9 de nov de 2013

A marcha da insensatez da mídia com Serra


Momento 1 - explodem os casos Asltom e da máfia dos fiscais da Prefeitura. Entram na linha de fogo dois lugares-tenentes do esquema Serra: Andrea Matarazzo e o ex-Secretário das Finanças do município Mauro Ricardo. O caso se agrava quando se constata que a controladoria do município abriu inquérito contra a máfia e Mauro Ricardo engavetou sob a alegação de que as denúncias anônimas não traziam provas. A fogueira esquenta.
Momento 2 - acuado, Serra amarela e dá entrevista à Folha interrompendo momentaneamente a retórica da radicalização. Mostra-se o mais cordato e democrático dos brasileiros e o mais solidário dos tucanos, disponível até para apoiar Aécio Neves.
Momento 3 - aí, a cobertura da mídia corrige a inconfidência inicial e, apesar de Mauro Ricardo já ter admitido publicamente ter sido responsável pelo arquivamento das investigações, são divulgadas apenas grampos no qual o acusado menciona Kassab. E o fogo de encontro afasta a fogueira que ameaçava se alastrar sobre o esquema Serra,
Momento 4 - sentindo que mais uma vez a cobertura consegue desviar o foco dele, Serra recobra a agressividade e volta a acusar o PSDB de leniente como oposição. Não passou nenhuma semana depois do ato de contrição.
Não sei até quando a velha mídia vai sustentar esse jogo de cena de ignorar o histórico de Serra. Há um conjunto de investigações que ganhou dinâmica própria e um volume expressivo de informações disponíveis sobre a atuação do esquema Serra desde seus tempos de Secretário do Planejamento de Montoro. 
É questão de tempo para se desfazer a blindagem. 
Quando a barragem explodir, como irão se explicar para seus leitores.

Luis Nassif
No GGN
Leia Mais ►

A íntegra da decisão do juiz que determinou o bloqueio milionário no Propinoduto Tucano


























Leia Mais ►

Serra diz que o PSDB sofre de bovarismo. Mas, afinal, o que é bovarismo e quem sofre dele?

Manuscrito de Madame Bovary,
de Gustave Flaubert

José Serra não conseguiu se eleger prefeito de São Paulo, onde conta com uma rejeição de 50%. Praticamente escorraçado do partido a que é filiado, chegou a levantar a hipótese de se transferir para o PPS, tal sua rejeição entre correligionários e eleitores.

No entanto, a mídia corporativa continua a seguí-lo, como fieis à procura da salvação, porque, endividada e sem perspectivas de recuperação, sabe que só Serra e PSDB a mantêm sobrevivendo, graças a aquisições de exemplares de jornais, revistas e material didático.

Só isso explica a presença do "cadáver adiado" (apud Fernando Pessoa), dia sim, outro também, no noticiário.

A nova matéria foi feita num, vejam só, encontro marcado pela juventude tucana (uma contradição em termos), em que José Serra deitou falação sobre o PSDB, com o objetivo (apoiado pela mídia) de detonar a candidatura do presidente do Partido Aécio Neves.

Dito engenheiro e economista, sem diploma e reconhecimento por nenhuma das duas categorias, sem cargo público ou trabalho declarado, e ainda sem dar explicação alguma sobre as inúmeras e graves acusações que lhe são feitas no livro Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro, Serra aproveitou o excesso de tempo livre para dizer que o PSDB sofre de bovarismo:
"Que me desculpem as mulheres, pois a coisa é mais complexa do que isso. Mas o problema da Madame Bovary é querer ser aceita pelo outro lado. Ela vai à loucura, quebra a família e trai o marido com Deus e todo mundo para ser aceita. O PSDB tem um pouco do bovarismo, de precisar ser aceito pelo PT".[Fonte]
Pulando a hilária afirmação de que "o problema da Madame Bovary é querer ser aceita pelo outro lado", vamos ver se o PSDB tem mesmo um pouco de bovarismo.

Bovarismo é um conceito criado por Jules de Gaultier (em Le bovarysme, la psychologie dans l’oeuvre de Flaubert), a partir do personagem Emma Bovary, do romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert. “Emma personificou essa doença original da alma humana, para a qual seu nome pode servir de rótulo, se entendermos por ‘bovarismo’ a faculdade que faz o ser humano conceber a si mesmo de outro modo que não aquele que é na verdade”. Ou seja, o bovarismo consiste em “se imaginar diferente do que se é”.

Este conceito acabou adotado pela psicologia, com um sentido mais amplo, como uma pessoa que vive uma fantasia de si, diferente daquilo que é, e vive de acordo com essa fantasia e em desacordo com a realidade.

Vamos transportar essa noção para o campo político, para exemplificar: Imaginemos uma pessoa que se julgue a mais preparada para ser presidente da República e que se comporte e dê declarações como se realmente tivesse aquele preparo, aquela importância que só ele mesmo se atribui.

Imagine que essa pessoa, por se ter em tal conta, aja de modo a retirar de seu caminho adversários reais ou imaginários, na busca por alcançar a presidência a que se julga predestinado. Mesmo contra a toda a realidade, mesmo com a imensa rejeição do eleitorado e até do próprio partido. Isso é um caso tipo de bovarismo.

Será que José Serra conhece alguém assim?

--------------------------

Por falar em bovarismo, Bovary, clique no banner abaixo e dê um pulo na editora, onde você poderá conhecer e comprar meu mais novo livro, o romance Madame Flaubert. Aproveite e dê uma curtida na página do romance, onde você vai conhecer detalhes e trechos dele e também informações sobre Madame Bovary, de Gustave Flaubert: http://on.fb.me/1aOWRqC

Leia Mais ►

A farsa do cartel


Os três principais jornais de circulação nacional resolveram, nesta sexta-feira (08/11), praticar algum jornalismo no caso que envolve o sistema de propinas que encareceu e atrasou o programa de transporte sobre trilhos na região metropolitana de São Paulo. O leitor ou leitora que tiver paciência e disponibilidade para vasculhar os fragmentos de notícias que a imprensa vem ofertando até aqui sobre esse caso vai concluir, facilmente, que se trata de um crime continuado, com alto grau de planejamento, e não apenas de um caso isolado de cartel, como vinham insistindo os jornais até aqui.

O fato que obriga a imprensa a dar mais atenção ao esquema é o bloqueio de bens dos principais envolvidos, no valor total de R$ 60 milhões, que acaba de ser determinado pela Justiça Federal. Os atingidos são cinco dos acusados, entre eles três ex-diretores da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, além das empresas Siemens e Alstom, que teriam sido beneficiadas com obras obtidas à base de propina. Os jornais divergem quanto ao período, mas o inquérito se refere aos anos de 1995 a 2008, alcançando principalmente os mandatos de Geraldo Alckmin e José Serra, do PSDB.

Com todas as evidências de que se tratava de um atentado sistêmico contra o interesse público, no entanto, os jornais vinham insistindo em tratar o caso como "denúncia de cartel", concentrando-se apenas nas informações prestadas voluntariamente pela direção da empresa alemã Siemens. Paralelamente, eram noticiados aspectos do envolvimento da francesa Alstom, como se fossem dois casos diferentes. Com esse apoio da mídia, o governador Alckmin entrou com processo contra a Siemens, com o propósito declarado de obrigá-la a ressarcir os cofres públicos por eventuais prejuízos.

A decisão da Justiça, de bloquear os bens de antigos auxiliares de Alckmin e Serra, expõe a ridículo a tentativa de dirigir o foco à empresa que supostamente pagou a propina, omitindo a culpabilidade de quem teria recebido o dinheiro. Uma juíza federal sepultou a manobra, ao exigir que o governo paulista refaça a ação de indenização, incluindo todas as 19 empresas que teriam atuado em conluio com agentes públicos para aumentar os preços de obras do metrô e do sistema de trens metropolitanos.

Crime continuado

No Ministério Público de São Paulo, procuradores criticam publicamente o governador pela manobra canhestra na tentativa de ocultar o esquema de corrupção. Segundo a Folha de S. Paulo, integrantes do MPE ridicularizam a ação, acusando o procurador-geral do Estado de agir politicamente para preservar Alckmin, declarando que o processo de indenização contra a Siemens "foi mais uma ação política do que um trabalho jurídico de recuperação da verba desviada".

A manobra é tão primária que, numa rápida leitura, pode-se notar como o procurador-geral apenas copiou e colou os elementos da confissão feita publicamente pela própria Siemens em seu acordo para a delação do cartel. Que o governador se submeta a tal vexame, pode-se entender como parte do jogo político. O que causa espanto é que os jornais embarquem no esforço de encobrir o que é, certamente, um dos grandes escândalos do nosso tempo. Por conta de acordos que agora estão sendo revelados, certamente os preços das obras de expansão e manutenção minaram a capacidade de investimento do Estado, atrasando o desenvolvimento do sistema de trens e metrô de São Paulo.

Não há como dissimular que se trata de um sistema organizado de fraudes, com manipulação de preços, iniciado ainda no governo de Mario Covas, que assumiu em 1995 e faleceu em 2001, e continuado sob os mandatos de seus sucessores. Segundo o Estado, o esquema começou com a Alstom em 1995. Segundo o Globo, a Siemens pagou propinas a autoridades estaduais entre 1998 e 2008. Segundo a Folha, o esquema da Alstom ainda funcionava entre 2000 e 2007. Feitas as contas, mesmo os leitores e leitoras mais distraídos vão concluir que não era apenas um caso eventual de cartel.

"A simulação é uma profecia que, de tanto ser repetida, se fortalece como uma realidade", dizia o sociólogo francês Jean Baudrillard. No caso, a cumplicidade da imprensa quase transforma em realidade a farsa do cartel de uma empresa só. A decisão da Justiça desmascara a versão vendida pelo governador e engolida pelos jornais. Os trens lotados e a indecência do transporte público são o resultado desse esquema.

Luciano Martins Costa
No OI
Leia Mais ►

A origem do 'Rei do Camarote'

Leia Mais ►

Kennedy Alencar entrevista FHC


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso diz que, se o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), não crescer nas pesquisas, não haverá segundo turno na disputa pelo Palácio do Planalto. “Eduardo tem de se encorpar. Se ele não se encorpar, não teremos segundo turno.” O tucano fez a afirmação ao comentar o risco de o PSB tomar o lugar do PSDB na polarização com o PT. Na pergunta 4, FHC responde: “Se ocorrer, também não seria nenhuma tragédia”. No entanto, afirma acreditar que Aécio manterá “dianteira confortável” sobre Campos. FHC diz que prefere a candidatura presidencial do senador Aécio Neves à do ex-governador José Serra porque “o Brasil precisa de renovação”. Segundo ele, Aécio “tem maioria” no PSDB. “[Serra] tem que dar um certo tempo.” Na pergunta 2, FHC defende que o partido diga logo que Aécio é candidato, sem esperar março, como deseja Serra. O ex-presidente avalia que Dilma tem agenda de candidata e que disputa já começou. Na questão 3, ele vê “fadiga de material” no quadro político. “As pessoas querem mudar. Lula percebeu isso e lançou candidatos novos.”

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso diz que o governo Dilma tem as marcas da “frustração” e do “produtivismo”. “É uma espécie de volta ao regime do presidente Geisel”, afirma, ao responder à pergunta 7. Na pergunta 5, o ex-presidente discorda da proposta de elevar a pena de crimes contra o patrimônio público e privado a fim de punir manifestantes violentos. Na sexta questão, afirma que é preciso mudar o sistema de internação de menores antes de pensar em aumentar o tempo de permanência na Fundação Casa.

Para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva, não tem generosidade para reconhecer ações positivas do governo tucano. Ao responder à pergunta 8, FHC diz: “Ele [Lula] faz sempre isso. Falta um pouquinho generosidade e reconhecer as coisas. Meu Deus do céu, eu reconheço o que ele fez de bom, mas o Lula não consegue”. Segundo FHC, a crise de 2002 foi provocada por incerteza da chegada do PT ao poder. O tucano diz que Lula aprovou acordo com o FMI em 2002 “para garantir um bolsão para governar em 2003″. FHC vê “sinais graves de que [o país] está perdendo a rigidez fiscal”. Na questão 9, ele avalia que, na economia, o governo “está tapando buraco”. Na décima pergunta, ao responder ao caso do cartel no metrô de SP, afirma que há diferença ética entre PSDB e PT.



No Blog do Kennedy
Leia Mais ►

Sobre Chico de Oliveira na Folha de S. Paulo

O sociólogo Francisco de Oliveira
Fabio Braga/Folhapress

Prezado Caio

Agradeço pelo envio.

Não tinha visto.

Li. E não gostei.

Confesso que não gosto do que o Chico de Oliveira escreve.

Considero teoricamente inconsistente, politicamente inconsequente e literariamente espalhafatoso (para usar um termo educado).

No caso das idéias dele, ele tem razão: não foi bom envelhecer.

Para quem achar exagerado isto que estou falando, peço que comparem a entrevista que ele deu ao Ricardo Galhardo, há alguns poucos meses, tratando exatamente das manifestações de junho, vis a vis o que ele fala agora para a Folha.

No fundo, como intelectual, Chico me lembra FHC, capaz de análises sociológicas curiosas, com pontos aqui e ali até interessantes, mas que na política resultam em absolutamente qualquer coisa (também para ser educado, afinal é sábado).

Veja a opinião que Chico dá sobre a proposta de uma Assembléia Constituinte. Chama a proposta de "idiota". Se ele falasse isto da proposta de pacto fiscal, eu poderia entender e concordar. Mas a proposta de Constituinte foi exatamente o mais avançado que surgiu naquele momento, e o fato de ter surgido da boca da presidenta foi muito positivo. E não seguiu adiante por causa da resistência da direita, da sabotagem do PMDB e da covardia política (ou aberta traição) de setores do próprio PT, como o infame Vaccarezza.

Veja o que Chico fala sobre o crescimento: diz que o Brasil está crescendo "de forma violentíssima" nos últimos 20 anos. Crescendo "desde FHC", o amigo-da-foto-do-álbum-de-família que ele Chico sempre dá um jeito de preservar, em contraponto a Lula que ele sempre dá um jeito de criticar de maneira para lá de desrespeitosa.

Vejam o que Chico fala da questão agrária: no Brasil, diz ele, "não tem questão camponesa". Ou, na ponta oposta mas com o mesmo sentido, vejam a proposta do "Estado indígena".

Vejam o que Chico fala da dupla Marina/Campos: "nenhum deles tem proposta nenhuma", quando até as pedras sabem da influência da casa das garças no ideário da dupla.

Na prática, limpem a retórica esquerdista, e encontrarão em Chico um substrato reacionário que ele compartilha com seu amigo FHC, e cuja base está na leitura errada que fazem do desenvolvimento capitalista no Brasil.

Uma das frases mais eloquentes neste sentido é a seguinte: "A tragédia brasileira de hoje é que o Brasil precisa de uma revolução social, mas não tem forças revolucionárias. O campesinato não existe. O operariado não é revolucionário, é sócio do êxito capitalista no Brasil. Os principais fundos de pensão são todos eles, entre aspas, de propriedade dos trabalhadores. E todos eles atuam nas grandes empresas capitalistas. A burguesia nunca foi revolucionária."

Perguntado pela Folha sobre "o que a esquerda pode fazer?", Chico responde: "nada".

Chico é isto: o retrato da impotência da ultra-esquerda.

Assim, ele não rasgou o verbo. Rasgou as vestes.

Abraços e bom final de semana



A íntegra da entrevista na Folha

Folha - Oitenta anos. Que tal?

Chico de Oliveira - Oscar Niemeyer disse que a velhice é uma merda. Eu não só tão radical. Mas ela não tem essas bondades que geralmente se diz. A história de que o sujeito ganha em sabedoria é uma farsa. Não é bom envelhecer.

O senhor está bem, está lendo, fazendo críticas.

Só aparentemente. Eu tomo dez remédios por dia. Entre insulina para diabetes, remédio para hipertensão... Não é nada bom. As pessoas sábias deveriam morrer cedo (risos).

Antigamente era assim. Esse negócio de longevidade é uma novidade, né?

É, a longevidade é uma coisa recente mesmo. Não é façanha sua. É da economia, basicamente. É a economia que te leva até os 80 anos. São as condições de vida que mudam, você não precisa de trabalho pesado. Quem condiciona tudo é o trabalho. E, evidentemente, gente da minha classe social está apta a aproveitar essas benesses do desenvolvimento capitalista. Mas pessoalmente não é agradável. Só que não existe solução. Você vai se matar para poder não cumprir os desígnios de sua classe social?

O senhor se surpreende aos 80. Em junho, milhares de brasileiros foram às ruas protestar. E o senhor disse que era tudo inédito e surpreendente. Na sua avaliação, qual é o saldo?

É bom não fazer uma cobrança positivista do tipo "o que é que deu aquilo?". Deu algum resultado, a tarifa de ônibus baixou. Mas deu uma coisa ótima. O ótimo é que a sociedade mostrou que é capaz ainda de se revoltar, é capaz de ir para a rua. Isso é ótimo. Não precisa resultados palpáveis. O que é bom em si mesmo foi o fato de a população, alguns setores sociais, se manifestarem. Assustarem os donos do poder, e isso foi ótimo. Isso é que é importante. Esse objetivo foi cumprido. Eu falava que era inédito porque a sociedade brasileira é muito pacata. A violência é só pessoal, privada, o que é um horror. Quando vai para a violência pública, as coisas melhoram. Esse é o resultado que nos interessa: um estado de ânimo da população que assuste os donos do poder.

Assustou mesmo?

Assustou. Porque era uma coisa realmente inédita, com setores sociais que geralmente dizem que são conformistas, parte da juventude. Esse tipo de manifestação mostrou que não é assim. Isso é bom para a sociedade. Não é bom para os donos do poder. Mas são eles, exatamente, que a gente deve assustar. Se puder, mais do que assustar, derrubá-los do poder. Não acho que essas manifestações tenham esse caráter, essa forma. Mas regozijo-me porque foi manifestado o não conformismo.

O senhor disse que sociedade brasileira é muito pacata. Por que tem essa característica e qual é a melhor explicação?

É um complexo de fatores, não é fácil definir. Quem fala sobre isso geralmente aponta as raízes escravistas. Uma sociedade que não faz muito tempo, faz 100 anos, libertou-se do escravismo. Isso deu lugar a uma sociedade que apanha, mas não reage. Quem melhor estudou isso foi Gilberto Freyre. Ele estudou isso, do ponto de vista saudosista, mas é quem mais foi fundo nessa espécie de conformismo na sociedade. Embora a interpretação de Sérgio Buarque [de Holanda] também seja boa, a sociedade que se conforma. Para ele, é o homem cordial. Gilberto tem outro "approach", ele vai para a cultura. Cultura não no sentido de quem carrega livro, mas na forma pela qual a sociedade se construiu e se reconhece nela. É basicamente a ideia da casa grande. A casa grande é uma formação conformista. Tem uma violência que explode a cada momento. E tem um senhor de escravo que é compadre de escravo. É uma formação muito complexa. Muito interessante para um sociólogo estudar, mas muito pesada para quem sofre os efeitos dessa cultura brasileira. Que não é a portuguesa exatamente, não é a indígena. É um mix de várias fontes. Não tivemos nenhuma grande revolução violenta. A que o Brasil comemora sempre, que é a de 1930, não teve nada de especialmente violenta. Teve os gaúchos saindo do sul, [Getulio] Vargas a frente. Na verdade enfrentaram uns paulistas aí, mas terminou tudo em pizza (risos). Isso marca muito a sociedade brasileira. Esse conformismo que só explode em violência privada, o sujeito que morre de facada. Você liga a televisão e vê: todo dia tem uma tragédia dessa.

Se sempre foi assim, o que desencadeou em junho?

Não foi sempre assim, claro. Isso é o meu jeito de falar. Havia violência, muita violência, mas não era uma violência que se tornava pública porque era uma violência de escravos e isso sempre foi abafado. Hoje é uma sociedade urbana, extremamente violenta e que só explode em violência privada. Sobre violência pública, não temos muito o que contar. Nesse quesito, o Brasil perde de longe para qualquer outra revolução. A revolução mexicana, por exemplo, foi uma coisa espantosa. Espantou o mundo tudo. No Brasil, não. A cubana também.

Bom, da cubana tem gente com medo até hoje por aqui.

Ah, é (risos). Fidel, que não teve jeito de prosseguir com aquela revolução, está aí. Está envelhecendo à sombra dela. Mas o Brasil é isso. Não dá para lamentar propriamente. Ninguém ama a violência. Mas isso influi muito no caráter, na formação da sociedade. Eu não tenho mais, mas toda casa brasileira tem uma empregada doméstica. A empregada doméstica é um ser em definição. Ela não é pública nem privada. Algum progresso se deu pelo fato de que elas agora pedem carteira assinada. Isso parece nada, mas é muita coisa. Mas, em geral, isso leva a uma situação acomodatícia, uma relação de compadre com a comadre. Isso molda a sociedade em geral.

Está na arquitetura brasileira, o quarto de empregada na lavanderia. Existe algo assim em algum outro país?

Não tenho notícia de nenhum outro lugar. Isso [o quarto de empregada] tem um nome científico: edícula (risos). Temos quarto para empregada, né? É realmente fantástico... Nas sociedades que eu conheço, não é assim. Na Europa pode ter tido um período, mas hoje não existe. Nos Estados Unidos, tão pouco. O Brasil é muito especial. Criou uma forma de convivência, um processo com muita força que se reproduz mesmo nas sociedades urbanas.

O senhor acha que os governantes ficaram com medo de verdade?

Não. Ainda não. Mas deu um susto. Teve. Os jornais repercutiram de forma bastante conservadora, né? Mas deu um susto.

Aí a presidente Dilma Rousseff lançou na sequência aquela ideia de Assembleia Constituinte para a reforma política. O que achou da resposta?

Eu achei idiota. Não gostaria de fazer uma avaliação precipitada do governo Dilma para não dar força à direita que está em cima dela o tempo todo. Mas é uma resposta idiota. Ninguém resolve o problema assim com reforma da Constituição. Ela seria importante para encaminhar os novos conflitos. A Constituição deveria ser o que molda as relações no Brasil. Não é. Ninguém dá bola para a Constituição.

O que teria sido uma resposta adequada?

Seria reconhecer que o país está atravessando uma zona de extrema turbulência devido ao crescimento econômico. Não é que o caráter do povo é violento. Isso é uma bobagem. Não é que uma reforma política vai resolver os problemas da violência pública. Isso é outra bobagem. Ela teria que reconhecer o Brasil está atravessando um período de extrema turbulência porque o crescimento econômico é que cria a turbulência, não é o contrário. Todo mundo pensa que o crescimento apazigua. Não é verdade. O crescimento exalta forças que não existiam, o capitalismo é um sistema econômico violentíssimo. Os EUA, que são o paradigma do capitalismo, são uma sociedade extremamente violenta, tanto pública quanto privada. O Brasil vive uma espécie de adormecimento devido a essa cultura que eu estava comentando. De repente, o tipo de crescimento econômico violento e tenso em pouco tempo quebra todas as amarras, e a violência vai para rua.

Mas a presidente Dilma é criticada pelo baixo crescimento, é criticada porque o país não cresce.

Não é verdade. O país está crescendo de forma violentíssima nos últimos 20 anos. Numa perspectiva mais de longo prazo, desde Fernando Henrique, passando por Lula e agora Dilma. Além de quê é um crescimento econômico diferenciado. Não dá mais para crescer no campo. Agora o crescimento é na cidade. E na cidade gera relações público-privadas diferentes. Se o Estado não tem políticas para tal, é melhor ficar calado do que dizer besteira. Reforma da Constituição. E daí? O que a reforma da Constituição faz? Para o que passou, não tem efeito nenhum.

Parte das manifestações dizem muito respeito às polícias estaduais. O que o senhor acho do papel dos governadores?

Esse [Geraldo] Alckmin é uma coisa... Todo mundo pensa que o crescimento econômico influi na política de forma positiva. Isso é uma ilusão. O Alckmin é bem o representante dessa política. Um ser anódino. Já chamaram ele de picolé de chuchu. O José Simão [inventor do apelido] talvez seja o melhor sociólogo brasileiro. Ele de fato não desperta paixões nem ódio. Em geral é assim. Não tem nenhum governador que inspire empolgação, esperança de que um dia desse casulo nasça uma espécie de borboleta bonita. Nenhum deles. Mesmo o Tarso Genro, do Rio Grande do Sul, que é um tipo mais educado. Vai para o governo e se amolda. O Alckmin: pelo jeito a população aprova esse estilo anódino, que não diz nada com nada. Isso é ruim, viu? Ruim porque é o Estado mais importante da Federação, o que poderia dar uma chacoalhada nesse sistema. Mas não dá. E tudo muito conformado. E a imprensa tem um papel horroroso: o que for conformismo, ela exalta; o que for rebeldia, ela condena. Daí que o viés conservador no olhar sobre essas manifestações é a tônica. Ninguém vê nisso um processo de libertação da sociedade. Todo mundo quer a passividade. Eu saúdo essas manifestações como uma amostra de que a sociedade pode e deve manifestar-se sempre que as condições de sua existência sejam tão iníquas como são hoje.

Que avaliação o senhor faz do movimento "black bloc"?

Faço uma boa avaliação. Se eles se constituem como novos sujeitos da ação social, é para saudar. Vamos ver se, com a ajuda deles, a gente chacoalha essa sociedade que é conformista. Parece que tudo no Brasil vai bem. Não é verdade. Vai tudo mal. Porque o Estado não age no sentido de antecipar-se à sociedade que está mudando rapidamente. Você tem uma sociedade como a brasileira em que a questão operária tornou-se central. E aí vem o Lula e ele está fazendo um trabalho sujo, que é aquietar aquilo que é revolta. Essa sociedade não aguenta esse tranco.

Trabalho sujo?

Ah, tá. A questão operária tem a capacidade de transformar o Brasil e ele está acomodando. De certa forma, está matando a rebeldia que é intrínseca a esse movimento. Rebeldia não quer dizer violência, sair para a rua para quebrar coisa. Rebeldia é um comportamento crítico.

Onde o senhor vê isso no Lula?

Em tudo. Lula é um conservador, ele nunca quis ser personagem desse movimento [operário]. Ele foi contra a vontade dele. Mas ele, no fundo, é um conservador. Ele age como. Na Presidência, atuou como conservador. Pôs Dilma como uma expressão conservadora. Porque você não vende uma personalidade pública como gerente. Gerente é o antípoda da rebeldia. Ele vendeu a Dilma como gerente. Uma gerentona que sabe administrar. É péssimo. O Brasil não precisa de gerentes. Precisa de políticos que tenham capacidade de expressar essa transformação e dar um passo a frente. Ele empurrou a Dilma goela abaixo. Não se pode nem ter uma avaliação mais séria dela, pois ele não deixa ela governar. Atrapalha ela, se mete, inventa que ele é o interlocutor. Aí não dá. E ela não pode nem reclamar. É uma cria dele, né?

O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos disse que Dilma tem insensibilidade social. Citou problemas com movimentos sociais, indígenas, camponeses, meio ambiente. O senhor concorda?

Eu não diria com essa ênfase. O Boaventura, eu conheço bem, um sociólogo importante. Essa ênfase na questão camponesa... O Brasil não tem camponês. Isso é um equívoco teórico que vem do fato de a gente analisar o desenvolvimento capitalista brasileiro nos moldes europeus. Não é assim. Aqui nunca teve campesinato, nem terá. Porque, basicamente, aqui teve uma propriedade extremamente concentrada do escravismo. Isso se projetou depois numa economia capitalista. O que tem é uma questão urbana grave, pesada, que é preciso resolver. Não tem questão camponesa, isso é uma celebração do passado.

Mas problema indígena tem.

Indígena é um problema. Porque a sociedade só sabe tratar indígena absorvendo e descaracterizando. Para tratar dessa questão é preciso, na verdade, de uma revolução de alto nível. Qual é essa revolução de alto nível? É reconhecer que há um Estado indígena.

Estado indígena?

É. A real solução. Há um Estado indígena. E o Estado capitalista no Brasil não pode tratar essa questão, não sabe tratar essa questão. Ele só sabe tratar indígena atropelando, matando, trazendo para dentro da chamada civilização. Os irmãos Vilas-Boas são os arautos dessa solução. Eles são ótimos, mas a visão deles estava equivocada. A real solução é de uma gravidade que a gente nem pode propor. Trata-se de um Estado indígena. Separa. Separa. E nada de integrar. Deixa. Ajuda até eles a proporem suas próprias... Ninguém tem coragem de dizer isso no Brasil. Então todo mundo quer integrar. Para integrar, você machuca, você mata, você dissolve as formações indígenas. Já a questão camponesa é falsa. O que existe é um assalariado agrícola pesado que sofre os efeitos de um desenvolvimento acelerado. O Estado do Mato Grosso era uma reserva antigamente. Hoje você passa lá e só não tem mato. É grosso, mas sem mato.

E o tema do meio ambiente? Sensibiliza o senhor?

Eu não acredito que o meio ambiente seja uma forma de fazer política. A Marina Silva está aí lançada. Ela não tem nada a dizer sobre o capitalismo? Será? Será que a política ambiental é ruim? Ou é o capitalismo que é ruim? Ela não diz nada disso. Então, para mim a Marina Silva é uma freira trotskista (risos). Cheia de revolução sem botar o pé no chão. Ela juntou com o Eduardo Campos, uma jogada política importante. Mas nenhum deles tem proposta nenhuma. A Marina fica com esse ambientalismo démodé, não diz o que quer. Criticar a política de meio ambiente é fácil. Quero ver ela criticar o sistema capitalista nas formas em que ele está se reproduzindo no Brasil. Aí é botar o dedo na ferida. Mas ambientalismo...

O senhor disse que a política da Dilma é conservadora. O senhor diria que ela é de direita?

Não, não diria. Ela é um personagem difícil, coitada. Ela é uma personagem trágica. Porque ela não pode fazer o que ela se proporia a fazer. Ela tem uma história revolucionária. Mas ela não pode fazer isso porque ela está lá porque Lula a colocou. E Lula não é um revolucionário. Ao contrário, ele é um antirrevolucionário. Ele não quer soluções de transformação, ele quer soluções de apaziguamento. E ela está lá para fazer isso. Ela seria mais para o outro lado. Mas não teria força política para isso. Nem existe força social revolucionária. É preciso a gente combater os nossos próprios mitos. Então Dilma está sendo empurrada para a direita. Pelo Lula. Talvez, se as opções estivessem em suas mãos, Dilma faria uma política mais de esquerda no sentido amplo. Mas ela não foi eleita para isso. Nem tem força social capaz de impor essa mudança. A tragédia brasileira de hoje é que o Brasil precisa de uma revolução social, mas não tem forças revolucionárias. O campesinato não existe. O operariado não é revolucionário, é sócio do êxito capitalista no Brasil. Os principais fundos de pensão são todos eles, entre aspas, de propriedade dos trabalhadores. E todos eles atuam nas grandes empresas capitalistas. A burguesia nunca foi revolucionária. Florestan Fernandes deu xeque-mate quando tratou da revolução burguesa no Brasil. É o melhor livro de Florestan.

O que o senhor espera da eleição do ano que vem?

Mais do mesmo. Com nomes diferentes. Ninguém tem capital político para fazer diferente. Além do que, como dizia Telê Santana, em time que está ganhando não se mexe. Eles estão ganhando. Para fazer o projeto de país e sociedade que eles pensam, eles estão ganhando. Nós estamos perdendo. A esquerda está perdendo. Perdendo suas referências e sua força na sociedade. Então, do ponto de vista deles, eles estão ganhando.

E o que a esquerda pode fazer?

Nada. O Aécio Neves não disse a que veio. E não tem proposta nenhuma, na verdade. A dupla Marina-Campos também não tem proposta nenhuma. O ambientalismo... O que é exatamente? Nem ela diz, nem ela sabe. Ela sabe é ficar nesse floreio, que não resolve coisa nenhuma. A Dilma é o que você está vendo. Ela não faz política porque tem de fazer o projeto do Lula. E o projeto do Lula é isso, é conservador. Então é mais do mesmo. A resultante de tudo será um governo muito parecido com o atual: o pouco de virtude que esse governo tem e a carga de irresoluções que ele reproduz.

O que é o pouco de virtude?

O pouco de virtude é, talvez, dar um pouco mais de atenção à área social. Que eu não gosto, para falar a verdade, porque é um conformar-se em não resolver. O Bolsa Família é uma declaração de fracasso. Não é uma declaração de vitória. Para não morrer de fome, a gente vai dar uma comidinha. Eu não gosto disso. Eu sou socialista há 50 anos. Para mim, a gente tem de mudar. E mudar não é necessariamente por revolução violenta, pois está um pouco fora de moda. Mudar fundo. O Estado brasileiro é detentor das principais empresas capitalistas do país. Não são empresas de fazer favor. A Petrobras não faz favor a ninguém. Agora mesmo que a questão dela está repercutindo muito na imprensa, ela pode dizer "eu não estou aqui para fazer favor". Mas se puder fazer capitalismo e distribuir melhor a renda, essa é a tarefa dela. O Estado brasileiro é muito forte, ao contrário do que se passa na maioria dos países. O Estado nos EUA não é forte. Nem na Europa é mais. Foi [forte] na grande virada social-democrata, mas não é mais. No Brasil ainda é. Portanto é aproveitar isso e fazer uma transformação que vá na direção dos interesses populares. O Bolsa Família não é solução. Ele é uma espécie de conformismo: deixa como está para ver como fica; dá um pouquinho de comida para isso não virar revolta. Eu não gosto desse tipo de política. Acho o Bolsa Família uma política conservadora que atende uma dimensão da miséria popular, mas não tem promessa de transformação
Leia Mais ►

2008: o ano que a mídia esqueceu


Quando a tempestade neoliberal despencou, em 2007/2008, o Brasil resistiu ao naufrágio com boias que exigiram gastos fiscais da ordem de R$ 400 bilhões.

As notícias contraditórias que chegam dos EUA, em recuperação, e da Europa, sob a ameaça de uma deflação que obrigou o BC a derrubar o juro na sua mínima histórica, evidenciam a profundidade de uma desordem financeira que não cederá tão cedo, nem tão facilmente.

A consciência dessa longa travessia é um dado fundamental para a ação política em nosso tempo.

É imprescindível abrir o olhar ao horizonte mais largo das determinações ofuscadas pelo alarido imediatista da mídia conservadora.

A agenda do arrocho fiscal e monetário bate seu bumbo outra vez.

Com objetivos explícitos e implícitos.

De um lado, determinar a natureza das respostas à dura transição de ciclo de desenvolvimento vivida pelo país.

De outro, encurralar a sucessão de 2014 em um ambiente contaminado pela represália iminente das agências de risco e dos investidores à ‘derrocada fiscal’.

É o palanque pronto para aqueles que prometem fazer mais e melhor, restaurando o ‘tripé’, recita a cristã-nova do apocalipse, Marina Silva.

Mudam as moscas. Resgata-se o enredo de 2002.

Nesta 6ª feira, na Folha, colunistas já apregoam a necessidade de se voltar aos bons preceitos da Carta aos Brasileiros, bem como aos mandamentos do Consenso de Washington.

‘Não é que não deu certo; não foi bem aplicado’.

Tudo se passa como se setembro de 2008 nunca tivesse existido no calendário do país e do planeta.

O movimento de expansão do capital financeiro, cuja supremacia determina a dinâmica da economia em nosso tempo, e o faz com a imposição de dramáticos constrangimentos à soberania das nações e às escolhas do desenvolvimento,  antecede e explica a crise que o conservadorismo apagou.

Não há economicismo nessa constatação.

A política contribuiu de maneira inestimável para o modo como essa lógica se impôs, a velocidade com que ela se consolidou, a virulência de sua hegemonia e a agonia sem data para terminar de seu poder prevalecente.

A espoleta da maior crise do capitalismo desde 1929  foi o recuo desastroso do controle da Democracia sobre o poder do Dinheiro.

Seu vetor: o desmonte das travas regulatórias impostas ao sistema financeiro no pós-guerra.

De novo: a regressão não foi obra do acaso.

Recuos e derrotas acumulados pela esquerda mundial desde os anos 70, sobretudo a colonização de seu arcabouço pelos interditos neoliberais, alargaram os vertedouros ao espraiamento de uma dominância financeira que se tornou ubíqua em todas as esferas da vida.

A queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, sancionou-a no imaginário social como uma segunda natureza.

Era o fim da história, diziam os áulicos.

Não era, mostrou setembro de 2008.

Mas a sociedade que cedeu a soberania ao suposto poder autorregulador dos mercados comprometera fortemente a sua capacidade política de gerar antídotos ao algoz.

A atrofia ideológica dos partidos progressistas, por exemplo.

Com ela corroeu-se a principal fonte de restauração do interesse público sobre a supremacia do dinheiro.

A combustão não foi espontânea.

Um jornalismo rudimentar no conteúdo, ressalvadas as exceções de praxe, mas agressivo na abordagem, capturou o discernimento histórico com uma camada de verniz naval de legitimidade incontrastável.

Durou décadas.

Deformou toda uma geração de jornalistas e de lideranças políticas.

Irradiou descrédito e desinteresse na política e no debate do desenvolvimento.

A economia tornou-se um templo sagrado, dotado de leis próprias, revestido de esférica coerência endógena, avesso ao ruído das ruas, das urnas e das aspirações por cidadania plena.

Alguma dúvida sobre o ventre de origem da revolta black bloc?

A crise mundial açoitou impiedosamente a sabedoria excretada nessa endogamia religiosa entre o circuito do dinheiro especulativo e o noticiário conservador.

Para dizê-lo de forma educada, a pauta dos mercados autorregulados revelou-se uma fraude.

Gigantesca.

Seus pressupostos, os valores por ela veiculados adernam junto com o seu objeto há cinco anos.

Muito pouco, todavia, seria colocado em seu lugar.

Persiste na democracia um vácuo de representação e escrutínio que renova ao mercado a prerrogativa de pautar o país.

É imperioso resgatar as folhas arrancadas do calendário.

Em setembro de 2008, após um ciclo de fastígio da liquidez e do financiamento barato, a ponto de sancionar os famosos créditos ninjas, que bancavam aquisições de imóveis para cidadãos sem renda, sem emprego e sem garantias, deu-se o sabido.

O dominó começou a quebrar pelas sub-primes, lastreadas na evanescente solvibilidade dos mencionados ninjas.

Graças à sofisticação atingida pela engenharia rentista, esse estoque tóxico fora fatiado e reempacotado em ‘produtos financeiros’ negociados em escala global.

O artifício destinado a ‘diluir os riscos’ acentuaria a sua natureza sistêmica, transformando-se em um dos canais de irradiação da crise que alcançaria todas as praças do mundo.

Inclusive essa que no presente momento está sob o ataque das manchetes terminais da atilada mídia conservadora.

Disposta a tudo para acuar o governo, ela fustiga o demônio do descontrole fiscal para obriga-lo a aceitar a talagada do veneno que há cinco anos entubou o mundo na UTI gastrofinanceira.

Os bons modos corporativos desaconselham.

Mas é forçoso dizê-lo nos dias que correm.

Aqueles que hoje ministram extrema-unção diária ao país - ‘se não for hoje, de amanhã o Brasil não passa’ - são os mesmos sacerdotes da santa inquisição neoliberal que, durante décadas, transformaram o jornalismo econômico numa obsequiosa prestação de serviço ao dinheiro graúdo.

Vigiar e punir quem ousasse afrontar os interesses dos mercados financeiros e das agências de risco internacionais era (é) a sua pauta de estimação.

Para isso são regiamente retribuídos.

E fazem jus ao diferencial.

O primeiro impulso do jogral midiático quando a tempestade se instaurou, em 2007/2008, foi instar o Brasil a aderir ao afogamento coletivo.

De preferencia com os pés amarrados a uma bola de chumbo de juros altos; as mãos decepadas pelos cortes de um virulento arrocho fiscal.

O BC brasileiro, dirigido pelo comodoro Henrique Meirelles, aquiesceu de bom grado.

Na noite de 10 de setembro de 2008, quando a água invadia os mercados urbi et orbi, o país era informado de que a operosa autoridade monetária, a mão firme no leme, subira a taxa de juro, já um colosso de 13%, para graúdos 13,75%.

Arrancou aplausos do jornalismo tupiniquim, o mesmo que agora pede bis.

Cinco dias depois quebrava o Lehman Brothers.

Na época, o quarto maior banco dos EUA.

O buraco de US$ 3,9 bi na instituição de 159 anos marcaria simbolicamente a temporada de esfarelamento das verdades graníticas com as quais a emissão conservadora tutelava o país até então.

Após o desastroso ato pró-cíclico do BC, o governo Lula soube aproveitar a margem de manobra ampliada pela desmoralização plutocrática e inverteu a ênfase.

Em vez de trazer a crise mundial para dentro do Brasil, como pedia a mídia isenta, ergueu diques para afrontá-la na porta.

Um vigoroso acervo de medidas de extração contracíclica foi acionado.

Ampliou-se o crédito ao consumo, programas sociais foram expandidos, desonerações favoreceram o investimento produtivo, fomentou-se um gigantesco plano de habitação, articulou-se uma fornada de urgentes inversões em infraestrutura e logística social.

Enquanto o mundo se liquefazia na maré do desemprego, o país continuou a crescer e a expandir seu mercado de trabalho.

Calcula-se que entre subsídios, renúncia fiscal e incentivo ao investimento, ademais de ações sociais, a resistência ao naufrágio tenha acumulado gastos da ordem de R$ 400 bilhões.

É em torno dessa conta que se afina a partitura da tragédia fiscal iminente, anunciada agora pelo jornalismo econômico.

Esponja-se na fronteira do acerto de contas.

Os que incitavam o governo a jogar o país ao mar em 2008, retrucam que o custo de não tê-lo afogado na hora certa acarretou custos insustentáveis.

Tucanos, de sabedoria econômica comprovada pelos resultados diante de outras crises, endossam o clamor pela eutanásia.

FHC: “Os governos petistas puseram em marcha uma estratégia de alto rendimento econômico e político imediato, mas com pernas curtas e efeitos colaterais negativos a prazo mais longo. O futuro chegou...” (Estadão;03-11-2013)

Recomenda-se vivamente beber a cota do dilúvio desdenhada irresponsavelmente em 2008.

A politização do debate econômico – que o governo não fez a tempo, abrindo os canais para tanto, e o PT vocaliza de modo delicado - é o primeiro passo para livrar a agenda da crise desse garrote infernal.

A persistir a hesitação, a hegemonia falida ditará as regras à superação da própria falência, coisa que nem o código de falência do capitalismo permite.

O resultado, aí sim, jogará o Brasil no abismo contornado há cinco anos.

Não há, nunca houve, solução sem custo para os desequilíbrios intrínsecos a um processo de desenvolvimento.

Desenvolvimento exige projeto, força e consentimento.

À democracia compete libertar a economia da fraudulenta camisa-de-força 'técnica' que circunscreve as alternativas aos limites intocáveis dos interesses dominantes.

Desmoralizada pelos mercados, a política ficará refém dos black blocs de máscara e aqueles, muito mais perigosos, de gravata de seda.

As escolhas a fazer não são singelas.

O país precisa do investimento público e privado para adequar uma infraestrutura planejada para a 1/3 da população ao mercado de massa nascido nos últimos anos.

Estamos falando de proporções épicas: em vidas humanas e recursos financeiros.

Nada que se harmonize do dia para a noite.

O crucial é erguer as linhas de passagem, pactuar seus custos, os ganhos e prazos.

A persistir a livre mobilidade dos capitais, do lado externo, e a captura dos fundos públicos para os juros da dívida, no plano doméstico, a travessia fica vulnerável à chantagem rentista.

Sobra uma pinguela estreita e oscilante.

Não cabe o Brasil.

Um ano de juro da dívida equivale a 71 anos de merenda escolar diária para 47 milhões de crianças e adolescentes da rede pública brasileira.

É só uma ilustração. Mas também é a síntese das proporções em jogo na arquitetura que será preciso escolher.

A crise desnudou o fatalismo econômico que estruturou a narrativa dominante nas últimas décadas.

Mas alguém precisa dizer que o rei está nu.

E, sobretudo, erguer mirantes de pluralidade para que o país possa enxergá-lo como tal. E a partir daí reescrever a sua própria história.

Saul Leblon
No Carta Maior
Leia Mais ►

O que é verdadeiramente imoral


Dilma Rousseff tem razão ao condenar a recomendação do Tribunal de Contas da União, que pede a paralisação de sete grandes obras em andamento no país e a retenção parcial de recursos para oito empreendimentos.

Estamos falando de investimentos de bilhões de reais, um dinheiro do povo, que deve voltar a ele na forma de melhorias que estão sendo pagas através de impostos que, como nós sabemos, costumam atingir especialmente o bolso dos mais pobres.

As obras envolvem investimentos necessários. Incluem trechos da Ferrovia Norte-Sul e também da Leste-Oeste, esgotamento sanitário no Piauí, pontes e rodovias, uma refinaria de petróleo em Pernambuco, trens urbanos em Fortaleza e em Salvador. Tudo aquilo que se diz, todos os dias, que o país precisava para ontem e anteontem.

Não conheço nenhuma análise capaz de demonstrar que elas não irão beneficiar nossa infraestrutura, uma carência tão óbvia de nosso desenvolvimento que em breve será estudada por crianças de jardim de infância.

O debate é outro. O TCU encontrou indícios de irregularidades e, em nome delas, pretende que sejam paralisadas. Assim, como se fosse um esporte. Para empregar um termo jurídico, as hipóteses do TCU não foram transformadas em acusação, não viraram denúncia, não foram provadas e tampouco transitaram em julgado. Ainda assim, tenta-se parar as obras de qualquer maneira.

É irracional.

Caso se demonstre que as irregularidades não eram tão irregulares assim, os trabalhos podem ser retomados – dentro de meses, anos, quem sabe décadas.

Mas como é sempre possível encontrar indícios que levem a outros indícios, a paralisação pode se arrastar indefinidamente. Enquanto isso, as obras ficarão mais caras – caso não sejam abandonadas no meio do caminho. Boa parte do trabalho já feito terá de ser refeito. O desperdício ficará ainda maior.

Será uma boa ideia?

Não acho. Creio que ninguém tem dúvidas de que a busca do bem-estar da população é o primeiro princípio moral para toda atividade política legítima.

Desse ponto de vista, o mais adequado é fazer o possível para levar um investimento até o fim, tomando as providências cabíveis na medida em que as irregularidades sejam efetivamente comprovadas.

Os responsáveis podem ser obrigados, inclusive, a devolver recursos que foram desviados.

Pode não ser a solução ideal mas, na prática, é o mal menor. Em qualquer caso, aprende-se também no jardim de infância que a interrupção de uma obra serve, inclusive, para novas chantagens para que seja retomada de qualquer maneira.

Veja-se o caso do metrô paulistano.

É cada vez mais difícil negar que ele foi construído por empresas cartelizadas, que pagavam propinas para autoridades.

Lembrando que as primeiras irregularidades já eram conhecidas há duas décadas, pergunto se teria sido uma boa ideia suspender a construção do metrô até que tudo fosse esclarecido. Imagino quantas estações não teriam sido construídas, quanta linhas teriam sido paralisadas – e tento fazer uma ideia de como milhões de paulistanos estariam se virando para ir de casa para o trabalho. Penso no trânsito, no congestionamento de helicópteros e bicicletas, quem sabe no retorno de charretes à avenida Paulista.

Basta considerar todos os benefícios que o metrô – mesmo superfaturado – oferece à população da maior cidade brasileira para dar a resposta. O erro não foi construir o metrô, apesar dos deslizes e desvios, mas deixar de apurar as irregularidades e desvios quando eles foram descobertos.

É certo que teremos, agora, com as denuncias do TCU, uma pressão muito maior pela interrupção imediata.

A questão é política. Pode-se até imaginar que, como subproduto da insanidade ideológica dos fanáticos pelo Estado mínimo, pretende-se impedir os poderes públicos de levantar até aqueles investimentos que a iniciativa privada não tem a menor possibilidade de colocar de pé com seus próprios meios. Não duvide da ousadia de personalidades cada vez mais distantes da vida real e das aflições da maioria dos brasileiros. Sem votos junto a maioria do eleitorado, eles tentarão se valer de qualquer instrumento, inclusive um tribunal, para impedir qualquer iniciativa que possa beneficiar seus adversários.

Em ano pré-eleitoral, interessa à oposição bloquear investimentos que possam render melhorar a qualidade de vida da população e, por essa razão, engordar o cesto de votos do governo. E vice-versa. Isso vale para Dilma, mas também para todo governador, todo prefeito, que procura fazer não mais do que sua obrigação de melhorar as condições de vida da população.

A opção contrária é simples. Deixar o dinheiro dos impostos render juros para quem aplica na especulação financeira.

Esta atitude representa uma tentativa de boicote ao desenvolvimento do país.

Quem perde, na prática, é a população que deixará de receber melhorias e serviços que já foram pagos.

E isso é verdadeiramente imoral.

Leia Mais ►

Dilma: Até o fim da próxima semana 2.808 novos profissionais vão se integrar ao Mais Médicos


A presidenta Dilma Rousseff afirmou neste sábado (9), em sua conta no Twitter, que até o fim da próxima semana mais 2.808 novos profissionais de saúde vão chegar ao Brasil e se integrar ao Mais Médicos. Até o final do ano serão 6,6 mil médicos prestando serviços de atenção básica à saúde, beneficiando 23 milhões de brasileiros.





Leia Mais ►

Globo uma Ova!

Nove em cada dez estudantes de jornalismo sonham em sair da faculdade e ir trabalhar na Globo. Mesmo aqueles que não admitem isso publicamente pensam assim. Mas depois de ver o resultado do trabalho desses garotos: Deborah Reis, Guilherme Henrique, Janaína Luisa e Nalim Garzesi, começo a pensar que, pelo menos na classe deles, esta hipótese estatística está furada.

Eles se debruçaram sobre a história de um colega que decidiu jogar tudo para o alto e recomeçar (alguém acha que isso é fácil?). O resultado é uma reportagem completa, que virá impressa como se fosse uma edição especial da revista Brasileiros, muito bem diagramada, cheia de boas imagens, bem a exemplo da publicação, que circula nas bancas mais completas da cidade.


Fiquem com o texto: 

Luiz Carlos Azenha nasceu em 23 de novembro de 1958 e cresceu na cidade de Bauru, no interior paulista. Estudioso, sempre gostou de ler jornais ao lado do pai, um comerciante comunista conhecido como 'seo Azenha'. O hoje conhecido jornalista cresceu em plena época de ditadura militar no Brasil e lembra-se bem de quando ajudava o pai a esconder livros sobre comunismo no quintal de casa. Durante a infância, viu muitas vezes seu maior herói sendo perseguido e preso por policiais. "Meu pai era militante do Partido Comunista Brasileiro. Ele tinha uma vida clandestina em Bauru. De vez em quando, desaparecia, geralmente quando era preso. Minha infância teve muita tensão no ar, porque ele sumia sem dar explicações. Havia uma sensação de perigo e isso nos deixava extremamente ansiosos. Eu carrego isso até hoje", conta Azenha.

Apesar da ausência do pai em alguns momentos, Azenha foi um garoto feliz e brincava muito na rua, junto com o irmão. Sempre jogou futebol na frente de casa e também praticava tênis em uma quadra perto de onde morava. Porém, por causa da influência de seu pai nas leituras e do período da ditadura, escolheu muito cedo a profissão que seguiria por toda a vida. Sua primeira experiência com o jornalismo foi no jornal Abelhinha, que circulava no Instituto de Educação Ernesto Monte, colégio em que cursou o ensino médio. O nome do jornal era uma referência ao apelido do jornalista, que quando criança era chamado de "Abelhinha". Sérgio Tibiriçá Amaral, um colega de infância, conta como foi a produção do jornal escolar. "Eu conheci o Azenha no colégio, nós estudávamos juntos. O Azenha teve um jornalzinho, que se chamava Abelhinha, e uma das entrevistas que ele fez nessa época foi com o Osíris Silva - que também estudou no Ernesto Monte e era então presidente da EMBRAER. Na realidade, ele criou a EMBRAER. Foi uma das primeiras entrevistas do Abelhinha", conta Sérgio.

Ainda com 14 anos, Azenha começou a trabalhar em um tradicional veículo impresso de Bauru, o Jornal da Cidade. Nesse início de carreira, Azenha fazia de tudo um pouco, até transmissões internacionais de fotos por sinal de rádio, e teve como parceiro um colega de infância, Luiz Malavolta, que relembra como era a atmosfera do trabalho jornalístico naquela época. "A profissão acabara de ser regulamentada, faltava mão de obra e o jornal havia instalado um aparelho novo, o offset. A gente foi trabalhar nesse jornal, éramos uma espécie de estagiários, não tínhamos nem vínculo trabalhista. A gente era muito menino".

A infância de Azenha, embora marcada pela ditadura, também foi muito feliz. Sérgio conta um episódio da época: "Nós seguimos caminhos diferentes, ele foi para o Jornal da Cidade e eu para o Diário de Bauru, mas ele fez cada coisa... Uma vez, ele pregou uma peça no Malavolta, o Luiz Malavolta. Ele, eu e mais um ligamos pra casa de um cara lá. A tarde inteira ligamos e falamos: 'Alô, é da casa do Batatinha?'. Depois, o Azenha deixou um bilhete para o Malavolta: 'Senhor Malavolta, tem uma reportagem urgente, liga para o Batatinha'. O Malavolta não tinha telefone na casa dele, naquele tempo não havia muitos telefones. Então, ele foi ao jornal, ligou às 11 horas da noite para o cara e falou: 'Alô, é da casa do Batatinha?'. E aí falaram: 'Batatinha é a p*** que o pariu'."

Algum tempo depois, com 17 anos, o jornalista ganhou uma bolsa de estudos nos Estados Unidos e, com esforço de sua família para pagar a passagem, foi para Nova York, onde permaneceu estudando por um ano. A primeira experiência no exterior foi muito importante para a carreira do jornalista, que futuramente seria chamado para voltar aos Estados Unidos, já que esse período possibilitou-lhe adquirir um inglês fluente - o que não era comum na época - e uma profunda vivência no cotidiano naquele país. Ao voltar para o Brasil, fez seis meses de cursinho e saiu do jornal de Bauru. Juntou todas as economias que tinha acumulado ao longo dos anos e foi para São Paulo, iniciar seu curso de Jornalismo na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), em 1978. Porém, a faculdade foi um período muito difícil para Azenha, que precisava trabalhar para se sustentar. Sendo assim, um ano e meio após ingressar na ECA, voltou para sua cidade natal. "Eu fazia um semestre e, depois, fazia dois. Eu fiz um crédito na faculdade e levei muitos anos para terminar, quase sete anos", explica o jornalista.

Em 1980, com 22 anos, Azenha iniciou sua carreira televisiva na TV Bauru, afiliada da Rede Globo. Ele conta como foi essa transição: "A televisão caiu meio que do céu. Bauru foi uma das primeiras cidades do Brasil a ter sua própria emissora de TV. E, aí, quando surgiu a Globo, era aquela coisa do interior, poxa, a Globo vai contratar e tal, e fomos todos". Inicialmente, o jornalista não foi contratado como repórter, mas sim para trabalhar na redação, como editor. Foi quando o chefe de reportagem o chamou para fazer uma matéria de rua. Ele gostou da experiência e, desde então, não parou mais.

Em 1984, a afiliada da Globo em Bauru ganhava destaque por seu desempenho na programação e pelo crescimento de audiência. Então, houve uma grande expansão para o resto do interior paulista, principalmente São José do Rio Preto. Azenha foi convidado por seu chefe para assumir o cargo de diretor daquela nova sede e ganhar um salário de executivo. Mas, nesse período, ele ainda não tinha concluído o que considerava prioridade em sua vida - o curso de Jornalismo em São Paulo ainda se arrastava. Assim, Azenha deixou a Rede Globo pela primeira vez para voltar a São Paulo. A justificativa que deu para o chefe foi curiosa. "Sabe o que acontece, se eu ficar aqui em Rio Preto, provavelmente vou casar com uma fazendeira. Nada contra as fazendeiras, mas vou ficar aqui para o resto da vida, e não é isso que eu quero. Eu quero viajar, quero sair daqui".

Azenha fez as malas e voltou a São Paulo para finalmente terminar a faculdade em 1985. Foi quando por coincidência, coisa do destino, passou em frente ao Hospital das Clínicas, tradicional hospital paulistano, e encontrou o jornalista Heraldo Pereira, que conhecera quando trabalhava na Globo de Bauru. Heraldo fazia um link ao vivo para informar sobre o estado de saúde do presidente eleito em janeiro daquele ano, Tancredo Neves, que estava internado em estado grave. Conversa vai, conversa vem, Azenha ficou sabendo de uma vaga de repórter na TV Manchete, em São Paulo. Como estava desempregado, decidiu tentar e conseguiu entrar na emissora. Logo após sua chegada, fez uma cobertura que, para ele, foi marcante, sobre as eleições municipais de São Paulo, quando Jânio Quadros ganhou de Fernando Henrique Cardoso. "Transmiti uma coisa que foi vexatória de certa forma, porque no dia da eleição do Fernando Henrique... na verdade, a imprensa toda torcia pelo Fernando Henrique. O DataFolha fez uma pesquisa dando a vitória a ele e eu estava na redação da Folha transmitindo para a TV Manchete. Aí, vinha o resultado da eleição dizendo que o Jânio estava ganhando. Mas a pesquisa do DataFolha dava vitória do Fernando Henrique. Então, ficou aquele impasse, aquele mico no ar", explica Azenha.

Naquele mesmo ano, ainda na TV Manchete em São Paulo, Azenha foi surpreendido por seu chefe com um convite para substituir o então correspondente internacional, Antônio Augusto, da emissora em Nova York, que iria se casar e mudar para a Califórnia. Nessa época, seu inglês era fluente graças à passagem pelos EUA quando adolescente. Acostumado com a cultura americana, Azenha aceita o convite e vai para Nova York no dia 7 de dezembro. Inicia assim a sua jornada como correspondente internacional. O jornalista foi muito bem-sucedido nos Estados Unidos. Lá, cobriu diversas pautas políticas e econômicas, que entraram no jornal mais importante da casa, exibido para todo o Brasil, garantindo ainda mais audiência para a emissora. 


Em 2001, Azenha recebe um convite para voltar à Rede Globo, emissora em que já havia trabalhado na década de 1980, e segue em Nova York como correspondente internacional. Assim, foi um dos responsáveis pelas coberturas no exterior que entravam no Jornal Nacional. Entre 2001 e 2005, Azenha realizou as mais diferentes matérias. Em 2002, por exemplo, na cidade de Nova Délhi, na Índia, o jornalista preparava uma série de reportagens intitulada "O mundo da bola" para o JN, com enfoque voltado para a Copa do Mundo daquele ano, realizada na Coreia do Sul/Japão. "Era uma matéria sobre a exploração de crianças que costuram bolas", explica Azenha.

Na região de Jalandhar, norte da cidade, Azenha seguiu os passos de um produtor local, sem imaginar o que aconteceria a seguir. Na busca por imagens que comprovassem a exploração, Azenha e Sherman Costa, cinegrafista, conhecem, enfim, uma criança que era vítima de tal prática. A situação, no entanto, ganharia um contorno diferente do esperado pelos jornalistas. "Quando estávamos na casa de uma das crianças que costuravam, o pai dela chegou e se revoltou", conta Azenha. Não demorou para que a revolta tomasse conta dos habitantes locais, que não entenderam a proposta dos chamados "ocidentais". Depois de tentar negociar, Azenha levou socos e pontapés nas ruas indianas. "Eu, o Sherman e um produtor indiano da BBC fomos literalmente espancados. Roubaram minha câmera. Foram dez minutos de terror total. Para nossa sorte, um senhor da religião sikh, que deveria ser autoridade no local, pegou a chave do carro e nos deixou ir embora", conta.

Em 2004, Azenha vai ao Haiti para acompanhar a seleção brasileira de futebol em um amistoso promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU). O evento serviria para ajudar o país, devastado por anos de guerra civil. A reportagem, voltada para o futebol, ganhou novamente contornos sociológicos e humanitários logo nas primeiras impressões, segundo Azenha. "Nem na África fiquei tão impressionado com o cenário visto. Corpos aparecem jogados na rua toda manhã. As favelas brasileiras parecem bairros de classe média quando comparadas aos bairros de Porto Príncipe". Esse lado emotivo que Azenha às vezes esconde é exposto por seus colegas. "A princípio ele passa a impressão de ser uma pessoa fechada e dura, mas não é. Ele é extremamente generoso no olhar para os entrevistados, principalmente. Eu vejo como ele trata as pessoas, é sempre muito correto, muito aberto. Isso é uma característica muito marcante dele, que o faz ser um bom profissional e um amigo também", declara Márcia Cunha, colega de trabalho.

Em meio a uma missão de paz, todas as sensações se tornam ainda mais afloradas. O cenário no Haiti traduz uma situação que não deve ser entendida apenas pela ótica da razão, mas pelo sentimento de um povo que vive uma catástrofe por dia, sobretudo em um país que sempre foi assolado por disputas entre militares e guerrilheiros civis. Em um panorama deteriorado pela guerra, o esporte pode ser uma salvaguarda, segundo Azenha. "Aquele jogo entre as seleções ficou na memória como símbolo dos bons tempos. No período em que fiquei no Haiti, sorri com as crianças, fiquei triste com a miséria daquele lugar e com a falta de perspectiva das pessoas que vivem ali", o jornalista relembra.

Um ano antes de voltar ao Brasil, em 2005, para a cobertura que culminaria em sua saída das Organizações Globo, Azenha, ainda como correspondente internacional da emissora, vai ao Iraque acompanhar as missões de paz promovidas pela ONU no país, invadido pelas tropas militares norte-americanas após o atentado de 11 de setembro ao World Trade Center, em Nova York. Estava mais uma vez ao lado do cinegrafista Sherman Costa. Azenha descreve a ocasião. "Visitei o país semanas antes da ocupação americana. Os inspetores da ONU ainda estavam lá, procurando armas de destruição em massa. Armas que nunca foram encontradas". Em uma das últimas matérias internacionais antes de voltar ao seu país natal, mais uma vez se depara com um cenário pouco convidativo. "Durante a viagem, contei ao motorista muçulmano que a guerra chegaria em uma semana. Dias depois, a Operação Choque e Espanto, promovida pelo governo norte-americano, se confirmou", conta Azenha.

Em 2006, Azenha deixa os EUA e retorna ao Brasil como repórter especial da Rede Globo. A principal tarefa: cobrir as eleições presidenciais daquele ano, que tinham como candidatos principais Luiz Inácio Lula da Silva, que buscava a reeleição, e Geraldo Alckmin, do PSDB, representante da oposição. A partir desse momento, a passagem de Luiz Carlos Azenha pela emissora estaria com os dias contados. "Nessa cobertura eu vi como funcionava a cobertura política da Rede Globo. Fiquei chocado com o que vi", conta o jornalista. Coberturas tendenciosas e matérias que omitiam informações importantes eram constantes naquele momento. "A Veja fazia uma denúncia no sábado. Imediatamente, a Globo fazia uma reportagem sobre essa denúncia, sem investigar, checar ou apurar qualquer tipo de informação. Uma das matérias afirmava que o irmão do Lula tinha feito negócio com o Governo", acrescenta Azenha. No meio desse cenário conflituoso, abalado com tudo o que estava presenciando, o jornalista sofre uma grande perda em sua vida: a morte do pai. Azenha passa por momentos difíceis e se vê na obrigação de relembrar um passado feliz e ao mesmo tempo doloroso. Nesse momento de dor, conta com a amizade e o apoio de um amigo, Rodrigo Vianna, com quem divide até hoje o ambiente de trabalho. "Eu estava na redação quando ele recebeu a notícia de que o pai tinha morrido. Ele, uma pessoa provocativa e turrona, estava muito mexido, porque ia ter de lidar com as coisas do pai. Aí, eu vi que ele tinha um lado emotivo. Ele chegou pra mim e disse: não está fácil, agora que eu estou vendo o quanto meu pai foi importante pra mim", relembra Rodrigo.

A vida segue e o jornalista, agora sem o apoio do pai, encontra-se ainda mais indignado com tudo o que acontecia nas matérias sobre a disputa presidencial. Marco Aurélio Mello, outro amigo, editor de economia do Jornal Nacional naquele ano, destaca que algumas viagens a Brasília aumentaram o nível de desconfiança vivido por certas pessoas na redação de São Paulo. "Destacaram-me para ser editor do Azenha em 2005. Quando o PT caiu no escândalo do mensalão, a Globo transformou aquele acontecimento em algo desproporcional, levando em consideração outros escândalos que aconteciam simultaneamente", conta Marco Aurélio. De acordo com Vianna, que também se insurgiu contra as imposições da emissora, os chefes da Globo passaram um abaixo-assinado para todos os jornalistas. O documento dizia que os funcionários que o assinassem estavam de acordo e concordavam com tudo o que estavam sendo feito durante a cobertura eleitoral de 2006. "Eu me recusei a assinar. O Azenha me ligou e disse que também não tinha assinado. Era um absurdo", comenta Rodrigo. 

Os dois jornalistas reclamavam da preferência da emissora pelo candidato Geraldo Alckmin. Azenha se deixa então levar pela consciência política, forjada ainda em Bauru sob influência de seu pai, comunista na época da ditadura, e começa a perceber aquilo que considerava uma união de forças para atingir o então presidente Lula. "Ninguém me contou. Eu presenciei. Eles sempre divulgavam matérias contra o Governo do Lula, contra o PT, mas se havia alguma notícia sobre um escândalo do PSDB, eles não falavam no Governo do Fernando Henrique nem citavam o partido, só falavam que era no Governo anterior. Justamente para não falar do PSBD no ar. Era claro que eles tinham um lado", explica Azenha. 

Na época, indignados com a situação, o então editor de economia e outros profissionais responsáveis pelo setor no Jornal Nacional reportaram o erro aos diretores de jornalismo. "Houve uma reunião com Carlos Schroeder para reclamar da parcialidade na cobertura", explica Mello. Para tentar amenizar a revolta dos funcionários, o chefe da Globo decidiu então que Azenha faria uma reportagem repercutindo a capa da revista Isto É, que denunciava ter havido superfaturamento na aquisição de ambulâncias da rede pública estadual de saúde em São Paulo. O escândalo foi descoberto no Governo Lula, mas teve início no Governo Fernando Henrique. O superfaturamento ocorreu efetivamente durante o mandato de José Serra como governador de São Paulo. "Antes, eu já tinha feito uma denúncia sobre o PT e, nessa matéria, tive todos os recursos de que precisei. Agora, na denúncia das ambulâncias, eu não tive recurso nenhum. Achei muito estranho, mas conseguimos reunir informações suficientes. Porém, a matéria nunca foi ao ar. Aí, a ficha caiu de vez", conta Azenha.

Para o jornalista, não há problema em um veículo defender um partido politico, desde que isso seja assumido e não se tente enganar a população. "Se a Globo disser que defende o PSDB, ótimo. Deixa-se claro para o público. Mas como TV é uma concessão pública, eles não fazem isso", explica. Grande parte dos veículos, sejam eles impressos, televisivos ou até mesmo virtuais, não assume uma postura política clara, pois, de forma geral, são empresas capitalistas. Há um interesse político e principalmente econômico, já que o Estado é um grande provedor de verbas publicitárias. O jornalista e sociólogo Laurindo Leal Filho explica por que a emissora não deixa explícita sua postura política. "Grande parte dos recursos da Globo vem do Governo Federal", diz Laurindo.

Em 2007, insatisfeito com tudo o que presenciou na maior emissora brasileira e cansado de tanta manipulação, Azenha liga para seu chefe, Carlos Schroeder, pede a rescisão de seu contrato e deixa a Rede Globo pela segunda vez. "Ele fez uma maluquice. Abriu mão do contrato dele, foi para Washington, ficou sem ganhar dinheiro e sem trabalhar", lembra Mello. Na época, Azenha fez um acordo com a emissora. Como encerrou seu trabalho antes do previsto em contrato, teve de ficar quase dois anos fora da televisão, e não poderia ingressar em nenhuma outra emissora para não pagar a multa rescisória.

Conforme acordado, o jornalista ficou distante de sua profissão. Porém, nesse meio tempo, Azenha não ficou parado. Foi para Washington, nos Estados Unidos, para estudar sobre internet e descansar um pouco, depois de tantos anos de trabalho. Além disso, manteve por alguns meses uma coluna no portal Terra. Já no final de 2008, logo após sua volta para o Brasil, foi convidado para trabalhar na principal concorrente da Globo, a Rede Record. Após o fim do período acordado de afastamento, volta à televisão e estreia no Jornal da Record com matérias especiais. "Em outubro, cheguei à TV Record. Aceitei o projeto por causa da liberdade dada pela emissora. Ela não opina sobre meu blog, isso é muito importante. Eles não mexem no meu texto, prática muito comum na Rede Globo. Aqui, é como se o profissional tivesse oxigênio, fator fundamental para todo jornalista. Eles me contrataram sabendo da minha história e isso faz toda a diferença", explica Azenha.

Feliz com sua chegada, Azenha logo reencontraria antigos amigos de trabalho, como Rodrigo Vianna, Marco Aurélio Mello e Luiz Malavolta, e ganha liberdade para a criação de diferentes pautas, o que o fez sentir-se ainda mais à vontade. "Você não poder colocar sua voz no seu trabalho é uma frustração muito grande. Para mim, foi muito bom reencontrar minha voz", acrescenta Azenha. De que a Globo e a Record são concorrentes ferrenhas, ninguém duvida. As duas emissoras já vinham trocando reportagens com acusações mútuas havia algum tempo. A rede carioca tinha acusado o bispo Edir Macedo, dono da Record, de desviar dinheiro dos fiéis da sua Igreja para a emissora. Mas com Azenha e Rodrigo Vianna na equipe, as matérias contra a emissora da família Marinho se intensificaram. 

Em julho de 2012, a Record fez uma denúncia contra o então presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira. Na matéria, era sugerido que o cartola da CBF tinha sido subornado, junto com João Havelange, seu ex-sogro, pela Rede Globo, para garantir à emissora os direitos de transmissão da Copa do Mundo. A denúncia mostrava que o valor recebido chegava a quarenta e cinco milhões de reais. Um documento provava que, logo após a negociação, Teixeira tinha comprado uma fazenda milionária no Rio de Janeiro e aumentado seu patrimônio. Logo após a matéria, exibida no Jornal da Record, Teixeira renuncia ao cargo. "Essa é uma matéria de que eu me orgulho muito. É satisfatório quando você consegue fazer uma coisa inédita", Azenha afirma. 

Também marcou muito a carreira do jornalista na Record uma série de reportagens especiais sobre o período da ditadura militar e suas vítimas, exibida em junho de 2013. "A Globo cresceu em função da ditadura. Ela foi escolhida pelos militantes para ser uma parceira. Ela contou com vários benefícios do Governo. Quando os manifestantes dizem na rua que a Globo é um filhote da ditadura, é verdade. Ela só dava informações que interessavam ao governo e seus sócios", argumenta Azenha. Porém, essa declaração do jornalista gera muita polêmica, pois, mesmo sabendo de toda a história da emissora carioca, ele trabalhou nela durante muitos anos. Para André Lux, blogueiro também afinado com o jornalismo alternativo na web, as declarações de Azenha contra a Globo são fruto "de puro rancor". Laurindo Leal Filho acredita que a Record dá esse espaço para Azenha porque está em busca de audiência. "A matéria sobre a ditadura foi uma questão mercadológica. Eles querem bater de frente com a Globo, querem ganhar audiência. A Record usa a estratégia de copiar a forma da Globo, por ter aceitação imediata do público, mas em conteúdo abre um espaço maior", explica Laurindo.

O filho do comerciante de Bauru produziu essa série especial com uma emoção a mais, pois ele próprio também foi uma das vítimas da ditadura. Assim, pôde relembrar um pouco de sua infância difícil. Na produção da série, Azenha trabalhou com uma amiga que conheceu na redação, mas com quem tem uma amizade fora dela também, a editora Márcia Cunha. "Quando o Azenha chegou aqui, a primeira matéria dele fui eu quem editou. Era uma série sobre profissões perigosas, e a gente se deu superbem. Muitas vezes, é difícil trabalhar com ele, mas não no sentido de ser inviável ou de ser desagradável. Ele é muito inquieto, não se conforma com a notícia, com o que é dado de cara. Ele sempre desconfia do que pode estar por trás da notícia. A gente fica muito tempo na redação discutindo um tema, é um mergulho no assunto. É uma parceria legal". 

O tema da série sobre a ditadura surgiu a partir de um seminário realizado na Comissão da Verdade Nacional, que acontecia em São Paulo. Azenha teve acesso aos depoimentos dos filhos de pessoas que foram torturadas no período militar. Para Márcia, foi um trabalho bem marcante, pois havia histórias muito fortes de sofrimento. "O Azenha sugeriu essa pauta na redação e me chamou para fazer parte do projeto. Fazer essa revisão histórica, poder colocar na televisão uma matéria tão grande sobre um tema muito árido... Poucas emissoras abertas dariam espaço para isso. A gente pôde falar abertamente sobre tudo e tivemos liberdade total. O resultado deixou a gente bem feliz", acrescenta Márcia. Azenha concorda que há liberdade na Record, mas admite que a emissora também tem seus limites. "A gente não faz tudo o que quer no lugar que trabalha. Aqui na Record também há restrições."

Em julho de 2013, Azenha trabalhou em mais uma denúncia contra a Rede Globo. A notícia surgiu na internet, quando Miguel do Rosário, blogueiro conhecido no chamado meio alternativo, publicou em seu site documentos que mostravam uma dívida da emissora carioca com a Receita Federal. A Globo foi multada pela Receita por sonegar cento e oitenta e três milhões de reais de impostos durante a compra dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002. De acordo com os documentos apresentados, a Globo criou uma conta nas Ilhas Virgens Britânicas, livre de impostos fiscais, para burlar a lei. Em 2006, juntando a multa e os juros, a dívida já somava mais de seiscentos milhões de reais. Além disso, a emissora também era investigada por uma possível ligação com uma funcionária da Receita Federal, chamada Cristina Maris Meinick Ribeiro, que teria sumido com o processo de investigação. A mulher foi condenada pela Justiça Federal do Rio de Janeiro e ficou presa apenas alguns dias, pois conseguiu um habeas corpus. 

Até o momento, a emissora não mostrou o DARF, documento que comprova o pagamento à Receita. Logo após a publicação da denúncia, a repercussão foi imediata. Um grupo de blogueiros, incluindo Azenha, divulgou a notícia pela blogosfera. Acuada, a Rede Globo emitiu uma nota em seu site, G1, defendendo-se da acusação: "Ao contrário do que vem sendo divulgado por alguns sites, as Organizações Globo não têm qualquer dívida em aberto com a Receita Federal ou outros entes arrecadadores de tributos. Quanto à publicação de documentos confidenciais, protegidos por sigilo legal, acreditamos que o assunto será apurado pelos órgãos competentes". O jornalista, sempre disposto a trazer as notícias da internet para a TV, sugeriu essa notícia como pauta para a Rede Record, que, no mesmo mês, divulgou duas matérias que mostravam à população a dívida da Globo.

Mesmo com os momentos de conflito na emissora carioca, não é possível apagar toda a história que Azenha construiu lá dentro. O jornalista coloca na balança tudo o que viveu e conclui: "Minha passagem pela Globo teve dois lados. Eu também fiz coisas fascinantes lá. Foi um aprendizado muito grande. Mas a fase final foi uma constatação surpreendente, eu não esperava. Mas a repercussão foi uma coisa boa, se isso não tivesse acontecido, eu não teria me libertado". Cleyton Torres, jornalista e integrante do Observatório da Imprensa, acredita no potencial do repórter e na sua importância para a televisão brasileira. "Azenha tem histórico, tem uma bagagem de conhecimento respeitável e, por isso, conseguiu conquistar seu espaço", explica Cleyton. O jornalista, professor da ECA e especialista em ética, Eugênio Bucci, conclui: "Sempre fui fã e sempre gostei muito do trabalho do Azenha. Ele é um profissional de bagagem, que conhece os padrões, conhece os critérios e sabe o que faz."

VioMundo
O que você não vê na mídia 
Nem nos manuais de redação

Azenha sempre foi apaixonado pela internet. Em 2003, trabalhando em Nova York como correspondente internacional da Globo, resolveu criar o seu próprio blog. No início, a intenção era modesta: apenas abrir um espaço para discutir política, além de contar suas experiências e os bastidores do seu trabalho. "Eu comecei a ficar extremamente insatisfeito porque as minhas matérias internacionais tinham apenas 60 segundos no Jornal Nacional. No blog, eu poderia escrever tudo o que não tinha saído na televisão", explica Azenha.

Em 2006, o site tomou um novo rumo. O jornalista, já em São Paulo, mas ainda trabalhando na Globo, começou a publicar denúncias políticas. No segundo semestre do mesmo ano, aproximando-se as eleições que Lula e Geraldo Alckmin disputavam para chegar à Presidência do Brasil, surgiu uma denúncia de que o PT havia comprado um dossiê contra o candidato tucano. Perto do dia da votação, fotos do dinheiro usado na compra do dossiê vazaram na internet. Azenha teve acesso a uma gravação exclusiva e sigilosa. "Era uma conversa entre o delegado Edmilson Bruno, da Polícia Federal, e um grupo de jornalistas. Esse delegado vazou as fotos do dinheiro. Mas ele só divulgou em cima da hora, o que dava a entender que havia sido comprado para arranjar um escândalo perto das eleições. Essa gravação mostrava o delegado falando, editando com os jornalistas. Ele falava: 'Nessa imagem coloquem Photoshop. Eu vou dizer para todo mundo que foi uma faxineira que pegou as fotos do computador'", conta o jornalista. 

Com uma denúncia tão grave nas mãos, Azenha resolveu divulgar em seu blog a gravação (à qual, por sinal, a Globo também teve acesso, mas preferiu não divulgar). Logo após a publicação no VioMundo, Azenha recebeu uma ligação de seu chefe, Carlos Schroeder, perguntando por que ele havia colocado aquela matéria no blog, já que era repórter da Globo. "Eu coloquei no meu blog porque era uma informação relevante. A Globo foi uma das emissoras que divulgou o escândalo, mas não veiculou a conversa dos bastidores. Com isso, eu já fiquei estremecido. Mas o meu blog bombou. Foi um salto de audiência", explica Azenha.

Desde então, o blog tornou-se referência para a chamada blogosfera progressista, mídia que não para de crescer e tem como objetivo criar um contraponto à mídia tradicional, como explica Cleyton Torres, jornalista e integrante do Observatório da Imprensa: "Os blogs são fundamentais para a fomentação de novas ideias, críticas e opiniões. Eles dão às pessoas a possibilidade de enxergar das maneiras mais diversas o outro lado da moeda; cabe a essas pessoas, posteriormente, aderirem à visão que julgam conciliar com seus valores". A jornalista e blogueira Sônia Amorim afirma que "um blog progressista deve estar antenado com atitudes avançadas, cidadãs e democráticas". André Lux, jornalista e blogueiro, completa: "Trata-se de lutar pelos excluídos, por justiça social, por igualdade de direitos, pela igualdade racial, pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, pela democracia. É ser contra o neoliberalismo e os atores políticos e sociais que o defendem".

Porém, ao mesmo tempo em que os jornalistas têm mais espaço para expor suas opiniões na internet, também acabam enfrentando outros dilemas, como as questões envolvendo a honra e a imagem de uma determinada pessoa. Azenha conhece bem esse problema. Em março de 2013, o jornalista foi condenado a pagar uma indenização de trinta mil reais por danos morais a Ali Kamel, diretor de jornalismo na Rede Globo. Kamel alegou que sofreu perseguições pessoais de Azenha, veiculadas no site VioMundo, e que seu nome foi citado mais de 28 vezes no blog desde 2008, destacando que as publicações foram difamatórias e causaram danos à sua vida pessoal. "Na época eu fiquei muito revoltado, gastei uma grana com advogado", conta Azenha. 

A atuação de Azenha no episódio divide opiniões. Miguel do Rosário, do blog Cafezinho, acredita que as críticas de Azenha foram somente políticas e que o blog é uma ferramenta pessoal, no qual ele pode publicar sua opinião sobre fatos atuais e pessoas públicas, sendo Kamel uma delas. Já para André Lux, a liberdade de expressão ultrapassou o seu limite e as críticas não foram tão políticas assim. "Os textos dele e dos outros ex-globais contra o Kamel foram de uma estupidez sem tamanho. Poderiam ter feito mil críticas ao trabalho dele, mas partiram para o lado pessoal, com brincadeiras de mau gosto, e aí abriram uma brecha para que ele os interpelasse na justiça", explica. Alvaro Benevenuto, também jornalista e pesquisador de redes sociais, acredita que Azenha "assumiu o risco de ofender alguém, mesmo sendo pessoa pública. É uma questão ética do jornalismo".

Cleyton Torres explica que "a liberdade nos blogs, tão almejada por alguns profissionais, acaba sendo confundida com quebra de leis, difamação e injúria. A linha tênue entre o pessoal e o público é muito delicada". Alvaro acrescenta: "O limite está na ética pessoal e profissional, nas regras básicas da convivência em sociedade e nos instrumentos de regulação da vida nacional". Para Eugênio Bucci, as discussões nos blogs e as diferentes posições políticas fazem com que a democracia exerça seu papel e se fortaleça. "O fundamental é que, na sociedade, todas as pessoas tenham voz", explica Bucci. Cleyton ainda acrescenta: "O que é ofensivo para um pode não soar ofensivo para outro. Por ser  o blog um canal independente e com tom político, aqueles contrários às suas opiniões podem enxergar uma brecha em suas colocações, o que geraria processos. O fato de ser processado algumas vezes pode significar que ele está saindo da linha ou, no mais, que está atingindo as pessoas certas".

Azenha não foi o único a ser processado por Ali Kamel. A onda de críticas contra ele, que afetava diretamente a imagem de empresários, políticos e governos, fez com que mais ações judiciais fossem movidas contra os blogueiros progressistas. Rodrigo Vianna, repórter, e Marco Aurélio Mello, editor de texto, ex-funcionários da Rede Globo, também foram processados e condenados a pagar indenizações a Kamel. Paulo Henrique Amorim, apresentador do Domingo Espetacular, programa semanal da Record, também não ficou de fora e foi condenado. As indenizações variam entre dez e cinquenta mil reais. Porém, há outros jornalistas na blogosfera que não podem arcar com os processos e advogados. Por isso, em abril de 2013, foi criado pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, instituição cujo objetivo é democratizar a comunicação na rede, um fundo financeiro para auxiliar no custo dos processos de quem não tem verba suficiente.

Independentemente de postura política, os blogs acrescentam e muito na construção da notícia e da verdade. O grupo de blogueiros progressistas também conta com a presença de Rodrigo Vianna, Marco Aurélio Mello e Paulo H. Amorim, jornalistas da Rede Record. Porém, há quem diga que este grupo, privilegiado por poder fazer um intercâmbio de informações da internet para a televisão, é fechado e não aceita opiniões. André Lux afirma que "alguns blogueiros que têm mais destaque e leitores formaram uma espécie de 'clubinho' fechado, por meio do qual tentam manipular e dirigir o resto da blogosfera. Cheguei à conclusão de que isso era um absurdo, porque o caráter principal dos blogs é justamente a independência e a pulverização. Assim, tentativas de guiar ou liderá-los me parece algo que vai contra seu princípio básico. "Quando expressei essa minha opinião a alguns desse grupo de 'medalhões', passaram a me hostilizar em seus blogs". Sônia Amorim concorda com André e ainda acrescenta: "Eles vêm do jornalismo, são macacos velhos, veteranos. E ainda por cima dispõem de toda a estrutura de uma Rede Record por trás, fora os salários. No meu entendimento, eles tentaram se apropriar da blogosfera política, passaram a organizar eventos, encontros... Isso traz vantagens financeiras, lucros, patrocínios, não? Azenha e Paulo H. Amorim, sobretudo, são 'cobras criadas' do jornalismo. Não os considero blogueiros, mas jornalistas que mantêm blogs".

Já Altamiro Borges, presidente do Centro de Estudos Barão de Itararé, acredita que os chamados medalhões ajudaram muito no crescimento e no movimento da blogosfera. "Desculpem-me os blogueiros, mas se não fossem essas figuras, que têm tanta visibilidade, o movimento da blogosfera teria muitas dificuldade. Existiria, mas com muito mais dificuldade", explica Altamiro. 

Desde setembro de 2007, Azenha conta com a colaboração da também jornalista Conceição Lemes para a produção de notícias no blog. Conceição explica como começou a trabalhar com Azenha: "Eu era leitora e comentava de vez em quando no VioMundo. O Azenha e eu começamos a trocar mensagens sobre um determinado assunto nos comentários. Então, ele me convidou para fazer uma reportagem sobre a febre amarela. Inicialmente, as minhas contribuições eram esporádicas. Mas, aos poucos, foram ficando cada vez mais assíduas". 

Devido ao seu trabalho de repórter especial na Rede Record, às constantes palestras de que participa e aos projetos de livro que toca paralelamente, muitas vezes Azenha acaba se ausentando de São Paulo e até mesmo da internet. Sendo assim, quando o jornalista não consegue publicar, Conceição administra toda a produção. "Faço de tudo no site: modero os comentários dos leitores, seleciono matérias, posto-as, sugiro pautas, faço reportagens etc. Azenha e eu somos editores. Na prática, somos pau para toda obra. Nós dois tocamos o VioMundo", explica a jornalista. O blog recebe colaboração pontual dos internautas. Todos os leitores do site podem produzir uma matéria e sugeri-la para publicação. Mas Azenha explica que "a tendência é o blog ter cada vez mais conteúdo próprio e produção interna". 

Atualmente, o VioMundo, que conta com mais de cem mil leitores diários, se mantém graças ao salário que Azenha recebe na emissora em que trabalha. O site também recebe contribuição voluntária de seus fiéis leitores. "Eu assumi um compromisso com os meus leitores. Todo o dinheiro que for doado voltará para a produção do blog, que é uma mídia colaborativa. Quero que a pessoa tenha a satisfação de ler ali o que ela não encontra em nenhum outro lugar", confirma Azenha. O jornalista não aceita publicidade pública em seu site, posição que gera discordância por parte de Altamiro Borges. "Ele acha que isso pode criar um tipo de vínculo. Eu discordo dele. Não tem cabimento o governo federal dar verba para Globo, Veja, Folha, Estadão, sendo que é dinheiro meu também, uma vez que eu pago imposto. Portanto, isso é um direito meu também, eu não acho justo". 

Conceição, braço direito de Azenha no VioMundo, explica: "Fazemos campanha com os leitores para financiar o site, já que nós não aceitamos recursos de governos e não queremos depender de corporações. Aos poucos, o dinheiro que estamos arrecadando com as assinaturas dos leitores já nos permite encomendar algumas reportagens".

Azenha garante que seu site é apartidário, que ele apenas expõe sua opinião política. "Meu blog é de esquerda, defende ideias de esquerda. Quando o PT segue políticas que são de esquerda, a gente defende. Quando o PT tem ideias de direita, a gente critica. A esquerda é aquela que defende o interesse público. Eu sempre tive ideologia de esquerda e meu blog é assim", comenta Azenha. 

Como repórter da Record, ele garante que a emissora não interfere em seu blog: "Ninguém pega no meu pé em relação à minha posição política e ninguém interfere no meu blog". Porém, não são todos que acreditam no discurso de esquerda. O jornal Luta Operária, em uma publicação no dia 7 de junho de 2011, expôs sua opinião sobre a posição política dos "medalhões": "Os 'blogueiros' 'chapa branca' limitam-se a atacar uma já decadente mídia golpista (a qual denominaram PIG) e não o pacto oligárquico iniciado no governo Lula com a dinastia Sarney no Maranhão e outros estados, além de preservarem a Rede Record, do bispo Edir Macedo, onde, diga-se de passagem, alguns estão empregados. Os blogueiros governistas tratam de proteger Dilma e "escondem" consciente e criminosamente Sarney (e outros falsos intelectuais corrompidos) das críticas, semeando ilusões pequeno-burguesas na administração petista". 

Para o jornalista e sociólogo Laurindo Leal Filho, o governo precisa estimular formas alternativas de mídia, descentralizando o poder que se concentra em algumas famílias pelo Brasil. "Em um país em que oito ou nove famílias concentram a comunicação e estabelecem o pensamento único, cabe ao governo estimular e fortalecer a imprensa e o jornalismo alternativo, que estão nas emissoras públicas e nos blogs, por exemplo. A sobrevivência desses meios deve acontecer, também, por meio do financiamento público". 

Altamiro acrescenta dizendo que essa nova mídia precisa de uma regulamentação: "Para garantir a verdadeira liberdade de expressão, democratizar a blogosfera".

Com planos para o futuro, Azenha almeja ter sua própria rede de televisão no blog. "Acho que vai demorar um pouco ainda. Primeiro, por causa de dinheiro; segundo, porque no Brasil somente quarenta por cento da população tem internet de qualidade em casa. Então, é um sonho de médio prazo. Preciso levantar capital. Seria uma outra pegada, mais à esquerda, mais fora do eixo tradicional, continuando com críticas e denúncias", conclui o jornalista. Ele diz que, quando tiver a oportunidade de se sustentar somente com o dinheiro da blogosfera, deixará a televisão.

No DoLaDoDeLá
Leia Mais ►