14 de out de 2013

Família de Leminski censura na Justiça a nova edição da biografia do poeta

"Paulo Leminski - O bandido que sabia latim" foi escrito por Toninho Vaz.
Livro traz parágrafo que fala sobre morte de irmão do poeta paranaense.

Se estivesse vivo, Leminski teria completado 69 anos em agosto de 2013
Foto: Dico Kremer


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Na falta de más notícias, muda-se o título…


A balança comercial brasileira registrou superávit  de US$ 718 milhões na segunda semana de outubro, desta vez sem desvio provocado por uma operação de venda de uma plataforma de petróleo, basicamente contábil. O déficit registrado até setembro inverteu-se e indica a formação de superávit ao final do ano acima dos US$ 2 bilhões previstos pelo mercado.

O mesmo mercado revê para cima a expansão do PIB pela terceira vez em quatro semanas.

O dólar parou de subir e caiu.

A bolsa se recuperou.

E a inflação, que ia explodir, cai seguidamente.

Mas a Folha, de tão viciada no catastrofismo, consegue, na capa do site de economia, trocar as bolas e dizer que o mercado está prevendo inflação maior, quando a matéria diz que é o contrário, menor.

Pelo menos essa foi ato falho.

Como diz o Lula, quemJ lê os jornais brasileiros pensa que o mundo está se acabando.

Quando quem está se acabando é o jornalismo econômico, que já foi a fina flor da qualidade na imprensa brasileira.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Nova classe média?


Debate sobre o surgimento de uma "nova classe média" está em voga no Brasil. Passamos de um estágio geral de pobreza para um nivelamento mediano da população?

Nova classe média?

Repito no título a mesma indagação do livro publicado em 2012 pela Boitempo Editorial, de autoria do professor de economia da UNICAMP e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Márcio Pochmann.

O debate sobre a “nova classe média” ainda está bastante em voga e se apresenta como uma das principais bandeiras de propaganda do governo petista em seus dez anos de poder. Mas será que realmente existe uma nova classe média no Brasil? Passamos de um estágio geral de pobreza para um nivelamento mediano de nossa população?

Critérios de classificação das classes sociais no Brasil

O principal teórico da economia a defender esta tese, no país, é o atual presidente do IPEA, Marcelo Neri – que assumiu a presidência do Instituto com a saída do Pochmann para disputar a prefeitura de Campinas pelo Partido dos Trabalhadores, em 2012 – em seu livro “A Nova Classe Média: O Lado Brilhante da Pirâmide”.

Para Neri a década de 2000 pode ser chamada de “a década inclusiva” porque pela primeira vez o que seria a classe média, a chamada Classe C, virou a maior parte da população brasileira. Em 2003, 54,8% da população estava nas classes D e E, classificada como “Classe Baixa”, enquanto que 37,8% era pertencente à Classe C. Ao longo desta década isto se inverteu, e em 2009 a considerada classe média já era maioria, 50,4% da população, enquanto que a baixa passou a ser 38,9% do total.

Este fenômeno teria acontecido, para o economista, porque neste período a renda dos mais pobres cresceu quatro vezes e meia mais rápida do que os mais ricos, fazendo com que, apesar de todos terem um incremento na renda, os mais pobres terem isto mais rapidamente.

No entanto, o questionável na tese do Neri vem a ser a classificação destas classes, que é a mesma utilizada pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), órgão ligado a Presidência da República e o qual ele é ministro-chefe interina. Para o governo, e para Neri, pertence à classe média quem possui renda per capita entre R$291 e R$1.019. Quem recebe acima disto já é classificado como classe alta! Compreendida entre os 50% mais pobres e os 10% mais ricos, a “Faixa C” aufere a renda média da sociedade, ou seja, é uma classe média no sentido estatístico da palavra.

Vejamos exemplos do que poderíamos considerar, então, pertencentes às diferentes classes sociais no Brasil. Um professor de educação básica que receba o piso nacional, que hoje é de R$1.567,00, e more sozinho já pertence a classe alta brasileira (isto sim é a elite econômica!). Já um trabalhador terceirizado, que reconhecidamente é um dos tipos de vinculação trabalhista que mais sofrem no mercado de trabalho, o qual esteja na média salarial da categoria, que é de R$998,00, e more sozinho já está quase no teto do que poderíamos classificar como classe média, segundo a SAE, e se ganhar mais vinte e dois reais já passará para a classe alta.

Se pensarmos nestes critérios, realmente não é de se assustar que o Brasil seja, hoje, um país de classe média, só não sabemos se isto pode ser uma classificação aceitável.

classe média brasil

Uma nova classe trabalhadora

A análise do ex-presidente do IPEA parece muito mais razoável. Para Pochmann, o que caracteriza esta década é o crescimento dos empregos que pagam até um salário mínimo e meio, que hoje equivale a 47,8% do total dos empregados no país, em detrimento dos empregos que paguem melhor.

Sem negar que houve queda do Índice de Gini (que calcula o grau de concentração de renda em uma sociedade – quanto mais próxima de um, maior a concentração da renda, quanto mais próximo de zero menos centralizada o é) e aumento da renda média, o economista da UNICAMP vê no crescimento do setor de serviços uma das principais causas deste crescimento da renda, mas, no entanto, junto a isto estão todas as mazelas ligadas a este setor.

Três características seriam importantes para explicar este nível salarial: alta rotatividade, emprego temporário e terceirização. A rotatividade faz com que trabalhadores com salários maiores sejam demitidos para que sejam contratados novos empregados com salários mais baixos. Já os empregos temporários, que também possuem baixos salários, já equivaliam a 10,4% do total dos empregos de carteira assinada. E, por fim, a terceirização, que cresceu em uma média anual de 13,1% de 1996 a 2010, o qual, segundo o Ministério Público do Trabalho já equivale a um quarto do total de empregos, termina de jogar os salários para baixo.

O autor finaliza seu livro dizendo que “[...] a força dos novos segmentos da classe trabalhadora na base da pirâmide social nos impede de a identificarmos como uma nova classe social, muito menos como classe média no país.” (POCHMANN, 2010, p. 123).

Então fica esta pergunta no ar, será que os critérios utilizados pelo governo e que justificam este discurso podem ser considerados válidos para alegarmos que agora o Brasil é um país de classe média? Para grande parte dos economistas e dos sociólogos a resposta é negativa. Fica a cargo de cada leitor, agora, refletir e chegar a sua própria conclusão.

Eric Gil, economista do Instituto Latino-americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE) formado pela Universidade Federal da Paraíba, mestrando no Programa de Pós-graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Paraná; escreve quinzenalmente para Pragmatismo Político
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Lalo: Golpe mesquinho e oportunista contra a TV regional

Romero Jucá encabeça a trama
A TV brasileira não reflete, esconde o Brasil

De como um grupo minguado e oportunista atropela, em poucas horas, um debate que se trava no Congresso há 22 anos e poderia impulsionar a diversidade e a produção cultural regionais

Parece que alguns parlamentares já esqueceram as “vozes das ruas” gritadas em junho.

Com desfaçatez, seis senadores e seis deputados decidiram regular por conta própria o dispositivo constitucional que determina a regionalização da programação de rádio e TV no país.

Atropelaram, em poucas horas, um debate que se trava no Congresso há 22 anos.

A concentração histórica das programações no eixo Rio-São Paulo faz com que o Brasil não conheça o Brasil.

Por isso, os constituintes em 1988 escreveram que “a produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão ao princípio da regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei”.

Só que essa lei nunca saiu.

Iniciativas para elaborá-la não faltaram.

O projeto mais antigo é de 1991, da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

Levou 12 anos para ser aprovado na Câmara e está há dez parado no Senado.

Por ele, as TVs ficariam obrigadas a veicular, entre 17h e meia-noite, programas produzidos regionalmente.

Seriam no mínimo dez horas e no máximo 22 por semana de programas regionais.

Esse tempo deveria aumentar, em cinco anos, para o mínimo de 22 e o máximo de 32 horas.

A ampliação do mercado de trabalho para produtores independentes é um dos pontos centrais do projeto.

Hoje quase toda a produção televisiva vem das próprias redes nacionais, concentrando-se no eixo Rio-São Paulo.

Se a lei fosse aprovada, 40% dos programas regionais exibidos deveriam ser realizados por produtoras independentes, contemplando obras de ficção, documentários e teledramaturgia, dando oportunidade de trabalho a novas gerações de profissionais espalhados por todo o país.

O resultado para o público seria – além de conhecer melhor a própria região – desfrutar de experimentos narrativos capazes de romper com a mesmice crônica da televisão brasileira.

A aprovação na Câmara deu-se depois de longas e árduas negociações da autora do projeto com as emissoras e com os deputados que as representam.

Remetido ao Senado, o projeto empacou outra vez, e a explicação para isso é simples: 25% dos senadores detêm concessões de TV.

Pois justamente um deles, Romero Jucá (PMDB-RR), tornou-se relator da comissão dos 12 parlamentares surdos às vozes das ruas.

Com caráter terminativo, ou seja, a decisão por eles tomada vai direto ao plenário, derrubaram em poucas horas os propósitos dos constituintes de 1988 que estavam, sem dúvida, contemplados no projeto original.

A regulação estabelecida pela comissão chega a ser um escárnio.

Considera os horários obrigatórios de propaganda política e as redes nacionais para o pronunciamento de autoridades como “produção regional”.

Assim como programas religiosos e jogos de futebol.

Como ela não define classificação de horários, as cotas regionais podem ser perfeitamente cumpridas durante a madrugada.

Mas os absurdos não param por aí.

Aproveitaram a oportunidade para enfiar no relatório uma cláusula que dá às emissoras o direito de acesso a 5% dos recursos do Fundo Nacional de Cultura, que tem neste ano orçamento de R$ 260,2 milhões.

A justificativa é “incentivar” a regionalização.

Fica difícil entender a necessidade desse incentivo para uma programação regional baseada em programas religiosos (pagos pelas igrejas) e de mensagens políticas (dedutíveis do imposto de renda), como prevê o relatório do senador Jucá.

Triste solução para um problema grave.

É inconcebível que um país com as dimensões e a diversidade cultural do Brasil mostre todos os dias pela TV por exemplo, os congestionamentos nas marginais paulistanas.

O que isso interessa ao telespectador do Acre ou do Rio Grande do Sul?

Escondendo, ao mesmo tempo, acontecimentos locais importantes.

Infelizmente, em vez de solução para mudar esse quadro, vem a providência oportunista e mesquinha dessas meias dúzias de parlamentares.

Laurindo Lalo Lal Filho
No Viomundo
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Eleições 2014: o Brasil não é um power-point


A disputa de 2014 coincide com uma transição de ciclo de desenvolvimento no Brasil. Nisso há consenso entre  o mercadismo e a visão progressista. Ambos concordam em que o país vive o esgotamento de uma dinâmica  econômica. Há razoável convergência, ainda, em  relação ao motor que deve puxar o novo período: o investimento produtivo; os grandes projetos de infraestrutura. Termina o espaço dos consensos.

O conservadorismo avalia que o legado recente é incompatível com o  futuro desejado. Para nascer o ‘novo’ é preciso destruir o ‘velho’. Parece schumpeteriano, mas  é udenismo mesmo. Em sua nova roupagem: a supremacia financeira capaz de purgar qualquer vestígio de interesse nacional, público e social no manejo da economia.

Fortemente ancorada na ampliação do mercado de massa, a economia avançou nos últimos anos apoiada em ingredientes daquilo que a emissão conservadora denomina ‘Custo Brasil’.

A saber,

- o salário mínimo teve una elevação do poder de compra de 70%. Aumento real, acima da inflação: quem comprava 10 litros de leite por mês passou a comprar 17. Entre outros, os 14 milhões de aposentados e pensionistas.

- cerca de 17 milhões de vagas foram abertas  no mercado de trabalho, regidas pela regulação trabalhistas da era Vargas, que FHC prometera abduzir: carteira assinada; férias; 13º; reajuste anual.

- políticas sociais destinadas a mitigar a fome e a miséria adquiriram forte abrangência: atingem cerca de 14 milhões de lares atualmente. Mais  de 55 milhões de pessoas.

Da área externa veio um período de fastígio nos preços das commodities.

Desperdiçado pelo país’, dizem os críticos. Em termos.

Omite-se um cinturão de segurança de US$ 370 bilhões em reservas internacionais acumuladas no período: quase oito vezes o legado do PSDB. Sem  elas o país não teria atravessado a crise mundial com geração  de empregos e ganhos trimestrais ininterruptos  na renda das famílias.

O impasse orçamentário nos EUA, associado à iminente redução da liquidez  pelo FED, faria do Brasil agora presa fácil da volatilidade internacional. A avaliação divergente, do ponto de vista conservador, implica que esse conjunto seja corroído para reduzir custos empresariais, ademais de aliviar o gasto fiscal do Estado.

O desmonte, supostamente,  ‘baratearia o investimento privado’, com um salto de negócios para um novo ciclo de expansão.

Até poderia ser assim. Se o Brasil fosse um power point da lógica  neoliberal. Um país não cabe em simulações desprovidas de conteúdo histórico. O ciclo iniciado em 2003  tirou algumas dezenas de  milhões de brasileiros da pobreza; deu mobilidade a outros tantos milhões na pirâmide de renda. Os novos protagonistas formam hoje a maioria da sociedade.

‘Lula fez uma política  irresponsável de crescimento baseada na consumo’.

Em termos.

Lula criou um novo personagem  histórico. Sua presença dificulta sobremaneira rodar o software conservador no metabolismo econômico brasileiro.

‘Lula surfou no câmbio valorizado e não aproveitou a ‘janela’ da liquidez internacional para fazer ajustes estratégicos’.

Em termos.

Lula trouxe  60 milhões de novos consumidores para a fila do caixa. Mudou as referências estratégicas da produção, da demanda e da política nacional. O conservadorismo quer devolver a pasta de dente ao tubo. A assepsia da equação brasileira requer um cavalo de pau  dificilmente realizável em ambiente de liberdade.

Lula esburacou o chão político do projeto conservador. Entende-se a busca ansiosa por uma terceira via.  ‘Precisa-se’: o conservadorismo seleciona candidatos para dar um rosto novo ao conteúdo velho. O espinho na garganta das elites não deixa de cutucar também o comodismo progressista.

A nova coerência macroeconômica terá que ser buscada na correlação de forças redesenhada pelas grandes multidões que invadiram a economia e agora cobram vaga na cidadania plena. A escolha é fazê-lo em negociação permanente com elas. Ou contra elas. Correndo o risco de ser atropelado por elas. Há requisitos para caminhar junto.

Um deles: uma democracia que não se resuma à visitação esporádica às urnas, que torna a governabilidade refém da coação parlamentar conservadora.Outro, uma regulação das comunicações que amplie o espaço ecumênico da opinião e liberte o discernimento social da manipulação conservadora.

Esse que exacerba as incertezas, paralisa a economia, interdita o debate e veta as soluções para o desenvolvimento. Erra quem  imaginar que vencer  em 2014 é ter 50% mais um dos votos contra ‘Marina, toda pura’ É preciso mais que isso para ordenar o passo seguinte do país.

A  recuperação da economia norte-americana inverteu o sinal externo dos fluxos de capitais. Adicionou um  complicador  extra à mecânica do crescimento na periferia do mundo. O poder de barganha dos investidores e o risco das fugas de capitais pressionam por juros ‘atraentes’.

O conjunto joga  óleo na pista de uma infraestrutura que derrapa na carência de investimentos. Cada urgência  tem um  custo e nem sempre – ou melhor, quase nunca – ele é neutro em relação a outra. Faz parte do jogo: o desequilíbrio é intrínseco à luta pelo desenvolvimento.

Quem decide o que é coerente na macroeconomia de uma nação é a correlação de forças de cada época. Não é algo que se resolva no power point.A exemplo das ‘vantagens comparativas’ (que o conservadorismo credita a um dom divino das nações), a correlação de forças é construída nas lutas históricas de cada povo. E em cada época.

A industrialização brasileira, por exemplo. Veio distinguir o cafezal oligárquico com uma preciosa singularidade histórica: uma base industrial completa. Fato raro entre as nações emergentes, esse desassombro  de Vargas e JK redundaria no ABC paulista e na eleição de um presidente operário, em 2002.

Lula não teria existido sem a campanha do ‘petróleo é nosso’, a criação da siderurgia e a fundação dos bancos estatais. O conservadorismo arremete diuturnamente, mas a flecha do tempo não se quebrou: ele seria reeleito em 2006; faria a sucessora em 2010; flexiona os músculos para 2014.

Em 2005 quando tentaram derrubá-lo, operários liderados  pela CUT convocaram mobilizações em defesa da democracia. O Brasil passou a ter aquilo que o patrono da industrialização não teve quando se matou em 54. Nos palanques de 2002, Lula dizia com razão: ‘Eu sou uma cfriaçao coletiva do povo brasileiro’.

Um dos desafios do próximo ciclo de desenvolvimento é resgatar o celeiro  fabril que gerou tudo isso e está atrofiado por duas décadas de valorização cambial.

Hoje o Brasil importa quase 25% das manufaturas que consome. O preço baixo ajuda no controle da inflação, mas vaza empregos para a China ; enfraquece os sindicatos desidrata os novos contingentes de ‘lulas’ espalhados pelo país.

Não por acaso, segundo o IPEA, no Brasil, hoje, há mais desempregados qualificados do que não qualificados. Estamos queimando divisas para abrir vagas nas linhas de montagem asiáticas. O déficit comercial da indústria este ano alcançará o equivalente a 20% das reservas cambiais.

Temos agora o mercado de massa preconizado por Celso Furtado. Quem vai atendê-lo: a industrialização legada por Getúlio ou os clusters asiáticos? O conservadorismo acha que tanto faz.

Da Casa das Garças ecoa a pigarra ancestral da oligarquia a prescrever uma purga de eficiência com derrubada geral de tarifas de importação. Salve-se quem puder: o desemprego correspondente é ‘funcional’, segundo a lógica do ‘Custo Brasil’. Passado e  futuro convergem para as urnas de 2014.

Como colar as trincas do país para que a soma das partes seja maior que o todo, resultando em um novo ciclo de desenvolvimento? Criando um fato político. Qual?

Certamente a vitória em 2014. Mas não qualquer vitória. Não a vitória de um programa de  power point para um país de photoshop. Mas uma consagradora vitória do discernimento histórico da sociedade brasileira.

Uma eleição ordenada pela mobilização, não apenas pela publicidade. Que promova a mutação dos 60 milhões de novos consumidores em protagonistas políticos de uma repactuação de projeto de nação para o século 21. Ancorado em mais democracia. E nos instrumentos que forem necessários para sustentá-la.

Saul Leblon
No Carta Maior
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Outra fonte do valerioduto

O esquema do publicitário condenado no Ministério do Esporte durante o governo FHC

O ex-publicitário Marcos Valério, condenado no esquema
do chamado "mensalão"
ABr
Em 18 de setembro, uma decisão burocrática do plenário do Tribunal de Contas da União levantou a ponta de um novelo escondido desde 2005. Por unanimidade, os nove ministros do TCU acataram o parcelamento de um débito judicial do jornalista Laerte de Lima Rimoli, ex-chefe da Assessoria de Comunicação Social do antigo Ministério do Esporte e do Turismo, no fim do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso. Entre 2001 e 2002, segundo auditoria do tribunal, o ministério, comandado por Carlos Melles (maio de 2000 a março de 2002) e Caio Carvalho (março de 2002 a 1º de janeiro de 2003), desviou 10,6 milhões de reais para a SMP&B Comunicação, uma das agências de publicidade controladas por Marcos Valério de Souza, operador dos “mensalões” tucano e petista.

Naquela época, o publicitário mantinha laços estreitos com o esquema eleitoral do PSDB. Em 1998, ele havia montado a operação de financiamento clandestino da fracassada campanha de reeleição de Eduardo Azeredo ao governo de Minas Gerais, gênese do esquema mais tarde replicado pelo PT. O rastro de dinheiro descoberto pelo TCU, graças a uma auditoria feita em 2001, demonstra que o “valerioduto” tucano funcionou até as vésperas das eleições presidenciais de 2002, possivelmente para cobrir compromissos das campanhas de 1998 tanto de Azeredo, hoje deputado federal, quanto de FHC.

No resumo feito pelos auditores a partir da avaliação de contratos firmados pelo ministério, revelou-se um emaranhado de fraudes montadas para financiar a agência do publicitário. Entre as irregularidades, os fiscais do TCU anotaram o pagamento de aditivos desnecessários, utilização de serviços sem respaldo contratual, ausência de fiscalização de contratos, pagamentos feitos sem comprovação da execução do serviço e emissão de notas fiscais frias. Curiosamente, as auditorias foram estimuladas pelas denúncias da CPI dos Correios em 2005, base do processo do “mensalão” petista.

O primeiro contrato analisado, de maio de 2001, tratava de uma licitação de 4,3 milhões de reais para a prestação de serviços de publicidade. Segundo o edital, o objetivo era municiar campanhas na área de esporte, promover o turismo em municípios e incrementar a “comunicação do governo”. Ao todo, 22 empresas concorreram. Em primeiro lugar ficou a SMP&B. Mas, como cautela nunca é demais, a segunda colocada foi a DNA Propaganda, também de Marcos Valério.

Em 2005, o plenário do TCU, baseado nas auditorias, condenou quatro servidores do ministério a ressarcir os cofres públicos por conta dos pagamentos irregulares. São eles Adeildo Máximo Bezerra, ordenador de despesas da pasta, e os três chefes da Assessoria de Comunicação Social no período, Estanilau da Costa Sá Júnior, Isabel Cristina Tanese e Rimoli.

Rimoli, ocupante do cargo entre julho e dezembro de 2002, foi condenado a pagar 74,6 mil reais. O assessor emitiu sete notas fiscais frias em favor da SMP&B no valor total de 30,6 mil reais por anúncios jamais justificados. Outros 44 mil reais foram pagos à agência pelo “manuseio e expedição de 50 mil correspondências” jamais postadas, de acordo com a auditoria.

Ele
A participação de Rimoli nas tramoias auditadas pelo TCU, sobretudo nas operações fraudulentas de emissão de notas para financiar o valerioduto, certamente chocará seus seguidores nas redes sociais. Na arena virtual, principalmente no Facebook, o jornalista é um leão contra os “mensaleiros” do PT. “Eu quero acreditar que o ser humano é intrinsecamente bom. Mas um fato recente abala essa convicção. Zé Genoino, o mensaleiro do PT que teve a indulgência do STF e ficará em prisão domiciliar, ameaça assumir uma cadeira na Câmara”, lamentou o jornalista, no fim do ano passado, em um post no Facebook. “Trata-se de um político que perdeu as cordas vocais depois que assinou, em nome do PT, empréstimos fraudulentos quando presidente do partido”, acusou, logo ele,  responsável por notas fraudulentas em favor do mesmo Marcos Valério.

O jornalista também se mostrou indignado por causa de críticas do ex-ministro José Dirceu à ex-ministra Marina Silva, hoje no PSB, segundo mensagem postada no Twitter em 5 de outubro:

Laerte Rimoli@RimoliLaerte
Zé Dirceu, chefe da quadrilha do mensalão do PT, condenado pelo STF, cobra humildade da Marina. Escárnio. Vai pra cadeia, cara.

Corrigida, a dívida de Rimoli soma 179 mil reais. Foi justamente para evitar o bloqueio de seus bens pela Justiça que o jornalista entrou com o recurso no TCU para dividir o pagamento em 36 parcelas, a partir do início deste mês.

Procurado por CartaCapital, o ex-assessor do ministério informou ter assinado documentos referentes a pagamentos feitos por gestores que o antecederam no cargo por ordem de Walter Alvarenga, chefe de gabinete do ministro Caio Carvalho. Mas, segundo o TCU, as notas frias foram emitidas para a SMP&B entre julho e dezembro de 2002, período em que Rimoli ocupou a função no ministério. Confrontado com a informação, o atual assessor parlamentar do PSDB alegou ter agido com ingenuidade e ter sido vítima da própria “estupidez” gerencial e administrativa. “Sou jornalista, não burocrata.”

Em um dos contratos, descobriu o TCU, embora os recursos tivessem sido destinados para três “Programas de Trabalho”, apenas dois foram consignados, uma forma de gerar verbas excedentes a serem relocadas em outros contratos. Em seguida, uma série de aditivos foi autorizada de modo a aumentar o valor dos contratos. Em um deles, houve uma prorrogação de maio de 2001 a 30 de setembro de 2002, três dias antes das eleições presidenciais (o tucano José Serra perdeu para Lula).

Entre os artifícios usados no ministério para colocar dinheiro no “valerioduto”, constatou-se até uma excursão a Brasília, em novembro de 2001, de 84 estudantes do curso técnico de turismo de um colégio estadual de São Sebastião do Paraíso (MG), terra do então ministro Melles. O roteiro incluiu passeios pela capital e almoço em uma churrascaria. Para organizar o “evento”, a SMP&B recebeu 45 mil reais. Os auditores descobriram ainda que a empresa subcontratada para organizar a visita dos colegiais, a MultiAction, também pertencia a Marcos Valério.

Os ministros Melles e Carvalho não foram responsabilizados pelo TCU. Melles, atualmente deputado federal pelo DEM de Minas Gerais, pertencia ao antigo PFL quando titular da pasta. Em 2011, então secretário de Transportes e Obras Públicas de Minas, foi condenado por improbidade administrativa, ao lado da mulher, Marilda Melles, ex-prefeita de São Sebastião do Paraíso. Os dois foram denunciados pelo Ministério Público do Estado por usar recursos públicos para promoção pessoal. Em 2012, foi obrigado a deixar o cargo e reassumir sua vaga na Câmara dos Deputados.

Carvalho, último ministro da pasta na era FHC, foi presidente da São Paulo Turismo S.A., órgão de promoção turística e eventos da cidade de São Paulo entre 2005 e 2011, nas administrações de Serra e Gilberto Kassab. Atualmente,  ele é diretor-geral da Enter, empresa de eventos do Grupo Bandeirantes de Comunicação.

Leandro Fortes
No CartaCapital

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PS do Tijolaço


Curioso é que Rímoli é destacado acusador, na internet, do que diz ser a corrupção de José Genoíno e José Dirceu. Diz que atestou notas frias de publicidade por “sua estupidez” (palavras do próprio) administrativa. Que não devia ser assim, porque há mais de 20 anos, cuidava da Secretaria de Comunicação de Moreira Franco, no Governo do Rio de Janeiro.

Aliás, como contribuição a Fortes, informo que não é a primeira vez que Rimoli enfrenta problemas deste tipo: no Inquérito 964 RJ, do STF, o Ministério Público Federal ofereceu denúncia contra Wellington Moreira Franco, Laerte de Lima Rimoli e Herval Basílio, pela suposta prática do delito de peculato (modalidade “desvio”), tipificado no artigo 312 do Código Penal.

O inquérito foi desmembrado, porque Moreira Franco, à epoca, era deputado federal e Rimoli não tinha foro privilegiado.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Para autora de livro sobre o PCC, há “estardalhaço” da imprensa sobre investigação do MP


Socióloga Camila Nunes afirma que governos do PSDB nunca foram obstáculo para a organização e questiona se há outros interesses por trás da divulgação de escutas

O governador Geraldo Alckmin seria alvo do PCC, segundo o MP-SP
Na semana passada, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) divulgou o áudio de interceptações telefônicas que revelam um diálogo, de agosto de 2011, entre dois integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), sobre o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB).  “Depois que esse governador entrou aí o bagulho ficou doido mesmo. Você sabe de tudo o que aconteceu, cara, na época que ‘nois’ decretou ele (governador), então, hoje em dia, secretário de Segurança Pública, secretário de Administração, Comandante dos vermes (PM) estão todos contra ‘nois’”, disse o preso Luis Henrique Fernandes, o LH, membro do PCC.

Segundo promotores ouvidos pelo jornal Estado de S. Paulo”, o termo “decretar” significa “decretar a morte”. Para a socióloga Camila Nunes Dias, autora de PCC – Hegemonia nas Prisões e Monopólio da Violência (Editora Saraiva), no entanto, as últimas gestões do governo do estado não foram obstáculo para o crescimento e fortalecimento da facção criminosa.  De acordo com ela, há muito “estardalhaço” da imprensa ao divulgar notícias sobre a investigação, que já seriam conhecidas “há alguns anos.”

Camila lembra que foi dentro das prisões que a organização ganhou força, graças à ausência do Estado, que não oferece condições básicas aos detentos. “Não é possível que o governo de São Paulo conseguisse manter pacificada e estável uma população carcerária de quase 200 mil pessoas em unidades hiperlotadas, sem condições básicas de higiene, saúde e nem alimentação decente”, afirma a socióloga, que credita ao PCC o “controle da população” carcerária.

O teor das denúncias do MP-SP e a forma como foram divulgadas na mídia fizeram com a socióloga levantasse uma questão: “Qual o interesse de transformar o PCC nisso tudo agora? A quais interesses atendem essas revelações?”

Confira a entrevista na íntegra:

Fórum – Qual a sua opinião sobre as recentes revelações feitas pelo MP, entre elas a de que o PCC teria planejado assassinar o governador Geraldo Alckmin?

Camila Nunes Dias – Penso que essas informações, que estão sendo divulgadas com grande estardalhaço nesse momento, são, em sua grande maioria, já conhecidas há alguns anos. Obviamente não se tinham detalhes, mas a presença do PCC nos outros estados e a estruturação da facção, assim como o controle sobre o tráfico de drogas, já eram conhecidos. Veio à tona agora por algum motivo, que não sei exatamente qual é, mas vale a lembrança de que o governador está com a popularidade em queda.

Essa denúncia de que o PCC planejava matá-lo… Achei isso absurdo e sem sentido. De um lado, é óbvio que, se tratando de uma organização criminosa, ela vai ter alvos, entre eles autoridades, e o governador é a autoridade máxima em São Paulo. Mas não foi revelado nenhum plano estratégico, nenhuma articulação ou distribuição de tarefas que justifiquem esse temor. Foi uma conversa dos criminosos, obviamente, há uma edição da conversa, não sei qual o conteúdo completo. Não há razão nenhuma para esse estardalhaço, me parece uma daquelas estratégias políticas para que o governador aumente sua popularidade e saia como herói de algo.

Fórum – Você estudou a estrutura do PCC e sua história. Em algum momento, nessa trajetória, as sucessivas gestões do governo de São Paulo pareceram ser um obstáculo à organização?

Camila Nunes Dias – As tentativas desses governos todos, do PSDB, de frear o PCC nunca foram efetivas e importantes. O PCC surge em 1993, e desde o governo Mario Covas (PSDB), passando pelo Alckmin e [José] Serra,  todas as formas de combatê-lo foram inócuas, tanto assim que depois de 20 anos o PCC continua forte e estabelecido. A única medida foi a criação do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), um regime mais severo de cumprimento de prisão, com isolamento do preso, sem direito a visita íntima, com uma hora de banho de sol e 23 horas de encarceramento isolado. Mesmo assim não foi suficiente. Ao contrário do que o governador Alckmin dizia em 2003, quando afirmava que o RDD havia acabado com o PCC, vimos que isso é uma mentira, a década seguinte deixou claro que isso não é verdade.

Nesses últimos anos, tivemos momentos de ruptura e crises deflagradas, tantos nas prisões quanto nas ruas, de criminosos e policiais, que mostram a atuação da organização. Eu me pergunto, e acho que a grande dúvida neste momento é essa: mais importante até do que as denúncias, é saber porque isso tudo está sendo divulgado. No ano passado, o governo afirmava que o pesquisadores e jornalistas estavam “glamurizando” o PCC e que ele não passava de 40 homens, todos presos em Presidente Venceslau. Qual o interesse de transformar o PCC nisso tudo agora? A quais interesses atendem essas revelações?

Fórum – Camila, em seu livro você imputa à ausência do Estado no sistema penitenciário paulista o crescimento do PCC nas prisões. Não é uma contradição o mesmo governo ser visto como o grande opositor da organização?

Camila Nunes Dias – É isso mesmo. É o contrário disso. Se pensarmos o universo do sistema carcerário, e pensarmos a política de encarceramento em massa que vem sendo adotada em São Paulo desde meados dos anos 90, ela só é possível dentro das prisões por causa da existência do PCC. Não seria possível o governo de São Paulo manter pacificada e estável, como está, uma população carcerária de quase 200 mil pessoas em unidades hiperlotadas, sem condições básicas de higiene, saúde e nem alimentação decente. Não seria possível manter essa população pacificada, em condições tão aviltantes, se não fosse o PCC para controlar, e é o PCC quem controla essa população. Isso significa que o Estado exerce cada vez menos o controle sobre o cotidiano da prisão e esse cotidiano da prisão está nas mãos dos próprios presos. Agora, como a investigação está mostrando, só estão ratificando o que pesquisadores falam há muito tempo, 90% das prisões são controladas pelo PCC.

Igor Carvalho
No Fórum

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Ministro russo chega ao Brasil para propor produção conjunta do caça de quinta geração T-50



A possibilidade que aventamos aqui no blog, outro dia, de participação do Brasil no programa PAK-FA, tornou-se oficialmente concreta.

O Ministro da Defesa da Rússia, Serguei Shoigú, que chega a Brasília amanhã, irá propor ao Brasil, não apenas a compra dos caças Sukhoi SU-35, mas também o desenvolvimento e a produção conjunta do caça T-50, de quinta geração.

O projeto do T-50, do Programa PAK-FA, já conta com a participação da Índia, que disponibilizou cerca de US$ 25 bilhões e espera obter a versão de exportação do T-50 até 2018.

A Força Aérea Russa (FAR) receberá os primeiros T-50 de produção em série este ano, e comprará pelo menos 70 aeronaves.

O caça traz toda uma série de inovações para minimizar sua visibilidade aos radares. E também novos materiais estruturais e revestimentos, inteligência artificial, e componentes de hardware que elevam a indústria aeronáutica russa a um patamar completamente novo.

Um dos destaques do T-50 são os novos polímeros de fibra de carbono, com peso duas vezes menor do que o alumínio e quatro vezes menor que o aço. Como mais de 70% do revestimento da aeronave é composto por novos materiais, o resultado é um avião quatro vezes mais leve que os construídos com material comum.

Além disso, o T-50 se destaca por uma visibilidade reduzida aos radares, ópticos e infravermelhos. A área efetiva da superfície refletora da aeronave é de 0,5 m2, enquanto a do Su-30MKI é de 20 m2. Isso significa que, no radar, o Su-30MKI aparece como um objeto metálico de 5 por 4 metros, enquanto o T-50 tem uma imagem 40 vezes inferior.

Dezenas de sensores colocados ao longo da fuselagem permitem controlar a situação em torno da aeronave e trocar informações em tempo real com serviços terrestres e dentro de um esquadrão. Se não bastasse, um “piloto automático” oferece ao piloto da aeronave várias opções de ação. O T-50 é capaz de decolar e pousar em uma pista de 300 a 400 metros de extensão.

O T-50 possui elevada capacidade de manobra e alto nível de monitoramento. Um radar de matriz ativa faseada instalado na aeronave permite ao piloto ver tudo o que acontece no espaço aéreo e em terra a uma distância de várias centenas de quilômetros, e acompanhar vários alvos aéreos e terrestres ao mesmo tempo.

O armamento é transportado dentro de compartimentos internos, como exige a tecnologia Stealth. Esses compartimentos podem acomodar até oito mísseis ar-ar do tipo R-77 ou duas bombas inteligentes de 1.500 kg. A aeronave também pode levar em dois pontos duros sob as asas mísseis com capacidade para atingir alvos a uma distância de 400 km.
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Como o PIG noticia a 'suposta' corrupção tucana

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Estudante pernambucano chama Dudu às falas

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Adeus, motorista!


A Toyota apresentou nesta sexta-feira sua próxima geração de automóveis, dotados de um sistema de condução automática destinado a evitar colisões e a manter o veículo no centro da pista, sem a necessidade de que o motorista toque o volante.


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Fragmentos


Tudo começou com a proibição de uma peça de teatro - Cordélia Brasil. Nós, da classe teatral, fomos para o Municipal e fizemos até uma passeata com todos os intelectuais, Flávio Rangel, Antônio Callado, Mário Pedrosa e muitos outros.

Foi o meu espírito libertário que me fez participar de 1968. Eu estava no auge da minha carreira na Itália, mas não pude deixar o Brasil. Cedi à minha consciência, fiquei e fiz a peça Cordélia Brasil com o Oduvaldo Vianna Filho. A partir daí, fui ficando... e reclamando.

Quando mataram o Edson Luiz, fui para a Assembleia Legislativa. O Sérgio Grillo disse que eu tinha que falar e me colocou sobre o parapeito da escadaria. Quando eu vi aquele mundaréu de gente, coloquei as mãos no rosto e comecei a chorar. Lembrei-me da imagem do Edson ali, no chão, morto. Com um grito de desespero feminino, levantei a mão para o alto, de punho cerrado, e gritei:

- RECUSO-ME A TER FILHOS PARA SEREM ASSASSINADOS PELA DITADURA! - Essa foto saiu na primeira página do O Globo.

Aí começou a perseguição - invasão da minha casa, assédio no teatro, até bombas de gás dentro do teatro jogaram. Com isso eu fiquei cada vez mais revoltada e não parei.

O desempenho repressivo dos esbirros do governo militar primava pelo ridículo. Por exemplo, um “cana” do DOPS ia todos os dias ao teatro assistir Cordélia Brasil. Em uma das vezes em que fui presa, ele estava lá, no DOPS, e disse:

― Quer ver? Eu sei o texto da Cordélia todinho de cor.

E sabia mesmo, principalmente um monólogo meu que dizia:

― Vou fazer desta casa um bordel, porque eu quero ser uma putona.

Cordélia foi proibida concomitantemente com uma peça do Plínio Marcos e outra do Nelson Rodrigues. Eu consegui uma audiência com o então ministro da justiça, Gama e Silva. Acho que era esse. Ele olhou para o Plínio que, encarando-o, cuspiu no tapete do homem. O diplomata que estava conosco disse, muito sem graça:

― Ele é o homem zangado do nosso teatro. - O ministro acabou liberando as peças e falou:

― Ah, quando estou cansado vou ver filmes brasileiros. Durmo, como aconteceu no Cara a Cara, do Bressane. Quando acordo, proíbo.

De outra feita, um coronel que me interrogou no primeiro batalhão da PE, na Rua Barão de Mesquita, queria saber onde estava o ouro de Moscou...

Fui presa várias vezes e, por fim, fui sequestrada em São Paulo e levada para o Rio. Para o exército. Só reconheci que era o Rio porque eu vi o Maracanã. Fui interrogada por um coronel do então Ministério da Guerra. Ele queria saber quem era de esquerda na classe artística. Eu o fixava e dizia que não sabia, pois nós não pedíamos atestado de ideias políticas. Fui interrogada durante 48 horas. O telefone não parava. Chegou uma hora em que o coronel disse que eu iria voltar para São Paulo. Acompanhou-me até o aeroporto. Eu não tinha nem bolsa, pois quando fui sequestrada joguei a bolsa fora.

O que motivou meu sequestro foi o fato de eu ter descoberto que as concessões de todas as lojas do Galeão haviam sido negociadas com uma firma americana, Marin Company, se não me falha a memória. Só não negociaram a pista, é claro. Desde então, não tive mais descanso ― perseguições, invasão, prisão, conhecia muitos amigos que se foram e outros que foram torturados. Isso me dava forças para continuar na luta.

Tornei-me simpatizante da ALN. Ajudei muitas pessoas que queriam sair do Brasil. Saí eu mesma do país depois que a Sônia Nercessian foi presa e barbaramente torturada. Foi uma coisa terrível e ela, com o bom caráter que tinha, não delatou ninguém. Perdeu trinta quilos na prisão.

Eu, então, fui para o exílio. Morei em Paris e era muito famosa lá. Continuei, durante os anos de exílio, a criticar a ditadura. Depois que chamei o Médici de urubu-rei, no L’Express, em uma entrevista para o Eduardo Balbi, tiraram o meu passaporte. Essa edição foi retirada das bancas e só leu quem a recebeu em casa.

Texto extraído da página 419 do livro 68 a geração que queria mudar o mundo relatos organizado por Eliete Ferrer e publicado pela Comissão de Anistia do Min. da Justiça.
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“Nossa relação viveu, nos últimos 10 anos, o melhor período da sua história”, diz Lula ao Página 12 da Argentina


Pouco antes de partir para Buenos Aires onde vai participar de uma conferência sobre a responsabilidade dos empresários, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou com o jornal sobre Cristina, o não à ALCA , as novidades da política brasileira com Marina Silva aliada ao PSB , os protestos de junho e a importância da integração sul-americana.

Visivelmente, parece não haver uma vigilância especial no edifício modernista pintado de branco na Rua Pouso Alegre 21, no bairro do Ipiranga em São Paulo. Nem mesmo parece um escritório abarrotado de assessores. A recepcionista que ofereceu o cafezinho, com menos de 30 anos, sorri. Em um corredor pode tropeçar em um ex-ministro que está fazendo política, mas agora desfruta de um escritório longe do ritmo esgotante do Planalto, a Casa Rosada do Brasil. Anteriormente, o Instituto no bairro Ipiranga, foi chamado de Cidadania. Agora, simplesmente chamado de Instituto Lula, como seu chefe, que ocupou oito anos na presidência, e está a ponto de completar 68 anos de idade no próximo dia 27, ainda ativo, muito ativo, dentro e fora do Brasil.

Você está preocupado com a saúde de Cristina?

Nossa primeira preocupação é com o pleno restabelecimento de uma grande amiga e líder política. Cristina Kirchnner não é importante apenas para a Argentina, ela é importante para toda a região. Mas eu tenho plena confiança de que ela se recuperará rapidamente.

Em sua última visita a Argentina, você propôs formular uma doutrina de integração. Qual seria o foco principal?

Os conservadores tentam negar esse fato, mas a América do Sul avançou muito nos últimos 10 anos. Todos os nossos países vivem a democracia, crescem e se desenvolvem com distribuição de renda e inclusão social. A região é hoje muito mais soberana e respeitada no mundo. O Mercosul, apesar dos seus inimigos, está vivo e funcionando. Criamos a Unasul e a Celac. Mas é claro que a nossa integração pode – e deve – ser muito mais profunda e abrangente. Estou convencido de que, para isso, não bastam as visões de curto prazo. Precisamos de um pensamento realmente estratégico que enfrente os problemas estruturais da integração, que apresente soluções para os desafios da integração física, energética, produtiva, sócio laboral, cultural, ambiental, financeira etc. Temos que ir além dos governos. Envolver a sociedade civil, os sindicatos, os empresários, a universidade, a juventude.  Trata-se de construir uma vontade popular de integração. O fundamental é que todos entendam o quanto podemos ganhar coletivamente, na economia, na política, na igualdade social, na vida cultural, quanto mais nos integrarmos e fortalecermos as parcerias entre nossos países. Tenho me dedicado bastante a essa reflexão, em diálogo com os setores progressistas da região.

Você acha que hoje a relação entre a Argentina e Brasil tem uma política intensa adequada ou deve ser mais profunda ?

Eu acho que a nossa relação viveu, nos últimos 10 anos, o melhor período da sua história. Mas com certeza, pode ser  ainda mais forte. No plano politico, temos um excelente diálogo. Mas podemos ampliar – e muito – a integração física, cultural, de cadeias produtivas, de turismo. Precisamos agora de mais estudantes brasileiros nas universidades argentinas, e mais argentinos nas universidades brasileiras, mais turistas argentinos conhecendo o Brasil, ainda mais brasileiros tendo oportunidade de conhecer e viajar à Argentina, mais empresas dos dois países associadas para atuar em terceiros mercados. O potencial daquilo que podemos fazer trabalhando juntos só começou a ser explorado. É importante termos clareza disso.

O que mudou para a América do Sul a “não” formação de uma Aliança de Livre Comércio das Américas em novembro de 2005?

Foi fundamental em 2005, barrarmos aquela proposta da Alca, em Mar del Plata. Ela não era de verdadeira integração, mas sim de anexação econômica. Afirmando a sua soberania, a América do Sul buscou um caminho próprio e muito mais construtivo. Ao invés de um mercado cativo para os Estados Unidos, como estava previsto na Alca, hoje buscamos um mercado compartilhado, em benefício do desenvolvimento de todos os países da região. Acho que tanto nas políticas econômicas quanto nas relações internacionais a região tem conseguido trabalhar de forma conjunta ao mesmo tempo em que respeitamos a soberania de cada país. E isso pode parecer óbvio, mas é uma grande conquista quando analisamos a história da América do Sul. Se não tivéssemos evitado a Alca, a região não teria dado o salto social e econômico que deu na última década. Argentina, Brasil e Venezuela tiveram um papel central nesse processo. Nestor Kirchner e Hugo Chávez foram grandes aliados nesse processo.

Cada um à sua maneira, os países da América do Sul lutaram contra a pobreza e a miséria extrema. Como se pode acelerar a luta contra ambas realidades?

Tenho defendido, em todos os debates que participo que é fundamental os governos incluírem os pobres no orçamento. Porque os mais pobres muitas vezes não são capazes de se organizar nem para se manifestar. Não tem sindicato, nem partido. Quando chega o orçamento todos estão lá menos os pobres: os militares, os diplomatas, a infraestrutura…menos os pobres. Então é necessário incluir os mais frágeis, os que mais precisam do Estado, no orçamento. Outra coisa é que precisamos parar de tratar o dinheiro para o social como gasto e o dinheiro para o rico como investimento. Porque os economistas são incríveis. Dinheiro para ajudar a instalar uma indústria é investimento. Mas dinheiro para dar emprego, segurança alimentar, educação, hospital, para as pessoas saírem da pobreza, é chamado de gasto. E quanto custa a doença, a fome, a pobreza? Quem calcula isso? Então ao invés de verem os pobres como um problema, é preciso enxergá-los como parte da solução. Se dermos recursos aos mais pobres, eles viram consumidores e fazem a roda da economia girar. Se dermos oportunidades aos mais pobres, eles viram trabalhadores.  Se entendermos isso, veremos que podemos erradicar a pobreza extrema em nossos países e também em todo o mundo.

O que os governos devem fazer com as novas demandas como as reivindicações de melhora na política de saúde e de transporte público? As manifestações em junho surpreenderam o Partido dos Trabalhadores?

Em certo sentido, surpreenderam sim. Já que o país avançou de modo extraordinário nos últimos anos. Mas as manifestações foram um alerta importante para nós. Elas impedem qualquer risco de acomodação. Incitam-nos a fazer ainda mais. Até porque um povo que conseguiu tantas conquistas, no período recente, é natural que queira mais. Milhões de pessoas tiveram acesso ao ensino superior, e agora querem empregos qualificados. Passaram a contar com serviços públicos de que antes não dispunham, e agora querem que eles tenham melhor qualidade. Milhões de brasileiros puderam comprar o seu primeiro carro e hoje também viajam de avião. A contrapartida, no entanto, deve ser um transporte público eficiente e digno, que reduza o trânsito, tornando mais digna a vida nas grandes cidades. É uma nova geração, mais educada e exigente e isso é muito bom. Eu acho que o povo tem mesmo que exigir mais. E cabe a nós, políticos, ouvir essas demandas e trabalhar ainda mais.

Você considera que o PT e o governo reagiram a tempo?

Eu acho que a presidenta Dilma Rousseff teve uma sensibilidade extraordinária. Ela fez cinco grandes propostas para atender as vozes das ruas: um plebiscito pela reforma política; mais recursos para o transporte nas grandes cidades; destinar os novos recursos do petróleo (o chamado pré-sal) para a educação; garantir médicos na periferia das grandes cidades e em todas as regiões do interior; e intensificar o combate à inflação. De lá para cá eu vejo que a população entendeu e está valorizando os esforços da presidenta e que a solução para esses problemas se dará progressivamente. Eles exigem muito trabalho e recursos. A saúde por exemplo. A oposição ao meu governo acabou com um imposto, tirando 40 bilhões de reais por ano da saúde, achando que ia me prejudicar. Mas eles não prejudicaram a mim, que terminei o governo com 87% de aprovação; prejudicaram o povo brasileiro, que precisava daqueles recursos para ter um melhor atendimento, acesso a exames e medicamentos mais complexos. É parecido com essa lamentável intransigência da oposição americana ao projeto para a saúde proposto pelo presidente Barack Obama.

Marina Silva anunciou sua filiação do Partido Socialista Brasileiro, que por sua vez, deixou a aliança do governo. Você tem medo dessa candidatura que agora conta com uma estrutura partidária?

Por princípio, devemos respeitar todos os adversários. Mas, sinceramente, acredito que a presidenta Dilma tem todas as condições de se reeleger, porque o país continua crescendo e se desenvolvendo, gerando empregos, promovendo inclusão social, expandindo e melhorando a qualidade dos serviços públicos, com uma ênfase especial na educação, na ciência e na tecnologia. A maioria da população sente que o país está no rumo certo e acha que a atual presidente é a mais preparada para aprofundar as mudanças e garantir que não haja retrocessos. Não há motivos para que a presidenta Dilma tema qualquer adversário.

Como o PT fará para manter a ampla aliança no governo e no Parlamento e ao mesmo tempo evitar a contaminação sofrida por alguns governadores?

Em um país tão diverso e complexo como o Brasil, é necessário governar com alianças. Isso acontece tanto no governo nacional, quanto nos estados e municípios. O sistema partidário brasileiro é muito pulverizado, existem mais de 30 partidos, e o eleitor pode escolher o presidente da República de um partido e os deputados e senadores de outro. Não existe voto em lista, o voto é no indivíduo, que depois não é obrigado a ficar no partido que o elegeu. Enquanto não houver uma reforma política, ninguém no Brasil conseguirá governar sem alianças, o que em minha opinião também não seria desejável. Há dez anos o PT governa o Brasil com alianças de centro-esquerda, e foi com elas que o país obteve suas enormes conquistas econômicas, sociais e culturais. Temos procurado aperfeiçoá-las, dando a elas um caráter mais programático e de maior corresponsabilidade política. Mas com certeza vamos manter o nosso governo de coalizão. Continuaremos trabalhando juntos com os partidos que nos apoiam. Para a população, o importante é governarmos bem, ouvindo e atendendo suas demandas, dialogando com todos os setores da sociedade, aprofundando as mudanças sociais.

Lula presidente nas eleições de 2014 é uma opção absolutamente descartada?

Minha candidata à reeleição em 2014 é a presidenta Dilma Rousseff. E eu serei um militante dedicado da presidenta. Porque eu tenho a seguinte convicção: assim como meu segundo mandato foi muito melhor que o primeiro, o segundo mandato da Dilma também será.

O que você espera da revisão judicial no processo chamado Mensalão?

Como o processo ainda não foi finalizado, eu, na condição de ex-presidente, não tenho me pronunciado sobre o julgamento.

Qual será a base da relação entre o Brasil e os Estados Unidos depois da espionagem à Dilma e a suspensão da visita de Estado a Washington, marcada para este mês.

São muito graves os atos de espionagem contra os chefes de Estado, não só do Brasil, mas também do México, e autoridades e governos de muitos outros países. Não podemos aceitar como normal interceptação de telefonemas e a invasão da correspondência reservada dos Presidentes da República de países amigos. Foram ações que feriram nossa soberania e os princípios mais elementares da legalidade internacional. Acho que precisamos aguardar as explicações americanas sobre a espionagem, e um pedido de desculpas, que ainda não veio. O Brasil é um país que respeita e tem relações pacíficas com as outras nações do mundo, e quer ser respeitado da mesma forma. Eu acho que a presidenta Dilma Rousseff fez um grande discurso nas Nações Unidas, ao apontar que a internet, esta invenção maravilhosa que aproxima os povos do mundo, não pode se tornar um terreno de espionagem ou de Guerra.  Espero que outros países se juntem ao Brasil no esforço de uma melhor governança internacional da internet. E acho que provavelmente a maioria dos cidadãos dos países que praticaram essa espionagem concorda que é inaceitável invadir comunicações privadas de milhões de cidadãos, espionar empresas como a Petrobras ou a presidenta de um país amigo e pacífico.

Martín Granovsky
No Instituto Lula
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'Tucarina' aos bancos: meus juros serão tucânicos!

'Tucarina' promete aos bancos o que os bancos mais querem: juro!
Como se sabe, para uma plateia de investidores (sic) no banco Credit Suisse, em São Paulo, a 'Tucarina' revelou-se 'Tucarina' de corpo e alma.

E, por suposto, não falou em Banestado, CC-5, Privataria, Príncipe da Privataria, agora reconhecido pela Folha, nem em Ricardo Sergio ou “lavagem de dinheiro”.

Uma questão de gentileza …

Disse ela, segundo o PiG cheiroso:

Marina diz a investidores que é preciso restaurar o tripé econômico


(Para Tucarina), o combate à inflação foi relegado pelo governo. Para recuperar a credibilidade, afirmou, é preciso dar ao mercado sinais claros, “quase teatrais”, de que a inflação será levada ao centro da meta.


Marina afirmou discordar do expansionismo fiscal adotado pelo atual governo e apoiou a geração de superávits primários “expressivos, sem manobras contábeis”. Para a ex-ministra, o câmbio deve voltar a flutuar livremente sem tantas intervenções do Banco Central. Além disso, é preciso promover uma sinalização firme para que a inflação volte ao centro da meta (4,5%).

Sempre atento, Robert Skidelsky, autor de inigualável biografia de Keynes, permitiu contato para-normal, num grampo sem áudio, com o ansioso blogueiro.

Logo após o desmanche do pensamento 'neolibelês', com a quebra do banco Lehmann, em Nova York, em 2008, Skidelsky escreveu “Keynes, a volta do Mestre”, “The return of the Master”, editora BBS, New York, 2009.

Diz ele nas pág. XVIII e XIX da Introdução, edição em paperback:

“Keynes não era um inflacionista. Ele acreditava em preços estáveis… Mas acreditava ser uma idiotice se preocupar com a inflação quando os preços e a produção estavam em queda livre …”

“… Keynes acreditava que num sistema de mercado livre (e de “expectativas racionais”) as recessões sempre seriam possíveis… e, portanto, o continuo papel do Governo deveria ser o de evitar que isso acontecesse.”

“Keynes tinha um objetivo político. Se o Governo não tomasse medidas para estabilizar as economias de mercado num regime de pleno emprego (hoje no Brasil, o desemprego é de 5,3% – ou seja, é o regime de “pleno emprego”, na prática – PHA), os indiscutíveis benefícios dos mercados seriam destruídos pelos extremistas que se propõem a resolver o problema econômico com à custa do mercado, da paz e da liberdade”.

“Há uma diferença central que domina todas as outras. A perspectiva monetarista (aqui chamada de 'neolibelês' – PHA) pressupõe que a economia de mercado seja relativamente estável, na ausência de “choques” monetários; Keynes defende que a economia de mercado será relativamente instável, se o Governo não adotar políticas que estimulem a demanda agregada.”

Através do grampo sem áudio, o ansioso blogueiro estabeleceu contato de terceiro grau com Skidelsky, posto em sossego na Universidade de Warwick, em Conventry, na Inglaterra (ou Reino Unido, diria o Renato Machado).

Leu para ele as declarações da Tucarina aos banqueiros suíços reproduzidas acima e perguntou:

- Professor Skidelsky, o que a Tucarina quis dizer?

- Que o Banco Central dela vai praticar juros iguais aos do Fernando Henrique.

- Os banqueiros devem ter adorado.

- Os banqueiros e os profissionais…

- E o que vai acontecer com o emprego, professor?

- Você quer dizer… desemprego?

- Sim! Com os juros tucânicos, o que vai acontecer? O desemprego vai explodir, como nos tempos tucânicos?

- Ué, meu filho … você não lembra?

Pano rápido.

Paulo Henrique Amorim
No Conversa Afiada

* * *


Marina quer ser o FHC com hepatite


Graças ao Valor, ficamos sabendo que Marina Silva, a campeã da transparência, teve um encontro privado (secreto seria melhor, porque nem sequer foi informado que haveria a reunião, da qual só se soube por uma nota na coluna de Sonia Racy, no Estadão) com a “turma da bufunfa” reunida pelo Banco Credit Suisse.

Conversar, com quem quer que seja, não é um problema – antes, é um dever – de qualquer candidato, como está evidente que Marina é, mas chama atenção o que foi dito.

Transcrevo:

“A ex-senadora defendeu a volta do tripé macroeconômico baseado na adoção de metas de inflação, câmbio flutuante e política fiscal geradora de superávits primários. Conforme relato de investidores que estiveram no encontro, ela disse que o tripé “ficou comprometido e é preciso restaurá-lo”.

Bem, como se sabe que esse colar cervical implantado sobre a economia brasileira – para que ela não deixe de estar voltada para os interesses do “mercado” –  jamais foi retirado, mesmo pelos governos Lula e Dilma, mas simplesmente afrouxado, o que Marina propõe pode ser resumido em uma palavra: arrochá-lo.

E como é “arrochar” esta coleira?

Primeiro, cortar gastos e investimentos. Nada de inventar ampliação de programas sociais, expandir investimentos e nada que tire nossos olhos de  gerar superávits primários “expressivos, sem manobras contábeis”.

Manobras contábeis de que tipo? A de tirar os investimentos do PAC das contas do superávit que o “mercado” nos exige?

O que propõe a líder da nova política, quase sem rebuços, a líder da nova política é voltarmos aos tempos de Fernando Henrique. Com muito boa vontade, talvez, aos primeiros anos do Governo Lula, quando este ainda teve de manter o tal colarzinho neoliberal apertado, até que a água tivesse baixado do pescoço e permitisse a ele se mover.

Dia ainda o jornal:

“Na avaliação dela, o combate à inflação foi relegado (sic)pelo governo. Para recuperar a credibilidade, afirmou, é preciso dar ao mercado sinais claros, “quase teatrais”, de que a inflação será levada ao centro da meta.”

Como seria este relegar (supõe-se que a uma posição secundária) o combate a inflação? Aumentar mais as taxas de juros? Impedir aumentos salariais, especialmente na administração pública? Cortar financiamentos e subsídios públicos? Travar os programas de transferências de renda?

Seriam perguntas interessantes a fazer para a candidata que “arrendou” o PSB para seus apetites eleitorais, se a imprensa brasileira, em relação a Marina Silva buscasse alguma objetividade, fora das expressões pernósticas e vazias.

Quanto aos “gestos teatrais” de que a inflação será levada ao centro da meta, de tao ridículo, é algo que me poupo de comentar. A ideia de aterrorizar o país em relação a aumentos de salários, de preços e de falta de recursos para ações sociais é tão velha e inútil quanto os “fiscais do Sarney”.

Nenhuma palavra sobre os desafios sociais que o Brasil precisa enfrentar, apenas sobre o regresso a práticas que só aumentaram este passivo do país para com o povo brasileiro.

Marina vai completando sua antimetamorfose e se oferece como a possibilidade de dar uma cara nova ao que, nos últimos anos, tem sido a forma de dominação deste país: ser governado para a moeda, não para o povo.

Não é à toa que os endinheirados da platéia tenham adorado:

“Com um discurso marcado por questões caras ao mercado financeiro, a ex-senadora foi descrita como “impressionante” e “cativante” por fontes que assistiram à palestra”.

Marina absorveu a ideologia das elites. Já pode ser seu instrumento.

PS. Alguém aí sabe o que pensa Eduardo Campos? Ou será que o contrato de arrendamento do PSB impõe silêncio?

Fernando Brito
No Tijolaço
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Lula: tática da oposição aqui é a do boicote


O jornal Valor faz um resumo dos trechos da entrevista do ex-presidente Lula ao jornal argentino Pagina 12 (aqui, na íntegra), onde ele diz que a postura da oposição brasileira lembra a tática de boicote utilizada pelo Partido Republicano, nos EUA, para desgastar Obama com o bloqueio ao “Obamacare”, o plano de dar acesso a saúde pública aos 60 milhões de norte-americanos que não têm planos de saúde.

Acrescento ao resumo apenas um trecho, que o jornal não reproduz:

-  Assim  como meu segundo mandato foi melhor que o primeiro, o segundo mandato de Dilma também o  será.

É bom que se destaque isso, porque a conversinha de “conquistas do Lula” que eles dizem querer manter foi exatamente aquilo que, por falta de condições políticas e econômicas – esquecem que FHC quebrara o Brasil – ele não conseguiu mudar: juros altos, reajustes limitados nos salários e baixo nível de investimentos públicos.

Lula compara oposição brasileira a republicanos nos EUA


O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva comparou, em entrevista publicada nesta segunda-feira no jornal argentino “Pagina 12″, de Buenos Aires, a oposição ao seu governo com a realizada pelo Partido Republicano nos Estados Unidos.

“A oposição a meu governo acabou com um imposto que gerava R$ 40 bilhões para a saúde. Eles pensavam que iam me prejudicar, mas comigo não aconteceu nada, saí com 87% de aprovação, prejudicaram o povo”, disse Lula, em uma referencia ao fim da CPMF em 2007. “Isso parece com a lamentável intransigência da oposição norte-americana ao projeto de saúde do presidente Barack Obama”, disse.

Os Estados Unidos vivem atualmente um impasse com a resistência do Partido Republicano em aumentar o limite de endividamento público, em função do programa de saúde de Obama.

Lula viajará nesta segunda-feira para a Argentina, onde deve participar de um evento organizado por empresários e ONGs em Ciudad Evita, um bairro do município de La Matanza, um reduto político do peronismo no país. Dentro de duas semanas a Argentina realiza eleições parlamentares.

A princípio não está previsto que Lula visite a presidente Cristina Kirchner na residência oficial de Olivos, onde ela convalesce de uma cirurgia no crânio . Na entrevista, Lula disse que Brasil e Argentina “Vivem os melhores anos de sua história”, mas que “é claro que as relações poderiam ser ainda mais fortes”.

Na entrevista, Lula comenta que as manifestações populares de junho “surpreenderam”. “As manifestações foram um sinal de alerta importante para nós e vão impedir qualquer risco de relaxarmos”. Lula atribuiu as manifestações à insatisfação da população com a qualidade de serviços públicos depois que aumentou seu acesso aos mesmos. Ele descartou concorrer em 2014 e garantiu apoio à reeleição da presidente Dilma Rousseff. Para Lula, Dilma “não deve temer candidato algum”.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Observatório Global da Mídia é refundado em São Paulo


São Paulo - Jornalistas, intelectuais e ativistas políticos de 15 países de quatro continentes, reunidos em São Paulo (SP) para o lançamento do novo portal Carta Maior, refundaram na quarta (9) o Observatório Global da Mídia (Media Watch Global – MWG), uma ferramenta de monitoramento, análise e denúncia do comportamento política da imprensa, que havia sido lançada durante a edição de 2002 do Fórum Social Mundial (FSM), em Porto Alegre. O diretor da edição espanhola do Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet, foi eleito presidente do MWG, que terá sua sede em Paris, na França.

Ramonet, um dos fundadores do Observatório em 2003, lembrou que a ferramenta surgiu da necessidade de se refletir sobre quem detinha o poder no marco da globalização. “Nós entendíamos que o poder financeiro, sozinho, não exercia a mesma influencia do que com o apoio do poder ideológico decorrente do midiático. Portanto, nós dizíamos que combater a globalização era combater o poder financeiro e o poder midiático, que andam juntos”, afirmou.

Ele explicou que, na época, a luta contra o poder midiático ganhou contornos de urgência porque, em abril de 2002, a esquerda mundial havia assistido, atônita, um golpe midiático contra a República Bolivariana do ex-presidente Chaves. Conforme Ramonet, um golpe diferente dos que marcaram as ditaduras latino-americanas, porque foi elaborado diretamente pelos donos dos veículos de comunicação.

No âmbito do FSM, ele divulgou um texto teórico chamado “O Quinto Poder”, em que propunha a criação do observatório, além da organização de jornalistas, intelectuais, professores e também os consumidores para se defender do poder midiático. A iniciativa ganhou apoio em vários países e resultou na criação de dezenas de observatórios locais mundo afora. “Da qualidade dos meios de comunicação, depende a qualidade da democracia”, ressaltou.

Hoje, o editor do Le Monde Diplomatique avalia que a conjuntura mudou muito. “Podemos sacar as lições do que ocorreu com as 40 ou 50 propostas de observatório da mídia que surgiram no mundo, dos quais, hoje, apenas dois ou três estão ativos. Ou seja, há uma dificuldade concreta de levar a cabo esse trabalho. O mais fácil é criar o observatório. O mais difícil é que este observatório produza uma leitura crítica sobre o funcionamento da mídia”, observou.

Ramonet avaliou também que, de lá para cá, os meios alternativos explodiram: rádios, TV, impressos e internet. “A necessidade concreta de organização desses meios é o mais importante, em especial na América Latina onde o debate sobre a comunicação é central. Os meios atacam os governos com toda a classe de argumentos ou falsidades. E os governos respondem com leis, mídia governamental, mídia pública, enquanto a direita também usa os observatórios para precisamente fiscalizar os meios públicos e tentar demonstrar que os governos estão levando a cabo uma política de controle ideológico”, contextualizou.

Para o intelectual, é mais importante do que nunca retomar este observatório. “A dificuldade política é muito mais elevada do que há dez anos. Mas esta não é uma razão para dar marcha ré, é sim uma razão para seguir adiante, com a consciência de que vencer essas dificuldades é avançar para um desenvolvimento democrático indiscutível”, concluiu.

Propostas concretas

O diretor da Carta Maior, Joaquim Palhares, que era o vice-presidente do MWG, foi o responsável pela rearticulação do grupo, que recebeu a adesão imediata de jornalistas e intelectuais do Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Venezuela, Equador, México, Chile, Estados Unidos, Portugal, Espanha, França e Índia.

Segundo ele, o convite para participação no Observatório será estendido a intelectuais de outros países que não puderam participar do ato de refundação. O objetivo, segundo ele, é aprofundar a construção de um ambiente crítico de reflexão sobre a mídia, que não pode mais ser apenas um espaço de defesa do capital.

Palhares se comprometeu a apresentar, em até 30 dias, proposta de carta de princípios e estatuto do observatório, para ser aprovado pelos novos membros. A inspiração, conforme Palhares, virá das experiências concretas de outros observatórios que lograram êxito, como o criado pela Universidade Central da Venezuela, que ainda está em funcionamento, com trabalhos prestados não só à democracia do país, mas de toda a América Latina.

A coordenadora do Observatório de Mídia da Venezuela, a socióloga Maryclén Stelling Macareno, saudou a iniciativa e colocou toda a tecnologia já desenvolvida pelo seu grupo à disposição da MWG. “Nós já desenvolvemos uma metodologia para acompanhamento das eleições”, disse ela, acrescentando que coordenou o acompanhamento dos últimos seis pleitos na Venezuela, além de eleições em outros países latino-americanos, como na Bolívia e Equador.

Palhares também solicitou o apoio dos jornalistas e intelectuais que, ao lado dele, participaram da criação do Observatório Brasileiro de Mídia, também na década passada. Entre eles, o pesquisador da Escola de Comunicação e Artes da USP, Laurindo Leal Filho, o jornalista e assessor especial da presidência Carlos Tibúrcio e o sociólogo Emir Sader, dentre outros.

O diretor elogiou o trabalho desenvolvido pelo grupo à época, que denunciou a manipulação da imprensa durante as eleições municipais de São Paulo em 2006, mostrou como a mídia sufocava o debate sobre questões sindicais e desvelou o preconceito reiterado nas matérias sobre questões de gênero, entre outros importantes trabalhos.

“A combinação de interesses econômicos e políticos dos grupos regionais e nacionais de mídia brasileira reflete diretamente na qualidade da informação oferecida ao público. As manipulações, as mentiras e a banalização dos fatos passaram a fazer parte da rotina da grande imprensa brasileira. Precisamos estar atentos, denunciar esses fatos e prestar ao público uma informação crítica de qualidade”, afirmou.

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