1 de jun. de 2014

Ignorância e preconceito

Enquanto os partidos políticos de oposição no Brasil pouco têm a dizer aos seus possíveis eleitores, o trabalho sujo de desconstrução das realizações dos governos do PT é realizado pelo conjunto de jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão, que com poucas exceções, se pôs a campo no sentido de diariamente despejar uma série de informações e comentários negativos que o telespectador, o ouvinte e o leitor dificilmente têm condições de confirmar, ou desmentir, o que está sendo difundido.

Mesmo que, para a maioria das pessoas, exista sempre a possibilidade de comparar como era sua vida antes e depois da chegada do PT ao Governo Federal, a insistência na apresentação de problemas, que obviamente ainda persistem, acaba levando os segmentos menos politizados da população a aceitar como verdade aquilo que a mídia divulga.

Uma simples leitura nas páginas reservadas à opinião dos leitores nos jornais e sites de notícias, mostra um predomínio de comentários que repetem aquilo que a mídia pretende ensinar: os políticos são todos iguais; existe uma corrupção generalizada nas instituições públicas; é preciso colocar mais pessoas nas cadeias; até quem sabe, aquilo que a imprensa não diz, mas deixa antever nas entrelinhas, que na época dos militares a vida era melhor.

Um bom exemplo disso, pôde ser lido esta semana nas páginas de Zero Hora. Um dos seus principais articulistas, que, diga-se de passagem, tem um texto de excelente qualidade, David Coimbra, a propósito de comparar esquerda e direita no espectro político brasileiro, acaba igualando o regime militar com os doze anos dos governos petistas.

Deixando de lado (embora essa tenha sido a marca do regime dos generais) o fato de que durante os 20 anos de ditadura, os mais comezinhos aspectos da democracia burguesa formal não foram respeitados e mais do que tudo, os seus opositores eram presos, torturados e mortos, o que sobrou do período ditatorial foi um país quebrado economicamente.

O articulista compara o Plano Nacional de Desenvolvimento de 1975, do general Geisel, com o PAC dos governos de Lula e Dilma. O primeiro fracassou, porque era baseado na tomada de financiamentos externos e levou o Brasil à moratória em 1982.

O segundo, gerou o crescimento acelerado da economia nacional, porque independe de tomada de dinheiro, sempre volúvel, nos mercados externos, e mais do que tudo, tem permitido o crescimento das populações mais pobres do País.

Um dado que a ditadura militar e depois os governos neoliberais do PSDB jamais puderam apresentar, é a capacidade de geração de empregos que faz do Brasil, hoje, um país onde existe praticamente o pleno emprego, ao contrário das economias européias, por exemplo, onde o desemprego não baixa dos dois dígitos.

Outra comparação pouco séria do cronista foi entre os programas habitacionais da ditadura e o atual. Enquanto o BNH, que ele cita em seu texto, voltava-se basicamente para a classe média, capaz de obter os financiamentos administrados pelos bancos, o atual, supervisionado pela Caixa, atinge as populações de baixa renda.

Durante muitos anos as prestações cobradas pelo chamado Sistema Financeiro de Habitação foram inferiores aos aluguéis do mercado dos imóveis financiados pelo próprio sistema. Esta distorção levou muitos investidores das faixas médias e de altas rendas a constituírem um verdadeiro patrimônio imobiliário, especulativo e lucrativo, por meio de financiamentos baratos do SFH.

Importantes recursos do SHF, fortemente subsidiados, foram aplicados na aquisição de imóveis nas praias do Brasil inteiro, enquanto a população mais pobre continuava vivendo em favelas nas grandes cidades.

Outro exemplo de como a realidade pode ser distorcida e os preconceitos sociais apresentados como estilo de vida, pode ser encontrado na edição dominical de Zero Hora. No seu novo formato, o jornal abriu espaço para uma série de pessoas de fora da área jornalística, o que seria um fato louvável, se estes novos articulistas não comungassem — quase sempre — dos mesmos valores e preconceitos dos profissionais do jornal.

Um deles é a diretora de cinema publicitário Flávia Moraes, que ganhou quase uma página inteira no jornal para criticar o chamado “politicamente correto”. Como no caso de David Coimbra, seu texto é de boa qualidade e, em princípio, sua proposta de por a nu a hipocrisia existente em muito dos procedimentos que formam este conceito é bem aceitável, mas, na medida que desenvolve suas frases, ela acaba indo além do politicamente incorreto para chegar ao mais puro preconceito e alienação.

Veja a sua primeira frase: “para começo de conversa, a expressão politicamente correto, no Brasil é quase uma piada de mau gosto. Político e correto definitivamente não combinam por aqui”

Em que político ela estaria pensando? Certamente não é num Olívio Dutra, num Leonel Brizola ou num Getúlio Vargas, para citar apenas políticos de épocas distintas, que sempre se distinguiram pelos seus compromissos com a retidão de princípios e a honestidade.

O preconceito aparece com nitidez quando ela lamenta que sua cidade de veraneio (ela não diz o nome, mas fica óbvio que é Gramado) tenha se transformado num parque temático onde “os moradores são induzidos a engolir um Natal barulhento durante quase três meses sem reclamar”. Mesmo que possamos concordar que a festa realmente tem muito de pieguice, ela deveria levar em conta que são os turistas que permitem os altos investimentos que são feitos na infra-estrutura da cidade.

Tudo isso, porém, seria acessório se não ficasse evidente nas entrelinhas que o que ela lamenta é que a alta burguesia que sempre fez de Gramado seu refúgio, precisa hoje dividir os encantos da cidade com milhares de turistas vindos das regiões mais pobres do País para conhecer as atrações da Serra Gaúcha.

Isso, ela pode colocar na conta do Lula e da Dilma, que melhorando as condições de vida de milhões de brasileiros, permitiram que eles possam viajar em suas férias por todo o país, inclusive de avião. Numa outra parte do seu texto, ela critica a falta de educação de algumas pessoas nosaeroportos, certamente também incomodada com a presença dessa gente estranha nos lugares antes reservado as elites econômicas.

Alienação, preconceito e para finalizar, ignorância sobre o que aconteceu com os brasileiros mais pobres na última década. A frase “quem ainda pode desconfiar do programa que transferiu milhões de brasileiros da miséria absoluta para a quase miséria absoluta? Quem com algum valor moral e cívico pode achar ruim, mesmo quando parece ser um plano maquiavélico de permanência no poder, fantasiado nesse caso não de Papai Noel, mas de paladino da inclusão social?”, além da ironia aparente, revela o desconhecimento e o significado para estes milhões (praticamente 30 milhões de pessoas) que passaram a comer todos os dias e viver com esperanças de melhores dias para eles e suas famílias.

Em outubro, apesar de todo o esforço da mídia, os brasileiros reafirmarão mais uma vez que pretendem avançar e não regredir à uma época que só deixou saudades para uma minoria privilegiada e seus servidores.

Marino Boeira — Formado em História pela UFRGS. Jornalista e publicitário. Ex-professor de disciplinas da área de Comunicação na PUCRS e Unisinos. Publicou três livros de ficção: De Quatro, com outros três autores, Raul, Crime na Madrugada e Tudo que você NÃO deve fazer para ganhar dinheiro na propaganda. É um dos participantes dos livros de memória: Nós e a Legalidade, Salimen, uma história escrita em cores e Porto Alegre é assim.

No Imagem Política

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