7 de jan de 2014

Quem e quantos são os ricos na América Latina?

Brasileiro Marcel Telles, número 113 na lista dos mais ricos.
Na região há 111 multimilionários que superam 1 bilhão de dólares de patrimônio. Brasil lidera ranking de ultrarricos, que somam mais de 30 milhões

Há diversas maneiras de estudar a concentração da riqueza na América Latina. Começamos pelo dado divulgado ontem pela agência de notícias Bloomberg sobre os 300 mais ricos do mundo, que em 2013 aumentaram sua fortuna em 381 bilhões de euros (1,230 trilhão de reais) graças à melhoria da maioria das bolsas. Vejamos quais são os maiores milionários da América Latina.

Entre os brasileiros, à frente está Jorge Paulo Lemann, número 34 no mundo, com fortuna avaliada em 22,3 bilhões de dólares. Acionista da cervejaria AB InBev, da rede de fast food Burger King e da fabricante de ketchup Heinz, no ano passado perdeu 2,4% de sua riqueza, enquanto caíam a Bovespa e a bolsa de outros países latino-americanos.

Outros brasileiros também estão na lista da Bloomberg: Joseph Safra (dono do Banco Safra), no posto 92, com 12,4 bilhões de dólares, 1,1% menos que no início de 2013; Marcel Telles (sócio de Lemann), no número 113, com 10,4 bilhões, 2,4% a menos; Carlos da Veiga (sócio de Lemann e Telles), no posto 138, com 8,9 bilhões, queda de 2,4%; João Roberto Marinho (Organizações Globo), no número 165, com 7,7 bilhões, retrocesso de 1,3%; José Roberto Marinho (Organizações Globo), no posto 166, com os mesmos dados que seu irmão; e Roberto Irineu Marinho (Organizações Globo), no número 177, com os mesmos dados de João e José Roberto. Já não aparece mais na lista o empresário Eike Batista, cujas empresas suspenderam pagamentos.

Pelo Chile está apenas Iris Fontbona, viúva de Andrónico Luksic, dona da holding Quinenco, com participações no Banco do Chile, na cervejaria CCU e na empresa armadora CSAV. Fontbona está em 61° na classificação global, com 15,3 bilhões, 0,8% a menos que há um ano. Há dois colombianos: Luis Carlos Sarmiento, no posto 51, com 16,4 bilhões, 1,6% a menos, proprietário do Grupo financeiro Aval, do jornal El Tiempo e da desenvolvedora imobiliária Construcciones Planificadas; e Alejandro Santo Domingo, no posto 79, com 13,3 bilhões, 2,2% a menos, acionista da cervejaria SABMiller, da holding Valorem, da Caracol Televisión, da rede Cine Colombia, da chilena CorpBanca e do banco brasileiro BTG Pactual.

E, claro, na lista também aparecem mexicanos. Carlos Slim está em segundo, atrás do norte-americano Bill Gates, com 72 bilhões. O dono da América Móvil, do grupo financeiro Inbursa, da mineradora Frisco e do Grupo Carso, com interesses na construção, e acionista da Philip Morris, do New York Times, das corporações de luxo Saks e da Caixabank, está agora 2,5% menos rico que há um ano. Alberto Bailleres figura em 58°, com 15,6 bilhões, 0,1% a mais, com o controle do Grupo Bal, com investimentos em mineração (Fresnillo, Industrias Penoles), seguros (Grupo Nacional Provincial, Profuturo) e lojas (Palácio de Hierro), e acionista da engarrafadora da Coca-Cola Femsa.

Desde a última crise de Wall Street, muitos cidadãos no mundo, e sobretudo nos EUA, protestaram contra este 1% da população global que domina a riqueza. Pois os pesquisadores Facundo Alvaredo, Anthony Atkinson, Thomas Piketty e Emmanuel Saez estão elaborando um banco de dados mundial sobre quantos rendimentos acumula esse 1%. Já têm informação de 27 países, incluídos dois latino-americanos: Argentina e Colômbia. No caso argentino, o 1% mais rico fica com 16,7% dos rendimentos. No colombiano, 20,4%.

O que acontece em outros países? A Austrália, 9,1%; o Canadá, 12,2%; a Dinamarca, 6,4%; a Finlândia, 7,6%; a França, 8%; A Alemanha, 12,7%; a Índia, 8,9%; a Indonésia, 8,4%; a Irlanda, 10,5%; a Itália, 9,3%; o Japão, 9,5%; a Malásia, 9,3%; as ilhas Maurício, 7%; a Holanda, 6,3%; a Nova Zelândia, 7,3%; a Noruega, 7,9%; Portugal, 9,7%; Cingapura, 13,8%; a África do Sul, 16,6%; a Espanha, 8,2%; a Suíça, 10,5%; a Suécia, 7%; o Reino Unido, 12,5%; os EUA; 19,3%; e a China, 5,8%. Isto é, dos países analisados, a Colômbia é o de maior concentração dos rendimentos, seguido por EUA e Argentina.

Na América Latina há 111 multimilionários que superam 1 bilhão de dólares de patrimônio. Mas também há muitos ricos com mais de 30 milhões, os considerados ultrarricos, segundo a classificação da consultora Wealth-X e do banco UBS. Nunca houve tantos ultrarricos no mundo como em 2013, segundo o último boletim. Mas assim como houve uma leve queda patrimonial dos mais afortunados da região, também caiu nesse ano a população latino-americana com mais de 30 milhões. As baixas anuais da Bovespa e das bolsas da Cidade do México, de Santiago e de Lima, entre outras, explica as perdas, assim como a desvalorização das principais moedas, do real ao peso mexicano, argentino, chileno e colombiano, passando pelo bolívar venezuelano e pelo sol peruano. A desaceleração econômica ainda arranhou suas riquezas.

País Ultrarricos Patrimônio total (bilhões de dólares)
Brasil 4.015 770
México 3.365 445
Argentina 1.110 150
Colômbia 635 80
Chile 515 65
Peru 470 60
Venezuela 435 55
Equador 265 30
Rep. Dominicana 250 30
Guatemala 245 30
Honduras 215 30
Bolívia 205 25
Nicarágua 200 27
Paraguai 175 25
El Salvador 150 20
Uruguai 120 17
Panamá 115 16
Costa Rica 100 14
Cuba 45  6

Entre 2012 e 2013, o número dos grandes milionários cresceu na maioria dos países latino-americanos, com a exceção do Brasil (-13,5%), da Colômbia (-8%), do Chile (-6,4%), do Peru (-16,8%) e de Cuba (0%). Onde mais aumentou a quantidade em termos percentuais foi na Costa Rica (17,6%), no Panamá (9,5%) e na Argentina (6,7%).

No El País
Leia Mais ►

IPTU de Barbosa em Miami sobe 37%. Mas aí tudo bem...

Joaquim Barbosa: IPTU americano pode subir, paulistano não
O ministro Joaquim Barbosa manteve liminar do Judiciário paulista que impediu o prefeito paulistano Fernando Haddad (PT) de promover reajuste escalonado do IPTU da capital paulista – forma defendida por muitos por promover justiça tributária, ao pretender que os moradores das regiões mais centrais, e os com maior capacidade contributiva, pagassem mais, ao passo que os mais afastados e pobres pagariam menos.

Barbosa deveria ter cassado a liminar, reconhecendo que a deliberação sobre o assunto é da alçada dos poderes Executivo e Legislativo municipais, e que o aumento não tinha nada de abusivo. Em vez disso, o presidente do STF invadiu as atribuições de outros poderes da república e prejudicou milhões de moradores dos bairros periféricos da cidade, que seu IPTU reduzido, com aumentos menores, ou até mesmo isentos.

Prejudicou também a cidade como um todo, pois a arrecadação menor freia investimentos necessários para melhorias que promovam a qualidade de vida da população.

O curioso é que o apartamento adquirido por Barbosa em Miami, nos Estados Unidos – numa negociação ainda envolta em diversas irregularidades –, teve um aumento na taxa equivalente ao nosso IPTU de 37% entre 2010 a 2013. Só no último ano o aumento foi de 20%.

O valor do imposto em Miami em 2013 pago por Barbosa foi US$ 5.582,54 (cerca de R$ 13.230,00). Em 2012 foi US$ 4.640,35. Em 2011 foi praticamente o mesmo valor de 2012. Em 2010, a antiga proprietária do imóvel pagou US$ 4.073,38. Os dados são públicos, disponibilizados pela prefeitura de Miami na internet e podem ser conferidos logo mais abaixo.

Como se vê, o prefeito de São Paulo estava mais parcimonioso do que o prefeito daquela cidade da Flórida. Mas aí, o mandatário do STF não vê problemas, o que parece confirmar que sua decisão, ao proibir a proposta do IPTU de Haddad, foi política e partidária – e se mostrará nociva à grande maioria da população paulistana.

Há poucos dias o colunista da jornal O Globo Rodrigo Constantino escreveu artigo sobre sua passagem por Miami, com elogios ao que ele considerou que funciona melhor lá do que no Brasil. Talvez fosse o caso de se perguntar o quanto o valor cobrado pelo  IPTU contribua para a qualidade dos serviços públicos – lembremos que o apartamento de Barbosa naquela cidade tem 76 metros quadrados.

Uma das coisas que mais atrapalham uma cidade como São Paulo de dar um salto de urbanização e de promoção para a cidadania de todos os seus moradores é justamente o conservadorismo arcaico que de tudo faz para manter seus interesses – e somente eles – atendidos pelo poder público.

iptumiami.jpg
Taxas cobradas pelo apartamento de Barbosa em Miami mostram aumentos
No Blog da Helena
Leia Mais ►

No Peru, governo NÃO ameaça a imprensa


Liberdade em risco: no Peru, governo ameaça imprensa. O presidente Ollanta Humala declarou que a união legal entre grupos de mídia pode vir a ser considerada ilegal. Juristas criticam a interferência do governo etc., etc., etc.

Esta chamada foi publicada na primeira página do Globo, na segunda-feira (6/1). O texto da página interna não tem assinatura, mas tem procedência suspeita: foi enviado pelo diário El Comercio, o jornal conservador que está sendo acusado de montar um oligopólio de comunicação e negócios no Peru ao comprar o grupo Epensa.

Se o jornalão carioca está efetivamente interessado em informar seus leitores com isenção não deveria basear-se apenas numa fonte e ainda mais uma fonte altamente suspeita, comprometida com um negócio que está preocupando não apenas o presidente Humala, mas também os setores mais responsáveis da imprensa peruana.

Além de parte interessada, El Comercio – assim como O Globo – fazem parte de um pool fundado em 1991 composto por onze jornais conservadores da América Latina denominado Grupo de Diários de América (GDA).

O Wall Street Journal também é conservador e sua edição em espanhol é produzida pelo mesmo El Comércio que, não obstante, não brinca em serviço: publicou na sexta-feira (3/1) um relato preciso e equilibrado sobre a situação da imprensa peruana (ver aqui o resumo em português).

O WSJ não omitiu que o Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa, suspendeu sua colaboração no El Comercio durante a campanha eleitoral de 2011 porque o jornal manipulava informações contra o candidato que apoiava, Ollanta Humala (afinal vitorioso). O jornal preferiu jogar descaradamente a favor de Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, condenado em quatro julgamentos (inclusive por violação de direitos humanos) e condenado a um total de 25 anos de prisão.

Vargas Llosa transferiu imediatamente a sua coluna para o La República, de orientação progressista, hoje o mais veemente denunciador do oligopólio montado pelo concorrente de direita.

Concorrência regulada

A matéria do jornalão carioca (reproduzida aqui, no site da Abert), além de favorável à compra da Epensa, tenta colocar o presidente Humala na mesma linha bolivariana de Chávez-Maduro na Venezuela e os Kirchner, na Argentina. É uma grosseira mistificação política, já que Humala representa justamente as forças que se opõem ao populismo pseudoesquerdista e meio fascista de alguns caudilhos continentais.

O oligopólio que se tenta implantar na imprensa peruana com o apoio irrestrito do GDA seria impraticável se o país tivesse um organismo de regulação da concorrência nos moldes do nosso Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), pelo qual o Grupo Globo tem o maior respeito.

Nos Estados Unidos, pátria da livre iniciativa, a Federal Communications Commission (FCC), criada há exatos 80 anos por Franklin Roosevelt, não admite a propriedade cruzada e impõe uma série de entraves à formação de oligopólios nas comunicações.

O presidente Ollanta Humala não ameaçou a imprensa peruana. Considerou legal a compra da Edensa. Mas admitiu que no futuro a operação poderá ser considerada lesiva.

Está acenando com um CADE peruano. E certamente terá o pleno endosso do Globo.

Alberto Dines
No OI
Leia Mais ►

Filha do rei da Espanha acusada por crime fiscal

A filha do rei foi convocada a depor em Palma de Mallorca em 8 de março

Ela é acusada pelo juiz de crime fiscal e lavagem de dinheiro dos negócios do marido


O juiz José Castro decidiu acusar a Infanta Cristina de Bourbon pelos crimes de suposta lavagem de dinheiro na gestão e administração de fundos suspeitos gerados pelos negócios sujos de seu marido Iñaki Urdangarin e contra o Tesouro público. Em um auto de 227 folhas, o magistrado convoca a filha do rei a depor no próximo dia 8 de março às 10h da manhã em Palma de Mallorca, no marco do processo por suposta corrupção do caso Urdangarin, também chamado de caso Nóos.

Nesta causa, o genro do rei Juan Carlos, Iñaki Urdangarin, e seu ex-sócio Diego Torres são investigados por desvio de fundos públicos. Ambos estão sob suspeita judicial depois de embolsarem 5,8 milhões de euros através do Instituto Nóos – sem fins lucrativos – em sua relação com os governos da Comunidad Valenciana e das ilhas Baleares, ambos do Partido Popular. O promotor anticorrupção Pedro Horrach, que não vê elementos para envolver a Infanta, pedirá mais de 12 anos de prisão para o marido dela pelos supostos crimes cometidos, entre eles os crimes fiscais.

O juiz Castro esteve nove meses dedicado de maneira quase que exclusiva na reconstrução do retrato da vida financeira e tributária de Cristina de Bourbon, rastreou suas contas, cartões, faturas e gastos, as propriedades e declarações de imposto de renda. No processo, há uma biografia completa da atividade econômica particular dela entre 2002 e 2012. Em um auto de 227 folhas, o juiz sustenta que existem indícios penais suficientes para contrastar com a protagonista a versão sobre os fatos e sua suposta responsabilidade criminal.

A convocação da também duquesa de Palma – que não tem um foro especial diante dos tribunais – foi feita pelo juiz apesar da oposição aberta da Promotoria Anticorrupção, a Advocacia do Estado e o advogado de Urdangarin e seu próprio defensor. O Ministério Público e os advogados dispensam a filha do rei e defendem que ela não participava das atividades da empresa do marido e ignorava todos os detalhes financeiros. Apenas o sindicato Mãos Limpas reivindica a participação penal da filha do rei no caso.

José Castro argumentou a necessidade de investigar e tomar o depoimento de Cristina de Bourbon a partir de duas reflexões: “evitar que a incógnita [sobre o papel da infanta] se perpetue” e não contradizer a máxima que estabelece que a “justiça é igual para todos”.

Se o Tribunal de Palma não bloquear a imputação e desautorizar o juiz – como já ocorreu numa primeira decisão em abril de 2013 no mesmo sentido – a Infanta Cristina deverá comparecer ao tribunal para ser interrogada em relação à gestão dos fundos de origem ilícita, provenientes dos supostos negócios ilegais do genro do rei, Iñaki Urdangarin, no Instituto Nóos. Também está sob as lupas do juiz a riqueza econômica gerada na sociedade patrimonial Aizoon, propriedade do casal Urdangarin-Bourbon.

O juiz, sobre a base de reiterados relatórios e análises que encomendou à Agência Tributária e à Polícia de Crime Econômico, fundamentou a estrutura de sua decisão com cifras e declarações.

Castro tinha duas saídas depois de esgotar suas investigações sem interrogar a investigada: envolver a filha do rei e convocá-la a depor; ou, do contrário, arquivar definitivamente a parte do processo aberta contra ela devido à inexistência de elementos para articular uma decisão.

O magistrado, por indicação do Tribunal, traçou “uma linha de investigação com tendência a declarar ou descartar a possível comissão” do crime pela gestão de bens de origem ilegal conseguidos por Urdangarin e a sociedade comum Aizoon. A Infanta e seu marido gastaram cerca de seis milhões de euros na compra de seu palacete de Pedralbes e mais de três milhões em obras e decoração. Todas as faturas e itens da reforma foram analisados pelo juiz.

A oposição do promotor

O promotor anticorrupção Pedro Horrach, que há três anos começou o caso Urdangarin com o juiz José Castro, não concorda com o critério do magistrado sobre a Infanta ao sustentar que “não há a existência de indícios incriminatórios dos quais poderiam derivar a imputação”. Além disso, Horrach indica que “não se pode imputar nem castigar ninguém pelo o que é, senão pelo o que fez” e insiste que “por sua suposta participação dos fatos criminosos e não por sua condição”. Por sua vez, o promotor geral do Estado, Eduardo Torres-Dulce, que pelo menos em meia dúzia de vezes explicou nos últimos meses que não há indícios para envolver a Infanta, rejeita um tratamento especial à filha do rei por parte do Ministério Público. “Não há nenhum tratamento privilegiado. Seria um tratamento de desfavor fazer o contrário do que alguém pensa justificadamente em Direito”, garantiu.

O chefe da Casa do Rei, Rafel Spottorno, disse em entrevista concedida à TVE há alguns dias que os três anos de instrução do caso Urdangarin foram “um martírio” devido à enxurrada de notícias. Semanas antes, o juiz Castro havia repreendido duas instâncias governamentais, a Agência Tributária e a Polícia, pela “grande demora” em emitir seus últimos relatórios encomendados sobre a Infanta e a Aizoon, o que motivava um atraso desnecessário na conclusão da investigação judicial.

Castro argumentou a necessidade de interrogar a filha do rei e refletiu que seria “uma clara contradição à prática cotidiana dos tribunais, que em casos semelhantes é muito escassamente provável que prescindissem deste trâmite”, o de não chamar a depor. Ou seja, acusá-la para interrogá-la acabaria com qualquer “sombra de suspeita” de favoritismo sobre ela. Ele já havia se manifestado desta forma em abril de 2013 em sua primeira decisão sobre a Infanta.

Embargo do palacete de Pedralbes

Em novembro, o juiz embargou a mansão de 1.000 metros quadrados em Barcelona, cuja propriedade é compartilhada em 50% cada entre a Infanta e seu marido. A casa foi posta à venda por 10 milhões de euros depois que a família foi para a Suíça. O juiz Castro bloqueou o palacete e outros 15 bens porque o genro do rei e seu ex-sócio, Diego Torres, não pagaram a fiança de responsabilidade civil, solidariamente para ambos, de 6,1 milhões.

O Tribunal reduziu a fiança inicial para não incidir duas vezes o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) , pois Urdangarin alertou à Corte que no caso de um duplo pagamento tributário ele sofreria um “empobrecimento injusto”. Segundo o Tribunal de Palma, a Aizoon era usada de fachada para lavar os fundos ilícitos ou evitar o pagamento de impostos. A Aizoon tinha sua sede no palacete, e os duques tramaram e declararam um aluguel fictício – a si mesmos – que o Tesouro rejeitou como dedução de despesas. A política examinou também as contas da reforma da mansão para saber quem e quais empresas operaram e de que maneira faturaram os trabalhos de “reabilitação, fornecimento e manutenção” da casa em Barcelona.

Aizoon, a sociedade-fachada sem estrutura

A Aizoon era a sociedade na qual o marido da Infanta Cristina colocava centenas de milhares de euros por ano – até mais de um milhão – procedentes de seus contratos com administrações públicas através do Instituto Nóos e as empresas privadas. Um relatório da Agência Tributária sinaliza que em quatro anos de atividade do Nóos (2004-2008), dos quase 10 milhões de euros conseguidos, pelo menos 6,4 milhões acabaram nas arcas de empresas privadas de propriedade de Urdangarin, de Torres ou de ambos. O Tesouro conclui que o conglomerado de empresas privadas de Urdangarin e Torres cruzava faturas “sob conceitos extremamente genéricos ou imprecisos”, por “valores redondos” e com múltiplas duplicidades em relação a fornecedores externos, assim como incongruências, inexistência dos serviços supostamente prestados e “no extremo” de falsificação material da fatura. A tese de defesa do promotor é de que a Infanta não dirigia a Aizoon, apesar de ser acionista e administradora formal, participar de seu conselho e assinar atas.

Entre 2004 e 2006, a Aizoon, empresa de Urdangarin e a Infanta, emitiu faturas a outras empresas do grupo por prestação de serviços, apesar de que naquela época carecia de “estrutura empresarial”. “O resto de entidades [do conglomerado de Urdangarin e Torres] tornam-se meros instrumentos para drenar e distribuir os recursos obtidos através do Nóos entre seus dois proprietários e líderes”.

Fora da agenda de eventos da Família Real

O genro do rei e a filha menor do monarca, a Infanta Cristina, estão fora da agenda de atividades oficiais da Família Real. Com o envolvimento de Urdangarin no caso, sua atuação foi rotulada como pouco “exemplar” pelo Palácio La Zarzuela e ele ficou fora das atividades protocolares. O ex-jogador de handebol do Barça e da seleção espanhola foi chamado a depor como acusado diante do juiz. Ele está acusado e com fiança de responsabilidade civil de 6,1 milhões de euros. Sua mulher também está afastada da agenda de atos da Casa Real, antes mesmo de se ver relacionada com as investigações do escândalo que seu marido começou a protagonizar com seu ex-sócio Diego Torres.

No El País
Leia Mais ►

Como Kennedy apoiou Golpe de 64

Primeiras medidas práticas para ajudar movimento que derrubou Jango foram tomadas em junho de 1962

Entre tantas reportagens que fiz em minha vida – boas, médias, medíocres – poucas me deram tanta satisfação como o texto que você poderá ler abaixo. Eu era correspondente da Gazeta Mercantil, em Washington, quando tive acesso a transcrição de uma gravação de uma conversa de John Kennedy na Casa Branca, em junho de 1962. Num encontro com o embaixador Lincoln Gordon, foi nesta ocasião que Kennedy tomou as primeiras medidas práticas para apoiar o golpe militar contra Jango, como definir o envio do adido militar Vernon Walters ao Brasil. No plano ideológico, Kennedy lembrou que apoiar golpes de Estado era sempre perigoso, pois comprometia o discurso democrático norte-americano mas sublinhou que a ameaça comunista poderia ser um bom pretexto.

Publiquei essa reportagem em julho de 2000. Republico agora, no início do ano que marca a passagem de 50 anos do golpe.

Gazeta Mercantil Sexta-feira, 21/22/23 julho de 2000

Transcrições de conversas entre John Kennedy e assessores revelam que o presidente dos EUA autorizou apoio financeiro aos adversários de Jango

Paulo Moreira Leite, de Washington

Pertence à Universidade de Virgínia a nova glória acadêmica nas pesquisas sobre envolvimento do governo americano no golpe militar de 1964. Sob coordenação do prof. Timothy Naftali, a universidade prepara para a publicação, em livro, das transcrições de conversas ocorridas na Casa Branca durante o governo de John Kennedy. É um projeto caro, demorado e cuidadoso. O lançamento do primeiro volume, chamado John F. Kennedy: As Grandes Crises, Volume 1, está marcado para o início do ano que vem. (início 2001)

Na década passada ocorreu uma primeira divulgação das conversas de Kennedy. Mas era uma versão selecionada , com trechos e frases censuradas. Este jornal teve acesso com exclusividade a trechos inéditos da transcrição integral de um diálogo de 28 minutos no Salão Oval da Casa Branca, em 30 de junho de 1962, cuja autenticidade é assegurada por dois pesquisadores americanos. Estão presentes John Kennedy e o embaixador Lincoln Gordon, além de Richard Goodwin, assessor graduado do presidente americano.

Os três falam da situação política no Brasil. Também conversam sobre os primeiros passos do movimento militar que, um ano e nove meses depois, iria derrubar João Goulart. Pela transcrição, fica claro que Kennedy deu sinal verde para o golpe militar.

Toda pessoa que já tentou decupar uma fita sabe que a tarefa de reconstituir uma conversa envolve um processo trabalhoso e delicado. Nem todas as palavras são ouvidas com clareza, e muitas vezes o significado só pode ser inteiramente compreendido quando se avalia o conjunto da frase e mesmo a conversa por inteiro — e só depois disso se torna possível reconstituir um diálogo com precisão. "Um leigo não entende nada do que ouve", explica um pesquisador que participou dos trabalhos de transcrição. "A qualidade do som é muito ruim, é difícil distinguir as vozes. As vezes se gasta 90 horas para transcrever frases que duram um minuto."

A decupação dos diálogos na Casa Branca foi deita em várias etapas e produziu versões diferentes. A que este jornal pôde ler não é considerada definitiva. É possível que, por intermédio de novas audições, ocorram pequenas alterações de palavra, aqui ou ali. O sentido geral do que se diz, contudo, parece estabelecido.

Em abril de 1962, o presidente João Goulart fizera uma visita a Washington que, dadas todas as circunstâncias de seu início de governo após o tumulto provocado pela renúncia de Jânio Quadros, foi considerada um triunfo. Quando John Kennedy e Lincoln Gordon se encontram na Casa Branca, dois meses depois, o ambiente entre os dois governos já havia piorado tanto que Kennedy resolvera adiar uma prometida viagem ao Brasil.

Também surgiam os primeiros sinais de descontentamento nos quartéis. Antes de ir para Washington, Gordon recebera em audiência o almirante Silvio Heck, um dos mais ativos golpistas da época, que marcara uma conversa reservada para anunciar que havia uma conspiração em andamento. "Ele não pediu apoio", conta Gordon. "Só disse que gostaria que meu governo fosse informado do que estava acontecendo."

No Salão Oval da Casa Branca, um dos primeiros encontros em pauta, conforme a transcrição, envolve as eleições parlamentares no Brasil naquele fim de ano. Falava-se de votos e também de dinheiro. Oito milhões de dólares, aprende-se, foi a quantia estimada ali, para reforçar o caixa de candidatos alinhados com a oposição a Jango. Lê-se uma advertência de Gordon, explicando que, dadas certas característica da política brasileira, não se deveria esperar uma prestação de contas rigorosa sobre o dinheiro — como foi gasto, aonde, com que. Também se fica sabendo que essa soma arrancou uma expressão de espanto, quase protesto, de John Kennedy. A seguir o presidente norte-americano comenta que era muito dinheiro para se torrar numa eleição. A queixa presidencial teve efeito. A CIA acabou liberando a verba — mas não deu tudo o que se pedia. A conta foi de cinco milhões de dólares.

Outro ponto da conversa envolve os primeiros passos da conspiração militar. Gordon começa falando como bom democrata. Explica que é contrário a que os EUA encoragem um golpe. Diz que seria preferível organizar as forças adversárias de Goulart para ir diminuindo os poderes do presidente brasileiro. O embaixador fala que só admite a idéia de golpe em último caso e deixa claro que, em sua opinião, o principal responsável pelo desfecho da crise será o próprio presidente.

Aos poucos, Gordon evolui em seu pensamento, porém. Explica que a melhor política seria que o governo americano deixasse claro que não era necessariamente adversário de uma operação militar, desde que ela fosse realizada para impedir que houvesse uma ruptura capaz de retirar o Brasil da área de influência norte-americana para transformá-lo num satélite soviético. A leitura da transcrição demonstra que John Kennedy acompanha atentamente a conversa, auxilia Gordon em seu raciocínio, complementa e enfatiza as frases do embaixador.

Há um momento em que Lincoln Gordon vai dizer por quê se pode apoiar um golpe militar e cabe ao presidente Kennedy completar a frase, explicando que é para impedir a vitória do comunismo.

Assessor de John Kennedy, e de diversos presidentes que vieram depois, democrata linha dura que depois se mudou para o campo oposto, tornando-se um dos mais ativos e respeitáveis adversários da guerra do Vietnã, Richard N. Goodwin também está presente à conversa.

A transcrição registra uma divergência entre ele e Gordon quanto a natureza do governo João Goulart. O embaixador tem uma visão mais otimista, comparando Jango a Perón. Goodwin compara Goulart a Gamal Abdel el-Nasser, o ditador do Egito, e mesmo a Franz Bronz Tito, patrono da Iugoslávia, ambos líderes de umas das grandes líderes de uma das grandes dores de cabeça da diplomacia americana da época. Encabeçavam o movimento dos não-alinhados.

Goodwin também deixa claro que o movimento militar só terá apoio se tiver um caráter constitucional. Passando as questões práticas, Goodwin se revela preocupado com as plenárias da Organização dos Estados Americanos, nas quais, inquietos com golpes militares e levantes cada vez mais freqüentes, os representantes costumavam aprovar moções de repúdio a esse tipo de intervenção.

A transcrição registra que Goodwin se mostra temeroso de que esse tipo de manifestação da OEA acabe por desencorajar os militares brasileiros. Também se lê que Kennedy concorda com essa opinião.

"Essa transcrição faz todo sentido", diz um militar brasileiro que acompanhou cada passo do golpe. Existem elementos importantes nessa transcrição. Sempre se soube que a CIA havia organizado uma operação clandestina para ajudar a oposição na campanha de 1962 — a gravação indica que essa decisão teve respaldo do próprio John Kennedy. também fica claro que a Casa Branca estava preocupada com o que ocorria no Brasil e nunca deixou de considerar a alternativa militar. Isso não é novidade — mas não deixa de ser curioso observar a franqueza e descompromisso com que o assunto é tratado.

O diálogo inteiro, na verdade, não durou mais do que 28 minutos. Depois dele, o golpe militar já era uma saída considerada em Washington.

Este jornal ouviu longamente o embaixador Lincoln Gordon, um dos personagens centrais desse encontro. Gordon diz recordar-se perfeitamente dessa reunião na Casa Branca mas lamenta não ter tido acesso a transcrição da fita "para poder refrescar minha memória".

O embaixador recorda que é natural que se falasse de temas políticos numa conversa com o presidente mas não se lembra de o encontro ter descido a detalhes como mandar um pacote de dólares para ajudar os adversários do presidente João Goulart. "Isso aconteceu mesmo, todo mundo sabe, mas não sei se foi nessa conversa" diz. "O que se dizia, na época, é que se havíamos feito isso na Itália, em 1948, e poderíamos fazer o mesmo agora." Coincidência ou não, esse argumento relacionado aos italianos apareceu na conversa de 30 de junho de 1962, informa a transcrição.

Foi Goodwin quem lembrou o precedente da ajuda à democracia-cristã contra os comunistas, no pós guerra, no momento em que se falava sobre o envio de dinheiro à oposição brasileira.

Não se deve diminuir nem exagerar o papel de John Kennedy no golpe militar de 1964. O presidente americano não estava falando em dar início a uma operação destinada a derrubar João Goulart. Recebeu a informação de que havia um movimento embrionários nos quartéis e avisou que, sob determinadas condições, essa conspiração podia ser apoiada.

A convicção de que se devia prestar atenção à alternativa já era poderosa na época . Uma das primeiras conseqüências práticas da conversa de 30 de junho foi a nomeação de um novo adido militar. "Kennedy disse que eu precisava ter o melhor oficial que conseguisse," conta o embaixador. O nome definido foi Vernon Walters, então coronel, que falava português e conhecia a cúpula do Exército. Naqueles tempos, o coronel Walters estava servindo na Itália. Por determinação de Kennedy, Gordon dobrou a oposição do Pentágono e do secretário de Defesa, Robert McNamara, conseguindo levar Walters para o Brasil.

No Salão Oval, Lincoln Gordon lembrou que a quantia necessária para financiar a oposição de Jango era de US$ 8 milhões.

Assessor de Kennedy, Richard Goodwin temia que a reação da OEA a um golpe no Brasil pudesse desencorajar os militares.

Paulo Moreira Leite
Leia Mais ►

O descalabro no Maranhão tem nome e sobrenome: José Sarney

Ele

O descalabro no Maranhão tem nome e sobrenome: José Sarney.

As cenas de decapitação de presos, a morte da menina Ana Clara Sousa num ônibus incendiado por bandidos, as desculpas da governadora Roseana Sarney — são símbolos de uma dinastia ruinosa e que precisa terminar.

O legado de 50 anos mandando no estado onde 40% das pessoas vivem no campo é catastrófico: se o Brasil tem 28% de trabalhadores sem carteira assinada, o índice maranhense supera os 50%.

Dos 15 municípios brasileiros com as menores rendas, segundo o IBGE, dez estão lá. Apenas 6% da população estão em cursos de graduação, mestrado e doutorado.

Tem a menor expectativa média de vida de homens e mulheres: 68,6 anos, cinco a menos que a média nacional. Perde só para Alagoas em matéria de mortalidade infantil. Em cada 1000 crianças que nascem, morrem 29 com menos de 1 ano.

O centro histórico de São Luís, com seus azulejos, já foi uma pérola. Hoje, jogado às traças, é melancólico. Menos para Sarney, cuja “fundação” adquiriu ilegalmente o Convento das Mercês, fundado em 1654 pelo padre Antônio Vieira. Como um faraó, ele anunciou que quer ser enterrado lá.

Seu culto à personalidade — estendido a todos os parentes — se manifesta batizando todos os logradouros públicos possíveis. O nome Sarney está em 161 escolas, no interior e na capital.

Há maternidades Marly Sarney (mulher dele), o Fórum Desembargador Sarney Costa, a Ponte José Sarney, a Rodoviária Kiola Sarney (mãe dele), a Avenida José Sarney, o Tribunal de Contas Roseana Sarney e o Fórum Trabalhista José Sarney.

Em 1966, a pedido de Sarney, Glauber Rocha filmou sua posse para um documentário. Enquanto ele faz um discurso vazio, oportunista e calhorda, (“Vamos acabar com a corrupção! Nós não queremos a fome, a miséria, o analfabetismo!”), a câmera mostra a realidade: casas caindo aos pedaços, hospitais imundos, esgoto nas ruas, gente morrendo de fome e de tuberculose.

Sarney vinha como esperança para acabar com o vitorinismo — o reinado de Victorino de Brito Freire, que durava desde o fim do Estado Novo, em 1945. Seu pai era promotor público (o sobrenome, aliás, foi tirado de um almanaque de 1901. O avô, José Adriano da Costa, gostou da história de um menino de 12 anos que sabia a Bíblia de cor. O garoto se chamava Sarney).

Saía um coronel e entrava outro. O que sua família faz no Maranhão há tempos é uma invasão de gafanhotos. Aos 83 anos, José Sarney é da estirpe de políticos que só larga o poder morto. Em 1990, viu que não se elegeria no Maranhão e que no Amapá havia três vagas para o Senado. Saltou lá de para-quedas, para ser reeleito em 1998 e 2006.

Em 2005, disse que esperava que o convento onde descansará seus ossos se tornasse, no futuro, “ponto de peregrinação”.  Pode ser. Mas o povo vai urinar em seu túmulo.


Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Com desaceleração dos Brics, criador do termo agora aposta no 'Mint'

Primeira loja da Ikea na Indonésia mira o mercado de 28 milhões de moradores de Jacarta

Em 2001, o mundo começou a falar dos Brics – Brasil, Rússia, Índia e China (posteriormente com a inclusão da África do Sul) – as potências emergentes na economia mundial. O termo foi cunhado pelo economista Jim O'Neill.

Após a recente desaceleração dos Brics, O'Neill identificou outros quatro países – México, Indonésia, Nigéria e Turquia – que, segundo ele, também podem se tornar gigantes econômicos nas próximas décadas.

No texto abaixo, para a BBC, ele explica o novo grupo, que batizou de Mint ("menta" em inglês).

O que esses países Mint têm de tão especial? E por que só esses quatro países?

Um amigo que acompanha a trajetória dos Brics observou – com algum sarcasmo – que estes países são mais "frescos" do que os Brics. O que eles têm em comum, além de serem países com grandes populações, é que por pelo menos por 20 anos eles terão ótima demografia "interna" – em todos estes países haverá um aumento no número de pessoas capazes de trabalhar, em relação a aquelas que não trabalham.

Este é o desejo de muitos países desenvolvidos, e também de dois dos Brics: China e Rússia. Então, se México, Indonésia, Nigéria e Turquia conseguirem se organizar, alguns poderão atingir o padrão chinês de crescimento econômico de dois dígitos, registrado entre 2003 e 2008.

Tabela: Os países MINT

Outro fator em comum de três destes países, segundo me relatou o ministro mexicano das Relações Exteriores, José Antonio Meade Kuribreña, é a posição geográfica vantajosa em relação aos padrões do comércio mundial.

Por exemplo, o México fica ao lado dos Estados Unidos, mas também na América Latina. A Indonésia está no coração do Sudeste Asiático, mas também possui fortes relações com a China.

E como todos sabemos, a Turquia está no Ocidente e no Oriente. A Nigéria não segue este padrão por ora, em parte devido à falta de desenvolvimento na África, mas isso poderia mudar no futuro, se muitos países africanos pararem de brigar entre si e começarem a negociar comercialmente.

Isso pode ser a base para os países do Mint desenvolverem um clube econômico e político, assim como fizeram os Brics – uma das maiores surpresas no fenômeno dos Brics, para mim. Eu já consigo até sentir o "cheiro" de um clube dos Mints.

O que também percebi, ao falar com Meade Kuribreña, é que a criação da sigla Mint poderia pressionar para que a Nigéria seja incluída no G20 – como os demais países do grupo.

Esse é um assunto que a carismática ministra da Economia da Nigéria, Ngozi Okonjo-Iweala, gosta.
Economista britânico Jim O'Neill visitou países 'Mint'
para um programa de rádio especial da BBC

"Nós sabemos que nossa hora vai vir", diz ela. "Nós achamos que eles estão perdendo algo por não nos incluir."

Meade Kuribreña chega a dizer que, como um grupo de países, os Mints têm mais em comum do que os Brics. Eu já não tenho a mesma certeza, mas é uma ideia interessante.

Economicamente, três deles – México, Indonésia e Nigéria – são grandes produtores de commodities (apenas a Turquia não é). Isso contrasta com os Brics, onde o Brasil e a Rússia são produtores de commodities, mas China e Índia não.

Em termos de riqueza, México e Turquia estão no mesmo patamar, com renda per capita anual de US$ 10 mil. Isso é superior aos US$ 3,5 mil da Indonésia e US$ 1,5 mil da Nigéria – que está no mesmo nível da Índia.

Todos estão abaixo da Rússia (US$ 14 mil) e do Brasil (US$ 11,3 mil), mas ainda assim na frente da China (US$ 6 mil).

Expectativas e realidade

Uma grande questão que me intrigou ao visitar estes países em um especial para a BBC foi: como é o dia a dia real nestes países, comparado com as minhas expectativas e com a opinião consensual?

Quando as expectativas são baixas – como acontece geralmente com a Nigéria, por exemplo (apesar de a visão de investidores na África ser diferente) – é fácil ser surpreendido positivamente.

Mas o oposto também é verdade – e isso pode ser um problema no México, um país sobre o qual os investidores estão bastante animados.

Eu voltei de minhas viagens pensando que não será tão difícil para Nigéria e Turquia surpreender as pessoas positivamente, já que se coloca muita ênfase nos conhecidos pontos negativos – crime e corrupção na Nigéria e governo extremamente incisivo na Turquia.

Sobre a Indonésia, eu tenho menos certezas. Os desafios do país são grandes como eu imaginava, e eu não vi muitas coisas que me dessem a impressão "Uau!". O país precisa ter um sentido comercial além das commodities, e precisa melhorar a sua infra-estrutura.

Na Turquia, visitas a empresas como Beko (fabricante de eletrodomésticos) e Turkish Airlines, a companhia aérea que mais cresce no mundo, definitivamente me fizeram exclamar "Uau!". Na Nigéria, eu tive essa sensação o tempo todo.

A criatividade nigeriana é contagiante, pelo menos para mim, e eu voltei cheio de entusiasmo com diversos investimentos pessoais que pretendo seguir.

Plataformas de petróleo no México
Grande reforma no setor energético foi prioridade para governo mexicano

No México, eu estava preparado para me decepcionar, já que as expectativas são muito altas, mas o presidente jovem e seus colegas de gabinete também joviais estão cheios de determinação para mudar o país.

Se você acha que a ex-premiê britânica Margaret Thatcher simbolizava reformas profundas, estes caras fazem ela parecer um gatinho. Eles estão reformando tudo – de educação, energia e política fiscal à própria instituição do governo.

E os desafios que geralmente assustam as pessoas? A corrupção é um tópico comum nos quatro países, e eu tive diversas discussões interessantes em cada um dos lugares.

Na Nigéria, o diretor do Banco Central, Lamido Sanusi, argumentou que corrupção raramente evita o desenvolvimento econômico – e que o crescimento da economia, acompanhado de melhoras na educação, vai levar a melhor governança e mais transparência.

Estas ideias são importantes de serem ouvidas, como alternativa às formas geralmente simplistas que temos no Ocidente de encarar os fatos. Para muitas pessoas de credibilidade nos países Mint, a corrupção é consequência de um passado fraco, mas não a causa de um futuro fraco – e certamente não é o desafio número um.

Geradores de energia na Nigéria. Foto: AP
Geradores de energia têm alta procura por empresas na Nigéria

Ela está no fim de uma lista que inclui custos de energia, a disponibilidade de energia e, é claro, infra-estrutura.

Resolver a política energética era a maior prioridade no México e na Nigéria, e ambos os países lançaram grandes iniciativas que – se forem mesmo implementadas – vão acelerar os índices de crescimento de forma significativa.

Eis uma estatística impressionante. Cerca de 170 milhões de pessoas na Nigéria dividem a mesma quantidade de energia que é consumida por 1,5 milhão de pessoas na Grã-Bretanha. Quase todas as indústrias precisam gerar a própria energia. Os custos são enormes.

"Você consegue imaginar, ou consegue acreditar, que esse país está crescendo 7% sem energia? É uma piada", diz Akiko Dangote, o homem mais rico da África.

Ele tem razão. Eu imagino que a Nigéria poderia crescer de 10% a 12% se resolvesse só esse problema. Isso faria o tamanho da economia duplicar em seis ou sete anos.

Na Indonésia, o quarto maior país do mundo, eu diria que liderança e infra-estrutura são os maiores desafios, apesar de haver muitos outros. Mas desafios e oportunidades estão geralmente lado a lado.

Turkish Airlines. Foto: AFP
Turquia tem a companhia aérea que mais cresce no mundo

Em uma das favelas de Jacarta, a Pluit, a terra está afundando 20 centímetros por ano por causa do uso excessivo de água. Mas em outros cantos da cidade, o preço dos imóveis está disparando.

Eu falei com um homem que está contruindo a primeira loja de móveis Ikea do país, e ele acredita que um terço da população de 28 milhões da grande Jacarta (a terceira maior aglomeração urbana do mundo) teria renda para consumir na sua loja.

"Nós simplesmente temos certeza de que vai dar certo", diz ele.

Na Turquia, a combinação de política e fé muçulmana com algum desejo de fazer as coisas de forma mais ocidental é um desafio singular. Alguns podem argumentar que os mesmos desafios existem na Indonésia, mas eu voltei de lá pensando que não é o mesmo caso. Em Jacarta, a forma ocidental de fazer as coisas já parece ter sido assimilada – ao contrário da Turquia.

E então: os Mints podem se juntar às dez maiores economias do mundo, com Estados Unidos, China, resto dos Brics e talvez Japão? Eu acho que sim, apesar de que isso ainda pode levar 30 anos.

Espero poder voltar para cada um deles com mais frequência, agora que estou ajudando a colocá-los no mapa, assim como aconteceu com os Brics há 12 anos.

No BBC Brasil
Leia Mais ►

Charge online - Bessinha - # 2021

Leia Mais ►

João Paulo já decidiu: não vai renunciar ao mandato


Parlamentar mais votado do PT em 2010 e o quinto no estado de São Paulo, João Paulo Cunha (PT-SP) pretende continuar exercendo o mandado na Câmara dos Deputados, onde integra a Comissão de Constituição e Justiça; como seu regime é o semiaberto, ele avalia que poderá trabalhar e retornar para dormir na Papuda; mais do que simplesmente preservar o emprego, ele pretende transferir para seus colegas a decisão de cassar um ex-presidente da casa, mesmo cientes de sua inocência no crime de peculato; Joaquim Barbosa levou os demais ministros do STF a condená-lo por comissões pagas por agências de publicidade a veículos como Globo, Folha e Abril; batata quente está nas mãos de Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) e a decisão de Cunha é um gesto político

Nesta terça-feira, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), ex-presidente da Câmara dos Deputados, será preso. Deve chegar a Brasília e se entregar na Papuda.

Isso não significa, no entanto, que ele, quinto parlamentar mais votado em São Paulo nas eleições de 2010 e o campeão de votos no PT, deixará de ser deputado.

Ao menos, por ora. João Paulo Cunha tomou uma decisão de caráter político: não irá renunciar ao mandato conferido pelos eleitores. Com isso, transfere aos colegas e ao presidente da casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), a difícil decisão de cassá-lo.

Na Ação Penal 470, Joaquim Barbosa levou os demais ministros do Supremo Tribunal Federal a condená-lo por peculato na contratação da agência de publicidade DNA. O que Barbosa apontou como "desvio" foram as comissões pagas por veículos – como Globo, Folha e Abril – à agência. Uma prática regular e que permanece intacta em todas as contratações de publicidade públicas e privadas realizadas no Brasil.

A contratação da agência foi alvo de diversos pareceres e até de uma auditoria interna da Câmara dos Deputados, que apontaram o caráter legal do processo. A despeito disso, Cunha está condenado à prisão. 

No entanto, ao não renunciar, ele assume um gesto político e transfere aos colegas a decisão de cassá-lo, mesmo cientes de sua inocência.

Cunha tem também lembrado a aliados que poderá trabalhar, uma vez que o regime semiaberto permite aos presos com emprego fixo – e sem risco à sociedade – a possibilidade de exercer sua atividade e retornar ao presídio para dormir.

Recentemente, ele lançou uma revista apontando todas as contradições do Supremo Tribunal Federal no seu julgamento (leia mais aqui).

Leia, abaixo, algumas acusações feitas por Joaquim Barbosa e as provas documentais apresentadas por João Paulo Cunha, que não foram aceitas pelo presidente do STF e faça, aqui, o download da publicação completa:

ACUSAÇÃO

O ministro-relator do STF, Joaquim Barbosa, afirma, no seu voto condenatório, que o Deputado João Paulo Cunha decidiu contratar uma agência de publicidade para a Câmara dos Deputados. Esta afirmação é correta?

A VERDADE

Não! Pois a Câmara dos Deputados já mantinha, desde o ano 2001, um contrato de publicidade com a agência Denison. Esse contrato foi assinado pela administração anterior do presidente Aécio Neves.

Em 26 de Dezembro de 2002, esse contrato foi prorrogado. Portanto, quando João Paulo tomou posse, na presidência da Câmara, em fevereiro de 2003, o contrato de publicidade estava em vigor e em plena vigência.

ACUSAÇÃO

Segundo o ministro-relator, “a decisão de abrir uma nova licitação foi, efetivamente, tomada pelo réu João Paulo Cunha”. Procede essa afirmação?

A VERDADE

Não! Legalmente, a Câmara não poderia realizar uma nova prorrogação do contrato de publicidade em vigor com a Denison. Então, a Secretaria de Comunicação (SECOM) da Câmara dos Deputados, através de seu Diretor, solicitou a abertura de uma nova licitação.

ACUSAÇÃO

O ministro Joaquim Barbosa conduz as acusações para induzir que foi o Deputado João Paulo Cunha quem assinou o contrato de publicidade da Camara dos Deputados. Esse contrato foi assinado pelo Deputado João Paulo Cunha?

A VERDADE

Não! O contrato foi assinado pela própria administração da Camara dos Deputados, representada pelo seu Diretor Geral. O Edital para a licitação foi aprovado pelo núcleo jurídico da Assessoria Técnica da Diretoria Geral.

ACUSAÇÃO

O ministro-relator afirma que João Paulo Cunha “praticou ato de ofício”, nomeando a “comissão especial de licitação”. Isso é verdade?

A VERDADE

Absolutamente, não! A Diretoria Geral da Câmara explicou com clareza sua opção por esse modelo, “de plano há que se ressaltar a existência de norma legal expressa na lei de licitações, que autoriza tal procedimento administrativo (art. 6o, XVI e art. 51, caput), que, nas condições particulares do que a administração pretendia, mostrava- se como o caminho mais natural e eficiente”. Também esclareceu que o “tipo melhor técnica’ não se descuida do aspecto do menor preço”. Além disto, observou: “no tocante à contratação tratada, a avaliação das propostas era eminentemente técnica e intelectual, necessitando execução por pessoas com capacitação específica e elevado nível de conhecimento da matéria”. Como “os membros da Comissão Permanente de Licitação não eram versados no tema objeto da licitação, demandando a instalação de uma Comissão Especial de Licitação composta por técnicos com habilitação específica na área de publicidade e comunicação social”.

Exatamente por isso, o Ato assinado por João Paulo Cunha, em agosto de 2003, de caráter administrativo, foi uma mera repetição do Ato assinado pelo deputado Aécio Neves quando presidente da Câmara, em junho de 2001, conforme a experiência administratica da própria casa.Aliás, dos cinco membros que compuseram a Comissão Especial de Licitação, indicados em 2001, três continuaram em 2003 (veja documentos ao lado), o que comprova a impossibilidade absoluta de influenciar no resultado final da comissão. Além disso, o presidente das duas comissões foi a mesma pessoa.

Deste modo, fica claro que não há nenhum ato de ofício praticado pelo Deputado João Paulo Cunha que caracterize base jurídica para uma possível condenação. Alias, se houvesse, deveria alcançar os atos praticados pela comissão da gestão anterior. Porque razão o ministro Joaquim Barbosa não viu irregularidade na comissão especial de licitação de 2001 e somente na de 2003?

ACUSAÇÃO

O ministro-relator acionou a Policia Federal (PF) para analisar a licitação e a execução do contrato. Qual o resultado produzido pela Polícia Federal?

A VERDADE

Laudo pericial de exame contábil do instituto Nacional de Criminalistica, órgão da Polícia Federal, constatou que os serviços contratados foram efetivamente executados. Concluíram que o contrato previa cláusulas que garantiam a execução da forma como foi realizado. Esse laudo afirma que~a tercerização dos serviços foi real, ocorrendo em conformidade com a legislação vigente (pg 12). Que a tercerição é da rotina operacional dos contratos firmados entre os orgãos públicos e as agências de publicidade (pg 15). O contrato admitia tercerização de serviços (pg 17). E que os gastos com veiculação correspondem a 65,53% do contrato (pg 19). Veja ao lado.

Observe a situação contraditória que a maioria do STF criou. O único item que o laudo da PF questiona, os serviços prestados pela IFT, o Supremo considerou regular e absolveu o Deputado João Paulo. Por outro lado, todos os outros serviços contratados pela Camara, foram atestados pelo laudo da Polícia Federal, como efetivamente executados. Entretanto a maioria do Supremo ignorou este laudo da PF para condenar. 

DISTORÇÃO DOS FATOS

Nas páginas seguintes (de 31 até 35) serão apresentados para o conhecimento da sociedade, todos os pagamentos feitos pela Câmara dos Deputados. Ou seja: o contrato assinado pela Câmara com a agência SMP&B de R$ 10.745.902,17 foi totalmente executado com os respectivos recebedores dos recursos. Tudo com documentos apresentados no processo. A regra para pagamento à agência é a estabelecida no contrato e a práticada do mercado, inclusive regulado por lei. A regra do contrato é a seguinte: 15% das veiculações (cláusula 9a - parágrafo único), no valor de R$ 948.338,41; 5% dos serviços pagos a terceiros (cláusula 8a - alínea “b”) no valor de R$ 129.519,40 e os serviços prestados pela própria agência (cláusula 8a - alínea “a”), no valor de R$ 14.621,41.

Por esses números, chegamos à conta usada pelo ministro Joaquim Barbosa para condenar erroneamente o Deputado João Paulo Cunha. Ou seja: a Câmara, dentro da legalidade, veiculou os anúncios, pagou os serviços e os contratados pagaram as comissões para a agência. O Ministro Relator contabiliza equivocadamente as comissões pagas pelos veículos à SMP&B como se fossem desvios de recursos. 

Baixe aqui a revista completa (o tempo médio de download é de cinco minutos), com todos os seus documentos.
No 247
Leia Mais ►

Lista de Furnas ainda não deu cadeia para tucanos

Alckmin, Aécio e Serra ficaram livres da Lista de Furnas

O deputado estadual Rogério Correia, que levou xerox da lista à Polícia Federal
Quem pensa que o mensalão do PSDB é o único esquema de corrupção do partido que está impune, se engana. A sigla está envolvida em pelo menos outro escândalo de desvio de recursos que não foi julgado até agora, apesar de a Polícia Federal ter atestado a autenticidade do documento-chave para a denúncia.

O mensalão tucano, recorde-se, ajudou a financiar a campanha de 1998, quando Fernando Henrique Cardoso se reelegeu ao Planalto e Eduardo Azeredo, do PSDB, foi derrotado na disputa pelo governo de Minas Gerais por Itamar Franco.

Nas eleições de 2002, os tucanos promoveram outra forma de arrecadação de recursos para financiar suas campanhas e as de seus aliados. O esquema previa o repasse de dinheiro por meio de licitações superfaturadas da empresa Furnas Centrais Elétricas S.A.

Na ocasião, Aécio Neves era candidato a governador de Minas, Geraldo Alckmin concorria em São Paulo — ambos foram eleitos — e José Serra disputou com Lula o Planalto.

A chamada Lista de Furnas, como ficou conhecida a estratégia de financiamento montada pelos tucanos, rendeu milhões de reais para financiar campanhas. Denúncia da Procuradoria da República no Estado do Rio de Janeiro classifica o esquema como criminoso.

O delator do mensalão tucano, Nilton Monteiro, que também é o responsável pelo vazamento de informações sobre a lista, informou à procuradora Andréa Bayão Pereira, autora da ação do MPF, que os recursos eram controlados em um fundo (caixinha).

A Lista de Furnas, documento de cinco páginas assinado por Dimas Fabiano Toledo, à época diretor de Planejamento, Engenharia e Construção de Furnas e operador do esquema, traz os nomes de mais de 150 políticos beneficiários, assim como uma centena de empresas financiadoras. No alto de cada folha se lê a advertência: confidencial.

“Esses recursos eram controlados em um fundo formado com valores obtidos junto às diversas empresas que mantinham contratos com Furnas” afirma Nilton Monteiro em seu depoimento à procuradora. Ele explica que os empresários que queriam atuar em Furnas tinham de contribuir com esse fundo. “Caso contrário não conseguiriam realizar nenhum contrato na empresa estatal.”

O deputado estadual Rogério Correia (PT-MG), primeiro a entregar uma cópia da Lista de Furnas à Polícia Federal, conta como o esquema funcionava.

Ele obteve o xerox do documento com o delator do mensalão tucano. “Quando ele me passou a Lista de Furnas, eu tomei um susto”, relata.



O laudo da Polícia Federal atesta que o documento é autêntico. O pedido de perícia foi feito pelo parlamentar.

“Na época o Nilton Monteiro, e até hoje provavelmente, não ficou satisfeito comigo. A intenção dele não era entregar (a lista) à Polícia Federal. Ele tinha aquilo para fazer suas negociações com o lado de lá”, afirma ao se referir às tentativas do delator de arrancar vantagens dos ex-aliados tucanos.

Nilton Monteiro, que trabalhou com o empresário Sergio Naya, ex-deputado federal por Minas Gerais, operava nos bastidores da política do estado e tinha intimidade com figuras importantes do ninho tucano nas Alterosas.



Desvio de milhões de reais

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, então candidato ao cargo, o ex-governador José Serra, que disputava a Presidência da República, e o senador Aécio Neves, à época candidato ao governo de Minas Gerais, foram os principais beneficiários do esquema de corrupção milionário do PSDB.

Pela lista, Alckmin foi quem mais recebeu recursos: R$ 9,3 milhões, R$ 3,8 milhões distribuídos no primeiro turno e R$ 5,5 repassados no segundo. Serra foi beneficiado com R$ 7 milhões, R$ 3,5 vieram no primeiro turno e o restante no segundo. Aécio aparece como beneficiário de R$ 5,5 milhões, quantia repassada em uma única parcela.



Alckmin e Aécio foram eleitos, Serra perdeu a eleição para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB) e o deputado federal José Aníbal (PSDB), que disputavam uma cadeira no Senado pelo Rio e por São Paulo, respectivamente, receberam R$ 500 mil cada um.

Eduardo Azeredo (PSDB), ex-governador de Minas e então candidato ao Senado, recebeu R$ 550 mil. Já o candidato a outra vaga no Senado por Minas, Zezé Perrella (PSDB-MG), pai do deputado estadual Gustavo Perrella (SDD-MG), dono da empresa proprietária do helicóptero apreendido pela Polícia Federal, no Espírito Santo, com quase meia tonelada de cocaína, foi beneficiado com R$ 350 mil.

Ao lado do nome de Zezé Perrella e do montante repassado aparece a informação entre parênteses: autorização de Aécio Neves. Esse é o único caso em toda a lista em que se encontra esse tipo de anotação.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSDB), candidato a deputado federal à época, foi beneficiário de R$ 250 mil. O ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), que também disputava uma cadeira na Câmara dos Deputados, recebeu R$ 100 mil.

Luiz Antonio Fleury Filho, ex-governador de São Paulo, eleito na época deputado federal pelo PTB, também se beneficiou do mesmo valor. Quantia equivalente foi entregue ao filho do ex-delegado da Polícia Federal Romeu Tuma, o ex-deputado federal Robson Tuma (PTB-SP), assim como ao ex-presidente da Força Sindical e ex-deputado federal Luiz Antonio de Medeiros (PL-SP). Ao senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) foram destinados R$ 50 mil.

Antonio Carlos Pannunzio, eleito em 2012 prefeito de Sorocaba, aparece na lista como recebedor de R$ 100 mil para sua campanha a deputado federal.

O delator do mensalão petista, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), também foi beneficiado pelo esquema de corrupção tucano. Recebeu R$ 75 mil.

Valdemar Costa Neto, condenado no mensalão petista, recebeu R$ 250 mil do PSDB por meio do desvio fraudulento de recursos.

O capitão do Exército e deputado federal pelo Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro (PP), crítico dos direitos humanos e árduo defensor da ditadura militar, foi beneficiado com R$ 50 mil do esquema corrupto desencadeado pelos tucanos.

Andrea Neves, irmã do senador Aécio Neves, também recebeu R$ 695 mil, para repassar a comitês e prefeitos do interior do Estado de Minas Gerais.

O deputado Rogério Correia explica que além do laudo da Polícia Federal atestando a veracidade da Lista de Furnas, há também o relatório da Procuradoria da República no Estado do Rio de Janeiro, de janeiro de 2012, que chegou à mesma conclusão por outras vias.



Empreiteiras e bancos

As construtoras Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, OAS e Odebrecht são algumas das empreiteiras que financiaram o esquema de corrupção do PSDB. O Banco do Brasil, Bank Boston, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú, Opportunity e Rural são algumas das instituições financeiras que, segundo a lista assinada por Dimas Toledo, injetaram dinheiro no esquema.

A Alstom e a Siemens, envolvidas mais recentemente no esquema de superfaturamento de trens do Metrô e da CPTM comprados pelo governo tucano paulista, são citadas na lista. As agências de publicidade de Marcos Valério, DNA e SMP&B, também contribuíram.

Petrobras, Vale do Rio Doce, CSN, Mitsubishi, Pirelli, Eletropaulo, Gerdau, Mendes Júnior Siderúrgica, General Eletric e Cemig figuram entre a centena de empresas públicas e privadas que aparecem como financiadoras.

Os fundos de previdência privada dos funcionários da Petrobras, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, respectivamente, Petros, Previ e Funcef também são mencionados. A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, Firjan, foi outra que destinou recursos para o esquema tucano, de acordo com o documento.

O Tribunal de Contas da União analisou contratos de Furnas e detectou direcionamento em favor de determinadas empresas, além de superfaturamento nas licitações.

Uma auditoria da Controladoria Geral da União, realizada em 2006, constatou falhas no processo licitatório de Furnas: fraudes, desperdícios e abusos, além de projetos anti-econômicos e inadequados às necessidades da empresa.

Mesmo com todas as evidências, o processo sobre a Lista de Furnas está parado, segundo o deputado Rogério Correia.



O esquema operado por Dimas Toledo o fazia tão poderoso que Aécio Neves, eleito governador de Minas em 2002, negociou com o então presidente Lula a permanência de Toledo na direção de Furnas.

“O que deixou a bancada do PT bastante insatisfeita, porque Dimas Toledo arquitetava tudo contra o PT, especialmente no sul de Minas”, frisa o deputado Correia.

Curiosamente, o filho de Dimas Toledo, Dimas Fabiano Toledo Jr., deputado estadual em Minas, aparece na lista como tendo recebido R$ 250 mil.



Gênese do mensalão petista

A lista de Furnas revela financiamento “democrático”. Embora organizada por gente ligada ao PSDB, irrigou as campanhas de uma ampla base de políticos, de vários partidos. Em tese, seriam aqueles que ajudariam a dar sustentação parlamentar a um eventual governo de José Serra, não tivesse o paulista sido derrotado por Lula em 2002.

Apesar da derrota de Serra, Alckmin e Aécio se elegeram governadores, garantindo a influência política dos tucanos em dois estados-chave da federação.

A “democracia” na hora de destinar verbas de campanha, expressa na lista de Furnas, não era exatamente uma novidade nos esquemas de Minas Gerais.

Em 1998, mais de 30 candidatos do Partido dos Trabalhadores no estado foram beneficiados com recursos do outro esquema do PSDB, o “mensalão tucano” — que a mídia corporativa já chamou de “mensalão mineiro”.

Relatório da Polícia Federal, de 172 páginas, sobre o mensalão do PSDB aponta que os candidatos do PT receberam R$ 880 mil pelo esquema.

Rogério Correia é contundente na crítica aos colegas de partido.

“Pra acertar contas de campanha, receberam recursos de Eduardo Azeredo, já no esquema do mensalão. Isso teria sido negociado via Walfrido dos Mares Guia… Achei isso lamentável. O PT já começava naquela época a ter uma relação com a instituição onde se confundia com as artimanhas que a institucionalidade coloca, com o cretinismo da institucionalidade”, alfineta.



Para Correia, o PT acreditou que a impunidade que existia para o PSDB iria existir também para o partido.

“Isso é uma ilusão. A palavra melhor é ilusão de classes… O PT ‘quebrou a cara’ por uma visão errada do ponto de vista ideológico de setores do partido que acham que a luta de classes acabou… Isso é uma ilusão terrível que tem dentro do PT”, fustiga.



Pela semelhança entre o esquema do assim chamado “mensalão tucano” e o que seria revelado mais tarde, envolvendo o PT, Rogério Correia critica a atuação tanto do Supremo Tribunal Federal, quanto do Ministério Público Federal.

As duas instituições, diz o deputado, deram tratamento diferenciado aos partidos envolvidos.



Rogério Correia exemplifica com o caso do publicitário Marcos Valério.

No mensalão petista, foi julgado em Brasília, apesar de não ter mandato e, portanto, foro privilegiado.

O julgamento conjunto teria facilitado a apresentação da tese de uma grande conspiração para comprar apoio político no Congresso, possibilitanto assim condenar um número maior de réus, inclusive os acusados de liderarem o esquema: o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, o ex-presidente do PT José Genoíno e o ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares.

Já no mensalão tucano o tratamento dispensado a Valério foi muito diferente.



O absurdo maior é que, segundo Rogério Correia, Valério trabalhou ao mesmo tempo para os dois partidos.

“Operava para o PSDB em Minas e para o PT nacionalmente. O mesmo esquema de caixa dois era usado pelos dois partidos. Olha o absurdo”, afirma.



A opção ideológica do Supremo Tribunal Federal e do Ministério Público Federal é, na opinião de Rogério Correia, o fator que impediu a apreciação do relatório assinado pelo delegado da Polícia Federal Luís Flávio Zampronha de Oliveira, que investigou o mensalão tucano.

O relatório oferece, segundo Correia, provas muito mais contundentes de que, no caso do PSDB, houve uso de dinheiro público para financiar campanhas eleitorais.

O dinheiro saia de estatais mineiras como a empresa de energia Cemig e a de saneamento Copasa.

No mensalão petista até hoje se discute se o dinheiro da Visanet, que teria abastecido o esquema, era público ou privado.

Pior que isso foi o tratamento desigual para iguais.

No caso dos tucanos, o processo foi desmembrado. Os políticos que receberam dinheiro do esquema escaparam. Considerou-se que eram beneficiários de caixa dois.

Ficaram para julgamento em Brasília apenas os operadores que tinham foro privilegiado, dentre eles o ex-presidente do PSDB e hoje senador Eduardo Azeredo, que aguarda julgamento.

Também foram denunciados na capital federal o ex-vice governador de Minas e hoje senador, Clésio Andrade, e o ex-ministro do governo Lula Walfrido Mares Guia, que deve ser beneficido por prescrição por causa da idade.



Rogério Correia refuta a expressão “mensalão”, cunhada por Roberto Jefferson, delator do esquema petista.

Para o deputado mineiro, os dois esquemas envolveram caixa dois para sustentação de campanhas eleitorais — e não para a compra de votos.

“Também eles [base aliada do PSDB] votavam com o governo, sempre votaram com o Azeredo, na Assembleia Legislativa, e com o Fernando Henrique, na Câmara Federal, como é o caso do Aécio Neves. Se é pra dizer que era compra de votos, todos seriam…”, ressalta.

Ele não nutre expectativa em relação à punição de políticos do PSDB.

Lembra que o ex-presidente da Câmara, deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP) foi condenado pelo STF tendo como principal prova o fato de que a mulher do parlamentar fez um saque em dinheiro na boca do caixa; já políticos do PSDB que receberam dinheiro do mensalão tucano diretamente em suas contas, com comprovantes de depósito e tudo, ficaram livres do processo.



Clique abaixo para ouvir a íntegra da entrevista de Rogério Correia:



Lúcia Rodrigues, em Belo Horizonte, especial para o Viomundo
Leia Mais ►

O IPTU de São Paulo e a Agenda Conservadora

NY vai cobrar o cafezinho sabotado em SP

Novo prefeito de NY, Bill Blasio, prometeu taxar os endinheirados à razão de um cafezinho com leite no Starbucks por dia (US$ 3) para melhorar a vida dos pobres

Endinheirados nativos adoram elogiar os ares cosmopolitas de NY — embora se sintam espiritualmente melhor em Miami.

A mídia irradia preferências semelhantes.

O democrata Bill de Blasio, recém empossado prefeito de NY, ganha espaços e confetes por aqui pela ecumênica trajetória pessoal.

Blasio, um progressista à esquerda de Obama, e cuja eleição teve o apoio do Partido da Família Trabalhadora, que se autodefine como uma espécie de PT dos EUA, é casado com uma poetiza negra.

Chirlane não escondeu na campanha a adesão ao lesbianismo nos anos 70.

A cerimonia de casamento entre ela e Blasio foi oficiada por pastores gays.

Filhos afrodescendentes, Dante e Chiara, fizeram do candidato, que apoiou a causa sandinista na juventude e escolheu a América Latina como objeto de estudo acadêmico, um símbolo de afirmação dos valores multirraciais.

A cabeleira black power exuberante de Dante tornou-se uma espécie de certificado de garantia dos compromissos progressistas do pai.

O conjunto galvanizou a Nova Iorque.

Formada por 26% de latinos e 25% de negros, a metrópole de 8,7 milhões de habitantes está cindida em duas cidades pela linha da desigualdade.

Blasio prometeu acabar com o conto dickensiano de um povo repartido em dois pelo dinheiro e o urbanismo excludente.

Artistas de seriados famosos trabalharam com afinco para arrastar votos de um pedaço da classe média branca e dar a esse projeto o apoio esmagador de 73% do eleitorado.

Não é pouca coisa.

Desde 1993 a população de NY não entregava a prefeitura a um democrata.

Temas como o alcoolismo e o suicídio do pai de Blasio - com quem ele rompeu e adotou o sobrenome da mãe, ademais de vídeos da filha discutindo abertamente a questão das drogas, reforçaram o apelo contemporâneo da candidatura.

Mas não só.

Tido como bom administrador, seu antecessor, o bilionário Bloomberg, provou que é possível ser eficiente na gestão sem alterar o apartheid de uma metrópole.

Há cinco anos ele se alarga em NY e em toda a sociedade norte-americana mergulhada na pior crise do capitalismo desde 1929.

A relação da Forbes de 2013, que atualiza o ranking dos 400 norte-americanos mais ricos do país, ilustra a expansão do fosso.

A riqueza total dos ‘400’ aumentou quase 20% sobre 2012.

Passou de US$ 1,7 trilhão para US$ 2,02 trilhões de dólares em dezembro último.

Equivale ao valor do PIB da Rússia.

Estamos falando de apenas 400 cidadãos e uma fortuna equiparável à oitava economia do globo, ou 15% do PIB dos EUA.

Mas a coisa é pior que isso.

Em 2012, pela primeira vez desde 1917, os 10% mais ricos passaram a abocanhar mais da metade de toda a renda norte-americana (50,4%, segundo pesquisa feita pela Universidade de Berkeley).

Só há dois precedentes históricos no gênero: antes da Depressão de 1929; e antes da falência do Lehman Brothers, em 2007, gatilho da presente crise mundial.

A política de injeção de liquidez de Obama 0151 — lapidada pelos interditos do Tea Party — paradoxalmente ajudou a consumar esse feito.

A renda média nos EUA cresceu 6% no triênio finalizado em 2012.

Dentro dessa média, os ganhos do 1% mais rico aumentaram mais de 31% no período (recuperando assim quase completamente as perdas decorrentes da crise, da ordem de 35%).

Os demais 99% tiveram um ganho de apenas 0,4% em três anos. Estão hoje 12% abaixo da soleira em que se encontravam antes do colapso neoliberal.

O Ocuppy Wall Street tinha razão.

Não surpreende que muitos de seus integrantes tenham se engajado na vitória a Blasi, que emerge assim como uma segunda aposta, mais à esquerda, depois do fiasco de Obama.

O cabelo black power de Dante deu confiabilidade a quem batia forte na tirania do 1% sobre os 99%.

Mas Blasio não foi eleito apenas pela fiança familiar.

Para investir em escolas e serviços destinados aos subúrbios –que empobreceram adicionalmente desde 2007, ele a prometeu elevar o imposto sobre os ricos que lucraram com a crise.

Quem ganha entre US$ 500 mil e US$ 1 milhão pagará um adicional em taxas municipais de US$ 973 por ano em sua gestão.

Significa menos que US$ 3 por dia – ‘um cafezinho com leite no Starbucks’, alfinetou o novo prefeito.

Não há como não enxergar nessa aritmética um espelho do que se passa na São Paulo dirigida pelo prefeito Fernando Haddad.

Financiar a tarifa congelada dos ônibus na capital, modernizar o transporte coletivo com 150 kms de corredores exclusivos (as faixas já passam de 290 kms) e investir em educação e saúde exigiriam um aumento do IPTU com atualização de valores venais defasados pela supervalorizados nos últimos anos.

Aqui como lá os ricos arcariam com a maior fatia do adicional arrecadado.

1/3 dos moradores mais pobres não pagariam nada, conforme a proposta original de Haddad.

Os demais, em média, contribuiriam com um adicional de R$ 15,00 ao mês.

Cinquenta centavos ao dia.

Para somar o preço de um café com leite no Starbuscks em São Paulo ( R$ 3,90 no Shopping Eldorado, na capital), seriam necessários quase o equivalente a oito dias de IPTU.

O prefeito Haddad foi ao STF solicitar apoio a uma contribuição 12 vezes inferior a de NY, vetada aqui pelo matrimônio de interesses que uniu a Fiesp, a mídia, endinheirados, senhorios e o PSDB.

Ao contrário da cumplicidade selada entre afrodescedentes e Blasio, Haddad encontrou na Suprema Corte alguém que age e pensa aqui como aqueles que, em passado sombrio, destinaram a seus semelhantes a senzala e a chibata.

E depois delas, as periferias conflagradas das grandes metrópoles.

Cerca de R$ 100 milhões arrecadados com o novo IPTU iriam financiar a construção de creches nos bairros mais pobres de SP, onde 150 mil crianças aguardam na fila.

Continuarão a aguardar enquanto os endinheirados, seus ventríloquos e serviçais tomam seu cafezinho no Starbucks.

Quem vai fazer o serviço?

A sedimentação da agenda conservadora para 2014 envolve a adesão de um pedaço da esquerda e o silencio desfrutável de outro.

O padrão foi testado e bem sucedido no cerco ao reajuste do IPTU em São Paulo.

Os interesses atingidos só tiveram sucesso em sabotar a medida graças à omissão dos que sabiam o que estava em jogo, mas preferiram silenciar.

É essa capacitação ao exercício da cumplicidade que a emissão conservadora opera de forma explícita nos dias que correm.

Colunistas e editores espetam sinais para ordenar o fluxo na direção almejada: a seringa do piquete onde se conta o rebanho.

Quantas cabeças teremos para oferecer aos mercados?

Nas manchetes e fotos, mais que nos textos, espetam-se os ferros com as iniciais do dono.

O ponto de encontro tem data e local definidos: 12 de junho de 2014, 17 hs, estádio do Itaquerão, onde o Brasil abre a Copa do Mundo diante da Croácia.

Durante um mês, até 13 de julho, novas oportunidades se abrem: há jogos distribuídos nas principais capitais do país.

Alguém duvida que a tabela será explorada na emissão conservadora como ponto de encontro de gente ansiosa para mostrar o seu valor a fotógrafos e cinegrafistas generosos?

Textos gordurosos como os autores, tortuosos como seus valores, arregimentam as adversativas do léxico para assegurar o verniz ‘jornalístico’ à panfletagem.

Não importa o tema da coluna.

O objetivo predefinido é dar suporte a logos, títulos e manchetes que disseminem ordem unida.

‘Em 2014, vem prá rua você também’, convocava-se na Folha no dia de Natal; ou o soberbo, ‘Não vai ter Copa’, abraçado neste domingo por um vulgarizador do mercadismo no mesmo veículo.

À falta de projeto defensável à luz do dia — arrochar 70% do país para lubrificar 30% só rende votos em saraus elegantes — escava-se o vazio em busca de chão firme.

De joelhos e com as unhas, se preciso for para satisfazer os sinais vindos das direções de redação.

O tesouro cobiçado é tanger multidões à frente única em curso para enfrentar Dilma em outubro próximo.

Procura-se, em suma, alguém que faça o serviço que os cabedais do conservadorismo, sozinhos, são incapazes de entregar.

É esse vazio adicionado de urgência que reduz colunistas à função rastaquera de insuflar a indignação sem explicar a fórmula do elixir que vai contemplá-la.

Se quiser, o público alvo – as organizações com capacidade de mobilização - tem elementos para confrontar o aceno dos charlatães com os ingredientes da gororoba historicamente despejada por eles na goela do país – não raro com funil e camisa e força.

A sedimentação golpista de uma parte da opinião pública brasileira não ocorreu por acaso nos últimos anos.

Trata-se de obra deliberada de gente bem paga — e eficiente, diga-se, na arte de popularizar generais redentores, santificar consensos neoliberais, incensar janios, collors, demóstenes, carlinhos cachoeira, joaquins, serras e assemelhados.

O florescimento desse acervo não prosperaria sem o trabalho prestimoso dos que esculpem o seu busto em bronze de credibilidade e veneração.

É um equívoco dissolver essa assinatura numa edulcorada predisposição da sociedade ou de parte dela para ser canalha ou 'egoísta'.

Ainda que exista a receptividade estrutural em certas camadas, é indispensável o fermento que transforme o instinto em história.

Incensar os joaquins e Demóstenes; satanizar os lulas e respectivas agendas é uma parte do bicarbonato requerido na receita.

Sem ele a massa não cresce.

Antecedentes referenciais testemunham o notável desempenho da emissão conservadora na tarefa de sovar a massa.

Escondidas até agora nos arquivos da Unicamp, para onde foram exiladas pelo próprio Ibope, pesquisas de opinião feitas às vésperas do golpe de 1964 mostram, todavia, que o labor midiático sozinho não leva a receita ao ponto.

Os dados dissecadas em entrevista recente do pesquisador Luiz Antônio Dias à revista Carta Capital, transcrita no blog de Luis Nassif , detalham o paradoxo:
— em junho de 1963, Jango tinha 66% de aprovação em SP;

— em março de 1964, caso fosse candidato no ano seguinte, ele teria mais da metade das intenções de voto na maioria das capitais;

— o apoio à reforma agrária, então satanizada pelas elites, era superior a 70% em algumas capitais;

— na semana anterior ao golpe, as pesquisas mostravam que Jango tinha 72% de aprovação popular — entre os mais pobres, o índice chegava a 86%.
O mesmo conservadorismo que hoje torce por protestos na Copa colocaria então milhares de pessoas nas ruas de São Paulo, em 19 de março de 1964, na Marcha da Família Com Deus pela Liberdade.

O movimento ecoado na mídia como a evidência cabal do isolamento (inexistente) do governo não saltou espontaneamente das páginas da imprensa para o asfalto.

Foi preciso organizá-lo meticulosamente.

A mídia cumpriu a sua parte, como o faz hoje, legitimando a ‘revolta da sociedade e da família contra o desgoverno’.

Mas coube a Igreja e às ligas de senhoras católicas, com forte participação de esposas de empresários, botar a mão na massa.

Senhoras da elite usaram sua ascendência para intimar famílias operárias, sobretudo as mulheres, a integrarem e divulgar o movimento.

Quase 50 anos depois, a regressão conservadora não dispõe mais da estrutura capilar de mobilização de que lançou mão às vésperas do golpe de Estado que prendeu, torturou, matou, decretou a censura à imprensa e às artes e colocou os partidos e sindicatos na ilegalidade.

Escribas do jornalismo isento sugerem que podem superar as mais dilatadas expectativas no esforço para reeditar o mutirão cinquentenário na presente intersecção entre a Copa do Mundo e as eleições presidenciais de outubro.

Para que ele signifique alguma coisa de equivalente ao papel legitimador desempenhado pela Marcha da Família, quando Jango tinha mais da metade das intenções de votos — como Dilma as tem — alguém terá que puxar o cordão.

A coalizão conservadora espera que cada um cumpra o seu dever.

Ou seja, que um pedaço dos setores progressistas insatisfeitos com o governo acenda o forno a 180º e reforce a levedura na massa.

Uma vez pronto o bolo, vá para casa, e deixe a coisa com quem entende de comer o Brasil.

A ver.

Saul Leblon
No Carta Maior
Leia Mais ►