sociedade industrial, de bairro eminentemente proletário. Mas, com a pronunciada ascensão social registrada a partir do início da era Lula, em 2002, as coisas já não são tão simples de descrever. Há gente de classe média no bairro. Da nova classe média. Há remediados. Pobres. E, especialmente nas moradias precárias das favelas, há também miseráveis.

As mesmas inquietações que a classe média branca dos Jardins ou do Leblon ou da Savassi sente ao ver seu espaço invadido pelos “de fora” também existe aqui: há um rearranjo social acumulado com uma explosão de novas demandas e possibilidades. Aqui o Brasil está em movimento veloz. Tem fome de novidades e mudanças. Um despertar ajudado pelas redes sociais que driblam o desprezo dedicado pela grande mídia aos pobres e negros.

O sarau, organizado pelo poeta Sérgio Vaz, está completando 13 anos de existência. Enquanto os poetas apresentam seus versos, dá para constatar a diversidade nas mesas. Há senhoras da terceira idade, crianças brincando de videogame no celular do pai ou no ipad da mãe, há vários casais e jovens, muitos jovens.

Por mais que haja distinção de origem e classe dentre os que frequentam o sarau esta noite, a experiência comum dispensa explicações elaboradas sobre a violência policial: é algo cotidiano, sofrido ou testemunhado. O racismo, a discriminação e o preconceito deixaram feridas abertas em todos os que estão aqui. É a humilhação compartilhada, nas ruas e repartições, muitas vezes ao longo de toda uma vida.

O prazer de compartilhar a luta contra o racismo também está presente, como esteve nas grandes campanhas pelos direitos civis dos Estados Unidos, nos anos 60 (curiosamente, durante o evento, tive um flashback da campanha pré-presidencial do pastor negro Jesse Jackson, que acompanhei no avião do candidato, como repórter, nos Estados Unidos, nos anos 80).

Existem ecos distantes de Malcolm X nas palavras do poeta Sérgio Vaz, quando ele se refere elogiosamente aos brancos “solidários na batalha contra o racismo”.

O reconhecimento de que existe um muro que os separa da “cidade” — que é como a região mais rica de São Paulo muitas vezes é chamada — é generalizado, tanto quanto a determinação de saltar o muro a qualquer custo.

A desconfiança da mídia patronal tem, na outra face, o desejo de reconhecimento, hoje uma possibilidade que independe das redações dos grandes órgãos da mídia (You Tube e Facebook que o digam). A Veja é descrita num dos versos como antônimo de “verdade”. Vaz relembra o episódio em que um funcionário da TV Globo foi expulso do bar por tentar rearranjar todo o mobiliário para “facilitar” as filmagens. Foi uma forma de rejeitar a ideia de que o sarau é como cenário de novela, habitado por gente sem autonomia, como se fossem atores e atrizes lendo roteiro alheio.

Autonomia, aqui, é palavra-chave.

O sarau de todas as quartas-feiras, aliás, É o Jornal Nacional do bairro. Os versos, muitos dos quais foram escritos nas últimas horas, falam dos assuntos que interessam diretamente ao cotidiano dos presentes: amor, morte, vitórias e dificuldades.

Soam como as manchetes de poetas e rappers. Dá para brevemente tomar o pulso do bairro. Os versos mais aplaudidos da noite denunciam a Copa do Mundo como afronta às carências dos bairros mais pobres. “Enfia os 20 centavos no SUS”, brinca a jovem poeta, em referência ao corte nas tartifas de ônibus obtido no ano passado, em São Paulo, depois dos protestos organizados inicialmente pelo Movimento Passe Livre (MPL).

O rolezinho é o assunto da noite. Há uma identidade quase instantânea com os participantes, por expressarem, mesmo que de forma indireta, o grito contra o preconceito, a humilhação histórica e a crença elitista de que o negro “deve saber o seu lugar”.

Bem que na entrevista que antecedeu o sarau Sérgio Vaz havia me alertado: a periferia está vivendo seus dias de Primavera de Praga, uma referência ao levante contra forças exteriores de ocupação — no caso, os soviéticos na extinta Checoslováquia.

Quando diz “periferia”, Sérgio Vaz quer dizer os negros e pardos da periferia.

Eles estão em movimento. Estão inconformados. E tem pressa.

Quem vier fazer campanha aqui em 2014 deve trazer os assessores de educação, saúde e transporte. Mas não esqueça de trazer também o de igualdade racial. Vai fazer toda a diferença.





Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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Daslu, Danuza e Dá o fora!


Os filhos do porteiro da Danuza resolveram ir ao shopping center. E a justiça de SP autorizou guardas a dizer-lhes: Dá o fora!

O Brasil tem cerca de 500 shoppings centers.

O conjunto fatura R$ 184 bi por ano, ocupa mais de 11 milhões de m2 - uns 2. 200 campos de futebol; emprega 870 mil pessoas.

Em 40 anos, desde 1996 quando surgiu o primeiro até 2006, foram erguidos 350 shoppings no país; de lá para cá a expansão foi geométrica e ininterrupta. Nos últimos sete anos surgiram mais 120.

Outros 30 estão previstos para inauguração em 2014.

O país inteiro — capitais e interior — foi tricotado por esses centros de compra e lazer que tem a cara e a permeabilidade da estrutura social erguida pelo capitalismo por essas bandas.

A rede de shoppings foi planejada para nuclear um público alvo da ordem de 40 milhões de pessoas.

O Brasil tem mais de 190 milhões de habitantes: 150 milhões estão fora.

Uma parcela dos excluídos agora quer entrar.

O rolezinho é uma evidencia da pressão exercida na parede do dique.

Quem quer entrar entende (com ou sem razão) que o Brasil limpo, organizado, atraente, refrigerado, seguro, iluminado, rico, antenado, onde faísca la dernier cru do consumo e, vá lá, bonito, para os padrões dominantes, está lá dentro.

Não nas ruas desoladoras e escaldantes das periferias conflagradas onde vive a maioria dos integrantes do rolê.

Pode-se — deve-se — discordar da matriz de valores que atribui a um bunker do consumo o padrão de sociedade desejável para viver e se divertir.

Mas há razões para isso.

Um dado sugestivo: até o ano passado, apenas 13,5% dos municípios brasileiros dispunham de uma secretaria voltada exclusivamente para a cultura.

Tê-la não é garantia de grande coisa.

Mas a escala da ausência emite um sinal da atenção dispensada a uma área que fala diretamente à juventude — e poderia oferecer-lhe um ponto de fuga à pulsão consumista, diuturnamente martelada ao seu redor.

Esforços de investimento público tem sido feitos nessa direção.

O número de cidades com bibliotecas, por exemplo, saltou para 98% em 2012, praticamente universalizando esse equipamento, restrito a 70% delas até 1999.

Mas uma biblioteca convencional, de mobiliário imaginável e acervo presumível, em qualidade e quantidade, será um espaço suficiente para satisfazer as expectativas de desfrute, encontro e lazer de quem adere a um rolezinho?

Em 2007, o governo criou um Programa para o Desenvolvimento da Economia da Cultura (Procult).

Através do BNDES já financiou a construção ou a reforma de 259 salas de cinema.

Mas a maioria dos cinemas do país fugiu igualmente para o interior dos shoppings por conta da insegurança que também despovoou praças e jardins, capturados pelo consórcio drogas & desmazelo.

Apenas 10% dos municípios brasileiros dispõem de cinemas atualmente.

Pesquisa desta semana do Ibope informa que as ‘classes’ C e D bateram recorde de horas diante da televisão em 2013: média de seis horas e 40 minutos. Por dia.

E convenhamos, não dá para imaginar que todo mundo vá se reunir numa lan house, presente, aí sim, em 82% da malha urbana e, de fato, encontrável em qualquer bairro ou favela por mais pobre que seja.

O espaço virtual tem limites.

O rolezinho se vale da capilaridade digital para convocar os encontros , mas representa ele mesmo (felizmente) a insuficiência da realidade virtual na vida humana.

A dupla insuficiência — material e virtual — misturada a uma revolta difusa, temperada de hormônios e apimentada com o deboche e o anseio por identidade olha em volta e enxerga o quê?

Enxerga aquilo que distraidamente ou de forma deliberada foi sendo construído nas entranhas da velha malha urbana, e para cujo declínio contribuiu ao inocular a decadência no pequeno comércio, a escuridão no jardim, a solidão no centro velho e o sucateamento do (parco) equipamento público.

O shopping center, a nova cidade brasileira.

Prefiguração do sonho neoliberal, ela materializa um ordenamento coletivo onde tudo é privado.

Por definição, a cidade da mercadoria é o jazigo da cidadania.

Não só.

O anestesiante paradigma de ‘eficiência’ do shopping engorda o descompromisso com que a elite consumidora encara seus deveres em relação ao espaço coletivo ao seu redor.

Por que, enfim, pagar mais pelo IPTU se já tenho o que quero e o que a cidade numa terá no shopping — ainda que esse adicional corresponda, por dia, a uma fração do preço de um cafezinho do Starbucks no Iguatemi?

O rolezinho sacode o pilar dessa ordem excludente deixando aflorar um conflito que há muito incomoda o conforto das elites.

Quem não se lembra do ‘transtorno’ que a vizinha favela Funchal causava ao Vaticano dos shoppings centers no Brasil, a famosa Daslu – 20 mil m2 de pura ostentação, gastos médios de U$ 15 mil/mês por cliente e uma sonegação de imposto de estupendo R$ 1 bilhão?

Ou do desabafo da socialite Danuza Leão, na Folha, em dezembro de 2012?

Inconsolável com o Brasil do PT, a então colunista lamentava como ficou difícil “ser especial” nesses tempos em que “todos têm acesso a absolutamente tudo, pagando módicas prestações mensais” — musicais na Broadway, por exemplo, que graça tem se “por R$50 mensais, o porteiro do prédio também pode ir”.

Os filhos do porteiro da Danuza resolveram agora ir ao shopping.

E a justiça de SP autorizou seis deles a dizer-lhes: ‘Dá o fora!’.

Esse é o capítulo da novela brasileira nos dias que correm.

As raízes desse enredo de paralelas que agora se cruzam em conflito aberto na porta de santuários do consumo remetem à mutação inconclusa verificada no país desde 2003.

Qual seja, a pobreza caiu pela metade; o mercado de trabalho atingiu as franjas do pleno emprego; o salário mínimo ganhou quase 60% de poder de compra, acima da inflação.

A desigualdade continua obscena, mas as placas tectônicas se moveram.

Privilégios obcecados em preservar um ordenamento social patológico defendem como virtude macroeconômica restituir as fronteiras do conflito original aos marcos do cordão sanitário instituído nos anos 90.

O superávit fiscal ‘robusto’ para assegurar o ganho dos rentistas é um desses marcos.

Outro: o salto adicional nas taxas de juros, até encostar a faca recessiva na garganta da massa ignara.

A crispação em torno dos rolezinhos mostra o quanto será difícil devolver a pasta de dente ao tubo da história.

Nesse empurra-empurra, subjacente à disputa presidencial de outubro, há nuances que dizem respeito diretamente à esquerda.

O ‘rolezinho’ denuncia uma dimensão da luta política rebaixada nos últimos anos na conta da ilusão economicista de que o holerite e o crescimento resolviam o resto.

São imprescindíveis, diga-se.

Mas o discernimento histórico que requer a longa construção de uma sociedade justa e virtuosa nunca será um dote intrínseco à conquista do legítimo direito de viajar de avião, ou comprar bens duráveis a crédito, nem tampouco uma qualidade imanente a governantes eleitos pelos pobres.

Erguer essas linhas de passagem é tarefa das organizações progressistas que se propõem a mudar as formas de viver e de produzir em sociedade.

É delas a obrigação de associar à luta econômica sua contrapartida de ideias emancipadoras que ampliem o horizonte subjetivo para além do consumismo individualista.

Do contrário, o futuro ficará emparedado entre o horizonte do rolezinho e o interdito do dinheiro graúdo.

No limite, ambos poderão se unir em torno de um tênis Nike, contra uma repactuação mais arrojada do desenvolvimento que implique outra modulação do consumo.

O mais difícil na luta pelo desenvolvimento é produzir valores, dizia o saudoso Celso Furtado, em palavras de atualidade inexcedível.

Não apenas esse, mas sobretudo esse passo a esquerda deve ao Brasil.

E não parece recomendável adiá-lo mais uma vez ‘para depois da próxima eleição’.

Saul Leblon
No Carta Maior
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Nosso herói

Acho que falo por todos os gordinhos sem graça do mundo, por todos os homens por quem ninguém dá nada, todos os com cara daqueles tios que nas festas de família ficam num canto e nem os cachorros lhes dão atenção, ou fazem xixi no seu sapato, todos os que se apaixonam, mas não têm coragem de se aproximar da mulher amada, quanto mais declarar sua paixão, todos os que são chamados de “chuchu”, mas não é um termo carinhoso, é uma referência ao legume sem gosto, todos os sem sal, os sem encanto, os sem carisma, os sem traquejo, os sem lábia — enfim, os sem chance — do mundo se disser que o François Hollande é o nosso herói. Ele é tudo que nós somos e não somos. É um dos nossos, mas com uma diferença: no caso dele era disfarce.

A companheira de Hollande, Valerie Trierweiler, que mora com ele no palácio presidencial e o acompanha em eventos oficiais e viagens, e que também é chamada de Rottweiler pela ferocidade canina da sua dedicação ao presidente, está internada com uma crise nervosa provocada pela revelação de que François tem uma amante, a atriz Julie Gayet, com quem costuma se encontrar num apartamento perto do palácio.

Hollande já teve como companheira uma das mulheres mais interessantes da França, Ségolène Royal, com quem a fera teve quatro filhos. A pergunta que se faz na França é: o que exatamente esse homem tem que explique seu sucesso com as mulheres? A questão não tem nada a ver com direito à privacidade. Trata-se de uma curiosidade científica. Se o que ele tem, e disfarça com aquela cara, puder ser reproduzido em laboratório será um alento para a nossa categoria.

E nossa admiração só aumenta com os detalhes das escapadas de Hollande. Ele vai para seus encontros com Julie numa motocicleta. O Hollande vai para seus encontros com a amante montado numa motocicleta! Pintado no seu capacete, quem sabe, um galo, símbolo ao mesmo tempo da França e do seu próprio vigor. Ainda há esperança, portanto. Se ele pode, nós também podemos. Pois se François Hollande nos ensina alguma coisa é que biologia não é, afinal, destino.

Luis Fernando Veríssimo
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Valor da multa a Genoino extrapola os parâmetros legais

Doações atingiram nesta quarta-feira, 15, R$ 399.762,94. Ou seja, quase 60%  dos R$ 667,5 mil estipulados pela Justiça

Na nota Campanha para Genoino já arrecadou R$295 mil, 44% da multa, o leitor Luís Carlos, nos comentários, questionou: “Sendo o único imóvel dele e que é usado para moradia realmente, poderia ser tirado da família para pagar essa multa?” A dúvida de Elza, também nos comentários, era outra: “Pra onde vai o dinheiro dessas multas?”

Nesta quarta-feira, 15, conversamos sobre essas e outras questões referentes à multa com o advogado Patrick Mariano, mestre em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília (UnB) UnB e integrante da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares – Renap.

Antes da nossa entrevista, uma boa notícia.  A campanha de doações para José Genoino pagar a multa da Ação Penal 470 atingiu nesta quarta-feira, 15, R$ 399.762,94. Ou seja, quase 60%  dos R$ 667,5 mil estipulados pela Justiça.

Viomundo — O Genoino tem um único imóvel, que onde ele e a família realmente moram. A União poderá cobrar a dívida judicialmente, inclusive confiscando o sobrado da família, no bairro do Butantã, em São Paulo?

Patrick Mariano — Não. A Lei 8.009/90 prevê que “o imóvel residencial próprio do casal, ou da entidade familiar, é impenhorável e não responderá por qualquer tipo de dívida civil, comercial, fiscal, previdenciária ou de outra natureza, contraída pelos cônjuges ou pelos pais ou filhos que sejam seus proprietários e nele residam”.

Viomundo —  O entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) é nesse sentido? 

Patrick Mariano –  Tanto no STF quanto no Superior Tribunal de Justiça (STJ) o entendimento é o que está lei Lei 8.009/90. É essa Lei que protege o bem de família.

Viomundo — E se o apenado tiver mais de um imóvel ou outros bens, o que determina alei?

Patrick Mariano  – Se possuir mais de um imóvel, a impenhorabilidade recairá sobre o de menor valor, caso, no Registro de Imóveis, não exista a escolha para este fim de outro bem.

Viomundo — O que acontece se o condenado não pagar a multa? Tem interferência na pena ou na progressão do regime?

Patrick Mariano  – Uma vez transitada em julgado a ação, ou seja, não couber mais nenhum recurso,  o fato do condenado não conseguir pagar a multa não terá efeito algum na sua pena.

A Lei 9.260/96 alterou a redação do Código Penal e proibiu a conversão da pena de multa em detenção. O inadimplemento da pena de multa permite apenas que ela seja considerada dívida de valor, tornando-se dívida ativa da Fazenda Pública.

Viomundo —  O juiz deu prazo até dia 20 para Genoino pagar a multa. É sempre tão exíguo o prazo? 

Patrick Mariano – Com relação ao prazo parece que não há ilegalidade, pois o artigo 50 do Código Penal, fala em 10 dias a contar do trânsito em julgado. 

 Viomundo —  O que é feito com o dinheiro da multa? 

Patrick Mariano – A arrecadação vai para o Fundo Penitenciário Nacional (ao Funpen). Entre outros fins, deve deve ser destinado à construção, reforma, ampliação e aprimoramento de estabelecimentos penais; manutenção dos serviços penitenciários; e formação, aperfeiçoamento e especialização do serviço penitenciário.

Viomundo — Tem-se ideia de quanto se apurou no ano passado com esse tipo de multa?

 Patrick Mariano — Dados do Funpen, divulgados em 2012, falam  em torno de R$ 3 bilhões, desde a sua fundação, em 1994.

Viomundo — Que critérios devem ser levados em consideração para fixação do valor da multa? Houve exagero neste ponto no caso de Genoino?

Patrick Mariano – O artigo 60 do Código Penal é bem claro: na fixação da pena de multa, o juiz deve atender, principalmente, à situação econômica do réu.

Além disso, o artigo 50, também do Código Penal, diz que a pena de multa não deve incidir sobre os recursos indispensáveis para o sustento do condenado e sua família.

É de conhecimento de todos que José Genoino não é um homem de posses. Ao contrário, reside na mesma casa há muitos anos. Nunca acumulou patrimônio, vivendo do seu salário. Pelo que li, o valor da multa imposto extrapolou — e muito! — os parâmetros legais. Infelizmente, estamos diante de mais uma ilegalidade cometida.

Não é só isso. Está no artigo 5º, parágrafo XLV, da  Constituição brasileira de 1988: “nenhuma pena passará da pessoa do condenado”.

Ou seja, no caso de Genoino, não bastam a prisão e o degredo, já que foi impedido de cumprir a pena próximo a sua família. A sanha punitiva e o ódio de classe exposto na sentença foram além ao impor sofrimento não só ao condenado, mas também à toda sua família que não tem como pagar valores tão exorbitantes.

Desta forma, o drama de ter um familiar preso se soma ao desespero da família em não ter como pagar a dívida. O que justificaria tamanha tentação punitiva? Só se viu isso nos Tribunais da Inquisição, de triste e trágica lembrança.

Conceição Lemes
No Viomundo
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Demorou, mas veio: Pinheirinho agora vai ser Pinheirinho dos Palmares. Ou Pinheirão


Demorou, mas saiu: está para ser assinado o convênio entre a Prefeitura de São José dos Campos, o Governo paulista e o Governo Federal para a construção de 1.700 casas do programa “Minha Casa, Minha Vida” para os moradores brutalmente expulsos do Pinheirinho, naquela cidade, para que o terreno onde viviam fosse entregue à massa falida da empresa Selecta, do investidor Naji Nahas, por ordem da juíza Márcia Faria Mathey Loureiro.

É o fim de dois anos de impasse, porque a prefeitura não liberava uma área disponível no bairro do Putim, e vai acontecer apenas porque o Minha Casa, Minha Vida recebeu, este ano, um reforço de verbas que o PSDB classificou como “oportunista”.

Porque é a União quem transfere, quase tudo como subsídio, quase 80% (R$129 milhões) dos R$ 163 milhões de custo total do projeto. O resto vem do Governo do Estado e o custo do terreno, da Prefeitura.

O terreno do Pinheirinho, que você vê aí em cima em foto recenete, segue abandonado. Naji Nahas tenta leiloá-lo por mais de 250 milhões, mas tem dificuldades, por conta da falência. A vegetação, que não precisa de liminar, só de abandono, para recuperar seus espaços, cobre o que eram as casas de quase 8 mil pessoas.

O líder dos expulsos diz que a comunidade vai chamar o novo conjunto de “Pinheirinho dos Palmares” , por conta de uma praça no antigo bairro chamada de Zumbi dos Palmares.

Tomara que para todos este novo Pinheirinho seja bem diferente das lembranças de dor  que carrega,. Que lhes seja um Pinheirão da dignidade.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Charge online - Bessinha - # 2024

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