5 de jan de 2014

Médico cubano supera desconfiança no interior da Bahia

No fim de agosto do ano passado, 400 médicos cubanos desembarcaram no Brasil, dando início ao principal programa do governo na área de saúde – desencadeando fortes críticas e gerando um amplo debate nacional.
O Mais Médicos encerrou 2013 com 6.658 profissionais atuando em mais de 2 mil municípios Brasil afora, dos quais cerca de 5,4 mil são cubanos.
As reações acirradas no momento inicial – quando profissionais cubanos foram vaiados e chamados de "escravos" por jovens médicos aeroporto de Fortaleza – parecem ter sido contrabalanceadas, de outro lado, pela chegada desses profissionais a cidades que careciam de assistência médica, conquistando os que sentem na pele os benefícios do programa.
É o caso da comunidade de Viveiros, na periferia de Feira de Santana, na Bahia, onde a BBC Brasil acompanhou a chegada do médico cubano Isoel Gomez Molina em novembro.
Dose
Isoel convocou uma reunião na igreja da comunidade para se apresentar aos moradores e teve uma recepção calorosa.
Mas, no dia seguinte, ele se tornou um dos casos mais emblemáticos da resistência que o programa ainda desperta.
O médico foi denunciado por uma receita prescrevendo 40 gotas de dipirona (o princípio ativo da Novalgina) a um menino de um ano, uma quantidade excessiva para uma dose única.
A receita caiu nas mãos de uma médica que a postou com críticas nas redes sociais e dentro de 24 horas a notícia estava em todos os portais – médico cubano é suspenso por suspeita de superdosagem.
Divergência por dose receita marcou início do trabalho de Isoel (à dir)
"Eu fiquei muito chateado. Nunca tinha imaginado algo assim. Senti muita impotência, mas não podia fazer nada", lembra.
Foram longos dias fechado no hotel em Feira de Santana esperando profissionais do Ministério da Saúde investigarem a situação e esclarecerem o caso.
A conclusão foi de que não houvera erro médico. Ele adotara o padrão comum em seu país de receitar a dose completa do dia, mas explicara oralmente à mãe da criança a dosagem correta por vez – 10 gotas de quatro em quatro horas.
Ela própria intercedeu a seu favor, e sua suspensão gerou um abaixo-assinado em Viveiros pela volta do Dr. Isoel, que foi recebido com festa.
"Foi muito difícil, mas acho que eu saí mais forte e o programa também. Eu não estava preocupado com o meu nome, e sim com a repercussão que isso teria para o programa", diz.
"Sabia que muitas pessoas iam aproveitar isso para dizer que os médicos do programa não tinham competência para trabalhar. Modéstia à parte, eu me sinto plenamente competente para atuar na atenção básica, pois é venho fazendo em 16 anos de carreira."
Resistências e capacitação
O Ministro da Saúde Alexandre Padilha acompanhou o caso de perto e diz que ficou claro que a mãe estava bem orientada e que não houvera problema.
Ele diz que o caso reflete um sentimento de xenofobia e de arrogância de profissionais que "não querem tolerar a vinda de profissionais estrangeiros para atender a nossa população".
"Nós sabemos que vamos enfrentar resistências, mas vamos até o fim", diz Padilha. "A nossa maior motivação é conhecer a realidade das populações que não têm médicos."
Mas críticos do programa dizem não ter nada contra a vinda de médicos estrangeiros, e sim condenam o que consideram uma regra de exceção para que o Mais Médicos funcione, dispensando-os da revalidação dos diplomas obtidos em instituições internacionais.
"O principal risco é que nós não sabemos se esses médicos estão capacitados ou não, se seus diploma são verdadeiros ou não e não podemos fiscalizar o seu trabalho adequadamente", diz Sidnei Ferreira, presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj).
Ele diz que o Brasil não tem carência de médicos mas sim de uma estrutura básica necessária e de condições de trabalho atraentes.
"Por que há menos médicos em determinadas regiões? Porque não há concurso público, não há salario compatível com a responsabilidade do médico nem um plano de carreira necessário para a sua manutenção", critica.
Assim como outros conselhos regionais, o Cremerj apoia a ação que questiona a constitucionalidade do Mais Médicos no Supremo Tribunal Federal, ajuizada pela Associação Médica Brasileira e pela Confederação Nacional dos Trabalhadores Universitários Regulamentados.
Mas Padilha afirma ter "plena segurança jurídica" em relação ao programa e reafirma a meta de ter 13 mil profissionais espalhados pelo até março deste ano. Os próximos grupos de estrangeiros desembarcam ainda neste mês.
Aliviar sofrimento
"Nada justifica não se esforçar para levar um médico para uma comunidade. Em qualquer situação, ele faz a diferença. Ele alivia o sofrimento, ele cuida das pessoas, e sua presença ajuda a organizar o sistema de saúde no local e a atrair mais recursos", diz.
A crise ficou para trás e Dr. Isoel já está imerso na nova rotina em Viveiros. Ele conta ter ouvido de um amigo que, depois de tudo que aconteceu, seria melhor ele mudar de posto.
"Nem pensar. Agora me sinto ainda mais comprometido com essa comunidade", diz, contando ter se emocionado com a recepção festiva que teve ao voltar para a unidade de saúde.
Ele pondera que sempre haverá pessoas falando mal das coisas e outras que enxerguem seus benefícios.
"Eu, da minha parte, me sinto muito útil no que estou fazendo, ajudando essas pessoas que estão precisando da minha atenção e dando o melhor de mim", diz.
No BBC Brasil
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Maranhão pode estar a caminho da intervenção


Governadora tem até segunda para explicar violência nos presídios do Maranhão

Brasília - A governadora do Maranhão, Roseana Sarney, tem até segunda-feira (6) para prestar informações ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, sobre as providências tomadas para evitar novas mortes no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís.

Este ano, dois detentos morreram no interior do presídio. Um deles foi encontrado morto em uma cela de triagem com sinais estrangulamento e o outro foi vítima de golpes de uma arma artesanal com ponta de ferro aguda, semelhante a uma lança (chuço), durante briga de integrantes de uma facção criminosa.

No ano passado, 60 pessoas morreram no interior do presídio, segundo relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O documento foi produzido com base em inspeções no sistema prisional do Maranhão, em parceria com o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), presidido por Janot. O pedido de informações foi encaminhado pelo procurador-geral no dia 19 de dezembro, após a morte de cinco presos – três deles decapitados - em uma briga entre facções no Centro de Detenção Provisória de Pedrinhas.

As respostas da governadora poderão subsidiar um eventual pedido de intervenção federal no estado devido à situação dos presídios. O possível pedido também levará em conta o relatório do CNJ, que destaca a necessidade de se intensificar a cobrança, para que as autoridades maranhenses cumpram as recomendações feitas pelo próprio Conselho, pelo CNMP e pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Em dezembro, também em razão das mortes provocadas por brigas entre facções rivais em Pedrinhas, a OEA pediu ao governo brasileiro a redução imediata da superlotação das penitenciárias maranhenses e a investigação dos homicídios ocorridos.

Na noite de ontem (3), foram registrados quatro atos de vandalismo envolvendo incêndio a ônibus em São Luís. Na avaliação das autoridades, os ataques foram em reação às medidas adotadas para combater a criminalidade nas unidades prisionais da capital, que receberam reforço da Polícia Militar no fim de dezembro. O governo maranhense informou que identificou os mandantes e os executores dos atos.

Em nota divulgada em seu site, o governo reafirma que "não compactua com atos de violência e que continua agindo em conjunto com todos os setores e órgãos que atuam na defesa dos direitos humanos e daqueles que promovem a garantia da justiça e segurança", e informa que a Polícia Militar está adotando providências complementares nas unidades prisionais de São Luís, entre elas "a ampliação da vigilância com videomonitoramento, a intensificação das revistas nas celas e o aumento da fiscalização interna com o Batalhão de Choque e da fiscalização externa com rondas".

Thais Araujo
No Agência Brasil

* * *

A situação no Maranhão é responsabilidade de quem o administra há décadas

Um dos principais fatores para impedir alguém de cometer um delito não é o tamanho de sua punição, mas a certeza de que será pego. Com as baixas taxas estaduais de elucidação de homicídios, por exemplo, não admira que o fator dissuasivo não cole muito por aqui.

Por isso, é paradoxal que políticos em campanha repitam a mesma promessa de mais policiamento ostensivo nas ruas para combater a criminalidade. Mas não soltem uma interjeição sobre a necessidade de melhorar a investigação policial, com mais recursos financeiros para a área, melhores garantias profissionais e, é claro, combate à corrupção que grassa em parte dessa estrutura.

Atear fogo em um ônibus com passageiros em uma avenida de grande circulação não é um ato de loucura, mas uma ação pensada para criar pânico na população e questionar a capacidade de controle do poder público. E a pouca certeza de ser pego influencia nesse cálculo, claro. Cálculo que esteve presente ao acender ônibus-tochas em cidades de todo o país no ano passado.

O exemplo do Maranhão é paradigmático. A penitenciária de Pedrinhas se tornou terra de ninguém, um depósito superlotado de gente, juntando presos de facções criminosas rivais no mesmo espaço. Daí, decapitações, esfolamentos, estupros de mulheres da família dos presos. Mais recentemente, demonstrações de força com a queima de coletivos nas ruas da capital São Luís, com passageiros dentro, aprofundaram a sensação de que a lacuna deixada pelo governo é maior do que se pensava.

Não consigo acreditar na justificativa do poder público de que isso é uma reação às suas políticas de segurança. Isso é uma consequência de sua incapacidade de dar respostas.

Pois, sobre vários sentidos, o Maranhão é um Estado seletivo: está presente para garantir a qualidade de vida de alguns poucos em detrimento da maioria da população.

Prova disso é que ele apresenta a menor expectativa de vida na média de homens e mulheres – 68,6 anos – de acordo com dados divulgados pelo IBGE. São cinco anos abaixo da média nacional (73,76). E possui a segunda pior taxa de mortalidade infantil do país, apenas atrás de Alagoas, com 29 crianças com menos de um ano mortas para cada mil nascidas vivas. A média nacional é de 16,7 para 1000.

As três piores cidades em renda per capita pertencem ao Maranhão, de acordo com o recentemente divulgado Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) – Marajá do Sena (R$ 96,25), Fernando Falcão (R$ 106,99) e Belágua (R$ 107,14). Na média dos municípios, o Estado possui o segundo pior IDHM do país, perdendo apenas para Alagoas – outra terra devastada pelo coronelismo.

O Maranhão, sob o domínio dos Sarney por décadas, não só permaneceu nas piores posições nos indicadores sociais, mas também viu suas terras serem desmatadas e poluídas, latifúndios crescerem, trabalhadores serem escravizados e assassinados, comunidades tradicionais serem ameaçadas e expulsas, a educação ser sucateada, os meios de comunicação ficarem concentrados nas mãos de poucos políticos. Até juiz já foi flagrado com trabalho escravo pelo governo federal em sua fazenda, mas acabou sendo absolvido pelos colegas por lá.

Isso é assustador, considerando que o Maranhão é um Estado rico. Possui jazidas minerais e gás natural. Água doce em abundância. Partes de seu território estão na Amazônia e no Cerrado. Tem localização privilegiada, com um porto mais próximo dos Estados Unidos e da União Europeia do que os do Sul e Sudeste.

Por que então não foram construídos/finalizados outros presídios antes? Por que a polícia não foi realmente empoderada para investigar crimes e o sistema penitenciário para gerir aquela balbúridia? Por que recursos não foram gastos na implementação de políticas públicas de segurança, mas também de educação, saúde, transporte, cultura, habitação, alimentação..?

Alguns vão colocar a culpa na própria população que os elege. Não é tão simples – Sarney teve que fugir e virar senador pelo Amapá para não ficar fora do jogo político em um determinado momento. E sua filha, Roseana, já perdeu uma eleição para o governo. Ou seja, há focos de resistência na forma de importantes movimentos sociais e uma sociedade civil cada vez mais atuante.

O problema é o desalento de boa parte dos mais pobres, que – infelizmente – já não acreditam que a política possa fazer diferença em sua vida. Independentemente de quem lá estiver.

Para muita gente que vive no Maranhão, a vida se equilibra entre um “salve-se quem puder'' e um “não tenho nada a perder''.

Leonardo Sakamoto
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Como a Veja se tornou uma olavete

Os discípulos tomaram a Veja

Bandeira de Mello fez uma das melhores definições de 2013, pela brevidade e pela acurácia: Joaquim Barbosa é um homem mau.

Poderia estar na lápide de Barbosa: “Foi um homem mau”. Seria justo. Finalmente Joaquim Barbosa e a justiça se encontrariam, e juntos permaneceriam per omnia seculae seculorum.

Existem coisas na mídia para as quais a definição de Bandeira de Mello sobre JB se aplicam perfeitamente.

São muitas, aliás. Mas nenhuma marca se equipara hoje, em maldade, à revista Veja. Sua alma é má. Os defeitos são inumeráveis, e as virtudes simplesmente desapareceram.

Se alguém acredita no céu ou no inferno das revistas, a Veja vai rumar direto para os braços de Lúcifer. É uma revista canalha. Já que falamos de lápides, poderia estar escrito isso na da Veja: “Foi uma revista canalha”.

Nos dias de hoje, a canalhice se traduz em coisas como a caça impiedosa, assassina e abjeta a Dirceu.

No último almoço de final de ano da Abril em que Roberto Civita estava vivo, um grupo de editores da Veja ria e vibrava, com o sadismo do celerado, com a perspectiva de ver Dirceu preso.

Ninguém estava ali discutindo como esticar a vida de uma revista que vende cada vez menos e capta cada vez menos anúncios na Era Digital, por razões óbvias.

Não, os cérebros estavam concentrados em antecipar o sofrimento de Zé Dirceu, e se regozijar com isso como era comum com oficiais nazistas nos fornos dos campos de concentração: a alegria na miséria alheia.

Onde a Veja se perdeu?

Ela não foi sempre esse horror, essa escória. Trabalhei lá em boa parte dos anos 1980, e era uma revista admirada pelos brasileiros. Conservadora, mas digna como é, por exemplo, a Economist.

Você pode fazer jornal ou revista de direita sem descer à ignomínia abissal. Você pode ser de direita sem ser um predador.

Burke, o grande liberal inglês, é uma pequena mostra disso. Num de seus grandes ensaios, Burke reprova a Revolução Francesa pela cavalheiresca razão de que homem nenhum acudiu Maria Antonieta quando o povo revoltoso a insultou em Versalhes.

Mas a Veja enveredou pelo direitismo predador. Não é Burke que a governa em seu conservadorismo, como acontece com a Economist. É Olavo de Carvalho, o mistificador que se autoproclamou filósofo depois de ler os astros como astrólogo.

A Veja é hoje uma olavete.

A presença de Olavo de Carvalho é visível a 10 mil quilômetros. Basta ver as contratações feitas nos últimos meses. Dois discípulos entusiasmados de Olavo de Carvalho foram incorporados aos quadros da revista: Rodrigo Constantino, o ‘reaça-econômico’, e Felipe Moura Brasil, o ‘reaça-engraçado’.

Isso para não falar em Lobão, o ‘reaça-iconoclasta’, outra aquisição recente da revista que repete bobagens de Olavo de Carvalho como se estivesse citando Platão.

Olavo de Carvalho ocupou a Veja. Por que não contratá-lo diretamente, em vez de povoar a revista com seguidores pedestres?

Por covardia.

A revista não quer correr o risco de colocar Olavo de Carvalho em pessoa em suas páginas, por ser um nome universalmente abominado e desprezado fora de um pequeno círculo de extrema direita – aquele para o qual a Veja fala hoje.

A Veja 2013 é uma olavete.

Repito: é uma olavete. E da pior espécie: a olavete envergonhada e covarde.

Paulo Nogueira
No DCM
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O economista Milton Friedman e as drogas


Neste vídeo, o economista laureado com o Nobel, Milton Friedman, defende a liberação da produção, comércio e consumo de todas as drogas, mostrando através de argumentos econômicos e argumentos baseados em direitos individuais que a proibição não funciona e acaba com a vida de muitos inocentes.

Transcrição e tradução de Talysson Kleinowski.
Revisão e legendas de Juliano Torres.

www.libertarianismo.org

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"Não vai ter Copa"

Manifestações marcadas para 
começar no dia 25 podem embaralhar 
previsões para este 2014

"NÃO VAI TER COPA" é o mote de protestos marcados para o dia 25 de janeiro, em todas as capitais, ou pelo menos nas "capitais da Copa". Seria um ensaio da reestreia dos protestos, iniciativa de alguns daqueles grupos que desencadearam as manifestações de 2013.

Como tais grupos são desarticulados e dispersos, é difícil saber o que articulam. Muito menos é possível saber se vai haver repeteco da articulação esdrúxula, acidental e mesmo indesejada entre pequenos grupos de esquerda e massas indignadas mas apolíticas, o grosso de quem foi às ruas.

A Copa é, óbvio, um prato cheio de desperdício, politicagem autoritária, incompetência e outros acintes. A depender do gosto do freguês manifestante, não vai ser difícil contrastar essa despesa perdulária e arbitrária com algum motivo de revolta com a selvageria social e a inércia política brasileiras.

Vai colar? O 25 de janeiro pode ser um fiasco, ao menos em termos midiáticos, pois os ponta de lança da onda inicial de junho, os estudantes, ainda estarão de férias. Mas não convém especular com hipóteses fáceis.

Junho de 2013 não apenas começou como se desenvolveu e terminou de modo imprevisto, com ondas de choque se espraiando em direções diversas, um miniBig Bang político-social.

Houve os notórios, midiáticos e então subitamente submersos Black Blocs, mas muito mais. Houve revoltas contra a violência polícial em bairros paulistanos de "classe média baixa", um dia bastiões de voto conservador. Houve séries de protestos de associações de gente deserdada da periferia, a bloquear estradas e avenidas nos fundões da cidade. Não há como saber se mesmo um 25 de janeiro fraco vai reanimar brasas dormidas ou revelar novas organizações.

Pode haver fastio: muita gente pode ter se desencantado com a inconsequência prática dos protestos; de resto, revolução permanente não é o estado habitual de gente alguma, exceto em cataclismos históricos raros, seculares. A tentativa de repeteco de 2013 pode, assim, não colar.

Pode haver oportunismos: as manifestações fizeram estrago sério no prestígio de governos. O tumulto nas ruas pode ser obviamente um instrumento para avariar, ao menos, o prestígio de quem quer que esteja no poder, mas de petistas em especial. Repetir 2013 pode ser arma eleitoral.

O leitor, que é perspicaz, pode refutar tudo isso com um "especulativo, protesto", como se diz em filme de tribunal americano. Mas há de concordar que são demasiadamente ricas para não serem exploradas as oportunidades políticas e politiqueiras de um ano de Copa com eleição e eventual tumulto de rua transmitido pelo mundo inteiro.

Enfim, o caldo socioeconômico pode estar mais azedo e contribuir para os protestos; ou os protestos podem azedar o caldo.

A tendência básica do ano é de tudo crescendo mais devagar ou na mesma: renda, emprego, consumo, inflação. Há riscos de tumultos no câmbio, de o Congresso aprovar coisas como renegociação de dívidas de Estados e municípios ou de o Supremo dar uma tunda nos bancos no caso dos reajustes das poupanças dos planos econômicos velhos. Tudo isso intoxicaria o ambiente econômico e, assim, ânimos políticos, ao menos entre as elites.

Vinicius Torres Freire
No fAlha
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WandNews

Jornalismo Wando

A vigésima segunda edição da coluninha WandNews chega com a "ousadia & alegria" usual. As 4 seções estão recheadas com o que de melhor e pior aconteceu no finzinho do ano passado e no início deste.
Hoje temos Seu Jorge Patriota, Sherazade #SouReaçaMasTôNaModa, o poeta da aviação Santos Drumont e um Wando Responde contrarrevolucionário. Confira:


O fim de ano foi recheado de chorumes. O que eu escolhi para estrear a seção em 2014 foi um produzido pelo patriotismo pitoresco de Seu Jorge, um dos artistas brasileiros mais internacionais da atualidade. Em junho, quando questionado sobre suas posições políticas, o integrante do Movimento Cansei fuzilou o amigo internauta:

Mas parece que a LG e Spike Lee fizeram Jorge mudar de ideia. Convidado para estrelar a campanha da marca, Seu Jorge compôs um hit ultra patriota e ainda protagonizou clip exaltando a seleção brasileira, dirigido por Spike Lee. Segundo o mentor da campanha, “o objetivo do vídeo clipe é disseminar este sentimento da LG entre os consumidores e reforçar ainda mais o amor pelo País"

Agora, o Brasil parece ter virado a grande inspiração desse morador de Los Angeles. Foi assim que Seu Jorge divulgou o clipe:

Esse país é mesmo uma m...aravilha né, Seu Jorge?


O beijo no coração dessa semana vai para Rachel Sherazade, uma das jornalistas de maior destaque na atualidade e considerada - por mim! - a musa reacionária do jornalismo do SBT. Essa semana, Shera publicou em sua página oficial uma frase exaltando os valores do bem:


A Margareth Thatcher do Sílvio é mesmo uma mulher de muita fibra, atitude e opinião. Agora queremos ver o seu mais novo colega de trabalho, Danilo Gentili, fazer piadinha com nossa Dama de Ferro.



O Rio de Janeiro continua lindo. Mesmo após o segundo ato de vandalismo seguido sofrido pela estátua de Drummond em Copacabana. Depois que câmeras flagraram jovens pichando o poeta, agora foi a vez da Yasmin praticar vandalismo involuntário contra a obra. A querida ainda compartilhou o ato sem medo:



O grande Santos Drummond que, aliás, é figurinha carimbada nas redes sociais:





No post "Chegou 2014, o ano do golpe!", o amigo internauta JK expressou seu medo com o golpe comunista à vista e revelou mais um plano diabólico dos vermelhos:

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Em Úbeda

John Barth é um escritor americano com um gosto pela literatura experimental, autorreflexiva e metafórica, que, acho eu, pode ser chamada de pós-moderna - embora quase tudo, hoje, possa ser chamado de pós-moderno. Entre os seus ídolos literários estão Jorge Luiz Borges. Italo Calvino, Vladimir Nabokov, Samuel Beckett e, surpreendentemente, Machado de Assis. Escrevi "é" e fiquei na dúvida. Seria "era"? Consultei o google para saber se Barth está vivo. Ou o google está desatualizado ou ele, com 83 anos, ainda respira.

Eu tinha lido alguns romances dele e há pouco encontrei uma coleção dos seus ensaios e palestras, recém-publicada. Numa das palestras Barth lembra a história do cerco das tropas do rei Alfonso VI pelos mouros aos pés da Sierra Morena, Andaluzia, no século 11, e a chegada tardia do legendário El Cid à frente de reforços, para salvá-las. Irritado, o rei teria perguntado a El Cid a razão da sua demora, ao que o Campeador teria respondido: "Andava pelas colinas de Úbeda". Desde então a frase se incorporou ao idioma espanhol, e diz-se de quem se desvia do seu objetivo, esquece seu propósito ou se distrai, que "se marcha por los cerros de Úbeda". Barth inclui nesta definição a digressão de palestrantes que abandonam o assunto da sua palestra como quem divaga pelas colinas de Úbeda.

Na mesma palestra Barth lembra a história de Calipso, a ninfa do mar que atrasa a volta de Ulisses para casa e o detém por sete anos, na Odisseia de Homero. O nome "Calipso" vem da mesma raiz grega de "kalupsein", que quer dizer "encobrir" (e também é da raiz de "apocalipse", o inverso de encobrir, "revelação", como sabe qualquer leitor da Bíblia). Calipso encobre, com seu encanto, o objetivo de Ulisses, que é voltar das ruínas de Troia para os braços de Penélope. Segundo Barth, ela pode ser chamada de Deusa da Digressão. Nos seus braços o herói da Odisseia encontra a sua Úbeda, e nela fica por sete anos.

Todos nós conhecemos "los cerros de Úbeda", por onde andamos em devaneios, ou quando é absolutamente necessário mudar de assunto. Em Úbeda adiamos tudo o que precisa ser feito, não pensamos no que nos atormentaria e desfrutamos do doce prazer da indefinição: em Úbeda só se passeia, nada se decide. Ou, como nos casos de El Cid e de Ulisses, Úbeda é onde se perde tempo. Há quem nasça e passe toda a vida na sua Úbeda particular, longe da realidade, sem se dar conta. E há os que escolhem ficar em Úbeda em vez de encarar as durezas da vida.

El Cid, apesar do bucólico desvio que atrasou sua chegada, acabou chegando, e pondo os mouros a correr. Ulisses, no fim de sete anos nos braços de Calipso, finalmente decidiu que era hora de ir para casa. Tanto El Cid quanto Ulisses teriam chegado vigorados ao seu destino depois da sua passagem por Úbeda, El Cid no campo de batalha para salvar o rei, Ulisses na cama da paciente Penélope. O que serviria de exemplo para cronistas que passam longas temporadas em Úbeda, dedicando-se a frivolidades inconsequentes, para vez que outra acabar com a digressão, dar um mergulho na realidade e escrever para valer.

Luís Fernando Veríssimo
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O dia que Marinho vestiu a carapuça em sua guerra psicológica

Ele

A presidenta Dilma Rousseff foi recentemente à televisão fazer um pronunciamento de fim de ano. Franca como sempre, a mandatária trabalhista irritou o magnata bilionário da imprensa de negócios privados, João Roberto Marinho, herdeiro de O Globo. Dilma fez uma pergunta essencial ao povo brasileiro, que o levou a pensar para ponderar: "A sua vida melhorou?"

Evidentemente que as pessoas devem ter avaliado suas vidas após a contundente pergunta da presidenta. E certamente que a maioria da população de trabalhadores, estudantes e donas de casa devem ter julgado que sim, porque é perceptível até mesmo a um desavisado, alienado ou reacionário que as condições de vida do povo brasileiro melhoraram, e muito, nos últimos 11 anos quando os governantes trabalhistas assumiram o poder no Brasil.

Contudo, apesar das grandes e importantes conquistas sociais e econômicas dos brasileiros, a imprensa corporativa e de alma udenista finge não ver, bem como tergiversa, dissimula e manipula para se dar bem e ter seus interesses econômicos e políticos concretizados.

Para isso, é necessário fazer política. Diga-se de passagem, a má política, covarde e mentirosa, com conotação golpista e que visa, sobretudo, ocupar o lugar de quem deveria fazer a oposição partidária, o PSDB, o incompetente partido que vendeu o Brasil, e seus apêndices cujas siglas são DEM (UDN), o pior partido do mundo e formulador de todos os golpes no século XX, e PPS, antigo PCB, o arremedo de seu passado histórico e maltrapilho ideológico.

Os barões de mídias são os chefes do Partido da Imprensa, que trabalham no submundo da política, de forma paralela, não oficial e fazem oposição aos governos trabalhistas em todos os tempos, porque, simplesmente, representam o establishment. E se tem alguma coisa que o mundo empresarial, as oligarquias e a direita partidária não desejam é a independência do Brasil, além de lutarem contra a emancipação do povo brasileiro.

Já disse isto antes, mas repito com o propósito de as pessoas não esquecerem que a luta é árdua, que os inimigos são poderosos e ricos e que os preconceitos sociais e raciais estão marcados como tatuagens nas almas dos burgueses e dos pequenos burgueses.

Agora, O Globo toma à frente novamente em seu périplo oposicionista, que não leva a nenhum lugar, pois eleições se decidem nas urnas, cujos votos refletem o que os governantes e suas equipes realizaram em prol do bem comum.

E não é que depois de odiar a frase da presidenta, a indagar se a vida do cidadão brasileiro melhorou ou não, o barão magnata bilionário da imprensa, João Roberto Marinho, ficou furioso, porque a presidenta trabalhista se valeu da expressão "guerra psicológica".

A mandatária apenas demonstrou saber qual é a origem do terrorismo e do alarmismo, que tem por objetivo causar insegurança aos empresários e aos mercados em geral. A matriz de tanta confusão é a imprensa de negócios privados, porque é exatamente esta imprensa empresarial que tem publicado, sistematicamente, em suas diferentes mídias, que o Brasil está acabado, derrotado, falido e irremediavelmente sem esperança e futuro se não entrar nos eixos.

Por seu turno, "entrar nos eixos" significa adotar as receitas draconianas elaboradas pelo FMI, além de dar continuidade ao programa de (des)governo do fracassado presidente Fernando Henrique Cardoso — o Neoliberal I —, pois fundamentado nos princípios do neoliberalismo, que prega a diminuição do estado, a queda nos investimentos públicos e na crença que o mercado se ajusta por si só, como se a humanidade não soubesse que quando a raposa se transforma em vigilante de galinheiro sem a fiscalização, regulação e regulamentação do estado, as galinhas, evidentemente, vão sumir e, consequentemente, a família criadora das aves vai ficar com fome.

Os Marinhos admiram e apoiam governos entreguistas, colonizados, subordinados e subservientes aos Estados Unidos, como tal se posicionou e se conduziu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, aquele político conservador e elitista que vendeu o patrimônio público e mesmo assim foi ao FMI três vezes, de joelhos e com o pires nas mãos, porque quebrou o Brasil três vezes.

O Governo FHC, mais do que qualquer outro, foi a fundo na política externa de caráter subalterno de tirar os sapatos e, por sua vez, concretizou décadas depois a famosa frase de Juracy Magalhães, antigo governador da Bahia e primeiro embaixador do Brasil em Washington após o golpe de 1964, que afirmou: "O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil".

Nada mais servil e sem qualquer noção de nacionalidade e que reflete com pontualidade e precisão o quão as "elites" brasileiras são descompromissadas e, por conseguinte, divorciadas dos interesses do poderoso País sul-americano e de sua população, que há séculos luta para se desenvolver e, por sua vez, finalmente ter acesso a uma vida de melhor qualidade.

Enquanto isso a direita apátrida e os coxinhas de classe média consideram esse processo justo e de ordem natural, como se fosse possível concordar que certos países imperialistas e com os grupos sociais dominantes, como se eles tivessem o direito quase divino de subjugar as nações, os estados nacionais, os países e seus governantes, além de manterem no papel de escravos de seus lucros os trabalhadores que enriquecem toda essa gente e mesmo assim, indubitavelmente, levam a parte menor do bolo.

E aí, o que acontece? João Roberto Marinho questiona duramente a presidenta Dilma Rousseff, como se lhe desse um "carão" e, completamente sem noção, pois não sabe qual é o seu lugar como megaempresário, confunde-se, pois autoritário, ao ponto de inverter os fatos, as realidades que se apresentam e, por intermédio de um editorial mequetrefe, rastaquera e insensato demonstra imensa irritação, porque Dilma disse que a guerra psicológica, que tem a finalidade de estabelecer insegurança social e jurídica ao País é muito ruim. E o Marinho vestiu, solenemente e sem disfarçar, a carapuça.

"Se alguns setores, seja porque motivo for, instilarem desconfiança, especialmente desconfiança injustificada, isso é muito ruim. A guerra psicológica pode inibir investimentos e retardar iniciativas" — afirmou Dilma Rousseff, em um recado direto à imprensa mercantilista e alienígena, que, evidentemente, vestiu a carapuça, como não deixa dúvida o editorial rasteiro e desrespeitoso de O Globo.

Então, eu dou como exemplo a guerra psicológica dos barões magnatas bilionários da imprensa. Eles (Folha e Globo) disseram que as grandes indústrias racionavam energia. Tal irresponsabilidade do Partido da Imprensa é uma grandíssima mentira, que, em certo momento, inibiu novos investimentos. Insistiram em um "apagão" que nunca existiu, porque os governos Lula e Dilma, ao contrário do governo entreguista de FHC — o Neoliberal I — investiram e investem pesadamente em energia.

Quem deixou o País em um racionamento de 14 meses foi exatamente o governo incompetente dos tucanos. Contudo, de forma surreal, os barões de imprensa de DNA golpista se "esqueceram" desse fato e sempre se dão o direito de manipular a verdade, o que é uma lástima e total falta de discernimento e compromisso com seus leitores e telespectadores.

E os barões não ficaram somente nisso. O editorial de O Globo sem pé e nem cabeça, porque não considera a realidade e a verdade, chama o Governo trabalhista de autoritário e aproveita para criticar e atacar os países vizinhos do Brasil, nos quais seus povos elegeram soberanamente governantes de esquerda e que não estão nem aí para o que os magnatas bilionários pensam ou deixam de pensar.

Trata-se de um editorial tão pernicioso e mentiroso que chega ao ponto de acusar a presidenta petista de não reconhecer seus erros para logo aproveitar para dar uma receita econômica ao dizer, na maior cara de pau e falta de acuidade com a verdade ao chamar o processo de concessões públicas elaborado pelo governo petista para as rodovias, ferrovias e aeroportos de "privatizações" quando a verdade é que o estado não abriu mão de seu patrimônio, como o fez o governo entreguista, apátrida e com complexo de vira-lata do neoliberal FHC, talvez o pior presidente que o Brasil já teve, pois alienou o que ele não construiu e entregou a estrangeiros, de mão beijada, empresas riquíssimas e lucrativas, a exemplo da Vale do Rio Doce e da Telebras.

Por sua vez, qualquer pessoa que tenha um pouco de discernimento e sensatez sabe que a imprensa burguesa não vale nada, e que tudo o que ela diz, mostra e fala não deve ser levado a sério. Afinal, o cidadão receptor de informações tem de peneirar o que é dito e ouvido, bem como saber, por exemplo, que o Brasil cumpriu sua meta fiscal em 2013, o que permitiu um superávit de R$ 73 bilhões, como bem previa o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Mantega foi e é alvo de banqueiros e de economistas ligados aos bancos, que, por diversas vezes, juntamente com a velha imprensa nacional e internacional corrompida por seus interesses financeiros, pediram sua cabeça. Revistas e jornais porta-vozes de banqueiros trabalharam para que o competente economista caísse e, consequentemente, após sua queda os agentes econômicos e financeiros ficassem desconfiados e inseguros em relação aos rumos da economia no Brasil. Há coisa mais sórdida do que essa oligarquia e cartel? Respondo: Não, não há! Ponto.

O ano de 2013 realmente foi um ano dedicado ao pessimismo, por intermédio da imprensa comercial e privada (privada nos dois sentidos, tá?) e pelos economistas do PSDB e dos bancos. Para quem não lembra posso relembrar: apagão, disparada do câmbio, descontrole fiscal, das contas públicas e, incrivelmente, a aposta na elevação da inflação, cujo símbolo foi o tomate, com direito de a coxinha global, Ana Maria Braga, usar um ridículo colar de tomates para, com isso, fazer oposição ao Governo trabalhista, o que, obviamente, não vingou.

Todavia, não teve apagão, o câmbio não disparou, não houve o descontrole das contas públicas e o tomate, poucas semanas depois, ficou mais barato do que mariola em vendinha de interior. Trata-se, realmente, de uma imprensa imperialista perigosa. Que não mede conseqüências e não tem responsabilidade com a notícia e a verdade. Os barões e seus capitães do mato não têm compromisso com o Brasil e com o povo brasileiro. Ponto!

Depois de tudo isso e o fracasso das previsões dos urubus da imprensa e do mercado financeiro, o brasileiro teve de aturar ilações perversas e cínicas quanto às metas do Governo trabalhista de Dilma Rousseff terem sido atingidas. A direita, derrotada e que torce contra o Brasil, passou a considerar as metas atingidas pelo Governo do PT como "contabilidade criativa". Manipulação na veia.

Os jornalistas e "especialistas" de prateleiras da Globo News, da Globo, de O Globo, da CBN, da Band, da Folha e da Veja passaram a repetir a quase "acusação", de forma uníssona e ridícula, pois dá a entender que combinaram, a fim de falar como papagaios de piratas sempre a mesma frase: "contabilidade criativa".

A verdade é que a intenção é uma forma intelectualmente desonesta para desqualificar o Governo Dilma e, por conseguinte, dar a entender às pessoas que o Governo manipulou os números e os índices para atingir suas metas econômicas e financeiras. Vulgares e pretensiosos os militantes de direita do Partido da Imprensa, não?

Isto acontece porque seus patrões magnatas bilionários não aceitam a realidade de que os governos petistas foram muito mais competentes do que os governos dos tucanos. Além disso, esperar discernimento e sensatez de quem quer um País para poucos ou VIP é pedir de mais, não é mesmo?

Depois das metas atingidas, o que restou para os banqueiros e seus economistas e para os barões magnatas bilionários de imprensa e seus jornalistas? O inconformismo, o ódio e uma saudade imensa dos tempos da ditadura militar e do vendilhão da Pátria conhecido como FHC — o Neoliberal I. A data 31 de dezembro de 2013 é o dia que o Marinho vestiu a carapuça em sua guerra psicológica. É isso aí.

Davis Sena Filho
No 247
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Charge online - Bessinha - # 2020

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Barão de Itararé — 40 frases impagáveis


Um grande humorista ganhou uma biografia alentada, “Entre Sem Bater — A Vida de Apparício Torelly, o Barão de Itararé” (Casa da Palavra, 480 páginas), de Cláudio Figueiredo. Criador do jornal “A Manha”, o Barão ridicularizava ricos, classe média e pobres. Não perdoava ninguém, sobretudo políticos, donos de jornal e intelectuais.

Ele não era barão, é claro. Mas deu-se o título de nobre e nobre se tornou. O primeiro nobre do humor no Brasil. Debochava de tudo e de todos e costumava dizer que, “quando pobre come frango, um dos dois está doente”. Ele é um dos inventores do contra-politicamente correto.

Há muito que o gaúcho Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly (1895-1971) merecia uma biografia mais detida. Em 2003, o filósofo Leandro Konder lançou “Barão de Itararé — O Humorista da Democracia” (Brasiliense, 72 páginas). O texto de Konder é muito bom, mas, como é uma biografia reduzida, não dá conta inteiramente do personagem, uma espécie de Karl Kraus menos filosófico mas igualmente cáustico.

Quatro depois, o jornalista Mouzar Benedito lançou o opúsculo “Barão de Itararé — Herói de Três Séculos (Expressão Popular, 104 páginas). É ótimo, como o livrinho de Konder, mas lacunar. No final, há uma coletânea das melhores máximas do humorista, que dizia: “O uísque é uma cachaça metida a besta”.

O que se leva desta vida é a vida que a gente leva.

A criança diz o que faz, o velho diz o que fez e o idiota o que vai fazer.

Os homens nascem iguais, mas no dia seguinte já são diferentes.

Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.

A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.

Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância.

Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar.

Mantenha a cabeça fria, se quiser ideias frescas.

O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.

Genro é um homem casado com uma mulher cuja mãe se mete em tudo.

Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.

De onde menos se espera, daí é que não sai nada.

Quem empresta, adeus.

Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.

O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.

Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.

A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.

Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.

Precisa-se de uma boa datilógrafa. Se for boa mesmo, não precisa ser datilógrafa.

O fígado faz muito mal à bebida.

O casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.

A alma humana, como os bolsos da batina de padre, tem mistérios insondáveis.

Eu Cavo, Tu Cavas, Ele Cava, Nós Cavamos, Vós Cavais, Eles Cavam. Não é bonito, nem rima, mas é profundo…

Tudo é relativo: o tempo que dura um minuto depende de que lado da porta do banheiro você está.

Nunca desista do seu sonho. Se acabou numa padaria, procure em outra!

Devo tanto que, se eu chamar alguém de “meu bem”, o banco toma!

Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta…

Tempo é dinheiro. Paguemos, portanto, as nossas dívidas com o tempo.

As duas cobras que estão no anel do médico significam que o médico cobra duas vezes, isto é, se cura, cobra, e se mata, cobra.

O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.

Em todas as famílias há sempre um imbecil. É horrível, portanto, a situação do filho único.

Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados.

Quem não muda de caminho é trem.

A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas em geral enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele.

No Revista Bula
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A campanha da moda

Todo o falatório em torno de PIB de 1% ou de 2% nada significa diante da queda do desemprego a apenas 4,6%

Quem não discute gosto anda na moda, que é um modo de não ter gosto (próprio, ao menos). Até por solidariedade aos raros que não se entregam à moda eleitoreira de dizer que 2013 foi um horror brasileiro e 2014 será ainda pior, proponho uns poucos dados para variar.

Com franqueza, mais do que a solidariedade, que tem motivo recente, é uma velha convicção o que vê importância em tais dados. Um exemplo ligeiro: todo o falatório em torno de PIB de 1% ou de 2% nada significa diante da queda do desemprego a apenas 4,6%. Menor que o da admirada Alemanha. Em referência ao mesmo novembro (últimos dados disponíveis a respeito), vimos as manchetes consagradoras "EUA têm o menor desemprego em 5 anos: cai de 7,3% para 7%". O índice brasileiro, o menor já registrado aqui, excelência no mundo, não mereceu manchetes, ficou só em uns títulos e textos mixurucas.

Mas o índice não pode ser positivo: "O índice caiu porque mais pessoas deixaram de procurar emprego". Se mais desempregados conseguiam emprego, como provava o índice antes rondando entre 5,6% e 5,2%, restariam, forçosamente, menos ou mais desempregados procurando emprego? PIB horrível, falta de ajuste fiscal, baixa taxa de investimentos, poucas privatizações, coitado do país. E, no entanto, além do emprego, aumento da média salarial, a ponto de criar este retrato do empresariado de São Paulo: a média salarial no Rio ultrapassou a dos paulistas.

A propósito: com as alterações do Bolsa Família pelo Brasil sem Miséria, retiraram-se 22 milhões de pessoas da faixa dita de pobreza extrema. Com o Minha Casa, Minha Vida, já passam de 1 milhão as moradias entregues, e mais umas 400 mil avançam para a conclusão neste ano. A cinco pessoas por família, são 7 milhões de beneficiados com um teto decente, água e saneamento.

Sobre dados assim e 2014, escreve o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sérgio Vale: "Infelizmente, veremos mais promessas de ampliação do Bolsa Família e do salário mínimo, que, no frigir dos ovos, é o que tende a reeleger a presidente". Da qual, aliás, acha que em 2014 "deverá se apequenar ainda mais". Da mesma linhagem de economistas — a que domina nos meios de comunicação —, Alexandre Schwartsman dá à política que produziu aqueles resultados o qualificativo de "aposta fracassada", porque só deu em "piora fiscal, descaso com a inflação e intervenção indiscriminada, predominando a ideologia onde deveria governar o pragmatismo".

"Infelizmente" e "aposta fracassada" para quem? Para os 22 milhões que saíram da pobreza extrema, os 7 milhões que receberam ou receberão um teto em futuro próximo, os milhões que obtiveram emprego, os milhões ainda mais numerosos que tiveram melhoria salarial?

E, claro, ideologia existe só no que se volta para os problemas e possíveis soluções sociais. Quem se põe de costas para o que não interesse à elite financeira e ao poder econômico, não o faz por ideologia, não. Por esporte, talvez.

Foi a esse esporte, quando praticado orquestradamente nos meios de comunicação, que Dilma Rousseff se referiu como uma "guerra psicológica", e gerou equívocos críticos. Não se trata de "expressão antidemocrática", nem própria dos tempos da ditadura. É a denominação, técnica ou científica, como queiram, de métodos de hostilidade não militares, diferentes das campanhas por não serem declarados em sua motivação e seus fins, e buscando enfraquecer o adversário por variados tipos de desgaste.

Não é o caso da pregação tão óbvia no seu propósito de prejudicar eleitoralmente Dilma Rousseff. E prática tão evidente que, já no início de artigo na Folha, o empresário Pedro Luiz Passos definiu-a como "o negativismo que permeia as análises sobre a economia brasileira, em contraste com a percepção de bem-estar especialmente da base da pirâmide de renda". Ou seja, há um negativismo, intenção de concentrar-se no negativo, real ou manipulado, e a desconsideração do que deu à "base da pirâmide" social alguma percepção de bem-estar.

O elemento essencial na existência de uma nação é o povo. Não é o território, não é o Estado, ambos inexistentes em várias formas de nação ao longo da história e ainda no presente (os curdos, diversos povos nômades, povos indígenas). O PIB e os ajustes feitos ou reivindicados nunca fizeram nada pelos brasileiros que são chamados de povo. A cliente do PIB, dos gastos governamentais baixos e dos juros bem altos são os que compõem a mínima minoria dos que só precisam, para manter o país, do povo.

Janio de Freitas
No fAlha
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