26 de out de 2013

Carta de Noemia Barbosa


Noemia Barbosa é filha do escritor Alaor Barbosa, cuja obra biográfica sobre Guimarães Rosa foi proibida de ser publicada pelas herdeiras de Rosa.

CARTA A SRA. VILMA GUIMARÃES

O QUE OS PAIS DEIXAM AOS FILHOS

De Noemia Barbosa para Vilma Rosa

Vilma,

Nasci filha de escritor. Doei para o meu pai, desde o meu nascimento, longas horas da minha infância e da minha adolescência. Meus irmãos doaram outras tantas horas. Minha mãe dividiu o marido, durante décadas, com sua amante, a literatura. Mas meu ciúme de criança foi se atenuando, ao longo dos anos, e mais ainda com o chegar da maturidade. Passei a admirá-lo, respeitá-lo, reverenciá-lo. Principalmente, passei a compreendê-lo. Literatura, para o meu pai, o escritor Alaor Barbosa, é e sempre foi devoção. Triste do filho ou da filha que não respeita e nem compreende as devoções paternas.

Assim como você, também sou herdeira de uma obra literária. Grande, extensa, profunda, séria. Fruto de muito trabalho, pesquisa e esforço, feita com paixão e talento. Obra reconhecida e tantas vezes premiada. Falo de quase meio século de produção literária, tempo bem maior do que eu mesma tenho de vida. Meu pai, Vilma, já era escritor antes de eu nascer.

Tenho a sorte de ter meu pai comigo, avô carinhoso das minhas filhas, em almoços de domingo. Vivo, feliz e produtivo. Mas já estou de posse da herança que ele me legou. Foi uma partilha sem desavenças, entre a família e os amigos. Não a herança material, mensurável, quantitativa, que se deposita em conta bancária. Desta, basta-nos o óbolo de Caronte. O que recebi de meu pai foi um norte, um rumo, um equilíbrio, um eterno buscar da verdade. O amor e o respeito por tudo de bom que o ser humano já produziu.

Você, Vilma, também recebeu uma herança. Magnífica herança, portentosa, imensurável. A herança de um gigante. A herança de um gênio, primus interparis. Temos, portanto, responsabilidades. Eu e você. A minha, talvez mais leve, é a de impedir que a herança de meu pai seja aviltada, desqualificada, vilipendiada. Isso, tenha certeza, não acontecerá. As inverdades, calúnias e difamações são muito fugazes e, uma vez reveladas, deixam despida aquela que as inventou. Aliás, é assim que eu vejo você: despida, nua, pelada. Porque mais marcado será sempre o caluniador do que o caluniado. Já a sua responsabilidade, Vilma, é a de não abastardar, não apequenar, não diminuir a sua herança, o seu legado. A obra do seu pai é universal. Não a amesquinhe, não a reduza a herança à estatura da herdeira.

Num país como o nosso, Vilma, tão carente de cultura, tão necessitado de modelos, tão merecedor de exemplos, resta-me recordar as palavras de outro ídolo de meu pai, Monteiro Lobato, cuja biografia para crianças também saiu da máquina de escrever Olivetti que havia na biblioteca lá de casa. Lobato disse que Um país se faz com homens e livros. Você, portanto, quando tenta impedir a existência de um livro, de uma obra literária, espanca a inteligência nacional, ofende a tantos que tombaram em nome da liberdade e do direito de expressão e do livre pensamento! Talvez, Vilma, seu tempo tenha passado. Imagino você mais feliz vivendo uma outra época – mais escura do que a de agora. Talvez sob o Estado Novo ou abrigada pelo AI-5. Imagino você, Vilma, com um carimbo de censura na mão, – arma formidável! – detentora exclusiva da faculdade de permitir ou não que alguém leia, fale ou pense. Para nossa sorte e infelicidade sua, vivemos tempos mais claros. E você, faça o que fizer, diga o que disser, jamais impedirá meu pai de ler, escrever, falar ou pensar. Nem meu pai nem ninguém.

Portanto, Vilma Rosa, não acenda fogueiras com livros. O fumo do livro incinerado escurece uma Nação.

Cada um de nós tem seus próprios ídolos. Sorte do meu pai, que fez boas escolhas. Os seus, parecem ser o Index Librorum Prohibitorum, o Santo Ofício, Savonarola e Torquemada. Talvez, até Herr Goebbels… Eu, que também tenho os meus, cito um deles: você vai amargar vendo o dia raiar sem lhe pedir licença…

Lembre-se, Vilma, você é apenas uma filha. Você é apenas uma herdeira que avilta a herança magnífica que recebeu. Pena constatar que nem tudo que Guimarães Rosa nos deixou é tão bom quanto a sua obra literária.

Noemia Barbosa Boianovsky

No Pelo Buraco da Fechadura
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Demétrio Magnoli é chamado de racista na Bahia


Manifestantes acusaram Magnoli de racismo e reivindicaram saída do sociólogo do evento

Na manhã deste sábado (26), enquanto o geógrafo e sociólogo Demétrio Magnoli debatia na Flica, um grupo de estudantes deu início a um protesto sob brados de 'racista' e 'fora, Magnoli!'. O ato foi pautado pelas opiniões desfavoráveis de Magnoli com relação às cotas raciais.

Dois estudantes, seminus, se pintaram na frente do professor, causando tumulto e interrompendo o debate. Uma faixa a favor das cotas também foi estendida.

Demétrio Magnoli é chamado de racista em protesto durante mesa na Flica 
Foto: Divulgação/Flica

"Estamos aqui fazendo este ato por contra esse cara que é racista, é contra as cotas. E Cachoeira é terra de preto, remanescente de quilombo", diz Amanda, estudante de jornalismo da UFRB.

A professora da UFBA, Maria Hilda Baqueiro Paraíso, que também compunha a mesa, tentou negociar com os estudantes, mas não obteve sucesso. Os seguranças presentes no evento não conseguiram conter o tumulto, que só se dispersou quando a produção do evento propôs uma reunião com representantes do movimento. A pauta será uma possível mudança do tema da mesa, de preferência para um que contemple a questão racial no Brasil.

Magnoli comparou os manifestantes aos fascistas de Mussolini e arrematou: "No poder, esse grupo fuzilaria os seus opositores". Encerrada, a mesa retornou às 13h30, a portas fechadas.
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Salto de Tarso sobre cratera em Taquari gera repercussão na internet

O registro ocorreu em vistoria das obras da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan), em Taquari
Foto: Camila Domingues / Palácio Piratini

A foto registrada na quinta-feira (24) do governador Tarso Genro tornou-se viral nas redes sociais com o Tumblr “Pula Tarso“. O registro ocorreu em vistoria das obras da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan), em Taquari. O chefe do executivo estadual precisou pular sobre uma cratera debaixo de uma chuva fina.

Em montagens da página, Tarso aparece em fotos com a ex-ginasta Daiane dos Santos, o ex-governador de São Paulo José Serra e com o jogador Guiñazu.

As obras contemplam oito ruas do município, num investimento total de R$ 443 mil. O governador verificou os trabalhos de substituição de cerca de 15 quilômetros de rede de água. A visita ocorreu nas obras do trecho da rua Lautert Filho, no centro de Taquari, onde estão sendo assentados 1,4 mil metros de rede de água.


No Sul21
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Mulher acha seringa na garrafa de Coca-Cola…


A comerciante Fabia Alves Bossolani, de 49 anos, não acreditou quando encontrou – na garrafa lacrada de Coca-Cola – uma seringa. O caso aconteceu na quinta-feira (17), quando um amigo comprou o refrigerante em um supermercado de Osasco, na Grande São Paulo, e levou até ela.

“Eu sempre fui apaixonada pelo refrigerante e, quando falaram do rato em uma garrafa, eu não acreditei. Desta vez, não tive como não acreditar e resolvi procurar a empresa”.

A Coca-Cola quis trocar a garrafa com a cliente, por uma nova, para fazer investigação. Porém, a comerciante preferiu ir à Polícia e registrou queixa.

No Jornal da Região
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No rastro de uma lavanderia no Ministério do Trabalho

Documentos em posse da Polícia Federal e do Ministério Público revelam que uma transportadora de Betim pode estar sendo usada para esquentar parte dos R$ 500 milhões desviados da União e para o pagamento de propinas

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Uma transportadora de veículos localizada em Betim, Minas Gerais, pode ser a chave para desvendar um esquema de lavagem de dinheiro e pagamento de propina a autoridades ligadas ao Ministério do Trabalho. A AG Log Transportes foi criada em 2010 por Ana Cristina Aquino, uma emergente social que costuma pagar revistas de celebridades para falar quanto gasta com os eventos que promove. Apesar de não prestar serviços a nenhuma grande empresa, a transportadora declarou ter faturado, de junho de 2012 a junho de 2013, R$ 112 milhões, uma enormidade perto do que faturam empresas do setor. Em apenas três anos de funcionamento, período que a maioria das companhias leva para maturar um negócio e não embolsar lucros milionários, Ana adquiriu jatinho, helicóptero e uma dezena de carros de luxo – e tem orgulho de tornar pública a gastança. É a origem desse dinheiro que a Polícia Federal quer descobrir.

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Seria apenas um caso de excentricidade não fossem os detalhes estranhos que envolvem a história. O primeiro deles é a relação entre a AG Log e o advogado João Graça, integrante da cúpula do PDT nacional e assessor especial do ministro do Trabalho, Manoel Dias. Graça, que foi assessor do ex-ministro Carlos Lupi, não aparece em nenhum documento oficial da empresa como sócio ou cotista e nega qualquer participação na sociedade. Entretanto, a sede da transportadora em Curitiba foi registrada no mesmo endereço do escritório de advocacia Graça Associados, do qual é o fundador. Há dois meses, enquanto representava o ministério em um evento promovido pela Câmara dos Deputados, Graça sacou do bolso uma dezena de cartões de visita da transportadora, enquanto explicava que estava sem o cartão do novo cargo no ministério. Não é só. Um e-mail obtido por IstoÉ traz uma conversa entre Ana Cristina e João Graça. Na mensagem enviada a Graça, Ana se refere à AG Log como “nossa empresa”.

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Outros documentos com detalhes das operações financeiras da transportadora estão sendo analisados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Eles constam do inquérito da Operação Esopo, que há dois anos investiga desvios de recursos do Ministério do Trabalho, sob o comando do PDT, e prováveis pagamentos de propinas a servidores públicos. A operação prendeu 22 pessoas e as suspeitas são de que cerca de R$ 500 milhões tenham sido desviados do ministério nos últimos anos. Agentes que trabalham nas investigações afirmam que o caso não foi concluído ainda porque houve problemas operacionais. Os 11 especialistas que fizeram os primeiros laudos foram substituídos meses antes das prisões por conta de uma greve, que deteriorou o andamento dos trabalhos. Graças à falta de pessoal, a PF enfrenta dificuldades para avançar nas apurações e oferecer a denúncia referente à Esopo. Por isso, a documentação em poder da polícia sobre a transportadora de Ana Cristina e suas despesas ainda não foi inteiramente analisada.

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Alguns fatos, entretanto, chamaram a atenção durante a análise do inquérito. Uma planilha de despesas da AG Log revela que a empresa justificou gastos de R$ 3 milhões como referentes à regulamentação do Sindicato dos Cegonheiros de Pernambuco (Sincepe). Detalhe: a solicitação de registro do Sincepe tramita atualmente no Ministério do Trabalho. De acordo com documentos apresentados ao próprio ministério, Ana Cristina consta como presidente do Sincepe e um de seus filhos integra o conselho fiscal. O escritório de João Graça advogou pela criação do sindicato até março de 2013. Em abril, de acordo com documentos obtidos por IstoÉ, a AG Log começou a gastar, mensalmente, R$ 600 mil para a formatação do sindicato. Segundo a planilha de gastos da empresa, foram cinco cheques de R$ 600 mil (que totalizam R$ 3 milhões) depositados de abril a agosto. A última movimentação no processo de criação do Sincepe ocorreu no dia 17 de outubro, quando o coordenador de registro sindical, Cesar Haiachi, encaminhou ofício para Ana Cristina solicitando o envio de documentos para a conclusão do processo de regulamentação.

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CONTATO
O ex-ministro Carlos Lupi: João Graça foi seu assessor

Ana Cristina chamou a atenção das autoridades pelo despudor com que exibe seus dotes econômicos. Ela costuma usar um helicóptero diariamente e, para ir da casa onde mora em Betim (MG) ao escritório, escolhe um entre os seis modelos de carros de luxo estacionados em sua garagem. Entre os bólidos, um Corvette vermelho e um jipe Cherokee. Nos jornais, costuma dar entrevistas falando do gosto por joias e roupas. Na festa de inauguração da empresa, que contou com a presença do advogado João Graça, Ana Cristina fez declarações sobre seu sucesso financeiro. No aniversário da filha, contratou o cantor Gustavo Lima, que até foi buscar a adolescente na escola dirigindo um Camaro amarelo. As contas da festança, de mais de R$ 1 milhão, também constam na planilha de gastos da transportadora. Desde a festa, o cantor sertanejo estreitou os laços com a família Aquino e agora está prestes a se tornar sócio da transportadora.

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Segundo ex-funcionários de Ana Cristina, João Graça se afastou nos últimos meses por discordar da forma como a empresária atua nos bastidores do poder. À IstoÉ, Graça afirmou jamais ter sido sócio da empresa (leia quadro). “Nunca utilizei e usei do meu cargo para locupletar-me para absolutamente nada”, disse. “Tanto é fato que quaisquer acusações sempre foram refutadas pela minha história. O único patrimônio que possuo é meu nome, e zelo por ele.” Sobre o e-mail trocado com a Ana Cristina em que ela se refere a uma sociedade com ele, João Graça afirma o seguinte: “Nada tenho a dizer porque desconheço seu conteúdo. Reitero que jamais fui sócio da Ana Aquino e ouso a qualquer um provar o contrário.” Entretanto, segundo os registros de mensagens eletrônicas, ele não apenas teve conhecimento dos emails como respondeu uma hora depois, utilizando um celular BlackBerry. Ana Cristina não retornou as ligações da IstoÉ e não respondeu a nenhum dos quatro e-mails que questionavam as suspeitas em torno da sua empresa. O grande desafio da polícia nos próximos meses será rastrear a origem das receitas da empresa e as operações da transportadora, separando o que podem ser gastos legítimos dos ilegítimos. Até lá, Ana Cristina continuará levando uma vida de milionária. 

Fotos: Rafael Motta/Nitro - Celso Junior/AE - Pedro Ladeira/Folhapress
Izabelle Torres
No IstoÉ
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Macumarina


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Reinaldo Azevedo não representa nada com coisa nenhuma

Reinaldo: Desejo de ser aristocrata e aversão a tudo o que é do povo

O Brasil 247 alardeou recentemente em forma de manchete a contratação pela Folha do blogueiro de extrema direita da Veja — a Última Flor do Fáscio e associada à quadrilha do bicheiro Carlinhos Cachoeira —, o jornalista Reinaldo Azevedo, que não representa nada com coisa nenhuma. Apenas sua figura é superdimensionada por quem quer vendê-lo.

Entretanto, a verdade é que considero o que o Azevedo fala e pensa ou deixa de falar ou pensar é irrelevante ao Brasil, à grande maioria dos cidadãos brasileiros e até mesmo ao jornalismo, como fonte de informação quando de fato as notícias ou opiniões são fidedignas e intelectualmente honestas.

Reinaldo Azevedo é o ventríloquo de si mesmo. Ele ressoa seus preconceitos, intolerâncias e sandices em um círculo vicioso freqüentado por pessoas que acreditam ou compactuam com suas formulações esquizofrênicas, que têm por finalidade combater “tudo o que está aí”, ou seja, os movimentos sociais, as conquistas do povo brasileiro nos últimos 11 anos, o PT e os governos trabalhistas dos presidentes Lula e Dilma Rousseff.

Para o direitista, o mundo ideal teria de se adequar às ideias segundo os preceitos conservadores e os devaneios ideológicos dos “especialistas” de prateleiras do Instituto Millenium e da Globo News, os capitães-do-mato que defendem os interesses da Casa Grande, cujos moradores, por intermédio de seus DNA, têm saudade imensa dos tempos de escravidão de seres humanos.

É dessa forma que funciona a cabeça de direita de Reinaldo Azevedo. E a imprensa de negócios privados enche sua bola quando, na verdade, tal pessoa não passa de um ser medíocre, intelectualmente sofrível, que despreza segmentos importantes da sociedade, pois seguramente pensa que é superior à “plebe”, conforme demonstram, indelevelmente, suas palavras e preconceitos políticos e de classe.

Acho que é isso: o blogueiro da Veja (a revista do bicheiro), contratado pela Folha de S. Paulo, aquele jornal que nos tempos da ditadura emprestava seus carros para os torturadores, considera-se superior à grande maioria das pessoas que compõem a humanidade.

Por isso, ele se junta aos seus patrões magnatas e bilionários para repercutir o pensamento insano daqueles que desejam e lutam por uma sociedade injusta, sectária, privada e voltada para atender os privilégios das classes ricas e abastadas e que odeiam ver pobre em restaurante, shopping, aeroporto e a dirigir automóveis. Afinal, na cabeça doentia dos direitistas o mundo foi feito para os coxinhas. Não existe nem uma lei a respeito disso, mas é dessa maneira que os “doentes” pensam.

Reinaldo Azevedo apenas se comporta como o reflexo da imagem no espelho dos que controlam os meios de produção, no caso dele os megaempresários do sistema midiático corporativo e de passado e presente golpistas — a rememorar 1964. O jornalista é um dos áulicos do comportamento desleal e perverso da imprensa de mercado em relação às mudanças sociais e econômicas acontecidas no Brasil e à luta pela emancipação do povo brasileiro.

É para isso e por causa disso que ele é pago. Porque é exatamente dessa forma que se conduz, sistematicamente e ferozmente, o senhor jornalista de extrema direita da Veja e agora da Folha. Só que ele não representa nada em âmbito universal quando pensamos na sociedade brasileira em conjunto.

Realmente, ele não representa nada, e por isso deveria se recolher à sua insignificância como agente social, pois seu ambiente, mesmo agora na Folha, não muda e se modifica, porque seu público é cativo, extremado à direita, conforme comprovam as milhares de mensagens que o blogueiro conservador recebe.

O público do Reinaldo Azevedo vai migrar para a Folha, porque quem consome jornalismo de péssima qualidade editorial é a parcela mais à direita das classes médias — a tradicional e a alta. Além do mais, quem lê a Veja, a revista porcaria, lê também a Folha, o jornal dos coxinhas pseudos intelectuais, leitores de Elio Gaspari e Clóvis Rossi e que acreditam em Papai Noel e Mula Sem Cabeça, se assim for necessário para enganar a si próprios e não reconhecer os avanços sociais verificados, inapelavelmente, pelo IBGE.

Não existe dúvida sobre essa realidade. O barão de imprensa, Otávio Frias Filho, vai perceber esse fato, se já não o percebeu e não se importa, pois o que está em jogo é entoar ao máximo a voz de gente com o perfil político e ideológico de Reinaldo Azevedo. O blogueiro que se acha maior do que realmente ele o é, pois muito vaidoso, e, consequentemente, não o suficiente sábio para saber de suas ridicularidades, porque suas diatribes o impedem de ser sensato para ser justo.

Faço essas assertivas porque sei que Reinaldo Azevedo tem um público restrito, apesar de individualmente ser um blogueiro bastante lido. Contudo, seus leitores são os mesmos e passarão a lê-lo na Folha impressa, online e na UOL. Se seus patrões magnatas e bilionários pensam que Reinaldo Azevedo vai ter influência política no que é relativo às eleições de 2014, podem tirar o cavalinho da chuva, porque essa “estratégia” não vai ser concretizada.

E sabe por quê? Porque a direita não tem nada para oferecer ao povo e nem para os coxinhas de classe média que leem seus péssimos pasquins ou vota nela. O motivo desse fato e realidade é que a direita não distribui renda e riqueza; não se preocupa com o ser humano e, sim, com os números e índices; e, a resumir a grosso modo, não tem preocupação social. Por isso e por causa disso é que a direita não ganha eleição, mesmo a ter um canhão em forma de mídia.

Então, vamos à pergunta que teima em não se calar: “Como a direita faz para vencer pleitos eleitorais ou atrair pessoas para apoiá-la?” Respondo: “Dissimula, tergiversa, manipula, confunde e mente, por intermédio da imprensa de negócios privados. E para concretizar seus sonhos políticos, que, evidentemente, vão lhes trazer muitos lucros e dividendos, os magnatas bilionários de direita contratam pessoas do nível de Reinaldo Azevedo e companhia. Mas põe companhia nisso. Reinaldo não é neocon, pois velhocon. É isso aí.

Davis Sena Filho
No Palavra Livre
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Jantares de Joaquim Barbosa

Como acontece com a biografia de todo mundo, existe uma diferença notável entre aquilo que a pessoa diz e aquilo que faz

Não por acaso, nos dias de hoje o Brasil debate a postura de biografados de prestígio que se acham no direito de romper a garantia constitucional que protege a liberdade de expressão para garantir o privilégio de proibir a divulgação de narrativas que não consideram convenientes.

Em seu esforço para firmar autoridade como um magistrado acima de toda suspeita, o presidente do STF, Joaquim Barbosa, é um crítico permanente do que chama de “conluio” entre juízes e advogados. É uma crítica que tem fundamento. 

Nós sabemos que a Justiça brasileira é alvo frequente de escritórios de advogados poderosos, capazes de obter, em contatos diretos com o Judiciário, sentenças favoráveis que costumam ser negadas ao cidadão comum. Evitar esses contatos pode ser uma postura prudente e até razoável. 

O fato é que, no último fim de semana, o presidente do STF compareceu a um jantar, no Rio de Janeiro, promovido pelo advogado Carlos Siqueira Castro, um dos mais prestigiados da República, com várias causas no STF e grandes empresas em sua carteira de clientes. Não era um evento qualquer. Siqueira Castro homenageava Jean Louis Debré, presidente do Conselho Constitucional da República Francesa. 

Consultada pela coluna Painel, da Folha de S. Paulo, a assessoria do ministro admitiu o encontro mas ressalvou que o presidente do STF não julga casos de interesse de Siqueira Castro. Era informação de biografia autorizada, na verdade. 

Como demonstrou o site Brasil247, há dezenas de casos do escritório de Siqueira Castro que foram examinados pelo presidente do STF. Há outra novidade - e essa informação está sendo divulgada por aqui pela primeira vez. 

Pelo menos num desses casos, o recurso extraordinário de número 703.889 Rio de Janeiro, Siqueira Castro recebeu uma sentença favorável de Joaquim. Não é um caso antigo. Joaquim Barbosa assinou a sentença em 16 de novembro de 2012. 

Naquela época, o julgamento da ação penal 470 já era história. Os réus estavam condenados e os ministros debatiam se o STF teria o direito de determinar a cassação imediata dos parlamentares condenados – ou se era preciso respeitar o artigo 55 da Constituição, que define que a última palavra cabe ao Congresso. 

Não tenho a menor condição de avaliar se a sentença de Joaquim para o recurso 703.889 Rio de Janeiro foi correta ou não. Nem é o caso. Tampouco me cabe especular sobre a influência que sua relação próxima com Siqueira Castro, que vem dos tempos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, teria algo a ver com isso. Seria absurdo. 

Mas pode-se discutir algumas questões. Primeiro, é curioso saber por que a assessoria de Joaquim disse à Folha que o presidente do STF não tinha casos de Siqueira Castro em seu gabinete. É um pouco mais grave quando se descobre que há menos de ano dali saiu uma sentença favorável ao advogado. 

Não custa lembrar outro aspecto. Casos da história STF ensinam que, em qualquer época, sob qualquer gestão, as relações entre advogados e um presidente do STF também tem uma relevância particular. Além de dar ou não uma sentença favorável, o presidente da corte tem o poder de pautar um caso, definir a agenda e definir quando será levado a voto. 

Se o advogado tem interesse em manter tudo como está, o assunto não entra em debate e a sentença pode levar anos. Se há interesse em abrir uma discussão que pode ter desfecho favorável, cabe ao presidente colocar o tema no plenário. Neste caso, a interferência do presidente é muito eficaz mas nem um pouco visível. 

É possível também cabe discutir o papel dos jantares na ação penal 470, que transformou Joaquim Barbosa na personalidade pública que é hoje. 

Quem se recorda do julgamento da ação penal 470 sabe da importância adquirida por um jantar num hotel de Belo Horizonte, que reuniu o então ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu e Kátia Rabello, presidente do Banco Rural. 

No esforço para sustentar que Dirceu estava envolvido diretamente em tratativas de interesse de Marcos Valério e do Banco Rural, dado importante para sustentar a tese de que era o “chefe de quadrilha”, este jantar serviu como um momento-chave da denuncia do ministério público. 

Jamais surgiram testemunhas de primeira mão do encontro. Nunca se esclareceu o que foi dito ou discutido naquela noite. Ficaram suspeitas, insinuações, diálogos imaginados mas jamais explicados nem confirmados. Ainda assim, o jantar foi um elemento importante para acusar e condenar Dirceu.

No julgamento, Joaquim Barbosa declarou: "Embora Kátia Rabello e José Dirceu admitiram não ter tratado do esquema, é imprescindível atentar para que não se trata de fato isolado, de meras reuniões entre dirigentes do banco e ministro da Casa Civil, mas de encontros ocorridos no mesmo contexto a que se dedicava a lavagem de dinheiro o grupo criminoso apontado na denúncia, com utilização de mecanismos fraudulentos para encobrir o caráter desses mútuos [empréstimos] fictícios", disse o relator.

Resumindo: não havia provas contra Dirceu nem contra Katia Kabello. Mas Joaquim Barbosa disse que era preciso colocar o jantar no “contexto.” 

Curioso, não?

Paulo Moreira Leite
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Um total de 21 países promovem na ONU projeto de resolução contra a espionagem


De acuerdo a una publicación de la revista estadounidense Foreign Policy, un total de 21 países, encabezados por Brasil y Alemania, promueven un borrador (projeto) de resolución en la Organización de Naciones Unidas (ONU) contra la vigilancia masiva llevada a cabo por la Agencia de Seguridad Nacional (NSA) de Estados Unidos (EE.UU.).

Entre los 19 países que se han unido a la iniciativa de estos dos países se encuentran Francia, México y otros aliados tradicionales de EE.UU. La iniciativa también es apoyada por Cuba y Venezuela, entre otros.

Según Foreign Policy, que ha tenido acceso a una copia del borrador de dicha resolución, el documento reclama a los países miembros "respetar y garantizar el respeto de los derechos" a la privacidad, consagrado en el Pacto Internacional de Derechos Civiles y Políticos de 1976.

También insta a "tomar medidas para poner fin a violaciones de estos derechos" y a "revisar sus procedimientos, prácticas y legislación con respecto a la vigilancia extraterritorial de las comunicaciones y la interceptación de los datos personales de los ciudadanos en jurisdicciones extranjeras con miras a la defensa del derecho a la privacidad".

Aunque el documento no se refiere directamente a las prácticas de la NSA reveladas por el exanalista de ese organismo, Edward Snowden, esta resolución supondría un mayor esfuerzo diplomático a nivel internacional desde que se descubrió la vigilancia que hace EE.UU., a millones de estadounidenses y extranjeros, además de a jefes de Estado y sus países.

La iniciativa surge luego que el Gobierno alemán alegara que la agencia de espionaje estadounidense pudo haber interceptado el teléfono celular de la canciller Angela Merkel y de decenas de otros líderes mundiales.

Sin embargo, el presidente de EE.UU., Barack Obama, aseguró a Merkel que su Gobierno no está espiando sus comunicaciones, aún cuando no desmintió los informes de que espías estadounidenses registraran las llamadas de su teléfono celular en el pasado.

Por otra parte, Brasil, una de las víctimas del espionaje estadounidense, solicitó a EE.UU. que le permita interrogar a los jefes de las compañías Facebook, Microsoft, Google, Yahoo y Apple para investigar el supuesto espionaje al Gobierno de Dilma Rousseff, según informó la cadena local Globo.

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A Folha não tem a menor importância. Nem seus "novos" articulistas


Muita gente comentou preocupada, nesta semana, uma não notícia, essa de que a Folha estava "reforçando" seu time de articulistas com representantes da fina flor do fascio caboclo.

Ora, o jornal tem todo o direito de contratar quem quiser: afinal, não era ele que dizia que só tinha o rabo preso com os leitores?

Sendo assim, presume-se que os leitores da Folha gostem do besteirol com que tais escrevinhadores brindam seu público, onde quer que eles estejam.

Se isso não for verdadeiro, se os leitores do jornalão paulistano têm outros hábitos culturais que não suportam os preconceitos vomitados por tais personagens, que simplesmente deixem de ser leitores da Folha.

E vão alimentar esse mau hábito de ler sobre uma realidade brasileira imaginada por patrões e seus fiéis assalariados em outras publicações.

O Estadão, por exemplo, em fase terminal, está necessitando, urgentemente, de um público que se encante com as frases rebuscadas de seus editoriais de uma nota só.

O fato é que tanto Folha, como Estadão, O Globo ou Veja, ou qualquer outra dessas publicações não tem hoje a menor importância para o que se propõem, que não é fazer jornalismo, mas sim agir como partidos políticos de oposição ao governo trabalhista.

Quantos exemplares, reunidos, esses jornais e revistas imprimem?

Quantos eleitores tem o Brasil que nem sabem que eles existem?

Ah, há a internet.

Mas ela, felizmente, não é feita só de Folhas e que tais.

Ela, sim, é pluralista, é democrática, aceita a opinião de todos, é um caldeirão fervilhante de boas e más ideias, de pensamentos sacros e profanos, de ideologias cinzas e coloridas.

Para cada Folha e que tais, existem centenas de sites e blogs que não aceitam mais essa ditadura "informativa".

Folhas e que tais são como aqueles antigos jornaizinhos de grêmios estudantis, que circulavam apenas para satisfazer o ego de quem os fazia e eram lidos por meia dúzia de deslumbrados.

Folha e que tais viraram meros panfletos, um pouco mais sofisticados que esses que são distribuídos nos semáforos.

Terão sempre seu público, claro, mas cada vez mais insignificante.

Como são insignificantes esses escribas contratados para provocar na opinião pública polêmicas absolutamente falsas e inconsequentes.

Como a Folha, eles não têm mais nenhuma importância.

No Crônicas do Motta
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Charge online - Bessinha - # 1977

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Em defesa dos ativistas que libertaram os beagles

O ativismo acelera conquistas sociais

E a semana chega ao fim com os brasileiros fascinados e divididos em torno dos beagles. A divisão apareceu mesmo no interior do DCM. Diferentes colunistas expuseram diferentes ideias.

Quanto a mim, entendo que, com todas as ressalvas, não há como deixar de aplaudir os ativistas que libertaram os beagles.

Eles chamaram, com seu resgate espetacular, a atenção para duas coisas importantes.

A primeira é: quais os limites para experimentos com animais? No Brasil, testes com finalidades cosméticas, e não de saúde, ainda são permitidos, ao contrário do que ocorre em países socialmente mais desenvolvidos.

Quando isso seria conhecido de todos e debatido se os ativistas não tivessem irrompido no Instituto Royal?

A segunda é: quem fiscaliza o dinheiro público posto em órgãos como o Instituto Royal? Onde a transparência, onde a prestação de contas?

O papel mais nobre dos ativistas é forçar discussões que, mais tarde, se tornarão consenso. Eles são poucos, são especiais, são abnegados, são à frente de seu tempo, e por tudo isso são incompreendidos e perseguidos.

Recentemente, os ingleses saudaram os 100 anos de morte de uma ativista que foi fundamental para que as mulheres pudessem votar.

Numa corrida de cavalos que reunia a sociedade aristocrática inglesa, ela atravessou subitamente a pista. Foi no momento em que passava o cavalo do rei. A ativista – suffragette – acabou atropelada, e morreu pouco depois no hospital.

Baderneira, vândala, criminosa – a imprensa conservadora britânica tratou-a com todos os insultos possíveis. Não só a ela mas às demais suffragettes. Mas seu sacrifício, como mostraria a história, acabou sendo vital para que as inglesas pudessem votar.

Ontem, em Londres, um debate reuniu mulheres de todo o mundo. O nome era 100 mulheres.

Quem fechou as discussões foi uma jovem islandesa de 19 anos. (Escandinávia, sempre eles à frente do pelotão no desenvolvimento social.) Sua última frase, dirigida a mulheres de todo o mundo: “Não sejam gratas por seus direitos. Agradeçam as mulheres que os tornaram possíveis.”

Clap, clap, clap.

No caso dos beagles, os ativistas fizeram os brasileiros debater a questão dos experimentos como nunca antes.

No calor da discussão, emergiram falsas questões. Uma delas, a mais comum usada contra ativistas pró-animais, é dizer que eles se interessam mais por bichos do que por gente.

É uma tolice. Então teríamos que dizer que os defensores de índios só se importam com os índios, ou que os ativistas do meio ambiente desprezam as pessoas, e daí por diante.

Um ativismo, qualquer que seja, não elimina outras coisas e outras causas. Os avanços sociais dependem do conjunto de ativistas de diferentes cruzadas.

Por tudo isso, os libertadores dos beagles prestaram um serviço não só aos beagles em si, ou aos animais em geral – mas à sociedade como um todo.

Paulo Nogueira
No DCM
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À espera de um milagre



Quadrilhas de pastores ladrões, dívidas milionárias com as tevês, administração amadora e investimentos equivocados na construção de grandiosos templos. O que está por trás da crise financeira da Mundial, uma das mais poderosas igrejas evangélicas do País

Chorar durante a pregação é um dos traços mais marcantes da performance de Valdemiro Santiago de Oliveira, o todo-poderoso da Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD), no púlpito. Criticado por abusar dessa prática, o autointitulado apóstolo tem motivos mais terrenos para derramar suas lágrimas atualmente. O império neopentecostal construído por esse mineiro de 49 anos, nascido em Cisneiros, distrito de Palma, a 400 quilômetros de Belo Horizonte, vive a maior crise da sua história. O mais recente indício de que a IMPD está fragilizada foi a decisão do Grupo Bandeirantes de encerrar, na semana passada, a parceria que mantinha com Valdemiro, que alugava quase a totalidade da grade da programação do Canal 21 e ocupava cerca de quatro horas diárias nas madrugadas da Band. Motivo do fim do acordo: atrasos no pagamento.

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PASTOR
Valdemiro Santiago criou um império religioso, viu seu rebanho se
expandir por cerca de cinco mil templos e, agora, tenta colocar a
casa em ordem ao ver sua igreja sangrar em milhões de reais

Valdemiro até que tentou impedir o fato. De microfone em punho, o comedor de angu que cuidava de marrecos na roça antes de se converter evangélico usou toda a sua empatia com o povão. No início do mês, pôs o rosto no vídeo, caprichou na voz chorosa e iniciou uma campanha conclamando seus fiéis a ajudá-lo a arrecadar R$ 21 milhões para honrar compromissos com o aluguel de horários na mídia. A Mundial já devia R$ 8 milhões ao Grupo Bandeirantes referentes a setembro. No fim deste mês, outro boleto a vencer: R$ 13 milhões. A emissora paulista não confirma oficialmente, mas a Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, concorrente direta da Mundial, teria entrado na disputa por esses horários e conseguido vencer a briga sobre a maior concorrente na disputa por almas. “Pegaram a gente em um momento de fraqueza”, diz uma liderança da IMPD. “Gastamos R$ 300 milhões com templos ultimamente e vivemos um tempo de estruturação e amadurecimento.”

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PODER
Diante da crise, Valdemiro nomeou Jorge Pinheiro (acima), marido da irmã
de sua esposa, para gerir o setor financeiro e administrativo da IMPD no
lugar do bispo Josivaldo (abaixo), transferido para Lisboa
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"Cerca de 30% dos recursos que arrecadamos são desviados
por bispos e pastores. Por mês, R$ 30 milhões saem pelo ralo"
,
afirma um alto dirigente da IMPD do Rio de Janeiro

Quisera Valdemiro Santiago, porém, que seus problemas fossem revezes restritos apenas ao campo administrativo da sua igreja. Em São Paulo, o líder evangélico é alvo de uma investigação do Ministério Público estadual e da Polícia Civil. Desde janeiro de 2013, diligências feitas pelo Grupo Especial de Delitos Econômicos (Gedec) e pela Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Fazenda, da Polícia Civil, apuram um suposto crime de lavagem de dinheiro e ocultação de bens, direitos ou valores. O dono da Mundial virou alvo das autoridades quando elas descobriram que a Fazenda Santo Antonio do Itiquira, localizada em Santo Antônio do Leverger (MT), um conglomerado de 10.174 hectares de terras ocupado por milhares de cabeças de gado, foi comprado por R$ 29 milhões à vista pela empresa W. S. Music, cujos representantes são o apóstolo e sua mulher, a bispa Franciléia. O caso, que pode configurar uso do dinheiro de fiéis para enriquecimento pessoal, corre em sigilo.

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A Mundial, fundada em 1998 – antes dela, Valdemiro fora pastor na Igreja Universal por 18 anos (leia quadro) –, viveu um avanço muito grande em um curto espaço de tempo. De 500 templos em 2009, hoje a denominação computa mais de cinco mil unidades, segundo seus membros. Acontece que a vida de uma igreja não se resume ao púlpito ou aos cultos. Administrativa e financeiramente falando, a IMPD não evoluiu. “Cerca de 30% dos recursos que arrecadamos são desviados. Por mês, R$ 30 milhões saem pelo ralo”, afirma um alto dirigente da denominação, lotado no Rio de Janeiro. De acordo com ele, a devoção em torno dos cultos, espécie de pronto-socorro espiritual, onde fiéis garantem ter alcançado a cura divina para alguma enfermidade graças à intercessão de Valdemiro, trouxe notoriedade à igreja e atraiu quadrilhas de pastores que se infiltraram em seus templos para se apropriar das doações. “Há dois anos e meio, por exemplo, o Valdemiro descobriu uma dessas quadrilhas no ABC paulista liderada pelo bispo e por seus auxiliares e os expulsou.”

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PREGAÇÃO
Com fama de milagreiro, Valdemiro fez fama ao se aproximar
dos mais humildes. Abaixo, sua esposa, a bispa Franciléia
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Esse mesmo dirigente lembra do dia em que, ao manobrar seu carro na saída de um culto, uma fiel bateu no vidro para alertar que pessoas traíam a confiança do líder evangélico: “Pastor, está vendo esse carnê da Mundial? A conta corrente aqui escrita não é a da igreja. Estão distribuindo carnês falsos para o povo pagar! Avisa o apóstolo, por favor!” Ou seja, o dinheiro estava sendo desviado num esquema paralelo ao de Valdemiro. Professor da pós-graduação de Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Ricardo Bitun se deparou com essa prática ao ir a campo para a confecção de sua tese de doutorado. Intitulado “Igreja Mundial do Poder de Deus: Continuidades e Descontinuidades no Neopentecostalismo Brasileiro”, o estudo defende que Valdemiro foi o único dissidente da Universal que conseguiu alcançar sucesso. E assim o fez graças, principalmente, à remasterização da cura divina, uma prática bastante difundida no Brasil nos anos 1970. “Um bispo me contou que havia pastores infiltrados em igrejas e até mesmo bispos cobrando propinas de pastores”, diz Bitun.

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SUSPEITA
Uso do dinheiro de fiéis para enriquecimento pessoal, como a compra de uma
fazenda de R$ 29 milhões (à esq., o documento  de compra em seu nome),
é investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Civil de São Paulo

Valdemiro é um líder religioso onipresente no altar e nos programas televisivos e demorou a perceber que estava sendo traído por pessoas muito próximas a ele – e do alto escalão da igreja. Havia um grupo próximo a Josivaldo Batista de Souza, que era considerado o número 2 da Mundial, agindo como lobos em pele de cordeiro. “Ele se deu conta de que o problema advinha da concentração de poder em torno dessa turma”, diz um membro da hierarquia paulista da Mundial. “Era gente pedindo avião para fazer não sei o quê, para ter programa na televisão não sei onde, para abrir igreja em um grotão aí...” Segundo esse integrante da IMPD, Valdemiro cometeu erros próprios de líderes que sobem muito e rapidamente. “Ele se cercou de um estafe pequeno que blindava o acesso a ele. E, assim, passou a ouvir pouco outras opiniões. Precisa amadurecer.”

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FLAGRA
Membros da Mundial chegaram a clonar carnês para desviar
o dinheiro que era arrecadado dos fiéis nos cultos

Diante das dívidas, dos calotes e das traições, o líder da IMPD está tentando conter a sangria da sua igreja do jeito que pode. Transferiu para Lisboa o pastor Josivaldo, um ex-membro da Universal que o acompanha desde o começo dos trabalhos da denominação em Pernambuco, segundo Estado onde ele fincou sua bandeira. Para substituir Josivaldo, que era responsável pela gestão administrativa e financeira e cuidava do dia a dia da Mundial, além dos bispos e pastores, Valdemiro achou por bem recorrer a um familiar. Empossou o bispo Jorge Pinheiro, marido da irmã da sua esposa Franciléia. Para tentar se reequilibrar financeiramente, conta um bispo paulista, ele decidiu se desfazer de duas Cidades Mundiais, como são chamados os megatemplos da IMPD, em São Paulo e no Paraná. Elas se encontram fechadas pelos órgãos públicos locais, após pouco tempo de funcionamento, por não preencherem requisitos para receber o público. Um claro erro de avaliação que onerou a igreja. “A Cidade Mundial paulista está fechada desde fevereiro de 2012. Mas Valdemiro, todo mês, tem de pagar R$ 5 milhões das parcelas da compra dela”, diz o bispo. Missionário da IMPD, o deputado estadual Rodrigo Moraes (PSC-SP), que foi designado pela igreja para fazer “a coisa caminhar” junto aos órgãos públicos, segue na sua empreitada. “Não recebi o comando de parar o trabalho ainda. Mas a vontade do apóstolo é que fala mais alto”, afirma. Templos pequenos e mal localizados, que não condiziam com a orientação de Valdemiro, também deixaram de ser usados. “Cerca de 15% deles tiveram de ser fechados ou reestruturados”, diz uma liderança da igreja. Pode ser uma saída para que a fama de caloteiro não suplante a de apóstolo milagreiro.

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NA JUSTIÇA
Faz três meses que a Mundial não paga o aluguel do imóvel (acima),
localizado em Pirituba (SP): ação de despejo e cobrança de R$ 34 mil.
À esq., Cidade Mundial em São Paulo, que será fechada
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Não são poucos os templos ocupados pela IMPD que têm problemas com aluguel atrasado ou ações de despejo em curso na Justiça. Em Pirituba, por exemplo, bairro da capital paulista, o proprietário impetrou na justiça uma ação de despejo contra a igreja por não receber o aluguel de seu imóvel desde julho. E cobra, ainda, o pagamento de R$ 34.538,64. De acordo com um de seus representantes legais, essa é terceira vez que a justiça é acionada desde 2010, quando o local passou a ser ocupado pela Mundial. “Não entendo a falta de organização da igreja. Não acredito que ela não tenha caixa para pagar o aluguel”, diz ele, que prefere não se identificar. “Esses problemas diminuíram 70% nos últimos tempos”, garante Dênis Munhoz, advogado da Mundial. À frente também do cargo de vice-presidente da Mundial, Munhoz refuta a ideia de a denominação viver uma crise, argumentando que a IMPD é a evangélica que mais cresce no Brasil. Sobre as quadrilhas de pastores, afirma: “Se existe esse problema, a igreja sempre tomou as providências rapidamente.” Prefere, no entanto, não comentar a perda dos espaços no Canal 21 e na Band. Quem falou sobre o assunto foi o presidente da IMPD, o deputado federal José Olímpio (PP-SP). “Estamos pagando muitas prestações, os valores de aluguéis aumentaram, temos muitas obras em andamento e acabou atrasando alguma coisa. Aí, deixa de pagar um mês e vira um problema para a mensalidade seguinte”, diz.

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Para se ver livre de mais problemas, Valdemiro, que, procurado por ISTOÉ, não se manifestou, entregou os horários que possuía na Rede TV! e na CNT. Deixou também de alugar espaço em dezenas de retransmissoras de diferentes estados e recuou no projeto de ocupar a programação de tevês da Argentina, Colômbia e do México. “Muitas vezes, é melhor dar um passo atrás para, depois, dar um maior à frente”, diz o alto dirigente da Mundial do Rio. “Valdemiro me disse que estava, inclusive, vendendo a sua fazenda no Mato Grosso.” Essa informação não foi confirmada pelo presidente nem pelo vice-presidente da IMPD. Mas, na atual situação, receber R$ 33 milhões, valor estimado da Fazenda Santo Antonio do Itiquira, seria como um milagre para o líder evangélico.

Rodrigo Cardoso
No IstoÉ
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Cortina de fumaça

Por trás da artilharia tucana contra o presidente do Cade, a tentativa de desviar o foco das investigações do cartel

O PSDB tenta derrubar Carvalho por ele ter trabalhado por dez
meses no gabinete de Simão Pedro. Dez anos atrás...
ElzaFiúza/ABr
Após a Siemens delatar a existência de um cartel para manipular licitações do metrô de São Paulo, o governador paulista adotou postura defensiva. Geraldo Alckmin acionou a Corregedoria do Estado para apurar a denúncia e ajuizou um processo contra a multinacional alemã, no qual exige indenização pelo prejuízo causado aos cofres públicos. Passado o vendaval das primeiras revelações sobre o caso, que levou o Ministério Público a reabrir inquéritos sobre a prática de corrupção nas empresas de transporte estaduais, os tucanos mudaram de tática. A estratégia, agora, é deslegitimar a atuação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, órgão antitruste que investiga as combinações ilícitas entre as empresas, com sobrepreço estimado de até 20%.

O alvo principal da artilharia tucana é o presidente do Cade, Vinícius Carvalho. O PSDB pediu à Procuradoria-Geral da República que o investigue por causa da omissão em currículos públicos da sua atuação, em 2003, como chefe de gabinete do então deputado estadual petista Simão Pedro, autor de denúncias encaminhadas ao Ministério Público anos mais tarde sobre supostos esquemas de corrupção no metrô. Os tucanos tentam emplacar a tese de que o detalhe burocrático configura a prática de vários crimes, entre eles improbidade administrativa e falsidade ideológica. Ainda que os procuradores ignorem a acusação, Carvalho terá de prestar esclarecimentos à Comissão de Ética Pública da Presidência, que avaliará o caso em novembro.

“Jamais ocultei o fato de ter trabalhado no gabinete do então deputado estadual Simão Pedro”, defendeu-se, por meio de nota, o presidente do Cade. “Tanto que, na ocasião da minha primeira sabatina no Senado Federal, enquanto indicado a conselheiro da autarquia em 2008, essa informação esteve em meu currículo. Se em currículos posteriores essa informação foi retirada, trata-se de mera atualização da minha trajetória profissional, que passou a abarcar outras experiências na esfera federal.”

Por trás da manobra tucana há a tentativa de ligar Carvalho ao vazamento ilegal de informações sigilosas do acordo de leniência firmado pela Siemens com o Cade. E, talvez, pleitear a anulação das provas coletadas pelo órgão antitruste. Logo após a autarquia cumprir, com o apoio da Polícia Federal, os mandados de busca e apreensão na sede de 13 empresas delatadas pela multinacional alemã, começaram a circular pela mídia detalhes do esquema fraudulento. Como as companhias investigadas tinham sede em diferentes municípios, foi necessário requisitar autorização para a devassa em quatro varas federais. Todos os magistrados deram aval às buscas, mas o juiz substituto André Muniz Mascarenhas, da 3ª Vara Federal, em São Bernardo do Campo, decidiu derrubar o sigilo do processo em 16 de julho.

Qualquer advogado ou jornalista teve, portanto, a oportunidade de conhecer o teor da delação da Siemens, uma vez que o documento tornou-se público naquela comarca. Segundo a assessoria de imprensa do Cade, a autarquia tomou conhecimento dessa torneira aberta apenas em 6 de agosto. Três dias depois, encaminharia um pedido para o juiz reavaliar a suspensão do sigilo.

Esse não é o único ponto frágil da trama. O atual presidente do Cade ficou apenas dez meses na chefia de gabinete de Simão Pedro. Deixou o cargo em janeiro de 2004, após receber uma bolsa de doutorado em Direito Comercial na Universidade de Sorbonne, na França. De volta ao Brasil, atuou como assessor da bancada governista no Senado por um ano, antes de se tornar gestor público concursado, com passagens pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência e no Ministério da Justiça. Todas essas informações constavam em seu currículo, portanto, os senadores não foram ludibriados quanto aos vínculos de Carvalho com o PT, partido ao qual foi filiado até dias antes de assumir seu primeiro mandato de conselheiro do Cade, em 2008.

As nomeações políticas, por sinal sempre fizeram parte da cultura da autarquia. E o PSDB tem telhado de vidro nesse quesito. O ex-conselheiro do Cade Miguel Tebar Barrionuevo, por exemplo, não informou em seu currículo apreciado pelo Senado ter sido candidato a deputado federal pelo PSDB anteriormente. Tampouco mencionou ter assumido na gestão do tucano Mário Covas uma secretaria do governo paulista.

Hoje secretário de Serviços da prefeitura paulistana, Simão Pedro nega qualquer interferência na investigação conduzida pelo Cade. “Recebi denúncias com fortes indícios de pagamento de propina a funcionários públicos em troca da obtenção de contratos com o metrô e a CPTM. Coincidentemente, as suspeitas recaíam sobre as mesmas empresas delatadas pela Siemens. À época, fiz o que era o meu dever: encaminhar o caso ao Ministério Público”, afirma o petista, convidado a prestar esclarecimentos à Câmara Municipal de São Paulo pelo vereador Mário Covas Neto, do PSDB. Em 2006, ele enviou uma representação aos promotores paulistas acusando o metrô e o consórcio Via Amarela de colocar em risco a segurança da população com alterações no método construtivo para acelerar a entrega da Linha 4. Parecia uma carta premonitória. Meses depois, um desabamento no canteiro de obras resultou em sete mortes. Mas sua primeira denúncia sobre o suposto cartel integrado pela Siemens é de 2011. “Portanto, muito antes de o Cade avaliar o tema. Essa celeuma, ao que parece, é uma cortina de fumaça para desviar o foco central das investigações: o cartel e os indícios de corrupção no governo paulista.”

Em resposta a CartaCapital, a Siemens afirma que partiu dela a decisão de delatar o cartel ao Cade. Ressalta, ainda, que “o prejulgamento contra os que denunciam, assim como a indução da opinião pública nesse sentido, cria um ambiente contrário à transparência e premia os que decidem acobertar más práticas”.

Rodrigo Martins
No CartaCapital
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Sem apoio do Brasil, Suíça arquiva parte do caso Alstom

Rodrigo de Grandis

Cansados de esperar pela cooperação de seus colegas brasileiros, procuradores da Suíça que investigam negócios feitos pela multinacional francesa Alstom com o governo do Estado de São Paulo arquivaram as investigações sobre três acusados de distribuir propina a funcionários públicos e políticos do PSDB.

Em fevereiro de 2011, a Suíça pediu que o Ministério Público Federal brasileiro interrogasse quatro suspeitos do caso, analisasse sua movimentação financeira no país e fizesse buscas na casa de João Roberto Zaniboni, um ex-diretor da estatal CPTM.

Como nenhum pedido foi atendido, nesta semana autoridades brasileiras foram informadas de que o Ministério Público da Suíça desistiu de contar com a colaboração do Brasil e decidiu arquivar parte das suas investigações.

Segundo o procurador da República Rodrigo de Grandis, responsável pelas investigações sobre os negócios da Alstom no Brasil, houve uma "falha administrativa": o pedido da Suíça foi arquivado numa pasta errada e isso só foi descoberto anteontem.

O Ministério Público da Suíça havia pedido que Grandis fizesse buscas na casa de Zaniboni porque ele é acusado de receber US$ 836 mil (equivalentes a R$ 1,84 milhão) da Alstom na Suíça.

A procuradoria suíça também pediu que fossem interrogados os consultores Arthur Teixeira, Sérgio Teixeira e José Amaro Pinto Ramos, suspeitos de atuar como intermediários de pagamento de propina pela Alstom.

Segundo os procuradores da Suíça, Arthur Teixeira e Sérgio Teixeira foram os responsáveis pelos repasses ao ex-diretor da CPTM.

O Ministério Público estadual paulista, que também investiga os negócios da Alstom, soube da existência do pedido da Suíça e solicitou cópias da documentação ao órgão federal responsável pela cooperação com autoridades estrangeiras, o DRCI (Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional).

Indagado sobre a situação, o gabinete de Grandis afirmou só ter encontrado o pedido suíço anteontem.

A Procuradoria da República em São Paulo informou que o gabinete cometeu uma "falha administrativa" ao deixar de anexar a solicitação a outro pedido de cooperação da Suíça, e o documento acabou indo para uma pasta de arquivo de papéis do caso.

Fora do processo correto, o pedido suíço ficou sem qualquer providência no gabinete por dois anos e oito meses.

O Ministério Público Federal afirmou que já comunicou o DRCI sobre o problema. Segundo a procuradoria, as autoridades suíças deverão ser indagadas se ainda têm interesse na adoção das medidas quanto aos suspeitos.

Porém, nesta semana autoridades brasileiras receberam a informação de que os suíços cansaram de esperar e arquivaram as investigações sobre Zaniboni, Ramos e Sérgio Teixeira, morto em 2012.

Eles haviam sido indiciados pelas autoridades suíças por suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro.

O único que continua sendo investigado é Arthur Teixeira, controlador da empresa Gantown, sediada no Uruguai, que teria feito repasses da Alstom para Zaniboni entre 1999 e 2002.

Zaniboni afirma que o dinheiro se referia a serviços de consultoria prestados antes de sua chegada à CPTM.


No fAlha
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Amarildo em nosso futuro


Não cabe transformar o esforço de investigação da morte de Amarildo numa campanha política contra as UPPs

A tortura e morte do pedreiro Amarildo é uma tragédia que define um limite em nossa política de segurança pública.

Amarildo foi morto nas dependências de uma UPP, a mais avançada iniciativa das autoridades do Rio de Janeiro para defender a população pobre daquele Estado.

Não conheço nenhuma crítica racional às UPPs nem encontrei uma única voz capaz de apresentar objeções consistentes às perspectivas de melhoria que elas oferecem a milhões de brasileiros excluídos pela Historia.

As UPPs não representam uma porta para o Paraíso mas são uma janela realista para a conquista de um padrão mínimo de bem-estar pela maioria da população.

Devem ser aprimoradas.

A tragédia revela, porém, a distância entre aquilo que se fez e o que precisa ser feito.

A descoberta de que, após a morte de Amarildo, entrou em ação uma máquina bem azeitada para apagar pistas capazes de levar aos responsáveis, embaralhar indícios e confundir a investigação demonstra o grau de cumplicidade de uma parcela da hierarquia da Polícia Militar com um crime definido, pela Constituição, como imprescritível e inafiançável.

Cabe, portanto, investigar e apurar todas responsabilidades.

Mas não cabe transformar o esforço de investigação numa campanha política contra as próprias UPPs, como registra Janio de Freitas em sua coluna de hoje:

“A campanha estendeu-se de (Sergio) Cabral para as UPPs, e recaiu sobre o secretário Beltrame. Ou seja, o uso político da tragédia de Amarildo levou seu efeito corrosivo ao trabalho social que decorre do modelo de ação nas favelas, ou "comunidades", já com resultados que mudaram o convívio urbano e suburbano em grande parte do Rio.

Para Janio, “o pobre Amarildo foi um morto comum nas mãos de policiais com vocação criminosa, entre tantos cujos nomes e destinos pouco ou nada importam à opinião pública. O morto Amarildo tornou-se arma política. “

A questão é essa.

A tortura e a execução de cidadãos pelas autoridades policiais constituem crimes frequentes na existência dos brasileiros humildes, tenham ou não antecedentes criminais.

As UPPs representam uma possibilidade de mudança nesta situação, também. Em outros tempos, seria difícil imaginar uma reação tão vigorosa da família de um pedreiro, de seus amigos, e daquilo que se costumava chamar de “sociedade civil” pelo receio de empregar o termo politicamente adequado, que é povo.

A prisão de 25 PMs apanhados em graus diversos de responsabilidade no caso permite pensar que se criou - com auxílio das próprias UPPs - uma situação política nova, incompatível com o massacre de cidadãos comuns. É um progresso sem antecedentes e sem comparação.

Não pode servir, portanto, para abrir caminho a um retrocesso.

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São Paulo: vídeo mostra a agressão ao coronel da PM

Setenta e sete detidos durante protesto no centro de São Paulo são liberados


Um dos suspeitos de agredir coronel da PM permanece preso e deve ser transferido para CDP


Um dos suspeitos de participar da agressão ao coronel da Polícia Militar Reynaldo Simões Rossi — comandante do policiamento no centro de São Paulo —  durante protesto na sexta-feira (25) está preso no 2º Distrito Policial (Bom Retiro) e deverá ser transferido para um CDP (Centro de Detenção Provisória). A informação é do 1º DP (Sé), para onde inicialmente ele foi levado.

Ainda segundo o 1º DP, outras 77 pessoas detidas na manifestação já foram liberadas.

O ato que tomou as ruas da região central da cidade terminou em confusão e vandalismo. Parte dos manifestantes invadiu o terminal Parque Dom Pedro 2º e destruiu bilheterias, 18 caixas eletrônicos, alguns ônibus, além de roubar um quiosque de recarga de celular. 

Durante a invasão do terminal, o coronel Reynaldo Simões Rossi e o auxiliar dele foram agredidos. De acordo com a polícia, a pistola calibre .40 e o radiocomunicador do oficial foram roubados. Rossi foi levado ao Hospital das Clínicas com a clavícula quebrada e escoriações no rosto e na cabeça.

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Trabalhismo, udenismo, Eduardo e Marina


O anúncio da filiação de Marina Silva ao Partido Socialista Brasileiro suscitou toda sorte de avaliações e vaticínios por parte de editorialistas, colunistas, marqueteiros, que se apressaram em estabelecer consenso em torno da ideia de que a decisão da ex-ministra corresponderia ao surgimento de uma terceira via no debate nacional. A ponto de noticiar que o ex-presidente Lula supostamente teria percebido a notícia como “um soco no estômago”; que estaríamos diante de uma novidade na política brasileira e, inclusive, que a tal coalizão seria a resultante de um movimento de “renovação política”.

Para início de conversa, a aliança Marina-Eduardo Campos é um problema imediato do PSDB, que passará um largo tempo disputando a liderança da oposição. E a guerra já começou, com o presidenciável tucano declarando que as posições da ex-petista são as mesmas que o partido dele defende (e de fato são). Depois, é um problema da UDN histórica, que queria Eduardo e Marina gerando segundo turno, mas não um cenário deste sem o PSDB, ainda mais sendo ambos produtos do “lulismo”. Ou seja, trocando em miúdos: há um temor do “lado de lá” de que pode surgir um bipartidarismo democrático no Brasil que tenha polos unificados sob parâmetros realmente próximos, como o papel do Estado, a necessidade de seguir uma dinâmica econômica distributivista, uma política externa soberana, ainda que mais ou menos pragmática etc.

Adiante, é importante recuperar a trajetória de Eduardo Campos e Marina. O governador de Pernambuco é herdeiro de uma tradição política que esteve aliada ao trabalhismo e à esquerda desde a eleição de Miguel Arraes para o Governo de Pernambuco em 1962. Dinastia política que voltou a ser importante na política pernambucana e nacional a partir da redemocratização. Durante esses últimos 23 anos, só houve uma eleição presidencial em que nem o PSB nem os Arraes compuseram uma coligação de esquerda liderada pelo Partido dos Trabalhadores. O próprio Eduardo, em si, é um “case” de sucesso do investimento que o ex-presidente Lula promoveu nele (e no estado dele, por óbvio), nas duas vezes que venceu a eleição para o Palácio das Princesas.

Em sua recente investida na cena nacional, Campos usa a credencial de “gestor competente” e bem avaliado, e vem participando cotidianamente de fóruns de empresários em que defende as conquistas dos quase 11 anos de governo do PT e a aceleração dos investimentos e mais diálogo com a classe empresarial. No plano partidário, o PSB amplia seu leque de alianças, incorporando em suas fileiras políticos tradicionais como Heráclito Fortes, do Piauí, e os Bornhausen, de Santa Catarina, tendo ainda mantido tratativas para apoiar Ronaldo Caiado ao governo do Goiás. Beneficiário de investimentos do Governo Federal que estão ajudando a industrializar Pernambuco, o neto de Arraes adota um discurso que o coloca em segundo lugar na preferência dos empresários, perdendo apenas para Aécio Neves, segundo o jornal Valor Econômico.

E quanto à trajetória de Marina?

Bom, ela é um produto dos movimentos sociais e da reorganização da esquerda no Brasil, militando ao lado de Chico Mendes, auxiliou a fundar a CUT no Acre e filiou-se ao PT, partido pelo qual se elegeu vereadora. A Rede é apenas uma quimera sem o registro eleitoral legítimo e democrático requisitado, agora acorrentada aos calcanhares do herdeiro de Arraes. Marina vem tentando se constituir como alternativa nacional a partir de um discurso de negação/transformação da forma de fazer política no Brasil, lidera o movimento que recusa a classificação de partido, mas persegue o objetivo de ser reconhecida como legenda pelo TSE.

E segue em trajetória errática. A decisão de se amasiar com o PSB foi tomada sem consulta às suas próprias bases. Sobre os arroubos dela, de tentar 24 horas após dispor-se a ser vice, suplantar a candidatura de Eduardo, já lançada, no próprio partido que ele preside e que a abrigou por favor, só há a repetição da crise que ela gerou no PV, quando quis tomar o comando daquele partido para si. No debate público, é inimiga declarada da política de desenvolvimento do Brasil, seja a agrícola, a industrial, a energética, percebida como incompatível com modelos sustentáveis. Isso lhe rendeu o último lugar na preferência dos empresários, com apenas 5% apoiando sua empreitada, o oposto de Eduardo, o que revela o pragmatismo latente desta aliança. Logo, ela tem sua história e projeção indissociáveis da política profissional, dos métodos e vícios desta, e dos êxitos do Partido dos Trabalhadores. Qual a novidade?

Como o programa foi o convidado especial ausente da festa, como consequências da união, basta ver que, nos estados, não há notícias de um acordo parecido ao nacional. Sem falar que é óbvio que Eduardo luta para se viabilizar como o mais forte herdeiro de Lula, enquanto Marina tomou o partido fundado por Luiz Inácio como “chavista”. Ironicamente, foi sob a gestão dos socialistas que a Venezuela tornou-se parceira importante no desenvolvimento de Pernambuco, investindo na construção de uma refinaria em Abreu e Lima.

Nova politica é o que temos feito: universalizar serviços públicos, distribuir renda, expandir direitos civis e “exportar” este modelo de forma soberana. Por isso que o Brasil segue polarizado entre “trabalhismo” e “udenismo”. É um dilema que remonta aos impasses da fundação da República. A questão é se o Brasil já amadureceu as condições políticas de romper com a polarização que, hoje, se expressa através do PT e do PSDB. Enquanto isso não estiver resolvido, terceiras vias serão demagogia, utopia reacionária ou ingenuidade.

O papel que esta chapa pode vir a cumprir, por ser uma composição Norte-Nordeste, é se pautar, por exemplo, o tema do desenvolvimento(e da desigualdade) regional e e o necessário aprofundamento da cooperação federativa, que é uma agenda inadiável do país.

Se for assim, as eleições de 2014 podem se diferenciar das três últimas eleições presidenciais pela possível ausência de um voto plebiscitário entre o modelo neoliberal e o nosso, sendo intensa em debate e em conteúdo político. Porque daí poderiam se desdobrar discussões sobre os impasses hodiernos da integração sul-americana, do aperfeiçoamento de um sistema nacional de planejamento para melhorar as soluções estruturantes para as cidades e aprimorar o desenvolvimento territorial e rural. Some-se a isso os debates sobre a dimensão federativa da reforma tributária, a partir deste novo marco legal dos rendimentos do petróleo e das discussões em torno a atualização da regulação dos dividendos da exploração mineral; da imperiosidade de aproximar o progresso local com ciência e tecnologia, o uso e distribuição da matriz energética do país, entre outros. Sem falar, claro, na discussão sobre a crise de representatividade, reforma política e participação social.

Em todas essas áreas, além do vigoroso “balanço da década”, temos o que mostrar do já feito e novas sementes plantadas. Interessa ao PT discutir o futuro com léxicos parecidos. Cabe se preparar para ousar no debate. Mas será que a dupla e seus partidos farão esta opção e terão propostas, alianças, militância e palanques à altura?

Se fizerem como Serra em 2010, que tentou “ocupar o espaço político que restava”, parafraseando alguns colunistas da grande imprensa, serão presa fácil dos tucanos, que, aí sim, são os legítimos herdeiros da plataforma neoliberal e queridinhos dos interesses por trás desta ideologia na cúpula econômica do país. Se suas críticas forem pontuais, sob aspectos superficiais da “gestão” e “competividade”, não terão espaço nas bases eleitorais tradicionais (e novas) do PT, muito menos se recaírem no ecologismo simplista, que despreza o fato de sermos o “B” dos BRICS, que são a locomotiva da novíssima ordem mundial.

Fernando Pacheco, coordenador de relações internacionais da executiva nacional da Juventude do PT.
Leopoldo Vieira, Assessor Especial da Secretária de Planejamento e Investimentos Estratégicos do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão; coordenador do Monitoramento Participativo do PPA 2012-2015.
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Nova droga pode reduzir dano cerebral após AVC


Uma droga experimental testada em roedores tem tido sucesso em reduzir o dano cerebral causado por AVC (Acidente Vascular Cerebral), principalmente na contenção das sequelas causadas pelas hemorragias e problemas relacionados, como amenizar problemas de hipertensão arterial e até melhorar habilidades motoras. A pesquisa, publicada nesta sexta-feira (25) na revista Stroke, foi feita pelo instituto de medicina da USC (Universidade do Sul da Califórnia).

A droga experimental chamada 3K3A-APC reduziu danos cerebrais nos testes realizados em roedores, o que pode ser um novo caminho para tratamentos em seres humanos. O remédio teve efeito tanto isoladamente como combinado com terapias anticoagulantes. Após os sucessos dos testes em ratos, os pesquisadores devem iniciar os procedimentos para obter autorização para realizar testes em pessoas. A previsão é que os primeiros experimentos sejam realizados em voluntários já em 2014, nos EUA (Estados Unidos).

Atualmente, os tratamentos com anticoagulantes são considerados os melhores para conter efeitos negativos do AVC. Mas sua limitação está no fato de que devem ser aplicados em no máximo três horas após as hemorragias para que sejam eficazes. Segundo Berislav V. Zlokovic, um dos autores do estudo, apenas uma pequena fração das pessoas que sofrem um AVC chegam ao hospital a tempo de serem submetidas aos anticoagulantes.

Engenharia genética

A droga 3K3A-APC é uma variante geneticamente modificada de uma proteína presente no corpo humano, que desempenha papel na regulação da coagulação do sangue e de inflamações. Os testes envolveram o uso do anticoagulante tradicional usado nos tratamentos pós-AVC em combinação com a nova droga experimental. Os remédios foram injetados nos roedores quatro horas após o acidente vascular cerebral. Além disso, os animais também receberam novas doses, em intervalos regulares de até sete dias após o AVC.

Os pesquisadores mediram, então, a quantidade de dano cerebral, os níveis de hemorragia e a capacidade motora dos roedores até quatro semanas após o AVC. O resultado foi que, nessas condições, a terapia feita apenas com o tradicional anticoagulante não reduziu os danos cerebrais ou melhorou a capacidade motora. Já quando combinada com a 3K3A-APC, o resultado foi redução do ano cerebral em mais do que a metade, com a eliminação de hemorragias e a melhora significativa da capacidade motora.

“Cientistas de todo o mundo estão estudando potenciais terapias de AVC, mas muito poucos têm o robusto pacote de dados pré-clínicos que 3K3A-APC tem”afirma Kent Pryor, diretor de operações do laboratório responsável pelos testes. “Os resultados dos estudos têm sido muito promissores”, complementa.

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