25 de jan de 2014

O Brasil de Davos e de Mariel



A presidente Dilma chegou ontem (23) a Davos, na Suíça, para reunir-se, entre outras personalidades, com o presidente do país, Didier Burkhalter, o do grupo Saab (sócio brasileiro no projeto dos caças Gripen NG - Hakan Buskhe), o da Fifa, Joseph Blatter, e CEOs de grandes multinacionais, como a Unilever e a Novartis.

De lá, ela irá para Havana, Cuba, onde se encontrará com líderes do continente, na reunião da Celac (Comunidade de Estados da América Latina e do Caribe), e participará, junto ao presidente Raul Castro, de uma cerimônia emblemática: a inauguração da primeira etapa do terminal de contêineres e da Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel, junto ao porto do mesmo nome, financiado com dinheiro brasileiro e construído por empresas nacionais de engenharia, em associação com firmas locais, no valor aproximado de um bilhão de dólares.

O objetivo do Brasil, no Fórum Econômico de Davos, é esclarecer aos investidores que, com relação à economia, por aqui o diabo não está tão feio quanto aparenta ou querem fazer que pareça. Para isso, os representantes brasileiros deverão apresentar dados como a queda da inadimplência, o aumento da arrecadação e a manutenção, no ano que passou, do Investimento Estrangeiro Direto em um patamar acima de 60 bilhões de dólares por ano, quase o mesmo, portanto, que o de 2012.

Já, em Cuba, o papel do Brasil será dar novo exemplo de seu “soft power” regional, exercido também por meio de grandes projetos de infraestrutura, voltados para melhorar as condições de vida de nossos vizinhos e parceiros, e integrar, pelo desenvolvimento, a América Latina.

O que paraguaios, bolivianos, peruanos, equatorianos e mexicanos vão ver, paralelamente à reunião da Celac, quando tomarem conhecimento da dimensão do projeto de Mariel — onde devem se instalar empresas brasileiras a partir do ano que vem, para montar produtos destinados às Américas e ao Pacífico, aproveitando a vizinhança do Canal do Panamá — não é muito diferente do que o Brasil já faz em seus respectivos países.

Basta lembrar o recém-inaugurado linhão elétrico de 500 kV entre Itaipu e Assunção, que permitirá, finalmente, a industrialização do Paraguai; o gasoduto Bolivia-Brasil, que gera, com a exportação de gás, boa parte do PIB boliviano; os corredores ferroviários e rodoviários bioceânicos, em fase de implantação, que nos levarão ao Peru, Bolívia e Chile, e por meio deles ao Oceano Pacífico; as obras do metrô de Quito, no Equador, que também tem participação brasileira; ou o maior projeto petroquímico em construção no México, que está sendo tocado, em associação com empresas locais, pela Braskem.

Para muita gente, o Brasil de Mariel, que tem consciência de sua dimensão geopolítica na América Latina, é incompatível com o Brasil de Davos, que, muita gente também acredita, deveria se sujeitar aos Estados Unidos e à Europa, em troca de capitais, acordos e investimentos.

Essa visão limitada, tacanha — defendida tanto por alguns setores da oposição quanto por gente do próprio governo e da base aliada — já foi ultrapassada pelos fatos, e deveria ser abandonada em benefício de um projeto de nação à altura de nosso destino e possibilidades.

Quanto mais poder tem um país, mais razões ele tem para ser pragmático, múltiplo, universal, no trato com as outras nações. Não podemos fechar as portas para ninguém, nem deixar de ter contato ou de fazer negócios com quem quer que seja, desde que essa relação se faça em igualdade de condições.

O que não deve impedir, nem limitar, nosso direito de eleger, estrategicamente, prioridades e alianças, específicas, no âmbito internacional, que nos permitam alcançar mais rapidamente nossas metas de fortalecimento do Brasil e de melhora das condições de vida da população brasileira.

* * *

O que Dilma foi fazer em Davos

Dilma ter ido a Davos é um fato em si. Ela não iria para lá se não sentisse necessidade de tranquilizar os investidores estrangeiros.

É um encontro anual, este do Fórum Econômico Mundial. Desde que chegou ao Planalto Dilma jamais se interessara em viajar a Davos — uma cidadezinha linda no alto dos Alpes suíços que nesta época do ano fica toda branca de neve, e com temperaturas que podem chegar a menos 20.

Dilma só foi a Davos porque as circunstâncias mudaram. O deslumbramento com os países emergentes fazia com que seus líderes não tivessem que se esforçar muito para atrair investimentos estrangeiros.

Mas agora a empolgação esfriou. Não é um problema específico do Brasil, mas de todos os emergentes. Olhares oblíquos são endereçados até para a China.

O organizador do encontro — dono, na verdade, Klaus Schwab — usou uma expressão que diz muito sobre a mudança de percepção. Ele falou numa “crise da meia idade” dos emergentes.

Curiosamente, Davos também sofre dessa crise. O primeiro encontro foi em 1971. Na década de 1980 Davos foi uma espécie de símbolo da globalização.

Nos anos de ouro atraiu, além da elite mundial dos negócios, celebridades como a jovem Angelina Jolie. Todos os fotógrafos a fotografavam, e isso garantia mídia para Davos em todo o mundo.

Hoje é apenas um evento de negócios entre tantos outros. As celebridades sumiram e se instalaram subcelebridades como Paulo Coelho, sempre presente.

O encanto de Davos foi se esvaindo quando, com o passar dos anos, se percebeu que dali não brotavam soluções capazes de melhorar o mundo.

Ao mesmo tempo, estrelas como Jolie deixaram de ir porque notaram que estavam sendo usadas como escada para elevar o faturamento da empresa que organiza o encontro. (Davos é um negócio privado: as empresas participantes pagam para estar lá.)

Empresários, executivos e líderes políticos se reúnem durante quatro ou cinco dias. São ouvidos e entrevistados por jornalistas de diversas partes. Há, sempre, uma pauta central: a deste ano é a questão da desigualdade.

Cobri duas vezes Davos, na década de 2000, e as coisas que lembro com mais carinho são, primeiro, o trajeto de trem de Zurique a Davos, espantosamente lindo, sobretudo no trecho dos Alpes. Você vê pela janela neve, riachos, esquiadores, e tem vontade que a viagem não termine.

A segunda lembrança forte é o sabor excepcional dos fondues de Zurique. Eu enfrentava com alegria a neve para comer foundue ali no centro da cidade pouco antes que os restaurantes fechassem, às 11 da noite.

Davos é hoje muito menos do que foi. É mais uma boca livre — e uma chance de trocar cartões — do que um encontro de líderes capazes de transformar o mundo em algo melhor.

Nesta reunião de 2014, o fato mais relevante para os brasileiros é, simplesmente, que Dilma achou melhor ir. Numa analogia, você não vai ao dentista se o dente não incomoda.

Isto mostra que o governo sentiu a inquietação dos investidores estrangeiros: esta é a notícia.

Paulo Nogueira
No DCM

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