31 de dez de 2013

Sucesso e Vitórias em 2014



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Renan Calheiros e Pepe Mujica: o presidente uruguaio virou um criador de anões

Mujica

O presidente uruguaio, Pepe Mujica, mostrou, entre outras coisas, que um governante ideal não precisa ser, necessariamente, uma utopia completa.  Fez isso de maneira simples, com reformas corajosas e, sobretudo, seu exemplo.

Mora numa chácara a 10 quilômetros de Montevideu com a mulher, a senadora Lucía Topolansky, e sua velha cadela. “Minha maneira de viver é consequência da evolução da minha vida. Lutei até onde é possível pela igualdade e equidade dos homens”, diz ele.

A casa tem paredes descascadas e tetos de zinco verde. Galinhas ciscam o terreno debaixo das roupas no varal. Ele tem o mesmo patrimônio de 2010, o que inclui um Fusca 87. Doa 90% de seu salário de US$ 12 500 a programas sociais. Chamou de “velho careta” um dirigente da ONU que xingou seu país de “pirata” por causa da legalização da maconha. Recentemente foi à posse de um ministro calçando sandálias.

Por causa do que representa e do que faz, Mujica ganhou um imenso respeito e admiração. Surgiram também mais inimigos do que já tinha (“esse velho comunista maconheiro vai ser desmascarado”) e, principalmente, anões por comparação.

Hoje o presidente do Senado, Renan Calheiros, escreveu um artigo sobre o “programa de racionalização interna”. Diz ele que houve uma economia de R$ 265 milhões.

Lista seus feitos: “Foram eliminados o décimo quarto e décimo quinto salários dos parlamentares. Foram extintos 630 funções comissionadas (30% do total). Implementamos a jornada corrida de sete horas, evitando novas contratações. E fundimos estruturas administrativas redundantes”.

“Após as manifestações populares no meio do ano, aprovamos mais de 40 propostas em menos de 20 dias, desenferrujando as engrenagens sabidamente burocráticas do processo legislativo. Algumas ainda tramitam na Câmara dos Deputados. O crime de corrupção foi agravado e se tornou hediondo”.

Além da numeralha de difícil comprovação e do enrolation, existe aí um problema básico de falta de noção do papel de um líder como ele. Esse é o Renan Calheiros que acabou de devolver aos cofres públicos  R$ 27 390,25 por ter pegado um voo da FAB para fazer um implante de cabelo no Recife. No registro da FAB, consta que ele utilizou a aeronave “a serviço”. Era mentira.

Renan só devolveu a quantia porque virou notícia. Em junho,  já fora pilhado indo à Bahia de FAB para o casamento da filha do senador Eduardo Braga (PMDB-AM). Em outubro, o Senado suspendeu uma licitação para a compra de comida e produtos de limpeza para sua casa. Previa-se um gasto de R$ 98 mil por seis meses. Dez quilos de carne por dia. Renan mora com a mulher e dois filhos.
É surreal, no mínimo, que o político que anuncia “cortes de gastos”  seja o mesmo que usa dinheiro público como se fosse dele — e ainda falando em “corrupção”. Não aprendeu nada com as manifestações. Não aprendeu nada com o vizinho ao sul. É como se o Uruguai ficasse num continente distante da Oceania, um lugar com costumes exóticos e chefes ruins da cabeça como aquele tiozinho barrigudo e de bigode.

Os anões de Mujica ainda vão dar muito trabalho, especialmente para si mesmos.

Renan

Kiko Nogueira
No DCM
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Sem autocrítica, Globo pede autocrítica a Dilma


Em editorial publicado no último dia do ano, jornal de João Roberto Marinho demonstra irritação com a expressão "guerra psicológica" usada pela presidente Dilma em seu pronunciamento do último domingo; segundo O Globo, trata-se de coisa típica de países autoritários, mas a presidente apenas deu nome à conduta do próprio Globo que, no ano passado, em sua guerra psicológica contra o governo Dilma, dizia que grandes indústrias racionavam energia (o que era mentira e inibia novos investimentos); pelo jeito, os Marinho vestiram a carapuça

Pelo jeito, a carapuça serviu. Em editorial publicado nesta terça-feira, último dia de 2013, o jornal O Globo protesta contra a expressão "guerra psicológica" usada pela presidente Dilma Rousseff em seu pronunciamento, no último domingo. "Se alguns setores, seja porque motivo for, instilarem desconfiança, especialmente desconfiança injustificada, isso é muito ruim. A guerra psicológica pode inibir investimentos e retardar iniciativas", disse a presidente.

Guerra psicológica era exatamente a conduta do jornal O Globo, no início do ano passado, quando "informava" que grandes empresas estariam racionando energia – como se sabe, o "apagão" foi uma peça de ficção criada por jornais como Globo e Folha justamente para instilar desconfiança na economia e retardar iniciativas empresariais.

No editorial desta terça, O Globo, que poderia ter feito uma autocrítica – como fez recentemente, ao admitir seu apoio ao golpe militar de 1964 –, preferiu dizer que a presidente Dilma não tem autocrítica e comparou sua fala à de presidentes de países autoritários.

No 247
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Por que FHC disse o que disse de Joaquim Barbosa

Acertou, mas pela razão errada

Duas coisas.

Primeira: FHC tem toda razão quando diz que Joaquim Barbosa é despreparado para a presidência.

Na verdade, JB é despreparado para quase tudo, a começar pela presidência do STF, onde ele se revelou uma tragédia nacional com sua truculência, mesquinharia e falta de cultura.

Foi, como todos sabem, a pior invenção de Lula. O poste que não deu certo. O poste que trouxe não luz, mas escuridão.

Segunda: FHC está falando isso porque, caso fosse candidato, JB roubaria votos exatamente do PSDB.

Ele é o anti-PT. Petistas o abominam, e, na minha opinião de jornalista apartidário e independente, com justificadas razões.

Imagino que os petistas preferissem votar em Serra a votar em JB, se fossem estas as duas alternativas.

Uma candidatura já cambaleante, como a de Aécio, simplesmente se desfaria caso JB entrasse na disputa.

Espertamente, FHC deixa uma portinha aberta: diz que seria outra história se JB fosse candidato a vice, ou a senador.

Para o PSDB, seria uma boa alternativa ter JB como vice de Aécio. Não que isso possa mudar o desfecho previsivelmente melancólico das eleições de 2014 para os tucanos, mas talvez trouxesse algum alento a uma campanha que parece morta antes de chegar ao berço.

Mas, se é bom para o PSDB ter JB como vice, para ele, JB, é uma lástima. Vice, no Brasil, não é nada. Ainda mais quando você é vice de um candidato miseravelmente derrotado, como deve ser o caso de Aécio.

Para JB, é melhor ficar onde está, pelo menos por enquanto. Sua vaidade será satisfeita por uma mídia que estará ávida por atacar o PT, e nisso ele é útil.

Suas pretensões ficarão deslocadas para o futuro, talvez 2018.

Collor 2, como dizem alguns, ele não é. Collor 1 foi um produto da mídia, é certo, que o transformou no “Caçador de Marajás”.

Mas Collor era desconhecido dos brasileiros. Foi fácil construir uma imagem empolgante, tanto mais porque ele tinha boa aparência e falava fácil até em inglês.

JB é um produto bem mais difícil de enfiar nos eleitores. Acima de tudo, já é amplamente conhecido, e é rejeitado por uma fatia expressiva dos eleitores – os chamados progressistas.

Fora isso, ele se comunica bisonhamente, ao contrário de Collor. Tem uma fala empolada, sofrida, manca.

Faça uma compilação das frases ditas por JB no Mensalão, ao vivo, e você deparará com um monte de asneiras sem sentido e ilógicas.

FHC tem razão.

Mas ele disse o que disse de JB por interesse próprio, e não por interesse público.

Paulo Nogueira
No DCM
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A 'grande imprensa' sucumbe ao próprio veneno


Para encerrar bem o ano de 2013, a autoproclamada “grande imprensa”, solta seus já conhecidos sambas de uma nota só. Além de um provável programa no Fantástico (?) da Globo sobre a mãe de Joaquim Barbosa, que pode ser candidato à presidência em 2014, uma lista com nomes para participarem dos jogos bobocas do Programa do Faustão em que nela aparece Aécio Neves (PSDB) e as equipe são nas cores azul e amarelo. Coincidência?

O canal de tevê fechada GloboNews, em seu programa Painel, apresentado pelo apresentador mais próximo dos EUA no país, William Waack, apresentou um “debate” sobre direita e esquerda.

Como não podia deixar de ser, senão não era a Globo, todos os três “debatedores” eram de direita, entre eles o Reinaldo Azevedo, de Veja. Junte isso ao próprio apresentador e tivemos, por quase cinquenta minutos, quatro pessoas tentando destruir o espectro ideológico de esquerda no Brasil. Se a Globo tivesse o mínimo de senso de ridículo, ao menos um dos convidados seria de esquerda. Porém pedir o senso de ridículo à Globo é pedir demais. Seja na quantidade que for.

Entre as inúmeras baboseiras que soltavam em rede nacional de tevê fechada, estava a de que “os esquerdista não sabem lidar com a diferença”. Pois é, falaram isso durante um programa para debater direita e esquerda e que só participaram debatedores de direita. Isso sim é saber lidar com as diferenças, não acham?

Outra bobagem ditas pelos “entendedores” de linhas ideológicas foi a de que o Brasil é “um país de esquerdista” e “ser liberal é ser revolucionário”. Seria cômico se não fosse trágico.

O programa Painel, da GloboNews, é a prova material do que disse Márcio Pochmann, da Fundação Perseu Abramo, à revista Fórum, sobre a imprensa no Brasil.

“Os jornais que temos hoje também escrevem para os seus militantes, escrevem o que eles querem ouvir, e por isso esses jornais estão com dificuldades para ampliar o seu número de leitores, é por isso que os jovens não interagem com esses jornais. Mas eles têm um público cativo, e para manter esse público cativo ficam alimentando uma visão que é, a meu ver, insustentável, isso não tem futuro. Estamos assistindo ao fim desse tipo de imprensa. Está em construção uma outra imprensa, uma outra cobertura, que é a coisa digital e isso também está em construção", afirmou Pochmann.

Por essas e outras que a internet vem ganhando o terreno da televisão como mídia mais consumida pelos brasileiros. De acordo com o um estudo realizado pelo IAB Brasil em parceria com a comScore chamado “Brasil Conectado – Hábitos de Consumo de Mídia”. Hoje no país, cerca de 100 milhões de pessoas, 82% dos entrevistados, se informam e se entretém pela internet.

Enquanto que, em 2013, a audiência da Globo foi a pior da História, principalmente de seu principal programa, o Jornal Nacional. Entre 2012 e 2013, a audiência caiu cerca de 18,4%. No acumulado da década, a queda foi de quase 30%. O Fantástico sua horrores para chegar a 20 pontos.

Lógica natural de uma mídia que tenta convencer as pessoas de uma realidade que não existe. Que é extremamente panfletária, mas jura de pés juntos ser imparcial e compromissada com a informação e a verdade factual. Provavelmente por acreditar que seus telespectadores, ouvintes e leitores tenham a capacidade intelectual do personagem de desenho animado Homer Simpson.

Como o próximo ano é eleitoral, a postura da “grande imprensa” deverá ser o mesmo e seguindo o mesmo comportamento sua audiência cairá ainda mais. Ela não é uma grande imprensa, não trata os temas de forma grandiosa, completa, com a finalidade que deveria. Ela é apenas uma imprensa grande, graças inclusive ao golpe de 1964. Mas do jeito que vai, nem uma imprensa grande será mais. E em menos tempo do que se pensa.

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Folha não esconde a saudade da ditadura

“Basta a leitura das duas matérias para que se possa constatar a que raias de descalabro chega a falsa imparcialidade da grande imprensa brasileira”


O Conversa Afiada reproduz analise de Benedito Tadeu César, extraída do Sul 21, sobre as coberturas da morte do embaixador Manoel Pio Corrêa Jr. feitas pela Folha e pelo Observatório da Imprensa:

Qual obituário de Manoel Pio Correa Júnior merece maior credibilidade?

(por Benedito Tadeu César)

A Folha de São Paulo e o Observatório da Imprensa noticiaram no sábado 14/12/2013 a morte do embaixador Manoel Pio Corrêa Jr. O mesmo fato, a mesma data, a mesma personagem, mas com abordagens completamente diferentes.

Para a Folha, tratava-se da morte de um bom velhinho, que adorava viagens e livros, especialista na Revolução Francesa, poliglota.

Para o Observatório, tratava-se da morte um colaborador ativo do regime militar, golpista e dedo-duro, espião da CIA, criador do CIEx, o serviço secreto do Itamaraty que vigiou Jango e Brizola, autor da denúncia que provocou a demissão do poeta e compositor Vinícius de Moraes, etc.

A disparidade de abordagens é tal, que dispensa interpretações.

Basta a leitura das duas matérias para que se possa constatar a que raias de descalabro chega a falsa imparcialidade da grande imprensa brasileira. Para que você tire suas próprias conclusões, segue, abaixo, a transcrição das duas matérias.

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Abaixo, a matéria da Folha de São Paulo, assinada por Andressa Taffarel:

Manoel Pio Corrêa Jr. (1918-2013)

O diplomata, as viagens e os livros

ANDRESSA TAFFAREL
DE SÃO PAULO

Ao lado da família, o carioca Manoel Pio Corrêa conheceu os cinco continentes ainda criança. Seu pai, um famoso botânico de mesmo nome, viajava o mundo como pesquisador do museu de história natural de Paris à procura de plantas desconhecidas.

Durante o toda a vida, Pio não deixou de cruzar continentes. Diplomata, viveu em vários países. Tinha um carinho especial por Argentina e México, mas seu coração era da França, para onde ia de duas a três vezes por ano.

Grande conhecedor da Revolução Francesa, era dono de cerca de 1.000 publicações só sobre o tema, em diferentes línguas – falava pelo menos seis, além do português.

Sua biblioteca particular, no entanto, era muito maior. Herdou centenas de livros de seu avô paterno, um livreiro espanhol, e do escritor brasileiro Graça Aranha, avô de sua mulher, Thereza Maria.

Também é autor de vários títulos, entre eles o de memórias “O Mundo em que Vivi”.

Ultraconservador, apoiou o golpe de 1964 e considerava Getúlio Vargas e Castelo Branco os melhores presidentes do Brasil. Colega de Alzira, filha de Getúlio, na Faculdade de Direito do RJ, trabalhou no gabinete do político.

Após se aposentar no serviço diplomático, no qual ficou de 1937 a 1969, presidiu as unidades brasileiras da Siemens e da American Express. Trabalhou ainda em outras empresas e prestou consultoria até pouco tempo atrás.

Sofria de uma doença degenerativa. Morreu na sexta (6), aos 95 anos. Deixa a viúva, com quem foi casado por 70 anos, e os filhos, Manuel e Luiz, também diplomata.

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E aqui está a matéria do Observatório da Imprensa, assinada por Luiz Cláudio Cunha:

Dezembro, 6: a dupla morte da caça e do caçador

LUIZ CLÁUDIO CUNHA
em 14/12/2013 na edição 776


O fio caprichoso da História cruzou na sexta-feira, 6 de dezembro, o destino final da caça e do caçador da ditadura militar brasileira. No mesmo dia em que o ex-presidente João Goulart era sepultado, pela segunda vez, em sua terra natal, São Borja (RS), morria no Rio de Janeiro, aos 95 anos, o diplomata Manoel Pio Correa Júnior, criador do serviço secreto do Itamaraty que vigiou Jango e os exilados brasileiros escorraçados do país no golpe de 1964.

Ninguém da grande ou da pequena imprensa cobriu as exéquias do velho embaixador, ao contrário da mídia nacional que há quase um mês acompanha a exumação, as honras de Estado e as homenagens a Jango, no Congresso Nacional e fora dele. A notícia quase oculta, justificadamente escondida da morte de Pio Correa foi dada pelo desconhecido Conselho Nacional de Oficiais R/2 (Reserva) do Brasil, que apresentava Pio Correa como diplomata de Capitão R/2 da Arma de Cavalaria. Mas foi como diplomata e perseguidor de comunistas na carreira diplomática que Pio Correa fez carreira, tornou-se temido e acabou afamado. No seu livro de memórias, O mundo em que vivi (1999), onde não revela quase nada, Pio Correa se vangloria de seu papel de conspirador: “A vitória da Revolução de 31 de março de 1964 representou a coroação de minhas mais caras esperanças”. No pequeno necrológio de seus camaradas de ditadura, é lembrado que um de seus últimos livros, O Granadeiro Emparedado, de 2005, o diplomata critica “o descaso com que as Forças Armadas são tratadas no Brasil”.

Caça a diplomatas

Premiado pelo primeiro general da ditadura, Castelo Branco, com a embaixada em Montevidéu, começou lá, com o coronel Câmara Senna, adido militar da embaixada no Uruguai, a articular a obra mais terrível de sua carreira: a montagem do secreto Centro de Informações do Exterior (CIEx), formado inicialmente por uma rede de contatos que incluía políticos, militares, juízes, delegados de polícia, fazendeiros e comerciantes que fechavam o cerco sobre as atividades de João Goulart e Leonel Brizola, então exilados no país.

A bem sucedida experiência uruguaia o levou, como secretário executivo do chanceler Juracy Magalhães, a redigir e assinar a portaria ultrassecreta que criou o CIEx no governo Castelo Branco. Tão secreta que não constava da estrutura formal do Itamaraty.

A sua existência só foi confirmada em 2007, pela monumental série de reportagens produzida pelo repórter Cláudio Dantas Sequeira, do Correio Braziliense, revelando a ação repressiva da primeira agência criada sob o amparo do Serviço Nacional de Informações (SNI) e de seu criador, o general Golbery do Couto e Silva. O repórter revelou que, no início, o secreto CIEx foi camuflado como Assessoria de Documentação de Política Exterior, ou simplesmente ADOC, com verba secreta e subordinado à Secretaria Geral de Relações Exteriores. Na primeira década, até 1975, funcionou dissimulado como seu criador na sala 410 do quarto andar do Anexo I do Palácio do Itamaraty, em Brasília. Desativado junto com a ditadura, o lugar hoje abriga a inofensiva Divisão de Promoção do Audiovisual.

Vasculhando 20 mil páginas de documentos com 8 mil informes escondidos nos arquivos do CIEx, o repórter Sequeira apurou que, dos 380 brasileiros mortos ou desaparecidos durante o regime, os nomes de 64 das vítimas estavam lá, nas pastas secretas de Pio Correa. Em seu livro de memórias, Por dentro da Companhia, o agente norte-americano Phillip Agee revela que Pio Correa era agente da estação da CIA em Montevidéu quando servia como embaixador no Uruguai. O braço direito de Pio Correa em Montevidéu e amigo fiel era o diplomata Marcos Henrique Camilo Côrtes, nomeado primeiro diretor-executivo do CIEx. No governo Costa e Silva, acompanhou Pio Correa na embaixada em Buenos Aires e, logo em seguida, foi enviado “em caráter especial” a Washington para estreitar os laços com o setor de inteligência da CIA. Como segundo homem do Itamaraty, no primeiro governo da ditadura, Pio Correa promoveu uma caça aos diplomatas que, em resumo, classificava como “pederastas, bêbados e vagabundos”. O poeta, compositor e diplomata Vinícius de Moraes foi perseguido por Pio Correa e aposentado em 1968 pelo AI-5.

Sem cobertura

No crepúsculo da ditadura, muitos arquivos do regime foram destruídos, mas o acervo do CIEx foi salvo pelo secretário-executivo que fez a transição da ditadura para a democracia, entre 1985 e 1990, embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, que recusou a ordem dos militares para limpar as gavetas.

Assim, salvou a obra funesta de Pio Correa, que morreu na sexta-feira (6/12), o mesmo dia em que Jango voltava à sepultura de São Borja. Caberá à História, agora, reservar o espaço devido a quem foi caça e a quem foi caçador no regime que derrubou Jango e que forjou Pio Correa.

Jango voltou a Brasília, em novembro, e baixou à sepultura em São Borja com honras de chefe de Estado, sob as câmeras da imprensa e da TV.

Pio Correa foi enterrado no dia seguinte, sábado (7/12), quase anônimo, no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Nenhum repórter testemunhou a cena.
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E se os presidenciáveis fizessem um acordo pelo direito ao aborto?


A campanha de 2010 foi algo como um conclave, em que parecia não estarmos escolhendo um presidente da República e sim um novo papa por conta dos temas alçados ao debate público. Já 2014 será o ano de enterrar os direitos humanos em discussões associadas à questão da segurança pública, como a redução da maioridade penal. Bem, já discuti o tema por aqui e irritei muito leitor com sangue nos olhos – o que me trouxe grande satisfação. 

Nenhum dos quatro principais pré-candidatos até agora – Dilma, Aécio, Eduardo e Randolfe – irá abraçar um discurso mais conservador-religioso, apesar da influência de seus partidários e coligados. Pelo menos, não abertamente. Isso poderia depor contra uma imagem de modernidade e renovação que eles devem assumir para tentar conquistar o eleitorado.

Posto isso, queria propor um pacto. Não, pacto, não porque vão falar que é coisa do demo. Um acordo.  

Os direitos humanos são um dos temas que mostram convergência entre alguns setores do PSDB, PSB, PSol e PT. Nessas agremiações, houve quem defendeu o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, lançado no final de 2010, e que sofreu pesadas críticas se setores da sociedade como a igreja, os militares e o agronegócio. Os responsáveis pela área de direitos humanos do governo FHC, como o professor Paulo Sérgio Pinheiro, foram mais enfáticos na defesa do então ocupante da cadeira,  Paulo Vannuchi, do que muitas pessoas do próprio governo Lula durante a polêmica do PNDH.

Não estou dizendo que os partidos são iguais, longe disso. Apenas que há temas que encontram ressonância entre eles e que direitos humanos pode ser um deles – o atual PNDH manteve pontos, que hoje são considerados polêmicos, da sua primeira versão, lançada em 1996, sob o PSDB, por exemplo.

Nesses partidos, há muitos contrários à adoção da pena de morte, à redução da maioridade penal e à prisão perpétua, e favoráveis à eutanásia, à ampliação dos direitos reprodutivos, à adoção de filhos por casais do mesmo sexo, à descriminalização do uso de drogas. Seja por anseio de igualdade, seja pela defesa do liberalismo.

Não acredito que Dilma, Aécio, Eduardo e Randolfe, na solidão de suas crenças pessoais, não concordem com muitos desses pontos acima. Ou, mesmo que discordem de alguns, não creio que entendam que a garantia de determinados direitos de minorias é uma questão de opinião individual e não de política pública. 

Lula já declarou que não importa que ele seja pessoalmente contra o aborto, mas sim que o tema deve ser tratado como saúde pública, uma vez que mulheres pobres morrem por causa de interrupções de gravidez feitas de forma precária. Fernando Henrique defende a descriminalização de drogas como parte do combate ao problema, tornando-se, nos ültimos anos, uma das principais vozes globais sobre o tema.

Vamos imaginar uma situação hipotética: considerando que quatro candidaturas vão ter a atenção dos holofotes, nada impediria que fechassem posição sobre alguns desses temas, comprometendo-se a implantar uma plataforma mínima para que o país desse um salto no respeito aos direitos humanos, caso eleitos. Sobraria tempo para debater outros assuntos relevantes.

Já que os agentes do discurso da segurança não vão deixar que o tema não seja usado como munição, sugiro a pauta do direito ao aborto. Um acordo em que, uma vez eleitos, os candidatos aceitarão avançar no debate através do envio de projetos de lei, na garantia real de atendimento de mulheres para os casos já previstos em lei (que hoje esbarra em uma série de problemas) e apoiar com mais vigor, junto ao STF, ações que rediscutam a interpretação ds lei quanto às limitações a esse direito.

Qual a consequência para suas campanhas? Perderiam apoio dos aliados mais conservadores? Considerando a qualidade de quem está do lado deles, isso seria uma benção, não um problema. 

Perderiam eleitores que já votaram neles e afugentariam fundamentalistas? A perda seria para todos. 

Seriam abandonados por parte de seus correligionários? Duvido. A busca pelo poder move montanhas. 

Afinal, ser uma democracia de verdade passa por atender aos anseios da maioria, mas garantindo a proteção da minoria.

Isso, é claro, está no plano da utopia, e soa a idiotice, porque a política real, cheia de traições e puxadas de tapete, não permitiria isso. Além do mais, a guerra campal e a baixaria já estão instaladas. 

Por muitos, a porrada será a opção escolhida. E não duvido que vivenciemos novamente experiências bizarras da eleição de 2010, quando houve até crianças apanhando de coleguinhas nas escolas de classe média alta paulistana porque disse que o pai votou em uma pessoa diferente dos outros pais. A verdade é que vivemos um momento em que o debate público com possibilidade de construção coletiva está interditado. 

E, para piorar, a campanha eleitoral não é o melhor momento para a discussão de temas públicos relevantes – ao contrário do que a teoria afirma. Pelo contrário, é quando marqueteiros dobram a realidade, procurando mexer com a emoção e não a razão dos eleitores. Qualquer tema que seja visto com potencial de angariar ou tirar votos será tratado como um carro em anúncio de TV. E vendido como tal. Ou seja, a verdade sobre o objeto em questão é um mero detalhe.

O melhor momento para discutir o tema seria ao longo de todo o ensino básico, com anos de reflexão em salas de aula, mas também em outros espaços comunitários e sociais, com pessoas preparadas para levantar junto aos jovens todos os pontos de vista, convidando-os a refletir sobre eles. Mas, apesar de direitos humanos ser tema transversal na educação, não tenho nenhuma fantasia de que isso ocorrerá no curto prazo.

Além disso, estamos na adolescência da internet. As pessoas estão descobrindo ainda como é gostoso ser irresponsável em debates nas redes sociais. Acham que não têm nada a perder em um falso anonimato. Com o tempo, isso vai passar. Mas, até lá, aguente a gritaria surda do pessoal com os hormônios à flor da pele, de um lado e de outro. 

Leonardo Sakamoto
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É tempo de debater, organizar, agir e cobrar

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