27 de out de 2013

O desespero do clã Sarney

Sob o risco de perder o poder no Maranhão pela primeira vez em quase meio século, a família do ex-presidente lança campanha predatória contra o principal candidato da oposição

2.jpg
CAMINHOS INCERTOS
A governadora do Maranhão, Roseana Sarney, e
seu pai: denúncias para atingir os adversários

Em quase meio século de domínio no Maranhão, o clã Sarney nunca correu tanto risco de perder o poder. Os sinais de esgotamento começaram a surgir nos protestos que tomaram as ruas de São Luís em junho e ganharam mais substância nas últimas pesquisas de intenção de voto para 2014. Em todas elas, os candidatos apoiados por José Sarney, inclusive sua filha Roseana, atual governadora, patinam em índices de popularidade incomuns para quem ditou os rumos políticos do Estado por tanto tempo. A maior ameaça à hegemonia dos Sarney chama-se Flávio Dino, que lidera as pesquisas para o governo do Estado com quase 60% de apoio, índice que o credencia a liquidar a eleição no primeiro turno. Exatamente por isso, o ex-deputado federal do PCdoB, ex-juiz e atual presidente da Embratur tornou-se alvo de uma campanha implacável de difamação que expõe o desespero de quem não está acostumado a ser oposição.

Um dos principais escudeiros da família Sarney na batalha contra Dino é o deputado federal Chiquinho Escórcio (PMDB/MA), que tem feito uma devassa nas contas da Embratur em busca de problemas que comprometam o presidente do órgão. Escórcio acaba de protocolar requerimento ao Ministério do Turismo questionando a Embratur sobre a decisão de abrir 13 escritórios de representação no Exterior. Ele também denunciou Dino à Comissão de Ética Pública da Presidência, acusando-o de usar o cargo para fazer campanha antecipada no Estado. “Dino trabalha em Brasília de segunda a quarta e viaja na quinta para o Maranhão. Quem você acha que está pagando isso?”, questiona Escórcio. Com a experiência de quem já travou nas urnas uma disputa com os Sarney em 2010, Dino diz que não cometeria tal deslize. “Todas as viagens não oficiais são pagas pelo PCdoB ou por mim”, garante. O presidente da Embratur diz que fica no órgão até o meio-dia de sexta-feira e só faz campanha depois das 18 horas.

SARNEY-03-IE-2293.jpg
ALVO
Presidente da Embratur e rival dos Sarney,
Flávio Dino lidera as pesquisas para governador
 

As denúncias feitas por Escórcio ganharam destaque nos veículos que integram o Sistema Mirante de Comunicação, da família Sarney. No domingo passado, o jornal “O Estado do Maranhão” publicou reportagem sobre obras-fantasmas que teriam recebido emendas parlamentares do próprio Dino, quando era deputado federal. Foram R$ 5,6 milhões para a construção de ginásios e campos de futebol na cidade de Caxias. As obras, porém, existem e já foram inauguradas. Há poucos dias, Dino teve que se defender de outra denúncia, a de que recebia salário da Universidade Federal do Maranhão mesmo sem dar aula. Uma nota oficial da própria universidade desmentiu a acusação. Os sucessivos ataques do clã Sarney levaram Dino a revidar. Em denúncias ao Ministério Público, acusa o secretário de Infraestrutura do Maranhão e pré-candidato ao governo, Luis Fernando Silva, de usar helicóptero oficial para reuniões partidárias. O PCdoB de Dino também questiona o que chama de “manipulação do orçamento” por parte da governadora Roseana Sarney. “A análise da lei orçamentária mostra que Roseana cortou verbas de saneamento, educação e segurança pública, enquanto triplicou o orçamento de Infraestrutura, pasta do pré-candidato deles”, afirma o deputado estadual Rubens Júnior (PCdoB).

1.jpg 

O ex-presidente também entrou na briga. Nos artigos que publica aos domingos em seu jornal, Sarney encarna o papel de vítima e se diz perseguido por uma oposição movida por “ódio, inveja, ressentimento e ambição desmedida”. O grau de irritação do velho senador aumentou depois que o Palácio do Planalto se mobilizou em prol de Dino. Sarney ameaçou sabotar o palanque de Dilma em vários Estados e agora negocia uma solução para o imbróglio. Na quinta-feira, arquitetou-se em Brasília um plano para um acordo capaz de agradar às duas partes. O vice-governador de Estado, Washington Luiz de Oliveira, do PT, trocaria o governo por um assento vitalício no Tribunal de Contas. Assim, Roseana poderia se licenciar para concorrer ao Senado sem o risco de um petista assumir o governo e virar a máquina estadual contra o PMDB. O Palácio do Planalto apoiaria Roseana e tentaria interditar o palanque estadual para Eduardo Campos. O problema é que o PSB de Campos é aliado tradicional do PCdoB e Dino já se comprometeu com o socialista. “Podemos abrir o palanque para todos os aliados que tiverem candidatos à Presidência, inclusive o PT”, diz Dino. A batalha, como se vê, exige uma complexa engenharia política. A única certeza é que, pela primeira vez em muitos anos, os Sarney têm motivos reais para entrar em desespero.

Claudio Dantas Sequeira
No IstoÉ
Leia Mais ►

Os primeiros ensaios das eleições de 2014


A última pesquisa Ibope traz algumas informações que devem ser relativizadas e outras relevantes.

No primeiro grupo, os índices de aprovação dos novos candidatos em comparação com os que participaram de eleições presidenciais. Políticos como José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva são mais conhecidos do que Aécio Neves e Eduardo Campos.

Mesmo assim, chamam a atenção as seguintes conclusões:

1.    Na pesquisa espontânea (na qual os pesquisados indicam seu candidato espontaneamente), Dilma recebeu 21% das indicações, Aécio 5%, acima dos 4% de Serra, dos 2% de Campos e abaixo dos 6% de Marina.

2.    Entre eleitores com ensino superior, Dilma cai para 15%, Marina sobe para 11%, Aécio vai para 7%, acima dos 5% de Serra e dos 3% de Campos.

3.    É curioso avaliar o desempenho de Serra no extrato superior e no extrato inferior de renda. No superior, fica com 4%, atrás dos 17% de Dilma, 10% de Marina e Aécio. No extrato inferior, cai para 2%, contra 33% de Dilma, 3% de Campos, 3% de Marina a 0% de Aécio.

* * *

No caso da pesquisa dirigida (aquela em que o entrevistado recebe uma cartela com nomes de candidatos), Dilma Rousseff reina absoluta em qualquer cenário. Tem 41% de preferência em um cenário com Marina (22%), Aécio (14%) e Campos (10%). E com expressivos 22% de brancos e nulos.

Sem Marina, Dilma mantém os 41% contra 14% de Aécio e 10% de Campos. E os mesmos 22% de brancos e nulos. Entrando Marina no lugar de Campos, Dilma cai levemente para 39%, Marina vai para 21% e Aécio para 13%.

Dilma mantém 40% em um confronto com Serra (18%) e Campos (10%).

* * *

Mas o ponto central de análise é a taxa de rejeição. É ela que determina o teto de cada candidato.

Três candidatos ficam na faixa de 40% de rejeição – Aécio com 40%, Dilma com 38% e Campos com 39%. Serra salta para expressivos 47% e Marina cai para cômodos 31%.

À medida que os candidatos se tornem mais conhecidos e a batalha, mais acirrada, haverá aumento da taxa de rejeição dos demais.

* * *

Nas eleições, os candidatos não constroem a imagem de forma homogênea. Nas classes de menor renda, sobressaem as impressões sobre cada candidato, sua capacidade de se mostrar mais ou menos solidário com os mais pobres.

Fica evidente nas pesquisas a dificuldade do PSDB em desenvolver um discurso minimamente atraente para essas faixas. Mas é curioso que o discurso ecológico de Marina – visando os leitores de média e alta renda – é mais forte do que sua origem humilde – que poderia provocar alguma identificação nos eleitores de menor renda. Decididamente, até agora eles não parecem se identificar com ela.

* * *

Há uma faixa de formação de imagem que passa pelo discurso político, pela visão programática. Nesse campo, Dilma se alicerça no discurso social do PT e do lulismo. E Marina herdou o contraponto do discurso neoliberal – que está migrando rapidamente do PSDB para ela.

Aécio e Campos são candidatos ainda à procura do discurso.

Aécio teria algumas boas experiências mineiras para mostrar. Mas parece preso a um invencível sentimento de inferioridade em relação ao núcleo paulista do PSDB – que oscila entre o discurso vazio de FHC e o fundamentalismo de Serra.

Luis Nassif
No GGN
Leia Mais ►

À ombudsman da Folha: rottweiler não é Reinaldo Azevedo, mas os cachorros grandes


A contratação de Reinaldo Azevedo foi, certamente, uma bofetada nos profissionais da Folha de S. Paulo que, apesar do que o jornal faz, ainda acreditam que existe algum equilíbrio no matutino da Barão de Limeira.

Não porque Reinaldo, como qualquer outro profissional, não tenha direito a trabalhar em qualquer jornal. Tem, mas ninguém o contratou para fazer títulos, leads ou copidesque.

O motivo  de darem-lhe um espaço nobre do jornal não foi outro senão o de “importar” para as páginas da Folha o mais grosseiro, incondicional, feroz e intransigente panfletário da direita.

(Reparem que não incluí nem inteligente nem eficaz entre os adjetivos)

Em relação à sua ombudsman, Suzana Singer, foi, sim, uma atitude ofensiva, porque lhe cabe, para mal de seus pecados, ter de sustentar que o jornal segue, no que diz  respeito ao debate de ideias, uma linha de equilíbrio e respeito à diversidade.

Mas, infelizmente, é também um momento para refletir como é injusto, em sua coluna, que as críticas da blogosfera ao jornal sejam tratadas como “selvageria” ou “guerrilha cibernética”. Até porque Azevedo não será o primeiro, nas páginas da Folha, a tratar pessoas abaixo da linha de dignidade.

E nunca isso mereceu um reparo civilizador.

A extensa lista de questões deste blog com a ombudsmanque pode ser revisada aqui – jamais descambou para a grosseria e o ataque pessoal. Políticos, sim.

Não vejo em que Reinaldo Azevedo seja pior do que um Merval Pereira. Ao contrário, considero-o mais sincero e, por isso, menos criticável. Sobre isso, aliás, escrevi na sexta: “Ele tem o mérito de ser sincero em suas ideias obtusas e explícito nos seus pensamentos, ainda que estes possam ser filosoficamente obscenos.”

O que merece discussão, sim, é a atitude da Folha ao torná-lo um dos seus colunistas. Depois de ter excluído gente do gabarito de Paulo Nogueira Batista Jr, soa como uma opção preferencial não apenas pelo reacionarismo como pela grosseria.

E não o compensa o comentário de Suzana sobre o fato de ter chamado também Ricardo Melo para ter um espaço, sob a alegação que seu passado de “dirigente estudantil trotskista” seria um contrapeso à esquerda. Isso não diz nada sobre ninguém: afinal, o próprio Azevedo também foi adepto de Leon Trotski.

Quem está na berlinda é a Folha, a mesma Folha que publicou fichas policiais falsas de Dilma Rousseff e acusações, depois negadas pelo acusador, de corrupção na Casa Civil do governo Lula, sem nada que as sustentasse senão um personagem de passado sombrio.

No serrismo incondicional de Reinaldo é que se devem buscar as razões para sua entrada triunfal na Folha, não a seu diretismo, mais folclórico que ameaçador.

De resto, não se deve responder à mordida com mordida.

É fácil bater na figura caricata de “Tio Rei”. É, aliás, o que ele pede, em sua sede de notoriedade pessoal. Mas sua agressividade histérica jamais será, de fato, comparável a de um rottweiler, comparação mais própria se feita a seu “mestre”.

Esta briga é de “cachorro grande” e a chegada de Reinaldo Azevedo à Folha é apenas a primeira “baixaria” de 2014.

Fernando Brito
No Tijolaço
Leia Mais ►

Tudo Por Uma Manchete

Branco do Neves
Leia Mais ►

Lou Reed: não é morte, mas uma voltinha no paraíso...

Lou Reed
(1942 - 2013)

O breaking news na rede cravava de maneira fatal e sintomática: está morto. Mas Lou Reed sempre se valeu do benefício da dúvida para forjar o próprio horizonte e assim impor um novo patamar para a arte. Por que haveríamos de aceitar isso tão facilmente? Até o meio da tarde tínhamos como fonte primária a revista Rolling Stone que aunciou a partida do compositor e guitarrista que ajudou a dar forma ao rock há pelo menos 50 anos. No primeiro post a respeito da notícia, o blogueiro Alexandre Matias (do Trabalho Sujo) foi mais reverencial a citar o “homem que salvou o rock’nroll de sua primeira grande crise ao fundar o Velvet Underground ao lado de John Cale.” Em seguida se autoconcedeu o direito à duvida (“Atualização16h15min: Pode ser boato”). Até que veio a confirmação ao final da tarde pelo próprio empresário do ao jornal The Guardian. Sim, Reed havia morrido, na manhã deste domingo. Sunday Morning? É muita ironia!

Sunday morning and I’m falling

I’ve got a feeling I don’t want to know

Early dawning, Sunday morning

It’s all the streets you crossed, not so long ago

(- Velvet Underground & Nico)

Ok, mas eu invoco o meu direito de não acreditar até cair a ficha. Os que se deram por convencidos se resignam com o fato de o homem que levou uma geração a passear por lugares selvagens “agora dá uma voltinha pelo paraíso” (essa eu gostaria de cunhar mas peguei emprestada de Brenda Goedert). Reed era uma daqueles imbatíveis, que sobreviveu a toda a sorte de loucuras e transgressões físicas e mentais dos anos 1960, 1970, 1980 até entrar no novo milênio são e ainda genial. É difícil mesmo acreditar que tenha sido vencido pelo tempo, talvez por complicações do recente transplante de fígado ao qual se submeteu ainda neste ano. As causas pouco interessam. Se está morto fará muita falta ao mundo e à música pop. Mesmo se não produzisse nada - embora tenha lançado há dois anos um álbum em parceria com a banda Metallica (Lulu) - sua presença física neste mundo hoje tão carente de ídolos substanciais representava um alento. Era e foi um dos pilares da cultura pop que se consolidou a partir da Contracultura. Um artestão sublime da literatura, um alquimista do rock. A sua história é uma crônica de um sobrevivente nos Estados Unidos: ainda adolescente foi submetido a tratamento de eletrochoque para “curar” a sua opção pela bissexualidade; fez michê e sobreviveu ao grande banquete da era das drogas. De mito do rock underground foi alçado à condição de artista imprescindível. Mas seu grande trunfo foi não ter recorrido ao caminho de se tornar mais um mártir do rock. Não, preferiu andar na linha do abismo desejando nascer “mil anos atrás” (Heroin, 1967). E chegou aos 71. Um feito magnífico!

Se Wandy Warhol fez dele e dos Velvets tela de projeção para as suas intenções na música (e também para exibição de seus filmes), Reed retribuiu com a selvageria das distorções, poesia e estética. O punk deve a ele - e muito! -, assim como o post punk, a new wave, o indie, enfim, qualquer respiro dentro do ambiente da música pop teve a sua inspiração. Deus nos livre do pesadelo dele nunca ter existido para nos propor um passeio pelo lado selvagem, onde depravação, sadomasoquismo, orgias de travestis, heroína e ruas sujas seriam a vanguarda salvadora frente ao mofo hippie. Transformer, de 1972, é a sua primeira obra-prima solo - entre quase tudo que compôs e retrocedemos aos álbuns com os Velvets, incluindo o seminal Velvert Underground & Nico (a festa urbana de 1967 que fez o rock crescer). Walk on The Wild Side é um hino ao despertar para um encontro com a loucura. Há muito o que citar sobre a grande estrada pavimentada por esse ser sexual e artisticamente ambíguo, que sublimou a literatura com o brutal Berlin (1973) e fez borbulhar os sentidos na experiência ruidosa de Metal Music Machine (1975). Revisitou o emblemático Transformer 10 anos depois e assim cunhou a sua segunda maior obra: The Blue Mask. Nos anos 1990 fez o que todo bom roqueiro sobrevivente com um acervo digno deveria fazer: reuniu o Velvet Underground para um turnê de shows pela Europa amealhando os bolsos dos fãs e os deixando felizes.

Aos críticos, o bardo respondeu que “suas besteiras ainda assim valiam mais do que os diamantes de muitos”, e sempre deixou claro que a sua expectativa para a vida era escrever O Grande Romance Americano. E deixou isso registrado, em cada álbum, cada vírgula, cada nota distorcida de guitarra. Mas claro, sem nos tolher o benefício da dúvida. Inclusive sobre a sua morte.

No ano passado entrei em uma loja de discos de vinil em Las Vegas - uma rede que surgiu nos anos 1980 para vender CDs e que, vejam vocês, se rendeu à plataforma que ajudou a enterrar para sobreviver hoje (incrível não?!) - para comprar algumas bolachas para a minha filha que viria dali a um ano. Fui muito óbvio em minhas escolhas e não tive dúvidas em colocar entre elas o Velvet Underground & Nico, com aquela banana na capa e todo aquele furor e estranhamento magistrais ali dentro. Era uma daquelas edições comemorativas recém-lançadas e remasterizadas. Fiz questão de inaugurar a vitrola da minha pequena com ele e com o Early Takes do George Harrison. Foi meu presente para a Maria Clara, ainda tão inocente para entender tudo aquilo, mas receptiva desde a primeira audição. Isso porque ainda nem fomos caminhar pelo lado selvagem.

Marcos Espindola

Leia Mais ►

Um jornal no banco dos réus


Quarenta anos após o golpe militar que derrubou e matou o presidente democraticamente eleito, Salvador Allende, o dono do conglomerado El Mercurio Sociedad Anónima Periodística, Agustín Edwards Eastman, senta no banco dos réus, processado por crime de homicídio múltiplo. A ação em mãos do juiz Mario Carroza, que também investiga a morte do Prêmio Nobel de Literatura, Pablo Neruda, aponta novo rumo da Justiça chilena na apuração dos crimes da ditadura do general Augusto Pinochet: depois dos militares, o caso Edwards sinaliza que os civis também deverão responder pelos crimes de violação de direitos humanos. Ouvido pelo juiz Carroza em setembro último, Edwards negou tudo. Menos que havia tomado o café da manhã com a CIA.

Dois grupos apenas – o El Mercurio de Agustín Edwards, e La Tercera, do empresário varejista, Alvaro Sayeh – dominam o mercado midiático chileno. Edwards edita El Mercurio, o vespertino La Segunda e o popular Las Ultimas Noticias, além de 21 jornais regionais do Chile. Em 1987, com a TV Cable Intercom, sua empresa ingressou no mercado de mídias eletrônicas. Em 1995, associou-se à Cordillera S.A. (Metrópolis), fundando a Metrópolis Intercom TV, que virtualmente monopoliza os sinais de TV por cabo no Chile, e que tem como sócios a Telefônica espanhola (30%) e a Bresnan International Partners, do falecido empresário norte-americano William Bresnan. O portfolio multimídia se completa no mercado de radiofonia com as emissoras Digital FM e Positiva FM, empresas gráficas e um joint-venture com o grupo espanhol PRISA, na editora El Mercurio-Aguilar. Sua última aquisição, em 2006, foi a Diario el Sur S.A., em Concepción, que edita El Sur e o vespertino Crónica. A estratégia consolidou o monopólio midiático do Grupo El Mercurio, e Agustín Edwards é mais temido que respeitado como o “Rupert Murdoch da Cordilheira”.

El Mercurio mente”

Juan Carlos Chávez, filho de Ismael Darío Chávez Lobos – estudante universitário de 22 anos que militava no MIR-Movimento de Esquerda Revolucionária , detido em 26 de julho de 1974 e desde então desaparecido – processou Agustín Edwards Eastmann (EE), dono do Grupo El Mercurio, porque em 25 de junho de 1975, seus jornais La Segunda y El Merurio estampavam respectivamente as seguintes manchtes: “Exterminados como ratones” e ,”Identificados 60 miristas ejecutados por sus propios camaradas” – uma deslavada e atroz mentira.

Aquelas manchetes eram mais do que mera mentira: expressavam a cumplicidade abjeta do Grupo El Mercurio no assassinato em série de 119 opositores da ditadura Pinochet, a ocultação de seus cadáveres e a montagem de um golpe midiático para desviar a atenção de seu desaparecimento: a escabrosa “Operação Colombo”, narrada ao final deste ensaio.

“El Mercurio mente” é uma advertência recorrente no Chile. O assesto foi cunhado em 1967, com uma faixa pendurada no frontispício da Universidade Católica de Santiago («Chileno: El Mercurio miente»), na qual os estudantes expressavam sua indignação com os ataques do jornal contra a mobilização pela reforma universitária, descrita em suas páginas como “uma nova e audaz manobra do marxismo contra a democracia”.

Com o descarado e contínuo apoio da cadeia midiática de EE aos dezessete anos da ditadura Pinochet, o slogan ganhou o Chile e intitula o primeiro capítulo do imperdível documentário El Diario de Agustín (2008),do diretor Ignacio Agüero, coproduzido com o canal público TVN, porém jamais exibido por este, devido a pressões do Grupo El Mercurio.

Contudo, a crônica da família Edwards e seu patrimônio no Chile começou a ser escrita há duzentos anos, e suas origens são bizarras.

No berço, um pirata

Quando George Edwards Brown, numa tórrida manhã de 1804, em Coquimbo, extremo norte do Chile, com um violento chute arrombou a porta da casa do próspero fidalgo espanhol Diego de Ossandón e, mosquetão engatilhado, berrou em hispanglês com sotaque cockney, “esto es un assault!”, ninguém imaginou que naquele átimo começava a ser escrita uma página sangrenta da história do Chile.

Não, ninguém se machucou: quando os olhos de Edwards Brown cravaram no belo rosto de Isabel Ossandón Iribarren, filha do dono da casa, estatelada de pavor no meio da sala, os indecisos relógios da casa sustaram o tic-tac e, pela primeira vez desde que partiradas Ilhas Britânicas, o inglês sentiu violento mal de mar: a paixão o fulminara. Então ouviram-se tiros, correria e roucas vozes estrangeiras chamando seu nome. Os Ossandón, mãos em atitude de prece, já lhe apontavam a porta em pedaços, para pôr fim àquele pesadelo, mas Edwards Brown suplicou que o escondessem. E durante três dias sentiu-se como as fedorentas sardinhas, dobrado sobre si mesmo dentro de um barril de vinho. Interminável suplício, mas na medida para que seus comparsas suspendessem a busca e, repelidos por contra-ataque da guarda espanhola, recuassem para o Blackhouse – umentre tantos barcos flibusteiros que costumavam saquear vilas e cidades da costa do Chile, sempre “by appointment of Her Majesty, the Queen”.

A deserção do pirata George inaugura a história do clã Edwards no Novo Mundo, ironizado por um de seus descendentes, o romancista dublê de diplomata Jorge Edwards – ex-embaixador de Salvador Allende em Cuba, hoje embaixador de Sebastián Piñera em Paris – em narrativas como “El inútil de la família”, protagonizada por Joaquín Edwards Bello, tio-avô do escritor, cronista do El Mercurio na primeira metade do século 20 e autor do romance El inútil (1910), um acerto de contas feroz com a oligarquia chilena tardonovecentista, que o obrigou a exilar-se no Brasil.

Do cobre ao Banco Edwards

Preso, mas libertado em 1805, Edwards muda-se para La Serena, oferece a cabeça à pia batismal católica, e em 1807 casa-se com a bela Isabel, com quem terá oito filhos. Barbeiro a bordo da nau pirata, em terra o inglês improvisa ofícios que vão da cirurgia à usura, emprestando dinheiro a pequenos mineiros do Atacama, ao cabo de uma década gerando não desprezível fortuna.

Naqueles anos, os criollos chilenos levantavam-se em armas pela independência e, instigado por saturada bílis antiespanhola, Edwards adere à causa, doando dinheiro para o armamento dos insurgentes. Declarada a Independência, seu líder Bernardo O’Higgins lhe concede a cidadania chilena por merecimento e, em 1822, Don Jorge Edwards é eleito deputado pela província de Huasco. Morreu endividado em 1848, como malfadado investidor nas minhas de cobre do Atacama.

Outro foi o faro de seu filho, José Agustín de Dios Edwards Ossandón, que fez fortuna como fornecedor dos grandes mineiros e comerciante de prata e cobre. Herdara do pai o instinto velhaco dos usureiros, aprovisionando seus clientes em troca de minerais ou hipotecas de seus equipamentos. Em 1850 associou-se ao norte-americano William Wheelwright, com quem construiu a ferrovia das minas ao porto de Caldera. Dez anos mais tarde, foi um dos financiadores da ferrovia entre Santiago e Valparaíso, já então o principal porto do país, no Chile Central. É em Valparaíso que se escreve a segunda e importante página do clã: de grande mineiro e construtor, Edwards Osandón salta para o mercado de capitais, fundando a Compañía Chilena de Seguros e, em 1867, o Banco de A. Edwards.

Os Edwards descobrem a imprensa

Agustín Edwards Ross, filho de Edwards Osandón e neto do pirata George, foi quem sentou as bases do que hoje representa o Grupo El Mercurio. Herdeiro de notável fortuna de seu pai, iniciou sua carreira como político (quatro mandatos de deputado, um de senador por Valparaíso, dois de ministro), em seguida como editor do jornal La Época, escalando celebridades como Rubén Darío, Anatole France e Guy de Maupassant entre seus colaboradores.

Em 1877, o jornal El Mercurio de Valparaíso enfrentava grave crise de insolvência e Edwards Ross resolveru comprá-lo.

Mitômanos que soem superar a argentinos e brasileiros em ousadia e caradurismo – por exemplo, roubando ao Libertador argentino José de San Martín a autoria da independência chilena, que ardilosamente contrabandearam para O’Higgins –, os chilenos também afirmam que El Mercurio de Valparaíso, fundado em 1827 pelos tipógrafos Thomas G. Wells, Ignacio Silva Medina e Pedro Félix Vicuña, foi “el primer diario de habla española” – pioneirismo desta vez roubado a El Peruano, já editado em Lima, em 1825, e fundado por ninguém menos que Simón Bolívar.

Morto Edwards Ross, é seu primogênito, Agustín Edwards MacClure (deputado, ministro de Relações Exteriores aos 25 anos, e presidente da Sociedade das Nações, em 1922-1923), quem na virada para o século 20 retira do jornal seu caráter provinciano, lançando o El Mercurio de Santiago.

É significativo que, como laureado em 1940 com o Prêmio Maria Moors Cabot, instituído pela Universidade Columbia, Nova York, Edwards MacClure começa a articular o estreitamento das relações do Chile com os EUA; predileção étnico-cultural de resto continuamente atestada pelos sobrenomes sobejamente anglo-saxões das esposas dos Edwards. Falecido Edwards MacClure, em 1941, sucede-o seu filho único e quarto delfim da genealogia, Agustín Edwards Budge. Na década de 1950, ele contrata a assessoria da missão norte-americana Klein-Sacks, usando as páginas de El Mercurio como espécie de “ministério da economia nas sombras” do combalido governo Carlos Ibáñez. Edwards Budge morreu em 1957, deixando como viúva Isabel Eastman Beéche e quatro filhos, dos quais foi Agustín Edwards Eastman que assumiu o El Mercurio em 1958, que dirige com mãos de ferro até hoje.

Os “Mercurio Boys” contra o Estado

Nascido em Paris, em 1927, EE não concluiu o curso de Direito da Universidad de Chile, graduando-se em 1949 pela Academia Woodrow Wilson de Estudos Públicos e Internacionais da Universidade Princeton.

De volta ao Chile, revela-se noviço devotado ao país das “possiblidades ilimitadas”. Em 1955, como pesquisou a jornalista Claudia Urquieta Chavarría, do portal El Mostrador, a Escola de Economia da Pontifícia Universidade Católica chilena assinava convênio com a Universidade de Chicago, que desovaria notável penca de economistas. Muito antes da tomada do poder pela ditadura Pinochet e seus “Chigago Boys” – que desenharam a mais cruenta agenda neoliberal da América Latina, mediante a virtual privatização e draconiana redução do tamanho do Estado e a repressão implacável do movimento sindical – estavam os “Mercurio Boys”, como infere em 1995 o historiador Ángel Soto em seu livro El Mercurio y la Difusión del Pensamiento Político Económico Liberal: 1955-1970.

A queda de braço pela apropriação do Estado começa a articular-se durante o governo do democrata-cristão Eduardo Frei Montalva (1964-1970) e seu reformismo católico, inspirado na doutrina social da Igreja. Inicialmente aliado de Frei, EE funda o Centro de Estudios Socio-Económicos (CESEC), que elabora o programa econômico do candidato ultraconservador Jorge Alessandri, adversário de Salvador Allende na campanha presidencial de 1970.

Um dos autores do projeto da direita é o “Mercurio Boy” Sergio de Castro, editorialista do caderno de Economia do jornal, após o golpe de 1973 convocado por Pinochet para ocupar a pasta de Fazenda e Economia da ditadura. Outros “boys” eram Pablo Baraona (futuro presidente do Banco Central de Pinochet), Manuel Cruzat (que com seu primo Fernando Larraín controlava mais de 100 empresas, e com elas 5% do PIB durante o governo Allende, por isso estigmatizados como “los pirañas”), e Hernán Cubillos Sallato, assessor da presidência de El Mercurio e posterior ministro de Relações Exteriores de Pinochet. Seu pai, Hernán Cubillos Leiva, também comandante da Marinha na reserva, servia como embaixador de Pinochet no Brasil, e teve ativa participação na perseguição de exilados brasileiros no Chile, em ação coordenada com a ditadura de Garrastazu Médici.

O think tank de EE concluiu rapidamente que ao “socialismo democrata-cristão” estatizante e às abordagens nacionalistas e desenvolvimentistas da CEPAL havia que contrapor o primado da “empresa privada e a livre economia de mercado”, como enfatiza Soto.

A articulação militar

O golpe militar de 11 de setembro de 1973 não foi iniciado por Augusto Pinochet Ugarte, que só aderiu à conspiração quatro dias antes do bombardeio do palácio La Moneda. O motim foi detonado pela Marinha, em Valparaíso, e era liderado pelo almirante José Toribio Merino Castro.

Toribio Merino e EE acumulavam amizade e pacto ideológico desde 1967, ano da criação da “Cofradía Náutica del Pacífico Austral”, clube de VIPs supostamente devotados à vela e ao iatismo, que serviu de fachada para atividades conspirativas contra Frei e Allende. Toribio Merino oficiava como presidente da confraria, utilizada pelo dono de El Mercurio como espaço de convergência entre empresariado e a Armada. Dois executivos do jornal, Hernán Cubillos e Roberto Kelly, encarnavam à perfeição a simbiose, pois eram oficiais da reserva da Marinha.

Vinte anos mais tarde, em entrevista à edição de 1/9/1996 da revista Qué Pasa, Hernán Cubillos explicava que “a Cofradía nasceu da inquietação de Kelly, Agustín Edwards e minha, de estabelecer um ponto de contato dos civis, aos que interessavam as coisas do mar [sic!], com marinheiros profissionais... Nesse clube foi se criando uma relação que nos permitiu passar informações às Forças Armadas e, em sentido inverso, ouvir suas próprias inquietações”. Mas então Cubillos liberta seus eufemismos e admite que René Silva Espejo, um dos diretores de El Mercurio, “jugó un papel importante en la coordinación del golpe”.

Contudo, a articulação do golpe contra Allende demorou três anos e não mediu esforços para tirar do caminho, assassinar legalistas como o Comandante do Exército, general René Schneider, leal a Allende.

Segunda Parte 

O “Arquivo El Mercurio

Desde 1974 o Chile conhece a verdade sobre o papel de El Mercurio no golpe contra o governo Allende e como propagandista da ditadura Pinochet, endossando seus crimes de lesa-humanidade. A verdade se deve ao corajoso relatório de 1974 do senador Frank Church, intitulado “Covert Intervention in Chile: 1970-1973”, que já detalhava a escandalosa corrupção proposta pelo editor chileno ao governo Richard Nixon em troca da desestabilização do governo Salvador Allende através das páginas de seus jornais. Em 2003, a extensão da conspiração veio a lume com a desclassificação dos memorandos da CIA sobre a articulação do golpe, exaustivamente estudados pelo pesquisador Peter Kornbluh, diretor das seções Chile e Cuba da ONG National Security Archive, em Washington.

Em seu livro The Pinochet File: A Declassified Dossier on Atrocity and Accountability. A National Security Archive Book” (The New Press), Kornbluh dedica denso capítulo às maquinações de EE em The El Mercurio File.Entre 1970 y 1973, a operação envolveu a transferência de US$ 1.965.000 (aproximadamente US$ 8,5 milhões de dólares ao câmbio atual) da CIA em dinheiro vivo ou para contas offshore de EE.

O editor chileno sabia das noites mal dormidas de Nixon e seu secretário de Segurança, Henry Kissinger. Em uma célebre entrevista de 1970, Nixon comparava a América Latina – com Fidel Castro no poder em Cuba e Salvador Allende, no Chile – com a imagem de um “sanduíche esmagado por dois polos marxistas”. Desde o governo Kennedy, todas as tentativas de invadir Cuba e matar Fidel haviam fracassado, mas Allende não seria tolerado. Incentivado por Kissinger, Nixon sacrificava dezenas de milhares de jovens americanos na invencível guerra do Vietnã, tentava abraçar a China para acossar a URSS, e Allende era uma pedra no sapato nas múltiplas frentes da guerra fria global; conjuntura delicada que algumas vezes pareceu obnubilar a percepção do presidente chileno.

Track I: o suborno fracassado

Como David Rockefeller anotou em suas próprias Memórias (Planeta, 2004), EE o advertira em março de 1970 que “os Estados Unidos devem prevenir a eleição de Allende”. Seis meses mais tarde, EE decide participar ativamente da intervenção norteamericana, planejada em dois estágios: o Track (trilha) I, e seu Plano B, o Track II.

O Track I, definido como “golpe pelas vias constitucionais”, visava simplesmente subornar os deputados do Congresso chileno e garantir a vitória de Jorge Alessandri. Contudo, em 4 de setembro de 1970, com 36,3% dos votos e sem maioria no Congresso, Salvador Allende é eleito presidente em vitória apertada – o Track I tinha fracassado.

Logo após a eleição de Allende, EE deixou o país rumo aos EUA, vinculando-se como presidente à Foods International e vice-presidente da Pepsico Inc. A partir dos EUA tentaria impedir que Allende assumisse a presidência, em novembro de 1970, fazendo lobby na Casa Branca. Mas o chileno tinha pressa por outro motivo: o Grupo Mercurio estava insolvente e sofria forte pressão dos bancos credores.

Como sua substituta, EE deixou em Santiago sua irmã, a bela Sonia Edwards, simpatizante de Allende, cuja filha gerada com um militante de esquerda, anos mais tarde, o truculento e implacável EE mandou sequestrar na própria clínica em Londres, onde Sonia se refugiara da “vergonha em família”. Sonia só descobriu o paradeiro da filha muitos anos depois.

Em suas memórias, Anos da Casa Branca (1979), Henry Kissinger anotaria que foi visitado por EE y Donald Kendall, presidente de Pepsi Co., amigo dos mais íntimos de Nixon, cuja campanha financiara generosamente.

A visita ocorreu em 14 de setembro. Kendall visitou Nixon para relatar as conversas que mantivera com EE. Kissinger e John Mitchell, promotor geral, tomaram o café da manhã com EE e Kendall na manhã seguinte em um hotel de Washington. Richard Helms, então diretor da CIA, também compareceu, e a ele se deve a publicação de todos os memorandos secretos da CIA, pois o homem anotou tudo.

Durante 30 anos, a conversa naquela mesa de café, o que o chileno contou à CIA, foram “top secrets”. Helms despediu-se e elaborou o memorando “Discussão sobre a situação política chilena”, no qual o nome de EE é mencionado várias vezes, depois tachado em negrito, antes que o documento fosse desclassificado.

O assassinato do general Schneider

No memorando de Helms, EE recordou a manobra montada por seu jornal e o governo dos EUA: caso Alessandri ganhasse, renunciaria poucos dias, talvez até poucas horas depois, abrindo caminho para novas eleições, que, então sim, seriam ganhas com ampla vantagem pelo menor dos males: Frei Montalva, presidente em retirada, mas legalmente habilitado, porque não significava uma reeleição, vetada pela Constituição de 1925.

Mas essa manobra, caso revelada, não seria tolerada pelo então comandante em chefe do Exército, general René Schneider, oficial constitucionalista, respeitoso do veredicto das urnas.

No emblemático dia 15 de setembro de 1970, Richard Nixon emitiu a ordem para impedir a posse de Salvador Allende, “fazendo uivar a economia” [do Chile]. Com seus garranchos, Helms anotou a encomenda do chefe, que ganhou as páginas da História: “Quem sabe, uma em dez oportunidades, mas há que salvar o Chile! Não importam os riscos envolvidos... U$S 10.000.000 disponíveis, e mais, se necessário. Trabalho em tempo integral – com nossos melhores homens...”

Uma das alternativas anotadas, seria uma ação militar para tirar do caminho os militares legalistas, e o nome sugerido para tal operação foi o de Roberto Viaux, general da reserva, que em outubro de 1969 liderara uma tentativa de golpe contra Frei Montalva.

Em 15/10/1070, Kissinger advertiu Nixon que Viaux não dispunha de poder de fogo para um golpe: “Parece um ato de desespero. Cancelei. Nada seria pior que um golpe abortivo”. Kissinger preferiu apostar em outro oficial golpista, o general Camilo Valenzuela, “grupo bem conhecido da CIA, capaz de levar a cabo um golpe com êxito”. Kissinger queria mesmo o general Schneider e, em 22/10/1970, Valenzuela recebeu da CIA três submetralhadoras, munições e 10 granadas de gás lacrimogênio.

Valenzuela, nada exitoso, falhou duas vezes, e então Viaux e a agrupação fascista Pátria y Libertad entraram em cena. No dia 25 de outubro, tentaram sequestrar Schneider, mas o imprevisto aconteceu: o general reagiu, empunhando sua arma, e morreu cravejado de balas no interior de seu automóvel.

O líder do comando, a bordo de dois carros, um dos quais fechou o automóvel de Schneider, era Enrique Arancibia Clavel, filho de oficial da Marinha e ex-cadete naval de 26 anos, conhecido nos meios terroristas como “El Dinamitero”, que detonara várias bombas em locais públicos, uma delas no aeroporto internacional Pudahuel, em Santiago.

Antes de fugirem, os assassinos de Schneider panfletaram o local do atentado em nome de uma certa “Brigada Obrero-Campesina”, de sonância bolchevista, mas o futuro agente da DINA, na Argentina, confessou textualmente à Justiça chilena em 1977, que fora um atentado sob bandeira falsa, “para hacer crer que los autores eran de un grupo de ultraizquierda y crear un clima adverso”.

Um ano mais, tarde, em 11/6/1971, refestelados no escritório oval da presidência, Nixon e Kissinger mantinham-se aferrados à conspiração para derrubar Allende, que completava seu primeiro ano de governo. Em dado momento, Nixon interpela Kissinger com a notícia de novo assassinato político no Chile, desta vez de Edmundo Pérez Zujovic, adversário de Allende, morto por um grupo esquerdista em junho daquele ano, em represália a um massacre de favelados, ocorrido em Puerto Montt, em 1959, que inspirara o cantor Victor Jara a compor a canção “Preguntas por Puerto Montt”:“Usted debe responder,/ señor Pérez Zujovic,/ por qué al pueblo indefenso/ contestaron com fusil”. Citada por Scott Horton, no Harper´s Magazine de 6/7/2010 (“The case against Kissinger deepens, continued”), uma gravação dos comentários cínicos de Kissinger confirma seu envolvimento no assassinato de Schneider:

Kissinger –They’re blaming the CIA[estão responsabilizando a CIA]

Nixon– Why the hell would we assassinate him?[por que, diabos, o assassinaríamos?]

Kissinger– Well, (a) we couldn’t. We’re – [Bem..., não conseguimos. Somos...]

Nixon – Yeah.[Pois é]

Kissinger – CIA’s too incompetent to do it. You remember – [A CIA é incompetente demais para fazê-lo. O Sr. lembra...]

Nixon –Sure, but that’s the best thing. [Unclear].[Com certeza, mas o melhor é isto mesmo (inaudível)]

Kissinger– ...when they did try to assassinate somebody, it took three attempts –[quando tentaram assassinar alguém,fizeram três tentativas]

Nixon– Yeah. [Pois é.]

Kissinger – ... and he lived for three weeks afterwards.[E o cara sobreviveu por três semanas.]

O “alguém” era ninguém menos que o general René Schneider.

Em 2001, os filhos e a viúva do general Schneider ingressaram com ação criminal na Corte Federal em Washington, na que acusam como autores do assassinato de seu pai a Henry Kissinger, Richard Helms e Paul Wimert, então adido militar na embaixada dos EUA em Santiago, que entregou pessoalmente as armas aos terroristas de extrema direita. A defesa de Kissinger argumentou que sua responsabilidade era política e não legal, e a Corte Suprema aceitou a interpretação em sua sentença de abril de 2006. Porém, Wimert disse em entrevista ao documentário The trials of Henry Kissinger (BBC, 2002): “He lied!” – Kissinger mentiu.

O crime continua impune. Em 28 de abril de 2011, o mesmo Arancibia Clavel, comandante do atentado, e agora amante de um cabeleireiro argentino, foi assassinado com várias facadas em Buenos Aires. Ele protagoniza o segmento final do presente texto.

Os dólares da CIA para El Mercurio

El Mercurioatravessava mais uma de suas crises financeiras, que habitualmente nada tinham a ver com a situação econômica do país e, sim, com a má gestão de EE. Dentro da empresa, o sindicato esquerdista exercia forte pressão e os bancos credores apertavam o dono do jornal, e eram favas contadas que Allende cortaria suas despesas de publicidade. Então EE inventou um ardil: alardeou pressões inexistentes para o “fechamento dos meios de comunicação de oposição”, desencadeando uma feroz campanha de Nixon contra Allende, pela “salvação da liberdade de imprensa no Chile”.

Antes mesmo da posse do presidente recém-eleito, o embaixador dos EUA em Santiago, Edward Korry, pressionou credores de EE: “Falei novamente aqui com o gerente do First National City Bank”, informou Korry em mensagem de 25/9/1973, codificada como “Top Secret/Eyes Only”. “Por que estão colocando El Mercurio contra a parede?”, questiona Korry: “Eu disse a ele [o gerente] que gostaria de poupar a Casa Branca dessa situação estranha, cujo efeito seria amordaçar a única voz livre do Chile” – e Korry virou o jogo, o City foi colocado contra a parede.

Poucos dias depois da ratificação de Allende como presidente pelo Congresso chileno, em 6/11/1970, Nixon, indignado, reunia-se com seu Conselho de Segurança Nacional. Seu recado foi curto e grosso: “Derrubem-no!”.Ato contínuo, Henry Kissinger detalhou no tabuleiro cinco cenários desenhados pela CIA para desestabilizar Allende. O “número 4” recomendava: “Assistência a certos periódicos usando os meios de comunicação do Chile capazes de criticar o governo de Allende”.

Contudo, o “dinheiro vivo” demorou um ano para entrar nas contas de EE: em 8/9/1971, a CIA solicitou liberação de 1 milhão de dólares ao Comitê dos 40 (coordenação secreta de altos funcionários liderada por Kissinger para vigiar ‘operações encobertas”), alegando que com a soma El Mercurio poderia sobreviver de um a dois anos, mas que sem aquele aporte o jornal sucumbiria antes do final do mês.

Kissinger propôs então duas “opções básicas”. Primeiro, entregar 700 mil dólares a EE em caráter de urgência, “para garantir o suprimento de papel”, alegando que a empresa La Papelera, do Gruppe Matte e Jorge Alessandri, estaria sendo ameaçado por Allende e por “obstruções operárias” – mentira grosseira. Segundo, simular um fechamento voluntário de El Mercurio e alardear ao máximo a “ameaça à liberdade de imprensa” por um regime marxista. Mais perspicaz, a CIA se opôs à segunda opção, pois sabia que Allende provaria que o fechamento de El Mercurio era devido à inépcia administrativa de EE.

Efetivamente, o jornal deixou de ser impresso por alguns dias, alegando inexistente falta de papel e, finalmente, em 14/9/1971, Nixon liberou a primeira remessa de 700 mil dólares. Kissinger confirmou a Helms que Nixon estava disposto a dar mais, o que motivou Helms a autorizar a Divisão Hemisfério Occidental da CIA a “exceder 700.000 dólares, até acima de U$S 1.000.000”. Matando dois coelhos com uma só cajadada, a CIA financiava EE e ainda tinha bala na agulha para afirmar, mentirosamente, que Allende boicotava o suprimento de papel-jornal.

Meses depois, EE recebeu mais 300 mil dólares, autorizados por Kissinger, operação de financiamento de El Mercurio completada em abril de 1972, quando a CIA intermediou um “adicional” de 965 mil dólares, mais uma vez falsamente justificado com “fluxo de papel ameaçado por Allende”. Finalmente, outro memorando da CIA de 15/5/1972, sobre uma operação acertada entre o agente Jonathan Hanke e o executivo da ITT (International Telephone & Telegraph) Hal Hendrix, registra a entrega de mais 100 mil dólares nas mãos de EE.

Em 1970, a ITT adquirira 70% do capital da Compañia de Teléfonos de Chile (CTC), tornando-se virtual dona exclusiva da telefonia no país. Em 28 de setembro de 1973, a sede da ITT em Nova York sofreu um atentado à bomba pelo grupo clandestino Weather Underground, ativistas contra a guerra do Vietnã, em resposta ao seu envolvimento no golpe militar de Pinochet et alii.

Assim estavam assentadas as bases financeiras para o desencadeamento da guerra suja midiática que os jornais do Grupo El Mercurio promoveram sem tréguas durante os três anos da Unidade Popular de Salvador Allende.

De uma pesquisa realizada pela jornalista chilena Mónica González, diretora do CIPER – Centro de Información y Investigación Periodística, inicialmente bancado no Chile pela fundação Open Society de George Soros – depreende-se que em maio de 1973 o “Mercurio Boy” e conspirador da “Cofradía” Roberto Kelly convocou dez economistas responsáveis pela elaboração do “El Ladrillo” [O Tijolo], o programa econômico neoliberal para Allessandri, que em cinco laudas resumiram os conceitos básicos do projeto que deveria inspirar um regime militar golpista, e entregaram seu esboço ao almirante Toribio Merino e seus homens da Marinha.

Estava articulado o braço armado do golpe, e agora também seu braço doutrinário. Não por acaso, coube a Toribio Merino a coordenação do primeiro ministério da Economia da ditadura Pinochet. Com as bênçãos de Agustín Edwards.

Terceira Parte (final)

Dívidas: depois da CIA, Edwards salvo por Pinochet e pela Concertación

O clã Edwards encabeçava até há poucos anos o ranking das maiores antigas fortunas no Chile – além das mídias, com investimentos nos setores florestal, madeireiro e financeiro – hoje amplamente superadas por grupos arquibilionários, como as famílias Matte, Paulmann, Sayeh e Piñera, herdeiras do legado neoliberal pinochetista.

Após sua permanência no Chile em 2000, como bolsista da Fundação Knight, o jornalista norte-americano Ken Dermota (colaborador de Business Week, The Christian Science Monitor, Le Monde, Boston Globe e Toronto Globe), precocemente falecido em 2009, escreveu o livro Chile Inédito: el periodismo bajo democracia (Ediciones B Grupo Zeta, Santiago Chile, 2002), que configura a mais rigorosa pesquisa sobre a estrutura de propriedade e o mercado dos meios de comunicação demassa no Chile, dedicando extenso capítulo à situação econômica do Grupo El Mercurio.

Publicações de esquerda, como Clarín, Puro Chile, El Siglo e Ultima Hora, cuja tiragem somada durante o governo Allende era superior a das publicações do Grupo El Mercurio, foram imediatamente banidas pela ditadura Pinochet, seus diretores e jornalistas presos, torturados, assassinados ou expulsos do país. A partir do dia 11 de setembro de 1973, restava apenas a voz única de El Mercurio e La Tercera,que se beneficiaram principalmente do redirecionamento da verba publicitária.

No entanto, no início dos anos 1980, EE enfrentava nova crise financeira, vendendo ativos e concentrando-se no Banco de A. Edwards e na manutenção da editora de jornais. Quando o câmbio arruinou o peso chileno, saltando de 39 para 160 por dólar, a dívida do grupo disparou de 13 para 100 milhões de dólares. Em 1983, as perdas do grupo alcançavam 22,5 milhões de dólares, no que foi acompanhado pela penúria do Grupo La Tercera. Em 1987, os ativos de EE estavam reduzidos a 50% de seu valor, e o grupo impossibilitado de pagar suas dívidas.

Interessado em manter controle político sobre a imprensa, Pinochet deu sua mão aos editores que o ajudaram a tomar o poder: o Banco del Estado emprestou 1 milhão de dólares ao Grupo Copesa (La Tercera), capitalizou com 2,3 milhões de dólares uma empresa acionista do grupo, e encampou a dívida externa de 201 milhões de dólares do Banco de A. Edwards; operação alavancada por Alvaro Bardón, então presidente do Banco del Estado, hoje privatizado.

Hábil, Bardón escamoteou a operação, derretendo-a no tempo, iniciando a salvamento dos jornais, faltando apenas três meses para Pinochet transferir o poder a Patricio Aylwin, candidato da vitoriosa Concertación, de centro-esquerda, em março de 1990. Maquiando balanços, eliminando documentação comprometedora e transferindo créditos incobráveis ao Banco del Estado, a operação teve outros lances fraudulentos: o Grupo Copesa, do empresário de supermercados Alvaro Sayeh, comprou grande parte da dívida do La Tercera com “desconto” de 50%, e o Banco de Chile suspendeu a hipoteca sobre a sede do El Mercurio, no valor de 4 milhões de dólares, em troca de 180 marcas registradas por EE, entre elas, marcas usurpadas de competidores, como o jornal Clarín,expropriado por Pinochet ao amigo espanhol de Allende, Víctor Pey Casado, que, nonagenário, luta até hoje pela devolução de seu combativo jornal.

Estima-se que o custo imediato para os cofres públicos da operação de “perdão” da dívida de Edwards, capitaneada pelo Banco del Estado, foi da ordem de 26 milhões de dólares. Como se fosse pouco, o banco comprou espaço publicitário para dez (dez!) anos, pagando adiantado a El Mercurio, o que lhe valeu um desconto de 1,8 milhão de dólares na dívida e o credenciou para conseguir novo empréstimo de 6,8 milhões de dólares do Citibank de Santiago.

Articulação do golpe: primeiro processo contra Edwards

Em 2003, o jornalista Manuel Cabieses – ilustre editor da revista Punto Final,fundada em 1965, fechada por Pinochet e relançada no Chile em 1989 – arrastou EE ao tribunal de ética do Colegio de Periodistas, que regulamenta a profissão no Chile, para expulsá-lo da entidade por “grave violação de ética” de seus jornais durante a longa noite da ditadura.

Surpreendentemente, o tribunal da entidade considerou que as opções ideológicas do proprietário de um meio de comunicação “são do fórum da liberdade de consciência, que um tribunal não pode julgar”, negando-se a expulsar o dono do El Mercurio de suas fileiras. Cabieses e muitos de seus colegas reagiram indignados, reiterando que o que estava em discussão não eram as opções ideológicas, mas os atos de EE, fartamente documentados por Peter Kornbluh, e solenemente ignorados pela entidade. Em 2008, o Colegio de Periodistas pediu “perdão” às vítimas, entre elas, vários jornalistas, e ficou por isso.

Dez anos depois, uma comissão do Conselho Nacional da mesma entidade de classe volta à carga contra EE, solicitando ao magistrado Mario Carroza a ratificação das mesmas provas já apresentadas por Cabieses em 2003. Motivo: a abertura do processo de investigação dos civis implicados no golpe militar de 11 de setembro de 1973. Em meados de janeiro de 2013, Carroza acolheu a ação criminal (Processo Nº 1886) impetrada em 14 de dezembro de 2012 por Lorena Pizarro, presidenta da Agrupación de Familiares de Detenidos Desaparecidos, e Alicia Lira, presidenta da Agrupación de Familiares de Ejecutados Políticos, representadas pelo advogado Eduardo Contreras. Os interrogatórios de acusados e testemunhas iniciaram justamente durante os atos cívicos dedicados à memória dos 40 anos do golpe de 1973.

A ação é inédita na história do Judiciário do Chile e tem como fonte de inspiração a juíza uruguaia Mariana Mota – ícone em seu país na luta pela defesa dos direitos humanos e apuração dos crimes cometidos pela ditadura uruguaia –, autora em 2012 do primeiro veredicto conhecido no mundo, que define golpe de Estado como crime de lesa-humanidade.A magistrada condenou a 30 anos de prisão o ex-ditador José María Bordaberry (presidente de 1972 a 1973, após o golpe de Estado, ditador de 1973 a 1976), pelos delitos de “atentado contra a Constituição em reiteração real”, alémde nove crimes de desaparecimento forçado e dois assassinatos políticos.

Na ação criminal, as famílias dos fuzilados e desaparecidos do Chile invocam os artigos 121 e 122 do Código Penal, que qualifica crimes de amotinamento, sublevação e violenta alteração da ordem pública.Como provas anexadas aos autos está o Informe de 1975 da Comissão Church do Senado norte-americano, e documentos do “Pinochet File” de Peter Kornbluh (vide memorandos censurados – “sanitized”).

Como primeira medida, Carroza determinou à PDI – Polícia Federal Chilena por Carroza foi “ubicar y entrevistar Agustín Edwards Eastman”, ilustre personagem citado nos memorandos de Helms e Kissinger. O jovem e corajoso magistrado pretende ir longe: intimou os comandos das três armas das Forças Armadas chilenas, além dos Carabineros e da PDI, à entrega das listas completas das pessoas destas instituições implicadas na trama golpista de 1973.

A própria Justiça, da qual alguns representantes pediram “perdão” durante os atos de denúncia dos 40 anos do golpe, será investigada: a Corte Suprema foi intimada a entregar a lista completa dos ministros que oficiavam nos tribunais à época do golpe, especificamente dos juízes que acusavam Salvador Allende de “quebra da constitucionalidade”, com isso tentando conferir legalidade ao golpe militar. Porém, Carroza enfrentou muitos entraves: com a ação impetrada em dezembro de 2012, durante nove meses o juiz sofreu obstruções, tais como a decisão da alta magistratura de submeter a legitimidade da ação ao voto em plenário, e não assinando a petição.

Mais uma vez a embaixada dos EUA em Santiago também foi intimada a entregar à Justiça chilena os nomes de todos os funcionários americanos “que se desempeñaban en esa sede diplomática al momento del golpe militar”. E novamente Carroza implica no caso a Henry Kissinger, duplamente autuado em ações paralelas e antigas, por seu papel no assassinato do general Schneider e na articulação da Operação Condor.

Caso se comprove a implicação dos acusados – além de Edwards, mais de cem civis e militares – as penas poderão somar de 5 a 20 anos de prisão em regime de segurança máxima, por crimes que vão da associação ilícita e traição por homicídio, lesões graves, incêndio, danos à propriedade do Estado e, no caso dos militares, por espionagem e traição. A conjura deixou um saldo de 3.500 mortos e dezenas de milhares de torturados e “exonerados” por motivos políticos.

“Operação Colombo”: segundo processo contra Edwards envolve Brasil

Apesar dos 30 mil desaparecidos na Argentina, alguns historiadores coincidem em descrever o Chile da “era Pinochet”, com reverberações em sua atual democracia amputada, como o território latino-americano do mais denso, espúrio e repulsivo emaranhado de conspirações e atentados contra opositores e vizinhos, alguns dos quais descaradamente praticados longe de suas fronteiras, como o assassinato do embaixador Orlando Letelier, em Washington, e do general Carlos Prats, em Buenos Aires.

Conspiração da extrema-direita iniciada já durante o governo de Eduardo Frei Montalva, uma de suas primeiras vítimas foi o detetive da PDI, Luis Emilio Colombo Morales, morto aos 36 anos em circunstâncias misteriosas, logo declaradas por seus superiores como “suicídio”. Dois meses antes da eleição de Allende, Colombo integrava a Brigada de Inteligência Política, denominada Brigada Móvil. As investigações oficiais sobre sua morte foram rapidamente encerradas, “sem provas de um assassinato”, tese defendida por seu filho Milton Colombo.

Em seu livro Mis investigaciones sobre la Mafia (2003), Milton relata sua luta diante do Quinto Juizado de Santiago para reabrir as investigações sobre a morte de seu pai, que descreve como portador de informações sigilosas sobre grupos conectados com a CIA para o planejamento de atentados e sequestros de militantes de esquerda. Para Milton a morte de seu pai foi “queima de arquivo”, e acusa a polícia de ocultamento de informação. Teimoso, denunciou o caso à Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA.

Com sua morte, Colomboentrou para a história da investigação de crimes políticos no Chile como metáfora de disfarce, ocultação e de operações sob falsa bandeira, recursos aplicados à perfeição no “Caso dos 119”, por isso chamada de “Operação Colombo”. Nela, o Terrorismo de Estado de Pinochet superou-se em criatividade criminosa, ao combinar uma campanha de extermínio de presos políticos com uma pérfida montagem midiática.

A encenação foi detonada em Curitiba, no Brasil. Em 24 de junho de 1975, nas bancas da cidade luzia o jornal Novo O Dia, e alguns leitores de provecta idade imaginaram tratar-se de um relançamento do saudoso O Dia, publicado na capital paranaense de 1923 até a década de 1960. Notícia comum durante a ditadura Médici, sua manchete denunciava mais uma ação “terrorista”. Esta, porém, lia-se como fora de lugar: relatava um acerto de contas nas próprias fileiras de um grupo de “extremistas” chilenos, com 120 baixas na Argentina. Lá, no mesmo dia, a mesma notícia era estampada pela deconhecida revista Lea, com a listagem da identidade dos chilenos. Em Buenos Aires, a agência UPI pescou e reverberou a “fuzilaria”. No dia seguinte, 25 de junho, La Segunda alardeava em Santiago: “Exterminados como ratazanas”; e o próprio jornalão El Mercurio tergiversava: “Identificados 60 miristas ejecutados por sus propios camaradas”.

Em seu escritório, o secretário de imprensa de Pinochet, Federico Willoughby, recebia uma fotocópia da matéria, com a missão de comentá-la para a imprensa, mas sustou-a, desconfiado. Pediu à assessoria ligar para a embaixada do Chile no Brasil e horas depois teve a confirmação: o tal jornal Novo O Dia não existia, era fake, a revista Lea também! Ali começaram os problemas para Willoughby, que rapidamente intuiu a origem da “notícia”, mas ainda não conhecia a conjuração que ela escondia.

O arquivo do terrorista gay

Trama paralela: em 3 de janeiro de 1974, o presidente Juan Domingo Perón enviava uma carta ao general Carlos Prats, ex-Comandante do Exército, nomeado pelo presidente Allende, refugiado na Argentina, advertindo-o que tomasse cuidado: “Vuelvo a recomendarle la mayor prudencia. Le escribo todo esto para que tome con seriedade esos incidentes alarmantes [Perón referia-se ao golpe no Chile e a repressão generalizada]. Usted es indispensable a los suyos, pero mucho más a su patria em desgracia… ¡No lo olvide! ¡Cuídese!”.

Perón sabia do que estava falando, Prats também, mas o bom general não se cuidava: em 30 de setembro de 1974, Prats e sua esposa foram trucidadospor uma bomba detonada pelo chileno-americano Michael Townley sob o assoalho do carro do casal. Coordenadores do atentado: Enrique Arancibia Clavel, assassino do Gal. Schneider, e seu seu chefe operacional, coronel Raúl Iturriaga Neumann, ambos agentes da DINA plantados em Buenos Aires.

Em 1970, como fugitivo da Justiça chilena, Clavel cruzara os Andes clandestinamente e se instalara em Buenos Aires, acobertado por elementos da extrema direita argentina. Em 1973, Pinochet anistiara os assassinos do general Schneider, e Clavel retornara ao Chile, apresentando-se como voluntário à recém criada DINA, que o reenviaria a Buenos Aires, em dupla missão: espionar refugiados chilenos na Argentina, como também o governo argentino.

Em 1975, a DINA dava início à sua operação “retirada de televisores”, como codificou cinicamente a ocultação de cadáveres de presos políticos, retirados de suas covas e “desaparecidos” no oceano Pacífico e em crateras de vulcões. Elemento de ligação na Argentina, Clavel escreve à central da DINA em Santiago, em 16 de maio de 1975: “Caso Colombo: Vicente me informó que Interpol argentina envió todos los antecedentes como se habían solicitado el viernes 9 de mayo por vía aérea. Con esa información y prévio consentimiento de COPIHUE SANTIAGO el operativo publicidadcomenzará utilizando los servicios de Carlos Manuel Acuña, director de la agencia periodística Prensa Argentina y también periodista del diario La Nación de Buenos Aires. Se tiene contactado un servicio de recortes de diarios para este caso”.

A trama paralela que a DINA montara na Argentina, em cumplicidade com a “Triple A” do ministro López Rega, após a morte de Perón, era a seguinte: os argentinos arranjavam cadáveres mutilados e irreconhecíveis, de vítimas argentinas, sobre cujo corpo a DINA colocou carteiras de identidade dos 119 presos assassinados no Chile, com isso pretendendo sugerir que tinham cruzado a fronteira e morrido na Argentina – esta era a “operação retirada de televisores”, e estava montado o teatro de ilusões!

O objetivo da operação era desorientar os familiares dos “desaparecidos”, obliterando vestígios que pudessem apoiar eventuais investigações futuras, pois o elenco de torturas aplicado pelas bestas humanas da DINA compreendia choques elétricos, unhas arrancadas com alicates, mulheres estupradas e mutiladas com facaas, garrafas e até ratazanas enfiadas em suas vaginas, como atestou o torturador Osvaldo Romo, aliás “comandante Raúl”, diante das câmeras de TV. Após esses inomináveis rituais, seus corpos eram empacotados em sacos, com pedaços de trilhos de aço presos aos pés e, finalmente, atirados ao mar por helicópteros. Os métodos de tortura obedeciam ao figurino do Centro de Instrução de Guerra na Selva, em Manaus, escola de suplícios para onde Manuel Contreras, comandante da DINA, enviava seus sicários, acobertado por convênio com a ditadura Médici, que ajudara a derrubar Allende e agora armava e assessorava a ditadura Pinochet.

Portanto, o “operativo publicidad”, mencionado por Clavel em seu despacho para a DINA, era a armação engendrada com o tal Novo O Dia, em Curitiba, e a revista Lea, em Buenos Aires. Quem plantou a notícia em Curitiba foi Gerardo Evangelista Roa Araneda, até 1964 lotado como adido de imprensa na embaixada do Chile, e durante o governo de Eduardo Frei como funcionário da LAN Chile, no Rio, de onde foi despedido em 1970 pelos correligionários de Allende. Reconhecido no Chile como integrante do Patria y Libertad, após o golpe de Pinochet foi recontratado e retornou ao Brasil como agente da DINA.

Mas Araneda não teria conseguido publicar sozinho o Novo O Dia em Curitiba – quem o ajudou?

As provas contra a DINA e Pinochet foram confiscadas pela polícia argentina em 1978 no apartamento de Arancibia Clavel, quando foi preso a primeira vez, sob suspeita de espionagem para Pinochet, durante o conflito argentino-chileno sobre o Canal de Beagle.

Autorizada pela Justiça argentina, em 1986, a jornalista chilena Mónica González estudou o arquivo da DINA elaborado por Arancibia Clavel, e pela primeira vez conseguiu unir todos os cabos soltos da “Operação Colombo”.

O governo de Michelle Bachelet (2006-2010) reclamava a extradição de Arancibia Clavel, condenado na Argentina a prisão perpétua pelo assassinato do Gal. Prats. O processo de extradição já se arrastava por três anos, quando o agente da DINA, gozando de incompreensível liberdade condicional, foi morto com 17 facadas em seu apartamento. O motivo do assassinato jamais foi esclarecido.

Como autor da “notícia” publicada em Curitiba e Buenos Aires, e reverberada pelos jornais do Grupo El Mercurio, González apontou o jornalista Álvaro Puga Cappa, agente da DINA e colunista do vespertino La Segunda, de EE, tambémconhecido pelo pseudônimo Alexis. “El zorro pierde el pelo, nunca las mañas”, diz um provérbio chileno: impune, Puga Cappa continua ativo no jornalismo pinochetista, como diretor da homepage de extrema-direita, “Despierta Chile”.

Agustín Edwards Eastman está atolado até o pescoço na “Operação Colombo”: não bastasse a pena a soldo de Puga Cappa, um dos militares acusados do assassinato de 4 dos 119 presos desaparecidos, em 1983 o ex-promotor geral da justiça militar de Pinochet, general da reserva Enrique Montero Marx foi contratado por EE como “assessor jurídico” do Grupo El Mercurio. “La confianza entre ambos es absoluta y el trato bastante cercano”, comentam vozes anônimas nos banheiros masculinos da sede do jornal golpista.

***

Frederico Füllgraf é mestre em Comunicação Social pela FUB – Universidade Livre de Berlim e ex-aluno da DFFB – Academia Alemã de Cinema e Televisão, também em Berlim. É escritor (A bomba ‘pacífica’- o Brasil e outros cenários da corrida nuclear, Brasiliense, 1988), roteirista e diretor de cinema (premiado pelo projeto DocTV do MinC, em 2006) e desde 1985 atua como produtor associado da Radio e TV Pública da Alemanha (ARD), atualmente baseado em Santiago do Chile. Como colaborador da revista Brasileiros, em abril de 2013 cobriu a exumação do poeta Pablo Neruda com a reportagem investigativa “Crônica de um assassinato presumido”, na qual resgatou imagens clandestinas de Neruda clicadas pelo fotógrafo brasileiro, Evandro Teixeira, que mudaram o curso das investigações judiciais sobre a morte do Prêmio Nobel.
No OI

Leia Mais ►

Cinco pontos sobre o debate “Organizações Globo x Resto do Mundo”


Tenho um método para assistir vídeos, especialmente os longos, para não perder fio da meada – quando algo me chama a atenção, não me concentro nela, preferindo anotar a altura em que ela se encontra e, depois de terminar a sessão, volto e vejo de novo o trecho, procurando o motivo de ele ter me chamado a atenção e reflito sobre ele. Foi assim que agi em relação a cinco pontos daquele já famoso debate Globo x Resto do Mundo e que se começou discutindo os rumos do jornalismo em tempos de emergência das mídias sociais e acabou se discutindo o que leva a mudanças em qualquer sociedade, ou seja, política.

Assim, vamos lá:

1. O “boi de piranha” – O primeiro ponto, na verdade, ficou meio espalhado depois do jogo realmente começar, no minuto 25 do vídeo. Foi por ali que Pedro Dória, o representante do Globo, fez aquela distinção entre jornalismo tradicional (que virou profissional, mas tanto faz) e o tal jornalismo engajado, e o Rafucko respondeu brandindo a “capa de bandido” do dia 17 de outubro.

A partir daí, o debate virou praticamente um “pega-para-capar” das Organizações Globo, com ataques indistintos ao Globo e à TV Globo. Muito justo, já que foram as OG é que se colocaram nessa posição de tomar pedrada por sua histórica demofobia, mas não o suficiente. O problema, a meu ver, é que outros deveriam ter tomado cacete e nem foram lembrados.

Dentre esses injustamente esquecidos pela ira dos debatedores engajados destacam-se os jornais de São Paulo e, em termos de mídia impressa, eles são muito mais perigosos que O Globo e mesmo que a Veja, a qual hoje ninguém com QI maior do que o de uma ameba retardada leva a sério. O Estado e a Folha são mais perigosos do que O Globo, a meu ver, porque, mesmo sendo tão reacionários quanto ele, disfarçam a demofobia bem melhor por serem editados com muito mais competência.

Exemplo é a própria capa de 17 de outubro. É inimaginável que o Estadão colocasse uma capa tão grosseira quanto aquela e a Folha…Bem, essa nem cogitaria, já que parte importante do seu marketing, desde 1984, é se dizer plural. Os paulistas são mais sutis em seus ataques – usam punhais em vez de espadas. Assim, preferem manipular as informações escamoteando-as e não distorcendo-as claramente. Três exemplos tirados dos últimos 14 dias mostram essa maneira sub-reptícia – dois do Estado de São Paulo (aquiaqui) e outro da Folha (aqui).

Aliás, o último exemplo mostra porque considero o jornal dos Frias o mais perigoso dentre todos os veículos impressos no plano de ataque às aspirações de aperfeiçoamento da democracia no país. É que a Folha pratica o jornalismo “moonwalker” – parece que está indo para frente, mas, na verdade, vai para trás. A existência de um ombudsman (no caso atual, uma ombudswoman) apenas chancela a ilusão, como se pode ver no próprio texto publicado no jornal – traduzindo a resposta da redação, esta diz que estava certa, avisa que vai continuar manipulando informação como no caso denunciado e que se a ombudswoman não gostar, coma menos.

2. Dubiedade ninja – Já tinha acontecido naquele debate no Roda Viva (aqui), mas deixei passar porque, no campo adversário, sob clima hostil, a gente faz o que pode e nem sempre se sai muito bem. No debate do youpix, porém, o campo e a torcida eram a favor e ainda assim o representante ninja mostrou uma dubiedade preocupante, no caso sob a questão da violência x democracia.

Dubiedade essa que nem se mostrou num momento muito complicado – ocorreu quando uma menina do público fez uma pergunta simples, direta e óbvia: por que o MJ concordava que jornalistas das OG tomassem porrada dos manifestantes , mas condenava que a PM porrasse os manifestantes? O ninja, depois daquele papo que o MJ é uma plataforma aberta e coisa e tal, disse que era contra essa violência, pero no mucho, pois os manifestantes teria legitimidade de baixar o cacete em quem usasse o crachá da Globo.

A dubiedade ficou exposta claramente pelos comportamentos de dois dos debatedores. Esse foi o único momento, a partir dos 25 minutos, que o Pedro Dória saiu da defensiva ao pontar a contradição e mandar de novo o argumento de que os manifestantes estravam tentando “calar uma voz” de maneira antidemocrática. Já o Rafucko tratou de saltar de banda e afirmar, com todas as letras, que era contra qualquer tipo de violência e mandou até uma letra de que defendia um “estado de paz”. Deixou assim o pobre do ninja segurando sozinho na broxa da violência contra a liberdade de expressão. Foi uma manobra esperta e não dá para condená-la – em política, como diria o Droopy, aquele cachorrinho de desenho animado, vale a “leeei do Oeste!”.

3. Democracia ou não? – Rafucko saiu-se bem no item 2, mas também deu mole quando disse que o Brasil não vive um democracia. Seu argumento até é muito bom – se quem mora em favela não é considerado cidadão pelas instâncias do Estado, não há democracia plena – e o exemplo, do Caso Amarildo é ótimo, mas a conclusão…

Só para ficar no caso citado no debate, é só comparar a dimensão que tomou o martírio de Amarildo com o Caso Marli. Em 1979, Marli Pereira Soares, contando apenas com sua coragem e uma ajuda apenas razoável do Jornal do Brasil (a cobertura dos outros não conta de tão ruim), denunciou PMs que mataram seu irmão e, literalmente, enfileirou uma batalhão inteiro para fazer o reconhecimento dos assassinos – e o fez. Nada sequer comparável à mobilização social que levou ao indiciamento de 25 PMs pelo assassinato de Amarildo.

Houve uma salto de qualidade no desenvolvimento político do Brasil e negar , comparando a situação atual à de uma ditadura de verdade… Bem, é uma tremenda bobagem, para dizer o mínimo. Que foi também aproveitada pelo Pedro Dória, mas não tão bem quanto pelo Rodrigo de Almeida, do IG.

Ah! Quem quiser saber como foi o Caso Marli pode ler o depoimento dela no livro “Marli Mulher: tenho pavor de barata, de polícia não” – está bem baratinho, por exemplo, aqui.

4. Globo sem passaralho – A essa passagem voltei só pra rir. O ninja disse que os veículos da mídia tradicional vêm realizando passaralhos (no jargão, demissões em massa de jornalistas) por estarem perdendo assinantes – e, consequentemente, dinheiro – devido à cobertura distorcida das pautas populares (isso quando cobre, claro), e o Pedro Dória interrompeu afirmando que no Globo passaralho não ocorrera. É verdade, mas ele não disse o porquê – a razão é que o pessoal está pedindo demissão antes de ser mandado embora. A prática já vinha acontecendo há algum tempo, mas atingiu um novo patamar após o 17 de outubro – há casos de gente mandando email para lista de amigos a fim de pedir indicação para qualquer emprego porque o mal-estar de trabalhar no jornal se tornou insustentável.

5. O abraço – Depois que a moça de vestido framboesa (aquela cor não é vermelho, ok?) deu por encerrado o debate e enquanto a plateia se retirava, o ninja caia fora imediatamente e Rodrigo de Almeida, Alexandre Inagaki e David Butter, o mediador, batiam um papo, Rafucko e Dória trocaram um abraço fraternal ao fundo. Bacana. Como diria Charles Brown, essa atitude deve ter significado algo, só não sei o quê.

Por fim, um comentário pós-divulgação do vídeo. Muita gente elogiou o Pedro Dória pela coragem de ter ido colocar a cara a tapa no debate. Concordo, foi corajoso, só que… Ah! Esse ceticismo ainda acaba comigo… Se ele foi convidado diretamente, na versão CPF, não teria como deixar de ir sem expor o jornal – e isso muito provavelmente teria sido discutido com a chefia de redação em férias, por telefonema internacional – mas nem creio que o convite tenha sido realizado assim. O mais provável é que tenha sido enviado ao CNPJ, ao Globo, e este escolhido o Dória para representá-lo, por três motivos: é editor-executivo; dentre estes, um dos que interage bem com o seu semelhante; e o único que pode ser apontado como especialista em mídias sociais, tendo até uma coluna semanal sobre o mundo digital. A missão, pela lógica, teria que ser confiada a ele – e, nas Organizações Globo, vale a máxima bopiana: “missão dada é missão cumprida”.

No Coleguinhas, Uni-vos!
Leia Mais ►

Momento poético: Ode da Oposição


Leia Mais ►

Por que o apoio de atores da Globo às manifestações é visto com desconfiança

Mariana Ximenes

Atores da Globo, uns mais conhecidos que outros, fizeram um vídeo chamado “Grito da Liberdade”. Convocavam para uma manifestação no dia 31 de outubro no Rio de Janeiro. Wagner Moura, Leandra Leal, Marcos Palmeira, Mariana Ximenes, entre outros, falaram, de maneira difusa, da violência policial.

O vídeo foi postado aqui. Está em outros lugares. A reação não tem sido positiva. Por que duvidamos das intenções e do endosso desses artistas?

Primeiro porque existe um certo cheiro de oportunismo. O apoio de uma celebridade pode fazer bem ou mal a uma causa. Se ele, ou ela, é atuante e tem um histórico ligado a determinado assunto, não provoca estranhamento. Quando Mariana Ximenes fala para o pessoal aparecer num protesto porque ele vai ser lúdico (tipo tomar tiro de bala de borracha?) e terá intervenções artísticas, dá uma complicada.

Bono foi convidado a ser um dos rostos da campanha ONE, contra a miséria na África. A adequação era clara. Ele já era uma voz no combate à AIDS. Trouxe doações e ajudou a popularizar o tema. Madonna no Mali virou uma dor de cabeça para ela e para o país.

Globais gravaram, em 2011, um vídeo em protesto à construção da usina de Belo Monte. Virou piada. O que Bruno Mazzeo poderia contribuir ao debate? Depois foram as cinco atrizes da novela das 9 numa foto tétrica contra o voto do ministro Celso de Mello no mensalão. Um clássico.

No “Grito da Liberdade”, há dois nomes que têm alguma atuação na política. Marcos Palmeira, dono de uma fazenda de produtos orgânicos, teria sido sondado pelo PSB para concorrer ao governo no Rio. Wagner Moura militou a favor de Marcelo Freixo e se empenha em passar uma imagem contrária à do policial fascista que interpretou em “Tropa de Elite”.

Eu falei recentemente no humorista inglês Russell Brand. Brand foi receber um prêmio da revista de moda GQ. Subiu ao palco e lembrou que o patrocinador, Hugo Boss, produzia os uniformes dos nazistas. Foi expulso da festa. Tem insistido que haverá uma “revolução”. É bem informado, articulado e tem uma bandeira. Hoje é ouvido, respeitado e seguido.

Ninguém duvida das intenções dos globais. Mas ninguém esquece de onde eles são. Um trecho do “manifesto” diz o seguinte:

“Somos a rede social trazendo a contra-narrativa, já que a mídia comprada pelo poder atua como polícia para esvaziar as ruas e silenciar o clamor popular”.

Mídia comprada pelo poder é o Jornal Nacional?  Wagner Moura vai dizer isso? Camila Pitanga vai parar de dar entrevistas para o “Fantástico”?

Peraí, né? Aí já é querer demais.

Enquanto isso, os manifestantes continuarão confiando mais numa convocação feita por um anônimo no Facebook do que em celebridades que detonam o “sistema” na sexta-feira e, no domingo, estão no Faustão vendendo a nova novela das 7.

Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Marina Silva é uma cara nova para a direita, diz Boaventura de Sousa Santos

Sociólogo português Boaventura de Sousa Santos veio ao Brasil para o lançamento de dois livros: "Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos" e "Direitos Humanos, democracia e desenvolvimento", o segundo em coautoria com a filósofa Marilena Chaui.

Sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, em entrevista à Folha
Fábio Braga/Folhapress

Folha - "Se Deus fosse um ativista dos Direitos Humanos" é um título provocador. Sugere que o senhor acredita em Deus. E sugere que Deus poderia dar mais importância para os direitos humanos. É isso?

Boaventura de Sousa Santos - De fato, não. O título é provocador. Eu não me comprometo com a existência de Deus. Sou como Pascal [filósofo francês, 1623-1662]: diria que não temos meios racionais para poder afirmar com segurança se Deus existe ou não. O que podemos é fazer uma aposta: apostar se existe ou se não existe. Como sociólogo, o que penso é que há muita gente que aposta na existência de Deus e que organiza sua vida ao redor disso.

Estamos num momento de fortes movimentos sociais em todo o mundo, com protestos, muita indignação, muita revolta. Alguns desses movimentos trazem no seu interior pessoas e grupos que seguem diferentes religiões. Ou que transformam a religião e a existência de Deus no motivo da ação ou num impulso para a ação. Portanto, eu tive curiosidade de analisar. Esse fenômeno é extremamente ambíguo.

Quando surgiu a curiosidade?

Eu já tinha notado desde o Fórum Social Mundial de 2001, onde vi que havia movimentos sociais e organizações de diferentes partes do mundo com vivências religiosas, como a Teologia da Libertação e outros. Tinham uma dinâmica de grupo onde o elemento religioso, espiritual, era forte. Havia movimentos indígenas, para quem o elemento da religiosidade é sempre forte. Essa dimensão do transcendente é que me fascinou, pois eu venho de uma cultura eurocêntrica, que há muito tempo tenho criticado, mas sou filho dela, por assim dizer. Essa cultura tinha resolvido o problema através do que chamamos de secularismo, que é expulsar a religião do espaço público.

A presença da religião na política está crescendo?

A religião nunca saiu verdadeiramente da política. Temos sociedades que são laicas, mas cujos estados não são. É o caso da Inglaterra, por exemplo. E temos sociedades onde a convivência é mais laica do que outras. Tanto assim que hoje a gente faz distinção entre o secularismo e a secularidade. Secularismo é uma atitude mais radical, de deixar que a religião fique exclusivamente no espaço privado, na família, na vida. Secularidade é aquela que permite que haja expressões [religiosas] no espaço público como afirmação da própria liberdade de todos os cidadãos.

Mas é evidente, a gente sabe, a maneira com que a Europa resolveu a questão da separação da igreja e do Estado no século 17, depois de uma guerra enorme, nunca foi uma separação total. A igreja continuou a ter uma grande influência. Foi assim no esforço da colonização. Continuou com grande influência, ainda tem, nas agendas que o papa Francisco disse recentemente que são as agendas da cintura para baixo (risos), acerca das orientações sexuais, aborto, divórcio. Obviamente são questões de interesse público.

O que parece é que a crise do Estado secular trouxe uma maior presença da religião no espaço público. No mundo árabe, no mundo indiano e também no mundo ocidental. Começou a emergir nas televisões religiosas, cada vez mais e sobretudo com as correntes evangélicas e pentecostais. É uma presença pública muito mais forte, mas também um interesse em influenciar a vida pública, a vida dos Congressos, dos parlamentos. É o que acontece hoje no Brasil.

No Brasil isso parece mais evidente a partir da eleição de 2010, quando o assunto chegou a dominar o debate eleitoral. Como tem sido no resto do mundo?

Na Europa não é tão forte quanto aqui ou nos Estados Unidos. Mas encontramos no próprio mundo islâmico, por outro lado, diferentes formas de afirmação religiosa que não são todas fundamentalistas. Algumas são bastante moderadas. Mas que também se recusam a pensar que sua dimensão espiritual e religiosa não têm nada a ver com suas lutas.

Então o mundo hoje é mais diverso, e dessa diversidade, no meu entender, faz parte uma maneira muito diversa de ver a religião na vida pública. Isso está surgindo por todo lado, com formações bem distintas.

Algumas continuam na base da sociedade, como acontecia com a Teologia da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base. Mas temos nos últimos anos, no Brasil muito claramente, a influência [religiosa] na própria cúpula do Estado, na estrutura política do Estado. Isso é novo.

Era uma corrente que já vinha dos anos 80 dos Estados Unidos. Uma corrente muito conservadora. Um dos grandes líderes dessa corrente nos Estados Unidos fez uma previsão que praticamente se confirmou. Ele disse assim: "quando um dia não houver uma grande diferença entre democratas e republicanos, e se forem todos mais ou menos conservadores, podemos começar a jogar golfe tranquilamente, pois significa que cumprimos a nossa missão".

E a esquerda com isso? Seu livro é uma espécie de ajuste?

O pensamento crítico da esquerda, de uma sociologia crítica, sempre foi muito renitente em analisar o fenômeno religioso. Pois qualquer análise que não seja simplesmente dizer que religião é o ópio do povo fica como suspeita.

Minha experiência no Fórum Social Mundial fez-me crer que, se eu mantivesse essa atitude pouco complexa, eu deixaria fora da minha análise muita gente que genuinamente luta contra a desigualdade, a injustiça, a discriminação, a opressão. Não é gente alienada. É gente que realmente luta por um mundo melhor e que, no entanto, tem uma referência religiosa. Eu não posso considerar que isso é alienante. Então escrevi esse livro também para fazer as contas comigo mesmo.

Qual é a sua conclusão?

Termino dizendo que não há um Deus. Há dois: o Deus dos oprimidos e o Deus dos opressores. Enquanto a sociedade for dividida e houver tanta desigualdade social, penso que o Deus que estiver do lado dos oprimidos não se reconhece num Deus que esteja do lado dos opressores.

O outro livro é sobre direitos humanos, que parece refluir na medida em que aumenta a influência religiosa. Alguns políticos têm como principal plataforma o ataque aos direitos humanos. Quais são as relações entre as duas coisas?

É obviamente uma estratégia religiosa. É uma dimensão de todas as correntes conservadoras, de direita, que existiram ao longo do tempo. Houve, de fato, uma igreja progressista, de esquerda, que achou que sua missão era a missão evangélica do sermão da montanha, de estar com os pobres. Os pobres não estão no parlamento, estão nos bairros, nas favelas. E é para aí que os missionários devem ir. Mas há toda uma outra corrente que nunca aceitou que igreja ficasse fora do governo. Alguns deles entendem que a Bíblia, literalmente, dita o direito para os Estados e que, portanto, os direitos humanos não pertencem a esse direito bíblico. É como no mundo islâmico, onde há conceitos muito hostis aos direitos humanos.

Então, de vários lados, estamos a assistir a um ataque aos direitos humanos. Esse é o tema do meu outro livro, escrito por um sociólogo que se considera um cidadão ativista dos direitos humanos.

Eu também faço uma crítica aos direitos humanos. Mas uma crítica progressista: os direitos humanos são pouco. Então eles são criticados por mim por serem poucos. E a direita critica por serem muito. Eu digo pouco porque acho que a grande maioria dos cidadãos do mundo não são sujeitos de direitos humanos, são objeto de discurso de direitos humanos. São violados constantemente.

Agora, sobretudo após a queda do Muro de Berlim, em que as narrativas socialistas caíram em desuso, pelo menos até agora, o que ficou de luta por uma sociedade melhor foram os direitos humanos. Se o socialismo estivesse na agenda política, eu tenho certeza que essa direita religiosa incidiria completamente contra o socialismo.

Nessa questão dos direitos humanos, em que posição o senhor situa o Brasil hoje?

É uma leitura muito complexa. Há áreas e domínios dos direitos humanos em que tivemos conquistas extraordinárias desde o governo Lula. Eu considero [positiva] toda política de ações afirmativas, do reconhecimento de que há racismo na sociedade brasileira e de que é preciso tomar medidas para que afrodescendentes e indígenas possam ter acesso à educação, numa tradição que vinha desde há muito tempo com Abadias do Nascimento, mas que nunca teve êxito. Também o fato de criar um Brasil mais inclusivo, mais diverso, mais colorido, com mais consciência de sua diversidade étnico cultural. Penso que tudo isso foi um grande avanço.

Onde eu vejo que há retrocesso é em toda a área dos direitos humanos que trouxeram também no seu bojo aquilo que, para um desenvolvimentista, pode ser considerado um obstáculo.

Os direitos humanos trouxeram consigo o reconhecimento dos direitos coletivos. E os direitos coletivos do povos indígenas estão protegidos, internacionalmente, por convenções, aliás, que o Brasil assinou, sobretudo o convênio 169 [da Organização Internacional do Trabalho], que obriga consulta prévia, livre, informada e de boa fé. E de boa fé! E que, hoje em dia, depois da declaração das Nações Unidas de 2007 sobre os direitos dos povos indígenas, firma-se na jurisprudência da Corte Internacional de Direitos Humanos que sempre que estejam em causa a própria sobrevivência de um povo, seja uma barragem, seja um projeto de mineração, a consulta deve ser vinculante. Bem, nesse caso, eu tenho que dizer que tem havido retrocesso.

Não é só na demarcação de terras. Tem ainda a questão de saber se a concessão de novas terras são atribuição do parlamento e não do Executivo, o que seria a mesma coisa que dizer que nunca mais haverá qualquer concessão.

Então eu acho que a presidente Dilma está a perder uma batalha, está realmente com uma grande insensibilidade ao movimento indígena camponês, que foi uma grande forma de transformação em toda América Latina.

O senhor considera o governo Dilma de direita?

Eu venho da Bolívia, estive no Equador, conheço os outros países [da região]. Alguns deles são muito mais à direita no governo, é o caso do México. E lá estamos assistindo a uma grande vitória de um povo indígena que lutou contra uma barragem, La Parota, e conseguiu efetivamente parar essa barragem.

Eu colocaria a presidente Dilma no mesmo pé em que coloco o presidente da Bolívia [Evo Morales] e o governo do Equador. São governos que eu considero progressistas. Não os considero de direita. Eles, de alguma maneira, fazem muito do que sempre fez a direita: têm o mesmo modelo de acumulação, o mesmo modelo capitalista, o mesmo neoliberalismo, aproveitaram a mesma onda de extrativismo, com a reprimarização da economia.

Mas o que esses governos fazem e que a direita nunca fez na América Latina foi redistribuir esses rendimentos de alguma maneira. Distribuem muito mais que os outros governos. Para muitos grupos sociais, isso não é suficiente. Até porque essa forma de redistribuição é relativamente precária, não é com direitos universais, é algo que pode parar de um momento para outro. Mas há problemas. Os ambientais são extraordinários.

Qual o senhor citaria?

É certo que o Congresso é outra coisa. Mas eu fico espantado como é que é possível, estando a frente do país alguém como Dilma Rousseff, como é possível abrir uma discussão sobre a semente Terminator no Congresso. É a semente que fica estéril, a suicida. Isso está suspenso. É ilegal para o mundo inteiro. É um escândalo, se aprovar. Ela foi suspensa no âmbito da convenção de biodiversidade exatamente porque coloca os camponeses nas mãos da Monsanto e das outras três ou quatro empresas que têm a patente. Isso é o fim da agricultura camponesa.

Em muitos países é a agricultura camponesa que alimenta as populações, pois a grande indústria produz soja e outros produtos de exportação. A diversidade da produção agrícola é feita por pequenas propriedades, a agricultura familiar, a camponesa. Portanto isso significa arrogância dessas empresas transnacionais que têm acesso ao parlamento para ditar sua lei. E se você olhar bem, há uma aliança entre os religiosos evangélicos e os ruralistas. Então aqui há uma convergência de forças, uns que vêm da tradição ruralista, outros que vêm de uma tradição religiosa de direita, que se armou contra o comunismo e contra a revolução na América Latina.

Então não considero a presidente Dilma um governo de direita por sua capacidade de distribuição, agora há uma grande insensibilidade, que não vem de agora.

Onde mais há problemas?

Basta ver quantas vezes foram recebidas a CUT e outras entidades antes desses protestos: zero. Portanto significa que a presidente Dilma tem uma grande insensibilidade social, que se tornou ainda mais evidente por conta da posição do Lula, ao estilo Lula, que era de muito mais aproximação com os movimentos sociais. Isso perdeu-se. Eu considero uma perda muito grave.

A ex-ministra Marina Silva tem um discurso mais próximo desses segmentos que o senhor mencionou, meio ambiente, indígenas. Ela serve para a esquerda?

Eu penso que não. Sou amigo da Marina Silva, estive em vários painéis com ela e comungo com ela muitas causas ambientalistas. Mas acho que não porque a influência religiosa no país iria nitidamente continuar a desequilibrar. A dimensão religiosa que está por trás dela é uma dimensão que, no meu entender, tem mais um potencial conservador do que um potencial da Teologia da Libertação. Portanto é um potencializador de uma interferência conservadora na sociedade.

Isso pode ter outras dimensões para os direitos das mulheres, dos homossexuais, para as diversidades sexuais.

Por outro lado, sua política econômica, por aquilo que tenho visto e pelos apoios que ela recorre, é realmente uma tentativa de, com uma cara nova, uma mulher, repor o sistema que estava antes. Seria desacelerar ainda mais as políticas de redistribuição social que foram aquelas que, no meu entender, mais caracterizaram o período Lula.

Não penso que a Marina Silva esteja muito sensível a isso tudo. Então eu penso que ela é uma cara nova para a direita. Não é uma cara para a esquerda, no meu entender.

Milhares de pessoas foram às ruas no Brasil para protestar por diversas causas. Tudo muito rápido e inédito. O senhor tem alguma reflexão sobre o que ocorreu no país?

Analiso os diversos movimentos que surgiram no mundo desde 2011: a primavera árabe, o ocuppy [Wall Street, nos EUA], o dos indignados no sul da Europa e na Grécia, o movimento "Yo soy 132", que é contra a fraude eleitoral no México, o movimento estudantil do Chile em 2012 e também os protestos no Brasil.

Considero que 2011-2013 é um daqueles momentos no mundo como nós tivemos em 1968, 1917, 1848. São momentos de movimentos revolucionários.

O que os caracterizam fundamentalmente hoje? São sinais de que, em muitos países, estamos a entrar num processo de guerra civil de baixa intensidade: uma grande agitação social porque as instituições não funcionam propriamente. Na Europa, a rua é o único espaço público que não está colonizado pelo capital financeiro. Nos EUA, a mesma coisa. Há uma deterioração das instituições, uma ideia de que a democracia foi derrotada pelo capitalismo. No sul da Europa isso parece muito claro, e as ruas e as praças são os únicos espaços onde o cidadão pode se manifestar.

Quem é esse cidadão?

É um cidadão diferente dos [cidadãos dos] processos anteriores. Um erro do pensamento político foi pensar em cidadãos organizados que fazem essas revoltas. De fato, não é assim. Essas revoltas são feitas, normalmente, por jovens que nunca participaram de movimento social, de partidos, que nunca votaram, nunca estiveram em nenhuma ONG. E de repente estão na rua. Isso não foi só aqui. Foi no Egito, na Europa, nos EUA. São movimentos que surgem a partir de momentos em que as instituições parecem não dar respostas às aspirações populares. Obviamente são diferentes. Não se pode pôr a primavera árabe ao lado do Brasil ou do occupy. São coisas distintas.

O movimento do Brasil tem uma genealogia, uma história, semelhante ao movimento dos indignados de Portugal, da Espanha e da Grécia. São jovens democracias onde houve uma expectativa de uma social-democracia, uma democracia com fortes direitos sociais, de educação, saúde, transporte. Havia uma expectativa de uma sociedade mais inclusiva. Essa era a promessa. A democracia não é simplesmente mero voto e a representação política, mas se traduz em direitos sociais e econômicos. Portanto nesses casos [Brasil e indignados], os movimentos surgem da ruína dessas aspirações. Democracias suficientemente jovens para ainda acreditar que eles têm esses direitos.

Os occupy já nem têm sequer essa ilusão, pois a democracia americana é cada vez mais restringida e eu nem acho mais que é uma democracia a sério nos EUA; eu vivo lá metade do ano, como você sabe, e conheço o país.

Uma crise da democracia?

Aqui [no Brasil], a juventude se dá conta que aquela democracia que ela acreditou não funciona, está sendo derrotada pelo capitalismo. Os países dão mais atenção aos mercados internacionais, aos grandes grupos transnacionais, do que dão aos seus cidadãos. Na Europa isso é muito claro. O meu governo [Portugal] está mais atento à agência de classificação Standard & Poor's, sobre o que ela dirá amanhã sobre a taxa de rating do crédito português, do que as demandas dos portugueses, as reivindicações. E quanto mais as pessoas vão para as ruas, mais abaixa a nota do crédito internacional. Ou seja: a democracia está sendo usada contra os cidadãos. A democracia é exercida hoje contra o bem estar. Tinha-se a ideia que caminhávamos para um estado de bem estar. De alguma maneira, hoje, o Estado é um Estado de mal estar. O que aconteceu no Brasil, no meu entender, é essa frustração.

Compartilha com os outros movimentos essa espontaneidade. E o fato de não ser ideologicamente unitária, é o mais diverso possível. E com demandas contraditórias. E com uma característica também comum em todos eles: prevalece o negativo sobre o positivo. Esses grupos, que eu nem chamo de movimentos sociais, chamo de presenças coletivas, sabem o que não querer, mas não sabem bem o que querem. Podem ter uma demanda, como foi o caso do Movimento Passe Livre, mas essa é uma demanda que rapidamente pode ser superada por grandes demandas de superação do Estado. Como aconteceu na Tunísia. O moço que se imolou na Tunísia queria apenas que legalizassem o seu comércio de rua, e de repente aquilo era uma luta contra a ditadura.

O que todos estão a dizer? Estão a dizer que o mundo está escandalosamente desigual. Essa não é uma questão da pobreza. É que nos países, internamente, a diferença entre ricos e pobres nunca foi tão grande. Em meio aos maiores sacrifícios da sociedade portuguesa, com cerca de 50% dos jovens até 25 anos sem emprego, o número de ricos aumentou em Portugal nos últimos anos. E os ricos ficaram ainda mais ricos.

Essa descrição não coincide exatamente com o que ocorreu no Brasil. A distribuição de renda brasileira medida pelo índice Gini ainda é uma das piores do mundo, mas melhorou.

Sim, está reduzindo [a desigualdade de renda], nunca tinha acontecido antes, isso é preciso reconhecer. O que nós temos que ver, isso é minha leitura, é que as políticas que foram criadas para essa redução ocorrer - e por isso que eu digo que [Dilma] não é um governo de direita - são as que eu chamo de políticas de primeira geração. A segunda geração é que essa gente que agora come bem, agora que tem algum apoio, quer evoluir, quer ir para a universidade, quer outra qualidade dos serviços públicos. E aí estancou.

O senhor disse que esses grupos sabem dizer o que não querem, mas não sabem dizer bem o que querem. No Brasil, entre as coisas que eles diziam não querer estavam os partidos políticos. Teve até hostilidade, violência. O senhor vê isso com preocupação?

Sim, evidentemente. Mas ao mesmo tempo compreendo o que está ocorrendo. É aquilo que eu disse, que a democracia representativa liberal foi dominada e vencida pelo capitalismo, pela corrupção, pela presença do dinheiro nas eleições, nas campanhas eleitorais. Isso faz com que os representantes estejam cada vez mais distantes dos representados. É aquilo que a gente chama de patologia da representação: os representados não se sentem representados por seus representantes.

É um processo conhecido, pois há anos discute-se no Brasil a necessidade de se fazer uma reforma política, uma reforma do sistema eleitoral, do financiamento dos partidos. E todas essas reformas têm sido bloqueadas. Então essa negação não é propriamente a negação da democracia representativa. São duas ligações importantes: esta democracia participativa não serve, o dinheiro não pode ter o poder que tem hoje nas eleições; e a democracia representativa nas sociedades complexas não chega, ela precisa ser complementada pela democracia participativa.

Eu acho extraordinário que, no caso da primavera árabe - jovens de vários países que não tiveram democracia propriamente - a grande bandeira é a democracia real. Portanto quando dizem que há luta contra os partidos, não é que eles estejam dizendo que, em princípio, eles não têm nenhuma validade. É esta forma de democracia, a do poder do dinheiro, que está derrotada. E se ela não se alterar, temos altos riscos para a sociedade. É por isso que eu digo, escrevi dois artigos sobre isso, que há uma grande oportunidade: a oportunidade de uma reforma política. Esse é grande tema com o qual o PT chegou ao poder, não podemos esquecer.

Mas nos protestos ninguém levantou uma plaquinha sequer pedindo reforma política.

(risos) É por isso que eu digo: as pessoas não sabem o que querem, sabem o que não querem. Como é que se faz formulação política? Para sair daquilo que elas não querem, é preciso uma reforma política. Obviamente. E é por isso que temos partidos.

Eu acho que cabe à classe política encontrar as soluções. Os jovens não têm que saber [como fazer]. Nem dá para exigir que eles saibam. Como é que vai fazer um serviço unificado de saúde suficientemente robusto? Não têm que saber. Há técnicos e há políticos que vão fazer isso. A reforma política é a mesma coisa. E a presidente Dilma deu uma certa esperança quando falou nas cinco medidas que seriam tomadas e incluiu a reforma política, mas, infelizmente, os poderes conservadores do Congresso...

Foi nesse contexto que surgiram os grupos "black blocs", com a tática de causar danos materiais para fazer suas denúncias. Eles aparecem em tudo, da greve de professores à ação para libertar cachorros de um laboratório de pesquisa médica. Qual é a opinião do senhor sobre esses grupos?

Esses grupos nasceram nos anos 70 na Alemanha, na luta contra a energia nuclear. Na década de 80, adquiriram uma ideologia autonomista. A ideia de que "temos que criar na sociedade espaços de autonomia que não dependem do capitalismo e que, portanto, podem oferecer outra maneira de viver". Tiveram muita repercussão.

No momento em que começam os protestos contra a globalização, Seatle (EUA) é o marco, eles começaram a assumir duas características de sua tática: de um lado a ideia de violência contra propriedades símbolos do capitalismo, que pode ser um McDonald's, um banco; de outro lado, a defesa dos manifestantes. Eles assumiram isso. Em muitas mobilizações, foram eles que, diante da violência policial, defenderam mais eficazmente os manifestantes pacíficos. Então a violência policial, no meu entender, é uma das grandes responsáveis pelo protagonismo "black bloc". Eles enfrentavam. E a notícia muitas vezes passava a ser o enfrentamento entre os "black blocs" e da polícia.

Um terceiro fator que complica, principalmente a partir do ano 2000, isso está documentado, é que a polícia infiltra o "black bloc" para depois justificar sua violência. Isso está demonstrado em vários países. E este é o contexto em que nós estamos.

Mas como entender o "black bloc"?

Não são grupos de extrema-direita. Eu penso que, acima de tudo, temos que entender por que surgem esses movimentos. E encontrarmos, através do diálogo, formas de ver se estas são as melhores formas de luta. No meu entendimento, como já disse, estamos num momento político daquilo que chamo de guerra civil de baixa intensidade. Numa guerra assim, queremos que cada vez mais gente venha para a rua. No meu entender, para fazer pressão pacífica sobre os Estados.

Quando o capital financeiro será cada vez mais influentes, quando as Monsantos conseguem pôr no Congresso a [semente] Terminator, quando os evangélicos dominam a agenda política, quando os ruralistas dominam a agenda política, os governos, mesmo que tenham uma orientação de esquerda, precisam ser pressionados de baixo. A partir de baixo. E essa pressão tem de ser pacífica. E tem de ser inclusiva. E para ser inclusiva tem de trazer para a rua as pessoas que nunca foram para a rua, os chamados despolitizados, as avós, os netos.

Ora bem, se é esse o objetivo, o "black bloc" é uma força contraproducente. As pessoas querem ir para a manifestação, mas com medo que haja violência, com medo da brutalidade e violência policial, dizem ao final "não vamos". Penso, portanto, que o "black bloc" deve analisar em que contexto nós estamos.

O ex-presidente Lula fez uma crítica direta ao uso das máscaras. Disse que participou de muita manifestação de rua, mas que nunca usou máscara porque não tinha vergonha do que fazia.

Eu acho que é uma posição legítima, mas não sei se é a única resposta que se pode dar. As pessoas têm suas formas de representação. Exemplo disso é o governo do Peña Nieto, o [partido] PRI, no México, que eu considero de direita. Nas últimas manifestações, o protesto de professores no México, teve a presença dos "black blocs" com as máscaras negras. E chegou ao ponto também em que o governo está para promulgar uma lei que proíbe as máscaras. Sabe qual foi a reação? Os homossexuais começaram a usar máscaras pink. Foram para os protestos com máscaras cor-de-rosa, máscara homossexual. Então a polícia vai prender? Eles não praticam nenhuma violência, usam máscara agora para afirmar a diversidade sexual.

Isso é para ver como a coisa é complicada. Criou-se uma solidariedade entre os homossexuais e o "black bloc". Então, por vezes, as autoridades se excedem na forma. Eu penso que essa não é a forma. Penso que a forma é de dialogar, de trazer para uma mesa de conversa. Obviamente é uma discussão muito difícil, mas é uma discussão que é preciso ter.

Boaventura de Souza Santos, sociólogo português, doutor pela Universidade de Yale (EUA), professor da Universidade de Coimbra (Portugal) e da Universidade de Wisconsin (EUA). Livro recente "Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos" (Cortez Editora)
Ricardo Mendonça
No fAlha
Leia Mais ►