1 de jun. de 2014

É preciso fazer uma cesariana para extirpar o excesso de bolo fecal da Veja

E daí que mesmo com mil e quatrocentos trabalhos para fazer, ainda abro a Internet hoje e me deparo com dezenas de links para a coluna do Rodrigo Constantino na Veja, em que ele critica a pesquisa "Nascer no Brasil" da Fiocruz e divaga em delírios persecutórios contra o "comunismo" da instituição. Ao menos devo reconhecer que ele começa bem a coluna declarando que não entende nada do assunto "parto normal versus cesárea". Porém o restante da matéria é completamente disparatado, como vocês podem conferir no link abaixo, que não é da Veja, porque me recuso a dar ibope para essa revista:



Não gosto de atacar pessoas, prefiro o debate (e o embate) de ideias. Mas agora acredito que o colunista da Veja enlouqueceu de vez. Deveria se limitar a falar sobre o que (pretensamente) entende e não seria difícil, há tanto o que se criticar atualmente no Brasil em termos de Economia e Política, para que enveredar no assunto "parto", do qual evidentemente ele não entende bulhufas?

RC, se você quer falar mal do governo do PT, há muitos outros assuntos que pode discutir, mas atacar a pesquisa muito bem feita e reconhecida internacionalmente da FIOCRUZ não foi bacana, cara. Quais são as falhas metodológicas da pesquisa, você consegue apontá-las? A vontade que me dá é sugerir uma cesariana para retirar o excesso de bolo fecal de sua cabeça, mas sabe? Meu libertarianismo me impede de atentar contra a liberdade individual, a liberdade de expressão, e contra o seu direito — inamovível — de despejar achismos sem fundamento a torto e a direito.

É muito fácil afirmar que existe uma "falta de critérios científicos" na pesquisa da FIOCRUZ, sem indicar quais são os problemas e usando como fonte única de crítica a fala de UM representante da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Rio de Janeiro, sociedade que lamentavelmente apenas tem se destacado nos últimos anos pelo corporativismo, contra outras profissões e ainda defendendo abertamente a cesariana, na contramão de todas as evidências científicas correntemente disponíveis. Por favor, indique os vieses do estudo, os problemas do seu desenho e de sua concepção, fale da análise estatística, coteje com a literatura vigente.

Não sei se você ou o representante da Associação já leram, mas há uma publicação bem recente da "comunistíssima" revista "Birth" corroborando que não há qualquer vantagem em termos de melhora dos desfechos maternos e perinatais quando a taxa de cesárea ultrapassa os 10%-15% preconizados pela OMS.

Searching for the Optimal Rate of Medically Necessary Cesarean Delivery

Outra publicação da "comunista" Organização Mundial de Saúde já demonstrou que cesarianas sem indicação médica definida estão associadas com aumento do risco de complicações adversas em curto prazo, incluindo hemorragia, infecção, necessidade de hemotransfusão, internação em UTI e morte materna:

Caesarean section without medical indications is associated with an increased risk of adverse short-term maternal outcomes: the 2004-2008 WHO Global Survey on Maternal and Perinatal Health

Mais ainda, que história é essa de "comunismo" na FIOCRUZ e de privilégios do movimento feminista? Eu não vejo um! Desde que me entendo por mulher venho assumindo as bandeiras do movimento feminista e em nenhum momento vi essas benesses conferidas pelos órgãos governamentais. Ao contrário, seguimos lutando por questões há muito tempo resolvidas em outros países, como a licença-maternidade de (pelo menos) seis meses, a legalização do aborto, contra a violência de gênero e em prol de uma assistência humanizada durante todo o ciclo grávido-puerperal.

Em um país com 56% de cesarianas, quase 90% nos hospitais da rede privada, como falar que ONG feministas são mais ouvidas em relação ao parto do que as associações científicas de Ginecologia e Obstetrícia? Se ocupamos nosso espaço nas discussões promovidas pela área técnica da Saúde da Mulher no Ministério da Saúde, também existe espaço para as associações e para os conselhos de Medicina, enquanto na prática continuamos acompanhando a escalada vertiginosa das taxas de cesárea, caracterizando o famoso "paradoxo perinatal brasileiro", porque continuamos com uma razão de mortalidade materna (RMM) elevada, com milhares de brasileiras morrendo em decorrência de hipertensão, hemorragia, infecção pós-parto e complicações do aborto inseguro. Em vez de deblaterar contra a pesquisa da FIOCRUZ, por que não estabelecer um diálogo e somar esforços para resolver esses problemas gravíssimos?

Razão de Mortalidade Materna no Brasil 2012-2013
Causas de morte materna no Brasil 2012-2013

Não dá para rotular nem partidarizar esse debate, sabia? Não é de esquerda querer ter parto normal, não é de direita querer cesárea. Há uma boa parte da Direita Conservadora nos EUA a favor do parto normal, assim como a Direita Liberal é em geral favorável ao aborto legalizado, pelo prisma da liberdade individual. Nem tudo faz parte de uma conspiração gayzista-comunista (inventada por vocês, aliás) para dominar o mundo. Nós, mulheres, queremos sim HUMANIZAR o mundo, queremos respeito, lutamos por nossa liberdade e pelo pleno direito a tomar decisões sobre os nossos corpos, o que inclui a decisão de se, quando, como, onde e com quem ter os nossos filhos. Como alguém que se diz liberal, você deveria ao menos considerar que NÃO QUEREMOS A TUTELA DO ESTADO e do patriarcado. O PARTO É NOSSO.

Pode continuar expelindo por via oral o excesso de dejetos fisiológicos que lhe enchem o cérebro, mas pelo amor de deus, ao menos estude antes de colocar tudo isso por escrito para a gente ler, inclusive eu, que participei da pesquisa "Nascer no Brasil" e que de natureba tenho muito pouco ou quase nada, e só posso dizer:
ESTUDA, RODRIGO, ESTUDA!

Melania Amorim
No Blog do Mário

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