13 de dez de 2013

Fora, Mendigos!: como a eugenia voltou do lixo na praia de Canasvieiras, em Floripa


A praia de Canasvieiras, em Florianópolis, é uma das mais agitadas do Sul durante o verão. Segundo o velho Guia Quatro Rodas, “na alta temporada, quando a estreita faixa de areia fica tomada por guarda-sóis, é praticamente impossível achar um espacinho para estender a canga. O sotaque é portenho: é a queridinha dos argentinos, que lotam os hotéis e o bem-estruturado centro comercial, com boa variedade de lojas e restaurantes.”

Não é bonita como outras da região. Mas ficou famosa, agora, por causa de sua gente sem noção. Um grupo de moradores tem organizado passeatas com uma intenção: limpar a praia e exigir segurança. Como? Livrando-se da sujeira humana. Querem expulsar dali os mendigos, aquele povo feio e nojento que desonra a comunidade.

Uma mulher que está à frente dos protestos afirmou que eles estão “queimando nossa imagem. As pessoas têm medo de andar na rua, são abordadas, ameaçadas”. Não lhe ocorreu exigir das autoridades, digamos, mais policiamento. Ela denunciou o que seria uma “transferência” de miseráveis de outras praias para Canasvieiras, numa espécie de tráfico de seres humanos. A prefeitura de Florianópolis declarou que não há nenhum indício de que isso esteja ocorrendo.

Depois que Danilo Gentili ressuscitou o macartismo, chegou a hora trazer de volta do lixo a eugenia. O Brasil tem experiência nisso. Embora a ideia da pureza racial tenha sido fundamental na ideologia nazista, nós fomos pioneiros em criar um movimento eugênico organizado, ainda no início do século 20.

Foi em São Paulo. Misturado com uma visão de saúde pública e sanitarismo, deu num comitê que queria o fim da imigração de não-brancos e da miscigenação, além da remoção forçada de cortiços. Um estudo dizia o seguinte: “Os indivíduos que vivem na miséria e abrigados aos pares, em cubículos escuros e respirando gases mefíticos, que exalam de seus próprios corpos não asseados, perdem de uma vez os princípios da moral e atiram-se cegos ao crime e ao roubo”. Soa familiar?

Eugenia, a propósito, significa “bem nascido”. É pouco provável que aqueles manifestantes de Canasvieiras tomem champanhe com Joseph Blatter ou Danuza Leão. Talvez não sejam, também, verdadeiros arianos. Como estamos falando de Santa Catarina, deve haver entre eles descendentes de portugueses, italianos, alemães ou açorianos que vieram ao país sem recursos. Alguns podiam até ser tachados de incapazes na Alemanha nazista e, quem sabe, candidatos a ser esterilizados.

Mas é assim que caminha parte da humanidade em Canasvieiras, onde alguns cidadãos encontraram uma solução para o problema dos moradores de rua em seu lugarejo reavivando uma doutrina criminosa. E o pior é que a praia é nota 6 e olhe lá. E, dependendo do vento, exala gases mefíticos.

Kiko Nogueira
No DCM
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O intérprete de Obama



O falso intérprete de língua gestual Thamsanqa Jantjie, acusado de fraude nas cerimônias fúnebres de Nelson Mandela.
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Inspiradores

Velha questão: são os líderes providenciais que fazem a História ou é a História que providencia os líderes necessários? O apartheid resistiria por muito mais tempo se não existisse o Mandela ou fatalmente acabaria mesmo sem ele? A pergunta também serve para Gandhi e Martin Luther King, só para ficar em líderes inspiradores — ou convenientes — recentes.

Mandela preso transformou-se num símbolo que catalisou a reação internacional ao odioso sistema sul-africano e motivou o boicote econômico que puniu e finalmente derrotou o racismo oficial do país, e sua atitude conciliadora depois da prisão facilitou a transição para uma democracia, pelo menos de fachada.

Mais do que qualquer outra personalidade parecida, Mandela reforçaria a tese de que são os grandes homens que fazem as grandes mudanças históricas. E o corolário inevitável: são os grandes bandidos que enegrecem a História com sua ambição ou loucura.

Outra velha questão: o nazismo foi um surto de irracionalidade nacional personificada num maluco de bigodinho ou uma consequência mais ou menos lógica da história europeia até então, uma convulsão só esperando para acontecer, com ou sem o bigodinho?

Precisamos de heróis. Precisamos que eles tenham cara, biografia, retórica e martírio. Gostamos de pensar que os discursos de Luther King apressaram a dessegregação racial nos Estados Unidos, que a rebeldia de Gandhi correu com os ingleses da Índia e que foi o sacrifício de Mandela que acabou com o apartheid.

E se isto não for verdade, se concluirmos que eles foram heróis de ocasião e as mudanças aconteceriam mesmo sem sua inspiração, restam os exemplos de coragem que legam. Não a nada tão grandiloquente quanto a história das nações, mas, pessoalmente, a cada um de nós.

Luis Fernando Veríssimo
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