30 de nov de 2014

A Info é a Veja amanhã

Tempos duros para a Abril
A Info é a Veja amanhã.

Não é uma frase de efeito. É uma realidade doída. Quer dizer: doída para os leitores da Veja.

O que aconteceu com a Info — desativar a edição regular e manter-se na internet — é o caminho inevitável para as revistas impressas.

Chega uma hora em que o custo — papel, mais gráfica, distribuição etc — supera a receita.

Isso se deve a duas coisas. A primeira é a perda de receita publicitária. Os anunciantes estão debandando das demais mídias para se ajustar à Era Digital.

Seus consumidores não lêem jornais e revistas de papel. Eles se informam em sites de notícias e redes sociais.

É virtualmente impossível encontrar algum jovem com um jornal ou uma revista. Antes símbolo de status intelectual, agora ler revistas ou jornais é sinal de atraso.

Pouco tempo atrás, a L’Oreal, um dos maiores anunciantes por muitos anos do mundo em publicações femininas, comunicou que estava deixando a mídia revista.

Não foi um caso isolado. Foi um episódio a mais numa tendência inexorável.

No exterior, casos como o da Info são muitos. A Newsweek, por décadas a segunda maior revista do mundo depois da Time, hoje existe apenas como site.

Também a Business Week, um colosso entre as publicações de negócios na era do ouro do papel, sobrevive na internet.

Não é o que as editoras de revistas gostariam, mas é a vida como ela é. A internet é disruptora. Ela não se acomoda entre outras mídias, conforme aconteceu sempre. Ela vai matando-as.

Mesmo a televisão, que se imaginava até recentemente a salvo da internet, já está sob ataque.

É a próxima vítima.

Revistas tradicionais podem sobreviver como sites, uma vez que as despesas são infinitamente menores que as habituais.

Esta é a boa notícia.

A má notícia é que a pujança que tiveram no papel não se reproduz na internet.

A experiência já demonstrou que os casos de sucesso no jornalismo digital são de nativos da internet, e não de imigrantes.

Nos Estados Unidos, o fenômeno jornalístico dos últimos anos é o Huff Post, o site de Ariana Huffington.

Nativos se movimentam com muito mais facilidade. Já surgem com custos menores, adequados ao novo meio, e têm uma vantagem competitiva adicional: todo o conhecimento relativo ao papel não vale nada na internet.

A Abril acumulou, em meio século, um extraordinário expertise em fazer revistas de papel. Como fazê-las, como conseguir publicidade, como montar uma carteira de assinantes e renová-la, como conseguir o melhor lugar numa banca etc.

Tudo isso vale nada na Era Digital.

Fora isso, há um vasto contingente de internautas que não acreditam nos bons propósitos do jornalismo das grandes empresas de mídia, seja em que plataforma for.

À medida que o jornalismo digital vai-se tornando dominante, as revistas de papel vão enfrentar uma escolha complicada.

Uma saída é simplesmente fechar. A Abril fez isso com vários títulos. A outra é sobreviver na internet, mas em bases inteiramente diversas.

No longo prazo, é difícil imaginar que qualquer uma das grandes companhias jornalísticas brasileiras — Globo incluída — seja parecida com o que foram até recentemente.

A melhor imagem é a das carroças quando surgiram os carros. Passado algum tempo, não sobrou nenhum fabricante de carroça.

Eu disse longo prazo. Mas longo prazo, na era da internet, costuma ser muito mais rápido do que o habitual.

Paulo Nogueira
No DCM
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Táticas de Revolução de Washington


De Hong Kong para Xinjiang - Beijing está se recuperando das "Táticas de Mudança de Regime" de Washington

Embora tenha um nome novo e atraente, a recente "revolução" em Hong Kong seguiu um padrão muito familiar norteamericano de engenharia de desestabilização e mudança de regime. Os chineses sabem muito bem disso!

Agora sabemos que a Rússia tambem sabe das formas e meios de "mudança de regime" que o império do caos usa cada vez mais para garantir a sua supremacia. Isso ficou claro no discurso de Putin no Valdai Club no final de outubro passado:

"Aliás, no momento, os nossos colegas [os EUA] tentaram gerir de alguma forma esses processos, utilizar conflitos regionais e desenhar 'revoluções coloridas' para atender aos seus interesses, mas o gênio escapou da garrafa. Parece que os próprios pais da teoria do caos controlado não sabem o que fazer com ele; há desordem em suas fileiras."

A China também tem sido alvo de tentativas de mudança de regime, tanto na província de Xinjiang, no oeste da China e agora recentemente em Hong Kong. A questão é o quanto os chineses estão cientes do papel dos Estados Unidos nestes movimentos de protesto? Um vídeo recente no YouTube deixa bem claro que os chineses estão lendo o jogo de xadrez geopolítico muito bem, se os pontos de vista apresentados também refletem as opiniões do povo chinês em geral. O vídeo mapeia 12 passos que os EUA usam para mudança de regime e explica como essas "mudanças de regime" em todo o mundo estão antagonizando a Rússia e a China e seguem um padrão que pode levar à Terceira Guerra Mundial.



Os 12 Passos para a mudança de regime, empregados pelos EUA descritos no vídeo:

1. Despachar oficiais da CIA, MI6 e outros agentes da inteligência como estudantes, turistas, voluntários, empresários e jornalistas para o país alvo

2. Instalação de organizações não-governamentais (ONGs), sob o pretexto de humanitarismo para lutar por "democracia" e "direitos humanos" Para atrair os defensores da liberdade e dos ideais

3. Atrair traidores locais e, especialmente, acadêmicos, políticos, jornalistas, militares, etc., através de suborno, ou ameaçar aqueles que têm alguma mancha em sua vida

4. Se o país de destino tem sindicatos, suborná-los

5. Escolher um tema cativante ou cor para a revolução. Exemplos incluem a Primavera de Praga (1968), Revolução de Veludo (Europa Oriental, 1969), Revolução Rosa (Geórgia, 2003), Revolução do Cedro (Líbano, 2005), Revolução Laranja (Ucrânia), Revolução Verde (Irã), Revolução Jasmin, Primavera Árabe e mesmo os protestos em Hong Kong da Revolução Guarda-Chuva

6. Iniciar protestos por quaisquer razões para começar a revolução. Poderia ser direitos humanos, democracia, corrupção do governo ou de fraude eleitoral. As evidências não é necessário; qualquer desculpa serve

7. Escrever cartazes de protesto e faixas em Inglês para deixar os norteamericanos e políticos verem os civis destes países envolvidos nos protestos

8. Deixar os políticos corruptos, os intelectuais e líderes sindicais se juntarem aos protestos e fazer apelo a todos os povos com queixas para aderirem

9. A mídia dos EUA e europeia continuamente estarão enfatizando que a revolução é causada pela injustiça ganhando assim o apoio da maioria

10. Quando o mundo inteiro está assistindo, cometem um atentado de falsa bandeira. O governo alvo em breve será desestabilizado e perderá o apoio do povo

11. Agregam agentes provocadores violentos para provocar a polícia a usar a força. Isso fará com que o governo alvo perca o apoio de outros países e se torne "desligitimizado" pela comunidade internacional

12. Enviam para os EUA, a UE e ONU petição para que o governo alvo enfrente a ameaça de sanções econômicas, zonas de exclusão aérea e até mesmo ataques aéreos e uma insurreição rebelde armada

Qualquer pessoa que presta apenas um pouco de atenção nos eventos mundiais pode reconhecer esse padrão. Psicopatas não são muito criativos e, portanto, tendem a usar o mesmo método repetidas vezes. E isto trabalha principalmente para o benefício dos psicopatas no poder, a quem não importa que na mudança de regime a sua atuação fique exposta após a instalação de um fantoche no governo. A mídia subserviente está sempre à disposição para promover a propaganda e derrubar quaisquer opiniões contra a mão de quem esteve por trás da cortina, e sempre partem para xingamentos quando faltam argumentos. Um exemplo de como isso funciona em relação aos protestos de Hong Kong pode ser visto aqui:


A memória do público é convenientemente muito curta, e isso ainda com toda a distração que Hollywood, os meios de comunicação social e da Lei Geral podem criar em acima.

O vídeo continua:

Se os 12 passos acima não funcionarem, então os EUA encontram uma desculpa para intervir militarmente e derrubar o governo pela força. De fato, estes passos têm provado ser muito eficazes.

[...]

Portanto, não é por movimentos civis espontâneos que os governos são derrubados. Pelo contrário, as revoltas são cuidadosamente planejadas e traçadas. De fato, derrubar um governo por meio de agitações civis é muito mais barato do que o envio de tropas para atacar e destruir. É por isso que os EUA mantiveram a aplicação destas 12 medidas contra países que consideram como inimigos.

Embora o vídeo culpa tudo nos maçons, seria mais correto dizer que é a elite patológica. Uma das principais características definidoras desta subespécie é o fato de que eles não têm consciência e, portanto, não se importam com o sofrimento humano e mortes. Poderia até ser argumentado que eles apreciam todo este sofrimento.

Como sempre, a responsabilidade recai sobre nós a aquisição de conhecimentos para acordar deste pesadelo, e o fato de que existem predadores entre nós que não têm qualidades humanas essenciais. Isso está se tornando mais fácil, pois o império do caos, em sua luta desesperada para manter a hegemonia, está mostrando a sua verdadeira natureza aos olhos de todos. Assim, o imperador é exposto por estar nu. Os países BRICS e uma série de outros países estão se tornando conscientes disso. Não há dúvida de que uma maior cooperação entre esses países tem ajudado a difundir o conhecimento sobre o modus operandi dos psicopatas. O vídeo acima é um exemplo da exposição deste padrão.

Global Research
No Juntos Somos Fortes
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Governo Federal patrocina impeachment da Presidenta

Pior só o Bolsa PiG…


Patrocinado pelo Governo Federal, Gilmar Mendes teve a “enorme alegria de anunciar a reedição”, por sua escolinha IDP, ​de ​“autêntica obra-prima”​,​ “O Impeachment – (Aspectos da Responsabilidade Política do(a) Presidente(a) da República)”​.​ “​A​ clássica obra será novamente colocada à disposição da comunidade jurídico-política”.

Ao anunciar o feito, foi ovacionado pelos presentes e se emocionou.

Eis o trecho do discurso de Gilmar Mendes, em apologia ao Impeachment:

“Ao se desvestir do múnus público, em razão da precoce aposentadoria compulsória pelo implemento de idade, o Ministro Brossard nem assim despediu-se da vida pública, tal a enorme contribuição que continua prestando à República e ao Direito. Sua obra perpetua-se quer pela grandeza, quer pela extrema atualidade. Aliás, em honra dessa excelência, tenho agora a enorme alegria de anunciar a reedição, pela Série IDP/Saraiva, de autêntica obra-prima do nosso repertório doutrinário jurídico: o livro “O Impeachment – (Aspectos da Responsabilidade Política do Presidente da República)”. Escrito, em 1965, pelo então professor Paulo Brossard, a clássica obra será novamente colocada à disposição da comunidade jurídico-política de língua portuguesa.” Gilmar Mendes, em 26/11.

O amigo navegante não acredita? Então confira íntegra do discurso de Gilmar Mendes, proferido em 26/11/2014, com inacreditável patrocínio do Governo Federal, Itaipú, Correios, Eletrobras e, claro, do Banco do Brasil, Bradesco, Febraban e outros.

Ostentando o logo do Governo Federal entre seus patrocinadores, o congresso teve a conferência inaugural proferida por José Serra, imperdível palestra de Antônio Anastasia e entrega de inusitado título de Doutor em Direito Constitucional ao engenheiro, jornalista e aecista de carteirinha, Álvaro Teixeira da Costa, presidente dos Diários Associados, ocasião onde Serra aproveitou para desencalhar seu livro que, segundo o Correio Braziliense do Doutor Álvaro, “já está nas livrarias da cidade há tempos” (quá-quá-quá!).

Quem autorizou utilização do logo oficial do Governo Federal??? Quem liberou o patrocínio???

Viva aos auxiliares da Presidenta Dilma Rousseff! Viva ao Brasil!

http://eventos.idp.edu.br/xviicongresso/index.php/programacao.html

Correio Braziliense 25/11:


No CAf
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Veja — um panfleto da campanha do Aécio




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Que tal decidir o teto salarial do funcionalismo por votação pública?

Quando criança, adorava enfileirar pecinhas de dominó uma atrás da outra e, depois, com um peteleco, vê-las tombar uma a uma. Daí a gente cresce e percebe que o efeito dominó muitas vezes é desesperador porque, depois que começa, torna-se incontrolável. Como o reajuste salarial dos três poderes.

O aumento na remuneração dos ministros do Supremo Tribunal Federal (que deve ir para R$ 35,9 mil) é a primeira peça a tombar. Como este é (em tese) o teto salarial do funcionalismo público, o restante do sistema vai a reboque. Daí vêm os 594 integrantes do Congresso Nacional, as cúpulas do Poder Executivo Federal e do Ministério Público, a chefia dos Estados e dos Municípios, e consequentemente todas as suas equipes. Enfim, não sobra peça em pé.

E se o teto dos salários do serviço público fosse definido por plebiscito? Eu já propus isso no blog há alguns anos, mas achei pertinente retomar a discussão. Dessa forma, as cúpulas talvez recebessem aumentos menores. E a base, com salários defasados e não raro maltrada, como professores, talvez ganhassem mais.

Deputados, senadores, juízes, desembargadores, governadores, prefeitos e presidentes precisam ganhar o suficiente para desempenhar com dignidade o cargo para o qual foram eleitos. E só. Se quiserem acumular para si e para os seus que se dirijam para a iniciativa privada.

Sabe o que me deixa tiririca da vida? Aumento salarial feito a toque de caixa no final do ano. A mesma celeridade não é usada para discutir ou julgar certos temas. Se pelo menos tivessem o mesmo empenho que têm por si, pelos amigos ou por seu pequeno grupo social, poderíamos dizer: “ah, todos eles ganham, mas trabalham para a sociedade em geral''.

Por exemplo, o Congresso Nacional tem repousado suas gentis nádegas em cima de projetos de leis que ajudariam a libertar e dar dignidade a muita gente. Demagogia? Pode ser. Mas a deles é maior. O fato é que boa parte da elite do poder público está nua, aliás, sempre esteve. E aí tem gente que reclama, outros batem palmas mas, no final, o que é imperdível mesmo é saber quem vai morrer na novela das nove.

Plebiscito é uma ferramenta legal. Desde que usada em prol da dignidade e não contra ela. Ou seja, desde que usada com parcimônia. Porque, em uma democracia de verdade, é respeitada a vontade da maioria, preservando-se a dignidade das minorias. Ou seja, adotar simplesmente o que a massa quer não significa viver em um país decente. Seja pelo conservadorismo da população, seja pelo fato de que, quanto mais hipercodificado permanecer o assunto em uma votação, mais fácil é manipular o cidadão.

Se nos orientássemos pela vontade da maioria, gays e lésbicas nunca teriam conquistado o direito a se unir. Jovens com 16 e até 14 anos seriam mandados para a cadeia ao cometer crime. E, dependendo da pesquisa de opinião, nem o direito ao aborto legal, em caso de risco de vida da mãe ou estupro, existiria.

Ao mesmo tempo, os contrários à ampliação do direito ao aborto e à legalização da eutanásia são os primeiros a querer levar essas pautas a plebiscito. Sabem que nossa sociedade gosta de tiranizar o útero alheio e que sofrimento no olhos dos outros é refresco e que, portanto, seriam maioria.

Por fim, o uso do plebiscito também demanda um trabalho prévio de conscientização, em que o cidadão saiba realmente o que está sendo decidido e as implicações de sua decisão. E nem sempre uma curta campanha de informação é suficiente para explicar todas facetas de determinado assunto polêmico.

Dito isso:

Você é a favor de que o teto salarial do funcionalismo público brasileiro suba para R$ 35,9 mil?

Mas também e por que não:

Você é favor que o teto do salário de um vereador seja o mesmo que de um professor da rede pública?

Você é a favor de mudanças na lei para impedir a reintegração de posse de terrenos ocupados por famílias que não possuem absolutamente nada sem que, antes, seja garantida uma alternativa de moradia decente a elas?

Você é a favor do fim da cela especial para quem tem curso superior?

Você é a favor de que propriedades rurais que, ilegalmente, ocupam territórios indígenas sejam devolvidas aos povos que as reivindicam?

Você concorda que fazendas e imóveis que sejam palco de trabalho escravo sejam confiscados sem direito à indenização e destinadas aos mais pobres?

Você é a favor de que juízes sejam expulsos do serviço público, perdendo o direito aos seus vencimentos, em vez de receberem aposentadoria compulsória quando punidos por algum malfeito?

Você é a favor do fechamento das empresas que foram envolvidas por seus diretores em casos de corrupção?

Você é a favor da redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redução de remuneração?

Você é a favor de sobretaxar grandes fortunas?

Você é a favor da desmilitarização da polícia no Brasil?

Você é favor de fazermos de conta que Roberto Bolaños não morreu e aprovarmos uma lei proibindo-o de fazer tal coisa?

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A mídia e o voto: as eleições no Rio Grande

A razão maior da derrota no estado está na conjuntura regional e nacional, no clima de incertezas e ansiedades criado pela criminalização da política e na demonização do PT como responsável por governos, atacado diuturnamente pelos grandes meios de comunicação

O debate político ficou escanteado, predominou a intolerância e o antipetismo 
Foto: Caco Argemi

Em 2010 o PT, numa aliança com o PCdoB, o PSB e o PR, alcançou uma vitória expressiva. Tarso Genro (PT) e Beto Grill (PSB) venceram no primeiro turno com 54,3% dos votos. José Fogaça (PMDB-PDT) fez 24,7% e Yeda Crusius (PSDB-PP), que disputava a reeleição, ficou com 18,3% dos votos. Elegemos catorze deputados estaduais (25% da Assembleia) e oito deputados federais, igualmente um quarto da bancada federal gaúcha.

Entre as razões dessa vitória, a mais importante foi a crise histórica das finanças públicas do Rio Grande do Sul. O governo Rigotto (PMDB, 2003-2006) e o de Yeda Crusius (PSDB, 2006-2010) foram medíocres, estrangulados pela crise, e apesar da maioria folgada de que dispunham não tiveram coragem e ousadia de enfrentar a dívida pública com a União, o déficit previdenciário do regime próprio estadual e a guerra fiscal. Ficaram paralisados, em especial o de Rigotto, devido às indecisões do governador.

A tucana Yeda radicalizou. Com o discurso do choque de gestão e do “déficit zero”, ampliou ainda mais o fosso entre o governo e a população. A mágica do “déficit zero”, tão defendido e propalado pela cumplicidade da mídia, resumia-se a não cumprir os mínimos constitucionais na saúde e na educação e apresentar a soma zero no orçamento como o ápice da gestão pública. A isso se somou a venda de ações preferenciais do Banrisul com o compromisso de obras viárias que não cumpriu, o escândalo de corrupção no Detran, que gerou uma CPI, e um processo judicial que levou à condenação de dirigentes e diretores de órgãos do PP, PSDB e PMDB. Como se não bastasse, a governadora foi derrotada na AL – onde tinha maioria – na tentativa de aprovar um programa que permitia ao estado prorrogar os caríssimos e odiados “polos” de pedágio entregues a concessionários privados desde o governo Britto (PMDB, 1995-1998).

É nesse quadro que a candidatura de Tarso Genro, decidida em convenção ainda no segundo semestre de 2009, apesar dos poucos recursos materiais, passou a percorrer o estado, envolvendo o partido e a militância social, e alcançou unificar o campo da esquerda com o PCdoB, o PSB e o PR. Processo que não seria fácil. A relação de forças materiais e de número de prefeituras e legislativos municipais nos era muito desfavorável. No PT, a tese de alianças com os parceiros nacionais esteve presente, mas a Convenção em 2009 unificou o partido, não houve prévias e de comum acordo outras pré-candidaturas foram retiradas.

Com vontade e firmeza, o PT jogou-se na campanha e o nome de Tarso Genro, ex-prefeito da capital, ex-deputado federal e ex-ministro do governo Lula, era um forte concorrente. Um programa ousado, vínculo com o governo federal e com a campanha de Dilma Rousseff, deu sustentação, coerência nacional e competitividade à chapa.

O governo da Unidade Popular pelo Rio Grande

A vitória foi impressionante, trinta pontos percentuais à frente do segundo colocado e uma bancada considerável na Assembleia Legislativa (AL). Um governo que pensasse o “Rio Grande, o Brasil e o mundo” permitiu construir uma hegemonia capaz de atrair aliados pós-eleição para buscar maioria legislativa. PDT e PTB, herdeiros do trabalhismo gaúcho, aceitaram participar do governo e compor um bloco majoritário na AL.

A estratégia adotada para romper a paralisia e sair da crise não tinha muitas alternativas. A vitória por si mesma não resolvia a dívida com a União nem a previdência estadual.

O governo optou por um programa de retomar o papel indutor e estimulador que o Estado deve ter. Para isso, era necessário recuperar a autoestima e a confiança no funcionalismo com política de reposição de perdas, realização de concursos e contratação de funcionários em áreas-chave para a retomada do crescimento.

Desde a subordinação à dívida com a União, no governo Britto, o estado não contratava financiamentos e empréstimos. O novo governo o fez. E mais: utilizou, nos limites da lei, os depósitos judiciais à disposição do estado, buscou recuperar a Fazenda e a arrecadação de ICMS. Foi atrás de todos os programas e recursos disponíveis no governo federal e reivindicou grandes obras viárias para o estado nas BRs 386, 392, 290, 116 e 101 e para a nova 448, todas estruturantes para o sistema viário gaúcho. Da mesma forma, usou todas as possibilidades de novas universidades federais e, em especial, a rede dos institutos federais tecnológicos.

O governo apostou na recuperação do diálogo com as categorias funcionais do estado, em mesa permanente de negociação, e criou o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, que incorporava os históricos Conselhos Regionais de Desenvolvimento existentes, num fórum de contato e audiência com os vários segmentos da sociedade gaúcha.

Apesar de não retomar a experiência de democracia participativa realizada nas administrações petistas em Porto Alegre e na de Olívio Dutra (1999-2002), o governo manteve, além do Conselhão, os mecanismos de consulta popular que vinham dos governos anteriores, ampliado-os por meio do Gabinete Digital, com o propósito de incorporar reivindicações ao Orçamento Público.

O governo estabeleceu a meta de alcançar os 12% da receita líquida em saúde e ultrapassar os 30% para a manutenção e desenvolvimento do ensino básico no estado. O objetivo foi alcançado, com uma profunda mudança nos serviços do SUS através da rede de hospitais conveniados e com os municípios, e um gigantesco esforço na recuperação física das escolas, nos salários do magistério, além de uma pioneira reforma estrutural e pedagógica do ensino médio, previamente discutida com o magistério.

A política salarial não se restringiu ao funcionalismo, que teve ganhos reais acima da inflação em todas as categorias, em especial nos salários mais baixos. O Piso Salarial Regional no estado também cumpriu seu papel na distribuição de renda e na dinamização da economia. Quase liquidado na gestão tucana, o piso foi recuperado, voltando ao patamar do governo Olívio Dutra. O projeto de lei que está na Assembleia Legislativa garante para 2015 um piso regional de quase 30% acima do salário mínimo nacional.

A criação da Secretaria de Desenvolvimento Rural para atender a agricultura familiar, as cooperativas, o associativismo e os assentamentos dos pequenos agricultores, assim como a recuperação da Emater, encarregada da assistência técnica e da extensão rural, com cerca de quinhentos técnicos e engenheiros agrônomos contratados, garantiu uma prioridade para o setor.

As políticas de desenvolvimento econômico percorreram desde a agricultura familiar, a lei do Simples gaúcho com benefícios maiores que os do Simples Nacional aos micro e pequenos empresários, ao maior programa regional de microcrédito desenvolvido pelo Banrisul, até as políticas de fomento e benefícios fiscais para implantação de grandes atividades econômicas no Rio Grande, privadas e cooperativadas.

Uma inédita e exemplar política na área dos serviços foi a criação da Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR). Com o fim dos pedágios concedidos a empresas privadas que cobravam altas tarifas, os “polos” de pedagiamento foram extintos, as estradas federais devolvidas à União e as estaduais passaram ao controle da EGR com tarifas menores, bem inferiores para o transporte coletivo ou de carga, e com compromisso de ampliação e duplicação de vias. A empresa aplica integralmente os recursos, não paga tributos pelo caráter público e é fiscalizada e controlada por conselhos regionais.

Por fim, sem nos estendermos a todas as áreas do governo que manteve em todo o mandato uma média razoável de aceitação e aprovação, a questão da Previdência foi enfrentada, com a criação do Fundo Previdenciário. A lei já vige há três anos. A renegociação da dívida foi alcançada agora, com a aprovação no Senado, dando um sinal claro de seu término em 2028 e recuperando a capacidade de crédito do estado imediatamente.

As razões da derrota eleitoral: uma aproximação

Falar em uma aproximação do objeto analisado não é uma cautela por medo a opiniões mais afirmativas. A precaução é para não cair no impressionismo nem buscar culpados e/ou responsabilidades que nos aliviem de raciocínios mais complexos e elaborados.

Estamos num estado em que Lula ganhou em 1989 de Collor, em 1994 e 1998 de FHC. Em 2002, mais uma vez. No governo estadual, com Olívio em 1998 e com Tarso em 2010, no primeiro turno. Elegemos e reelegemos Paulo Paim ao Senado em 2002 e 2010. Há vários mandatos o PT é a maior bancada na AL. O Rio Grande não é um poço de conservadorismo ou de eleitores volúveis a qualquer modismo. A representação das maiores bancadas partidárias na Assembleia e na Câmara são quase estáveis. A presidenta Dilma, no segundo turno, teve 46,5% dos votos.

O que ocorreu então?

Penso que a razão maior da derrota está na conjuntura regional e nacional, no clima de incertezas e ansiedades criado pela criminalização da política e na demonização do PT como responsável por governos, atacado diuturnamente pelos grandes meios de comunicação. O estudo da Uerj s obre capas e manchetes negativas, ao longo de meses, comprovou isso de forma insofismável. Se pesquisa semelhante a essa feita com O Globo, O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo for estendida ao grupo RBS, o resultado será muito pior, na criminalização do PT e, por consequência, no desgaste do governo através dos jornais, das rádios e TVs. Centenas de matérias, ao longo do mandato, com manchetes do tipo “Estradas esburacadas”, “Caos na saúde”, “Crise na educação”, “Governo não paga o piso”, “Transporte não funciona”, “Mensalão e corrupção do PT” repercutiam contra o governo.

As manifestações massivas de junho de 2013, inicialmente vistas pela mídia como expressões de “baderneiros”, “vândalos”, rapidamente foram saudadas como legítimas representantes da cidadania e de ações reivindicativas.

Esse clima que se arrasta há quase uma década com a Ação Penal 470 foi exacerbado com as denúncias da Petrobras. Exploradas por Aécio, foram avalizadas por Marina e por Eduardo Campos, dando respaldo às denúncias e acusações contra Lula, Dilma e principalmente, o PT. Esse clima exasperou a tese da “mudança”, sem considerar que esta pode ser para um recuo ao passado ou para pior. A racionalidade, o debate livre de preconceitos, a história e os compromissos dos concorrentes eram secundários. O que importava era a “mudança”.

O uso na eleição da TV e do rádio para mostrar o governo, suas obras e serviços, publicizar o que fora sonegado ou manipulado pela mídia ao longo do mandato, não teve importância para a população.

O enfrentamento à candidatura Ana Amélia (PP-PSDB) era incontornável. Favorita desde o início da campanha até as vésperas do primeiro turno, a candidata precisava ser desnudada de sua aparência de apresentadora de TV por seus compromissos partidários e de classe que, efetivamente, sempre representou. Não resistiu ao mínimo confronto programático e de história de vida, mas sua derrocada foi traduzida como resultado dos “ataques impiedosos e arrogantes” de Tarso e do PT.

Transformou-se em vítima e fortaleceu o senso comum na montanha-russa das pesquisas eleitorais. Em uma semana, a candidatura Sartori, que já desativava equipes de TV e rádio, saltou do terceiro lugar para chegar à frente no primeiro turno. No segundo turno, Sartori (PMDB) fez 61% dos votos e Tarso (PT) 39%.

Esse fenômeno é de difícil explicação na lógica natural da relação de forças, da qualidade das campanhas, do brilho e competência pessoal dos candidatos. Não há uma racionalidade que decifre esse sentimento que mistura senso comum, ansiedade por mudança e ódio e intolerância no debate político. Este foi substituído pela não política. O atributo e a virtude passam a ser não ter opinião, não assumir compromissos, não apresentar alternativas aos principais desafios que o estado exige. Um candidato sem partido (“meu partido é o Rio Grande”), sem programa ou opinião (“um gringo que faz”) e com um elogio ao simplório, ao senso comum (“Sartorão da massa”).

Mesmo com candidaturas acima de suspeitas, de qualquer indício desabonador em sua trajetória, Tarso Genro e Olívio Dutra, como candidato ao Senado, foram derrotados, primeiro, por esse sentimento difuso, preconceituoso, do antipetismo, da mudança sem rumo, do elogio ao senso comum e, principalmente, da identificação do PT e do governo nas denúncias da Petrobras.

Outros fatores também influíram na derrota da Unidade Popular no Rio Grande do Sul. São de natureza distinta e, em conjunto ou individualmente, não mudariam, do nosso ponto de vista, o resultado final. Mas são importantes como experiências e lições para qualquer força política, e temos de aprender com isso.

Nos três primeiros anos, o governo sofreu uma crítica duríssima do maior sindicato do Estado – o Centro dos Professores do Rio Grande do Sul (Cpers) – em relação ao piso nacional do magistério. Uma visão marcada pelo esquerdismo economicista que simplificava todo o debate num índice impraticável aprovado pelo Congresso e desconhecia que nenhum professor recebia menos que o piso e os reajustes dados pelo governo garantiam, no mandato, um ganho real superior a 50% com a manutenção do plano de carreira. A crítica foi dura e partidarizada, influindo em outras categorias e na opinião pública, por meio de caríssimas campanhas de outdoors que eram aproveitadas pela direita. O sectarismo era tão acentuado que a diretoria do Cpers foi derrotada na categoria, em 2014.

O Sindicado dos Médicos, de base estadual, desempenha um papel reacionário e corporativo com campanhas de rádio, jornal e TV em defesa de uma saúde abstrata contraposta às políticas governamentais sempre ditas insuficientes. Seu corporativismo fundamentalista é contra novas faculdades de medicina e colocou-se até contra o Programa Mais Médicos. Pregando um falso moralismo e uma categoria com grande influência nos setores médios, acaba tendo audiência pública.

A saída dos aliados, PSB e PDT, do governo também enfraqueceu o projeto. O primeiro sob a alegação da candidatura presidencial de Eduardo Campos, que, posteriormente com Marina, acabou no colo de Aécio. Uma trajetória galopante para a direita e para reforçar o antipetismo. O PDT afastou-se em razão da candidatura própria no estado, do deputado federal Vieira da Cunha. O prejuízo foi grande, pois levou o PDT, apesar do equívoco da candidatura que se revelou um fracasso, a não assumir com firmeza a candidatura Dilma, além da condição de opositor no estado, do governo de que havia participado.

No governo, tivemos problemas e equívocos consideráveis. O Conselhão, por suas características, não criava relações de protagonismo no governo que nos permitissem ampliar o número de pessoas que, se identificando com as políticas, fossem apoiadoras do projeto. Isso retirou esforços na direção dos conselhos estaduais ou de algo como o orçamento participativo, que são mecanismos muito mais seguros para o protagonismo e a identificação com as políticas aprovadas.

A falta de foco, de um plano previamente determinado, facilitou a dispersão de recursos sem uma hierarquia a ser buscada. A poderosa Secretaria de Infraestrutura não conseguia operar obras e serviços, debatia-se num leque enorme de ações e, periodicamente, perdia tempo, esforços e recursos financeiros em projetos inviáveis.

A manutenção do sistema eleitoral com voto nominal, financiamento por empresas e coligações proporcionais foi outro fator de prejuízo. Dificultou alianças mais programáticas, pulverizou as campanhas individualizadas e estas se automatizaram sem compromisso programático e material com as campanhas majoritárias. A maioria dos panfletos, santinhos, fôlderes, cartazes etc. dos candidatos dos partidos aliados não divulgavam a chapa majoritária para governador e senador.

Por fim, a campanha teve um atraso injustificável e falta de material. É conhecida a fragilidade estrutural dos partidos, inclusive o nosso. Numa campanha dominada pelo poder econômico, a fragilidade do PT é enorme. Refiro-me não apenas aos recursos arrecadados para os candidatos, mas aos recursos disponíveis e potenciais em cada município (sedes, veículos, implantação social, disponibilidades de militantes etc.). Nesse aspecto, a estrutura partidária é muito débil e, nos momentos eleitorais, a burguesia e seus partidos contam com os clubes, as igrejas, a propriedade do comércio, das empresas, dos serviços, das rádios e jornais, transformando-os em uma força considerável.

A soma dessas questões alteraria o resultado se evitadas ou corrigidas? Penso que não. Existem situações conjunturais dificilmente reversíveis, mas, ao menos, precisamos e devemos ter consciência e aprender em cada circunstância dessas, para nos prepararmos para as próximas.

Raul Pont, deputado estadual (PT-RS)
No Teoria e Debate
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Direitos do Homem (sensível)

Se você é um ogro machista e homofóbico, você tem representantes no congresso, na imprensa, tem vários amigos no clube. Se você é LGBT, você tem representantes no congresso, na imprensa, tem vários clubes de amigos(as). Agora, se você está no meio do caminho, se é apenas um homem sensível lutando para ver respeitados certos direitos básicos de sua pacata heterossexualidade, não tem político a quem pedir socorro e periga não emplacar sequer reclamação na seção de cartas do jornal.

Que "direitos básicos" são esses? Ora, muitos, que viemos perdendo aos poucos, da adolescência pra cá, conforme nos apaixonávamos por mulheres inteligentes, elegantes e criteriosas, diante das quais, sensíveis que somos, fomos fazendo concessões. Usar regata, por exemplo: não pode. Calçar tênis de corrida, socialmente: nem pensar. Sair por aí, poxa vida, de pochete: divórcio.

A menção à regata, ao tênis de corrida e à pochete pode dar a impressão de que as reivindicações deste desassistido grupo pendem para a ogrice. De que nosso sonho é deixarmos de ser homens sensíveis e irmos nos transformando, paulatinamente, no Homer Simpson. Não é por aí. Alguns dos nossos anseios têm a ver com o Homer: outros tem a ver com a Marge — ou com a Lisa? Por exemplo: andar de patins. Pronto, falei. Eu sempre quis andar de patins, mas nunca tive coragem de assumir esse desejo. Vejo as pessoas deslizando pelas ciclofaixas como se tivessem asas nos pés, posso sentir o vento batendo em meu rosto, soprando a brasa da inveja e acendendo um pensamento: nossa, se eu fosse gay ou sueco, eu comprava um patins hoje mesmo. Acontece que não sou. Sou apenas um rapaz latino americano, um pobre diabo espremido entre o feminismo e o machismo, o hífen solitário no meio do Fla-Flu, com medo de ir de moletom e chinelo à padaria e pôr em risco o meu casamento, com medo de saracotear sobre rodinhas e pôr em dúvida a minha masculinidade.

Fôssemos uns machistões, não haveria problema. Teríamos casado com mulheres frágeis e tolas, que só nos diriam "amém, meu bem", e nossa vida conjugal seria um eterno domingo de Rider e latão: "Mais salaminho, pitucão?", "Sim, pituquim". Mas não, nos apaixonamos pelas bisnetas da Simone de Beauvoir: aí, queridão, conseguir emplacar um Chapecoense x Criciúma como programa pra noite de quarta fica difícil.

Fôssemos uns seres evoluídos, superiores às infantilidades latinas e libertos das amarras do gênero, não ligaríamos para as opiniões dos nossos pares: compraríamos os patins (reais e simbólicos) e sairíamos por aí, todos pimpões. Mas não, nós queremos ser vistos como mui machos, centroavantes, pegadores: aí, realmente, patins fica difícil.

Difícil, mas não impossível. A união é o primeiro passo. A divulgação dos nossos anseios, iniciada aqui, é o segundo. O terceiro é elegermos um representante. Ou, quem sabe, conquistar o apoio de um já eleito? Será que o Jean Wyllys não se interessaria em defender a causa? Em ouvir nossas reivindicações e incorporar HS, as iniciais de "homem sensível", à sigla da diversidade sexual: LGBTHS? Prometemos ajudar na luta por um mundo livre, onde cada um ame quem quiser, escolha o gênero em que se sentir mais a vontade e possa até, um dia — por que não? —, sair por aí de pochete.

Antonio Prata
No fAlha
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Barbosa devolveu apartamento funcional?

Em meados de novembro, a mídia tucana revelou — em pequenas notas e sem chamadas de capa — que o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, ainda não havia devolvido o apartamento funcional que o STF colocou à sua disposição quando ele era ministro da ativa. O imóvel com 523 metros quadrados, situado na área mais nobre de Brasília, deveria ter sido entregue no final de outubro — segundo as interpretações mais brandas da legislação em vigor.

A notícia não teve maior destaque na mídia tucana porque Joaquim Barbosa virou seu herói durante o julgamento do chamado "mensalão do PT". Por sua postura de carrasco, o ex-presidente do STF, antes rejeitado, passou a ser tratado como paladino da ética. Ele inclusive chegou a ser cogitado como candidato a vice na chapa do cambaleante Aécio Neves. Passada a eleição, porém, algumas verdades começam a ser publicadas em doses homeopáticas. Fica, então, a singela pergunta: Joaquim Barbosa, o "paladino da ética", já devolveu o apartamento funcional? Não custa perguntar!

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A marcha das tiazinhas: o ato contra Dilma na Paulista


Na página do Facebook do Revoltados Online (!) que convocava para a manifestação de sábado estava escrito que na primeira edição haviam comparecido 10 mil pessoas! Que na segunda foram 50 mil!! E que neste sábado (29) seriam 500 mil!!!

Com muito boa vontade dá para chutar que eram mil. Um mil e quinhentos talvez. Segundo a PM, 600. Concentrados no vão do MASP, repetiram o roteiro de sempre: cantaram o hino nacional (ali e depois mais um par de vezes), rezaram a ave-maria, pediram ‘fora PT’, ordenaram ‘Lula cachaceiro, devolve meu dinheiro’.

A faixa que puxaria a procissão continha os temas ‘não ao Marco Civil’, ‘não às cotas raciais’, ‘não à reforma política’, ‘liberdade de imprensa’. As cartolinas escritas à mão pediam ‘fora Dilma’, ‘impeachment já’, ‘façam o diabo com Cuba, não com o Brasil’.

Se na manifestação anterior apenas um décimo da quantidade inicial conseguiu chegar à praça da Sé, dessa vez o percurso foi adaptado e reduzido ao máximo. Muito em razão também da faixa etária daqueles manifestantes, foi feito um zerinho na Paulista.

Saindo do MASP, fizeram o retorno na Praça do Ciclista e, na outra ponta, na avenida Brigadeiro. Circuito típico de fórmula Indy, na velocidade de Rubinho Barrichelo. Para senhoras, senhores e alguns cachorrinhos já está bom.

No início, Lobão falou. Novamente criticou a presença dos manifestantes que pediam intervenção militar e chegou a pedir auxílio da PM para a retirada do que classificou de “alienígenas”. No microfone os discursantes se revezavam. “Dizem que somos coxinhas. Se ser coxinha é trabalhar duro, pagar altos impostos, então somos coxinhas sim”.

Os organizadores fizeram questão de parar alguns minutos defronte ao prédio em que há escritórios da Petrobrás para mais discursos sobre a roubalheira. Alguém sobre o caminhão de som lembrou que estavam em frente também a um prédio ‘símbolo da mídia comprada pelo governo’. Era o da Gazeta. Estudantes de jornalismo da Casper Líbero que estavam sentadas na escadaria caíram na risada.

Ao final, um advogado explicou quais seriam os próximos passos. “O primeiro é a petição para o impeachment. Mas para isso de fato acontecer é muito importante o segundo passo ser iniciado de imediato: o abaixo-assinado. O terceiro passo é o mais importante de todos, alertou o advogado: o povo precisa estar na rua.”

Ou seja, a primeira etapa deveria ocorrer depois da segunda e, a terceira… bem, a terceira etapa já estava acontecendo naquele momento antes das duas primeiras. Entendeu? Então… melhor ir ao cinema, não é mesmo?

marcha3

Mauro Donato
No DCM
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‘Bang!’

A última do Papa Francisco é que nem o Big Bang desmente a teologia nem a teologia desmente o Big Bang. Um cristão pode aceitar a teoria do grande estouro que, segundo a ciência, deu origem ao Universo em um milésimo de segundo, sem abandonar sua crença na existência de um Deus criador de tudo. Pode-se até imaginar uma hipotética conversa do Papa, que o representa na Terra, com Deus, em que Este lhe confidencia:

— Francisco...

— Sim, Senhor.

— O Big Bang... Existiu mesmo.

— O quê?

— Existiu. Não adianta mais negar. A teoria está certa.

— O Senhor tem certeza?

— Meu filho, Eu estava lá.

— Então o Big Bang... foi o Senhor?

— Modestamente...

A Ciência não nos assegura que o Grande Nada que precedeu o Big Bang não fosse o tempo ocioso de Deus, indeciso sobre o que fazer da Sua vida. Crio um universo? Me resigno a esta imensa solidão, por toda a eternidade? E este meu poder sem limites, o que faço com ele? Se posso tudo, por que não fazer tudo? E Deus explodiu, criando tudo.

A vantagem de criacionistas sobre evolucionistas é que a Bíblia, onde está escrito tudo o que um criacionista precisa saber, pode ser lida como verdade incontestável ou como uma coleção de parábolas e metáforas. Assim, trechos que parecem cientificamente improváveis são explicados como sendo em linguagem figurada, com liberdade poética, e os outros, menos fantásticos, como fatos históricos. Não há nem poesia nem certezas iguais nas explicações científicas.

Há pouco uma sonda pousou num cometa e, entre as transmissões que mandou para a Terra, detectaram o que pareciam ser notas musicais. Não eram, mas por um breve instante de encantamento foi lembrada uma ideia antiga, a de um Universo sinfônico, e Deus como uma espécie de Beethoven sideral. O cometa traria, entranhado, algum resto da música das estrelas. Mas o ruído da sonda era só estática. Pena. Seria um ponto para o deslumbramento religioso contra a frieza da ciência.

Luís Fernando Veríssimo
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Respostas sem berros

As melhores perguntas do momento só podem ter, na hipótese mais otimista, respostas que se limitem a tendências, ainda assim, vagas e fugidias. O que não falta, em comentaristas e no noticiário, são respostas com a pretensão de conhecimento ou de previsões bem refletidas. Especulações e chutes, nada mais. A reviravolta dada por Dilma Rousseff foi tão inesperada e tão extremada que nem a mínima informação segura está disponível na praça. Ou melhor, como convém dizer agora, no mercado.

A pergunta mais repetida: Joaquim Levy terá autonomia ou vai se chocar com as imposições agressivas de Dilma?

Certa vez, ouvi de Mario Henrique Simonsen que suas intenções, quando ministro da Fazenda, com frequência encontravam a divergência do "presidente" Geisel, dado a transformar conversa em discussão. Aos berros. Ia assim a coisa quando, certo dia, Simonsen levantou-se de repente e tomou o rumo da porta. Geisel não entendeu:

"O que é isso? Onde é que você vai?"

"Vou embora. Não posso conversar com o senhor aos berros."

E Geisel, ainda aos berros: "Pois então berra também. Senta aí e berra!"

Em sua passagem pelo Tesouro, Joaquim Levy esteve sempre predisposto a opor-se a gastos desejados por Lula como política social. Aumento real do salário mínimo, por exemplo. Lula é dado a má-criação, mas Levy, ao que consta, defendeu suas posições com todo o comedimento. Era um novato. Hoje tem credenciais, e está elevado a salvador do universo.

Lula não era de dizer "eu quero assim", "quem preside sou eu", expressões que nos últimos anos, diz-se, não foram raras no Planalto. Perguntado, na apresentação preparada para não ter perguntas, Joaquim Levy fez uma afirmação enviesada de que, sim, terá autonomia. Era a resposta obrigatória.

Outra das perguntas: o "ajuste" de Levy não se fará sem mudar os rumos sociais do governo, e como o PT agirá diante disso?

O PT foi um partido de ideia. Resta pouco daquele partido e quase nada da ideia. O governo Lula igualou a conduta partidária dos petistas à dos demais partidos grandes. No governo Dilma, o PT ficou imperceptível, murchou mesmo. O partido do governo foi o PMDB, que se impôs como tal. Não para servir. Para se servir.

São numerosos os focos de indignação com Dilma/Levy. Mas, para o caso de inconformar-se, o PT precisaria refazer sua capacidade de se mobilizar, o que não conseguiu nem para as eleições estadual e presidencial no que era o centro gerador de sua vitalidade, São Paulo. Sem reativar-se, a expressão partidária fica com os parlamentares, que, também reduzidos a políticos convencionais, tendem a jogar por conveniências que ainda não estão claras, entre a acomodação com algum proveito e o medo de desagradar demais o respectivo eleitorado. Mas há também a percepção, embora muito minoritária, de que o partido esboroa e precisa despertar. A tendência predominante, nesse conjunto de hipóteses, não se mostrou ainda.

Mais uma boa pergunta, com elaboração acrescida: os derrotados das três últimas eleições querem retomar o Poder, e a política de Joaquim Levy vai capitalizá-los; e Dilma e o PT, poderão mesmo repetir o primeiro mandato de Lula, cedendo no começo para fazer a festa nos dois anos finais?

O governo Lula foi cercado por conjuntura internacional bastante positiva, estando o seu mérito em aproveitá-la (com Guido Mantega). Hoje, até a fortíssima Alemanha cresce o mesmo 0,1% que o Brasil, com a diferença apenas de que a imprensa de lá não faz disso um escândalo com fins políticos. A recessão abala o Japão, a China está com seu crescimento diminuído. O futuro próximo é incerto.

Além disso, a oposição é comodista e está sem liderança de fato. E o PT acredita que, com ou sem presente de Joaquim Levy para os anos finais de Dilma, Lulalá decide 2018. Mas aí já é a religião lulista, e aprendi que religião não se discute.

Janio de Freitas
No fAlha
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Sérgio Porto # 60


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Essa é do Barão... 118


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600 pessoas na Paulista: o “movimento” pelo impeachmente está morto, mas falta avisar os coveiros


Durou pouco mais de um mês o “movimento” pedindo o impeachment com base em teorias estapafúrdias e alimentado por paranoicos.

A última marcha reuniu, segundo a PM, 600 gatos pingados na Avenida Paulista. No Rio de Janeiro e em Belo Horizonte a coisa micou um pouco mais. No resto do Brasil, não aconteceu nada.

Em São Paulo, o primeiro protesto já dava sinais claro de insuficiência cardíaca. O deputado eleito Eduardo Bolsonaro, filho de Jair, apareceu com uma pistola na cintura no alto de um carro de som. Formou uma parceria com o deputado não eleito Paulo Batista. Juntos foram ao velho Danilo Gentili vender seu peixe.

Batista teve seus 3 minutos de semicelebridade do B com vídeos da campanha eleitoral, como um em que sobrevoava uma cidade disparando um “raio privatizador” de seus olhos.

Uma semana depois da manifestação de 15 de novembro, ele já estava sendo acusado de ser — sim, você leu direito — comunista por um certo Marcello Reis, criador da conta Revoltados Online no Facebook.

Desta vez, manifestantes que pediam “intervenção militar” foram expulsos da marcha, com a ajuda da polícia militar. Lobão apontou o dedo e humilhou o pessoal, acusando aqueles homens e mulheres de bem de ser — isso mesmo — de extrema direita. O empresário Ricardo Roque, que levava um megafone, foi afastado pela PM no Masp. Estava vendendo camisetas e bonés.

Como sempre, cenas dantescas. Um ambulante foi chamado de “vagabundo” e “drogado”. Duas pessoa foram presas.

O “movimento” deu seu estertor hoje, vítima de sua própria inconsistência, entre outras doenças. Partiu um dia depois do ator mexicano Roberto Bolaños. Como diria o Chaves, teria sido melhor ir ver o filme do Pelé.

Kiko Nogueira
No DCM
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29 de nov de 2014

10 diálogos icônicos de Chaves


Ainda hoje reprisada pelo SBT, a série Chaves consagrou o ontem falecido Roberto Bolaños e ainda hoje rende risadas por causa do humor simples.

Essa simplicidade se fazia presente nos diálogos, principalmente embora isso não signifique que as falas não eram memoráveis. Chaves, Chiquinha, Sr. Madruga, Quico, Nhonho e outros protagonizaram e são donos de algumas das mais lembradas conversas e falas da TV e tudo isso sem contar o que falavam nos episódios do Chapolin Colorado.

Separamos, então, dez deles, todos com participação do protagonista e alguns com links para as respectivas cenas. Não é uma lista definitiva, é claro, porque há muitos outros. Mas confira abaixo e deixei nos comentários outros que foram marcantes.

1. No cinema, incomodado:

Teria sido melhor ir ver o filme do Pelé…

2. Em conversa com Quico:

Eu sei que o Homem Invisível está aqui!

Por quê?

Porque não estou vendo ele!

3. Prometeu, certa vez, ao Sr. Madruga:

Também vou dar roupa novo pra todo mundo que precisa de roupa e que não tenha roupa. Por exemplo, aquelas pobres senhoras que saem naquelas revistas que o senhor lê…

4. Conversando com o Sr. Madruga:

Quantos anos você tem, Chaves?

Tenho oito, por quê?

Porque eu não entendo como é que em tão pouco tempo se consegue ficar tão burro!

O senhor demorou mais?

5. Disse a Nhonho, certa vez:

Por isso você tá tão gordo assim. Olha, o dia que você for trabalhar na televisão, vai ter que trabalhar em cinco canais ao mesmo tempo!


E dos animais de terra fima, qual é o maior e mais pesado? – pergunta o professor Girafales.

Nhonho! disse Chaves, de primeira.

7. Ao responder uma pergunta do professor do Prof. Girafales, no mesmo episódio:

Chaves, como se chamam os animais que comem de tudo?

Ricos!

8. Com Chiquinha e Quico, bisbilhotando a casa da Bruxa do 71 e depois de derrubar alguns utensílios:

Quem está aí? pergunta a bruxa.

Outro gato! responde Chaves, provando ser às vezes menos inteligente do que Quico.


Vocês não veem que eu estou convalescente? pergunta Quico.

Convale o quê? questiona Chaves.

Chaves, quando o Quico diz convalescente, quer dizer que ainda não está bem, besta! explica Chiquinha.

Ah, e quanto estiver bem besta já vai poder sair para brincar? Se é por isso, já podia ter saído há muito tempo!

10. Em um episódio, quando o Sr. Barriga se aproximava, gritava para avisar o Sr. Madruga:

Já chegou o disco voador!



Os primeiros episódios:

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Como foi chocado o ovo da serpente na PF


Um veterano repórter investigativo que esteve semana passada em Curitiba, relatou-me trechos de conversas com delegados federais.

Um deles, sua fonte antiga, mencionou os esforços que estão sendo feitos para encontrar elementos na Lava Jatos que permitam acusar Dilma Rousseff de improbidade administrativa.

Escarafuncham até viagens da Lula à África, depois que deixou a presidência, bancada por empreiteiras. Nada encontrarão por aí, mesmo porque, como é de conhecimento geral, são eventos públicos para estimular negócios de empresas brasileiras na África.

Mas mostra a que ponto chega a gana da PF

Em uma padaria tradicional de Higienópolis, um dos frequentadores é um Policial Federal que, embora não esteja no centro dos acontecimentos, gosta de relatar os esforços de seus colegas para encontrar provas que que permitam construir as acusações por improbidade.

Mas, como diz o douto Ministro José Eduardo Cardozo, nada a fazer porque a Polícia Federal é “republicana”.

O que levou a esse estado de espírito? O absoluto descaso do governo Dilma — através de Cardozo — com a Polícia Federal.

O veterano policial de Curitiba falou com nostalgia dos tempos de Márcio Thomas Bastos, o aparelhamento técnico da Polícia, o orgulho de se mirar na capacidade técnica do FBI como benchmarking, a cooperação internacional e interna para combater o crime organizado..

Quando esbarravam em uma investigação mais delicada, corriam até Bastos que garantia o respaldo necessário.

Ele situa o início do esvaziamento da PF na posse do delegado-geral Luiz Fernando Correa — nomeado no governo Lula, com a missão precípua de esvaziar a Satiagraha. E o desmanche final na gestão José Eduardo Cardozo.

Hoje em dia cessaram as cooperações internacionais, a ambição de buscar a excelência, a polícia está corroída por disputas internas. Toda essa frustração foi canalizada para a Lava Jato.

Ou seja, a luta pela legalidade democrática exigirá esforço dobrado dos legalistas, porque tem duas pernas mancas: o governo Dilma e o PT.

Luís Nassif
No GGN
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Kátia Abreu quer um ministério ou uma crise?


Não  tenho idade para ser um “força cega” e já vivi governos demais para não  saber que se tem de formá-los com concessões políticas, mas também que não pode dar certo aquilo que contesta a autoridade legítima do governante eleito e agride frontalmente o partido pelo qual se elegeu.

Por isso, não considero, do ponto de vista da política agrária, um retrocesso a indicação de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura, até porque é evidente que ela tem condições de trazer o agronegócio — que ninguém quer atirar ao mar — para próximo ao Governo e garantir-lhe as condições de produzir com respeito ao meio-ambiente e aos assalariados e pequenos produtores rurais, especialmente o de corte familiar.

Não é boa a política que ignora setores produtivos e não lhes oferece a oportunidade de participar do crescimento do país, sem que firam, ou firam menos, num ambiente de diálogo.

Mas diálogo pressupõe boa-vontade, jamais arrogância ou provocação.

Exatamente o que faz hoje, sem nenhum pudor, a senadora Kátia Abreu em seu artigo na Folha. (leia abaixo)

Não apenas erra, ao dizer que terra indígena é apenas aquela que, no momento da promulgação de 1988 estava ocupada por indígenas — que poderiam, por suposição, terem sido expulsos na véspera, com os métodos mais violentos — embora não passe pela cabeça de ninguém devolver os terrenos do centro do Rio e de São Paulo à Confederação dos Tamoios, como ela sugere se pretenda.

Errar é humano, diz o bordão, e mesmo que se considere possível e necessário dialogar sobre o conceito de terras indígenas, não se pode dialogar com provocação.

Porque  não merece outro nome senão o de provocação, ao escrever que é preciso “enfatizar que o ministro Gilmar Mendes é um dos mais sérios juristas deste país, cuja obra ultrapassa nossas fronteiras. No Tribunal, sempre pautou sua posição pela estrita aplicação da lei, não sucumbido a pressões como essas que hoje o acometem. Os que contra ele vociferam são os que não possuem o mínimo respeito pelo Estado Democrático de Direito”.

Quem está na iminência de ser indicada ministra de um governo sistemática e doentiamente combatido por Gilmar Mendes, com ações jurídicas e outras nem tanto, só pode fazer isso se não tem ideia de quem governa e de quem elegeu este governo.

Do qual ela pretende fazer parte, mas certamente sabendo que não será, nele, a dona, nem a capataz.

Para participar dele, como se disse uma vez do próprio Ministro Gilmar Mendes, precisa antes saber que não está falando com seus capangas lá — no caso dela — do Tocantins.

E aprender a ter modos.

Ninguém lhe pediu que esbofetasse o mais figadal inimigo do governo no Judiciário, Gilmar Mendes.

Seria desnecessário pedir-lhe que não esbofeteasse o Governo com escancarados elogios a ele.

A menos que haja algo que não se sabe e possa explicar a manifestação  brutal e grosseira.

Ou alguém que lhe explique o velho ditado gaúcho de que a luta não quita a fidalguia.

E que é gado e não criador de gado quem dá coices sem razão.

Fernando Brito
No Tijolaço


Conflitos intermináveis

Um país não pode se tornar refém de conflitos intermináveis. Basta olharmos para a história para constatarmos a violência e as guerras que fundaram e permearam a fundação e a conservação dos Estados. Mudam a intensidade e a forma de encará-los.

Em todo caso, deve haver uma linha de corte temporal a partir da qual um país possa recomeçar e se reinventar. Determinados problemas valem, por exemplo, até uma determinada data, na qual devem ser equacionados. Se assim não fosse, poderíamos retroceder um conflito qualquer a 40 anos, um século ou talvez cinco. Onde parar?

Foi baseado nessa sabedoria política que o Supremo Tribunal Federal, quando do julgamento do já emblemático caso da terra indígena Raposa Serra do Sol, decidiu estabelecer o marco temporal da Constituição de 1988 para as demarcações.

Na mesma ocasião, proibiu também a ampliação de terras indígenas, pela boa e simples razão de que terras demarcadas demarcam igualmente o seu entorno como não indígena.

Ocorre que algo tão evidente é objeto de contestações infindáveis por parte de ONGs nacionais e estrangeiras, Ministério Público Federal, Cimi, Funai, além de antropólogos ideológicos, que defendem causas, e não a ciência, e de políticos.

Particularmente manifesto é o fato de desprezarem a lei, não levando em consideração o que foi decidido e referendado pelo próprio Supremo.

O assunto voltou recentemente à tona por ter uma decisão do STF anulado o reconhecimento de uma área reivindicada como indígena guirarocá, em Mato Grosso do Sul. A justificativa para tal decisão foi a de que, conforme reza a Constituição, a etnia caiová não habitava essas terras desde a década de 1940. Trata-se, tão simplesmente, da aplicação da lei.

As baterias ideológicas voltaram-se, então, contra o ministro Gilmar Mendes, pelo fato de sua família supostamente ocupar terras indígenas em Mato Grosso do Sul, e, evidentemente, contra os "fazendeiros", como se esses fossem os algozes dos indígenas.

Cabe enfatizar que o ministro Gilmar Mendes é um dos mais sérios juristas deste país, cuja obra ultrapassa nossas fronteiras. No Tribunal, sempre pautou sua posição pela estrita aplicação da lei, não sucumbido a pressões como essas que hoje o acometem. Os que contra ele vociferam são os que não possuem o mínimo respeito pelo Estado Democrático de Direito.

No caso em questão, os "fazendeiros", para utilizar a linguagem desses que desrespeitam a lei e a verdade, são produtores rurais, com títulos de propriedade reconhecidos. Não são "invasores".

Quando obtiveram seus títulos, não havia efetivamente indígenas nessa região. Muito menos em 1988. Note-se que seus títulos foram outorgados pelo Estado brasileiro. Se um título do Estado não vale, o que é que vale então?

Argumenta-se, agora, que os indígenas foram expulsos de suas terras na década de 1940 por obra do governo Getúlio Vargas. Uma violência teria sido cometida, que deveria, assim, ser reparada.

Admitamos a validade do argumento, aceitando a sua extrema inconsistência, pois, se fosse esse o critério, deveríamos retroagir à chegada dos portugueses, desapropriando cidades como Porto Seguro, Salvador e Rio de Janeiro. Eis a lógica desse argumento levado ao absurdo.

Mesmo assim, admitamos a sua validade. Haveria uma reparação a ser feita. Quem deveria pagar por ela? Os "fazendeiros" ou o Estado que expulsou os indígenas da região? Salta à vista que os "fazendeiros" não têm nada a ver com isso, sendo eles, também, vítimas. Cabe ao Estado a responsabilidade por tal situação.

Isso significa que, se o Estado pretende fazer uma reparação histórica, deve ele fazê-la com seus próprios meios, e não expropriando os produtores rurais.

A "desapropriação" de terras indígenas paga apenas as benfeitorias, e não a terra nua. Ou seja, o Estado deveria desapropriar ou comprar terras por valor de mercado, pagando em dinheiro. De posse dessas terras, poderia, então, distribuí-las às populações indígenas que se sentem afetadas.

O que é inadmissível é que se pretenda reparar uma injustiça cometendo outra.
Kátia Abreu
No fAlha
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Sem o "Muda Mais" comunicação fica "Mais Muda"


Nossa despedida, com a certeza de que o Brasil vai Mudar Mais

Muda Mais não é só uma expressão. É um desejo e um lema. Desejo de toda a população brasileira e lema que reflete o sentimento de cada uma das pessoas que participou desse projeto.

Nestes oito meses acompanhamos o surgimento de algo inovador. Talvez nunca tenhamos visto acontecer uma união tão eficiente entre ruas e redes num processo eleitoral . E ela veio em momento fundamental. As eleições presidenciais há tempos não eram tão acirradas e a polarização do cenário jamais se deu de forma tão intensa quanto em 2014. O Muda Mais viveu três eleições em uma e teve de se reinventar a cada reviravolta.

Nas redes, o discurso de ódio se difundiu de forma inimaginável. Os ânimos se elevaram, a mídia passou dos limites, boatos criminosos se espalharam, sentimentos desumanos afloraram. Pedimos menos ódio, divulgamos a verdade. Saímos vitoriosos. A vitória não se deu só nas urnas, se deu também na união da esquerda, na retomada da militância, na renovação de sonhos.

Agora é a hora de fazer valer essa luta de oito meses. É hora de fazer valer a bandeira que levantamos: mudar mais. Precisamos caminhar a largos passos para a urgente reforma política, ampliar a participação popular, repensar a militarização da polícia, acabar com os autos de resistência e com o genocídio da população jovem e negra da periferia, criminalizar a homofobia, levar banda larga para todos, avançar nas políticas públicas para redução das desigualdades, democratizar a mídia, respeitar as minorias e dar a elas voz ativa na sociedade.

O mandato que se segue será um desafio para um governo que enfrentará a bancada mais conservadora dos últimos anos. Será preciso determinação para responder às críticas da oposição e da mídia, lidar com a governabilidade e posicionar-se progressivamente à esquerda, como muito se pediu durante esse ano.

Vimos nestas eleições a força das redes. Elas foram fundamentais para a vitória. No entanto, as ações das redes – e das ruas – não terminam por aqui. Elas serão fundamentais para garantir o contraponto à grande mídia, a disputa da agenda política e o compromisso de seguir avançando nas mudanças.

Dito tudo isso, o Muda Mais sente que cumpriu sua missão: defendeu com coragem, informação qualificada e criatividade os 12 anos que mudaram o Brasil, desconstruiu as mentiras e os preconceitos dos nossos adversários e, mais importante, se tornou uma referência para a troca de experiências, argumentos e contra-argumentos da militância e dos simpatizantes pró-Dilma.

Nos sentimos orgulhosos pelo que construímos juntos nas redes e nas ruas. Nós e vocês, JUNTOS. Obrigado a todos que compartilharam seus talentos e suas paixões conosco. Foi lindo. Uma vitória suada, conquistada pela força do povo.

O período de 12 anos de governos Lula/Dilma foi marcado pela associação inédita entre crescimento econômico e redução da desigualdade. Esta associação gerou 20 milhões de empregos, ganhos reais de salários, aumento de 100% no acesso ao ensino superior, atendimento médico a milhões de brasileiros e a mais ampla política de transferência de renda para as populações pobres. Em que pesem as manchetes de jornais e os discursos inflamados e, por vezes, antidemocráticos da oposição, foi este projeto transformador que ganhou a eleição de 26 de outubro de 2014.

Sabemos que há muito ainda a ser feito. Sabemos que um governo democrático é construído com pressão popular, pautas que vêm das ruas, demandas sociais. O caminho não é fácil, mas é preciso resistir. É preciso mudar mais.

Por questões estruturais e logísticas temos que fazer uma pausa agora em nossas atividades. Esperamos poder voltar às redes no futuro. Partimos com a mesma convicção de quando iniciamos o nosso trabalho: o processo de avanço continuado das mudanças pelas quais o Brasil passa não pode parar.

A todos que estiveram conosco nas redes e ruas ao longo desses oito meses, muito obrigado por terem nos mudado mais. Temos certeza de que esse é só o começo de uma grande história, e que nós vamos fazer muitas coisas boas ainda, juntos. Fica aqui nossa admiração por todos os corações valentes desse grande Brasil, pelo engajamento de cada um e pela troca constante. A luta continua!

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O Código do Consumidor como defesa contra a mídia corporativa


Já faz tempo os ideólogos do mercado se lançaram à batalha de reduzir o cidadão à categoria limitada aos objetivos do ente econômico que representam.

Parte de uma guerra semiótica mais ampla, em que até mesmo a história foi declarada como acabada, a propaganda mercadológica empurrou metódica e intensamente a palavra "consumidor" goela abaixo da cidadania indefesa a esse tipo de ataque.

Nesse sentido, para dar um único exemplo, no arcabouço de uma visão privatista do ambiente econômico seria de somenos relevância a opinião de um cidadão de valores nacionalistas, do que o índice de satisfação do consumidor de serviços essenciais, independendo se o fornecedor seja do país ou estrangeiro e para onde migram e são reinvestidas partes dos lucros dessa atividade.

Isto é, o exercício do consumo, nessa ideia de mundo, é mais importante do que o da democracia.

Considerando-se que essas alegações detenham boa correlação com a realidade vivida no Brasil há cerca de duas décadas — para ser mais preciso, desde os anos 90 do século passado — para fins de argumentação, imaginemos, então, um modelo de cidadão, transformado consumidor de informação veiculada pelas vários ramos que compõem a mídia corporativa.

Essa mesma mídia, aliás, adotou essa categorização com tamanha ênfase, a ponto de que alguns de seus conglomerados, depois de martelarem por meio de seus veículos ao longo dos anos para impingir a noção de que eram fornecedores de "produtos" de informação e entretenimento, agora, estão "diversificando atividades" para o florescente mercado de bebidas (nesse caso, literalmente produtos) - na modalidade de clubes de fidelidade 'on line'.

Nosso cidadão-consumidor aficcionado de rádio, leitor de jornais e revistas, espectador de telejornais e, como convém a alguém destes tempos modernos, consulente de grandes portais da internet, de alguns anos para cá — doze ou treze, talvez? — se viu diante de um quadro de deterioração, alteração, avarias, falsificações, corrupção e fraudes dos tais "produtos" da mídia, amplamente provados e comprovados pela crítica especializada que, felizmente, ainda conseguiu refúgio no terreno quase neutro da rede mundial de computadores.

Sendo assim, nosso cidadão-consumidor está diante de um dilema: ou "consome produtos" que, facilmente, poderiam ser enquadrados no Artigo 18; parágrafo 6º; inciso II do Código do Consumidor, ou fica sem esses serviços importantíssimos de formação e satisfação - sim, satisfação... sim, porque ouvir rádio e ver TV já foi fonte de conforto pessoal e de prazer!

Como todo dilema, esta situação aparentemente sem saída pode ensejar novas formas de encarar o problema e soluções criativas para projetar um futuro melhor para o tema.

Nesse caso emerge, das profundezas deste desencantamento, uma possibilidade teórica, mas de grande potencial de contundência no debate público sobre o assunto: exercer, simultaneamente, a cidadania e os direitos do consumidor, e propor ao Ministério Público Federal uma denúncia visando a abertura de uma Ação Civil Pública contra as seis ou sete famílias que dominam a mídia empresarial do país pela péssima qualidade dos serviços e "produtos" que têm oferecido nesses últimos anos.

Cesar Monatti
No GGN
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