16 de jan. de 2014

Sérgio Vaz: No rolezinho, periferia devolve “educação de qualidade”; negros vivem a sua Primavera de Praga




Há algo novo no ar. Sabemos disso com absoluta certeza desde as grandes manifestações de junho de 2013.

É possível sentir que o tremor subsiste neste bar que é sede do Sarau da Cooperifa, nas proximidades da avenida M’Boi Mirim, na Zona Sul de São Paulo.

Para quem não tem intimidade com a capital paulista, há imensos dormitórios de trabalhadores na megalópole: estamos num deles. É o que se chamaria, numa sociedade industrial, de bairro eminentemente proletário. Mas, com a pronunciada ascensão social registrada a partir do início da era Lula, em 2002, as coisas já não são tão simples de descrever. Há gente de classe média no bairro. Da nova classe média. Há remediados. Pobres. E, especialmente nas moradias precárias das favelas, há também miseráveis.

As mesmas inquietações que a classe média branca dos Jardins ou do Leblon ou da Savassi sente ao ver seu espaço invadido pelos “de fora” também existe aqui: há um rearranjo social acumulado com uma explosão de novas demandas e possibilidades. Aqui o Brasil está em movimento veloz. Tem fome de novidades e mudanças. Um despertar ajudado pelas redes sociais que driblam o desprezo dedicado pela grande mídia aos pobres e negros.

O sarau, organizado pelo poeta Sérgio Vaz, está completando 13 anos de existência. Enquanto os poetas apresentam seus versos, dá para constatar a diversidade nas mesas. Há senhoras da terceira idade, crianças brincando de videogame no celular do pai ou no ipad da mãe, há vários casais e jovens, muitos jovens.

Por mais que haja distinção de origem e classe dentre os que frequentam o sarau esta noite, a experiência comum dispensa explicações elaboradas sobre a violência policial: é algo cotidiano, sofrido ou testemunhado. O racismo, a discriminação e o preconceito deixaram feridas abertas em todos os que estão aqui. É a humilhação compartilhada, nas ruas e repartições, muitas vezes ao longo de toda uma vida.

O prazer de compartilhar a luta contra o racismo também está presente, como esteve nas grandes campanhas pelos direitos civis dos Estados Unidos, nos anos 60 (curiosamente, durante o evento, tive um flashback da campanha pré-presidencial do pastor negro Jesse Jackson, que acompanhei no avião do candidato, como repórter, nos Estados Unidos, nos anos 80).

Existem ecos distantes de Malcolm X nas palavras do poeta Sérgio Vaz, quando ele se refere elogiosamente aos brancos “solidários na batalha contra o racismo”.

O reconhecimento de que existe um muro que os separa da “cidade” — que é como a região mais rica de São Paulo muitas vezes é chamada — é generalizado, tanto quanto a determinação de saltar o muro a qualquer custo.

A desconfiança da mídia patronal tem, na outra face, o desejo de reconhecimento, hoje uma possibilidade que independe das redações dos grandes órgãos da mídia (You Tube e Facebook que o digam). A Veja é descrita num dos versos como antônimo de “verdade”. Vaz relembra o episódio em que um funcionário da TV Globo foi expulso do bar por tentar rearranjar todo o mobiliário para “facilitar” as filmagens. Foi uma forma de rejeitar a ideia de que o sarau é como cenário de novela, habitado por gente sem autonomia, como se fossem atores e atrizes lendo roteiro alheio.

Autonomia, aqui, é palavra-chave.

O sarau de todas as quartas-feiras, aliás, É o Jornal Nacional do bairro. Os versos, muitos dos quais foram escritos nas últimas horas, falam dos assuntos que interessam diretamente ao cotidiano dos presentes: amor, morte, vitórias e dificuldades.

Soam como as manchetes de poetas e rappers. Dá para brevemente tomar o pulso do bairro. Os versos mais aplaudidos da noite denunciam a Copa do Mundo como afronta às carências dos bairros mais pobres. “Enfia os 20 centavos no SUS”, brinca a jovem poeta, em referência ao corte nas tartifas de ônibus obtido no ano passado, em São Paulo, depois dos protestos organizados inicialmente pelo Movimento Passe Livre (MPL).

O rolezinho é o assunto da noite. Há uma identidade quase instantânea com os participantes, por expressarem, mesmo que de forma indireta, o grito contra o preconceito, a humilhação histórica e a crença elitista de que o negro “deve saber o seu lugar”.

Bem que na entrevista que antecedeu o sarau Sérgio Vaz havia me alertado: a periferia está vivendo seus dias de Primavera de Praga, uma referência ao levante contra forças exteriores de ocupação — no caso, os soviéticos na extinta Checoslováquia.

Quando diz “periferia”, Sérgio Vaz quer dizer os negros e pardos da periferia.

Eles estão em movimento. Estão inconformados. E tem pressa.

Quem vier fazer campanha aqui em 2014 deve trazer os assessores de educação, saúde e transporte. Mas não esqueça de trazer também o de igualdade racial. Vai fazer toda a diferença.





Luiz Carlos Azenha
No Viomundo

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