10 de jan de 2014

Operação Banqueiro: um retrato das relações de Daniel Dantas com o poder

O livro de Rubens Valente mostra, entre outras coisas, como Daniel Dantas se livrou de investigações após ameaçar integrantes do governo FHC.

Depois de referir na introdução a chamada "era de ouro" das investigações da Polícia Federal, de 2003 a 2008, era encerrada justamente com o malogro da Operação Satiagraha, o livro começa com uma bem detalhada e bem documentada descrição das negociações, em junho de 2008, entre o professor universitário Hugo Sérgio Chicaroni, que se apresentou como representante de Humberto Braz, este ligado a Daniel Dantas, e os delegados da Polícia Federal Protógenes Queiroz e Victor Hugo. Chicaroni promete aos dois 500 mil dólares para Daniel Dantas e seus familiares não serem perturbados nas investigações em curso e entrega 50 mil reais a Protógenes, por já terem entrado em contato. Tudo isso está fartamente documentado – nenhuma informação é em off – em gravações autorizadas pela Justiça, suas transcrições e em depoimentos de testemunhas.

Depois há uma densa narrativa da trajetória de Dantas, desde seu nascimento em 1954 como descendente de uma secular família de senhores de terras, políticos e empresários na Bahia, até sua fundação do Banco Opportunity, em 1994. O jovem Daniel cursou a Escola Politécnica na Bahia e no Rio se tornou discípulo de Mário Henrique Simonsen, ministro da Fazenda durante a ditadura, tendo sido seu aluno na Fundação Getúlio Vargas, onde se doutorou em Economia, e tendo feito o pós-doutorado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos. Participou da elaboração do Consenso de Washington, segundo o qual os endividados governos latino-americanos deveriam cortar os subsídios e os gastos públicos e privatizar em massa as suas empresas estatais. A família Braga, ligada ao Bradesco, o chamou para gerir os seus bens por meio da instituição financeira Icatu. Atuou também nas discussões que levaram ao Plano Collor, mas não aprovou o congelamento dos ativos financeiros que o presidente Fernando Collor acabou decretando.

Em seguida vem um bem circunstanciado relato das ligações de Dantas, primeiro com o PFL de Antônio Carlos Magalhães, e depois com membros do governo FHC, particularmente durante as privatizações das telecomunicações. O Opportunity de Dantas contratou integrantes importantes do governo FHC, como Persio Arida e Elena Landau, para ajudar o grupo formado por Dantas, Citibank e os fundos de pensão das estatais para conseguir vencer o leilão da Tele Norte Leste, o mais rico quinhão entre as telefônicas. Não só isso, também o próprio governo FHC apoiou os planos do Opportunity, segundo revelaram escutas telefônicas clandestinas que levaram à queda de integrantes do governo. Entretanto, a compra da Tele Norte Leste pelo grupo do Opportunity acabou não dando certo, tendo essa telefônica ficado com o consórcio liderado pelo Grupo Jereissati, o grupo do Opportunity sendo obrigado a se contentar com a bem menos apetitosa BrT. Como as escutas clandestinas não podiam ser usadas em juízo, os processos contra as irregularidades não puderam ir adiante. Depois, se narram as disputas entre Dantas, de um lado, e a italiana TIM e os fundos de pensão, de outro. Enquanto os fundos queriam maior participação na gestão do consórcio, ou mesmo assumi-la por inteiro, Dantas insistia em manter o controle total.

Dantas inicialmente hostilizou o governo Lula, que desconfiava que pretendia favorecer os fundos de pensão para o controle da BrT em conjunto com a Telemar. Mas foi chamado para reuniões com José Dirceu, chefe da Casa Civil, e com Cássio Casseb, presidente do Banco do Brasil, contra o qual Dantas montou uma vasta operação de espionagem executada por uma firma americana de investigações, a Kroll

As operações da Kroll, pelas quais a BrT controlada por Dantas pagou 26 milhões de reais, e que envolveram ações ilegais, como suborno a policiais federais e quebra de sigilos bancário, atingiram também, no Brasil e na Itália, pessoas ligadas à TIM e outros desafetos de Dantas, como Luís Roberto Demarco Almeida.

Luís Demarco, paulista nascido em 1962, filho de professores universitários, se formou engenheiro-químico na Politécnica da USP, mas logo deixou essa profissão para trabalhar em finanças. Em meados de 1997 passou a trabalhar com Pérsio Arida e Daniel Dantas no Opportunity, mas um ano depois se afastou do grupo, segundo ele por não ter concordado em pagar propina a um funcionário do governo do Paraná, durante a privatização da Sanepar, empresa estadual de saneamento; segundo o Opportunity, por suspeita de irregularidades por parte de Demarco. As duas partes se enfrentaram em ação judicial iniciada em Cayman, em que Demarco exigia o pagamento de cotas de um fundo local do Opportunity, que lhe pertenceriam segundo o acordo para trabalhar no banco, apesar da proibição pela legislação brasileira de brasileiros residentes no País participarem de fundos desse tipo. Demarco obteve ganho de causa, referendado pela Corte de Londres com jurisdição sobre países da Comunidade de Nações, ex-Comunidade Britânica. A partir daí Demarco e Dantas se tornaram inimigos figadais.

A partir daí o livro trata da malograda Operação Macuco, da Polícia Federal, uma investigação, abortada pela própria direção-geral da PF, sobre o envio clandestino de milhões de dólares para o Exterior, em benefício de políticos e empresários, pelos bancos Araucária e Banestado. Grande parte desse dinheiro foi para o fundo do Opportunity em Cayman, o que levou o procurador Luiz Fernando de Souza a investigar se se tratava de dinheiro da privatização das teles. Uma CPI do Banestado não deu em nada e o procurador Souza foi desmoralizado por ter usado um computador de uma pessoa ligada a Demarco para elaborar um relatório.

Aí chega a vez de o livro revelar detalhes estarrecedores do Projeto Tóquio, ou seja, as investigações da Kroll contratadas pelo Opportunity de Daniel Dantas. Os alvos dessa espionagem cheia de ilegalidades incluíam a TIM, juízes encarregado de decidir ações judiciais em que o Opportunity estava envolvido, tudo com o objetivo de “assassinar reputações” por meio da mídia. Essas investigações chamaram a atenção da Polícia Federal, que montou a Operação Chacal para acompanhar as ligações da Kroll com Dantas. Tudo isso estava acontecendo por volta de 2003.

Com Dantas se sentindo ainda hostilizado pelo governo Lula, seu grupo tentou contatos com Fábio Luís, o Lulinha, filho do presidente, e com Luiz Gushiken e José Dirceu. Por outro lado, numa trama cheia de escabrosidades, enquanto Dantas continuava patrocinando as investigações nem sempre legais da Kroll, seus rivais na TI montaram, na Itália e no Brasil, uma operação ainda maior de espionagem, tendo Dantas e a Kroll como alguns de seus alvos. Essa operação, entretanto, acabou sendo descoberta pelas autoridades italianas, e dirigentes da TI foram presos. No entanto, a TI e o Opportunity acabaram entrando em acordo quanto à BrT e com isso a espionagem da TI se voltou contra Demarco, antes considerado seu aliado. Paralelamente, a Polícia Federal, continuando suas investigações, apreendeu com mandado judicial o disco rígido de um computador do Opportunity.

Em 2005 estoura o escândalo do mensalão. Na sua esteira surgem provas de ligação entre Marcos Valério e o Opportunity, pois o publicitário detinha contas de empresas telefônicas do grupo, num possível esquema de lavagem de dinheiro. Narra-se também a perseguição judicial e midiática que o grupo exerceu sobre a juíza do Rio de Janeiro Márcia Cunha, que decidiu contra o Opportunity num processo referente à disputa com os fundos de pensão. Em seguida o livro aborda a acusação da existência de contas secretas no Exterior em benefício de Lula e vários dirigentes petistas, feita pela revista Veja a partir de informações prestadas pelo americano Frank Holder, ex-integrante da Kroll, que teria agido em combinação com Dantas. Ao mesmo tempo, a CPI dos Correios, encerrada em 2006, acusava Dantas de gerir de forma espúria os recursos dos fundos de pensão. Enquanto tudo isso acontecia, o HD do Opportunity continuava sem ser investigado, porque o banco havia recorrido judicialmente de sua apreensão. Entretanto, em meados de 2006, em meio a outra investigação, uma procuradora mandou apurar o que havia nos HDs (na verdade, eram cinco, e não apenas um, e aí se apurou que o Opportunity havia transferido fundos de brasileiros residentes no País a contas em paraísos fiscais, o que era e continua sendo ilegal.

Assim, a investigação contra Dantas não foi de iniciativa dos delegados Paulo Lacerda, então superintendente da PF, e Protógenes Queiroz, mas foi herdada por eles, tendo Queiroz iniciado a Operação Satiagraha em fevereiro de 2007, mas Lacerda logo foi transferido para a chefia da Agência Brasileira de Informações, a Abin, tendo Queiroz enfrentado dificuldades com a nova direção da PF, que atrasou o pagamento a fornecedores da Satiagraha e ainda deixou vazar na imprensa em fins de 2007 que havia planos para investigar Dantas, quando a Operação deveria ter permanecido sigilosa até março de 2008. Em contrapartida, Queiroz contava com o apoio da Abin de Lacerda, que chegou a fornecer 175 agentes para a Satiagraha. A Abin considerava essa cooperação perfeitamente legal, mas o problema é que Queiroz não comunicou nada sobre isso a seus superiores na PF, que só mais tarde, e por acaso, ficaram sabendo da cooperação. Trabalhando para a Satiagraha, agentes da Abin chegaram a acompanhar as andanças de Dantas no Rio de Janeiro.

Tendo assumido a Satiagraha, Queiroz logo teve dificuldades com o Ministério Público, que chegou a acenar com a interrupção das investigações, porque até então, meses depois de iniciada a Operação, nenhum crime fora descoberto relacionado com o Opportunity. Mas daí, em meados de 2008, Queiroz recebeu relatórios elaborados desde anos antes pelo Banco Central, que constataram diversas irregularidades no Opportunity, tal como a aceitação de depósitos milionários por parte de investidores brasileiros residentes no país que de modo nenhum tinham renda e patrimônio compatíveis com os descomunais valores de seus investimentos. Isso chegou à Satiagraha num momento em que Dantas estava particularmente vulnerável, pois estava tentando entrar em acordo com seus antigos desafetos dos fundos de pensão e do Citibank, com o objetivo de vender a BrT para a OI, enquanto ainda corriam ações judiciais contra o Opportunity nos Estados Unidos e no Brasil, movidas respectivamente pelo Citibank e pelos fundos de pensão. A Satiagraha engordou seu arsenal contra Dantas com o acompanhamento, autorizado judicialmente, das manobras jurídicas adotadas pelo Opportunity para escapar das condenações nessas ações. Em meio a tudo isso, Dantas contratou o advogado Luiz Greenhalgh, ex-defensor de presos políticos durante o regime militar e ex-deputado pelo PT. Greenhalgh tratou do acordo com os fundos de pensão com autoridades do governo Lula como Dilma Rousseff e foi assessorado por um misterioso personagem chamado de Arquiteto nas conversas com o Opportunity, e que um perito da Satiagraha identificou como sendo o bancário João Vaccari Neto, petista histórico, que exerceu vários cargos no partido e no governo Lula e que viria a ser o tesoureiro nacional do PT depois da saída de Delúbio Soares. Em abril de 2008, com a bênção do governo federal, o acordo para a venda da BrT para a Oi foi finalmente firmado e as partes desistiram das ações judiciais umas contra as outras. Isso apesar de a legislação proibir que uma empresa telefônica atuasse em duas áreas territoriais contíguas, proibição que Lula aboliu por decreto. Isso é apresentado no livro como um argumento contra a queixa de Dantas, de que sempre foi perseguido pelo governo do PT. Enquanto tudo isso acontecia, Queiroz enfrentava novas dificuldades com seus desafetos na PF, incluindo o vazamento, pela Folha de S. Paulo, de que estava em andamento a Operação Satiagraha contra Dantas. Isso permitiu aos advogados do Opportunity solicitarem acesso ao inquérito secreto, pedido que chegou a tramitar em juízo, mas logo foi negado. O maior responsável pela suspensão dessa tramitação foi o juiz Fausto De Sanctis, em cuja vara corria o inquérito da Satiagraha.

Em seguida, o livro retoma o seu início, relatando a continuação das negociações, em junho de 2008 entre Hugo Chicaroni e Humberto Braz com os delegados Victor Hugo e Queiroz, para Dantas e seus familiares não serem incomodados nas investigações, a troco de 500 mil dólares. No segundo encontro entre as duas partes, num restaurante, Chicaroni e Braz se reúnem com Victor Hugo, sob as vistas, em outra mesa, de dois repórteres da Rede Globo que já haviam coberto outras ações comandadas por Queiroz. Dois pontos ficam claros: primeiro, Braz era um alto executivo do Grupo Opportunity, com acesso direto a Dantas, e não um funcionário subalterno; segundo, os repórteres não gravaram o áudio das conversas, simplesmente gravaram a cena em vídeo; quem gravou o áudio foi o delegado Victor Hugo. Depois que os repórteres foram embora, a conversa continuou, sendo apresentada a proposta de uma segunda parcela de 500 mil dólares, referente a uma investigação a ser feita pela PF sobre Demarco, o eterno desafeto de Dantas. Num terceiro encontro, só entre os dois, Chicaroni entregou a Victor Hugo cerca de 80 mil reais. Isso permitiu a pronta deflagração da Operação Satiagraha.

A 8 de julho de 2008, 164 policiais federais, em 42 carros, cumpriram mandados de busca e apreensão e de prisão em 35 endereços no Rio, São Paulo e Brasília. O próprio Dantas, já de manhã, estava sob custódia em sua casa no Rio. Foi levado para São Paulo, juntamente com outros integrantes do Opportunity, para a carceragem da PF. No dia seguinte, o ministro Gilmar Mendes, então presidente do Supremo Tribunal Federal, concedeu habeas-corpus a Dantas e outros integrantes ao Opportunity ou ligados ao grupo. Eles foram soltos e permaneceram em São Paulo. Entretanto, munido de novas provas e indícios obtidos nas buscas e apreensões do dia 8, Queiroz obteve do juiz De Sanctis novo mandado de prisão contra Dantas e comandou nova detenção do banqueiro a 10 de julho. Mas Gilmar Mendes, desconsiderando as novas provas apresentadas, concedeu em seguida novo habeas-corpus a Dantas e pediu a abertura de sindicância contra o juiz De Sanctis, que segundo ele teria participado de um ardil. Dantas, assim, foi novamente solto. A par disso, tomou vulto, na mídia e em outros meios, a versão de que a Satiagraha estaria grampeando o próprio presidente do STF, quando a verdade, segundo o livro prova inclusive com revelações inéditas, o que aconteceu é que o nome de Gilmar Mendes aparece várias vezes em conversas de pessoas ligadas ao Opportunity, estas sim monitoradas no quadro da Operação, com ordens judiciais. O problema é que entre os monitorados estavam advogados dos investigados, o que gerou protestos de ilegalidade das gravações. Outro mito derrubado pelo livro é o suposto ardil que o juiz De Sanctis e o delegado Queiroz teriam armado para, sem base legal, decretar a segunda prisão de Dantas e assim desafiar o primeiro habeas-corpus outorgado pelo ministro Mendes. O fato é que o delegado e o juiz se basearam em novas provas, tão contundentes que pessoas ligadas a Dantas defenderam a tese de que as novas evidências haviam sido “plantadas” pelos agentes da Satiagraha.

De todo modo, o ministro da Justiça, Tarso Genro, ordenou uma investigação da PF sobre Queiroz, que seis dias depois do início da Satiagraha participou de uma reunião com a cúpula da PF em que foi afastado da Operação, relegado a dar aulas. A partir daí, marginalizado, Queiroz foi investigado por várias razões, desde por ter dado exclusividade à Rede Globo na cobertura até por ter supostamente grampeado o presidente do STF. A mídia, em especial a revista Veja, acusada por Queiroz num relatório de fazer parte do esquema de Dantas, apontou erros e mais erros, até de português, nos relatórios de Queiroz e deu como certo que Gilmar Mendes tinha sido espionado, como também até a antessala do gabinete do presidente Lula. Essas acusações nunca foram comprovadas pelo Judiciário, mas a campanha contra Queiroz prosseguiu na mídia. O livro aponta que Queiroz e os demais responsáveis pela Satiagraha haviam mais acertado do que errado, mas que a mídia praticamente só deu atenção aos erros, tendo a Operação só sido defendida por alguns blogueiros e milhares de cidadãos comuns na Internet. O dirigente da Abin, Paulo Lacerda, que colaborara com a Satiagraha, foi afastado numa reunião de que participaram o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e o presidente Lula, para discutir denúncia de que a Abin monitorara um telefonema entre Gilmar Mendes e o senador Demóstenes Torres. Isso nunca foi comprovado, mas Lacerda e Queiroz continuaram sendo investigados sobre o assunto, inclusive na CPI dos Grampos, que havia sido criada em 2007 e que incluía parlamentares que em suas campanhas haviam recebido doações de gente ligada ao Opportunity. Uma completa devassa na Abin, ordenada judicialmente e cumprida pela Polícia Federal, não descobriu nenhum grampo. Mas a investigação sobre a “exclusividade” dada a Rede Globo rendeu mais críticas da mídia à Satiagraha. Queiroz acabou indiciado por esse favorecimento, nunca por interceptação telefônica ilegal. Marginalizado na PF, Queiroz no entanto se tornou uma celebridade nacional, tendo sido chamado para palestras em todo o País. Contrariando sua própria carreira como delegado, chegou a dizer numa reunião de petroleiros que era contra uma investigação tendo a Petrobrás como alvo. Acabou deputado federal pelo PC do B, embora seja católico devoto e ande sempre com uma imagem de Nossa Senhora na lapela.

Mais adiante o livro indica que os dois habeas-corpus concedidos por Mendes a Dantas estavam para ser julgados em seu mérito pelo pleno do STF em novembro de 2008. Retrata a carreira de Mendes, que passou pelo Ministério Público sem realizar nenhuma investigação importante, e se transferiu para o Executivo, como assessor primeiro do presidente Fernando Collor e depois de Fernando Henrique Cardoso, que o nomeou primeiro como advogado-geral da União, tendo sido processado por procuradores por não transmitir ao Ministério Público informações sobre casos de improbidade administrativa, e sofrido outros processos, que sempre foram arquivados, e acusado de mandar custear com verbas públicas cursos de funcionários em uma escola de que era sócio. Depois, se tornou ministro do Supremo, tendo participado das campanhas que resultaram na eleição e reeleição de um seu irmão como prefeito de Diamantino, MT, onde sua família é proprietária de terras e de gado e onde ele nasceu. Mendes sempre se mostrou contrário às ocupações dos sem-terra e favorável às privatizações e à restrição dos poderes investigativos do Ministério Público e da Polícia Federal, por ser contra o “Estado policial” – posição que lhe angariou grande apoio entre advogados criminalistas. O ministro Joaquim Barbosa acusou Mendes de manter “capangas” no Mato Grosso. Mendes teve relações muito estreitas com pelo menos dois advogados do Opportunity, Arnold Wald, com quem colaborou em textos para a imprensa e em anteprojetos de lei, e Sérgio Bermudes, no escritório do qual a mulher de Mendes, Guiomar, foi trabalhar ao lado de Elena Landau. Mendes votou a favor da sustação da ação do procurador Luís Sousa contra Dantas, por ter o procurador usado em seu relatório o computador de uma pessoa ligada a Demarco. Finalmente, na sessão de 6 de novembro de 2008, o pleno do Supremo aprovou, por nove votos a um – note-se que estava ausente um ministro, o agora famoso Joaquim Barbosa – os habeas-corpus concedidos por Mendes e considerou rebelde o juiz De Sanctis. O único que votou contra foi Marco Aurélio de Mello, que julgou exemplar o comportamento de De Sanctis e defendeu a tese de que haviam surgido fatos novos que justificavam a segunda ordem de prisão contra Dantas. O vitorioso Mendes, presidente do Supremo e do Conselho Nacional de Justiça, comandou nos meses seguintes uma ofensiva, chamada de “legislação Satiagraha”, que praticamente tornou impossível a policiais algemarem os presos e quase impraticável às autoridades e juízes requererem ou autorizarem interceptações telefônicas. O ministro Eros Grau requereu e conseguiu o envio de tudo que tinha sido apreendido na Satiagraha para que a defesa do Opportunity a examinasse antes da Polícia Federal. Saiu na imprensa um relatório atribuído a um executivo do Opportunity segundo o qual o material incluía indicações de que o presidente Lula havia interferido em favor da compra da BrT pela TIM, fato que a Satiagraha não se teria interessado em invesigar. Houve também uma ofensiva midiática e jurídica para defender a tese de que Queiroz teria se aliado a Demarco e ao jornalista Paulo Henrique Amorim, que seriam os verdadeiros “orientadores” da Satiagraha, transformando-a numa operação “privatizada”. Marginalizado e perseguido por ações judiciais que não deram em nada, o juiz De Sanctis mesmo assim condenou Dantas a dez anos de prisão, mas é decisão de primeira instância e coube recurso.

Na Satiagraha, Queiroz foi substituído pelo delegado Ricardo Andrade Saadi, que fez um relatório não só incriminando Dantas pelas irregularidades que já haviam sido descobertas, como fez novas investigações, inclusive em cooperação com autoridades americanas, que envolveram Dantas em outras irregularidades, como o fato de ter prometido ao Citibank um terço das ações da Telpart em troca de o banco americano investir 22 milhões de dólares, enquanto o Grupo Opportunity entraria com 65 milhões de dólares. No entanto, Dantas manobrou de tal forma que o Citibank apenas teria direito à devolução de seus 22 milhões de dólares, sem direito ao terço das ações da Telpart nem ao lucro com a valorização das ações. No começo de 2009, as autoridades brasileiras conseguiram o bloqueio de 2 bilhões de dólares em contas nos Estados Unidos, Reino Unido e Suíça. Saadi contou ainda com a ajuda da delatora premiada Claudine Spiero, ex-executiva do Crédit Suisse em São Paulo, que tinha chegado a ser presa por ilegalidades, e que resolveu colaborar com a Polícia Federal. Em relação a Dantas ela ajudou a vasculhar irregularidades em que estava envolvido o consultor Roberto Amaral, ligado à construtora Andrade Gutierrez, o qual ajudou Dantas a “internar” 5 milhões de dólares a serem trazidos irregularmente do Exterior para o Brasil, em espécie.

Uma apreensão, em dezembro de 2008 na casa de Roberto Amaral, ligado também a Orestes Quércia e Jânio Quadros no Morumbi, em São Paulo, autorizada pelo juiz De Sanctis, levaria à maior descoberta contra Dantas, aqui descrita pela primeira vez em toda a sua dimensão. Segundo o autor, são e-mails trocados em 2001 e 2002 entre Amaral, de um lado, e Dantas, o presidente Fernando Henrique Cardoso, o candidato José Serra e o tucano Andrea Matarazzo, mais o consultor William Yu. Segundo o livro, em fevereiro e março de 2002, Amaral tentou, para beneficiar o Opportunity, indicar o substituto de Luiz Tarquínio Sardinha Ferro na presidência do fundo de pensão Previ. Em e-mail para FHC, Amaral chegou a dizer, a FHC, que não seria “bom” para o ministro Pedro Malan, para Serra, para Ricardo Sérgio e Eduardo Jorge, indicar Carlos Tersandro, executivo do Banco do Brasil em Londres, que de fato não foi nomeado. Nessa mesma época, Amaral se esforçou para estabelecer que Dantas não havia sido a fonte da denúncia de Antônio Carlos Magalhães, segundo a qual o empresário Benjamin Steinbruch dissera que pagar 15 milhões de reais a Ricardo Sérgio para facilitar a constituição do consórcio com que Steinbruch comprou a Vale do Rio Doce. Em e-mail a Serra, Amaral xinga Serra, diz que Serra precisa dele, mas ele não precisa de Serra, e diz que Dantas é “um grande credor”. Dantas envia e-mail a Amaral para pedir que este esclareça junto a FHC que de fato Dantas fizera pagamentos à Rivoli, empresa ligada a Ricardo Sérgio, mas que Dantas nada tinha a ver com a corrupção de Ricardo Sérgio. Amaral escreve a Dantas para reclamar da suposta incompreensão deste quanto às ações de Amaral para limpar Dantas, junto a FHC e Serra, da acusação segundo a qual Dantas seria a fonte da denúncia de ACM quanto a Ricardo Sérgio. O livro conta detalhes inéditos da reunião entre Dantas e FHC em maio de 2002, que era para ser secreto mas vazou na imprensa. Vinte dias antes do encontro, Dantas diz em email que “a pessoa” (FHC) tem medo que a história toda da privatização da Telemar venha a público. Em outros e-mails, Dantas conta que, em novembro de 2001, já se havia reunido com FHC para pedir que a União, por intermédio da Advocacia Geral, comandada por Gilmar Mendes, substituísse a Anatel na causa da Telemar. E que o apoio de Mendes ao Opportunity se dava indiretamente por meio do procurador-geral da Anatel, Antônio Domingos Teixeira Bedran além do que Mendes estava ajudando o Opportunity a levar as causas para o âmbito da Justiça Federal. E que se deveria agir para que Bedran, na prevista reformulação na Anatel, fosse mantido no cargo, ou mesmo previsto. Bedran estava na Anatel desde 1998, mas durante dois anos continuou integrando um escritório de advocacia que prestava serviços à Telemig, controlada pelo Opportunity, mas em 2001 a Corregedoria da Advocacia Geral da União, apurando o assunto, isentou Bedran de quaisquer suspeitas. Entre 2001 e 2002 a Anatel discutia o conflito entre Dantas e o grupo canadense TTW, pelo controle da Telemig. A Anatel entrou na Justiça ao lado do Opportunity. Nove anos depois, em março de 2011, Bedran disse que nunca discutiu com Mendes qualquer questão relativa ao Opportunity, embora a AGU tenha feito uma petição no processo. Em junho de 2002 Amaral disse a Dantas que conversara com FHC, frisou as pressões que seu grupo estava fazendo sobre o Planalto e falou sobre “grana” para “campanha” e em outros e-mails contou dos esforços para que o governo não desse apoio ao procurador Luiz Francisco, para obter, pela CVM e BC, uma lista dos cotistas do Opportunity Fund em Cayman, segundo denúncia de Demarco. Amaral disse a FHC que, se a lista aparecesse, envolveria nomes de pessoas ligadas ao tucanato. O deputado petista Milton Temer soube que Cayman havia enviado a lista ao BC, mas seu presidente, Armínio Fraga, negou isso. O diretor-relator da CVM lamentou não ter conseguido em Cayman acesso à lista. Luiz Francisco jamais conseguiu a lista. Dantas contou a Amaral que a lista envolvia um filho de FHC. Amaral continuou tratando do assunto com FHC. De um documento apreendido com Amaral se depreende que, além do Opportunity, outros bancos, o Pactual e o Matrix, tinham também fundos irregulares no Exterior, ou seja, os nomes dos investidores brasileiros nos fundos desses bancos poderiam também aparecer. Em e-mail a Serra, Amaral fala da necessidade de, para “preservar o governo”, impedir que Luiz Francisco tivesse acesso a qualquer lista, como de fato Luiz Francisco nunca teve. Dantas pretendeu expor Demarco na imprensa usando e-mails de Demarco contra o Opportunity obtidos por um antigo capitão-de-corveta que se tornou empresário, Carlos Henrique Ferreira Braga, que era ao mesmo tempo amigo de Milton Temer e contratado de William Yu para retirar a canadense TIW do controle da Telemig Celular, manobra que segundo Yu disse a Braga visava beneficiar um grupo português, mas na verdade Yu estava trabalhando para o Opportunity. Amaral e Yu, entretanto, foram contra a exposição de Demarco na mídia. Até 2011, Milton Temer não soube da ligação de seu amigo Braga com esse caso da Telemig. No fim do primeiro semestre de 2002, Dantas rompeu o acordo com Amaral, alegando que os contatos com FHC, Andrea Calabi e Ruy Mesquita, entre outros, não haviam dado em nada, e ele nem fora convidado para um jantar de membros do governo FHC com executivos da telefonia na Embaixada do Brasil em Roma. Amaral respondeu que tivera dificuldades por ser Dantas ligado a ACM e “malfalado”, por isso, nos meios tucanos. O autor do livro, em 2011, procurou funcionários do Planalto, mais Fraga, FHC e Serra, que todos negaram quaisquer contatos ou e-mails trocados com Amaral e Dantas em torno da lista de Cayman. Entretanto, nos e-mails fica claro que Amaral conseguia publicar notas, inclusive contra Demarco, nas colunas de Gilberto di Pierro, o Giba Um, e Claudio Humberto. De todo modo, os e-mails Amaral-Dantas ficaram sob a guarda do procurador-geral Roberto Gurgel, que nunca tomou qualquer providência em relação a eles, muito menos os liberou para divulgação. 

Embora ainda esteja em andamento recurso no Supremo, a 7 de junho de 2011, por 3 votos a 2, o Superior Tribunal de Justiça, a pedido do Opportunity, mandou anular toda a Satiagraha e, principalmente, mandou incinerar toda a documentação por ela apreendida, o que foi feito. Assim como seu ancestral Cícero Dantas combateu o Antônio Conselheiro, agora Dantas, por meio da Agropecuária Santa Bárbara Xinguara, do Pará, controlada pelo Opportunity, combate o MST para defender seus 500 mil hectares em que abate 500 mil cabeças de gado. O autor não conseguiu ouvir Dantas.

Renato Pompeu
No Carta Maior
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A fragilidade da imprensa


O ex-piloto de Fórmula 1 Michael Schumacher não é o herói que a imprensa pintou na última semana. Ele se encontra hospitalizado em estado grave, após sofrer um acidente na estância de esqui de Méribel, nos Alpes Franceses, porque resolveu sair da pista regular e descer por uma área não delimitada, acabando por cair e bater a cabeça em uma pedra.

Nos últimos dias, os jornais e os noticiários do rádio e da televisão repetiram seguidamente que o ex-campeão de automobilismo se acidentou ao tentar socorrer a filha de um amigo, que teria sofrido uma queda. Na quinta-feira (9/1), os jornais brasileiros reproduzem informações de autoridades francesas que investigam o acidente e contam outra versão, com base nas imagens gravadas por uma câmera acoplada ao capacete de Schumaker: ele saiu da pista oficial porque quis, e não há registro de nenhuma outra pessoa na área onde se acidentou.

A história mentirosa foi passada aos jornalistas pela assessora de imprensa do ex-piloto, Sabine Kehm, e comprada pelo valor de face por agências internacionais de informações, emissoras de televisão, jornais e revistas de todo o mundo.

O episódio coloca duas questões interessantes para a análise da mídia. A primeira é a preocupante ascendência de assessores de comunicação sobre a imprensa. A segunda é ainda mais instigante e se refere ao processo avassalador de espetacularização das notícias: no universo hipermediado, a disputa por imagens e dados cada vez mais chocantes produz um contexto no qual a verdade perde espaço para as versões mais eletrizantes.

Nesse caso, qual seria o valor real da informação mediada pela imprensa?

Com a redução do tempo para processamento das informações, somada à necessidade de decidir rapidamente sobre o que é e o que não é notícia, a mídia se coloca num campo tão inseguro quanto o local escolhido por Schumacher para deslizar em cima de um par de pranchas.

Na disputa pela primazia de “furar” a concorrência, os editores optam por divulgar como verdadeiro tudo de interessante que lhes chega às mãos. No caso da história supostamente inventada pela assessoria do ex-piloto de corrida, não havia muito como checar a veracidade da informação, uma vez que Schumacher segue em estado de coma e os repórteres postados em frente ao hospital têm que ser criativos para cumprir suas cotas de relatos diariamente.

Imprensa manipulada

Segundo reportagem distribuída pela Associated Press (ver aqui, em inglês), especialistas afirmam que muitos atletas profissionais e amadores, com câmeras acopladas em seus equipamentos, tendem a priorizar as imagens de seu próprio desempenho, em detrimento da segurança.

Michael Schumacher não é um herói da compaixão e da solidariedade: é um esportista extremamente egoísta e competitivo, viciado em adrenalina, que depois de se aposentar no automobilismo seguiu arriscando a vida em esportes radicais. A câmera em seu capacete foi provavelmente uma das causas de seu acidente.

Não há como ignorar que o episódio revela mais uma vez a fragilidade do sistema da imprensa. Se é possível enganar praticamente toda a mídia do mundo com uma história que seria desmentida com a revelação das imagens gravadas pelo próprio Schumacher, o que não devem estar fazendo as poderosas agências de relações públicas, muitas das quais são associadas a grupos de publicidade, para moldar na opinião do público a reputação de empresas, celebridades, investidores, políticos e bancos?

Aqui no Brasil, onde as redações encolhem e diminui progressivamente a capacidade do sistema da mídia de captar e processar notícias, a maioria dos veículos depende cada vez mais das pautas criadas por assessores de comunicação. No caso do noticiário político, por exemplo, não há como acreditar em critérios objetivos da imprensa ao processar os produtos dos marqueteiros, uma vez que as disputas eleitorais invadiram o cotidiano do jornalismo e se transformaram em pauta permanente. A mesma coisa se pode afirmar do noticiário econômico, claramente atrelado aos interesses político-partidários e condicionado pelos dogmas do mercado.

A imprensa é refém de suas fontes, em parte porque não tem mais capacidade, com seu sistema vertical e linear de processamento, de captar e dar um significado à complexidade da vida contemporânea; em parte, porque também aderiu ao espetáculo midiático, no qual o jornalismo se mistura a todo tipo de interesse particular ou setorial.

O jornalismo tradicional está descendo a ladeira, com uma câmera no capacete.

Luciano Martins Costa
No OI
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Um livro que é a vergonha do Brasil


O livro Operação Banqueiro, de Rubens Valente, é um deprimente retrato do Brasil das elites.

Um mundo de investidores, governantes, operadores de dinheiro, polícia, juízes – de todos os níveis – e dinheiro, muito dinheiro público.

Algo que, em qualquer país do mundo onde houvesse um Judiciário brioso, abalaria a República e aposentaria, de vez, muitos de seus pró-homens.

É a história de como Daniel Dantas, aquele a quem um dia Fernando Henrique Cardoso chamou de “brilhante” construiu seu império.

E como esta construção esteve intrinsecamente ligada ao processo de privatização do patrimônio público.

Curiosamente, este personagem esteve na periferia do momento inaugural do mando neoliberal sobre o mundo: o Consenso de Washington.

Fazia parte de um formigueiro de economistas que se dispunha a traçar novos túneis – mais amplos e mais diretos – para a acumulação de capitais.

Daniel Dantas, a rigor, jamais foi um empresário, mas um financista. Seu mundo não era o da produção, das fábricas, dos empregados, dos produtos e matérias primas reais.

O de fazer dinheiro do dinheiro alheio: tanto dos que a ele entregavam seus capitais – adquiridos à luz e à sombra – pelo favoritismo, pelas pressões, pelos desvãos obscuros do poder e da grana.

E se Daniel Dantas não foi (e não é) um empresário, mais custa a dizer que seja brasileiro.

Seu negócio nunca foi o Brasil ou seu desenvolvimento.

O Brasil sempre foi, ao contrário, o corpo inerte do qual se devia sugar e levar.

E é assim, ainda.

Neste sentido, Daniel Dantas certamente é brilhante.

Sua luminosidade revela um submundo que quase, quase foi iluminado para que a Nação o visse.

Uma possibilidade que acabou pelas mãos de Gilmar Mendes e o nosso inquestionável STF, que mergulhou nas sombras a Operação Satiagraha.

Assassinada a golpes de habeas-corpus, seus herói viram-se convertidos em bandidos levados às barras do tribunal.

Escaparam, é certo, mas a condenação foi a todos os que se atreverem – no jornalismo ou nos cargos públicos – a penetrar nesse serpentário financeiro: “não façam mais isso, ouviram?”

O livro é imperdível e me consome há dias.

Dele, trago a sinopse do editor, aqui. Mais tarde, alguns trechos, para que todos entendam o quão grave é o que se descreve.

E a entrevista de Sérgio Lírio, de CartaCapital, com o autor:

“Sem Gilmar Mendes, Daniel Dantas não conseguiria reverter o jogo”


Com 24 anos de carreira, Rubens Valente é um dos repórteres mais premiados do Brasil. Rigoroso na apuração dos fatos, fiel na interpretação dos acontecimentos, construiu uma carreira respeitada no jornalismo. Durante mais de dois anos, Valente se dedicou à investigação que resultou no livro “Operação Banqueiro” (462 páginas, R$ 44,90, Geração Editorial), um mergulho nos documentos e bastidores da Satiagraha. O subtítulo da obra resume o conteúdo escrito com habilidade e independência: “Uma trama brasileira sobre poder, chantagem, crime e corrupção. A incrível história de como o banqueiro Daniel Dantas escapou da prisão com apoio do Supremo Tribunal Federal e virou o jogo, passando de acusado a acusador”. A análise do livro pode ser lida na edição impressa de CartaCapital que chega às bancas nesta sexta-feira 10. Na entrevista a seguir, Valente fala do papel do então presidente do STF, Gilmar Mendes, na campanha contra a operação policial e a favor de Dantas e desmonta algumas versões mentirosas alimentadas com o único intuito de anular a condenação do banqueiro a 10 anos de prisão por suborno.“Operação Banqueiro” é uma ode à verdade factual e presta um grande serviço à democracia e ao jornalismo.

CartaCapital: Na sua longa carreira de repórter, você se lembra de uma operação tão peculiar quanto a Satiagraha?

Rubens Valente: O aspecto mais grave foi a interdição da investigação, a impossibilidade de as autoridades levarem a apuração inteira até o final. Em termos gerais, a regra do jogo do processo penal no Brasil é simples: o delegado aponta evidências, o procurador acusa ou não, o juiz julga. Ao longo do processo, o réu se defende. Em caso de inocência, após o processo o réu pode buscar a punição dos responsáveis por um eventual erro judicial. Mas no caso  da Satiagraha, o delegado foi proibido de investigar e o juiz foi impedido de julgar. O sistema foi brutalmente bloqueado, de modo a não funcionar, a não concluir sequer a apuração inicial. Ao longo de 24 anos como repórter, li e acompanhei algumas dezenas de inquéritos policiais. Mas nunca vi uma inversão de fatores tão dramática e na dimensão deste caso. Eu só posso qualificar o rumo dos acontecimentos como espantoso. Que dizer de um cidadão que não chega a ser julgado, mas em poucos meses passa a acusador em um processo contra o próprio delegado e o próprio juiz que o prenderam? É o sonho de todo investigado. As instituições estão em risco quando um acusado consegue impedir que a atribuição de um fato criminoso seja devidamente apurada até o fim pelos órgãos públicos. O bloqueio da Satiagraha foi um dos principais motivos do meu empenho neste livro, inclusive financeiro, pois todos os gastos, incluindo as viagens a três capitais e cópias de documentos, foram bancados com as minhas próprias economias.

CC: Daniel Dantas não só conseguiu anular na Justiça a operaçao como leis e regras judiciais foram mudadas depois da ação policial, entre elas o uso de algema (a Lei Dantas), que passou a ser disciplinado. De onde provém tanto poder?

RV: Até 2010, o Opportunity sequer constava nas listas de doadores das principais campanhas eleitorais registradas na Justiça eleitoral. Estranho que uma empresa com tantas relações no meio político não tenha colaborado para eleições até aquele ano. Mas certa vez um advogado de Dantas o descreveu como um indivíduo com boas relações com o Congresso, com os poderosos, uma pessoa “que se vira”.  De fato, as relações de Dantas com políticos parece ser um traço fundamental na sua trajetória. Mas isso não explica tudo. No livro procurei descrever as relações de amizade e acadêmicas de advogados de Dantas e do banco Opportunity com o ministro do Supremo Gilmar Mendes. Que durante a presidência do STF disse abertamente se opor ao que chamava de abusos do Ministério Público e da Polícia Federal. As coisas se juntaram. Sem Mendes na presidência do Supremo, nem todo o prestígio de Dantas teria sido capaz de reverter o jogo de forma tão espetacular. A alteração de regramentos se deveu ao empenho pessoal de Mendes, que chegou a convocar um “pacto social” e chamar o presidente da República “às falas”. Ele se tornou um ator fundamental no processo de desqualificação da Satiagraha. Partiu do Supremo o vazamento de um relatório, depois desmontado pelos fatos, que sugeria a existência de grampo sobre autoridades do tribunal. E partiu de Mendes a decisão de acolher a tese de que o juiz Fausto De Sanctis havia se “insurgido” contra o Supremo pelo simples fato de ter ordenado uma segunda ordem de prisão contra Dantas. Como se um juiz não pudesse julgar de acordo com sua consciência. A ideia de uma suposta “rebeldia” comoveu outros ministros do STF, que chegaram a falar em “união” em defesa do tribunal. Como se o Supremo fosse um clube no qual os filiados devem “defender” uns aos outros, e não meramente analisar fatos e provas.

CC: A introdução de “Operação Banqueiro” cita excessos e equívocos do delegado Protógenes Queiroz. Essas falhas eram suficientes para anular o processo?

RV: A defesa do banqueiro se aproveitou dessas falhas. Mas o delegado muito mais acertou do que errou. Ele acertou ao elaborar e colocar em prática um plano que levou à documentação da oferta de suborno e à apreensão do dinheiro que seria usado como propina para ele e outro delegado do caso. Foi uma situação arriscada, que ele soube concluir com sucesso. Acertou ao conseguir uma ampla interceptação de telefones e de comunicações por internet com ordem judicial que trouxe evidências importantes para a investigação. Acertou ao não se dobrar às dificuldades do inquérito, que tratava de temas variados e de certa complexidade técnica. Esses méritos, porém, foram ofuscados pela intensa campanha de desmoralização que ele e a Satiagraha sofreram em diversos níveis e por diferentes meios. Seus erros, por mais banais, acabaram amplificados à exaustão. Por quê? Porque ele era a peça mais fraca do inquérito, havia sido abandonado à própria sorte pela sua instituição, a Polícia Federal. Qualquer jornalista com alguma experiência em processos judiciais sabe que todo e qualquer inquérito policial, todo e qualquer, repito, contém certa dose de erros, imprecisões ou conclusões sem rigorosa base nos fatos. Mas o trabalho de um delegado é apenas uma parte do processo. O sistema judicial possui freios e contrapesos que permitem que as opiniões do delegado sejam verificadas por outras instâncias, a saber: o Ministério Público, o juiz e os advogados dos réus. O beabá de um advogado criminalista é descobrir esses erros e, por meio deles, tentar obter alguma vitória judicial, na estratégia de convencer o Judiciário sobre as “ilegalidades” da polícia. O jornalista isento que ler com paciência o inquérito da Satiagraha vai concluir que os erros cometidos pelo delegado ao longo da operação, talvez o principal deles tenha sido pedir a colaboração de agentes da Abin sem um respaldo superior da direção da Polícia Federal, jamais teriam a capacidade de levar à anulação da operação. Em situações normais de temperatura e pressão, seus erros poderiam ser censurados e corrigidos, mas não teriam qualquer repercussão em termos de legalidade.

CC: Ao longo da apuração, você encontrou alguma prova ou indício de que o então presidente do STF, Gilmar Mendes, ou algum integrante do tribunal foi grampeado pela Policia Federal ou pela Abin?

RV: Sob vários pontos de vista (jornalístico, técnico, jurídico e mesmo ético), não é mais possível aceitar que essa suspeita continue a ser veiculada como fato, pois todas as imensas e complicadas investigações desencadeadas por diferentes órgãos públicos jamais localizaram qualquer prova material de grampo telefônico ou ambiental sobre qualquer ministro do STF. Eu cuidei de verificar esse ponto quase à exaustão. Ouvi com atenção e a necessária dose de desconfiança integrantes da Operação Satiagraha, li as conclusões das investigações policiais, vi os laudos do material apreendido. Não há uma linha sequer sobre constatação de grampo contra autoridades do Supremo. Esses são os elementos concretos que integram o processo. Fora disso, só mesmo a paranóia, alimentada por um estranho silêncio das autoridades encarregadas de verificar a existências desses supostos grampos. A Polícia Federal e a Procuradoria Geral da República sabem muito bem que não existe prova alguma dos grampos, mas até hoje, mais de cinco anos depois, jamais vieram a público fazer o desmentido cabal. Nunca prestaram contas das investigações. Esse ato de transparência deveria ter ocorrido há muito tempo, pois instituições e figuras públicas foram colocadas em xeque.

CC: E quanto as supostas ilegalidades cometidas pela Abin?

RV: Li e reli várias vezes os diversos depoimentos e documentos que integram a Satiagraha e o inquérito aberto para apurar a participação da Abin. A única conclusão possível é que a Abin não usurpou o papel de investigação consagrado pela Constituição às polícias. A Abin não interceptou nenhum telefonema, não tomou nenhum depoimento e não requisitou ao juiz do caso nenhuma medida de qualquer natureza. Em suma, os agentes da Abin em momento algum conduziram o inquérito. Por todo o tempo a investigação continuou presidida pela autoridade policial, com a devida fiscalização do Ministério Público e sob os olhares do Judiciário. O papel dos agentes da Abin se restringiu a acompanhar e fotografar alvos nas ruas, ler emails interceptados por ordem judicial, transcrever conversas interceptadas com ordem judicial. Ou seja, era um papel meramente auxiliar. Um trabalho braçal. No pen drive do delegado Protógenes foram apreendidos também documentos em word produzidos por agentes da Abin sobre algumas autoridades. Esses papéis, que incluem dados delirantes e informações de difícil comprovação, jamais foram anexados à Satiagraha. São imprestáveis como prova, tanto que o delegado não os juntou ao inquérito. E foi apenas esse o papel da Abin. Por que a eventual participação de agentes da Abin em certo ponto do inquérito poderia ser capaz de anular a operação inteiraa? Não há uma única participação, nem mesmo lateral, de agentes da Abin no episódio do suborno de dois delegados federais. A alegação de que a mera e pontual ajuda de alguns agentes da Abin em qualquer ponto da investigação seja capaz de anular um processo inteiro é inteiramente risível. É, na verdade, um tapa na cara dos cidadãos brasileiros pagadores de impostos e cumpridores das leis. Os advogados falam na teoria importada dos EUA dos “frutos da árvore contaminada”. Diz a tese que um processo gerado por uma prova ilícita deve ser anulado pelo vício na origem. Ocorre que a participação dos agentes da Abin n Satiagraha nada teve a ver com a origem do processo, foi sempre posterior, e portanto a teoria é totalmente inválida.

CC: Dantas já foi condenado fora do Brasil. Cortes britânicas e norte-americanas se referiram a ele em termos duros e o acusaram de fraude, entre outro crimes. No Brasil, a despeito da anulação posterior (agora em analise no Supremo), ele foi condenado em primeira instancia por suborno. Seu nome também tem sido citado nos principais escândalos da era FHC e Lula. Ele continua, porém, a ser tratado em diversos círculos e por considerável parcela da mídia como um “empresário polêmico”. E apenas isso. Pelo seu livro, conclui-se que ele e mais do que polêmico, certo?

RV: Dantas e o banco Opportunity aparecem referidos em diversos escândalos nos últimos anos: grampos do BNDES e as privatizações, caso do extinto banco Banestado, investigação privada da Kroll e a Operação Chacal, CPI dos Correios e o mensalão e, por fim, a Operação Satiagraha. Essa sequência de acontecimentos coloca o banqueiro como um dos principais personagens da história brasileira contemporânea. Tratá-lo como “polêmico” é um resumo pobre e impreciso. Ele foi acusado e investigado não por suas supostas “polêmicas”, mas por fatos e atos que podem e devem ser averiguados.

CC: As relações de Dantas com o PSDB foram retratadas em varias reportagens e livros ao longo das ultimas décadas. “Operação Banqueiro” acrescenta novas e interessantes provas dessa relação umbilical. O banqueiro, por outro lado, sempre se declarou perseguido pelo PT, mas os interesses do Opportunity e do partido se entrelaçam na Satiagraha. Você chegou a buscar explicações para os motivos de os petistas terem saído em apoio ao banqueiro e participarem da força tarefa para desacreditar a operação?

RV: A Satiagraha veio a público em abril de 2008, no mesmo período de intensas negociações entre os fundos de pensão ligados ao PT, a telefônica Oi e o banqueiro com vistas à criação da gigante da telefonia BrOi. Havia um interesse público e manifesto do governo na criação da nova supertele, uma operação que acabou possível após um ato do próprio presidente Lula. Creio que as investigações da Satiagraha chegaram num péssimo momento para os interesses do governo, que queria logo concluir aquela fusão. Isso pode ter contribuído para a extrema má vontade do governo em relação ao inquérito policial. Por outro lado, Dantas havia conseguido se aproximar de petistas históricos. No livro procurei descrever o papel de dois desses petistas no processo de criação da BrOi. Houve um segundo fato: em 2008, a Polícia Federal havia incomodado muitos interesses de políticos de vários partidos, incluindo petistas e integrantes da base aliada. E a “tolerância” do PT e do governo em relação à PF havia chegado ao ponto máximo um ano antes, quando uma equipe de policiais invadiu a casa do irmão de Lula na Grande São Paulo. Por sua vez, Lula havia superado, do ponto de vista da sua imagem diante o eleitorado, o trauma da acusação do mensalão, e não estava tão dependente das ações espetaculares da polícia, que davam ao governo um discurso anti-corrupção.

CC: Dantas recorre a uma teoria conspiratória para se defender. Diz-se vitima da união de interesses políticos e econômicos de integrantes do PT, seu desafeto Luis Roberto Demarco e a Telecom Italia. Ele tem usado esse argumento para tentar influenciar processos contra ele no Brasil.  Nos últimos anos, ele e seus advogados se referem a um inquérito em Milao que investigou e puniu funcionários da Telecom Italia por espionagem. Esse inquérito sempre é evocado em diversos processos pelo Opportunity. Ao longo de sua pesquisa, encontrou alguma evidência dessa conspiração ou alguma relação entre os processos no Brasil e a investigação italiana?

RV: Tive acesso e verifiquei milhares de páginas que integram a investigação realizada na Itália, incluindo os extensos depoimentos dos principais envolvidos. Como digo no livro, o Opportunity enfrenta sérias e talvez incontornáveis dificuldades para demonstrar uma prova objetiva sobre a alegada corrupção de autoridades do Brasil por funcionários da Telecom Italia de modo a “perseguir” o banco brasileiro. Até o momento, essa hipótese não passa disso, uma simples suspeita sem confirmação. Nos autos há apenas referências indiretas e imprecisas. Mas os advogados do Opportunity passaram a manobrar esse fantasma para relacionar a investigação no Brasil à outra da Itália, exigindo que uma acusação só fosse investigada depois da outra. É como se um motorista atropelasse alguém na rua e, quando encontrado pela polícia, alegasse ao juiz: “Lá na Itália uma pessoa disse que esse delegado que me prendeu aqui está me perseguindo. Então eu só posso ser acusado do atropelamento se antes vocês investigarem esse delegado”. É um argumento juridicamente absurdo. Mas que ganhou guarida em variados meios.

CC: No relatório da Satiagraha, Protógenes Queiroz dedica um capitulo às relações de Dantas com a mídia. Como você definiria essa relação?

RV: O foco do meu livro são as provas, acusações e explicações do caso Satiagraha e não o papel da mídia, embora ela seja um personagem presente em toda a narrativa. Eu também entendi que o debate sobre o papel da mídia na cobertura da Satiagraha havia sido extenso e intenso na internet, por meio de blogs e sites e outras publicações, como CartaCapital, que remaram contra a maré, e por isso eu não precisava gastar páginas que poderiam ser usadas para avaliar outros aspectos do caso. Mas ao longo do livro eu procurei demonstrar diversas imprecisões e enganos divulgados pela mídia que acabaram por ajudar as posições do Opportunity. Outro aspecto notável foi ver que boa parte da mídia não viu nenhum problema na paralisação e anulação do caso Satiagraha, considerando-os fatos quase rotineiros, mas que de banais nada tinham.

Fernando Brito
No Tijolaço

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Este é o país

Das atrocidades do Maranhão até a impávida presença de Daniel Dantas e dos serviços a ele prestados por Gilmar Mendes, provas diversas do nosso atraso

Este é o país do futebol e da oligarquia ainda viva em muitos de seus recantos. Este é o país do batuque no morro e das atrocidades ocorridas nestes dias no Maranhão, feudo dos Sarney.

Este é o país do príncipe dos sociólogos, e também aquele que, conforme o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, o Pisa, entre 65 países pesquisados fica em 58º lugar em matemática, 55º em leitura e 59º em ciência, superado pela maioria dos países latino-americanos. Mas o ministro da Educação fala em “grande avanço”, embora tenhamos regredido em matemática e leitura e mantido a mesma classificação em ciência no confronto com a pesquisa de três anos atrás.

Este é o país onde até jornais que apoiaram o golpe de 1964 agora descobrem, tomados de espanto, que os Estados Unidos pretenderam e participaram ativamente da derrubada de Jango Goulart, e mais participariam se preciso fosse. Da mesma forma é o país onde nomes de ditadores e dos seus apaniguados e torturadores, e de quem os apoiou, adornam pontes, viadutos, galerias, avenidas.

Este é o país que anualmente registra mais de 50 mil homicídios, baixa esta próxima do número de mortos americanos ao longo de toda a Guerra do Vietnã. Este é o país que abriga na prisão um certo grupo criminoso chamado PCC, capaz de paralisar a quarta cidade mais populosa do mundo, capital do estado de São Paulo, a ostentar a sua condição de terceira economia latino-americana.

Este é o país onde ministros da Justiça presentes e futuros advogam para o banqueiro orelhudo do Opportunity, pluricondenado no exterior e no Brasil salvo sempre e sempre de qualquer enrascada, a contar com a poderosa e decisiva ajuda, no caso da Operação Satiagraha, do próprio presidente do STF, a corte suprema, à época Gilmar Mendes, habilitado a “chamar às falas” o presidente da República.

Nesta edição, CartaCapital volta a convocar na capa a singular figura de Daniel Dantas, não fosse este o país já estaria na cadeia. DD retorna à berlinda por causa de um livro de autoria de Rubens Valente editado pela Geração Editorial, Operação Banqueiro, incursão certeira por aventuras dantescas.

CartaCapital é certamente a publicação que mais espaço dedicou à personagem nos últimos 15 anos e mantém dele a documentação mais completa. O trabalho pioneiro coube a Bob Fernandes, então redator-chefe, mas sempre repórter. Bob teve um excelente continuador em Sergio Lirio, que o substituiu na chefia da redação e como repórter na cobertura das façanhas de DD.

Há outras citações indispensáveis, a começar por Rubens Glasberg e sua Teletime, na versão impressa e naquela online. Rubens foi o primeiro jornalista alvejado judicialmente pelo banqueiro, que já derrotou em cinco processos de sentença passada em julgado, enquanto o sexto ainda prossegue. Teletime contou também com o trabalho atilado de Samuel Possibon, diretor da sucursal da publicação em Brasília. E não esqueçamos entre os blogueiros o vigoroso, infatigável Paulo Henrique Amorim.

Este é o país de jornalistas, por mais raros, que sabem de suas responsabilidades e buscam a verdade factual. Claro que nem tudo é drama e tragédia. Pelo menos há quem se indigne e resista. Neste momento, receio, porém, que os eventos do Maranhão ganhem a dianteira para simbolizar o nosso atraso aterrador.

Mino Carta
No CartaCapital
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“Quem manda aqui não é a família”: o surto cínico de Roseana Sarney, a Maga Patalójika do Maranhão

“Meu sobrenome é Sarney”

A governadora Roseana Sarney já foi bastante comparada, com alguma razão, a Maria Antonieta. Roseana tem todos os problemas da rainha da França que perdeu a cabeça e mais um: o cinismo.

Numa entrevista coletiva com o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, Roseana subiu nas tamancas depois de uma pergunta que mencionava sua dinastia:

“Quero dizer uma coisa a vocês: isso não existe como família. Eu sou a governadora, eu sou Roseana Sarney. Meu sobrenome é Sarney. Mas eu sou uma pessoa que tenho passado, presente e, se Deus quiser, terei futuro”.

Continuou: “Isso não é a família. E quem está mandando aqui não é a família. Quem está no governo sou eu, que fui eleita em primeiro turno pelo povo maranhense. Assim como representei o Maranhão no Congresso Nacional. Fui deputada e senadora”.

Este último trecho de seu discurso teria ocorrido sob os aplausos de assessores e puxa-sacos: “Então, vocês querem o quê? Querem penalizar a família? Não. Se vocês tiverem de penalizar alguém, eu, Roseana, governadora do Maranhão, sou a responsável pelo o que acontecer no nosso Estado. Muito obrigada”.

Os cumprimentos de seus estafetas foram tão verdadeiros quanto as palavras de Roseana. Todos eles sabem que o estado é um feudo dos Sarney há 50 anos. Isso está evidente nas centenas de prédios públicos, monumentos e vias batizados com o célebre sobrenome, mas não só lá. Está na história recente e triste do Maranhão.

Desde que José Sarney assumiu o governo, em 1966, os parentes tiveram a vida arrumada, uns mais que outros. Um tio que participou daquela campanha, Albérico Ferreira, recebeu como prêmio o cargo de secretário particular. Foi só a primeira de uma série de nomeações. O filho dele, Albérico Filho, e Anselmo Ferreira (outro sobrinho de José) tiveram mandatos  na Assembleia Legislativa.

Sarney Filho está no sétimo mandato como deputado federal.

Fernando Sarney, indiciado pela Polícia Federal por evasão de divisas (conta na China) é proprietário do Sistema Mirante de Comunicação, grupo de emissoras de rádio e TV, e vice-presidente da CBF.

Nelma Sarney, cunhada de José, casada com seu irmão Ronald, foi corregedora do Tribunal de Justiça. Ricardo Murad, cunhado de Roseana, é secretário de Saúde. Provavelmente concorrerá a deputado estadual.

No ano que vem, Adriano Sarney (filho de Sarney Filho), Catharina Bacelar (irmã de Albérico Filho) e Vitor Mendes (filho do prefeito de Pinheiro, Filuca Mendes, primo de Roseana) devem sair para deputado estadual.

Isso sem falar nos agregados. É como uma metástase.

A comparação com Maria Antonieta é inevitável, mas alguém teve um achado tão bom quanto: com seu cabelo escuro como a asa da graúna repartido ao meio, Roseana está cada vez mais parecida com a Maga Patalójika, criação do genial Carl Barks, desenhista dos estúdios Disney.

Maga vive numa encosta do Vesúvio e tem como objetivo de vida roubar a moeda número 1 do Tio Patinhas. Vive cercada de gente boa: dois corvos falantes, Laércio e Perácio, além dos Irmãos Metralha e de Madame Min, sua amiga de fé e irmã camarada.

Em ambos os casos, na França ou no Vesúvio, qualquer coincidência com a realidade é mera semelhança.

"Isso não existe como família"
“Isso não existe como família”

Kiko Nogueira
No DCM
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A imprensa brasileira e o golpe de 1964

A verdade é esta: no momento mais importante da história brasileira recente, a imprensa ficou do lado da ditadura e contra a democracia.

O golpe militar de 1964 foi mais um produto da crise de desestabilização política que os EUA, aliado a forças locais, promoveram na America Latina. Ele se inscreve na lista dos golpes da Guatemala (1954), do Brasil contra o Getulio (1954), da Argentina contra o Peron (1955), entre tantos outros.

Eles foram sempre arquitetados como se fossem levantamentos civis espontâneos contra governos “despóticos, “cripto comunistas”, isolados por movimentos democráticos de resistência na defesa das liberdades ameaçadas. Depois soubemos que são táticas arquitetadas pelas teorias de contra insurgência, que seriam aperfeiçoadas e aplicadas em outros países da própria região, como no Uruguai, no Chile, na Argentina.

É uma engrenagem indispensável a ação da mídia, para campanha insidiosas contras os governos, levantando falsas acusações, mentindo, forjando circunstancias e disseminando um clima de terror, de pânico, entre a população.

Que a democracia estaria em perigo, que as liberdades estão acabando, que a liberdade de expressão esta sendo mortalmente atacada, que a liberdade de culto pode acabar, que a educação estaria sendo alvo de campanhas comunistas de formação da juventude, etc. etc.

A imprensa foi um instrumento ideológico na preparação do golpe e da instalação das ditaduras militares. No Brasil, convocavas as Marchas com a Familia, com Deus, pela Liberdade, distorcia as políticas do governo, pregava abertamente o golpe militar nos seus editorais, apelava ao fantasma do “comunismo”, servindo os ideias da Doutrina de Segurança Nacional na guerra fria.

E fazia tudo – como se conhece hoje pelo acesso que se tem aos jornais daquela época – como se a democracia estivesse em perigo e o golpe militar, que instaurou o regime ditatorial mais selvagem que o pais conheceu, fosse a reinstaracao da democracia. Em nome dos riscos que correria a democracia, atuaram abertamente para que a democracia brasileira fosse destruída.

Sem a imprensa, não teria sido possível a criação do clima de desestabilização, indispensável à intervenção dos militares, como para impor a ordem em uma situação que a imprensa propagava que fosse de falta de controle institucional, de uma situação supostamente pre revolucionaria.

A imprensa foi a porta voz dos projetos de ruptura da democracia e de apelo aos militares para que intervissem. Ela saudou o golpe como a salvação da democracia, se pronunciou abertamente a favor da instauração da ditadura e apoiou a repressão como se fizesse parte desse esquema de salvação. Sem a imprensa, não teria sido criado o clima de desestabilização que tornou realidade o golpe e a ditadura militar.

São crimes contra a democracia, que mancharam irreversivelmente os órgãos de imprensa que deles participaram. No momento mais importante da historia brasileira recente, a imprensa ficou do lado da ditadura e contra a democracia.

Emir Sader
No Carta Maior
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A Imprensa Paulista na Ditadura


Trata-se de um video-documentário que relata o impacto da Ditadura Militar no Brasil sobre a imprensa paulista e seus profissionais. A submissão de alguns, a resistência de outros e a vida daqueles que lutaram pela liberdade de expressão e pela ética em sua profissão. De uma lado, grandes empresas preocupadas com seus patrimônios, de outro, homens que queriam simplesmente escrever, e contra todos, os generais do Exército que não queriam que o povo enxergasse a verdadeira face de um país sofrido e amordaçado.

O vídeo traz depoimentos de professores, historiadores e principalmente de jornalistas que trabalharam naquela época e que sobreviveram às batalhas, censuras e torturas. O intuito é mostrar as dificuldades daquele período e trazer uma reflexão sobre os resquícios dessa ditadura nos dias de hoje e do que deveria se uma imprensa livre.

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O desfile de rancores em um editorial do Estadão

A pretexto de criticar um comentário postado no Facebook do PT sobre o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, o jornal O Estado de S.Paulo aproveita para transformar seu principal editorial de hoje, publicado sob o título “O PT volta a se mostrar”, num desfile de ataques ao partido.

Critica o PT , a quem acusa de ser “fiel a uma tradição inaugurada na esquerda radical”; o ex-presidente Lula e seu “imenso talento de manipulador”; o falecido presidente da Venezuela Hugo Chávez; e até cita “o velho líder esquerdista Miguel Arraes” — avô de Eduardo Campos.

Não faltou ninguém, até para Karl Marx sobrou. Bem no editorial só fica mesmo o governador Eduardo Campos, súbita e apaixonadamente incensado e defendido pelo jornal. Que, como boa parte da mídia, principalmente dos jornalões, há semanas oscila entre manifestar suas simpatias pela candidatura ora do presidenciável do PSB de Pernambuco, Eduardo Campos, ora pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG), o candidato do tucanato ao Planalto este ano.

“O partido acaba de reavivar a sua memória (de uma parcela do eleitorado), chamando atenção para o que há de mais autêntico no seu modo de ser e tratar os desafetos — o rancor”, diz o editorial. Afirma, ainda, que o PT tem uma “peçonha alojada no âmago de sua natureza” e por ai vai… Mas, com essa  linguagem, invocando tanta gente que já morreu, quem é que guarda rancor mesmo nessa história?

No Blog do Zé
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O PSDB e sua "indignação seletiva" para casos de corrupção

A indignação tucana é um primor de seletividade e parcialidade: só há indignação se houver suspeita de malfeito que envolva o PT ou Dilma Rousseff.


Impressiona a indignação seletiva do PSDB com casos de corrupção. Mas a frase, para ser verdadeira, não pode terminar aí.

É que a indignação tucana é um primor de seletividade e parcialidade: só há indignação se houver suspeita de malfeito que envolva, mesmo que com meros sinais de fumaça, o PT ou Dilma Rousseff, seja o governo, seja a pessoa.

Qualquer denúncia urdida na grande imprensa — das rotativas de Veja às empresas de comunicação da Globo, passando pelos jornais Folha de S.Paulo e Estado de São Paulo — que tenha poder de desgastar o PT ou o governo Dilma Rousseff, recebe desdobramentos previsíveis e imediatos por parte do PSDB.

No Senado, a indignação assoma à tribuna juntamente com Álvaro Dias. Na Câmara, perfaz o espetáculo “indignadosinho de sempre” emulado por Carlos Sampaio. Na blogosfera tucana repercute nos textos de Augusto Nunes e Reinaldo Azevedo, ambos abrigados no portal de Veja.

Se é contra o PT/Dilma Rousseff a força da marola é potencializada em tsunami indonésio.

Mas se o assunto é corrupção envolvendo próceres tucanos, o silêncio, além de constrangedor, é sepulcral. É o caso do cartel permeando contratos dos trens de São Paulo. É o caso da máfia do ISS também em São Paulo. É o caso do mensalão tucano, envolvendo o deputado Eduardo Azeredo e dando origem aos esquemas criminosos chancelados por Marcos Valério, personagem-chave e onipresente no chamado mensalão do PT.

Este maniqueísmo tucano é o mesmo maniqueísmo midiático que vem solapando a fugidia credibilidade de veículos de nossa grande imprensa, acima nomeados. A mídia tonifica a indignação tucana com supostos escândalos envolvendo seu inimigo figadal, o PT, e reduz a poucos tons de cinza a repercussão de maracutaias das grossas envolvendo os quase vinte anos de poder tucano em São Paulo, passando pelos governos Covas, Alckmin e Serra.

É tão desigual — e tão partidarizada — a cobertura de uns e de outros que não tardará o dia em que a Associação Nacional de Jornais e o Instituto Millenium irão requerer participação no Fundo Partidário, a par com o PSDB, PT, PMDB, DEM, PSOL.

A defesa do PSDB é valsa de uma nota só. “Tudo é armação. Não passa de perseguição. Isso se chama aparelhamento do Estado”. No caso do “trensalão tucano” nenhum porta-voz pessedebista estranhou que o procurador Rodrigo de Grandis tenha justificado a perda do prazo de cooperação com as autoridades suíças afirmando que havia arquivado numa pasta errada os ofícios do Ministério da Justiça que continham os pedidos de cooperação sobre o cartel da CPTM. E o engavetamento, ôpa!, o arquivamento em pasta errada vem desde 2010. Não é algo por demais estranho? E exótico, mesmo para os padrões brasileiros?

Ninguém viu Álvaro Dias no Senado pedindo instalação de CPI para investigar o cartel dos trens de São Paulo e muito menos propor a convocação do procurador De Grandis para receber aula da Comissão Permanente do Senado sobre a arte de arquivar corretamente documentos. A TV Câmara não transmitiu nenhum discurso estabanado de Carlos Sampaio descendo a lenha em Rodrigo De Grandis. Trens, então, nenhum piado.

Ao mesmo tempo, sempre em conluio com a grande imprensa, o PSDB se fez de morto com a recente operação em que a Polícia Federal apreendeu 445 quilos de cocaína em helicóptero do senador mineiro Zezé Perrela. Optou por fazer gênero indignação zero. Também nenhum chiado. Silentes estavam, calados ficaram. E por quê? Simples, é muito delicado colocar em uma mesma frase palavras como Cocaína — PSDB — Aécio. E no caso do helicóptero o que mais se especulou foi a muito próxima amizade entre Zezé Perrela e o senador Aécio Neves, ambos torcedores apaixonados do Cruzeiro, mas não só isso, atestam muitos perfis nas redes sociais da internet.

Fato é que imagem de helicóptero com quase meia tonelada de cocaína apreendida, sendo de propriedade de um figurão da política mineira e cujo piloto é lotado como assessor de seu filho, deputado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, jamais deixaria de ser capa de revistas semanais e de jornais de circulação nacional.

Mas no Brasil, país que tanto se preza a liberdade de imprensa, simplesmente deixou de ser capa. No caso de Veja, a capa foi sobre games. Peculiar, não? E é assim que com pés e mão de barro desejam empunhar a bandeira da moral e dos bons costumes, onde imoralidade e maus costumes só se pode ver no lado do governo.

Ridículo se não fosse pateticamente risível.

Daniel Quoist
No Carta Maior
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Ok, a piada é velha. Mas atual

Estavam 2 freiras em um ponto de ônibus junto com 2 moças — aparentemente — de vida fácil. Uma dizia para a outra: Conheci um homem mais velho super gente boa. Ficamos amigos, este colar e este lindo anel foi ele quem me deu. Mas, ele é casado, não tenho nada com ele. A outra responde: Eu sei que ainda existem pessoas boas no mundo. Tenho um amigo que paga o meu aluguel e minha faculdade, mas a gente é só amigo mesmo.

Nisso chega o ônibus delas, que vão embora. Até então caladas, as duas freirinhas envergonhadas cochicham: Não te falei? E o Padre Antônio só dá santinho para nós.


Sim, como já adiantei no título, a piada é velha. Mas por quê então seria atual? Simples. E não é que os tucanos — sempre tão generosos com a grande mídia (da qual, claro, são apenas amigos) acusa o PT de ter "um exército pago" nas redes sociais. Veja aqui.

Bobinhos. Nós não passamos de freirinhas...rs

P.S: quem falou não foi um tucano, mas um deputado do PSB, que agora está aliado com os tucanos. Ou seja...

Fernando Frajola
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Charge online - Bessinha - # 2022

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Ignacio Ramonet: Mais duas horas com Fidel

Fidel me esperava na entrada do salão de sua casa, uma peça ampla e luminosa aberta sobre um ensolarado jardim. Aparentava estar em estupenda forma.
Fazia um dia de primaveral doçura, submergido por essa luz refulgente e esse ar cristalino tão característicos do mágico dezembro cubano. Chegavam cheiros do oceano próximo e se ouviam as verdes palmeiras embaladas por uma lânguida brisa. Em um desses “paladares” que abundam agora em La Habana, estava eu almoçando com uma amiga. De repente, tocou o telefone. Era meu contato: “A pessoa que desejavas ver, está te esperando em meia hora. Apressa-te.” Deixei tudo, me despedi da amiga e me dirigi ao lugar indicado. Ali me aguardava um discreto veículo cujo chofer guiou de imediato rumo ao oeste da capital.

Eu tinha chegado a Cuba quatro dias antes. Vinha da Feira de Guadalajara (México) onde estive apresentando meu novo livro Hugo Chavez: Mi primera vida – conversaciones con el líder de la revolución bolivariana. Em La Habana, se celebrava com imenso êxito, como cada ano por essas datas, o Festival do Novo Cinema Latino-americano. E seu diretor Iván Giroud teve a gentileza de me convidar para a homenagem que o Festival desejava prestar a seu fundador Alfredo Guevara, um autêntico gênio criador, o maior impulsionador do cinema cubano, falecido em abril de 2013.

Como sempre, quando pouso em La Habana, havia perguntado por Fidel. E, por intermédio de vários amigos comuns, havia transmitido minhas saudações. Fazia mais de um ano que não o via. A última vez tinha sido em 10 de fevereiro de 2012 no marco de um grande encontro “pela paz e a preservação do meio ambiente”, organizado à margem da feira do livro de La Habana, no qual o Comandante da revolução cubana conversou com uma quarentena de intelectuais.

Foram abordados, naquela ocasião, os temas mais diversos, começando pelo “poder midiático e a manipulação das mentes” do qual me tocou falar em um tipo de palestra inaugural. E não me esqueço da pertinente reflexão que Fidel fez ao final de minha exposição: “O problema não está nas mentiras que os meios dominantes dizem. Isso não podemos impedir. O que devemos pensar hoje é como nós dizemos e difundimos a verdade.”

Durante as nove horas que durou essa reunião, o líder cubano impressionou seu seleto auditório. Demostrou que, já com 85 anos de idade, conservava intacta sua vivacidade de espírito e sua curiosidade mental. Intercambiou ideias, propôs temas, formulou projetos, projetando-se para o novo, para a mudança, para o futuro. Sensível sempre às transformações em curso do mundo.

Quão diferente o encontraria agora, dezenove meses depois? Me perguntava a bordo do veículo que me aproximava dele. Fidel havia feito poucas aparições públicas nas últimas semanas e havia difundido menos análises ou reflexões que em anos anteriores.

Chegamos. Acompanhado de sua sorridente esposa Dalia Soto del Valle, Fidel me esperava na entrada do salão de sua casa, uma peça ampla e luminosa aberta sobre um ensolarado jardim. O abracei com emoção. Aparentava estar em estupenda forma. Com esses olhos brilhantes como estiletes sondando a alma de seu interlocutor. Impaciente já de iniciar o diálogo, como se tratasse, dez anos depois, de prosseguir nossas longas conversações que deram lugar ao livro Ciem horas com Fidel.

Ainda não havíamos sentado e já me formulava uma infinidade de perguntas sobre a situação econômica na França e a atitude do governo francês… Durante duas horas e meia, falamos de tudo um pouco, pulando de um tema a outro, como velhos amigos. Obviamente se tratava de um encontro amistoso, não profissional.

Nem gravei nossa conversação, nem tomei nenhuma nota durante o transcurso da conversa. E este relato, além de dar a conhecer algumas reflexões atuais do líder cubano, só aspira responder a curiosidade de tantas pessoas que se perguntam, com boas ou más intenções: como está Fidel Castro?

Já disse: estupendamente bem. Perguntei-lhe por que ainda não havia publicado nada sobre Nelson Mandela, falecido havia já mais de uma semana. “Estou trabalhando nisso, declarou, terminando o rascunho de um artigo. Mandela foi um símbolo da dignidade humana e da liberdade. O conheci muito bem. Um homem de uma qualidade humana excepcional e de uma nobreza de ideias impressionante. É curioso ver como os que ontem amparavam o Apartheid, hoje se declaram admiradores de Mandela. Que cinismo! A gente se pergunta, se ele só tinha amigos, quem então prendeu Mandela? Como o odioso e criminoso Apartheid pode durar tantos anos? Mas Mandela sabia quem eram seus verdadeiros amigos.

Quando saiu da prisão, uma das primeiras coisas que fez foi vir visitar-nos. Nem sequer era ainda presidente da África do Sul! Porque ele não ignorava que sem a proeza das forças cubanas, que romperam a coluna vertebral da elite do exército racista sul-africano na batalha de Cuito Cuanavale [1988] e favoreceram, assim, a independência da Namíbia, o regime do Apartheid não teria caído e ele teria morrido na prisão. E isso que os sul-africanos possuíam várias bombas nucleares, e estavam dispostos a utilizá-las!”

Falamos depois de nosso amigo comum Hugo Chavez. Senti que ainda estava sob a dor da terrível perda. Evocou o Comandante bolivariano quase com lágrimas nos olhos. Me disse que havia lido, “em dois dias”, o livro Hugo Chavez: Mi primera vida. “Agora tens de escrever a segunda parte. Todos queremos ler. Deves isso a Hugo.”, completou. Aí interveio Dalia para comentar que esse dia [13 de dezembro], por insólita coincidência, fazia 19 anos do primeiro encontro dos dois Comandantes cubano e venezuelano. Houve um silêncio. Como se essa circunstância lhe conferisse naquele momento uma indefinível solenidade à nossa visita.

Meditando para si mesmo, Fidel se pôs então a lembrar daquele primeiro encontro com Chavez no dia 13 de dezembro de 1994. “Foi uma pura casualidade, relembrou. Soube que Eusebio Leal tinha convidado ele para dar uma conferência sobre Bolívar. E quis conhecê-lo. Fui esperá-lo ao pé do avião. Coisa que surpreendeu muita gente, incluindo o próprio Chavez. Mas eu estava impaciente por vê-lo. Nós passamos a noite conversando.” “Ele me contou, eu disse, que sentiu que você estava fazendo ele passar por um exame…” Fidel se larga a rir:

“É verdade! Queria saber tudo dele. E me deixou impressionado… Por sua cultura, sua sagacidade, sua inteligência política, sua visão bolivariana, sua gentileza, seu humor… Ele tinha tudo! Me dei conta que estava em frente a um gigante da talha dos melhores dirigentes da história da América Latina. Sua morte é uma tragédia para nosso continente e uma profunda desdita pessoal para mim, que perdi o melhor amigo…”

“Você vislumbrou, naquela conversa, que Chavez seria o que foi, ou seja, o fundador da revolução bolivariana?” “Ele partia com uma desvantagem: era militar e havia se sublevado contra um presidente socialdemocrata que, na verdade, era um ultraliberal… Em um contexto latino-americano com tanto gorila militar no poder, muita gente de esquerda desconfiava de Chavez. Era normal.

Quando eu conversei com ele, há dezenove anos agora, entendi imediatamente que Chavez reivindicava a grande tradição dos militares de esquerda na América Latina. Começando por Lázaro Cárdenas [1895-1970], o general-presidente mexicano que fez a maior reforma agrária e nacionalizou o petróleo em 1938…”

Fidel fez um amplo desenvolvimento sobre os “militares de esquerda” na América Latina e insistiu sobre a importância, para o comandante bolivariano, do estudo do modelo constituído pelo general peruano Juan Velasco Alvarado. “Chavez o conheceu em 1974, em uma viagem que fez ao Peru sendo ainda cadete. Eu também me encontrei com Velasco uns anos antes, em dezembro de 1971, regressando de minha visita ao Chile da Unidade Popular e de Salvador Allende. Velasco fez reformas importantes, mas cometeu erros. Chavez analisou esses erros e soube evitá-los.”

Entre as muitas qualidades do comandante venezuelano, Fidel sublinhou uma em particular: “Soube formar toda uma geração de jovens dirigentes; a seu lado adquiriram uma sólida formação política, o que se revelou fundamental depois do falecimento de Chavez, para a continuidade da revolução bolivariana. Aí está, em particular, Nicolas Maduro com sua firmeza e sua lucidez que lhe permitiram ganhar brilhantemente as eleições de 8 de dezembro. Uma vitória capital que o afiança em sua liderança e dá estabilidade ao processo. Mas em torno de Maduro há outras pessoalidades de grande valor como Elías Jaua, Diosdado Cabello, Rafael Ramírez, Jorge Rodríguez… Todos eles formados, às vezes desde muito jovens, por Chavez.”

Nesse momento, se somou à reunião seu filho Alex Castro, fotógrafo, autor de vários livros excepcionais. Se pôs a tirar algumas imagens “para recordação” e se eclipsou depois discretamente.

Também falamos com Fidel do Irã e do acordo provisório alcançado em Genebra, no último dia 24 de novembro, um tema que o Comandante cubano conhece muito bem e que desenvolveu em detalhe para concluir dizendo: “O Irã tem direito a sua energia nuclear civil.” Para em seguida advertir do perigo nuclear que corre o mundo pela proliferação e pela existência de um excessivo número de bombas atômicas em mãos de várias potências que “têm o poder de destruir várias vezes nosso planeta”.

Preocupa-o, há muito tempo, a mudança climática e me falou do risco que representa a respeito o relançamento, em várias regiões do mundo, da exploração do carvão com suas nefastas consequências em termos de emissão de gases de efeito estufa: “Cada dia, me revelou, moerem umas cem pessoas em acidentes de minas de carvão. Uma hecatombe pior que no século 19…”

Continua interessando-se por questões de agronomia e botânica. Me mostrou uns frascos cheios de sementes: “São de amoreira, me disse, uma árvore muito generosa da qual se pode tirar infinitos proveitos e cujas folhas servem de alimento para o bicho da seda… Estou esperando, dentro de um momento, um professor, especialista em amoreiras, para falar deste assunto.”

“Vejo que você não para de estudar.”, lhe disse. “Os dirigentes políticos, me respondeu Fidel, quando estão ativos carecem de tempo. Nem sequer podem ler um livro. Uma tragédia. Mas eu, agora que já não estou na política ativa, me dou conta de que tampouco tenho tempo. Porque o interesse por um problema te leva a interessar-te por outros temas relacionados. E assim vais acumulando leituras, contatos e, de repente, te dás conta que te falta o tempo para saber um pouco mais de tantas coisas que gostaria de saber…”

As duas horas e meia passaram voando. Começava a cair a tarde sem crepúsculo em La Habana e o Comandante ainda tinha outros encontros previstos. Me despedi com carinho dele e de Dalia. Particularmente feliz por ter constatado que Fidel continua tendo seu espetacular entusiasmo intelectual.

Ignacio Ramonet
No Limpinho & Cheiroso
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