4 de dez de 2013

Por que os Perrellas não foram presos?


O surpreendente caso do helicóptero pertencente ao deputado estadual de Minas Gustavo Perrella, apreendido com 445 quilos de cocaína, não pode levar ao prejulgamento do deputado e nem à omissão de investigações.

Quando houve a apreensão, as perguntas se sucederam. Muitos queriam saber se a polícia deveria ter prendido o deputado e se ele seria responsável criminalmente pelo transporte da droga.

A verdade é que, penalmente, ninguém é responsável por ato de seu subordinado se não colaborou conscientemente para isso. Em termos jurídicos, ninguém será punido se não tiver colaborado dolosamente com o ato praticado por seu funcionário. A rigor, a questão sobre o dolo é simples. Basta que o chefe saiba que na sua empresa ou com seu equipamento seja praticado tráfico, para que esse chefe seja responsável conjuntamente por crime de tráfico (tecnicamente, é o concurso de pessoas).

A complexidade está no âmbito das provas. É preciso a obtenção de provas de que o chefe sabe, para que ele seja responsabilizado penalmente. Isso se aplica tanto ao caso de uma pizzaria em que o entregador é flagrado com cocaína na moto, como no caso do helicóptero do deputado mineiro.

Parece claro, portanto, que o deputado deva ser minuciosamente investigado, para se chegar à conclusão sobre sua eventual responsabilidade. Em uma república, nenhum homem pode ser intocável. Por outro lado, numa democracia, não se pode presumir a culpa de quem quer que seja.

Não há dúvida que numa situação similar e de menor proporção, vivenciada por um cidadão pobre, o tratamento seria diferente. Em tais casos, o comportamento tende ao abuso, ou seja, ao mais profundo desprezo pelas garantias individuais. Mas também não há dúvida de que democracia se faz inibindo o abuso e não defendendo sua extensão a todos.

Uma outra questão que surge desse caso é a aparente sofisticação do tráfico, em que a cocaína é transportada por um helicóptero caríssimo. A crônica policial no Brasil só retrata traficantes “pé-de-chinelo”. Os chefões do tráfico, quase sempre, são moradores de favela que constroem casas no alto do morro de um luxo precário, com predileção por banheiras de hidromassagem, muito diferente dos traficantes do cinema americano.

Mas, num negócio rentável como o tráfico de drogas, provavelmente há por trás pessoas menos toscas que um Fernandinho Beira-Mar. Eles existem ou são fruto de nosso imaginário? Se existem, por que não os conhecemos?

O fato é que uma das características das organizações criminosas é a existência de tentáculos no poder público com a corrupção. Dessa forma, é provável que existam empresários do tráfico que se mantenham na impunidade através da corrupção.

Um caso como esse vem aguçar nossa imaginação. Que se investigue, então, minuciosamente a eventual existência de responsabilidade do dono do helicóptero.

José Nabuco Filho
No DCM
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Após a vitória da revolução – Carlos Marighella, 1968


Stalin sempre foi criticado por tentar reescrever a história. Hoje, é a direita quem faz o mesmo. Uma das maiores mentiras que a direita brasileira quer impingir à posteridade é que os guerrilheiros que lutavam contra a ditadura queriam vencer não para libertar o Brasil da tirania, mas para implantar outra ditadura, a “ditadura do proletariado”.

Cuidado, jovem, não acredite em tudo que lê. Este texto do guerrilheiro Carlos Marighella, o maior inimigo da ditadura militar, que não descansou até assassiná-lo numa emboscada em 1969, diz exatamente o contrário. E é absurdamente atual. Ainda hoje eu apoiaria cada uma dessas resoluções. Fala, Marighella:

“Com a vitória da revolução, executaremos as seguintes medidas populares:

- Aboliremos os privilégios e a censura;

- Estabeleceremos a liberdade de criação e a liberdade religiosa;

- Libertaremos todos os presos políticos e eliminaremos a polícia política;

- Tornaremos efetivo o monopólio estatal das finanças, do comércio exterior, das riquezas minerais e dos serviços fundamentais;

- Confiscaremos a propriedade latifundiária, garantindo títulos de propriedade aos agricultores que trabalhem a terra;

- Eliminaremos a corrupção;

- Serão garantidos empregos a todos os trabalhadores, homens e mulheres;

- Reformaremos todo o sistema de educação;

- Daremos expansão à pesquisa cientifica;

- Retiraremos o Brasil da condição de satélite da politica exterior norte americana para que sejamos independentes.”

Cadê a “ditadura do proletariado”? Darcy Ribeiro, que foi ministro da Educação e chefe da Casa Civil do governo João Goulart, também deu seu depoimento: “Jango sempre dizia que com a reforma agrária, com milhões de proprietários, mais famílias iriam comer, viver e progredir, mais gente se fixaria no campo, a propriedade estaria defendida e o capitalismo consolidado. Nada mais oposto, como se vê, ao comunismo”. A direita, como sempre, mente. Não se deixe enganar por lobos em pele de cordeiro.

Para saber mais sobre Carlos Marighella, recomendo muito o documentário de sua sobrinha Isa Grinspum Ferraz (na íntegra):


Também recomendo o clipe dos Racionais MCs, vencedor na categoria melhor clipe do ano no VMB (Video Music Awards Brasil). A música foi composta especialmente para o documentário de Isa: “Mil faces de um homem leal”. Marighella vive.


No Socialista Morena
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Carta de Renúncia de José Genoino


"Excelentíssimo Senhor Presidente da Câmara dos Deputados
Excelentíssimos Senhores Membros da Mesa Diretora
Excelentíssimos Senhores Deputados

Dirijo-me a Vossas Excelências após mais de 25 anos dedicados à Câmara dos Deputados, e com uma história de mais de 45 anos de luta em rol da defesa intransigente do Brasil, da democracia e do povo brasileiro, para comunicar uma breve pausa nessa luta, que representa o início de uma nova batalha, dentre as tantas que assumi ao longo da vida.

Assim, e considerando o disposto no inciso II, do artigo 56 da Constituição Federal;

Considerando ainda a transformação midiática em espetáculo de um processo de cassação;

Considerando, de outro modo, que não pratiquei nenhum crime, não dei azo a quaisquer condutas, em toda minha vida pública ou privada, que tivesse o condão de atentar contra a ética e o decoro parlamentar;

Considerando que sou inocente;

Considerando, também, que a razão de ser da minha vida é a luta por sonhos e causas ao longo dos 45 anos, reitero que entre a humilhação e a ilegalidade, prefiro o risco da luta; e

Considerando, por derradeiro, que sempre lutei por ideias e jamais acumulei patrimônio ou riqueza.

Por tudo isso e ao mesmo tempo em que agradeço a confiança em mim depositada ao longo de muitos anos pelo povo do Estado de São Paulo e pelo Brasil, RENUNCIO ao mandato parlamentar e encaminho a presente missiva através do deputado José Guimarães PT/CE e do dr. Alberto Moreira Rodrigues, advogado inscrito na OAB/DF nº 12.652.

Atenciosamente,

José Genoino Neto – deputado federal licenciado – PT/SP

Alberto Moreira Rodrigues – OAB/DF – 12.652""
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Jornalixo Nacional



Embora tenha visto a matéria do Jornal Nacional pela metade, enquanto zapeava a TV em busca do canal onde passava “The Big Bang Theory”, não posso deixar aqui de fazer o registro:

Este esforço de reportagem da TV Globo para impedir que José Dirceu trabalhe em um hotel de Brasília é uma das coisas mais patéticas que eu, em tantos anos de jornalismo, já vi na televisão. É incrível que ainda haja jornalista disposto a participar de uma encenação como essa, hipócrita, moralista, bem ao nível dessa classe média tristonha que rumina o JN antes da novela das nove.

Como é que uma empresa que sonegou 1 bilhão de reais em impostos do seu próprio País tem a cara de pau de, publicamente, mandar uma equipe ao Panamá para apontar o dedo sujo para os outros?

Por que não gastou esse dinheiro e essa energia moralista de quinta categoria para ir ali, em Minas Gerais, investigar quem são os donos de meia tonelada de cocaína encontrada no helicóptero da família Perrella?

Difícil dizer qual o pior momento da Globo: se quando ela era poderosa e elegia gente como Fernando Collor, ou se agora, decadente, quando nem emplacar gente como José Serra consegue mais.


* * *

Desafio o Jornal Nacional a fazer com a Globo Overseas reportagem como a que fez sobre o hotel onde José Dirceu vai trabalhar


O diretor geral de Jornalismo e Esportes da Rede Globo, Ali Kamel, diz que o jornalismo da emissora é independente, ponto, mas, acrescento eu, "dos fatos", só agora ponto.

Para mostrar essa independência, desafio o Jornal Nacional da Rede Globo a produzir reportagem semelhante à que exibiu na edição de ontem do telejornal sobre o hotel em que José Dirceu vai trabalhar. Só que o alvo da operação investigativa tem que ser a Globo Overseas.

Na reportagem de ontem, o JN chegou a enviar repórteres ao Panamá para investigar a quem pertence o Hotel Saint Peter, onde Dirceu vai ser gerente administrativo. Será pelos R$ 20 mil de salário dele? Ou porque a Globo não admite que se dê emprego a "mensaleiros"?

Mas, volto, eu, que tal mostrar a independência do jornalismo Global, fazendo uma grande reportagem sobre a Globo Overseas, aquela empresa que a Globo criou no exterior apenas para fraudar a Receita Federal, segundo processo em que foi condenada a pagar, à época, mais de R$ 600 milhões?

Que tal esclarecer aos brasileiros por que a empresa foi criada? Por que a Receita a autuou e a Justiça reconheceu a dívida milionária - hoje, com a correção, provavelmente bilionária?

Por que o processo foi surrupiado da sede da Receita, quem o surrupiou, com que intuito e a mando de quem?

Taí o desafio.

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O baile que os jornalistas levaram de Lobão no Roda Viva

Analfabeto político e olavete

Não contribuí para o traço do Roda Viva com Lobão, mas como Kiko Nogueira postou o vídeo em seu artigo sobre o programa acabei vendo.

O que mais me incomodou no programa foram os jornalistas, para ser franco. Eles acabaram sendo dominados facilmente por Lobão, que é o chamado fanfarrão: fala, fala, fala.

Ele tem traquejo com o microfone, ao contrário dos jornalistas convidados.

Mas a falta de familiaridade com tevê não foi o maior defeito deles: foi a falta absoluta de combatividade. Num certo momento, todos estavam rindo das histórias de Lobão, como se estivessem num bar do Leblon.

Isso não é jornalismo.

Numa entrevista, aprendi logo em minha carreira, você não pode ficar aquiescendo com o rosto a cada resposta do entrevistado. Você o eleva e se rebaixa.

Ninguém, na mídia, fez entrevistas como a Playboy, e estou me referindo, naturalmente, à edição original, a americana de Hugh Heffner.

Uma entrevista com o então jovem Robert de Niro teve que ser interrompida porque, conforme depois explicaria no texto o entrevistador, de Niro diante de uma questão aguda pegou o gravador e atirou na parede.

Isso é jornalismo.

Houve tímidas tentativas de jornalismo de dois entrevistadores de Lobão: Julia Dualib, do Estadão, e Alex Solnik, da Retratos do Brasil.

Mas não houve continuidade.

A melhor pergunta foi de Julia. Agora que se tornou um repetidor tagarela do arquidireitista Olavo de Carvalho, que Lobão tem a dizer de coisas como o aborto?

Ele enrolou, não respondeu – e não foi cobrado por Julia ou qualquer outro dos entrevistadores.

Defender o aborto poderia fazer Lobão, hoje uma olavete, cair no desagrado de seu mentor. Criticar seria mostrar que ele vive num planeta paralelo.

Algumas oportunidades boas de enriquecer a conversa foram deixadas de lado. Se é verdade que Lobão foi banido da Globo por ordens do próprio Roberto Marinho por ter defendido Lula em 1989, como ele disse, isso tinha que ser debatido calmamente.

Lobão fez ali uma denúncia involuntária, mas ninguém percebeu, entre os risos cúmplices pela graça com que a história foi contada.

O despreparo ficou claro em outras passagens: Lobão fez a apologia do livre mercado.

Ele faz ideia de que não vigora o livre mercado na mídia que o louva tanto depois que ele virou de direita?

Vigora na mídia – e isso é indecente – uma reserva de mercado que veda aos entrangeiros entrar no Brasil. Eles podem ter apenas 30% das ações.

Seria bom ver o que Lobão pensa disso, mas para tanto os jornalistas teriam que perguntar (e saber também).

Augusto Nunes fez sua parte, também. Perguntou, do nada, o que Lobão pensa de Dilma.

Todos sabemos o que ele pensa de Dilma. Ou o que ele pensa hoje, porque é um sujeito que muda de opinião com frequência.

Também sabemos o que Lobão pensa de Chico, e ele mais uma vez repetiu extensamente suas opiniões contra Chico.

Lobão criticar Chico equivale a Olavo de Carvalho criticar Platão, tamanha a diferença da obra, da estatura e da importância histórica.

Gosto de algumas músicas de Lobão, mas toda a sua obra é menor que uma só canção de Chico, e isto é simplesmente indiscutível. Roda Viva, para citar uma música apropriada ao tema de que tratamos aqui.

Lobão é o chamado analfabeto político: fala coisas sem sentido que ouviu de terceiros. Disse que Jango fugiu: que ele queria, que Jango promovesse uma guerra civil na qual milhares de brasileiros morreriam?

Justifica a ditadura militar sob a “ameaça” do golpe comunista. Ora, os Estados Unidos cansaram que derrubar governos populares apenas para preservar seus interesses, e sempre usando aquela falácia.

O primeiro da lista foi Jacobo Arbens, da Guatemala, em 1954. Arbens cometeu o pecado de desapropriar parte das plantações de banana de uma empresa americana para promover uma reforma agrária. A partir dali, o mundo conheceria a Guatemala, e a todos nós latino-americanos, como Repúblicas das Bananas.

Lobão repete, com graça, o bestialógico de Olavo de Carvalho, até na parte em que vê um Obama socialista, aspas e pausa para rir.

Mas duro mesmo foi ver o comportamento dos jornalistas. Não falo do moderador, que deixou de ser jornalista há décadas, mas da bancada dominada por Lobão como se fosse um rebanho de fãs.

Paulo Nogueira
No DCM
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A trama para executar Genoino

Há uma barganha indecente por trás da farsa dos atestados médicos sobre a saúde de José Genoino

Hanna Arendt gostava de lembrar que os nazistas repetiam que em nossos tempos “o mal exerce uma atração mórbida.”

Cronistas das torturas e execuções públicas do século XVIII sublinhavam o comportamento feliz da população habituada com aqueles espetáculos de sangue, dor e violência. Da mesma forma que os fanáticos de hoje, o pessoal mais agressivo perseguia e agredia aqueles que manifestavam qualquer tipo de solidariedade com as vítimas do carrasco.

É este tipo de espetáculo que a mesa da Câmara de Deputados quer promover para cassar o mandato de José Genoino.

Acovardados pelo caráter resoluto dos protestos de junho, nossos parlamentares estão convencidos de que têm o direito de tomar qualquer medida, mesmo que destituída de todo valor moral e político, que ajude a engordar seu Ibope. Esse sentimento cuja base é o medo, e apenas ele, de serem enxotados pelas urnas em 2014, ganhou corpo ainda maior depois que Natan Donadon conseguiu conservar seu mandato, embora tenha sido condenado a 13 anos de prisão. Deveriam ser criticados pelo oportunismo sem limites, pela falta completa de escrúpulos – mas contam com elogios moderados caso possam dizer que ouviram o “clamor das ruas”, o “ronco da multidão” e qualquer outro barulho dessa natureza.

Querendo recuperar um pouquinho de seu prestígio, eles ensaiam uma manobra de julgam muito astuciosa: entregar a cabeça de Genoino com forma de compensação.

Veja que grande negócio: trocar a impunidade de um parlamentar cuja existência eu e você só tomamos conhecimentos no dia em que preservou o mandato por um cidadão com 30 anos de luta no Congresso e 50 de luta política, um devoto de suas ideias e convicções, que lhe renderam um sobrado no Butantã, em São Paulo, comprado num empréstimo da Caixa Econômica, longas noites de tortura nos tempos do regime militar e uma malária adquirida no período em que, de armas na mão, enfrentava uma ditadura de botas, tanques e fuzis.

Pois é isso, meus amigos. Essa barganha indecente é que está por trás da farsa dos atestados médicos da semana passada.

Não vou julgar nem pré-julgar nem pós-julgar a culpa de Donadon.

Mas conheço as denúncias contra Genoino na ação 470 e reparei que elas foram caindo, dia após dia. A principal, aquela de que assinou empréstimos fraudulentos para o PT, foi inteiramente desmentida por um inquérito da Polícia Federal.

Os doutores da Câmara fizeram seu trabalho, sim. Examinaram Genoino e concluíram que é um caso gravíssimo. Deram-lhe 90 dias de licença, acompanhados de um pedido de novo exame dentro de três meses. Numa entrevista coletiva, os médicos deixaram claro que a situação de Genoino está longe de resolvida e que qualquer “ atividade laboral” pode ter sequelas capazes de produzir novos problemas de saúde – e uma nova cirurgia.

Também escreveram um laudo detalhado sobre sua condição. Numa atitude que merece elogios, eles se recusaram a colocar a medicina a serviço de interesses políticos, atitude que tantas tragédias produziu no passado, de Tancredo Neves a Rubens Paiva, para ficar em dois exemplos extremos e vergonhosos.

Mas a operação para conduzir o deputado ao cadafalso foi mais forte. Se em outros tempos os jornais divulgavam notícias falsas sobre fuga de presos políticos, que logo seriam executados pelo aparato de repressão, no cadafalso de nosso tempo é possível divulgar laudos que ninguém estranhou, nem conferiu, nem foi atrás para saber direito. Mas a mentira, a falsidade, já estava lá.

Assegurou-se que estava tudo bem com Genoino, que não havia motivo para que fosse atendido o pedido de aposentadoria por invalidez – que entregou ao Congresso em setembro.

Quando a verdade veio à luz, com a divulgação do laudo completo, a manobra já fora realizada, a operação para cortar o pescoço de Genoino já estava em curso e, é claro, os cãezinhos de Pavlov já davam sinais de saliva na boca.

A luta de Genoino não terminou e, pelo que se conhece dele, não irá terminar nunca. Mas ficou mais difícil.

O laudo incompleto procura colocar uma questão de caráter no pedido de Genoino. É uma forma de diminuir sua dignidade, de transformar seu combate para escrever um capitulo doloroso de sua existência num lance de astúcia, esperteza, malandragem. Justo eles, os astutos, espertos, malandros.

Preste atenção: Genoino não está lutando para manter o mandato. Não quer convencer os colegas de Congresso se é culpado ou inocente. Este é seu combate na Justiça. No Congresso, ele quer exercer outro direito, o de se aposentar com dignidade. E até isso é um problema.

Para cometer uma brutalidade desse tamanho, é preciso desumanizar Genoino. Ao negar a condição humana, ao rejeitar um benefício que a lei faculta a uma pessoa em sua condição, fica mais aceitável a aceitação de uma injustiça e mesmo de um crime. É por isso, e só por isso, que querem cortar sua cabeça aos olhos da multidão.

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Petrobras: Esclarecimentos sobre a produção no pré-sal


Esclarecimento da Petrobras sobre a produção no pré-sal:

“A Petrobras esclarece que a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) adota um conceito de produção no pré-sal diferente do adotado pela companhia. A Petrobras considera como pré-sal reservatórios carbonáticos microbiais localizados abaixo da camada de sal. A agência, por sua vez, também inclui poços que produzem petróleo em formações geológicas conhecidas como coquinas, localizadas, principalmente, nos campos antigos da Bacia de Campos. Entre os seis poços que produzem a partir de formações de coquinas, três estão localizados no campo de Linguado, um em Trilha e dois em Pampo, todos na Bacia de Campos, com uma produção total baixa, de cerca de 1,2 mil barris por dia (bpd).

Dessa forma, segundo o conceito da ANP, 25 poços produziram no pré-sal em setembro e 27 poços em outubro. Esse aumento na quantidade de poços deveu-se à entrada em operação, no dia 26 de outubro, do Sistema de Produção Antecipada (SPA) ligado ao poço LL-07. Esse poço contribuiu com a produção mensal por apenas quatro dias durante o mês de outubro. Além disso, a Petrobras executou um teste de formação no poço ANP-01, na área de Franco, com apenas 72 horas de duração. Com isso, houve, efetivamente, apenas o aumento de produção do LL-07 e por pouco tempo, já que o o poço de Franco foi fechado após a realização do referido teste.

A Petrobras informa, também, que houve, de fato, uma redução na produção total do pré-sal, devido a problemas operacionais num compressor do FPSO Cidade de Angra dos Reis, no campo de Lula, na Bacia de Santos.

A companhia ressalta que no mês de novembro esse problema foi normalizado, com o registro, no dia 22, de novo recorde de produção diária no pré-sal, de 362,3 mil barris por dia (bpd).

Ainda em novembro foi batido novo recorde de produção mensal no pré-sal, com 339 mil bpd, graças à contribuição do LL-07 durante todo o mês de novembro e à entrada em operação do SPA conectado ao poço RJS-678 ligado ao FPSO-Cidade de São Vicente.

Para o recorde de 362,3 mil bpd, obtido com apenas 21 poços produtores, o pré-sal da Bacia de Santos contribuiu com 185,4 mil bpd, produzidos por oito poços, o que corresponde a uma média de 23,2 mil bpd por poço. Desses oito, dois poços, conectados a SPAs, estão com produção restrita devido à limitação da queima de gás. Por sua vez, o pré-sal da Bacia de Campos contribuiu com 176,9 mil bpd por meio de 13 poços, o que corresponde a uma média de 13,6 mil bpd.”

No Fatos e Dados
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Um dia na vida do BIM, o Brasileiro Indignado com a Mídia


São milhares. Dezenas de milhares. Milhões. E não param de se multiplicar.

São os BIMs, os brasileiros indignados com a mídia.

Agora mesmo: meia tonelada de cocaína é encontrada num helicóptero de um amigo de Aécio.

O BIM passou o fim de semana mal. Olhou nas bancas para ver a capa da Veja. Fitness. Nem uma só menção, na capa, ao caso, como se meia tonelada de cocaína, e no helicóptero de um senador que presidiu o Cruzeiro, fosse meia tonelada de chocolate belga no trenó do Papai Noel.

Mas meu propósito aqui é descrever um dia na vida do BIM.

Ele acorda e dá uma olhada no Reinaldo Azevedo. Sente raiva com o que lê. Mais uma vez, se gabando de ter criado “petralha”, como se tivesse feito a Comédia Humana do Balzac.

Depois passa para o Constantino. Mais um momento de raiva. Ele conseguiu falar do Lobão no Roda Vida e colocar uma foto no texto em que o Lobão segura o livro dele, Constantino. “Trapaceiro”, pensa.

Passa os olhos por um novo blogueiro, um cara que compilou frases de Olavo Carvalho num livro. “É o reaça-engraçado”, pensa. “Se é para publicar coisas de extrema direita, poderiam dar frases do Mein Kampf direto.”
Tempo de trabalhar.
No carro, BIM põe na CBN. Ouve Merval, Sardenberg e Jabor. Xinga alto no carro, num desabafo instintivo e gutural. Merval fala sobre o lulopetismo. Sardenberg anuncia o colapso econômico. Jabor diz que se avizinha a ditadura bolivariana.

BIM lamenta não ter um Frontal à mão.

No escritório, num momento mais tranquilo, vai no site da Folha. Quer saber o que Magnoli escreveu. Defendeu a prisão de Genoino.

BIM pensa em Miruna, e se pudesse daria uma bofetada em Magnoli. “Lacaio”, pensa. Depois vai para Eliane Cantanhede. Mais uma paulada nos “mensaleiros” e mais um elogio a Joaquim Barbosa. Passa os olhos por Pondé. A Revolução Francesa não existiu, lê nele.

BIM vai para o Estadão, já que ainda tem alguns minutos antes da labuta. E então lê Dora Kramer. Joaquim Barbosa é beatificado por ela. Passa pelos editoriais, e lê um que crucifica Dirceu pelo emprego num hotel.

Só não repete o grito de raiva do carro porque está no escritório. O Estadão não falou nada sobre a sonegação de 1 bilhão da Globo, e faz uma cobertura ridícula da meia tonelada de cocaína, e mesmo assim transforma o emprego de Dirceu num caso nacional.

De volta para casa, BIM mais uma vez ouve a CBN. “Só tem reaça”, se irrita. Ouve a repetição do comentário de Jabor, e quase bate por perder momentaneamente a concentração.

Chega em casa e dá uma passada pelo Jornal Nacional, para ver a que abismo Ali Kamel pôde chegar. Kamel pode muito, lembra BIM: inventou o atentado da bolinha de papel na campanha de Serra. O caso do helicóptero, como para a Veja, é tratado como se fosse uma trivialidade.

“Como seria se em vez do filho do Perrella fosse o filho do Dirceu?”, reflete. Em sua cabeça ele vê as habituais parcerias entre a Veja e o Jornal Nacional em casos do PT. A Veja dá um dossiê no sábado e, naquela noite mesmo, o Jornal Nacional repercute com estridência.

“Depois os livros de Kamel recebem louvores da Veja”, pensa BIM. “Tutti amicci.”

Do Jornal Nacional BIM vai para a Globonews. Encontra lá Marco Antônio Villa falando de seu novo livro, que trata da década perdida sob o PT.

“Uma besta”, pensa BIM. “Não acerta uma, mas mesmo assim está em todas.” BIM lembra de um vídeo em que Villa dizia que Lula seria o grande perdedor na eleição vencida afinal por Haddad.

No começo das manifestações de junho, escreveu que os protestos não significavam “nada”.

Da Globonews, BIM passou para o Jô e suas garotas. Enio Mainardi era o entrevistado. Se perguntou quem era pior, pai ou filho, Enio ou Diogo.”Imbecil Pai, Imbecil Jr: eles deveriam ter estes dois nomes”, pensou.

Tinha lido que a Globofilmes enfia entrevistados no programa do Jô, astros de algum novo filme. E no final a Globo cobra deles a tabela comercial cheia.

“Não é à toa que os Marinhos são os homens mais ricos do Brasil”, ocorre a BIM.

Terminado o programa, BIM está cansado e indignado. Caramba: perdeu William Waack no Jornal da Noite. Que terá falado Waack? Só não vai conferir no site da Globo por exaustão. Mas amanhã checa.

Gasta, na sessão de análise do dia seguinte, boa parte do tempo para colocar para fora sua indignação.

O terapeuta ouve pacientemente e, no final, diz apenas: “Mas por que você simplesmente não para de dar audiência para aquela gente toda?”

Paulo Nogueira
No DCM
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