3 de jan de 2014

Amar o jornalismo, criticar a imprensa

A imprensa brasileira funciona como um partido de oposição, mais eficiente, estruturado, coeso e determinado do que as agremiações políticas oficiais. Mas não se trata de um partido de oposição à aliança que governa o Brasil desde 2003: é uma organização política que em muitos aspectos se assemelha ao Tea Party americano, ou seja, um sistema estruturante do pensamento mais conservador que frequenta o espaço público.

Se o governo federal estivesse nas mãos do PSDB, e este atuasse como um partido socialdemocrata nos moldes europeus, a imprensa teria uma atitude semelhante, de oposição.

As evidências do comportamento enviesado da mídia tradicional, aquela que domina a agenda institucional e serve à indústria cultural, são muitas e foram consolidadas paralelamente a um processo de empobrecimento da atividade jornalística nas últimas décadas. O processo é longo, foi marcado por disputas cruentas no interior das redações no período imediatamente posterior à redemocratização, e afinal vencido pelo conservadorismo no início deste século.

O fato de o Partido dos Trabalhadores ter alcançado o poder federal na mesma época é daquelas ironias da história observadas pelo historiador Isaac Deutscher ao analisar o comunismo dos anos 1960.

A controvérsia em torno desse comportamento da imprensa se sustenta precariamente no fato de que a maioria dos analistas se prende à relação entre os principais veículos de informação e o núcleo de poder ligado ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Um operário na Presidência significou, para as famílias que ainda controlam as empresas de comunicação, uma ofensa tão grande quanto tem sido, para a elite conservadora dos Estados Unidos, a ascensão de um negro ao cargo mais alto daquela nação.

Essa relação de ódio e negação se estende por tudo que estiver ligado a esse evento histórico: o fato de a democracia brasileira ter evoluído ao ponto de eleger presidente um operário com pouca educação formal. Não é o PT que a imprensa odeia e despreza: é o processo democrático, que permitiu essa “aberração”.

Não por acaso, os leitores típicos dos jornais e de publicações como Veja e Época manifestam costumeiramente sua baixa apreciação pelo “povo” e sua capacidade de discernimento, como se pode observar nas seções de cartas e comentários.

Jornalismo em crise

Criticar a imprensa, denunciando o jornalismo partidário, é na verdade uma demonstração de respeito ao jornalismo e à imprensa, como ela deveria ser.

Defender a imprensa como ela é e conformar-se com o jornalismo de quinta categoria que tem sido imposto aos brasileiros, de forma geral, é sintoma de alienação, ou, pior, recurso de malabarismo intelectual para preservar a reputação sem cair no index do sistema da mídia.

Louve-se: é preciso muito jogo de cintura para salvar a ficção da objetividade sem ter as portas fechadas pelas redações. No entanto, chegamos ao ponto em que não há subterfúgios, pois a escolha da imprensa hegemônica está destruindo o jornalismo de qualidade no Brasil.

Concretamente, o jornalismo brasileiro é pior, hoje, do que há vinte anos? A resposta é: sim, piorou não apenas a qualidade do jornalismo no Brasil, mas também a qualificação dos jornalistas, de modo geral, e a própria noção do valor social da atividade jornalística.

Uma pesquisa coordenada pela professora Roseli Fígaro na USP constatou essa realidade (ver resenha do livro aqui): o jornalismo brasileiro está imerso em profunda crise. Um artigo publicado na quinta-feira (2/1) pela Agência Fapesp (ver aqui) atualiza alguns aspectos desse estudo. O texto afirma explicitamente que “os produtos jornalísticos impressos, televisivos ou radiofônicos são feitos de maneira completamente diferente do que há cerca de vinte anos”.

A mudança foi para pior, segundo a pesquisa, provocada principalmente por uma reestruturação produtiva nas redações, com o aumento do número de jornalistas sem registro profissional e o afastamento dos profissionais mais experientes.

A desconstrução do jornalismo foi feita pedra por pedra, e não é apenas fenômeno causado pelas novas tecnologias de comunicação, mas por uma escolha estratégica das empresas. Trata-se de um processo que corre paralelo ao projeto conservador de poder, que, não podendo eventualmente ser realizado pelas vias partidárias, porque o eleitorado parece rejeitar suas propostas, passa a atuar pelo sistema da mídia.

Simples assim.

Luciano Martins Costa
No OI
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FHC enterrou Tuminha

Ex-presidente merece elogio por recusar-se a fazer parte de uma farsa

Por duas vezes, no programa Manhattan Conection, Diogo Mainardi sugeriu a Fernando Henrique Cardoso que fizesse comentários sobre a denúncia do delegado Romeu Tuma Jr de que Luiz Inácio Lula da Silva foi “alcaguete” do ditadura.

Nas duas vezes, FHC desmentiu Diogo e Tuminha. Deixou claro que a história é falsa.

É um testemunho importante, considerando quem é e quem foi. Lula fez campanha para Fernando Henrique em 1978. Os dois percorreram portas de fábrica e falaram em comícios. Mais tarde, estiveram juntos numa articulação pela criação de um partido político de esquerda, mas o projeto não deu certo.

Os dois tomaram caminhos separados a partir de então e hoje são os adversários que polarizam a política brasileira.

Já fiz criticas duras ao comportamento de Fernando Henrique diante de fatos políticos recentes, como a ação penal 470. Considerando o que ele sabe, viu e fez durante sua carreira política, eu acho que ele não poderia unir-se ao coro dos ingênuos e dos espertalhões que esperam derrotar o governo Lula na Justiça – já que não conseguem fazer isso pelo voto. Não vamos criminalizar ninguém.

Mas diante até de confissões gravadas de parlamentares que venderam seus votos na emenda que permitiu sua reeleição FHC não precisava bater palmas para o STF e dizer que o país precisa seguir em frente, não é mesmo?

O debate aqui é outro, porém.

A divulgação orquestrada do livro de Tuma Jr não obedece a nenhum interesse legítimo. É apenas mais uma operação destinada a atacar o ex-presidente, sem fatos concretos nem um fiapo de prova. Quem dá curso a esse tipo de ação deveria sentir vergonha, até porque não entendeu o país em que vive.

Pressionado a fazer parte de uma mentira, Fernando Henrique recusou-se a agir abaixo de sua dignidade.

Respeitou a memória do país e sua própria história.

Os brasileiros só tem a ganhar quando um ex-presidente lembra que a única forma decente de participar da luta política, tão natural numa democracia, consiste em respeitar a verdade dos fatos.

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Desforra

Deve ter gente estudando a tabela — e os astros, e os búzios e as entranhas de pássaros — para saber se há possibilidade de a final da Copa deste ano ser entre Brasil e Uruguai, como em 1950. As duas seleções se enfrentaram muitas vezes depois daquela derrota do Brasil que ficou atravessada na garganta de uma geração, mas desta vez as condições para uma desforra seriam perfeitas: 64 anos depois, valendo outra Copa do Mundo, no Maracanã, o local do crime. O time do Uruguai não está mal. Vários dos seus jogadores brilham na Europa. O Forlán, melhor jogador da última Copa, parece ter esquecido seu futebol num quarto de hotel da África do Sul, mas pode muito bem só estar esperando esta Copa para voltar a ser o que foi. Enfim, estaria tudo pronto para uma catarse coletiva. Ou para outra tragédia, claro.

INJUSTIÇA

O pessoal está sendo injusto com o Renan Calheiros. Todo esse falatório sobre a sua ida num jato da FAB para fazer um implante de cabelos em Recife, e desperdício de dinheiro público e blá-blá-blá, e ninguém se lembrou de fazer a pergunta que realmente interessa: o implante foi bem-sucedido? Li que o resultado só começará a aparecer com o tempo. Quer dizer, vamos pelo menos esperar para ver como fica o homem, antes de falar em desperdício.

PAPO VOVÔ

Nossa neta Lucinda, com 5 anos, muitas vezes dorme na nossa cama. No outro dia ela acordou, viu que eu estava deitado ao seu lado, olhando para ela, e perguntou: “Vô, tu conhece o corcunda de Notre Dame?” Não sei onde ela viu ou ouviu falar do personagem, mas fiquei com a impressão de que acabara de encontrá-lo, num sonho. Cheguei a imaginar que no sonho o corcunda de Notre Dame tivesse dito que me conhecia e ela quisesse confirmar. Pretensão de avô, a de ser citado em sonho de neto.

PARTIDO ERRADO

Na última quinta-feira eu escrevi aqui que deveríamos aguardar o comportamento do STF em relação ao mensalão mineiro e ao cartel paulista, e que só daria para acreditar cem por cento na Justiça brasileira quando, numa pelada entre presos no pátio da Papuda, os times do PT e do PMDB jogassem cada um com onze. Eu queria dizer PSDB, não PMDB. Não tenho nem a desculpa de o “m” e do “s” estarem lado a lado no teclado, e eu ter errado a pontaria por milímetros. Foi patetice mesmo. Desculpe.

Luís Fernando Veríssimo
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