10 de nov de 2013

O que Kassab poderia aprender com o prefeito de Toronto

Rob Ford

E se Kassab admitisse publicamente que sabia da roubalheira em sua gestão? O que aconteceria?

Em Toronto, o prefeito Rob Ford convocou uma coletiva de imprensa para contar que cometeu um crime: fumou crack. Foi sua resposta para meses de pressão e especulação, em que se falava de um vídeo dele com traficantes dando suas cachimbadas.

Ford pegou de surpresa toda sua equipe, que vinha negando a história veementemente. Mas o resultado, segundo alguns especialistas, está longe de ser ruim.

Seu mea culpa foi chamado de “brilhante” pelo ex-porta-voz do primeiro ministro do Canadá Pierre Trudeau, Patrick Gossage. Gossage acha que o movimento de Ford vai agradar os eleitores de Toronto nas eleições de 2014.

Já deu certo antes. Ralph Klein, prefeito de Alberta, também no Canadá, falou abertamente de seu alcoolismo e se comprometeu a parar de beber depois de ser visto tropeçando, bêbado, num sem-teto e dando-lhe uma bronca.

Em Washington, Marion Barry foi flagrado pela polícia fumando crack em 1990. Pegou seis meses de prisão. Em 1995, foi reeleito para um novo mandato com 47 por cento dos votos. O slogan da reeleição de Barry era: “Eu não sou perfeito, mas sou perfeito para DC”, diz Gossage. “Eu acho que Ford devia roubá-lo.”

Durante a coletiva, Rob Ford disse que se sentiu como se tivesse tirado um peso enorme de seus ombros e que “o passado é o passado e temos de seguir em frente.”

Levou tempo. Os rumores sobre seu uso de drogas e o vídeo barra pesada começaram em janeiro. Em maio, Ford declarou, na presença de repórteres, que não era viciado. “Nunca vi isso na minha vida”, afirmou.

Um mês depois, a declaração virou outra: “Eu não uso drogas, eu bebo”. Mais tarde, ele disse que fumou “um monte de maconha no passado” e que estava “ligado” em dois eventos públicos. Até a confissão completa.

Agora: e se Kassab admitisse que sabia do esquema dos fiscais? Ele seria o primeiro político da história do Brasil a dizer que participou de um assalto aos cofres públicos. Depois, sua confissão poderia ter um efeito parecido com a de seu colega de Toronto: angariar simpatia pela coragem do ato.

A outra opção é Kassab dizer que tudo é culpa de Rob Ford. Vai que cola.

Kiko Nogueira
No DCM
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Maconha e álcool: portas de entrada ou saída?

Ilustração de Pat Perry

É verdade que já alimentei fortes preconceitos com relação ao assunto drogas e não tenho vergonha disso. Como tantos da minha geração, eu também sofri o bombardeio da mídia e da família sobre o assunto e, mais do que culpado, sinto-me como mais uma vítima do preconceito e desinformação. Assim, como tudo era “verdade”, não tínhamos a oportunidade de pensar, refletir, dialogar e formar uma convicção própria.

Anos mais tarde, no início da carreira de Juiz de Direito, quando ainda era vigente a Lei nº 6368/76, que previa pena de detenção para o crime de “uso próprio”, ainda cheguei a condenar alguns usuários por porte de maconha. Mesmo indignado, ainda não tinha forças intelectuais para fugir do “dura lex, sede lex” e terminava condenando usuários que não representavam perigo algum para a comunidade.

Com as primeiras decisões da Juíza Maria Lúcia Karam, no Rio de Janeiro, comecei a repensar tudo o que tinha como verdade em relação ao uso de drogas e questionar a aplicação de pena privativa de liberdade para usuários de drogas. Era o início de uma grande virada que culminou com a adesão à proposta de legalização de todas as drogas e filiação à Leap-Brasil – Law Enforcement Against Prohibition, traduzido por nós como "agentes da lei contra a proibição”.

Defender esta proposta não é mais um privilégio de poucos. No Brasil e no mundo, milhares de pessoas estão nesta luta e já se tem como fonte de experiência algumas tentativas oficiais de legalização e descriminalização das drogas. É o caso, por exemplo, da Holanda, Portugal, os estados de Washington e Colorado e, por fim, a tentativa de Uruguai de legalizar o uso e produção da maconha.

Pois bem, voltando ao meu preconceito inicial, outro dia comecei a me lembrar dos meus amigos de infância em Irecê, cidade do sertão da Bahia em que nasci e cresci, que usavam maconha ou que bebiam. A lembrança das pessoas me levaram a pensar no caminho que seguiram e no que estariam fazendo hoje. Muitos amigos e amigas me reapareceram na parede da memória, mas sei que muitos também não foram lembrados. Mistérios da mente humana.

Não vou citar o nome desses meus amigos por motivo óbvio. Da mesma forma, vou destacar apenas alguns casos emblemáticos que resultaram em mortes ou sequelas, mas sem esquecer que muitos, muitos mesmo, usavam álcool e maconha e seguiram nos estudos e profissão. É o começo da compreensão de que “usuário” é completamente diferente de “dependente”.

O caso mais emblemático de uso de maconha foi de TDZ. Ele tinha a mesma idade da turma e era irreverente e brigão. Eu mesmo tive a maior sorte de ser seu amigo e que ele gostasse de mim. Não sei como, TDZ passou a fumar maconha e tornou-se dependente. Nossos pais nos aconselhavam a fugir dele e esta reação dos amigos foi fundamental para agravar sua situação. TDZ deixou de estudar e não sei se ainda usa ou não. O certo, no entanto, é que ficou com graves sequelas causadas pelo uso abusivo de maconha.

Com relação ao álcool, o caso que me vem mais forte à mente é de AMD. Ele era pequeno, moreno, parecido com um índio e muito namorador. “Pegou” quase todas as meninas da cidade e era um craque de bola. Como todos nós, AMD experimentou álcool e, por razões que ainda não sei explicar, não conseguiu mais se livrar dele. Em consequência, depois de muito sofrimento da família, AMD morreu ainda jovem por motivo do uso abusivo do álcool. Todos nós sofremos muito com a morte dele.

Relembrando estes dois casos, vejo hoje como eram diferentes nossos sentimentos em relação ao TDZ e AMD. Do primeiro, tínhamos medo até da fumaça do baseado que fumava; do segundo, quando não provávamos de sua bebida, tínhamos pena de seu estado e lhe aconselhava a ir para casa e não beber mais.

Vou deixar de lado, sem esquecer, os que morreram em consequência do uso do tabaco (câncer de pulmão e outros males) e tantos que morreram em acidentes de carro ou de moto por estarem dirigindo (ou passageiros) embriagados de álcool.

O caso mais emblemático de todos e que hoje tenho a melhor compreensão, mesmo não sendo psicanalista, é de uma família amiga da nossa família e que alguns dos seus membros sofriam da doença do alcoolismo. O pai deles e o irmão mais velho, que não conheci, tinham morrido em decorrência da bebida. Outros irmãos se tornaram alcoolistas e morreram ainda jovens. Outro irmão, no entanto, ao invés da bebida, passou a fumar maconha e tornou-se um usuário problemático para a família, mas mesmo assim manteve a convivência social, militância política e hoje trabalha e tem uma vida normal. Não sei se lhe resultaram sequelas ou se ainda usa, mas enquanto seus irmãos dependentes de álcool estão mortos, ele continua vivo para nos contar sua experiência.

Evidente que não estou fazendo a apologia do uso de maconha, mas apenas apurando minha visão sobre o problema do uso abusivo de drogas, sejam lícitas ou ilícitas, e do preconceito que teimamos em manter com base nesta distinção aleatória e sem sentido algum. Assim, enquanto odiamos e defendemos a prisão de usuários e dependentes das drogas consideradas ilícitas, temos compaixão e ajudamos os dependentes das drogas lícitas. Por culpa de tudo o que nos foi dito até hoje, enxergamos a pessoa humana carente e dependente do álcool, mas só vemos o tráfico e a violência por trás da pessoa dependente de alguma droga ilícita. Na verdade, a virada que precisamos fazer é enxergar por trás de qualquer dependente, de qualquer tipo de droga, uma pessoa humana que precisa de cuidado e solidariedade.

Por fim, voltando ao caso da família amiga, só hoje posso ter a compreensão que usar maconha, para uma pessoa membro de uma família com vários alcoolistas, pode ter sido a “porta de saída” para MRM. Este caso, melhor pensado e estudado, pode jogar por terra este nosso preconceito antigo de que a maconha é a “porta de entrada” para outras drogas. Ao contrário, quando passamos a entender a dependência como uma relação entre o usuário e a substância, a maconha pode ser, em determinadas circunstâncias, a “porta de saída” para o alcoolismo e outras dependências muito mais danosas para a saúde.

Gerivaldo Neiva, Juiz de Direito (Ba), membro da Associação Juízes para a Democracia e Porta-Voz no Brasil do Law Enforcement Against Prohibition (Leap-Brasil)
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Os governos progressistas ainda não entenderam o que é a área de comunicação


O IG acaba de informar que na reunião que o ex-presidente Lula teve na sexta-feira com o prefeito Fernando Haddad a área de comunicação do governo municipal foi discutida e uma das decisões encaminhadas foi a de que a prefeitura de São Paulo faria uma campanha para explicar o aumento do IPTU. Pelo que entendi será uma campanha publicitária. Algo como tentar convencer aqueles que vão pagar mais de que isso é bom pra eles. Pode funcionar? Duvido. Mas o problema não é esse.

Os governos progressistas continuam operando suas comunicações como se vivêssemos, para ser caridoso, na década de 90. E a comunicação fosse ainda na base do one-to-many. Ou seja, num esquema broadcast e de um para muitos. Ou como se o cidadão atual estivesse sentado na frente de uma TV esperando para ser convencido de algo.

Fazer comunicação não é investir recursos em publicidade . Na primeira aula sobre a área para todo o gestor público essa deveria ser a frase de abertura. Ao contrário, o correto nos dias de hoje seria dividir essas áreas. Tanto a publicidade como a assessoria de imprensa deveriam ficar vinculadas diretamente ao gabinete do governante. E a comunicação deveria ser uma secretaria estratégica para ampliar a democracia num contexto de sociedade informacional.

Deveria caber à secretaria de Comunicação pensar, por exemplo, em como integrar todos os equipamentos públicos em redes de fibra ótica; como abrir ao máximo a conexão pela cidade; como transformar essa grande rede de rádios comunitárias num espaço para divulgação de artistas locais; como fazer com que os professores das escolas públicas venha a ter formação em educomunicação e possam ser multiplicadores de cidadania cultural; como implantar os Recursos Educacionais Abertos (REA) nas escolas; de que forma fazer uma web TV colaborativa municipal; como incentivar a produção de web docs que valorizem a história local; como adequar a legislação municipal ao novo momento tecnológico no setor; de que forma incentivar iniciativas que se realizam fora do mainstream.

Enfim, política de comunicação não é distribuir recursos em alguns veículos. E essa distribuição de recursos é absolutamente injusta, como sabemos. Hoje há veículos aos montes, principalmente na Internet, que deveriam receber uma quantidade muito maior de publicidade. Mas que continuam excluídos da lista dos beneficiados porque não são de grandes grupos. E também por absoluta decisão política. Mas não é a mudança de dinheiro dos grandes grupos para menores que vai resolver os problemas do ecossistema da comunicação no Brasil. Essa é apenas uma parte pequena da questão.

Os governos que se reivindicam progressistas precisam criar políticas para acabar com o balcão de negócios da área de comunicação. Precisam torná-la um setor antenado com as novas dinâmicas sociais e culturais e também sintonizado com uma nova esfera pública que já não lê jornais, assiste cada vez menos TV e desconfia cada vez mais das publicidades.

Essa visão equivocada na comunicação é o que tem levado o Brasil a andar mais devagar em uma série de outras áreas. E, infelizmente, pelo jeito isso ainda vai longe.

Renato Rovai
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Escravo é o povo que vive ao abandono


Quando, há muito anos, minha filha, então uma pré-adolescente, fez um comentário preconceituoso e cruel sobre uma pobre mulher que vivia em necessidades, próximo ao lugar onde morávamos, mandei-a buscar um dicionário.

Revoltada, foi, resmungando muito. Então, mandei que lesse em voz alta o significado de compaixão.

-Eu sei, é pena…

-Leia, minha filha…

E então ela leu que compaixão é algo como ser capaz de sentir o sofrimento alheio e ter o impulso de, mesmo não sendo o nosso, mitigá-lo.

Lembrei-me disso lendo a matéria “No agreste, pacientes agradecem médicos cubanos de joelhos“, hoje, um trabalho sensível do repórter Daniel Carvalho, no interior de Pernambuco.

Leia um trecho e, se puder, leia a matéria inteira.

“A demanda de médicos no interior do país é gigantesca e a cubana Teresa Rosales, 47, se surpreendeu com a recepção de seus pacientes em Brejo da Madre de Deus, no agreste pernambucano.

“Eles [pacientes] ficam de joelhos no chão, agradecendo a Deus. Dão beijos”, afirma a médica, que atendeu 231 pessoas neste primeiro mês de trabalho dos profissionais que vieram para o Brasil pelo programa Mais Médicos, do governo federal.

O posto de saúde em que Teresa trabalha fica no distrito de São Domingos, região pobre e castigada pela seca.

Durante os últimos quatro anos, o posto não tinha o básico: médicos. Até o final de setembro, quando Teresa chegou ao distrito, quem andava quilômetros de estrada de barro até chegar à unidade de saúde sempre voltava para casa sem atendimento.

A situação se repetia a algumas ruas de lá, no posto onde o marido de Teresa, Alberto Vicente, 43, começou a trabalhar em outubro.“Foi Deus quem mandou esse homem. Era uma dificuldade, chegou a fechar o posto por falta de médico”, disse a aposentada Isabel Rocha, 80, que agora controla o diabetes sob orientação médica.

Ao ler isso, pensei naquelas jovens de jaleco branco, vaiando os médicos cubanos no Aeroporto de Fortaleza, aos gritos de “escravos, escravos”…

Talvez, já a caminho dos 30, não sejam capazes de entender o que eu quis ensinar a uma mocinha de doze anos, mandando-a ler o dicionário…

Não, não há “torcida” política, partidária ou ideológica que possa fazer imaginar ser bom um ser humano, por qualquer razão, ajoelhar-se aos pés de outro ser humano.

Isso, sim, é viver na condição humilhante de escravo e na pior de suas escalas, quando nem mais o chicote é preciso para fazer alguém se ajoelhar.

Há outro látego vergastando estes nossos irmãos há séculos: o da pobreza, o do abandono, o da indiferença dos dirigentes e das elites deste país para com eles.

E essa indiferença veio à tona da maneira mais crua e chocante na reação ao “Mais Médicos”.

O “Mais Médicos” não vai, é certo, resolver todos os problemas da saúde no Brasil. Como um prato de comida não vai resolver os problemas da fome.

Mas é monstruoso, desumano, dá vontade de chorar ver que há gente que quer lhes negar isso, esse mínimo, gente incapaz de sentir a parca compaixão de cuidar de um semelhante em apuros.

Perdoem-me os médicos cubanos ou os outros estrangeiros, cuja maioria até sei que tem tal capacidade, mas eu não estou nem um pouco interessado em se vocês são capazes de um diagnóstico de alta complexidade.

Talvez um entre dez mil destes brasileiros totalmente desvalidos possa precisar de um. Outros 9.999, porém, vão morrer de diarréia, verminose, infecções, doenças parasitárias ou de pneumonia e não daqui a 50 anos por complicações de uma formação quadricúspide de valva aórtica, como foi detectado em outro filho tão amado quanto aquela.

Veio-me a cabeça o que me disse um bom amigo, médico, que trabalhava no Hospital São Sebastião, de doenças infecto-parasitárias, no início da epidemia da Aids: “Fernando, muitas vezes o que se pode fazer por essas pessoas é dar-lhe uma cama limpa e lhes dar alguma atenção para morrer”. Havia pouco, muito pouco a fazer, então, até que tivéssemos o arsenal bendito, hoje, para cuidá-las.

Não, não pode trazer qualquer alegria ver nossos irmãos ajoelhados porque houve alguém vindo de longe que não lhes foi indiferente, alguém que talvez não vá a congressos médicos ou que não se feche em sua condição de “culto e rico”, porque fez uma faculdade de Medicina, muitas vezes paga com o dinheiro deste mesmo povo.

Nem que, por falta de atendimento primário, tudo se agrave e lote as estruturas das cidades maiores, para onde os mais afortunados são levados, quando aquilo que poderia ter sido curado muito antes, com simplicidade, tenha uma gravidade muito maior.

As mocinhas de Fortaleza, ali tão perto de lugares de miséria, de pobreza extrema, não são obrigadas a serem médicas. Mas, se são, não estão desobrigadas de cuidar das pessoas. E o fato triste é que não houve senão uma mínima procura para postos de trabalho com remuneração digna (R$ 10 mil), suporte de casa e alimentação e um prazo razoável para viver outra vida: três anos.

Nem mesmo para a periferia das grandes metrópoles houve interessados. Nem mesmo os mais jovens.

Com todo o respeito e acatamento pelas boas razões de quem diz que saúde não é só médico, não há o que justifique isso por parte de boa parte de uma corporação profissional.

Exceto, infelizmente, a perda de um sentimento de utilidade social que essa profissão, mais do que muitas, deve conter.

Ou de alguém que, na primeira aula, lesse para os calouros o verbete compaixão num dicionário.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Brics: o mundo onde viverão seus netos não será o do Tio Sam


Se você pensa em um dia visitar Miami, mandar seu filho estudar nos Estados Unidos, ou acha que seus netos vão crescer em um mundo regido pelo Tio Sam, está na hora de rever seus conceitos

Salman Khurshid e Luiz Alberto Figueiredo: aumento do comércio Brasil-Índia de US$ 10 bilhões para US$ 15 bilhões até 2015

“A civilização é um movimento, e não uma condição. Uma viagem, e não o porto de destino.” A frase, do historiador inglês Arnold J. Toynbee, define como poucas o curso da história. Raramente percebemos a história, enquanto ela ainda está acontecendo, a cada segundo, à nossa volta. O mundo se transforma, profundamente, o tempo todo. Mas as maiores mudanças são as imperceptíveis. Aquelas que quase nunca aparecem na primeira página dos jornais, normalmente tomada por manchetes que interessam a seus donos, ou por chamadas de polícia ou futebol. Esse é o caso das notícias sobre os Brics.

Quem já ouviu Pink Floyd (Another Brick in the Wall) pode confundir o termo com brick, palavra inglesa que quer dizer tijolo. Se gostar de economia, vai lembrar que essa é uma sigla inventada em 2001 por um economista do grupo Goldman Sachs.

Mas poucas pessoas têm ideia de como o Bric vai mudar o mundo e sua própria vida nos próximos anos. Antes um termo econômico, o Brics, grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, está caminhando – aceleradamente, em termos históricos – para se transformar na aliança estratégica de alcance global que vai mudar a história no século 21.

O que juntou esses países? Para Jim O’Neill, criador do vocábulo, foi seu potencial econômico e de crescimento. Mas, para esses países, o que os aproxima é seu desejo de mudar o planeta. Dominados ou combatidos pelos Estados Unidos e pela Europa, no passado, eles pretendem desafiar a hegemonia anglo-saxônica e “ocidental”, e mostrar que outro mundo é possível, na diplomacia, na ciência, na economia, na política e na questão militar.

Três deles, Rússia, Índia e China, já são potências atômicas e espaciais. O Brasil e a África do Sul, embora não o sejam, têm indiscutível influência em suas respectivas regiões, e trabalham com a mesma filosofia. A construção de uma nova ordem mundial, mais digna e multipolar, em que haja menor desigualdade entre os países mais ricos e os que estão em desenvolvimento.

A união faz a força. O Brics sabe disso, e seus concorrentes, também. Por isso, os meios de comunicação “ocidentais” e seus servidores locais movem forte campanha contra o grupo, ressaltando pontos negativos e ocultando e desencorajando as perspectivas de unidade.

Mesmo assim, eles estão cada vez mais próximos. A cada ano, seus presidentes se reúnem. Na ONU, votam sempre juntos contra ataques ocidentais a países do Terceiro Mundo, como aconteceu no caso da Síria, há poucas semanas. Controlam 25% do território, 40% da população, 25% do PIB e mais de 50% das reservas internacionais do mundo. China e Brasil são, respectivamente, o primeiro e o terceiro maiores credores dos Estados Unidos.

Por crescerem mais que a Europa e os Estados Unidos, e terem mais reservas internacionais, os Brics querem maior poder no Banco Mundial e no FMI. Como isso lhes tem sido negado, estão criando, no próximo ano, o próprio banco, com capital inicial de US$ 100 bilhões.

No final de outubro, o Brasil – que já compra helicópteros militares russos, tem um programa conjunto de satélites de monitoramento com a China, vende aviões radares para a Índia e desenvolve mísseis com a Denel Sul-africana – foi convidado a juntar-se a russos e indianos no desenvolvimento e fabricação de um dos aviões mais avançados do mundo, o Sukhoi T-50, caça-bombardeiro invisível a radares, capaz de monitorar e atingir alvos múltiplos, no ar e em terra, a 400 quilômetros de distância.

Também em outubro, Brasília recebeu a visita do chanceler indiano Salman Khurshid, que, em conjunto com o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, estabeleceu como meta aumentar o comércio Brasil-Índia em 50%, de US$ 10 bilhões para US$ 15 ­bilhões, até 2015.

Na área de internet, Rússia e Índia já declararam apoio ao novo marco regulatório defendido pelo Brasil para a rede mundial. E planeja-se o Brics Cable, um cabo óptico submarino de 34 mil quilômetros que, sem passar pelos Estados Unidos ou pela Europa, ligará o Brasil à África do Sul, Índia, China e Rússia, em Vladivostok. No comércio, na cooperação para a ciê­ncia e o ensino, na transferência de tecnologia para fins pacíficos não existem limites para os Brics.

Se você pensa um dia em visitar Miami, mandar seu filho estudar nos Estados Unidos, ou acha que seus netos vão crescer em um mundo regido pelo Tio Sam, está na hora de rever seus conceitos.

Há grande chance de que a segunda língua deles seja o mandarim. De que viajem, a passeio, para Xangai, e não para a Flórida. De que usem uma moeda Brics, e não dólar. E vivam em uma era em que não existirá mais uma única grande potência, mas seis ou sete, entre elas o Brasil. Em um mundo em que a competição geopolítica se dará, principalmente, entre os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e os que comporão outro organismo internacional, liderado pelo Brics.
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Pacote do governo FHC, novembro de 1997. Até no dinheiro dos velhos com mais de 70 e deficientes físicos eles mexeram

Capas da Veja - Antes e depois do Pacote de nov/1997

Para quem gosta de fazer comparações entre os governos tucanos e os governos populares Lula-Dilma, nada como recordar, por exemplo, a situação que o Brasil viveu em novembro de 1997, bem ilustrada por essas duas capas da Veja daquela mês reproduzidas acima.

Na edição que comentava o cruel pacote baixado pelo governo FHC, para atender exigências do FMI e do mercado global, a Veja publicou a reportagem reproduzida abaixo, que resumo a seguir, inclusive com a ilustração:
São 51 medidas de natureza fiscal, com corte de despesas e investimentos públicos, demissão de servidores e aumento de impostos e tarifas.

(...) O pacote não foi a primeira nem a última intervenção do governo nos últimos dias contra a crise financeira. Ponto central da atuação de Brasília para esfriar o nervosismo, o pacote foi costurado num fim de semana, e essa confecção às pressas aparece em várias passagens infelizes que incorporou. Tanto tem furos que a cada dia o governo faz uma nova correção. A última é a edição de uma medida provisória com 75 artigos que visa aliviar um pouco o item do pacote que aumenta o imposto de renda das pessoas.

(...) No dia 29 de outubro, um dia antes do aumento dos juros, a equipe econômica falou, pela primeira vez, num pacote fiscal. Pensava cortar 10 bilhões de reais. Seis dias depois, como os juros não acalmaram o mercado, o corte pulou para 12 bilhões. No dia seguinte, 16 bilhões. Quando a bolsa afundou na sexta-feira, 7 de novembro, os técnicos partiram para o pacote de 20 bilhões.

(...) Diante da televisão, os técnicos do governo avisaram pura e simplesmente que o governo estava aumentando em 10% o IR na fonte e limitando as deduções com educação, previdência privada e saúde, entre outras, a 20% da renda. Dizendo assim, deram a impressão de que os contribuintes pagariam apenas uns reais a mais. Nada disso. Nos casos mais graves, haveria gente pagando até treze vezes mais imposto do que agora.

(...) No pacote, aumenta-se também o imposto sobre produto industrializado, cortam-se 2 bilhões nos investimentos das estatais, em especial Petrobrás e Telebrás, e adia-se, mais uma vez, o reajuste salarial do funcionalismo [do BdoM: sem aumento desde o início do governo FHC].

[Agora, um detalhe cruel, perverso, que mostra a frieza da equipe econômica e do governo FHC: Medida] que altera um programa social que paga um salário mínimo para velhos com mais de 70 anos e deficientes físicos. Hoje, os inscritos recebem o benefício em 45 dias. Agora, só o terão em noventa dias.

Dobrar o prazo para recebimento de um salário mínimo para velhos com mais de 70 anos e deficientes físicos é de uma crueldade indesculpável. Mas, é o modo tucano de governar. E eles ainda querem voltar... Fiquemos atentos.

Íntegra da reportagem, a seguir. 



No Blog do Mello
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Sem noção...

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Rede e PSB divergem sobre apoio a Alckmin em SP

Seção paulista do partido já recebeu sinal verde para fechar com o governador. Grupo de Marina quer Erundina como candidata

Eduardo Campos e Márcio França: dividindo palanque com Alckmin em SP

Na montagem dos palanques estaduais para a sustentação da candidatura de Eduardo Campos (PSB) à presidência, o principal ponto de discórdia entre a Rede e o partido que hoje abriga a maior parte de seus militantes reside em São Paulo. Enquanto a seção paulista, comandada pelo deputado federal Márcio França – que pretende ser vice na chapa de Alckmin – já recebeu sinal verde da direção nacional para fechar a aliança com o tucano, os apoiadores de Marina Silva batalham por uma candidatura própria.

De acordo com matéria de hoje (10) do jornal O Estado de S.Paulo, a Rede defende o lançamento de uma chapa que tenha Luiza Erundina como candidata ao governo do estado, com o ex-tucano Walter Feldman como vice. “Acredito que até os jovens do Movimento Passe Livre votariam nessa chapa”, declarou ao jornal o coordenador estadual da Rede em São Paulo, Célio Turino.

Caso prevaleça a posição de França, ex-secretário de Turismo do atual governador, o grupo de Marina deve fazer uma campanha independente, pedindo votos apenas para seus candidatos a deputado no estado. “A Rede não vai apoiar Alckmin”, disse Pedro Ivo, organizador da Comissão Nacional Provisória da Rede ao Portal IG. De acordo com ele, a decisão de não subir no palanque do tucano já foi comunicada formalmente ao PSB desde o início das negociações de uma possível aliança. “Não é motivo para discórdia, não”, acredita.

No dia 5 de novembro, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) deferiu liminar da Procuradoria Regional Eleitoral no Estado de São Paulo (PRE-SP) suspendendo inserções do PSB por veicular promoção pessoal a favor de Geraldo Alckmin. Os vídeos vetados pela Justiça Eleitoral exibem entrevistas com pessoas nas ruas de São Paulo que enaltecem a “seriedade” do atual governador, servindo como gancho para que o deputado Márcio França, no final, declare: “O PSB só faz parte de governo sério. É por isso que, em São Paulo, nós estamos no governo Geraldo Alckmin”.

No Fórum
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Presença de Armínio

Armínio Fraga e Pedro Malan

Leio no blog do Kennedy Alencar, que Arminio Fraga é o ministro da Fazenda dos sonhos de Aécio Neves. Eles já conversaram a respeito e acertaram tudo. Segundo Aécio, “uma indicação antecipada de um ministro da Fazenda com esse perfil ajudaria a campanha tucana a atrair simpatia de investidores internacionais e de boa parte do empresariado brasileiro, sobretudo do grande capital financeiro.”

Pois bem, então eu lembrei dos “bons tempos” e fui pesquisar os jornais de 1999, mais especificamente, de março daquele ano, quando Fraga assumiu a presidência do Banco Central.

Sua primeira medida foi aumentar os juros de 25% para 45%. Foi talvez a maior paulada nos juros que já se deu, em qualquer civilização, nos últimos cinco mil anos.

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A grande imprensa comemorou. Em editorial, o Globo afirmou que “as medidas anunciadas pelo novo presidente do Banco Central, Arminio Fraga, vão na direção certa”.

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Fraga falou à imprensa que, para o futuro, a tendência dos juros era cair. Ah, bom.

O que ninguém falou é que a medida de Fraga significava dezenas, quiçá centenas de bilhões de dólares, na conta dos grandes credores nacionais e internacionais, ao longo dos meses seguintes. Dinheiro fácil, líquido e certo.

No mesmo dia, o Globo anunciava que os combustíveis iriam subir e que uma comissão da Câmara havia aprovado a nova CPMF (imposto criado para aplicação em saúde, mas que no governo FHC era usado para superávit primário). O acordo político entre governo e legislativo era quase cínico. O imposto não iria para a Saúde. Tanto que os jornais afirmava, sem pejo, que o FMI aguardava, com ansiedade, a aprovação do novo imposto. Ou seja, o FMI queria a CPMF, porque esse dinheiro ia para os credores internacionais.

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Não pára por aí. Aquela sexta-feira, 5 de março de 1999, prometia muitas emoções. O colunista político do Globo, Marcio Moreira Alves, um digno jornalista que havia crescido dentro do Globo durante os esforços do jornal para se redimir com a opinião pública no pós-ditadura, comentava sobre uma certa “indiscrição” do ministro da fazenda, Pedro Malan. Malan havia encomendado estudos para a venda do Banco do Brasil e da Caixa Econômica, o que provocou fortes contestações no Congresso. É aí que grande parte do PMDB, inclusive caciques conservadores, como Sarney e seus companheiros, rompem com os tucanos.

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A tentativa de privatização da Petrobrás, Banco do Brasil e Caixa produz a grande fenda na elite política que iria sorver o PSDB e abrir espaço para uma nova coalização governamental, uma aliança entre PT e a centro-direita, representada pelo PMDB, cujo nacionalismo repetindo surpreendeu a mídia.

Mesmo com inflação estourada, juros a 45%, governo articulando não apenas para prorrogar a CPMF, mas para aumentar a alíquota, estudos para venda das últimas grandes estatais brasileiras, ministérios anunciando grandes cortes de servidores, nenhuma obra de infra-estrutura em curso, a grande mídia tentava afastar o “baixo astral”.

Teresa Cruvinel, outra colunista estrategicamente posicionada para amansar os ânimos esquerdistas do pós-ditadura, abria sua coluna daquela fatídica sexta-feira com um título solar e feliz: Apesar do baixo astral.

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Os jornais simplesmente omitivam acintosamente informações sobre as consequências terríveis para as finanças públicas daquele “choque” nos juros. A dívida brasileira, já complicada, se tornaria quase impagável.

Em resumo, o governo FHC aumentava pesadamente a carga tributária e criava novos impostos, asfixiando a classe média, não para aprimorar os serviços públicos ou fazer obras de infra-estrutura, mas para transferir mais dinheiro aos credores internacionais. A grande imprensa, sócia nessa empreitada, tinha missão de enganar a sociedade, afirmando que o remédio era necessário, e que tudo ia bem, “apesar do baixo astral”.

Enquanto isso, a Polícia Federal continuava sendo sucateada, e não havia nenhuma investigação séria, por parte do governo, contra os grandes problemas de corrupção no país. Nem na imprensa. O escândalo da compra de votos para a reeleição já havia sido devidamente abafado, a mídia preparava o terreno para as últimas grandes privatizações, entre elas a da Vale do Rio Doce.

Quem falasse em “concessão”, à época, seria considerado socialista. O governo não queria conceder nada. O objetivo era alientar completamente o patrimônio público, o mais rápido possível, entregando-lhe nas mãos de empresários politicamente afinados com o Planalto.

Bons tempos! A Globo não era incomodada por nenhum blogueiro sujo e podia continuar ganhando seu dinheiro, tranquilamente, no mercado financeiro, enganando os trouxas da classe média a quem vendia o discurso do “Estado mínimo”. Ou seja, o governo aumentava a transferência de recursos do indivíduo para as grandes instituições controladoras do capital, Estado e bancos, através do aumento da carga tributária e juros, com auxílio luxuoso de uma imprensa sócia no butim. Não havia nenhum programas de “desoneração”, como faz Dilma.

Não havia nenhuma obra de infra-estrutura. Era só pau, pau, pau. E, no entanto, a classe média leitora do Globo, com ajuda de Marina Silva e Eduardo Campos, ainda acredita no “tripé econômico” e na maravilhosa gestão de Fernando Henrique.

No O Cafezinho
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Marina pode voltar atrás na ideia de ser vice de Eduardo Campos

Ser vice para quê? Essa é a pergunta que começa a ser feita cada vez mais por membros do Rede Sustentabilidade, de Marina Silva.

Um integrante do Rede revelou à Carta Maior que a ideia de ser ou não ser vice de Eduardo Campos não está “sacramentada”; vai ficar para 2014 e será submetida ao “coletivo”. Esse é o compromisso que Marina teria assumido diante da perplexidade e, aos poucos, da insatisfação que tem sido gerada entre seus seguidores na relação com o PSB nacional e nos estados.

Segundo esse integrante, que participou recentemente da reunião em São Paulo que juntou dirigentes do PSB e membros do Rede, ambos os partidos estão ainda se conhecendo melhor, e as arestas a serem desbastadas são muitas.

A ideia de Marina ser vice não teria sido um compromisso. Foi simplesmente isto: uma ideia. Tendo sido proposta pela própria Marina, ela não estaria impedida de tirar o time de campo. O único acordo definitivamente selado entre os dois é o de que o candidato é Eduardo Campos. Marina, em hipótese alguma, disputará a cabeça de chapa do PSB.

Mesmo que quisesse romper esse acordo, o Rede sabe que não teria como derrotar a indicação mais que previsível do PSB. Além do controle de Campos sobre os diretórios estaduais, Marina Silva tem adversários à esquerda e à direita, no PSB, como, respectivamente, Roberto Amaral (primeiro vice-presidente nacional da sigla) e Márcio França (deputado federal e presidente do Diretório Estadual de São Paulo).

A chance de uma reviravolta na vaga para a vice-presidência não é o desejo pessoal de Marina Silva, que, como diria Vicente Matheus, entrou na chuva para se queimar. Por enquanto, também não é um assunto sequer cogitado por Eduardo Campos. Mas cresce, entre integrantes do Rede, a convicção de que não vale a pena estar na chapa presidencial.

Os argumentos contrários a se compor a vice do PSB são fortes e, paulatinamente, se tornam mais convincentes.

Até 2014, os pontos centrais da decisão vão depender, primeiro, do quanto Eduardo Campos conseguir receber de transferência de intenções de voto antes endereçadas a Marina. Segundo, de essa transferência ser capaz não apenas de provocar segundo turno, mas de fazer Campos superar Aécio. Por enquanto, o cenário atual, confirmado por pesquisas sucessivas, indica vitória de Dilma em primeiro turno, com Aécio em segundo, bem atrás de Dilma, e Campos em terceiro, bem atrás de Aécio.

Claro que eleições são ganhas ou perdidas durante uma campanha, assim como corridas são ganhas nas pistas, a cada curva, e não no grid de largada. Mas a estratégia precisa estar definida pelo piloto antes de ligar os motores.

A preocupação maior de setores ligados a Marina é a de que ela já fez demais por Campos e precisa se preservar para 2018. Esta seria a grande aposta, com uma candidatura “puro sangue”, com o Rede já constituído enquanto partido. Hoje, sendo inquilinos no senhorio do PSB, a parte que lhes cabe nesse latifúndio é considerada cada vez mais estreita, incômoda e constrangedora.

Marina Silva adoraria mostrar que transfere votos para quem bem desejar, mas a tarefa não parece tão simples. De todo modo, sem precisar estar na vice, ela poderia perfeitamente continuar fazendo campanha ao lado de Campos e aparecer de forma ostensiva no programa eleitoral, como aconteceu recentemente. E daria outra prova de desprendimento, dizem.

Além do mais, fora da chapa, estaria livre inclusive para associar sua participação em um eventual governo a um acordo mais amplo com o PSB, o que não pôde ser feito na filiação decidida atabalhoadamente, da noite para o dia.

Pensando em 2018, fora da vice, o Rede estaria livre até para se desvencilhar completamente de um governo Eduardo Campos. Em sua experiência como governador, Campos não tem um único traço da tal “nova política”. É adepto incontestável do presidencialismo de coalizão, ou seja, de coalizões grandes o suficiente para garantir maioria legislativa, e de equipes governamentais multipartidárias, contemplando todas as siglas de sustentação parlamentar.

A tal “nova política”, de que Marina muito fala, mas pouco explica, foi melhor esclarecida pelo deputado Márcio França (PSB-SP). Ele patrocina o acordo do PSB com o PSDB pela reeleição do governador Geraldo Alckmin, inclusive com a possibilidade de ser o candidato a vice. Contrário à ideia de candidatura do marineiro Walter Feldman e mesmo da correligionária Luíza Erundina (PSB-SP), ele explicou a Feldman, há poucos dias, que o acordo com Alckmin já estava fechado antes do Rede aportar nas praias do PSB.

Sua irônica exegese da bula marinada da nova política foi a de que, como Marina disse que é pra governar com os melhores do PT e do PSDB, está mais que confortável em apoiar Alckmin, que ele, por conta e risco, considera “um dos melhores” do PSDB. A nova política, assim, corre o risco de virar uma lista dos bons e dos justos escondida na cachola de Marina Silva, enquanto outros têm suas próprias listas guardadas no bolso.

Os sonháticos começam a perceber que seu partido barriga de aluguel, o PSB, e a candidatura a vice de Eduardo Campos estão mais para pesadélicos do que psicodélicos.

Antonio Lassance
No Carta Maior
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Te cuida, Eduardo...

A presença de Marina Silva produz efeitos colaterais que ameaçam isolar o governador pernambucano no páreo da eleição presidencial

Ela descostura por excesso de zelo
Valter Campanato/ABr
Que tente tapar o sol com a peneira quem quiser tentar. Inútil. Não é possível mais esconder as trombadas entre Eduardo Campos e Marina Silva e as consequências derivadas desse choque.

A relação entre os dois é um modelo novo de coligação entre um partido existente, o PSB, e um partido inexistente, a Rede Sustentabilidade. Por isso, Marina não é apenas ornamentação. Tem vez e voz.

A melhor imagem para explicar a aliança é a maternidade. O PSB seria a “barriga de aluguel”, onde está em gestação a Rede. A “barriga” de Marina, puxando votos, representa o ventre onde cresce a candidatura de Eduardo Campos.

As pesquisas de opinião dão indícios de que ela tem condições de transferir para Eduardo Campos parte de votos prometidos, até então, a ela. É possível considerar, pela última pesquisa Ibope, que os 6 pontos de crescimento (de 4% para 10%) do pré-candidato do PSB resultaram da retirada do nome dela da disputa. É, porém, mais um caso de suposição do que de ciências exatas.

Há sinais mais fortes que a transferência de votos. A presença de Marina provoca efeitos colaterais desastrosos para Eduardo Campos. Pode, por exemplo, isolar a quase solitária candidatura do governador de Pernambuco à Presidência da República. Ele precisa de aliados, de recursos e de tempo na televisão. O PSB, sem alianças, dispõe de 1m40s do horário eleitoral.

Nesse “casamento” com Marina, inesperado, Campos é quem faz a costura política. Para dentro e para fora. Presidente do PSB, ele tem poder incontestável na agremiação.

Marina descostura com a prática do excesso de zelo. É a guardiã da pureza política inalcançável.  Ela já tem um boletim de ocorrências negativas grande para tão pouco tempo de atuação como parceira e virtual candidata à Vice-Presidência.

Desferiu o primeiro ataque contra Ronaldo Caiado (DEM), identificado como “inimigo histórico”. Recém-chegada ao PSB, ela não sabia que provocaria com a declaração o rompimento de uma aliança eleitoral que Campos costurava em Goiás. Mas não parou por aí. Bloqueou a aproximação do PSB com o PDT, partido que, na definição dela, conduz o Ministério do Trabalho “como um feudo”.

Na segunda-feira 4, criou atritos numa reunião, em São Paulo, para definir a estratégia política no maior colégio eleitoral do País. Ela defendeu a necessidade de ter um candidato próprio no estado. Tinha na bolsa o nome do deputado Walter Feldman.

Em São Paulo, o PSB trabalha, porém,  pela reeleição do tucano Alckmin. E assim será. Marina perdeu. Há, inegavelmente, nessa aliança uma contradição entre o que parece ser novo com o que parece ser velho.

Campos é um político clássico. Não pede a carteira de identidade ao filiado. Foi ao Piauí para consolidar o apoio do ex-senador Heráclito Fortes, ex-DEM e agora do PSB, um político com feitos negativos que dispensam apresentação.

Não é possível, porém, imaginá-la dando as boas-vindas a Heráclito com um sorriso constrangedor ou, muito menos, com um beijinho amigável nas descomunais bochechas dele. Pelo apoio de Heráclito, Marina nunca iria ao Piauí.

Maurício Dias
No CartaCapital
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Fascismo miúdo


Escasseiam aqueles que podem exibir o humor e a ironia de Antonio Prata

Na Bahia, manifestantes interromperam a participação de Demétrio Magnoli em um debate e impediram outro que seria protagonizado por Luiz Felipe Pondé. A escalada de intolerância, ofensas ad hominem e de desqualificações da opinião alheia segue o seu curso.

Escasseiam os que podem exibir o humor e a ironia de Antonio Prata. Em artigo publicado no caderno Cotidiano do jornal Folha de S.Paulo, na edição de domingo 3 de novembro, Prata assume a sua “conversão” ao reacionarismo que hoje, no “Brasil brasileiro”, empolga os que se julgam bem-nascidos e bem-pensantes. “Convertido”, Prata pede licença para desfilar a procissão de rancores que ronca nos Porsches e Ferraris em disparada pelas alamedas dos Jardins e adjacências, sem desprezar a colaboração dos remediados em carros de baixa octanagem.

Com requintes de ironia, Prata se infiltra no pelotão dos brancos, ricos, remediados, heterossexuais, machistas, e alerta para a invasão dos bárbaros: negros privilegiados com cotas, vivandeiras do Bolsa Família, homossexuais e feministas. À mercê dessa chusma, nada resta aos bons, bonitos e virtuosos senão responder com os bordões do menosprezo e da revolta.

Nesse ambiente, a intolerância atarraxa todas as máscaras e galopa a rédeas soltas. É ilusão encontrar personalidades por detrás das personas. Na passarela da intolerância, as personas imprimem suas faces inexpressivas nas personalidades congeladas. Não são personagens à procura de um autor, mas máscaras esvaziadas na busca desesperada por protagonismos e autorias.

O desespero é devastador: a multidão de personas dissolve-se na mesmice do narcisismo anônimo. Cintilam e se apagam com a velocidade das aparições no Facebook ou no Instagram. É a massificação da diferença. Daí a agressiva repulsa ao outro, no mundo exatamente como eles, apenas do lado contrário.

Foram exuberantes as manifestações de apoio e de repúdio à caricatura do conservadorismo desenhada por Antonio Prata. O traço de união entre as favoráveis e contrárias é a obstinada resistência ao humor e ironia, uma cabal demonstração dos estragos produzidos pelos trabalhos de massificação da chamada “indústria cultural”. A avaliação dos “bem-pensantes” a respeito de si mesmos não resiste a uma prova de interpretação de textos.

Na visão de Elisabeth Roudinesco, o sujeito moderno, aquele “consciente de sua liberdade, mas atormentado pelo sexo, pela morte, pela proibição”, é substituído pela concepção “psicológica de um indivíduo depressivo que foge de seu inconsciente, preocupado em retirar de si a essência de todo o conflito”.

Os trabalhos de destruição da subjetividade moderna são realizados por uma sociedade que precisa exaltar o sucesso econômico e abolir o conflito. Nesse ambiente competitivo, as vítimas das promessas irrealizadas de felicidade e segurança assestam seus ressentimentos contra os “inimigos” imaginários produtores do seu desencanto. É preciso caçar essa escumalha como ratazanas prenhes, diria Nelson Rodrigues, grande conservador crítico.

Essa curiosa “psicologização” da existência, diz Roudinesco, avassalou a sociedade e contribuiu para o avanço da despolitização, filha dileta do que Michel Foucault e Gilles Deleuze chamaram de “pequeno fascismo da vida cotidiana”, praticado e celebrado pelo indivíduo ressentido, ao mesmo tempo protagonista e vítima de um processo social que ele não compreende. O pequeno fascismo desliza sorrateiro para a alma de cada indivíduo, sem ser percebido, ainda que continue a simular a defesa dos sacrossantos princípios dos direitos do homem, do humanismo e da democracia.

No livro As Origens do Totalitarismo e da Democracia, Hannah Arendt definiu o ambiente hostil à cidadania e à liberdade dos modernos como o espaço do totalitarismo anárquico. “A política totalitária não substitui um corpo de leis por outro, não instaura um consensus iuris próprio, não cria, através de uma revolução, uma nova forma de legalidade... a peculiaridade do totalitarismo não é uma estrutura monolítica, senão a ausência de estrutura.”

As lideranças do “pequeno fascismo cotidiano”, diz Domenico Losurdo, propugnam explicitamente por uma ditadura invisível, mais potente do que qualquer outra, justamente porque o indivíduo “psicológico” recusa os sinais exteriores de reconhecimento dos direitos alheios consubstanciado no consensus iuris.

Luiz Gonzaga Belluzzo
No CartaCapital
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Perpetuum Jazzile

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Quem é o “líder” dos black blocs inventado pela Época


Tão logo a revista Época chegou às bancas, a reação dos administradores da página oficial do Black Bloc SP foi rápida:

“Uma pergunta simples: Quem diabos é Leonardo Morelli? Chega a ser cômico e até mesmo causar ânsia de vômito uma reportagem dessas. Qualquer ser evoluído que possua um polegar opositor e uma massa encefálica com capacidade mínima de raciocínio chegaria a conclusão de que é uma das mais profundas idiotices alguém se expor assim (…) Globo fazendo globisse.”

Na Black Bloc RJ, o mesmo tom mareado:

“Mais essa agora…Quando terminei de ler essa ‘reporcagem’, me deu um embrulho no estômago (…) Vamos lá, esse tal de Morelli dizendo que financia ‘O Black Bloc’ com esse dinheiro todo (…) Vão procurar saber mais sobre o Morelli, pesquisem sobre ele, verão como o cara é fanfarrão… E nem precisa ser adepto da tática pra saber que uma pessoa que está nas ruas lutando por direitos e melhorias, não daria entrevista para uma bosta de revista como a Época, né?”

E quem é Leonardo Morelli?

53 anos, aposentado, coordena a ONG Defensoria Social, criada em 2004 como resultado da Campanha da Fraternidade (CNBB) e que prega o modelo da Justiça Ativa no país. “Um colegiado de instituições que atua na defesa ATIVA da sociedade em prol da PAZ & SUSTENTABILIDADE, visando a prevenção à práticas empresariais que resultam em danos sociais, ambientais e à saúde pública de populações, culturas e biomas naturais ameaçados”, é o que consta em sua apresentação. Com efeito, o discurso ecológico-políticamente-correto colabora para a arrecadação de dinheiro, chegando a 100 mil euros só neste ano segundo relata o próprio Morelli. O que as as empresas, institutos e associações que praticam os repasses deveriam ter atentado era para a tal justiça ativa que se opõe à paz. A admissão pública de investimento dos recursos em treinamentos de ativistas mascarados certamente dificultará os aportes daqui pra frente. Pelo menos os oficiais.

O gesto de Morelli caiu como um coquetel molotov entre os Black Blocs. “Recebemos dinheiro? Então cadê o meu?” foi o comentário mais comum entre os adeptos da chamada tática.

“Estamos de olho no Morelli faz tempo. Está tentando assumir os Black Blocs não é de hoje. Mas agora a questão do dinheiro ficou feio. Abrimos mão de vida pessoal, ganhamos hematomas da PM e vem uma pessoa que se diz da ‘luta’, com uma merda de matéria dessa”, diz S. Fawkes.

M. Flag endossa: “Qualquer um que se manifesta em nome dos Black Blocs já está errado, não há porta vozes. O fato dele juntar e treinar táticas e se dizer financiador também está errado. E se a intenção dele era levar uma mídia fajuta, tá errado de novo!”

A busca pela liderança feita por Morelli é ponto sensível entre BBs. No dia 7 de setembro, empunhou um microfone e tentou protagonizar a festa. Ali, no vão do Masp, fez a convocação para o 15 novembro: “Vamos programar um dia de fúria. Será um dia de ataque a empresas. Vamos provocar danos materiais. Não será um dia pacífico. Alston e Siemens estão na mira. Perto do que roubaram no metrô, o que custa uma vidraça? É incitação à violência, sim”.

Desde então a data é aguardada com ansiosidade. E por que então Leonardo Morelli abriu as portas para um veículo da editora Globo há menos de duas semanas para o ato?

“Ele quer sabotar, distorcer e foder com os mais ativos da prática. Está cooptando meninos jovens que estão praticando BB nas ruas, oferecendo dinheiro. O que você acha de centenas de meninos na rua e ele jogar dinamites no colo deles? Esse cara tem as costas quentes, está convocando e se expondo desse jeito e não é intimado sequer? É traídor, é acusado de infiltrar e boicotar movimentos libertários desde os anos 80”, relata Libertine, ativista com atuações no Rio e em SP.

Libertine não está usando figura de linguagem. Ela se refere à apreensão das 119 bananas de dinamite ocorrida em Guarulhos no final do mês passado, que Morelli apressou-se em assumir como de propriedade do grupo Ação Direta, do qual se disse líder e porta-voz. Afirmou ser munição para o “Dia de Fúria”.

A fama de “traidor de movimentos” de que fala Libertine é confirmada pelo Coletivo Libertário, órgão de divulgação do anarquismo, que o classifica como “traíra” do Movimento Libertário Brasileiro nos anos 80 e 90, com suas práticas de arrecadação de fundos e de levar “convidados” desconhecidos dos demais membros.

Morelli
Morelli

Após a chegada de Época nas bancas e sob a enxurrada de protestos, Morelli apressou-se na explicação. “Excluindo-se os aspectos sensacionalistas da matéria (?), seu conteúdo é íntegro (?) e reflete exatamente as condições impostas por nós para que um jornalista de um grande veículo de mídia tivesse acesso ao que não permitimos a qualquer interessado com a intenção de desmistificar uma das acusações do governo e das elites de que escondemos a cara porque seríamos criminosos ou estaríamos associados a coisas ilegais. A matéria é assinada por Leonel Rocha, meu amigo pessoal há mais de 10 anos e cujo brio profissional é amplamente respeitado como um dos mais sérios jornalistas investigativos deste país (…) Não é novidade para ninguém que está em curso uma contumaz campanha de criminalização de manifestantes e ativistas das causas sociais desde que o processo crescente de manifestações perdeu o controle, antes consolidado com grupos que tem identificação com partidos políticos, como PSOL, o que se aplica ao MPL, cujos principais expoentes – temendo a radicalização que cresce – firmaram acordo com a presidente Dilma Roussef de que acalmariam as massas, anunciando o fim das manifestações logo após terem sido recebidos – em junho – nas suntuosas dependências palacianas de Brasília.” Mais adiante, Morelli dá mostras de suas variações sobre o tema: “Na mesma edição (da revista Época), uma matéria especial na editoria TEMPO – CENAS BRASILEIRAS entitulada (sic) “TODOS CONTRA A VIOLÊNCIA” é um LIBELO contra a fúria que cresce na população que instintivamente começa a adotar nuances da tática BLACK BLOC…” Hein? Libelo contra a fúria?

A milésima tentativa de publicar-se algo na linha “quem são, o que pensam e o que querem os Black Blocs” não é difícil de compreender e muito menos de desbaratar. Não é preciso ser gênio nem mesmo estar nas ruas para saber da aversão dos ativistas pela “mídia corporativista”. A revista Veja já havia forjado uma entrevista com uma integrante do Ocupa Cabral, desmentida em viva voz de bate-pronto.

Em oposição à Veja, Época não inventou nada, porém retratou um falso líder com pinta de maluco. Acreditar no tal Morelli, que diz que “os blockers precisam de visibilidade”? Se precisassem de visibilidade não esconderiam o rosto. Com as polícias e poder judiciário famintos por encontrar associações que legitimem formação de quadrilha, quem diabos admitiria a posse de 119 bananas de dinamite?

A intenção da revista é evidente. Ridicularizar os mascarados, tocar o terror na classe média, fomentar a conspiração de auxílio internacional na desestabilização do país (com 100 mil euros?), criar uma nova Emma na capa, enfim, vender.

Já a intenção de Leonardo Morelli é uma grande interrogação. Com sua lista de reivindicações que vai da redução do buraco na cama da de ozônio às renúncias de Geraldo Alckmin e Sergio Cabral, tudo o que conseguiu foi a fúria dos mascarados contra si próprio. Independentemente de ter cancelado o ato em sua página oficial, os black blocs informam que o dia de fúria está mantido. “Nossa luta é pela derrubada de líderes débeis”, disse Veronica Voluier.

Mauro Donato
No DCM
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Situação era de degradação, diz Haddad sobre máfia do ISS em São Paulo

O Prefeito Fernando Haddad rejeitou a pecha de "xerife" por sua atuação no caso da máfia do ISS
Marlene Bergamo/Folhapress

Quase sempre avarento e professoral nos adjetivos de acusação, o prefeito Fernando Haddad (PT) subiu o tom contra a gestão de Gilberto Kassab (PSD) - mesmo sem nunca citar o seu nome.

Em entrevista, ele classificou a situação que encontrou na Prefeitura de São Paulo de "descalabro": "Havia uma degradação. Nichos instalados e empoderados".

Por outro lado, não poupou elogios à Controladoria-Geral do Município, criada por ele a partir da experiência da Controladoria-Geral da União (CGU), que revelou a máfia do ISS (Imposto sobre Serviços): fiscais que cobravam propina para reduzir o valor do tributo pago para imóveis novos num esquema que fraudou a prefeitura em cerca R$ 500 milhões.

Ele recusa, no entanto, a pecha de xerife da cidade. "Se existe uma pessoa que controla o processo de investigação, ele está viciado. A ideia é que não haja um controlador, mas uma controladoria."

Haddad afirma que a controladoria, por ter autonomia em relação ao Executivo, traz riscos políticos que devem ser desprezados (seu principal secretário, Antonio Donato, foi citado em quatro episódios no caso dos fiscais).

"É uma covardia medir os ganhos éticos com os eventuais prejuízos políticos."

Leia, a seguir, trechos da entrevista concedida à Folha.

Folha - O sr. se encontrou com o ex-presidente Lula. O que ele falou dos fiscais do ISS?

Fernando Haddad - Ele comentou: "A gente reclama da CGU [Controladoria-Geral da União], mas ela faz um bem para o Brasil, né?". A CGU às vezes interrompe um processo, suspende um edital... E a gente reclama, pois quer fazer obras. Mas um órgão de controle pode ser um freio na gestão ao mesmo tempo em que é imprescindível para chegar a seus problemas.

A investigação, por respingar no ex-prefeito Gilberto Kassab, pode prejudicar alianças do PT nas eleições de 2014?

Não acredito nisso.

Há quem diga que, nesta crise, o sr. foi inábil politicamente.

Dependendo de como foi usado o termo, eu o fui com muito orgulho. Quando você monta uma controladoria, ou ela é um órgão de controle ou não é. Não tem meio-termo. Porque, se 10% do que ouvi em 2012 sobre a prefeitura fosse verdade, já era o caso de montar uma controladoria.

O que o sr. ouviu?

Ouvi que a situação era a pior possível do ponto de vista ético. Havia uma degradação. Nichos instalados e empoderados. Havia uma percepção de degradação.

Mas há petistas que dizem que o sr. está colocando em risco uma aliança com Kassab.

Nos valemos de dez anos de tecnologia de combate à corrupção da CGU. Não é pouco trazer isso para São Paulo. É um patrimônio inestimável para a cidade. Em vez de inabilidade política, deveria ser visto como resposta do Executivo a uma situação de descalabro.

Quem fala mais alto neste momento: o prefeito de São Paulo ou o prefeito do PT?

O filho do Khalil e da Norma.

Qual é a diferença entre a corregedoria que existia e a controladoria criada em sua gestão?

É um divisor de águas. A controladoria tem duas ou três características importantes. A primeira é a autonomia. Ela não presta contas ao prefeito.

O [controlador-geral Mario] Spinelli não presta contas a mim. Não pede permissão para investigar este ou aquele procedimento. Não tem o dever de sequer me comunicar.

Em segundo lugar, a controladoria não é um agente passivo, que reage a denúncias. Ela faz trabalho de inteligência. Não se trata de dizer quem começou ou continuou a investigação. É uma mudança de cultura e de mentalidade.

Kassab tem insistido que ele começou essa investigação.

É uma disputa estéril. O ganho que a sociedade pode ter é que os processos hoje são de um órgão 100% autônomo.

O sr. se mostra envolvido na divulgação de cada passo dessa investigação. Quais os riscos políticos dessa postura?

Se conseguir convencer a sociedade de que a controladoria é um marco que pode ser disseminado pelo país, terei feito o melhor para a cidade. Penso mais nisso que no cálculo político, de curto prazo.

O sr. responde agora à pergunta sobre quem fala mais alto.

Estou falando da minha formação. Quando criamos este órgão, sabíamos que ele envolvia riscos de natureza política na exata medida em que envolve uma solidez do ponto de vista ético e moral.

Os benefícios no campo da ética são tão superiores e mais consistentes que os riscos políticos que nem coloco as duas coisas na balança.

É uma covardia medir os ganhos éticos com os eventuais prejuízos políticos.

Seu principal secretário, Antonio Donato, é citado em quatro episódios desta investigação. Por que não foi aberta investigação em torno dele?

Olha... O Donato acompanhou, até como secretário de Governo, os procedimentos adotados nas investigações. O fato narrado em 2008...

Há fatos recentes do Ronilson Rodrigues, tido como chefe da máfia do ISS, o procurando.

Isso não é negado. Ronilson entregou dois estudos à minha campanha: sobre ISS e sobre IPVA. Participou da transição, indicado pela administração anterior.

E o sr. não pretende abrir uma investigação do Donato?

Os fatos sobre a campanha de 2008 têm de ser investigados pelo Tribunal Regional Eleitoral, se o órgão julgar que deve [Donato teria recebido dinheiro dos acusados em sua campanha; ele nega].

O sr. quer passar uma imagem do tipo Rudolph Giuliani, o prefeito-xerife de Nova York?

Se há uma pessoa que controla o processo de investigação, ele está viciado. Se é institucional, atua com princípios de institucionalidade, moralidade e apartidarismo. A ideia é que não haja um controlador, mas uma controladoria.

Num telefonema gravado, o chefe da máfia do ISS diz que o prefeito sabia de tudo. O sr. sabe quem é esse prefeito?

[Ri] Olha... Não é possível desconsiderar que [Ronilson] ocupou um cargo da maior importância durante muito tempo na gestão anterior.

O que se pode esperar das investigações daqui para frente?

Existem evidências fortes de que esses fiscais também atuavam no cadastro do IPTU. A fraude no IPTU pode ser pior que a do ISS.

Há quem defenda que corrupção ocorre pela forma como as administrações públicas são estruturadas. Há algum projeto de reestruturação?

As áreas de ISS das construtoras e IPTU são as únicas da Secretaria de Finanças que não tinham sido informatizadas. Agora, estão sendo.

A novidade não é a existência de servidores corruptos, mas do caminho para diminuir as chances de isso voltar a acontecer. O crime aprende. E a controladoria terá de aprender mais do que elas.

Fernanda Mena | Mario Cesar Carvalho
No fAlha
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Por que o Estadão vai morrer sem encontrar comprador

Bye

Noto, num supermercado, um anúncio da Veja. Aparece, nas Páginas Amarelas, alguém que não tenho tempo de saber quem é. Mas consigo ler o título. Era mais ou menos o seguinte: “Quanto mais aberto o mercado, melhor”.

Ri sozinho.

A mídia brasileira, com seu descaro torrencial, sempre defendeu ardorosamente o mercado livre – exceto para ela mesma.

Seus leitores provavelmente não sabem, mas a mídia goza de uma inexpugnável reserva de mercado. Concorrentes estrangeiros estão proibidos de atuar no Brasil. Podem ter, no máximo, 30% das ações.

Já contei aqui um artigo relativamente recente no qual o Globo defendeu a reserva de mercado. O autor era o novato do STF, Barroso, então advogado da Abert, associação responsável pelo lobby da Globo em Brasília.

Barroso dizia que as novelas eram patrimônio nacional, e que correríamos um sério risco caso uma emissora chinesa se instalasse no Brasil e fizesse propaganda de Mao.

Pausa para rir.

Essa reserva de mercado, somada a outras mamatas estatais como empréstimos com dinheiro público a juros maternos, trouxe o resultado previsível. As grandes corporações de mídia sempre foram extraordinariamente mal administradas por causa da falta de concorrência externa.

E agora a reserva traz um interessante efeito colateral: as empresas de mídia – quase todas combalidas em consequência da internet — não conseguem encontrar compradores.

Murdoch seria um comprador potencial para algum jornal, para ficar num caso. Mas ele está impedido pela reserva.

E é dentro dessa lógica que agoniza o Estadão. Vazou que um banco procurou a Globo para ver se ela estava interessada em comprar o jornal.

Não estava. A Globo já tem uma bomba nas mãos, seu próprio jornal.

O mercado nacional é demasiado limitado quando você procura compradores com muita caixa para comprar um jornal como o Estadão.

Mas não existe alternativa: eventuais interessados de fora estão vedados pela lei.

Há uma espécie de justiça poética nisso. As companhias de mídia se beneficiaram amplamente da reserva que elas impuseram com seu poder de força. E agora vão pagar o preço dessa esperteza abjeta.

Elas não imaginavam que apareceria uma coisa chamada internet, que transformaria jornais, revistas, rádio e tevê em produtos tão obsoletos quanto o bigode do Barão do Rio Branco.

A vida às vezes é mais justa do que parece.

Paulo Nogueira
No DCM
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O PSDB tem sua Madamo Bovary

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Abaixo, a ironia

Volto ao tema para que não haja riscos de reforçar ideias que tentei ridicularizar

Domingo passado, escrevi aqui uma crônica em que satirizava o discurso mais raivoso da direita brasileira. Muita gente não entendeu: alguns se chocaram pensando que eu de fato acreditava que o problema do país era a suposta supremacia de negros, homossexuais, feministas, índios e o "poderosíssimo lobby dos antropólogos"; outros me chocaram, cumprimentando-me pela coragem (!) de apontar os verdadeiros culpados por nosso atraso. Volto ao tema para que não haja risco algum de eu estar reforçando as ideias nefastas que tentei ridicularizar.

Uma sátira é uma caricatura. Escolhemos certos traços de uma obra e produzimos outra, exagerando tais características. Narizes aparecem desproporcionalmente grandes, orelhas podem ser maiores que a cabeça, um bigode talvez chegue até o chão. É como se puséssemos uma lupa nos defeitos do original, a fim de expô-los.

Na crônica de domingo, achei que havia carregado o bastante nas tintas retrógradas para que a sátira ficasse evidente. Descrevi um quadro que, pensava eu, só poderia ser pintado por um paranoico delirante. No país bisonho do meu texto, José Maria Marin e o pastor Marco Feliciano eram de esquerda, os brancos estavam escanteados por negros, que ocupavam a direção das empresas, as mesas do Fasano e os assentos de primeira classe dos aviões. O Brasil (segundo maior exportador de soja do mundo) não era, na crônica, uma potência agrícola, por culpa das reservas indígenas. No fim, me levantava contra "as bichas" e "o crioléu". O texto não estava suficientemente descolado da realidade para que todos percebessem a impossibilidade de ser literal?

Talvez, infelizmente, não: fui menos grosseiro, violento e delirante na sátira do que muitos têm sido a sério. Poucos dias antes da crônica ser publicada, um vereador afirmou em discurso que os mendigos deveriam virar "ração pra peixe". Com esse pano de fundo, ser "apenas" racista, machista, homo e demofóbico pode não soar absurdo. Quem se chocou achou o personagem equivocado, mas plausível. Quem me cumprimentou achou minha "análise" perfeitamente coerente. Ora, só dá para concordar com o texto se você acreditar que as cotas criaram uma elite negra e oprimiram os brancos, acabando com a "meritocracia que reinava por estes costados desde a chegada de Cabral", se achar que os 20 anos de ditadura foram "20 anos de paz" e que é legítimo e bem-vindo levantar-se contra "as bichas" e "o crioléu".

Em "Hanna e Suas Irmãs", do Woody Allen, Lee, uma das irmãs, é casada com um intelectual rabugento chamado Frederick. Lá pelas tantas, o personagem assiste a um documentário sobre Auschwitz, em que o narrador indaga "como isso foi possível?". Frederick bufa e resmunga: "A pergunta não é essa! Do jeito que as pessoas são, a pergunta é: como não acontece mais vezes?". Esta semana, diante dos e-mails elogiosos que recebi, a fala me voltou algumas vezes à memória: "Como não acontece mais vezes?". Vontade é o que não falta, por aí –e, infelizmente, não estou sendo irônico.

Antonio Prata
No fAlha
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Degenerados

Descobriram num apartamento da cidade de Augsburg, perto de Munique, Alemanha, mais de 1.400 quadros desaparecidos durante a Segunda Guerra Mundial. Os quadros incluem pinturas e desenhos de expressionistas alemães como Georg Grosz e Max Beckmann mas também de artistas como Matisse, Chagal, Renoir, Toulouse-Lautrec, Picasso e outros mestres europeus.

A descoberta, segundo o “New York Times”, foi há algum tempo, mas as autoridades alemãs só a noticiaram agora porque temiam que a revelação aumentasse a grossa confusão sobre a propriedade das obras encontradas.

Elas são, obviamente, produto da pilhagem de museus e coleções privadas dos territórios invadidos pelos nazistas na guerra. Mas estavam no apartamento de um descendente de Hildebrand Gurlitt, que, apesar de ser judeu, foi o escolhido por Goebbels para avaliar e ajudar a vender os quadros e era, legalmente, o dono do tesouro.

As obras incluem o que Hitler chamava de arte “degenerada” — os expressionistas alemães, principalmente — que pela sua vontade deveria ser destruída, e as de grande valor comercial, cuja venda reforçaria os cofres do Terceiro Reich.

Mas na promiscuidade do achado não se distingue umas das outras, e não deixa de haver uma triste ironia no fato de os mestres do impressionismo francês, por exemplo, estarem de novo na companhia de “degenerados”, como no famoso Salão dos Rejeitados em Paris, que reuniu os enjeitados pelos acadêmicos da época, e de onde saiu a grande arte do século XIX.

Ainda existem milhares de obras de arte desaparecidas na guerra, das quais não se tem notícia. Mas aos poucos elas reaparecem. Arte é difícil de matar. Inclusive a “degenerada” . Há pouco estive num museu em Munique em que havia uma exposição dos expressionistas alemães. Todos mortos, e todos vivíssimos.

Luis Fernando Veríssimo
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