31 de jul de 2014

O que espera o Brasil caso os discípulos de Thatcher dêem as cartas na economia

Dama de Ferro
O terrorismo econômico está aí.

Essencialmente, o que os conservadores estão dizendo é que a política econômica descarrilhou sob Dilma.

Só Aécio salva, é a mensagem.

O que a direita quer para a economia é, numa palavra, a receita thatcheriana.

Os pilares da doutrina consagrada nos anos 1980 por Margaret Thatcher podem ser resumidos assim: privatizar, desregulamentar e reduzir ao máximo as despesas sociais.

A busca, em suma, do Estado mínimo.

É o que o “mercado” quer por razões óbvias: as empresas, nacionais e internacionais, ganham barbaramente com isso.

Como em todo jogo alguém perde, os trabalhadores pagam a conta. A Inglaterra sob Thatcher regressou a níveis de desigualdade próximos do abismo que existia na era vitoriana.

Esqueça, por um momento, questões como ideologia ou mesmo justiça. A questão é: a receita funciona?

Ou sob outro ângulo: se o Brasil adotar os preceitos thatcherianos reivindicados pelos conservadores a economia vai deslanchar?

A resposta, se você olha a história, é: não.

Os mandamentos de Thatcher são bons apenas para o chamado 1%. Para os demais 99%, não.

Para o país como um todo, para a saúde da sociedade, menos ainda. Seguir Thatcher é uma calamidade nacional.

O thatcherismo está na raiz da crise econômica que castiga o mundo desde 2008.

Sob Reagan, os Estados Unidos abraçaram o thatcherismo. O mercado financeiro foi desregulamentado, para dar liberdade aos bancos e assim, alegadamente, promover a economia.

Depois de alguns anos, veio a hecatombe.

Na busca de lucros exorbitantes, os bancos americanos — livres de regulamentação — afrouxaram todos os controles para quem pedia empréstimo para comprar casa.

Até que começou a inadimplência.

Milhares, milhões de tomadores de empréstimo não tinham condições de honras as dívidas.

Os calotes se multiplicaram. Grandes bancos quebraram. E a crise econômica se espalhou rapidamente pelo mundo.

Nunca mais a economia mundial se recuperou. A locomotiva dela, os Estados Unidos, vem se arrastando desde então.

Em breve, graças à estagnação americana, a China deve se converter na maior economia do mundo.

Também a Inglaterra de Thatcher ainda hoje enfrenta as consequências econômicas e sociais da falsa revolução da Dama de Ferro.

A ressaca do thatcherismo tornou Thatcher tão detestada que os ingleses fizeram celebrações em praças públicas quando ela morreu.

Não existe uma única estátua dela na Inglaterra, sequer em sua cidade natal: ela seria derrubada em dias, talvez horas.

É esta mesma receita que os conservadores querem para o Brasil agora.

Suponha que ela seja adotada pela próxima presidência. Rapidamente, os suspeitos de sempre lucrarão — a plutocracia, ou o 1%.

Num país cujo maior desafio é mitigar a desigualdade social, seria uma tragédia.

O país avançou socialmente nos últimos anos. Menos do que poderia e deveria, é verdade. Mas avançou.

O thatcherismo faria o Brasil retroceder várias casas na questão social em pouco tempo.

Num momento de franqueza desconcertante, Aécio prometeu a empresários “medidas impopulares” caso se eleja.

Seu guru econômico, Armínio Fraga, um fundamentalista do thatcherismo, falou que o salário mínimo cresceu muito nos últimos anos.

Avisos do que vem por aí caso o thatcherismo seja posto em ação no Brasil não faltam, portanto.

Os thatcheristas prometem a você o paraíso. Mas entregam o inferno. Paraíso, só para eles mesmos.

Paulo Nogueira
No DCM
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Assunto encerrado, senador Aécio? Por que não uma CPI?


O bloco Minas Sem Censura aparteia o senador Aécio Neves mais uma vez. Agora, para dizer: não cabe à sua excelência decidir que o assunto do aeroporto clandestino de Cláudio, MG, está encerrado. Aliás, parece que ele começa a entender isso.

Os deputados da oposição querem instalar uma CPI, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, para que algumas respostas sejam dadas:

Comprovado o investimento de dinheiro público (cerca de 500 mil reais, em cifras atualizadas), feitos em 1983, na terra do “tio Múcio Tolentino”, sem, previamente, estatizá-la, o bloco quer saber qual o nível de envolvimento do Ministério Público, da Justiça e do Tribunal de Contas do Estado na apuração da irregularidade?

Quais os critérios econômicos que justificaram a priorização do aeroporto de Cláudio, em detrimento de outros polos mais dinâmicos no estado?

Mesmo que no município de Cláudio houvesse algum critério de demanda econômica, os princípios da impessoalidade e o da moralidade não impediriam que o ex-governador fizesse a desapropriação e a obra na terra do tio, que é próxima — também — ao espólio da avó Risoleta?

Considerando os custos já divulgados pela imprensa, de aeroportos até mais completos, os 13,8 milhões de gastos não se colocam como muito exagerados?

Por 31 anos, desde a pista de pouso feita por Tancredo, até recentemente, esta pista foi de uso privativo da família de Aécio Neves e de amigos. Quantos voos clandestinos foram feitos, de fato, lá?

O estado enviou documentação completa à Anac, visando agilizar a homologação do aeroporto? Se não foi completa, qual foi o motivo?

Sobre o processo de desapropriação: as ações do MP, da Justiça, da ALMG, do TCE, da Advocacia Geral do Estado foram adequadas? Houve alguma perda de prazo? Há algum indicío de prevaricação? Qual o histórico das perícias e avaliações feitas sobre o valor do terreno em foco?

A resposta a essas e outras perguntas podem ser dadas numa Comissão Parlamentar de Inquérito. O senador, que é a favor de CPIs em Brasília, com certeza vai autorizar sua base na ALMG a assinar o requerimento do bloco pela instalação da CPI.

É a CPI que pode encerrar o assunto e não uma ordem do senador Aécio Neves!

Minas Sem Censura
No Viomundo
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O mentalista que enganou a Globo

Imagem SQN
Vejam a incrível notícia, publicada no site G1, dando conta que um mentalista teria feito, no dia da abertura da Copa do Mundo, uma previsão para a final, “registrada em cartório”, cravando a Alemanha campeã e errando o resultado por apenas um gol de diferença.

Antes, o mesmo site havia publicado outra matéria, mencionando que o mentalista teria feito o mesmo em 2006 e acertado o resultado da final, apontando a Itália campeã e o placar de 5 a 3 nos pênaltis, contra a França. A riqueza de detalhes foi tamanha que o mentalista ainda incluiu a expulsão de Zidane na prorrogação, a eliminação do Brasil para a França, por 1 a 0, e até a vitória da Alemanha sobre Portugal por 3 a 1, na disputa pelo terceiro lugar.

Ocorre que as fotos que ilustram as reportagens permitem concluir que o autoproclamado mentalista não “registrou” qualquer previsão, mas apenas reconheceu sua firma em cartas.
Previsão da Copa do Mundo de 2014 foi registrada em cartorio - G1

O Cartório de Notas, portanto, apenas atestou que a assinatura das cartas é mesmo a dele, sem efetuar qualquer registro ou análise do texto. Não há qualquer garantia de que espaços em branco, eventualmente deixados no corpo do texto, por exemplo, não possam ter sido preenchidos APÓS os resultados.

Se o mentalista quiser colocar à prova seus autoproclamados poderes em 2018, deixo aqui a dica: escreva a previsão em uma carta, sem qualquer espaço em branco, e registre-a com antecedência no Cartório de Títulos e Documentos, o que aí sim permitiria comprovar a inexistência de qualquer acréscimo a posteriori.

De qualquer forma, é preciso reconhecer algum poder no mentalista, que, ao enganar o G1, certamente exerceu uma forma de ilusionismo...

Thibau acertou previsão da Copa do Mundo de 2006 - G1




Renato Pacca, advogado e professor no Rio de Janeiro
No OI
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No Brasil da direita, a culpa é da vítima


Aécio Neves diz que o Aeroporto de Cláudio só é usado por ele porque a ANAC não o homologou, mesmo que isso tenha ocorrido por falta de documentos e porque a pista fica sob o controle de sua família.

Reinaldo Azevedo escreve que o racionamento de água em São Paulo vai ocorrer por causa de Alexandre Padilha e do Ministério Público Federal, embora quem o diga necessário sejam os especialistas da Unicamp.

O Santander lucra aqui R$ 1,2 bilhão (líquidos, já sem os impostos que quase não pagam) em seis meses, quase 30% do que ganha em todo o mundo, mas se acha no direito de dizer que o Brasil vai de mal a pior.

Só de abril a junho, o Santander no Brasil teve lucro líquido de R$ 527,5 milhões no segundo trimestre, alta de 5,35% em relação ao mesmo período do ano passado.

A coisa anda “tão ruim” para os bancos que o Bradesco divulgou hoje um lucro líquido de R$ 3,8 bilhões no 2° trimestre, quase 30% maior que o do ano passado. E sem emprestar mais, o que deveria ser a origem dos lucros de um banco.

A Argentina vinha pagando religiosamente sua dívida, mas um juiz de bairro decide que os que especularam com seus títulos, os fundos abutres, devem ter prioridade para receber o fruto de sua esperteza. E, em lugar de uma indignação contra isso, dizem que Cristina Kirchner “dá o calote” nos credores.

As empresas se queixam da demanda fraca mas contabilizam lucros recordes “vendendo menos”.

Estão todos “indignados”, os pobres coitados.

E nada disso é polemizado, porque são verdades absolutas, imperiais.

Reproduzo aí em cima um trecho da homepage do Valor Econômico.

Nunca se viu um caos econômico tão lucrativo assim.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Soluções para a falta de água em São Paulo




Falta água para os paulistas porque faltou humildade e sinceridade ao atual governo de São Paulo para ouvir a oposição como alguém que deseja o melhor para o seu Estado. Infelizmente, sempre que fiz críticas e apresentei alternativas, elas foram classificadas de eleitoreiras. Mas, se a metrópole de São Paulo está numa região de baixa disponibilidade hídrica e o governo do PSDB tem feito o que é preciso para garantir água, por que tanta torneira seca, virulência nas palavras e sofismas no raciocínio?

Falta água porque há dez anos o atual governador assinou um compromisso de, em 30 meses, executar um plano de obras. Mas nenhuma foi executada no prazo e com a dimensão planejada pela Sabesp.

O PT sabe quais são as soluções, das mais urgentes até as mais estruturantes. Desde 2011, a Sabesp poderia ter ampliado a capacidade dos mananciais do Alto Tietê se tivesse concluído o enchimento da represa de Taiaçupeba — que hoje opera com cerca de um terço de seu volume útil — ao valor de R$ 35 milhões. O volume armazenado desde então garantiria o abastecimento de 3 milhões de pessoas durante um ano.

No final de 2013, o governo poderia ter iniciado a construção de um sistema de bombeamento e da adutora para ligar o Rio Grande, na represa Billings, com a represa de Taiaçupeba. Essa solução teria um custo bem menor do que tirar água do Paraíba do Sul. E não colocaria em risco a ampliação de investimentos e empregos no Vale do Paraíba.

Sobre as obras estruturantes, é preciso fazer os reservatórios de Pedreira e Duas Pontes, no sistema PCJ (rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí). Existem estudos desde 2007, mas só em fevereiro foi assinado um decreto de utilidade pública para futura desapropriação da área dos reservatórios. Já o Sistema Produtor São Lourenço arrastou-se por seis anos. Não fosse a lentidão, já deveria estar abastecendo a região metropolitana com o correspondente a 15% do volume de água do Cantareira. Isso agora só vai acontecer em 2018.

Ainda é preciso fazer os reservatórios de Piraí e Campo Limpo e o Sistema Adutor PCJ. No total, são obras que custariam o equivalente a três anos de lucros da Sabesp — não foi, portanto, por falta de dinheiro que não saíram do papel.

Vale lembrar que quatro anos atrás, o PT já registrava em seu programa de governo que o fornecimento de água potável era inadequado para 600 mil pessoas na região metropolitana da capital. Eu, que era o ministro de Lula responsável por receber projetos de governadores e prefeitos, defendi reduzir a dependência do Cantareira.

Mas, no lugar de explicar sua inépcia, o PSDB tenta confundir os argumentos. Eu nunca disse que a região da Grande São Paulo é abundante em recursos hídricos, como já alegaram de forma distorcida. Tampouco afirmei que a água que hoje enche a represa Billings resolveria o problema da falta de água no Cantareira. O que sempre defendi é que para chegar à torneira das pessoas é preciso planejamento, investimento e obras.

Fazer as obras que o governo não fez, reduzir as perdas de água da Sabesp, investir em soluções inovadoras e na preservação dos mananciais, com compensações para os municípios que cuidam de áreas de proteção — essas são as soluções que o PT defende em relação à água de São Paulo. Lamentavelmente, o PSDB chama a isso de oportunismo.

Alexandre Padilha
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Aterrissagem forçada


Quando Aécio começou a fugir das perguntas dos jornalistas sobre o tema, ficou claro para todo mundo que, obviamente, ele estava ganhando tempo: não havia, porém, mais nenhuma dúvida de que ele usufruía do aeroporto que construiu nas terras do tio, em Cláudio.

Nas últimas semana, a equipe de marqueteiros teve que fazer malabarismos mis para tentar desvincular o tucano do escândalo, mas tudo foi em vão.

Prisioneiro do ‪#‎AécioPorto‬, o candidato do PSDB foi obrigado a escrever um artigo pífio e confuso na Folha de S.Paulo no qual, finalmente, admite o que todo mundo já sabia: no aeroporto do titio, ele sempre foi freguês.

Entre os argumentos usados no texto, um demonstra bem o nível de desespero que permeou o sincericídio ao qual Aécio foi obrigado a recorrer para não ser taxado de mentiroso no horário eleitoral:

“Cometi o erro de ver a obra com os olhos da comunidade local (sic) e não da forma como a sociedade a veria à distância (sic)”.

A "comunidade local" precisa pedir as chaves de um aeroporto público a Múcio Tolentino, tio de Aécio, se quiser usá-lo.

A "sociedade" somos nós, que, mesmo à distância, sabemos exatamente o que houve em Cláudio.

Cabe saber, agora, como é que esses voos eram feitos. Porque, se não houve aviso às autoridades aeronáuticas sobre os planos de voos, eles eram clandestinos.

Até lá, a candidatura de Aécio continuará em pane.

E poderá se espatifar, muito em breve, num morro da Mantiqueira.

Leandro Fortes
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Ele tem a chave...


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13 denúncias falsas de uma só testemunha

Sempre desconfie quando a denúncia tiver apenas uma testemunha. Confira 13 casos famosos que ganharam manchetes e holofotes, mas que nada foi comprovado


Vamos combinar o seguinte: denúncia baseada em uma testemunha oral, sem o reforço de provas, é farsa, até prova em contrário. Repito: é farsa, até prova em contrário utilizada usualmente pela imprensa, redes sociais e agora entrando na seara do Judiciário. Quem pratica farsa é farsante. E o ônus de provar que não é farsante é de quem recorre a esse tipo de denúncia.

Analisem-se alguns casos recentes:

1. As denúncias de propina no BNDES formuladas por um estelionatário recém-saído da prisão — condição escondida para valorizar ainda mais a farsa.

2. O Ministro Joaquim Barbosa — do Supremo Tribunal Federal(!) — invoca uma testemunha anônima para acusar o advogado que o afrontou no plenário de estar bêbado e ameaçar sua vida.

3. A polícia e o juiz carioca incriminam os manifestantes baseados no depoimento de uma única testemunha.


5. O Ministério Público Estadual de São Paulo acusa o ex-prefeito Gilberto Kassab. Não apenas a prova era uma testemunha em off como a própria entrevista foi em off.


7. O Ministério Público do Distrito Federal se vale de uma única testemunha anônima para afirmar que José Dirceu estaria falando pelo telefone com pessoas do Palácio do Planalto.

8. As denúncias do lobista contra Erenice Guerra, acusando-a de exigir dinheiro para a campanha de Dilma e narrando uma história sem pé nem cabeça sobre um jantar para o qual ele precisou até abrir mão de caneta, para evitar gravações. A justificativa para a falta de provas era mais ridícula que o fato em si.

9. A história do envelope com US$ 200 mil no Palácio do Planalto em reportagem da Veja.


11. A armação do grampo sem áudio da conversa entre o Ministro Gilmar Mendes e o ex-senador Demóstenes Torres (mais aqui).

12. A armação do suposto grampo no STF — a instituição máxima do direito prestando-se a uma farsa.

13. O corregedor do CNJ (Conselho Nacional da Justiça) invoca uma testemunha anônima para armar contra seu adversário no Superior Tribunal de Justiça, acusando-o de comprar passagens de primeira classe para familiares.

É importante notar que os jornais — que deveriam ser os filtros para os abusos das redes sociais — praticam o mesmo tipo de expediente. Aliás, praticavam antes mesmo da chegada das redes sociais. E o próprio CNJ permitiu que seu corregedor se valesse dessas práticas infames.

Uma boa receita para analisar esses factoides é simples: esse tipo de denúncia é farsa. Quem recorre a esse tipo de denúncia é farsante. Até prova em contrário.

Luís Nassif
No Pragmatismo Político
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Dilma e o Santander


 

Diz a sabedoria popular que frango que acompanha pato acaba morrendo afogado. Sempre estranhamos, ao longo dos últimos governos, a excessiva atenção reservada, pela classe política brasileira, para o que existe de pior no empresariado ibérico, em especial o oriundo da Espanha a partir dos anos 90.

Criou-se em nosso país, com a entrada de Madrid no Euro, a ilusão de que a Espanha, que passou a maior parte do século XX mergulhada em uma ditadura medieval e agrária, tivesse sido — pela simples troca da peseta por uma moeda mais valorizada — subitamente alçada ao desenvolvimento.

Nos séculos XIX e XX, em processo que vinha se consolidando desde a derrocada de sua Invencível Armada, Madrid viveu à sombra da Inglaterra e dos EUA, que se apossaram do que restou de seu império, na Guerra Hispano-Americana de 1898.

De Cervantes a Picasso, a Espanha deu grande contribuição ao mundo. Mas nunca foi o paradigma de empreendedorismo e de pujança com que aportou por aqui à época do PROER e das grandes privatizações.

Desde 2008, pelo menos, sabe-se que a “fortaleza” ibérica estava baseada em bilhões de euros em ajuda dos fundos da Comunidade Europeia e em centenas de bilhões de euros em dívidas, que deixaram em seu rastro um desemprego de quase 30%, e milhares de famílias despejadas e de aposentados prejudicados pelos bancos.

Quando se fala no IDH espanhol, é preciso lembrar que, por trás dele, está uma das maiores dívidas per capita do mundo. E que, se não fosse o hábito de exportar seus problemas e seus desempregados para países como o nosso, a cada duas gerações, os espanhóis não teriam o padrão de vida que tiveram até alguns anos atrás.

Na época em que, na América Latina, havia maioria de governos neoliberais, os “empresários” espanhóis eram recebidos, por aqui, como nababos.

E, o que é pior, continuaram a ter direito aos mesmos rapapés, depois da crise, quando suas ”grandes” empresas, altamente endividadas, começaram a depender, como de água para um peixe no deserto, dos altíssimos lucros auferidos em território brasileiro.

Sempre nos surpreendeu — e sobre isso escrevemos antes – o número de vezes em que o Senhor Emilio Botín — investigado, no passado, em seu país e execrado por boa parte da população espanhola — foi recebido em Palácio pela Presidente Dilma.

Nunca é conveniente que um presidente da República receba pessoalmente homens de negócio, e muito menos se forem estrangeiros. Para isso existem os ministros, como o da Indústria e Comércio ou o da Fazenda, por exemplo.

Se tivesse evitado os sorrisos e as fotografias que propiciou ao dono do Santander, por tantas vezes, com certeza a Presidente Dilma estaria se sentindo, agora, menos constrangida — depois da carta desse banco a “investidores”, desancando a orientação e as expectativas econômicas de seu governo.
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Fim da era JB: não há mal que dure para sempre


Acabou. Joaquim Barbosa não é mais presidente do Supremo Tribunal Federal. Sua aposentadoria precoce foi publicada nesta quinta-feira, 31 de julho de 2014, no Diário Oficial da União.

É uma data histórica porque chega ao fim dos períodos mais vergonhosos da história do Poder Judiciário no Brasil. À frente do STF, Barbosa agrediu colegas, jornalistas, entidades de magistrados, expulsou um advogado do plenário com a ajuda de seguranças e violentou, sobretudo, direitos e garantias individuais assegurados pela Constituição Federal.

Como relator da Ação Penal 470, transformou-se em figura midiática, "o menino pobre que mudou o Brasil" (em Veja), ou o "brasileiro que faz diferença" (no Globo), para cumprir o papel que a ele foi designado, alinhado com a agenda política dos meios de comunicação que garantiram seu breve estrelato.

No poder, a despeito da fama de justiceiro, usufruiu de todas as benesses do cargo, algumas permitidas, outras, nem tanto. Reformou o banheiro de sua residência por R$ 90 mil, viajou a Paris e visitou uma loja da Prada usando diárias que depois se viu forçado a devolver e registrou um imóvel em Miami em nome de uma empresa offshore que tinha como endereço seu apartamento funcional em Brasília.

Aposentado, Barbosa poderá se dedicar à vida de subcelebridade, seja nos bares da vida, no Rio de Janeiro, ou em Miami. A carreira política, que ele chegou a cogitar, a bem do Brasil, foi abortada. Caso tivesse se lançado candidato, jogaria por terra a "credibilidade" do julgamento da Ação Penal 470, a única causa a que se dedicou verdadeiramente na suprema corte.

Com sua saída, comprova-se, mais uma vez, a força de um ditado popular. Não há mal que dure para sempre.

E com a chegada de Ricardo Lewandowski ao comando do Poder Judiciário o Supremo Tribunal Federal poderá, enfim, restaurar a sua própria dignidade.

No 247
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Satãnder sentiu o golpe

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Espaço vital e mortal

Destruir por bombardeio a única usina de energia elétrica em Gaza não é procurar e destruir túneis dos combatentes palestinos. É o modo escolhido de causar o dano mais geral à população civil e às instalações essenciais que são os hospitais e postos de socorro ao que reste de vida nas vítimas das bombas, do canhoneio naval e dos tiros de tanques. Crime de guerra, pela Convenção de Genebra, e crime contra a humanidade, pelos princípios da ONU e pelas leis internacionais.

Os túneis como motivo dos ataques são apenas uma mentira a mais. O sistema de informação e vigilância de Israel não seria enganado, enquanto o Hamas construiria rede subterrânea tão extensa e sofisticada quanto diz o governo israelense. Mentira como a velha alegação de que os hospitais, escolas, mesquitas e moradias destruídos serviam de depósitos de armas e munição do Hamas. Se fossem, o ataque a tanto material explosivo teria levado toda Gaza pelos ares há muito tempo. Em vez disso, ruínas e crateras documentadas são compatíveis com o efeito normal dos bombardeios, sem a expansão de paióis explodidos.

O objetivo não são os túneis. Nem o foram os lançadores de foguetes do Hamas, como alegado ao início do atual ataque. O objetivo que pode explicar tamanho massacre é outro. Tem nome, já foi assunto de interesse da imprensa na Europa há uns 30 anos, mas veio a ficar cercado por um silêncio raras vezes transposto. O mesmo silêncio útil, e em grande parte pelas mesmas razões, adotado no último dia 24, quinta-feira.

Uma posse presidencial não é fato que passe sem se fazer notar. Tanto mais se quem deixa o posto é o último estadista de Israel, que se despede da vida pública aos 90 anos, e Nobel da Paz há exatos 20 anos. Foi diante de poucos convidados, no entanto, que Shimon Peres entregou a Presidência a Reuven Rivlin, que fez carreira como advogado de árabes moradores no território israelense. Sem que a atividade profissional tenha qualquer significado político.

O novo presidente de Israel não é apenas de ultradireita, integrante do mesmo Likud do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu. Ex-oficial de informação do Exército, Reuven Rivlin defende e incentiva a multiplicação de bairros ("assentamentos") israelenses em terras da Cisjordânia. Combate a hipótese do Estado Palestino previsto no ato de criação de Israel pela ONU. Em último caso, diz, seria admissível conceder aos árabes da Cisjordânia a cidadania de israelenses.

Reuven Rivlin é entusiasta e propagador do plano Grande Israel, hoje raramente citado, ao menos de público. Projeto que se origina (ou termina) em ideia semelhante à do "espaço vital" que figurou nas causas da Segunda Guerra Mundial. Nele se vê a explicação para os continuados "assentamentos", apesar da condenação da ONU e do poder conflituoso que têm, além de serem obstáculo central nos arremedos de diálogo de paz entre Israel e Cisjordânia.

Com o cadastro de Reuven Rivlin, o realce à sua posse tenderia a agravar a imagem de Israel propagada por sua ferocidade bélica. Mas a importância da ligação ostensiva do novo presidente com o plano Grande Israel não é só um prenúncio de sua ação futura. É componente lógico de um plano de ação que está muito acima dos túneis. E é levado pelas bombas à terra necessária à grandeza sonhada.

Janio de Freitas
No fAlha
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Lista do governo de Minas omite pista na fazenda de ‘tio Múcio’


Mesmo pistas não-homologadas pela Anac estão em relação de órgão, mas esse não é o caso de Cláudio.

Na entrevista que deu nesta quarta-feira (30) a jornalistas, em que reconheceu “possíveis irregularidades” no aeroporto construído na fazenda do tio-avô Múcio Guimarães Tolentino, em Cláudio (MG), o candidato do PSDB à presidência da República, Aécio Neves, ressaltou a necessidade de homologação da pista junto à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e disse que o procedimento pode não ter sido corretamente verificado.

Algumas das pistas no estado não estão homologadas, mas isso não impede que o cidadão interessado em conhecer a malha aeroportuária, saiba onde ficam.

Entretanto esse não é o caso de Cláudio: lista disponibilizada na internet pelo DER (Departamento de Estradas de Rodagem) – sim, no celebrado governo de Minas Gerais e seus choques de gestão, o Departamento de Estradas trata de aeródromos – omite a existência do aeroporto na área desapropriada da fazenda de ‘Tio Múcio’. Mesmo outras pistas que ainda não tiveram homologação da Anac figuram na lista do governo mineiro, incluindo outro aeroporto controverso, construído em Montezuma, pequena cidade no norte do estado, onde Aécio e a irmã, Andrea Neves, possuem uma fazenda, a Perfil Agropecuária e Florestal Ltda.

Vale lembrar que o aeroporto de Cláudio, na região centro-oeste do Estado teve obras em 2010. Passados quatro anos, o governo mineiro – ao menos no Departamento de Estradas de Rodagem – sugere que a pista construída na fazenda de um parente do ex-governador do Estado não existe.

Trecho de lista no Departamento de Estradas de Rodagem de Minas – ‘Cláudio não existe?’

No Entre Fatos
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30 de jul de 2014

A consultoria que diz que o Brasil vai acabar

Miranda no centro das atenções
O Brasil vai acabar.

Quem diz isso é o analista de investimentos Felipe Miranda, um dos sócios e fundadores da consultoria de investimentos Empiricus.

Num texto que a própria Empiricus define como “leitura obrigatória”, Miranda vaticina o fim do Brasil.

Para breve.

Isto, é claro, caso Dilma se reeleja. Aí, segundo ele, o caos vai se instalar na economia, e estaremos todos fritos.

Quer dizer: todos menos os sócios da Empiricus. Porque eles estão fazendo do horror econômico uma arma de vendas.

Num anúncio controvertido na internet, eles prometeram aos eventuais clientes a fórmula infalível para “se proteger da Dilma”.

O anúncio foi tirado do ar por ordem do Tribunal Superior Eleitoral, depois de uma reclamação do PT.

O TSE entendeu que aquilo era uma peça eleitoral contra Dilma.

Tenho outra visão. Não é exatamente contra Dilma, mas contra a decência.

Pelo seguinte: eu induzo você a achar que uma bomba atômica está prestes a explodir onde você vive. E ao mesmo tempo ofereço a você abrigo antinuclear.

Sua crendice é meu lucro.

É uma coisa próxima da vigarice. Eu estou engambelando você. Eu estou vendendo o problema e ao mesmo tempo a solução para você.

A Empiricus é pequena, e não tem grandes histórias a contar em sua até aqui breve existência de cinco anos.

Mesmo assim, por causa do anúncio, ela virou notícia.

Pelo menos numa ocasião cometeu um erro monumental de avaliação. No final de 2009, recomendou entusiasmadamente que os investidores comprassem papeis da OGX, de Eike.

“OGX pode dobrar de valor na bolsa, diz Empiricus”: este o título de uma matéria da Exame.

Bem, o final da história todos conhecemos.

Você conhece a alma da Empiricus vendo sua conta no Twitter. Ela tem pouco mais de 5 000 seguidores. E segue apenas vinte pessoas.

Entre elas estão Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Lobão, Roger e Danilo Gentili.

Todos eles saíram a campo para defender a Empiricus do “terror petista” por conta da retirada do anúncio do ar.

Felipe Miranda talvez não seja brilhante em avaliações, ou um exemplo de ética, mas de marketing ele tem boas noções.

Sabe aparecer.

No meio da confusão, ele aproveitou para avisar que está pensando em contratar a analista demitida pelo Santander depois de oferecer, ela também, proteção contra Dilma.

(O Santander errou duas vezes: ao publicar o boletim e depois ao demitir a autora.)

Tenho aqui um pressentimento.

Com a notoriedade adquirida agora graças ao anúncio e ao relatório que enterra o Brasil, Felipe Miranda se credencia a ser mais um colunista da Veja, ou do Globo, ou da Folha, ou do Estadão.

Pressinto que vamos ouvi-lo com frequência na CBN e na Globonews em programas sobre a economia.

Daí, da alavanca esplêndida da mídia, a palestras de 10, 20 ou mesmo 30 000 reais é um pulo.

Com a vantagem que, na mídia, ele pode fazer avaliações como a relativa a Eike sem consequência nenhuma para si próprio.

Basta falar mal do PT. O resto não importa.

Paulo Nogueira
No DCM
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Terrorismo Econômico


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STF vai decidir sobre prisão em regime aberto para Genoino

A Vara de Execuções Penais do Distrito Federal descontou hoje (30) 34 dias da pena do ex-deputado José Genoino, condenado na Ação Penal 470, o processo do mensalão, em virtude de cursos de introdução à informática e de direito constitucional, feitos dentro do Presídio da Papuda, no Distrito Federal.

Com a decisão, Genoino já tem direito a cumprir pena em regime aberto desde o dia 20 deste mês. No entanto, a autorização será do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável pela execução das penas dos condenados.

A data prevista para a concessão do benefício é 24 de agosto, quando ele completa um sexto da pena de quatro anos e oito meses de prisão no regime semiaberto, requisito para a mudança para o aberto. À Justiça do Distrito Federal, os advogados de Genoino alegaram que o cumprimento da pena no atual regime expirou devido aos 34 dias que o condenado tem de crédito, por ter trabalhado dentro do presídio.

Genoino teve prisão decretada no dia 15 de novembro do ano passado e chegou a ser levado para o Presídio da Papuda, no Distrito Federal. Mas, por determinação do presidente do STF, Joaquim Barbosa, ganhou o direito de cumprir prisão domiciliar temporária, uma semana após a decretação da prisão. Em abril, o ex-parlamentar voltou a cumprir pena de quatro anos e oito meses no presídio.

De acordo com o Código Penal, o regime aberto deve ser cumprido em nas chamadas casas do albergado, para onde os presos voltam somente para dormir. Em muitos casos, diante da inexistência do estabelecimento nos sistemas prisionais estaduais, os juízes determinam que o preso fique em casa e cumpra algumas regras, como horário para chegar ao domicílio, não sair da cidade sem autorização da Justiça e manter endereço fixo.

André Richter
No Agência Brasil
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“Helicoca – O Helicóptero de 50 milhões de reais”

Joaquim de Carvalho
Você conhece a história. Em novembro de 2013, 445 quilos de pasta base de cocaína foram apreendidos numa fazenda de Afonso Cláudio, no Espírito Santo.

A droga fora transportada num helicóptero da família Perrella, de Minas Gerais. Em menos dois meses, Zezé e Gustavo Perrella — pai e filho amigos e aliados de Aécio Neves — foram isentados de responsabilidade sobre o crime, segundo um delegado da Polícia Federal bastante apressado. Em seis, todas as pessoas autuadas em flagrante foram inocentadas.

O DCM contou as imbricações do escândalo em uma série de reportagens que batizamos de “O Helicóptero de 50 milhões de reais”. As matérias foram financiadas por nossos leitores num esquema de crowdfinding com a plataforma Catarse.

O experiente jornalista Joaquim de Carvalho realizou um trabalho notável. Conversou com juízes, advogados, promotores, políticos etc. Revelou que, na rota do chamado Helicoca (o apelido carinhoso que o processo ganhou na Justiça), houve uma parada num hotel fazendo em Jarinu, interior de São Paulo. Parte da carga pesada teria ficado ali. A polícia não deu prosseguimento à investigação.

Entrevistou o piloto da aeronave, Alexandre José de Oliveira Júnior, que trocou mensagens de celular, no dia da ocorrência, com Gustavo Perrella. Num encontro tenso, Alexandre contou que fora contratado para trazer “eletrônicos e medicamentos veterinários do Paraguai”. Para ele, “era contrabando de mercadorias, não tráfico de drogas”.

Em Minas, JC visitou a fazenda dos Perrellas. Antecipamos, com exclusividade, que o Ministério Público do Estado denunciou o deputado federal Gustavo Perrella por uso indevido de verbas da Assembleia Legislativa.

Lançamos agora o nosso documentário sobre o Helicoca. A direção é de Alice Riff, de “Dr. Melgaço”, o primeiro projeto de crowdfunding do DCM.

O vídeo levanta várias questões sobre a impunidade, sobre a guerra às drogas, sobre as relações promíscuas entre poder, justiça e polícia no país. Um capítulo pode ter chegado ao fim, mas o caso está longe de ser encerrado. Nosso compromisso continua sendo, como sempre, manter você a par de tudo.



No DCM
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O jornalismo busca-pé

Se é possível definir as características da mídia tradicional do Brasil neste período pós-Copa do Mundo, pode-se dizer que o jornalismo se tornou errático, como um desses rojões de festa junina chamados de busca-pé.

Se o observador atento empilhar as primeiras páginas dos principais diários de circulação nacional e analisar as manchetes e os títulos das reportagens principais, vai concluir que a nossa imprensa anda desorientada.

Trata-se, porém, de uma interpretação equivocada: os jornais apenas parecem não ter um rumo, mas há por trás de cada decisão editorial uma lógica e um objetivo claro.

Infelizmente, para os editores, os fatos de cada dia não pedem licença para acontecer. A sensação de inconstância que pode ser produzida pela leitura dos jornais nasce da determinação dos editores de buscar uma finalidade específica em todos os tipos de evento.

Sem mais disfarces, a imprensa hegemônica no Brasil tem se dedicado a instrumentalizar os acontecimentos com o objetivo de promover uma visão específica de mundo, que é explicitada constantemente nos editoriais e nos principais artigos das editorias de opinião.

Para o leitor constatar esse fenômeno, basta começar a leitura pelos textos opinativos, em vez de priorizar as manchetes: ali vai encontrar uma espécie de guia para interpretar praticamente tudo que um jornal considera essencial em cada dia.

Eventualmente, esse modelo de jornalismo pode produzir contradições, mas quem se importa?

Os editores parecem considerar que o mundo é refundado a cada nova edição e, portanto, o que foi dito hoje pode ser reinterpretado de maneira exatamente oposta amanhã, dependendo de quem é beneficiado ou prejudicado pela notícia.

A informação em si deixa de ser importante: o que vale é convencer o leitor de que a interpretação que o jornal dá aos fatos é a única correta.

Obediência aos dogmas

Essa característica é escancarada no noticiário político, onde as preferências dos jornais se manifestam de maneira mais homogênea e mais explícita. Mas também se pode observar como a opinião pré-existente define a visão sobre os fatos da economia, que por sua vez reflete o viés político a priori.

Nesse círculo onde o valor de cada notícia é condicionado por um conjunto de dogmas que não podem ser questionados, não há possibilidade de se produzir uma visão inovadora do contexto social onde os fatos acontecem. Uma interpretação conservadora sempre se impõe sobre qualquer evento.

Mesmo quando os jornais falam, por exemplo, de inovação, o leitor que está familiarizado com esse tema, que acompanha os debates internacionais sobre o assunto, sente imediatamente o cheiro de mofo das coisas velhas.

No noticiário econômico dos jornais chamados genéricos, há um limite claro para a interpretação dos indicadores, de medidas oficiais e decisões de negócios. Os jornais especializados abordam a conjuntura econômica de maneira mais equilibrada e estimulam a reflexão, ao apresentar detalhes dos fatos específicos de cada setor e das empresas mais destacadas.

Os jornais genéricos criam uma conjuntura econômica de conveniência política, a partir de fatos selecionados arbitrariamente, para produzir o cenário que convém ao seu propósito de determinar a opinião dos eleitores.

Esse raciocínio pode ser aplicado, por exemplo, no caso que envolve uma análise divulgada pelo banco Santander, na qual há uma clara interferência no debate eleitoral. Depois da reação do governo federal, o presidente do banco vem repetindo que se tratou de um equívoco, que o banco não pensa daquela maneira e que os responsáveis teriam sido demitidos sumariamente. O presidente do Santander sabe quanto pode perder ao comprometer publicamente a instituição com um dos lados da política, se esse lado for derrotado nas eleições.

Nesta quarta-feira (30/7), os jornais se dão conta da armadilha que criaram para si mesmos. Juntando lé com cré, no ambiente de baixa densidade reflexiva das redações, chega-se à perigosa conclusão de que o episódio pode colocar em dúvida o acerto de futuras análises feitas pelo mercado, que a imprensa costuma acatar como se fossem manifestações dos deuses.

Então, o busca-pé da imprensa ricocheteia e já busca outra direção.

Luciano Martins Costa
No OI
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Aeroportos e colisões tucanas

Na série de escaramuças que marca o jogo pesado entre Aécio e Serra, a reportagem da Folha sobre o aeroporto em Cláudio pode ter sido um ponto fora da curva.

Há exatamente quatro anos, em 29 de julho de 2010, o jornal ‘O Globo’ noticiava a evidência de um racha profundo nas fileiras tucanas, a minar a campanha do então candidato à presidência da República pelo PSDB, José Serra.

Aspas para o Globo de 29-07-2010:

‘O candidato a presid'ente pelo PSDB, José Serra, terá uma estrutura independente em Minas Gerais para impulsionar sua campanha no Estado (...). A estratégia foi montada para fazer frente a algumas dificuldades. A decisão foi tomada após descontentamento com o ritmo da campanha no Estado, onde o ex-governador Aécio Neves, que recusou-se a ocupar a vaga de vice na chapa de Serra, é a principal liderança do PSDB...’

Corta para o coquetel de autógrafos de Serra, no Rio, na semana passada, dia 23 de julho de 2014, no lançamento de seu livro de memórias, "50 anos Esta Noite".

Aécio Neves não compareceu ao evento, onde Serra comentou laconicamente o episódio que há dez dias faz sangrar seu velho rival e agora o candidato do PSDB à presidência.

‘Um programa de construção de aeroportos no interior de repente bate na família. Não quer dizer que houve favorecimento..’ disse olímpico sobre a obra de R$ 14 milhões feita por Aécio na fazenda de um tio, paga com dinheiro público. ‘Eu não tenho parentes no interior. Se tivesse, poderia ter acontecido...’, observou Serra com irônica ambiguidade.

Especulações sobre a origem da denúncia veiculada em 20/07, pela ‘Folha de SP’, de notórias afinidades com o serrismo, ganharam lastro extra a partir do editorial publicado pelo diário da família Frias , no último domingo, 27-07.

O texto com sugestivo título, ‘O pouso do tucano’, desmonta as explicações de Aécio para o escândalo e lança uma comprida sombra sobre o futuro de sua candidatura:

‘Mais econômico, na verdade, teria sido não fazer obra nenhuma. A demanda por voos em Cláudio é pequena, e o aeroporto de Divinópolis fica a 50 km de distância. Ainda que todo o processo tenha sido feito de maneira legal, como sustenta Aécio Neves, restará uma pista de pouso conveniente para o tucano e seus parentes, mas de questionável eficiência administrativa. Não é pouca contradição para um candidato que diz apostar na união da ética com a qualidade na gestão pública’.

Mas o principal subtexto das suspeitas quanto à fonte da denúncia remete ao recheio mineiro da derrota sofrida por Serra nas eleições presidenciais de 2010, quando as urnas sepultaram de vez suas pretensões ao cargo máximo da política brasileira.

Numa disputa marcada logo no início pela colisão frontal com Aécio, que postulava a mesma indicação no PSDB, Serra terminaria abatido fragorosamente pelo ‘poste’, Dilma Rousseff, que teve 56,05% dos votos, contra 43,9% do ‘experimente’ ex-governador de São Paulo.

Um tônico inesperado da derrota foi a desvantagem ampla de Serra nas urnas de Minas Gerais.

No segundo maior colégio eleitoral do país — de onde Aécio conquistou uma vaga no Senado, arregimentando 7,5 milhões de votos — Serra obteve um apoio inferior a sua média nacional ( 41,5%).

O de Dilma, ao contrário, foi sugestivamente superior (58,4%).

Seria um erro atribuir o resultado ao boicote de Aécio, abstraindo assim a tradicional força do PT em Minas Gerais e o prestígio conquistado pelos investimentos do governo Lula (que teve 65% dos votos de Minas em 2006 e 66,5% em 2002) .

A verdade, porém, é que a derrota consagrava um processo de desidratação interna do candidato do PSDB, que remontava à própria dificuldade inicial de preencher a vaga de vice em sua chapa, reservada até o último minuto como um prêmio de consolação que Aécio rechaçou.

A recusa, mineiramente dissimulada na protocolar promessa de ‘não poupar esforços pelo candidato’, era o troco à forma como o ex-governador de São Paulo impusera seu nome ao partido, sem abrir espaço para uma consulta às bases, inédita entre tucanos, reivindicada pelo rival .

A disposição bélica das fileiras serristas de atropelar o adversário mineiro com um misto de fatos consumados e jogo baixo ficaria evidente logo no início de 2009.

Um artigo famoso, publicado em fevereiro daquele ano na página 3 do jornal O Estado de S. Paulo, dava o peso e a medida do fair play que ordenaria o confronto a partir de então.

Assinado pelo editorialista do jornal, Mauro Chaves, reconhecidamente ligado aos tucanos, mas sobretudo a Serra, o texto trazia no título a octanagem do arsenal disponível, caso Aécio insistisse em desafiar a vontade ‘bandeirante’.

“Pó, pará, governador?” , diziam as garrafais, num trocadilho com o suposto uso de droga por parte do político mineiro.

Era o gongo de uma série de rounds subterrâneos.

Eles incluiriam acusações mútuas sobre dossiês mortíferos engatados de um lado e de outro em um embate fraticida que quase paralisaria o PSDB.

Sobre Serra pairavam suspeitas de ter mobilizado ex-delegados da polícia federal para municiar o paiol contra Aécio.

A ira do mineiro envolveria garras não menos afiadas.

Uma delas, Andrea Neves, cabo-de- guerra do irmão para golpes de bastidores e controle da mídia, estaria associada à contratação de repórteres, antes até, em 2008, pelo jornal Estado de Minas, para investigar a vida de Serra e de sua família.

Com resultados suculentos, diga-se.

O livro ‘A privataria Tucana’, de Amaury Ribeiro Jr, seria um subproduto desse mutirão.

O nebuloso episódio de uma reunião ocorrida em junho de 2010, da qual teriam participado Amaury, arapongas e Luiz Lanzetta — membro da pré-campanha de Dilma, atiçaria as evidência de um tiroteio cerrado nos bastidores da campanha tucana.

Denunciado por um alcagueta presente, o encontro teria tratado de informações comprometedoras envolvendo lavagem de dinheiro, paraísos fiscais, Verônica Serra (filha do tucano) e a irmã do banqueiro Daniel Dantas, Verônica Dantas.

Na Polícia Federal, Amaury confirmou que pagou R$ 12 mil a um despachante paulista para obter as informações sobre os tucanos, entre setembro e outubro de 2009. O jornalista não revelou quem o contratara, nem quem financiou a investigação, iniciada como pauta do Estado de Minas.

O fato é que, nesse processo, a candidatura presidencial de Serra desidratava de dentro para fora do partido. Seu caminho para as urnas lembrava um trem fora dos trilhos, com poucas chances de ser devolvido ao leito original.

Em julho de 2010, a percepção de que estaria sendo cristianizado por fileiras amplas do tucanato era muito forte.

O termo ‘cristianização’ colava em sua trajetória como o bolor nos corredores abafados dos hotéis de estação.

A expressão vem do nome do político mineiro, Cristiano Machado que, a exemplo de Serra, havia imposto sua candidatura ao partido (o PSD) nas eleições presidenciais de 1950.

Cristiano foi abandonado pelos companheiros, que acabaram apoiando Getúlio Vargas.

O termo “cristianização” passou a designar o candidato ‘escondido’ pela sigla, que teme o contágio tóxico que sua impopularidade acarreta às demais candidaturas.

Assim foi com Serra.

Em 2010, a três meses das urnas do 1º turno, a maior parte do material de campanha de Aécio Neves, candidato ao Senado por MG, e o de Anastasia, seu candidato ao governo do Estado, omitia a imagem de Serra em santinhos e adesivos.

O alto comando serrista busca desesperadamente formas de fazer com que a campanha demotucana encontrasse motor próprio em MG.

Além de um comitê exclusivo, os serristas tiveram que montar 40 subcomitês distribuídos por todo o estado, na tentativa de algo quixotesca de contornar o boicote silencioso sofrido no segundo maior colégio eleitoral do país, por parte de seu ‘aliado’ e líder local, Aécio Neves.

No melancólico reconhecimento da derrota final para Dilma, em 1º de novembro de 2010, Serra diria que o "povo" não quis que sua eleição fosse "agora" e se despediu do eleitor com um "até logo".

No breve discurso ao lado da família, o tucano agradeceu o empenho do partido, festejou a eleição de Alckmin, porém não citou uma única vez o senador eleito por Minas Gerais, Aécio Neves.

A queda de braço não terminaria ali.

Aécio rapidamente ocuparia o vácuo da derrota pavimentando a sua candidatura dentro de um PSDB de joelhos, com o serrismo acuado.

O mineiro aplastou o desafeto em todas as frentes de comando.

Tomou a presidência do partido em primeiro lugar. E negou a Serra até mesmo a direção do medíocre, mas rico, Instituto Teotônio Vilela, o think tank do PSDB.

Humilhado, Serra engoliu um cargo honorífico no Conselho Político do partido, um enxerto criado pela Executiva Nacional, mas no qual, ainda assim, seria minoritário.

A partir de então, experimentaria a mesma ração de fatos consumados e menosprezo que dispensara ao oponente em 2010.

Braço direito de Aécio Neves no Senado, o impoluto Cassio Cunha Lima, distribuía patadas em seu nome dirigidas diretamente ao estômago de Serra.

Em outubro do ano passado, enquanto Serra se comportava como se ainda pudesse pleitear a candidatura tucana ao Planalto — ou mudaria para o PPS, sugeriam seus ventríloquos na mídia — Cunha lima desembarcou em São Paulo.

O emissário de Aécio conversou com FHC , Geraldo Alckmin e outros graúdos bicos curtos e longos.

Não procurou Serra. E ainda disparou um recado recebido com espanto pelas viúvas do ex-governador na mídia:

‘Não vamos mais repercutir o que Serra diz. A imprensa que faça isso. Deixa ele falar, nós vamos ignorar’ (revista Veja; 25/10/2013).

Serra ouviu e registrou em sua volumosa agenda mental encapada com o ditado: ‘a vingança é um prato que se come frio’.

Dois meses depois, 48 horas antes de Aécio lançar sua bisonha ‘cartilha’, na qual não mencionaria uma única vez o pré-sal nos 12 pontos que comporiam suas propostas de governo, Serra retirou o prato da geladeira.

E disparou um artigo na ‘Folha de SP’, em 15/12/2013.

O tema: o consumo de drogas.

O primeiro parágrafo: ‘ O debate sobre o consumo de cocaína no Brasil pode e deve ser uma pauta em 2014’.

Desde então, aconselhados por Fernando Henrique e o pelotão dos ‘interesses maiores’, os desafetos baixaram os punhais. Uma trégua acomodatícia foi costurada pelos seguidores dos dois lados com a linha grossa da conveniência.

Aécio trouxe o braço direito de Serra, Aloysio Nunes, para ocupar a vaga de vice em sua chapa. Serra recolheu-se à disputa por uma cadeira no Senado, com a promessa de um ministério, se Aécio for eleito.

As farpas refluíram; parecia que o PSDB cicatrizaria as profundas fendas internas.

Até que no 17 de julho agora, uma quinta-feira, surgiu a notícia da defecção de um serrista graúdo afastado de um cargo de confiança na campanha de Aécio.

Xico Graziano, conhecido pela mão pesada com que exerce a fidelidade aos próprios interesses, foi defenestrado do pomposo cargo de ‘chefe da estratégia de redes’ da candidatura Aécio.

Nos bastidores afirma-se que Xico Graziano perdeu o posto por uma questão prosaica: incompetência.

Seu projeto de site de campanha teria sido avaliado como um fiasco pela cúpula da candidatura.

Depois se soube que um outro site já estaria pronto e seria lançado em seguida.

Quem supervisionou o trabalho paralelo e empurrou Xico para a ladeira da campanha foi a irmã do mineiro, Andrea Neves.

Três dias depois do episódio, no domingo, a ‘Folha’ estamparia a denúncia do aeroporto construído por Aécio na fazenda do ‘tio Múcio’, com gastos de R$ 14 milhões do tesouro de Minas Gerais.

Na série de escaramuças desse histórico pode ser um ponto fora da curva.

Uma desprezível coincidência.

A ver.

Saul Leblon
No Carta Maior
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Globo constrói novo alvo: a "Dilma bolivariana"


O jornal O Globo, da família Marinho, inicia, nesta quarta-feira, a construção de um novo personagem: a Dilma Rouseff bolivariana, que adotaria métodos chavistas de confronto e intimidação na sua relação com o setor privado.

Na manchete do jornal, informa-se, a partir de depoimentos de fontes anônimas (em off, no jargão jornalístico), que os bancos farão análises mais conservadoras sobre a economia brasileira, temendo represálias do governo federal.

É mais uma fraude jornalística. Os bancos continuarão fazendo as mesmas análises de antes. Uns vão acertar suas previsões, favorecendo seus clientes, outros errarão feito, atingindo sua própria credibilidade.

Já houve exemplos no Brasil, por exemplo, de bancos como o Credit Suisse que previram queda de 5% do PIB em anos de estabilidade econômica. Nos tempos atuais, as análises de Ilan Goldfajn, economista do Itaú Unibanco, são ainda mais ácidas do que as do Santander, e nada indica que isso mudará ou que o governo federal pretenda fazer qualquer coisa a respeito.

Qual foi, então, o erro do Santander? Basicamente, a distribuição aos clientes pessoas físicas, nos seus extratos, de uma análise pessoal de uma analista. Análise esta que, como disse o presidente mundial do banco, Emilio Botín, não refletia a posição da instituição e, portanto, não poderia ser enviada aos clientes, que, por acaso, são também eleitores e votarão nas eleições de outubro. Dizer a um poupador que a reeleição de Dilma poderia afetar suas economia é algo, segundo Botín, que fere as regras de conduta do próprio banco.

O dono do Santander foi ainda mais claro quando disse que ela foi demitida "porque fez coisa errada". Ou seja, a única represália do caso partiu do próprio comando do Santander, que, antes mesmo da demissão, estampou um gigantesco pedido de desculpas aos clientes (e não ao governo), na home page de seu site.

No entanto, o jornal O Globo constrói a tese de que uma Dilma chavista estaria emergindo, disposta a enfrentar e a confrontar o setor privado. Na mesma reportagem, o jornal também a compara à presidente argentina Cristina Kirchner, que censuraria a divulgação de dados de inflação.

Não foi por acaso. A imagem de um setor privado amedrontado e apavorado diante de um governo intimidador é o novo mito a ser criado até as eleições de outubro.

No 247
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Política externa e os “anões” da Globo


A famiglia Marinho sempre manteve relações de subserviência diante dos EUA. O livro “A história secreta da Rede Globo”, um clássico do falecido jornalista Daniel Heiz, já provou que a associação ilegal com multinacional estadunidense Time-Life, que originou a tevê do grupo, foi decisiva para a construção do império global - além, óbvio, do escancarado apoio da ditadura militar. Até hoje circulam boatos de que certos “calunistas” da corporação midiática fornecem informações e análises para agentes da diplomacia ianque - alguns até já foram rotulados de espiões da CIA. Com este triste histórico de servilismo, não surpreende o editorial publicado nesta terça-feira (29) pelo O Globo.

Pela enésima vez, o diário ataca o Itamaraty e defende os interesses dos EUA. Desta vez, para proteger seu satélite no Oriente Médio — Israel. Na visão colonizada do jornal, “a política externa é uma das que mais foram alteradas desde que o PT chegou ao Planalto, em janeiro de 2003. Ficou visível que o Itamaraty como instituição deixou de ter peso nas decisões, ao mesmo tempo em que uma visão de mundo condicionada por um nacionalismo de esquerda, antiamericanista, passou a ser preponderante”. Esta orientação “antiamericanista”, segundo o diário, seria a causa do novo “surto de esquerdização da diplomacia”, e visaria unir os petistas “às vésperas da mais árdua batalha eleitoral que o partido enfrentará”.

“O último sintoma do surto foi a decisão do governo Dilma de convocar o embaixador em Tel Aviv, Henrique Sardinha, ‘para consultas’, devido ao ‘uso desproporcional da força’ por parte de Israel. Havia formas menos estridentes de comunicar o justificável mal-estar com as mortes de civis em Gaza — mas também sem deixar de registrar a contrariedade com os constantes ataques de foguetes feitos pelo Hamas contra cidades israelenses”. O Globo até critica a resposta “desequilibrada” do porta-voz israelense, que chamou o Brasil de “anão diplomático”. Mas o seu alvo principal é a política externa brasileira e, para isto, o jornal até tenta criar cizânia no interior do governo federal.

“O ministro Luiz Alberto Figueiredo, embaixador de carreira, respondeu dentro dos códigos da atividade, enquanto Marco Aurélio Garcia, assessor especial da presidência, militante petista, uma espécie de ministro das Relações Exteriores ‘do B’, manteve o nível do porta-voz israelense, classificando-o de ‘sub do sub do sub do sub do sub’ — copiando o ex-presidente Lula na resposta a um comentário de autoridade americana de que não gostou... O conceito é simples: faz-se tudo aquilo que contraria a política externa americana. Parece birra, mas há quem considere eficaz para conseguir votos”. Haja subserviência e viralatismo diante do Império!

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A impaciência imperial de Aécio


Às favas os escrúpulos com a história do aeroporto de Cláudio. O avô de Aécio, Tancredo Neves, construiu uma pista de pouso de terra em Cláudio (MG), nos domínios da família de sua mulher, Risoleta. (Preço: R$ 500 mil em dinheiro de hoje, da Bolsa da Viúva.) Mais de 20 anos depois, seu neto Aécio desapropriou a área e fez uma nova pista no melhor padrão da modernidade. (Preço: R$ 13,9 milhões, novamente da Viúva.) A pista fica a 6 km da fazenda da Mata, onde ele costuma repousar.

Diante da denúncia, o candidato justificou-se dizendo que as terras não eram de sua família. Claro, o novo aeroporto só poderia ser construído se elas pertencessem ao Estado. Em seguida, o tucanato disse que isso era coisa de petista, vazamento. Falso. Toda a documentação do caso é pública. Era um competente serviço do repórter Lucas Ferraz. Noutra linha, Aécio informou que o aeroporto, localizado a 32 km em linha reta de outro já equipado, fazia parte do programa de modernização dos transportes de sua gestão. Tudo bem, mas, em todo o Estado, só concluiu dois, o de Cláudio e o da Zona da Mata.

Desde que o caso foi revelado, no dia 20, Aécio Neves repete: "Está tudo esclarecido". Chega a incomodar-se com perguntas: "De novo?" Às favas os escrúpulos com a história do aeroporto de Cláudio. Aécio poderá impedir que o PT se mantenha no poder por 16 anos, e isso basta.

Se Aécio Neves fosse um senador ou apenas ex-governador de Minas, o assunto poderia ir para o gavetão de casos pendentes, onde estão outras questões. Por exemplo: a refinaria de Pasadena, as traficâncias do doleiro Youssef, os guardanapos de Sérgio Cabral e o cartel da Alstom. Coisa de petistas, peemedebistas e tucanos. A diferença está no fato de que ele é candidato a presidente da República. A sua atitude em relação ao episódio instrui o julgamento que se faz de sua postulação, refletindo-se sobre o que faria se episódios semelhantes acontecessem quando ele estivesse no Planalto. "De novo?" e "está tudo esclarecido" são impaciências imperiais.

A pista de Cláudio incomoda, mas deriva de uma visão patrimonialista do poder. A impaciência imperial é bem outra coisa. Reflete, a um só tempo, a ideia de que, seja o que for que se discute, daqui a um mês o assunto estará esquecido, ou ainda que manda quem pode e obedece quem tem juízo, inclusive parando de perguntar o que não deve. Trata-se de um erro crasso de conduta política, até mesmo de marquetagem.

Uma pessoa pode querer votar em Aécio porque não engole as explicações do comissariado para o mensalão, as petrorroubalheiras e o aparelhamento do Estado pelos petistas. Prefere Aécio porque tem uma esperança. Esse eleitor pode ter seguido a vida de Lula indo do pau de arara ao fusca e dele aos aviões de carreira. Sofre ao vê-lo nos jatinhos de empreiteiras. A esperança era de vidro e se quebrou.

Agora, ele tem outra: Aécio. Se o aeroporto em Cláudio é tudo o que se pode dizer contra seu candidato, ele ainda acredita que seja a melhor aposta. Há sempre um momento em que pode ser preferível mandar às favas alguns escrúpulos, mas, quando um candidato à Presidência da República veste o manto da impaciência imperial, a vítima de sua atitude é a esperança dos outros.

Elio Gaspari
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Campanha tucana admite "uso legal" de aeroporto


A campanha do presidenciável tucano Aécio Neves admitiu que ele usou o aeroporto de Cláudio, no interior de Minas Gerais, em ‘operação ocasional’ e de ‘maneira legal’.

O senador mineiro tem sido questionado sobre o caso desde que a ‘Folha de S. Paulo’ o acusou de gastar quase R$ 14 milhões para construir a pista dentro de um terreno desapropriado de seu tio-avô, durante a sua segunda gestão como governador do Estado.

Até então, Aécio dizia que o caso era “irrelevante”, mas não respondeu se usa ou não a pista. O local ainda não foi homologado pela Agência Nacional de Aviação (Anac) para receber pousos e decolagens.

"Foi feita uma acusação leviana de uma obra pública em um local privado. São milhares de licitações e me acusam de beneficiar um parente. Isso é do jogo político, não vou ficar estendendo essa pauta."

Segundo reportagem de Pedro Venceslau, a pedido do vice de Aécio, senador Aloysio Nunes, o PSDB elaborou o documento “Voos ocasionais para a pista de Claudio/MG; Aspectos da legalidade”, para tratar do caso. Cita uma norma da Anac que permitiria “operação ocasional” de helicópteros em aeroportos não homologados, mas não diz que tipo de aeronave o tucano usou em suas viagens.

“Os voos realizados pelo presidenciável Aécio Neves para a pista de Cláudio/MG foram feitos totalmente em conformidade com a legislação vigente. Trata-se de operações denominadas operação ocasional”, diz trecho do texto.

Por sua vez, a Anac contesta versão dizendo que “trecho do regulamento só é válido para operações realizadas exclusivamente por helicópteros (aeronaves de asa rotativa), e em helipontos ainda não homologados”. Aeroportos não homologados só podem ser utilizados para casos de “emergência em voo para evitar incidente/acidente”.

No 247
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