13 de out de 2013

Base na Antártida ganha nova sede


Os cientistas brasileiros na Antártida vão receber uma nova base para realizar seus estudos. Nesta quinta-feira foi apresentado o projeto arquitetônico vencedor para a construção da Estação Comandante Ferraz, que vai substituir a destruída por um incêndio em fevereiro de 2012. As obras começam em 2014.

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Prazo de validade da notícia mudou, mas a rotina jornalística resiste


Muitos podem nem gostar, mas o fato é que os números – na forma de dados, cifras, estatísticas ou gráficos – começam a alterar a forma como o jornalismo é praticado. E a principal mudança está na maneira como a narrativa é desenvolvida. Em vez de um texto voltado para o consumo imediato, o surgimento da notícia/dado obriga os redatores e repórteres a pensar no seu uso futuro, como integrante de bancos de dados.

A atual geração de jornalistas ainda pensa predominantemente em termos das perguntas o que, quem, quando, onde, como e por que, incorporadas aos manuais de redação como parte da preocupação com o consumo imediato, ou seja, validade por 24 horas. Depois disso, a notícia torna-se resíduo informativo raramente reciclado. A cultura das redações sempre colocou num nível secundário a preocupação com o arquivamento do material publicado porque ele, no máximo, serviria para tirar dúvidas, produzir necrológios ou listar eventos similares.

A digitalização mudou tudo isso de forma radical e a adaptação das redações ao novo contexto da notícia está sendo muito lenta porque não se trata apenas de uma mudança técnica, mas de cultura e de rotinas. Como o jornalismo é hoje cada vez mais praticado em plataformas digitais, a notícia passa a ter um prazo de validade praticamente infinito. Depois de lida, ouvida ou vista, quando aciona os mecanismos de produção de conhecimento, ela se transforma em dado digital armazenado em sistemas eletrônicos onde poderá ser facilmente recuperada e reprocessada.

Ocorre que a maioria esmagadora dos redatores e repórteres, quando redigem uma notícia, não estão preocupados com o seu uso futuro como dado. Os profissionais e praticantes de atos de jornalismo (informantes amadores) ainda usam expressões como “ontem”, “semana passada”, “recentemente” e outras similares, que fazem sentido quando a notícia é consumida de imediato, mas confundem quem for acessá-la daqui a alguns meses ou anos.

A maior parte da imprensa convencional continua apegada à cultura da “notícia empurrada” (push news), expressão usada por Reg Chua, editor de dados e inovações na empresa Thompson/Reuters. A grande preocupação dos profissionais do jornalismo ainda é fazer com que a notícia “vá atrás do leitor”, embora a tendência seja no caminho contrário. É o leitor “puxando a notícia” (pulling the news) em bancos de dados para poder entender o que está acontecendo ou esclarecer uma dúvida especifica.

O jornalismo é cada vez mais parte integrante da chamada cultura dos grandes dados (big data), um tema sobre o qual já falamos em postagens anteriores (ver “Jornalismo de dados cria primeiro repórter milionário” e “O jornalismo está sobre uma mina de ouro e parece não saber”). Nesta nova realidade, as sobras de uma reportagem, aquelas informações e observações do repórter que não são usadas no texto ou nas imagens, passam a ser tão importantes quanto o que é publicado. O que é lixo para alguns pode ser valioso para outros. A valorização das sobras é outra consequência da digitalização, porque antes o custo/beneficio tornava inviável o arquivamento físico. Agora o custo está quase em zero e os softwares de processamento permitem a recuperação rápida de material antigo.

A nova preocupação com o prazo de validade da notícia é um dos itens do chamado jornalismo estruturado, desenvolvido com a preocupação de criar e usar bancos de dados a base de notícias. O adjetivo estruturado foi copiado do jargão dos programadores para os quais uma informação estruturada é aquela formatada para inserção em bancos de dados.

As empresas jornalísticas são obrigadas a disputar espaços com projetos comerciais desenvolvidos a partir de notícias digitalizadas. A briga da imprensa com a empresa Google é o espelho desta realidade. Os jornais foram lentos demais na identificação de novas oportunidades digitais porque viviam embalados pelos lucros astronômicos do século 20. Agora tentam recuperar terreno usando o surrado recurso a normas e regulamentações baixadas por políticos que estão ainda mais defasados da realidade.

Carlos Castilho
No OI
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O discurso de Luiz Ruffato em Frankfurt

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Jesus exige autorização prévia para liberar Novo Testamento

Paula Lavigne flagrou fãs cantando músicas de Caetano Veloso sem autorização

ALTO LEBLON - Orientado por Paula Lavigne, Jesus Cristo exigirá autorização prévia para liberar uma nova edição do Novo Testamento. "Andam falando coisas absurdas sobre Minha Vida. A partir de agora, quem quiser citar meu Santo Nome será obrigado a vir pessoalmente aqui no Paraíso e pegar duas vias mimeografadas por São Pedro", trovejou. Após uma sábia pausa, concluiu, num tom grave: "Ou será que terei de descer aí de novo?".

Eficiente, Paula Lavigne também entrou no STF com um embargo infringente para que jornais, revistas e emissoras de TV sejam obrigadas a pedir autorização prévia sempre que quiserem fazer reportagens com a nata da MPB. "O Google também que terá pedir autorização para mim antes de exibir resultados com os nomes de Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Djavan", completou Lavigne.

Dona de um espírito rebelde e sensual, Nana Gouvêa anunciou que lançará autobiografia não autorizada. Solidária, Luciana Gimenez cancelou sua participação na Feira de Frankfurt.

Leãozinho exige autorização para ser citado por Caetano Veloso


Paula Lavigne proibiu o site Terra de revelar onde Caetano estaciona seu carro

ODARA - Orientado por Paula Lavigne, Leãozinho proibiu Caetano Veloso de citar o seu nome. "Dados biográficos de foro íntimo foram expostos de forma vil. Agora todo mundo sabe que sou um filhote de leão raio da manhã", disse, caminhando sob o sol.

Na mesma onda, Geni resolveu processar Chico Buarque. "Foram décadas sendo apedrejada, cuspida e acusada de me relacionar com qualquer um. Nunca autorizei a citação de meu nome em músicas biográficas. Chega!", desabafou, partindo num enorme Zeppelin.

No final da tarde, Lobão fez uma sugestão a Chico Buarque. "Resolver o problema é simples: basta trocar Geni por Lavigne", tuitou.

No The i-Piauí Herald
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Entregando a Rede Liberdade


Estimados amigos e companheiros:

durante estes anos, desde a campanha presidencial de 2010 mantive o site da Rede Liberdade, e outros companheiros mantiveram um blog, e outras mídias com o título de Rede Liberdade.

A Rede Liberdade foi criada para apoiar a candidatura de Dilma e toda a aliança em torno dela para a governabilidade.

Foi criada e depois foi mantida pós eleição a partir de uma sugestão do Zé de Abreu, e serviu-nos em todos os momentos.

Poderia citar uma centena dos fundadores, aqueles que primeiro estiveram conosco.

Fato é que desta centena, ou mais, muitos deles afastaram-se por questões diversas, desde passados os momentos emocionais imediatos da luta até mesmo à luta diária pela sobrevivência que nos rouba o tempo.

Nunca me interessou que a Rede fosse chapa branca de governo, ou linha auxiliar de qualquer partido. O único quesito era ser de esquerda, não ser reacionário.

Este ano o quadro político mudou muito. A diversidade de posições é imensa. Um gigantesca salada de posições e partidos cada vez mais aguerridos.

Assim, não me sinto em condições, e nem tenho mais desejo de manter a Rede com a unidade de discussões na diversidade.

E outras ferramentas surgiram, como a Mídia Ninja por exemplo.

Não gostaria de ver a Rede Liberdade acabar, mas não desejo mais mantê-la sob meu nome e comando.

O site está registrado em meu nome e estou repassando a qualquer companheiro credenciado na luta para tal.

Assim, faço este chamamento público oferecendo ao coletivo a chance de continuar mantendo a Rede.

Se em certo espaço de tempo nenhum amigo, grupo, ou companheiro não se credenciar para isto eu desativarei o site. Considerarei que o não desejante em mantê-la é mais forte e que ela já teria cumprido seu papel.

O que não impede o surgimento de outras redes liberdades nos momentos históricos das nossas lutas vindouras.

Ao tempo em que reafirmo os ideais democráticos e socialistas, libertários e populares que nos levaram a criá-la, aguardo quem lhe dê seguimento.


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Os problemas de Campos-Marina, após a festa de casamento


Algumas observações iniciais sobre o acordo Marina-Eduardo Campos e as pesquisas eleitorais:

1. É fato novo relevante, não se tenha dúvida. Repõe Marina no jogo, mas não na condição de cabeça de chapa, mas evita que seus votos caiam no colo de Dilma Rousseff.

2. As pesquisas em cima da bucha distorcem a realidade. Obviamente, nos dias que antecederam, todos os holofotes da mídia miravam o caso, dando uma visibilidade desproporcional – e que não se repetirá – à dupla. Portanto, o salto deve ser relativizado.

3. Eduardo Campos saltou para a faixa dos dois dígitos. Significa que o episódio o tornou mais conhecido. Mas não significa que esses índices sejam de eleitores consolidados. Vão ser necessárias mais pesquisas para se avaliar se conseguirá crescimento consistente ou não. Passado o impacto inicial, quem tem mais possibilidades de aparecer – por estar em um partido nacional – é Aécio Neves. Sem contar o fundamentalismo macarthista de José Serra, que ainda tem muitas viúvas no espectro da velha mídia.

4. Passada a festa, há um quadro complexo para o PSB. Muitos governadores não pretendem pular do barco da coalizão governamental. No nordeste, os irmãos Gomes já começam a bater em Campos. Dificilmente ele terá entrada em Minas Gerais, Rio de Janeiro e estados do sul. Dependerá cada vez mais do fator Marina – cujos eleitores têm em Dilma a segunda opção.

Haverá, ainda, os seguintes problemas na consolidação do discurso político:

5. Para ser bem sucedida, a dupla terá que beijar dois senhores: a opinião pública (em sentido amplo) e a opinião publicada. Para conseguir espaço na mídia, terá que pagar o óbolo das críticas destemperadas a Lula; para conseguir votos, terá que se mostrar continuador de Lula. É um dilema de difícil superação.

6. Marina representa o novo. Mas, nas questões morais, é evangélica. Precisa do DEM. Mas o discurso ambientalista radical, quase religioso, colide com o agronegócio e com setores empresariais.

Luis Nassif
No GGN
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Der Spiegel: PM carioca é pior que as gangues


Revista alemã afirma ainda que governo Cabral é ‘mais violento do que a ditadura’

“Pior do que gangues”. Esta é a forma com que a revista alemã Der Spiegel (Hamburgo) se refere à Polícia Militar do Rio de Janeiro na sua edição desta semana.

A reportagem especial é assinada pelo correspondente do veículo no Brasil, Jens Glüsing, com detalhes sobre a ocupação do Conjunto de Favelas do Lins, na zona norte, no domingo passado (6), para implantação da 35ª Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na cidade.

O título da matéria ainda complementa: “polícia do Rio é criticada nas favelas por medidas enérgicas”.

A revista comenta o envolvimento de PMs da UPP da Rocinha na morte do pedreiro Amarildo de Souza, que teve repercussão internacional, a violência militar durante a ocupação do Complexo do Alemão, há dois anos, a truculência praticada pelos PMs contra manifestantes nos atos pacíficos que estão acontecendo na cidade.

A publicação ainda destaca a declaração do historiador da UFRJ, Francisco Carlos Teixeira da Silva, que afirma que o governo de Sérgio Cabral é “mais violento do que a ditadura militar”.

Segundo o Spiegel, a nova campanha de segurança do Estado visa contribuir com as autoridades na reconquista do controle das favelas às vésperas da Copa do Mundo.

As UPPs visam reprimir a ação de traficantes dessas comunidades, “mas muitas vezes acabam por substituí-los com a sua própria regra brutal”, destaca o veículo.

A reportagem de Jens relata a operação no Conjunto de Favelas do Lins, que aconteceu de forma pacífica, como a secretaria de Estado do Rio havia prometido.

O repórter detalhou a operação que durou 50 minutos e o momento em que os policiais hastearam a bandeira brasileira “como anúncio de tudo o que o Estado recuperou”.

Nas linhas seguintes, a matéria explica que o complexo já havia sido dominado por grupos de traficantes perigosos, como também acontece na maioria das mais de 300 favelas do Rio de Janeiro.

A Spiegel destaca que as UPPs “estão no centro da estratégia do governador do Rio, Sérgio Cabral Filho”.

O texto relembra que a polícia criou, inicialmente, unidades permanentes nas favelas, que só eram ocupadas durante operações especiais que terminavam em fortes tiroteio e morte de inocentes.

A matéria conta que a única operação que resultou em violência pesada foi a ocupação do Complexo do Alemão, um dos maiores complexos de favelas no Rio de Janeiro, terminando em vários dias de tiroteios.

“Desde a introdução das UPPs, a taxa de homicídios caiu drasticamente. (…) Mas quanto tempo vai manter a paz? Entre os muitos moradores da favela, a força policial do Rio de Janeiro tem uma reputação pior do que as quadrilhas de traficantes criminosos. Eles são vistos como bandidos e assassinos – e muitas vezes com razão, como admite o secretário de Segurança Beltrame”, destaca a matéria.


A revista relembra o caso do pedreiro Amarildo de Souza, supostamente torturado e morto por policiais militares da UPP da Rocinha, na zona sul da cidade e das muitas denúncias de moradores da comunidade que afirmam serem vítimas dos PMs.

“Uma investigação feita por uma unidade especial chegou à conclusão de que ele [Amarildo de Souza] foi torturado com choques elétricos na presença do comandante da UPP do distrito e, eventualmente, assassinado. Seu corpo ainda está desaparecido. Ele provavelmente foi retirado da favela no porta-malas de um carro da polícia”, relata a matéria, que destaca em um dos trechos que ”o crime lança uma sombra sobre toda a estratégia de pacificação do governo”.

O crime na Rocinha é avaliado de forma mais abrangente pela revista.

“O delito é quase sem precedentes: tortura é rotina em muitas delegacias de polícia. Polícia, bombeiros e ex-militares formaram milícias que levam os traficantes para além de muitas favelas e que vão estabelecer seus próprios reinados de terror”, analisa o repórter da Spiegel.

Mais adiante, a Spiegel ressalta que “os grupos de traficantes já tentaram várias vezes retomar favelas pacificadas. Houve tiroteio, especialmente no Complexo do Alemão. E bandidos que fugiram dessas favelas se refugiaram em outras favelas na periferia da cidade, levando a um aumento da violência suburbana”.

O Raios X da segurança no Rio de Janeiro feito pela Spiegel não faltou as atuais manifestações que estão tomando as ruas do Rio de Janeiro e marcadas por fortes confrontos entre manifestantes e Polícia Militar.

“…a polícia está reprimindo mais brutalmente os manifestantes. Praticamente todas as semanas há uma batalha de rua no Rio de Janeiro entre manifestantes e policiais, que responderam com bombas de gás lacrimogêneo e violência aparentemente excessiva, mesmo contra transeuntes”, relata.

Em seguida, a matéria destaca um comentário de Francisco Carlos Teixeira da Silva, historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro: “A polícia foi menos violenta sob a ditadura militar do que no governador Cabral”.

No Viomundo | JB
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Cavalo não desce escada


Reportagem do Estado de S. Paulo apresenta, na edição de sexta-feira (11/10), os resultados de uma ampla investigação do Ministério Público Estadual paulista sobre a organização criminosa chamada PCC – Primeiro Comando da Capital. O retrato é assombroso, não apenas porque revela o poder de uma quadrilha que domina os grandes presídios de quase todo o país e atua até mesmo em países vizinhos, mas porque dá uma ideia clara de sua sofisticada organização e da facilidade com que atua.

Trata-se da maior operação já realizada pelo Ministério Público, que exigiu três anos e meio de trabalho e da qual resulta a apresentação de 175 denúncias e pedidos de internação de 32 presos em regime disciplinar mais rigoroso. Foi juntando evidências, gravações de conversas telefônicas, depoimentos de testemunhas e dados esparsos sobre apreensões de drogas e armas que os investigadores compuseram o corpo principal do inquérito.

O organograma do poder no crime organizado, que o jornal paulista publica em meia página, revela a estrutura de uma grande empresa, contando até mesmo com uma espécie de conselho de administração.


Num dos trechos de gravações revelados pelo Ministério Público, o chefe da organização se vangloria de haver disciplinado as execuções de inimigos e dissidentes, destacando o papel moderador da quadrilha em disputas entre criminosos, e acusa o governador Geraldo Alckmin de se apropriar dos indicadores de queda da violência. “Então quer dizer que os homicídios caíram não sei quantos por cento e aí vejo o governador chegar lá e falar que foi ele...”, diz o chefão.

Mesmo com os cuidados demonstrados pelos criminosos em suas conversas telefônicas, o trabalho minucioso de organização dos conteúdos permitiu aos investigadores traçar um mapa desse poder paralelo. Ainda assim, não há garantias de que esse trabalho resulte em uma ação mais efetiva do Estado contra os criminosos.

Primeiro, porque o Judiciário não acompanha necessariamente o empenho do Ministério Público em desarticular o bando, já que a Justiça precisa analisar individualmente as 175 acusações e isso leva tempo, dando vantagens aos advogados dos bandidos. Segundo, porque, conforme revela a própria investigação, a quadrilha conta com muitos aliados dentro do aparato policial.

Jabuti não sobe em árvore

Esse é o ponto em que se percebe uma fissura na reportagem do Estado de S. Paulo, muito provavelmente originada na carência de informações sobre esse aspecto fundamental do fenômeno social chamado crime organizado.

São poucas as possibilidades de se consolidar, sob os narizes da polícia, uma organização tão poderosa e sofisticada, sem que um contingente importante do setor de Segurança Pública tenha se omitido ou contribuído para isso. Portanto, uma investigação desse porte não se completa se não desvendar as relações entre o crime e o poder público.

Como se diz popularmente, se o jabuti está no alto da árvore, foi porque alguém o colocou lá.

Segundo a reportagem, o Ministério Público Estadual flagrou toda a cúpula do PCC “numa rotina interminável de crimes” – ordenando assassinatos, encomendando armas e toneladas de cocaína e maconha. São crimes que se produzem continuamente, como parte do dia a dia desses personagens, sob o rigoroso comando dos chefes que se encontram reclusos em presídios de alta segurança.

Como explicar que possam agir com tanta organização e eficiência? Cavalo não desce escada, como diria o falecido colunista Ibrahim Sued, do Globo, para argumentar que certas coisas nunca mudam.

Relações deletérias entre o crime e a polícia são quase uma marca dos sistemas de segurança em todo o mundo. Na Itália, foi preciso criar uma verdadeira operação de guerra, que acabou sacrificando alguns dos melhores quadros da polícia e do judiciário, para colocar sob algum controle o poder paralelo da máfia. No Brasil, a corrupção de agentes públicos pelo crime organizado é uma chaga que contamina a eficiência de todo o aparato da polícia e da Justiça.

Falta um trecho importante no texto do jornal paulista, que talvez esteja sendo guardado pelo Ministério Público para uma ação mais eficiente no futuro: aquelas informações sobre o lado oficial do crime, onde se conta a história das omissões do Estado e parcerias com agentes públicos.

Talvez numa próxima reportagem.

Como se sabe, jabuti não sobe em árvore e cavalo não desce escada.

Luciano Martins Costa
No OI
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Lula está pronto para voltar


É cedo para dizer se Lula voltará em 2018 para ser candidato a presidente da República. No entanto, pela entrevista concedida a Carta Maior, o que se pode afirmar, com toda a certeza, é que ele está pronto e motivado para encarar mais um mandato – ou melhor, dois.

Ouçam bem e prestem atenção ao que diz o ex-presidente, lá pelas tantas, em sua conversa. Ele usa duas analogias que retomam uma metáfora do início da entrevista. As analogias são a da estação ferroviária e a dos Dobermans. Um governo, diz ele, é composto por uma locomotiva, que é o governo; e pelo serviço público, que são as estações. Os governos passam. As estações ficam. Os governos são efêmeros. A burocracia é permanente.

Os políticos são eleitos, têm mandato, precisam de voto e de aprovação popular. São especialistas na arte de conquistar apoio público para suas decisões. A burocracia, não. É preciso todo um trabalho de convencimento. Não adianta obrigá-la a fazer o que não está convencida. Se a burocracia for convencida, fará com prazer o que deve ser feito. Se não se convencer, não fará. "Se ela tiver medo, ela fingirá e mentirá para você" - assevera.

Os ministros, mestres do convencimento público, nem sempre agem com presteza burocrática. Para isso, Lula brinca, usaria uns três Dobermans. Naquilo que é mais importante fazer e de um presidente acompanhar, ele esfregaria as roupas de seus ministros no nariz dos farejadores e os soltaria para encontrar seus auxiliares, saber o que estão fazendo e por que trilhas.

Mas cobraria dos ministros, também, maior envolvimento com sua própria burocracia. As políticas andam mal das pernas se os ministros não são capazes de convencer a sua própria equipe técnica da clareza e correção de propósitos, da certeza dos objetivos, da lisura dos processos. O desafio duplo, político e burocrático, deve convergir para o objetivo de melhorar a ação de governo.

Em 2006, Lula pagou para ver se seria abatido pela maldição do segundo mandato, aquela que diz que os primeiros quatro anos são insuperáveis, e os últimos quatro são só ladeira abaixo. Mirando o horizonte, deixa nítido que não veria risco em uma futura presidência. Muito pelo contrário. Por melhor que seu governo tenha sido avaliado, ele ainda se considera longe do último degrau. Lula já faz parte da história, mas está distante de se pretender passado.

"Eu talvez fosse o melhor opositor ao meu governo, hoje, porque hoje eu sei o que eu deixei de fazer e sei que é possível fazer mais" - diz. "Nós temos uma escada de dez degraus; nós subimos dois degraus, três degraus; ainda falta muito degrau". Essa é a metáfora. Esse é o recado.

Em 2018, se precisarem de um maquinista experiente, Lula saberá, melhor do que ninguém, como colocar mais lenha na fogueira. Estará pronto para subir na máquina e fazê-la seguir em frente, a pleno vapor.

Antonio Lassance
No Carta Maior
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Construção e montagem da Plataforma P-55

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Dilma determina que Serpro implante sistema seguro de e-mails em todo o governo federal


A presidenta Dilma Rousseff informou neste domingo (13), por meio de sua conta no Twitter, que determinou ao Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) a implantação de um sistema seguro de e-mails em todo o governo federal.
“Esta é a primeira medida para ampliar a privacidade e inviolabilidade de mensagens oficiais. É preciso maior segurança nas mensagens, para prevenir possível espionagem”.
No próximo ano, o Brasil será sede de um encontro internacional para discutir uma nova gestão da internet. A decisão foi tomada na última quarta-feira (9), pelo CEO da Internet Corporation for Assigned Names and Number (Icann), Fadi Chehadé, durante audiência com a presidenta Dilma no Palácio do Planalto.

Na ocasião, Chehadé destacou a importância da liderança da presidenta nesta questão, lembrando que, durante o discurso de abertura da 68ª Assembleia-Geral das Nações Unidas, no dia 24 de setembro, ela defendeu a criação de uma governança global para a internet.



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FHC: A impotência da mídia para impor um “legado”


O grau de cumplicidade ideológica entre Fernando Henrique Cardoso e os barões da mídia brasileira é enternecedor. O sociólogo tem passe livre: espaço assegurado para apresentar suas ideias em colunas, entrevistas, artigos de opinião.

Esta identidade foi forjada numa suposta necessidade de “modernizar” o Brasil, “arejar suas ideias”, desfazer-se do legado estatista e atrasado do trabalhismo getulista.

O que os militares pós-golpe de 64 fizeram pela força ao combater a “república sindicalista” FHC faria pelo consenso midiático em busca de livrar das amarras o espírito animal do capitalista brasileiro.

Conversa para boi dormir: foi o dinheiro público injetado nas privatizações que permitiu a sobrevivência daquele “animal”, às custas do patrimônio de todos. Ganhou o capital internacional, o capital nacional associado a ele e, obviamente, a mídia, seja por benefícios econômicos diretos ou indiretos — a seus patrocinadores.

Esta cumplicidade entre FHC e os barões da mídia só fez crescer depois do início da era Lula. O sociólogo passou a ser, a partir de 2002, um instrumento ao qual se recorreu com frequência com o objetivo de desconhecer os avanços sociais obtidos pelo Brasil sob o lulismo.

O PT teria apenas colhido os frutos de políticas adotadas anteriormente, sua grande virtude teria sido administrar o legado de FHC — é o que ouvimos no passado e continuamos ouvindo no presente, obedecendo a padrões mais ou menos sutis de distorção na apresentação de estatísticas.

O cômico da situação acima narrada é que o “povo”, supostamente beneficiado pelo legado de FHC, se nega terminantemente a reconhecer o sociólogo — num fracasso que deixa óbvia, também, a incapacidade da própria mídia de falar para fora dos “seus”.

É como se os estratos excludentes da sociedade brasileira vivessem num universo paralelo, como o cachorro que morde o próprio rabo.

Um glorioso abraço de afogados.



Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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A barrigada do sociólogo

Sociólogo Rudá Ricci, que não é cego, confunde o Diário de Pernambuco jornal tradicional desse estado do Nordeste, 
com o Diário Pernambucano, site de notícias notoriamente falsas. O resultado você vê abaixo:

A nova geração de gestores públicos é chegada numa censura

Rene Magritte Aquele cartaz que apareceu num acampamento montado na rua do prédio onde reside o governador do Rio de Janeiro era, até agora, apenas uma graça. Dizia: "família Cabral, 500 anos dominando o Brasil".

Mas a partir da proibição da exposição da obra de Magritte, em especial, a famosa "Amantes" (ilustrando a abertura desta nota), a brincadeira parece narrativa. Achei que a notícia era mais uma ironia e fui pesquisar na internet. Estava lá, no Diário de Pernambuco (reproduzo a notícia, abaixo). E vinha com um troquinho. Fernando Haddad também quer entrar na fila deste rol de novos gestores públicos tupiniquins que tem algum pendor à Appius Claudius Caecus, o famoso censor romano. Appius era cego, vale lembrar.

Venho comentando em algumas palestras por aí que acredito que estamos vivendo um momento político dominado pela pior geração de gestores públicos da história republicana brasileira. Não se trata de um ou dois, mas de uma baciada inteira. Não foram forjados na luta - democrática, contra o regime militar ou de movimentos sociais -, nem foram militantes destacados em quase nada. Apêndices que, num belo dia de sol, foram catapultados ao centro da política, sem preparo, sem espírito, sem história. Lula forjou dois, e pagamos o pato (nunca ouvi a expressão "pagar a lula" e, por este motivo, não vou empregá-la) destas escolhas de gabinete. Mas ACM Neto, Eduardo Paes, Alckmin e o mais amado de todos, Sérgio Cabral, compõem a cena e, democraticamente, indicam que o fenômeno atinge todo espectro partidário. E logo vem o prefeito Márcio Lacerda, de BH, que adora proibir qualquer ocupação de espaço público por jovens. Um problema geracional. Fico me perguntando se não é a colheita de tantos anos de cinismo político (de dirigentes partidários e eleitores), de frustração e negação da política como ato de representação e convencimento. Se o eleitor se sente ressentido, o eleito se sente desimpedido.

Daí para a censura, é um passo. Nem mesmo porque se trata de um ato pretensamente pedagógico, daqueles que procuram proteger o incauto do insulto ou mal estar. A intenção é se blindar, mesmo. Canetada pura. Algo ingênuo e infantil, como uma criança cobrindo o corpo com o lençol na esperança que o Bicho Papão não o veja.

Sérgio Cabral proíbe exposição de obras de Magritte por presença de máscaras

A polêmica da criminalização do uso de máscaras no Rio de Janeiro já havia extrapolado os limites do moral quando 20 mascarados foram presos numa casa de swing no centro da cidade. No entanto, o caso mais grave está prestes a atingir o mundo das artes. Antes mesmo do MAM-RJ, Museu de Arte Moderna do Rio, confirmar uma possível exposição das obras do pintor belga René Magritte, o govenador Sérgio Cabral se antecipou e proibiu a recepção especificamente  de duas obras do artista em questão. Estamos tratando das pinturas “Amantes” – em que dois sujeitos mascarados trocam um beijo às cegas -, e “A História Central” – no qual outra figura mascarada aparece diante de uma tuba e uma mala. No momento, oitenta obras de Magritte estão expostas no MOMA, Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, e sua chegada ao Rio está prevista para o segundo semestre de 2014. Muitos críticos de arte estão se manifestando contra a censura. Alega-se veementemente a importância das tais produções para a compreensão da arte de Magritte. “As obras fazem apologia ao uso de máscaras e ao vandalismo! Não se trata de censura: é apenas moderação de simbolismo num momento deveras delicado”, afirmou Cabral.

Cachimbo
Em São Paulo, “Isto Não é Um Cachimbo”, outra famosa obra de Magritte, terá texto alterado em nome de leis antitabagistas.

No MASP, São Paulo também terá o privilégio de expor Magritte. Todavia, na Terra da Garoa as máscaras são outras. Fernando Haddad já manifestou a proibição da exposição da obra “Isto Não é Um Cachimbo”. A justificativa seria a clara apologia ao tabagismo em ambientes fechados. “Em São Paulo, essa pintura só entra se e somente se substituírem os dizeres ali presentes por FUMAR CAUSA CÂNCER!”, expôs Haddad.

Nos blogs: Amoral Nato, Rudá Ricci e Diário Pernambucano
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Oliver Stone: No esforço para reescrever a história, Vietnã agora é símbolo de heroísmo

“Nós usamos armas químicas no Vietnã”

O semanário japonês Shukan Kinyobi e o Asia-Pacific Journal: Japan Focus entrevistaram conjuntamente Oliver Stone e Peter Kuznick, coautores de The Untold History of the United States (A história dos Estados Unidos que não foi contada), um documentário dividido em dez episódios (transmitido pela Showtime Network, 2012-2013) e acompanhado de um livro com o mesmo título (Simon and Schuster, 2012), no dia 11 de agosto, em Tóquio.

Era o oitavo dia daa turnê de 12 dias pelo Japão, logo depois de visitarem Hiroshima e Nagasaki, para participar do 68º aniversário do bombardeio atômico nos dias 6 e 9 de agosto, respectivamente, e antes da visita a Okinawa, para testemunhar a realidade da ocupação militar que continua, com a base norte-americana, e a resistência a ela.

Stone e Kuznick, descontraídos com alguns drinks no fim da tarde, entre dois importantes eventos públicos em Hibiya, Tóquio, conversaram sobre a importância de se ensinar e aprender história, sobre “a ameaça à civilização” como “arma da verdade” para o povo, para se defender do poder do império norte-americano, cuja imagem foi moldada na contínua distorção da história e na glorificação de guerras passadas.

Isso também se aplica ao Japão e à negação do governo dos Estados Unidos a respeito das agressões em suas guerras passadas. A entrevista versa livremente sobre os cinco anos de colaboração entre eles no Untold History.

Na comemoração dos 50 anos da Guerra do Vietnã, em 2012, Oblama refletiu sobre a guerra “com reverência solene a respeito do valor da geração que serviu com honra”, e deu início a um programa de 13 anos para “prestar homenagem aos homens e mulheres que responderam ao chamado do dever com coragem e heroísmo”. Por que as experiências da Guerra do Vietnã estão sendo glorificadas agora? A guerra não teve resultados desastrosos, como você argumenta no livro?

Stone: Houve, com certeza, um sopro para a direita tanto nos Estados Unidos como, agora, no Japão. A guinada para a direita começou com Reagan, apesar de algumas pessoas argumentarem que começou com o Nixon, e com Johnson, depois da morte do Kennedy – você  pode dizer isso.

Mas a guinada para a direita se acelerou sob o Reagan, e Reagan foi o mais agressivo na redefinição da Guerra do Vietnã  como, não uma desgraça, mas algo para se orgulhar. Ele chamou o negativismo com relação à guerra de “Síndrome do Vietnã”, que era bastante forte considerando-se que apenas dez anos antes tínhamos saído do Vietnã e estávamos realmente perdidos.

Acho que Reagan acreditava que ele podia reconstruir a sociedade norte-americana dando a ela poder econômico e propósito histórico, como Abe está tentando fazer no Japão. Você reescreve a história, e você redefine a economia.

Reagan começou com isso e George H.W. Bush fez ainda melhor. Foi ele que sofreu com o “fator wimp [fracote]”, mas depois da invasão do Kuwait em 1991 anunciou que “o espectro do Vietnã foi enterrado para sempre sob as areias do deserto da Península Arábica”, e depois isso foi reforçado pelo Clinton.

Essa agora é a tradição. O Obama recentemente deu uma declaração no aniversário de 60 anos do armistício da Guerra da Coréia para dizer que “a guerra não terminou em empate. A Coréia foi uma vitória”. Ele elogiou os militares norte-americanos de forma extravagante.

Então, esse é um tipo de síndrome diferente nos Estados Unidos. Não importa o que a história diga, os militares são reverenciados. Se você analisar as declarações do Obama no aniversário de 50 anos na Guerra do Vietnã, ele não fala realmente da guerra quando diz: “Nós refletimos com solene reverência sobre o heroísmo de uma geração que serviu com honra”.

Você não pode nunca questionar o heroísmo dos seus soldados. A maior parte dos veteranos que serviu na guerra quer se sentir como se tivesse servido com honra, mesmo que fosse uma causa perdida ou uma causa ruim.

Por outro lado, por trás disso existe uma revisão da história na qual ele está basicamente dizendo que a guerra no Vietnã foi uma causa nobre. Eu acho que foi uma causa perdida, uma causa ruim. A batalha do futuro é a história. História, memória da história e a memória correta da história é são o equilíbrio de nossa civilização.

Sei disso  no meu coração: você pensa nisso, na sua própria vida, vidas anteriores, minha vida, sua vida, o que temos?

Aonde estamos agora? Nós todos temos uma história. Temos amores, ódios, casos – atravessamos a vida e cada um de nós tem algo a dizer sobre a história.

Aqueles que se lembram da história e têm uma compreensão maior sobre si mesmos se saem melhor na vida, de uma forma geral.

Eles são capazes de se avaliar enquanto amadurecem, podem mudar como eu mudei, eles evoluem, se a evolução vem do fato de saber quem você é. Então, o próprio conceito de negar seu próprio passado é mentir no nível mais elevado. Vai direto ao âmago de cada indivíduo e ao âmago de uma nação.

Kuznick: A síndrome do Vietnã é muito importante. O ataque à síndrome do Vietnã começou assim que a guerra acabou.

Durante seu governo, Gerald Ford disse, “temos de parar de olhar para o passado, temos de olhar para o futuro”. Isso foi uma semana antes da queda de Saigon, no dia 30 de abril de 1975, o fim da Guerra do Vietnã.

O processo começou deste ponto, para esquecer o Vietnã, para apaga-lo da história – as causas e as consequências do Vietnã.

Em 1980 a revista predileta dos neocons, Commentary, editada por Norman Podhoretz, dedicou uma edição completa à síndrome do Vietnã. Os conservadores entenderam, naquele momento, que a não ser que pudessem mudar a percepção do povo norte-americano a respeito da Guerra do Vietnã, eles não poderiam mais intervir quando bem entendessem em outro países e não poderiam expandir o que veio a ser o Império Americano.

Por isso eles fizeram um esforço deliberado para mudar a narrativa sobre a Guerra do Vietnã, porque o Vietnã havia se tornado um pesadelo para os norte-americanos naquele momento. Algumas pessoas consideraram isso um erro, mas muitos de nós entendemos que era um exemplo extremo e horroroso da política intervencionista norte-americana que estava sendo implantada no mundo por décadas.

A direita fez um esforço sistemático para limpar a história porque ela sabia que era essencial para construir o tipo de império que ela queria atingir e, como diz o Oliver, o Reagan perseguiu esse objetivo mais agressivamente.

Mas também vimos exemplos com o Carter. O Carter começou sua administração como progressista, mas no fim ele já tinha migrado para a direita e estava falando da nobreza da luta no Vietnã.

O Reagan abraçou a causa diretamente, como o Clinton também, que em seus tempos de estudante se opôs ativamente à guerra. Se você for ler o que ele diz, foi o mesmo que o Ford, o Reagan e todos os outros: a nobreza da causa – as tropas norte-americanas eram ótimas, simplesmente porque lutaram e morreram, e você tem que balançar a bandeira para as tropas norte-americanas.

Isso também foi essencial para os neocons defensores do “novo século americano”.

Pessoas por trás de George W. Bush novamente reescreveram a história do Vietnã. A confusão conservadora tem sido deliberada e sistemática. Até mesmo nos nomes. Nos Estados Unidos, nós nos referimos à “Guerra no Vietnã”. Nós falamos sobre “a invasão soviética do Afeganistão”, mas não falamos sobre a “invasão norte-americana do Vietnã”.

Mas foi isso – uma invasão sangrenta que começou lentamente e cresceu ao longo dos anos, na qual os Estados Unidos usaram todo tipo de arma letal, com exceção da bomba atômica. Nós tínhamos zonas de tiro livres nas quais podíamos atirar e matar em qualquer coisa que se movesse.
Foi uma guerra de atrocidades. As pessoas dizem que o massacre de My Lai foi uma atrocidade, mas o consideram uma aberração. Mas se você estudar a história de verdade, ler o novo livro do Nick Turse, ou assistir os filmes de Oliver, vai ver que o Vietnã foi uma série de atrocidades.

É por isso que os vietnamitas ficam surpresos com o foco dos americanos em My Lai. Eles sabem que May Lais, em escalas menores, estavam acontecendo em todo o país com uma regularidade chocante.

O Memorial do Vietnã em Washington, DC, é  forte e emocionante. Ele tem os nomes de todos os 58.286 americanos mortos na guerra. A mensagem é que a tragédia no Vietnã  foi o fato de que 58.286 americanos morreram. Isso é realmente trágico.

Robert McNamara (secretário da Defesa de 1961 a 1968) veio na minha sala de aula e disse que aceitava o fato de que 3,8 milkões de vietnamitas morreram. O memorial não tem os nomes dos 3,8 milhões de vietnamitas ou as centenas de milhares de laosianos, cambojanos e outros.

O memorial da guerra em Okinawa conta uma outra história.  Ele tem os nomes de todos, japoneses, norte-americanos e todos os que morreram na Batalha de Okinawa, e isso é uma declaração real a respeito dos horrores da guerra.

O Memorial do Vietnã, não. Se a parede de 250 pés de comprimento do memorial do Vietnã tivesse todos os nomes de vietnamitas, laosianos e cambojanos, sabe qual seria o tamanho dela? Mais de seis quilômetros! Que declaração seria isso!

Mas agora existe uma campanha para esquecer. E o Obama participou dela quando deu as boas vindas às tropas que voltaram do Iraque. Obama é a voz do império, e um império requer esquecer, purgar, limpar o passado sobre o Vietnã, Iraque, Kuwait, El Salvador e até mesmo sobre a Segunda Guerra Mundial.

Nenhuma dessas histórias foi contada honesta e verdadeiramente nos Estados Unidos e por isso é tão importante lutar pela interpretação correta da história; de outro modo os líderes dos Estados Unidos vão repetir os crimes e atrocidades e escapar sem problemas, como fizeram no passado.

Vítimas do agente laranja no Vietnã
(foto James Nachtwey)

Por mais de dez anos, desde o nascimento do século XXI, os Estados Unidos estão engajados na chamada “Guerra contra o Terror”. Parece que a avaliação norte-americana a respeito da guerra é ambígua, mas qual é a dimensão da sensação de fracasso lá? No fim nada mudou? Afinal sobre o que era essa guerra?

Kuznick: A “Guerra contra o Terror” é um absurdo desde o começo. Faz parte dessa experiência da Alice no País das Maravilhas olhar pelo vidro e ver o mundo de cabeça para baixo; você está em um mundo de absurdos.

Depois do 11 de setembro de 2001 os Estados unidos entraram em um mundo no qual os inimigos foram transformados nestas forças terrivelmente poderosas. O 11 de setembro foi um vacilo colossal do governo Bush.

A agente do FBI de Minneapolis, Coleen Rowley, estava tentando alertar o governo Bush de que havia pessoas aprendendo a pilotar aviões, que não tinham interesse em aprender como pousar.

Houve vários alertas de que o Osama bin Laden e a Al Qaeda estavam planejando atacar os Estados Unidos. Oficiais do serviço de espionagem sabiam que um ataque era iminente e tentaram desesperadamente alertar Bush.

George Tenet, chefe da CIA, estava correndo por todo lado em Washington com o cabelo em chamas, tentando fazer com que alguém o ouvisse – Condoleezza Rice, Donald Rumsfeld, George Bush, Dick Cheney – e todos mandaram ele sumir.

Tinham assuntos mais importantes para resolver. Então antes de mais nada o 11 de setembro foi um fracasso completo do governo Bush, parte do serviço de inteligência, mas acima de tudo da liderança, e ao invés de olhar para esse problema como ele é – uma operação bem pensada e bem executada, um crime contra o povo norte-americano cometido por um grupo vil que precisava ser julgado pela justiça – eles transformaram isso em uma Guerra contra o Terror global e perseguiram a agenda neocon que prejudicou mais os Estados unidos do que a Al Qaeda poderia ter prejudicado em mil anos.

Zbigniew Brzezinski, cujo trabalho como anti-soviético Diretor de Segurança Nacional do governo Carter nós criticamos muito, definiu muito bem desde o começo. Ele disse que você não pode travar uma guerra contra uma tática. Quem é o verdadeiro inimigo?

O Bush disse que eles nos odiavam por causa da nossa liberdade. Que declaração mentirosa e absurda! “Eles nos odeiam por causa da nossa liberdade”! Os líderes dos Estados Unidos sabiam que havia problemas reais.

Nós não concordamos com os extremistas islâmicos nem aprovamos as táticas deles, mas havia problemas com a política norte-americana para Israel, a repressão aos palestinos e a presença de tropas americanas na Arábia Saudita, a terra sagrada deles.

Esses eram problemas reais. Não existe justificativa para o que eles fizeram. Foi um de uma série de ataques terroristas – o USS Cole, a bomba em Riad, os bombardeios na África – isso vinha acontecendo fazia tempo.

Mas Bush e Cheney decidiram usar o momento e o relatório do ano 2000. O Project for the New American Century dizia que ía levar um bom tempo para os Estados Unidos remilitarizarem e aumentarem os gastos com defesa da maneira que eles queriam a não ser que houvesse um “novo Pearl Harbor”.

Os Estados Unidos ganharam um novo Pearl Harbor, e eles cinicamente exploraram isso alimentando o medo dos norte-americanos de que eles estavam vivendo em um mundo tão hostil e perigoso, cercado de inimigos com capacidades assustadoras.

Essa mentalidade continuou e foi adotada pelo Obama. Bush, Cheney e Obama levaram isso tão longe a ponto de termos um estado de vigilância que foi exposto pelo Edward Snowden.

Apesar da guerra não beneficiar ninguém, o governo norte-americano parece não ter mudado sua política de guerra ou ter reduzido fundamentalmente os gastos com defesa, que consomem quase 40% do orçamento federal. A guerra é um programa inevitável para os Estados Unidos? Ele continua fazendo guerra por causa dos que lucram com ela dentro do governo?

Stone: Acho que é uma boa pergunta. Eu me lembro de quando era um garoto, aluno de história. A gente sempre ouve falar da guerra de 1812, a guerra revolucionária, depois você ouve falar da guerra contra os índios Creek, se pode considerá-la uma guerra, foi uma guerra contínua – existem batalhas contra os indígenas o tempo todo.

A Guerra Civil, a Guerra do México e depois o período da reconstrução sem guerras estrangeiras, até a guerra Hispano-Americana de 1898. Foi um longo período.

Então, os Estados Unidos tiveram uma história de guerra relativamente austera, mas certamente agressiva. Nós invadimos o Canadá em 1812 e fomos expulsos pelos britânicos novamente.

Quando chegamos à Primeira Guerra Mundial, éramos verdadeiros novatos em matéria de guerra. Eu acho que a Guerra civil foi extremamente sangrenta, mas a Primeira Guerra mundial foi um novo século, e os Estados Unidos mudaram.

Muitos norte-americanos recuaram depois da Primeira Guerra e eu acho que isso foi em parte o motivo de termos demorado tanto a entrar na Segunda Guerra Mundial.

Foi um sentimento muito forte de que estávamos sendo arrastados pelos impérios britânico e francês para a Primeira Guerra. Para não mencionar o papel desempenhado pelo banco Morgan. As pessoas estavam realmente furiosas nos anos 30, e com razão.

Nós não descartamos, mas a história americana não leva em conta o Comitê Nye, os interrogatórios dirigidos pelo senador Gerald Nye, de Dakota do Norte, a respeito dos lucros auferidos durante a Primeira Guerra Mundial.

Eu acho isso fascinante. Eu li alguns desses interrogatórios e fiquei revoltado porque, apesar de tudo que o Nye e outros críticos disseram ser verdade, nós tiramos as conclusões erradas e quando realmente era importante, na Espanha, que nós enfrentássemos o fascismo, nós não o fizemos.

É irônico como a história funciona. (Ele se vira para o Peter) Você quer continuar?

Os banqueiros da Brown Brothers Harriman, na Economist

Kuznick: Com certeza. Nós estamos tão focados em Hiroshima e Nagasaki nessa viagem, e nos temas relacionados aos Estados Unidos e Japão, que não tivemos oportunidade de falar sobre esses outros temas. Vamos falar de guerra agora. Vamos falar sobre o que é a guerra.

Smedley Butler, um almirante muito condecorado, disse que “a guerra é um mercado negro”.

Ele disse ser “um segurança de alta classe para os grandes negócios, para Wall Street, para os bancos… um gângster do capitalismo”.

Ele começou nas Filipinas e depois seguiu por todos os países nos quais liderou intervenções. Ele disse ser um laranja para os Brown Brothers Harriman.

O exército era o braço dos banqueiros e industriais porque traçarmos a história do império norte-americano desde os anos 1890 veremos que foi a depressão de 1893, nos Estados Unidos, que de certa forma marcou o começo.

Depois de 1893, os líderes dos Estados Unidos tinham duas saídas: distribuir a riqueza para que houvesse um número suficiente de consumidores para comprar os produtos americanos e promover a recuperação e sair da depressão, ou expandir além das fronteiras em busca de recursos, mão de obra barata e novos mercados.

O que os Estados Unidos fizeram? Se expandiram no exterior.

Stone: Eu fico curioso com isso. Quando Henry Wallace se tornou secretário da Agricultura, durante a depressão, ele adotou uma política de recuperação através da escassez. O que ele fez? Ele matou muitos porcos e cortou a produção de algodão.

Kuznick: Isso foi uma medida temporária. Ele odiava isso. Recuperação através da escassez vai contra os princípios mais básicos dos norte-americanos.

Uma abordagem semelhante ficou evidente na Lei de Recuperação da Indústria Natural. O que eles estavam tentando fazer era reduzir o superávit no mercado para aumentar os preços. Eles mataram os porcos, mas distribuíram ao povo norte-americano, assim ao menos Wallace alimentava os famintos em escala sem precedentes.

 Stone: Então, os Estados Unidos pagaram os fazendeiros para que não plantassem. É uma loucura.

Kuznick: É louco e Wallace disse isso na época

Stone: Mas tem uma coisa que eu quero dizer, e é um ponto importante. Wallace entendeu um ponto importante no mundo – comida. Se as pessoas plantam comida para o mundo, haverá paz. E acho que isso é muito verdadeiro, e tão básico porque quando você analisa a história do mundo, a escassez de comida produziu tantas guerras.

Eu não posso acredita no que ouvi no Japão nas últimas semanas. As pessoas falando de fome durante a guerra. Wallace endendeu que era realmente necessário produzir comida suficiente para alimentar todo mundo para que as pessoas não fossem à guerra por comida e recursos.

Kuznick: Por décadas, o milho híbrido do Wallace alimentou o mundo.

Stone: Um dos movimentos da história que o Peter me apontou foi que em 1940 Franklin Roosevelt escreveu uma carta ao Partido Democrata que dizia: “O Partido Democrata não pode olhar em duas direções ao mesmo tempo… ou vocês são a favor de Wall Street (dinheiro e lucro) ou são a favor das pessoas”.

Roosevelt deixou claro que o candidato dele era Henry Wallace e ele não concorreria a um terceiro mandato a não ser que Wallace fosse indicado. Foi uma carta poderosa, que o Partido Democrata deve reler a cada quatro anos e acordar, porque eles perderam essa visão.

Kuznick: Eu dei essa carta ao Ralph Nader e ele a citou em seu livro. Em retrospecto, pode ter sido um erro. Como o Oliver disse, o Partido Democrata perdeu seu rumo e está tropeçando no legado de Roosevelt e Wallace, na pós-crise dos mísseis em Cuba, do John Kennedy.

Agora [o Partido Democrata] defende a vigilância, defende a triplicação do número de soldados no Afeganistão, defende rebocar os banqueiros. Nós gostaríamos de pensar que os democratas são progressistas, mas com os Clinton e Obama, eles se tornaram administradores mais eficientes do império norte-americano.

Eles não questionam o império. Os republicanos são rudes. Os republicanos tentam impor o império à força. O Obama é mais inteligente. Ele sabe que pode impor o império através da enganação.

Ele descobriu a maneira de institucionalizar as políticas do Bush e torna-las características permanentes da vida norte-americana. É por isso que o porta-voz do Bush, Ari Fleischer, disse recentemente que nós estamos vivendo no quarto mandato do Bush. Isso não é verdade em certos aspectos da política doméstica, mas infelizmente é muito próximo da verdade na política externa. E em alguns aspectos, Obama é ainda pior do que o Bush.

Stone: Eu acredito em evolução. Eu entendo porque um país comete erros. Eu rezo para o meu país todas as manhãs nas minhas meditações. Eu levo pelo menos meia hora meditando. Eu rezo pelo meu país e pelo mundo. Gostaria que as pessoas pudessem aprender a ser mais doces. Mais delicadas.


O império americano não parece ter poderes eternos, principalmente por causa de suas dificuldades financeiras. Mas se você analisa a recente subserviência da União Europeia ao lidar com o caso do Edward Snowden, os Estados Unidos ainda parecem ter muito poder e controle. Para onde você acha que vai o império?

Stone: Essa é a razão pela qual estou por aqui, porque essa é uma boa história. Existe tensão. Não sabemos qual será o resultado. Ninguém nessa sala sabe, nem o Obama sabe. Esse é o  jogo.

Todo dia nós usamos toda nossa sensibilidade política e enviamos diplomatas ao exterior e nosso exército. Como continuamos sendo quem somos? É nisso que eles pensam. Ou como pensamos no futuro? Como eles fazem planos para isso?

Voce se dá conta que todos os dias acordamos neste Godzilla, nesta besta gigantesca mundial? Como vivemos com o monstro? Todos os dias temos milhões de homens trabalhando nas forças armadas, no complexo nacional de segurança, em toda parte do mundo.

Nós somos um império móvel massivo, maior do que qualquer coisa que qualquer pessoa já tenha sonhado. Esse é um lado da história. E o outro lado é a percepção errônea de que se não crescermos hoje, se não comermos mais, o que vai acontecer conosco?

O apetite do império é insaciável. É preciso responder a essa insegurança. É como se fosse um dragão dizendo, “o que vou comer hoje”? Você entende como isso pode ser ruim? Então, para o dragão dizer “eu não preciso comer tantos ovos, leões e árvores hoje. Posso sobreviver com menos”.

Essa é a tensão dos nossos tempos. É por isso que todas as pessoas como os hibakush e os ativistas pela paz estão trazendo força moral para o universo – budistas, católicos por todo o mundo. Existe uma energia enorme emergindo.

Acredite, eu posso sentí-la. Existe uma batalha enorme, como diz o Peter, entre o dragão armado e nós, que temos apenas a verdade como nossa arma, e acho que esse é o grande tema atual. E é por isso que ainda estou por aqui, caso contrário acho que morreria. Se os bandidos ganharem, não quero estar por perto.

Kuznick: O perigo advém da existência de um império com poderio militar ilimitado e uma visão moral bastante limitada, com controle econômico cada vez menor. Isso cria a situação mais perigosa de todas.

Impérios em queda puxam todos para baixo com ele. Países também podem fazer isso. Se Israel se sentir existencialmente ameaçado, é quase certo que usará suas armas nucleares. Os Estados Unidos perderam a autoridade moral e a visão filosófica e as gerações mais jovens estão perdendo a esperança num futuro melhor.

Stone: É toda essa garotada que aplaudiu a morte de Osama bin Laden. A maioria dos americanos achava que tudo estava indo bem. Aliás, uma pesquisa mostrou que 51% dos americanos na faixa dos 18 aos 29 anos acham que a Guerra do Vietnã foi uma boa guerra.

Kuznick: Porém, se você analisar as pesquisas sobre abolir as armas nucleares, esta mesma faixa etária é a favor. Então, o que estou dizendo é que eles estão confusos. Eles não têm uma compreensão clara da história.

A posição em que os Estados Unidos estão, armados até os dentes, capazes de destruir o mundo, mas perdendo poder, influência e autoridade moral. Nós a perdemos no 11 de setembro, nossa resposta com Abu Ghraib, com Guantánamo, a tortura, a Lei Patriota, vigilância massiva, as políticas belicistas de George Bush…

E vemos o que estão prontos para fazer na Ásia. Nós estamos militarizando o Pacífico para conter a China. Mas os Estados Unidos estão se tornando relativamente mais fracos, enquanto a China e outros países estão crescendo bem mais rápido.

A China gasta três vezes mais em infraestrutura do que os Estados Unidos. Em 2011, o PIB per capita da China foi apenas 9% do americano, mas foi o dobro do que era quatro anos antes.

Uma parte tão grande da nossa economia agora está baseada em finanças, na especulação. Os Estados Unidos não produzem como produziam antes. Nós estamos perdendo poder neste momento crucial no qual a China está crescendo, a Índia está crescendo e talvez o Japão esteja encontrando seu equilíbrio novamente.

Stone: Este é o mesmo argumento de quando a Grã-Bretanha estava perdendo poder porque a Alemanha estava ganhando em 1914, mas não subestime a Grã-Bretanha.

Nós somos o Império Romano. Eu me interesso pelo Império Romano porque ele não sucumbiu. O cristianismo foi imposto por Constantinopla, e de uma hora para outra o império se estendeu por quatrocentos, quinhentos anos.

Ele destruiu Jesus ali por 33 DC, Jerusalém em 70 DC. Ele tomou Roma 230 anos para abraçar o cristianismo. Pense nisso, nós podemos muito bem seguir o exemplo de Roma, abraçar alguma variação desta religião e encontrar nossa saída.

Obama preside um estado policial

Kuznick: Justamente. Ainda temos esperança. Muitos americanos odeiam o caminho que o país está segundo e querem um futuro diferente. Obama representava isso na mente dos norte-americanos e especialmente nas mentes dos jovens durante a primeira campanha. É por isso que, em parte, tenho tanta raiva dele, porque pegou os sonhos das novas gerações que acreditavam nele e os destruiu.

Stone: Império. Lembre-se, nenhum império dura para sempre. O Peter diz que o império nos Estados Unidos pode negar a história e superá-la, e falamos de Guerra nas Estrelas na nossa série – como isso pode ser cruel, destruir o que está contra você  do espaço.

Nós nos tornaremos uma tirania. A pergunta é: a tirania pode durar?

Kuznick: E eu estou dizendo que não – não como tirania

Stone: A Alemanha durou… em 1941 ninguém podia parar a Alemanha, que grande momento para Hitler, até que, em 1943, ele começou a correr. Então, nenhum império dura para sempre. Isso é tudo que eu posso te dizer, mas o Império Romano desafiou a lógica durando mais porque você podia estar no Império Romano em 800 DC e ter um vestígio de civilização na Grécia e em outros lugares.

Kuznick: Mas o nosso objetivo é mudar a rota dos Estados Unidos, mudar antes que o país se torne uma tirania absoluta. Os Estados Unidos fazem coisas terríveis, mas existem outras coisas acontecendo por lá também.

Nós ainda temos a liberdade de fazer o tipo de documentário que fizemos e escrever os livros que escrevemos. Não minimize a importância que isso tem. As pessoas não são totalmente reprimidas nos Estados Unidos apesar de estarem nos monitorando e serem fisicamente capazes de nos reprimir.

Existe muitas pessoas, inclusive no poder e nas forças armadas, que desafiam a noção de que os Estados Unidos devam se tornar uma tirania, um estão de segurança nacional total, o pior tipo de ditadura.

Nós não sabemos para que lado os Estados Unidos irão. Meu medo é de que ao invés de afundar, nós arrastemos o resto do mundo conosco, mas é isso que estamos tentando evitar. Nós estamos em uma encruzilhada histórica especial.

Nosso objetivo é garantir que tenhamos um futuro para que as gerações futuras façam a coisa certa, mas existe a possibilidade de explodirmos tudo antes que isso aconteça. Nossa missão é atravessar esse período de trevas para que haja um futuro.

O Oliver diz que ele não espera ver isso na vida dele e, realisticamente, ele pode estar certo, mas nosso objetivo é garantir que haja um futuro.

Stone: Acho que muita gente, através da história, se sentiu da mesma forma. Todo mundo diz que é uma crise agora.

Acho que em 800 DC, se você vivesse na periferia da Grécia ou da Turquia, se sentiria da mesma forma. Todo mundo cria suas crises em seu próprio tempo, então essa é uma história antiga.

Kuznick: Mas é uma história nova, de certa forma, porque os Estados Unidos têm armas nucleares capazes de acabar com a vida no planeta. Em 800 DC eles não podiam acabar com a vida no planeta. Eles podiam sair por aí matando todo mundo sistematicamente mas isso não se compara a uma guerra nuclear.

Stone: Isso é cruel, quando alguém vem te matar.

Por falar em crueldade, nós vimos a crueldade do exército japonês em Nagasaki – exposições sobre o Massacre de Nanking, escravas sexuais dos militares, e a unidade 731 no Museu de Oka Massaharu. Os Estados Unidos também, mesmo depois do uso da bomba atômica, usou armas cruéis como o agente laranja, armas de urânio empobrecido, bombas cluster, drones. A natureza da guerra é cruel, mas no caso dos Estados Unidos parece desenfreado. Existe algum significado histórico nessa crueldade dos Estados Unidos?

Stone: Eu não acredito que os Estados Unidos tenham sido tão cruéis como a Alemanha e o Japão foram. Quer dizer, eu estava no Vietnã. Eu vi o agente laranja ser jogado sobre nós várias vezes. Eu ainda não sei.

Talvez eu venha a ser uma vítima disso. Não penso sobre isso muito, mas sei que muitas pessoas dizem ter sido. Nós vimos o resultado com os vietnamitas. O agente laranja foi o auge da nossa crueldade. Apesar de termos criado o agente mostarda na Primeira Guerra Mundial, nunca o usamos.

A bomba atômica e o agente laranja foram os piores. Quando o Obama fala da Síria e diz que a linha vermelha para a Síria é o uso de armas químicas, que hipócrita filho da puta! Por que ele não olha para a nossa própria história?

Ele provavelmente nem admitiria que usamos armas químicas no Vietnã. E nós fizemos muito barulho porque Saddam Hussein usou armas químicas quando estávamos tentando justificar a invasão do Iraque.

Kuznick: Mas quando Saddam as usou contra os iranianos, nós interferimos por ele na ONU, esvaziando uma resolução que condenava o uso das armas química no Iraque explicitamente. Ele era nosso aliado.

E depois que ele as usou contra os curdos do Iraque em Halabjah, em 1988, os Estados Unidos aumentaram a ajuda financeira para aquele regime vil.

Stone: Então, quem ganha dinheiro com isso? A Dow Chemical lucrou imensamente com o Vietnã mas os estudantes expulsaram os representantes da empresa dos campus universitários.

Mas crueldade, não. Crueldade não é da natureza humana. Existem sempre soldados cruéis em todo país do mundo, pessoas que são racistas, que são estúpidas. Mas como política, os Estados Unidos… veja a simulação de afogamento.

Nós fazemos, mas sempre recuamos, enquanto você tem que admitir que os alemães e japoneses adotaram a crueldade com toda força durante anos. Se eles tivessem vencido a Segunda Guerra Mundial, nós estaríamos experimentando a Unidade 731 na Manchúria.

Kuznick: Nós não sabemos. É uma dessas incógnitas porque existem outras facetas do Japão também. A crueldade japonesa era extraordinária, mas nós sabemos que os norte-americanos também foram muito cruéis com os japoneses.

Eles executaram prisioneiros de guerra e arrancaram seus dentes de ouro com baionetas. Nós fervemos seus crânios durante a Segunda Guerra e os soldados norte-americanos enviaram os crânios para as namoradas deles. Nós cortamos as orelhas deles. E somamos algumas atrocidades nossas – como bombardear mais de 100 cidades japonesas e as bombas atômicas para as quais não existe justificativa – moralmente ou militarmente – apesar de sete décadas de distorções.

A guerra por si só transforma pessoas e nações em bestas, não todo mundo, mas um número suficiente de pessoas, especialmente quando incentivadas por seus líderes.

Aí você tem o Massacre de My Lai. Aqueles soldados não eram monstros. Eram os escoteiros. Eram os meninos que namoravam sexta-feira à noite no estacionamento. Não começaram como monstros. Mas os Estados Unidos, como disse D. H. Lawrence, “a alma americana é dura, isolada, estoica e assassina”.

Martin Luther King, no discurso “I  have a dream” pediu por um mundo sem racismo. Que tal um mundo sem guerra? Que tipo de liderança é necessário ter para alcançar isso?

Kuznick: O sonho de Martin Luther King não era apenas de igualdade racial. Ele foi um dos primeiros defensores da eliminação das armas nucleares nos Estados Unidos.

Martin Luther King e Coretta Scott King estavam profundamente comprometidos com o fim das armas nucleares. Se opunham profundamente à guerra. King odiava a Guerra do Vietnã. Ele esperou para denunciar, mas o fez muito cedo comparado com a compreensão popular sobre o assunto.

E os demais líderes do movimento de direitos civis tentaram contê-lo. Tentaram calá-lo dizendo: “Você vai esvaziar o movimento de direitos civis se falar sobre a Guerra do Vietnã”. Mas ele disse: “Tenho que fazê-lo”.

Então, não está desconectado. Martin Luther King sabia que a crueldade em uma área está conectada com a crueldade em outra e é preciso ter uma visão holística a respeito da maneira que as pessoas são reprimidas. Isso é o que estamos tentando fazer – não se pode compartimentar historicamente o que aconteceu nos anos 1890 ou nos 1900 e o que está acontecendo hoje.

Nós procuramos os padrões desde o começo, e essa é a chave do nosso projeto The Untold History. Por isso tentamos cobrir um período de tempo tão vasto, porque esses padrões mostram que não eram aberrações. Os padrões mostram que esses acontecimentos estão intrinsicamente enraizados na psique americana, na economia, no exército, na cultura e na sociedade norte-americanas.

Mas também queremos mostrar um outro lado, porque, assim com o Japão, a história norte-americana é uma briga pela alma americana. Em 1941, Henry Luce disse que o século XX deveria ser o século americano, e poucos meses depois o vice presidente Henry Wallace respondeu que o século XX deveria ser, na verdade, o “século do homem comum”.

Aí estão duas visões fundamentalmente conflitantes sobre o que os Estados Unidos devem ser, e isso é o que estamos tentando mostrar. King entendeu isso, e King ficou com Henry Wallace, John Kennedy, Franklin Roosevelt, Eleanor Roosevelt, Eugene Debs, Charlotte Perkins Gilman, Paul Robeson, Howard Zinn, e, algumas vezes, William Jennings Bryan – as forças progressistas da história americana.

Stone: A pergunta que eu levanto é sobre cada líder que surge. Um líder tem que durar, tem que lidar com o poder, e por isso o Kennedy foi especial. Roosevelt foi especial. Roosevelt teve pólio. Kennedy foi ferido na Segunda Guerra Mundial e também tinha a doença de Addison. Acho que é a volta por cima que fabrica os líderes. Nelson Mandela na prisão, e Aung San Su Ki em Burma [Myanmar].

O Japão enfrenta debates históricos sobre o Massacre de Nanking e as escravas sexuais dos militares, e quando tentamos tratar desses assuntos honestamente somos chamados de anti-japoneses. Você também sofre esse tipo de reação? É chamado de anti-americano, anti-patriota? Como lida com as críticas?

Stone: Acho que a credencial mais forte que poderia apresentar seria, primeiro, meu serviço militar no Vietnã, o que é  difícil para eles contestarem. John McCain pode rugir o quanto quiser, mas no fim do dia, ele foi um piloto de bombardeio.

Ele bombardeou pessoas do ar e sabe disso. Eu não entendo a mentalidade do homem, como, depois de se prisioneiro de guerra como ele foi, ele ainda pode ter tanto ódio no coração para os que são vistos como inimigos dos Estados Unidos, possivelmente incluindo, logo, logo, a China.

McCain é o que eu chamaria de um soldado que não evoluiu. Existem muitos. Eu, por outro lado, me sinto bem com a minha missão porque servi honradamente. Para ser honesto, não foi uma guerra honrosa, mas servi honradamente dentro dos limites do meu próprio entendimento a respeito da guerra.

E no fim do dia me tornei um lutador pela paz, que é o que eu sou hoje, não um lutador por mais guerras. E número dois, penso que é muito importante para mim não ter dito nada até ter completado meu décimo oitavo longa.

Falei como um dramaturgo, que é a minha profissão. Não sou um historiador, e não pretendo ser. Não tenho embasamento histórico, mas me importo com a história e posso dramatizá-la bem.

Agora, quando falo como documentarista com o histórico de ter feito filmes, sou criticado por razões tolas. A maneira que me acusaram foi que eu estava inventando a história, e me levou tempo entender. Muitos dramaturgos usaram a história antes, e eu não peço desculpas por fazer um drama histórico.

Nunca disse que estava fazendo documentário e eu não estava fazendo um documentário, nunca, e puseram palavras na minha boca. De qualquer modo, é por isso que sinto que posso falar com convicção agora, sem vergonha.

Por ter lutado no Vietnã, Oliver Stone fala com autoridade sobre o assunto

No fim do seu livro você confia a esperança às pessoas. Os americanos são responsáveis em lidarem com o que se chama de “excepcionalismo americano”, mas a responsabilidade também é das pessoas no Japão e no resto do mundo. O que as pessoas no Japão e no resto do mundo podem fazer, em solidariedade com os cidadãos norte-americanos, para atingir o “século das pessoas comuns”, como disse Wallace, e confrontar e vencer a ganância por poder e controle?

Kuznick: É preciso um esforço internacional na linha que você sugeriu. Estamos tendo respostas muito positivas pelo mundo afora ao que estamos fazendo.

No Reino Unido, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Turquia, Rússia, Bulgária, Israel… a maioria dos países entende os problemas da maneira que apresentamos porque estamos falando diretamente com os norte-americanos, mas também estamos falando com as pessoas do mundo.

A natureza corrosiva do império não afeta apenas as pessoas nos Estados Unidos, mas as pessoas em toda parte. Nós vemos esperança em resposta que estamos recebendo em toda parte, particularmente entre os jovens.

Estamos tentando dar a eles uma compreensão diferente a respeito da história porque acreditamos que a história é a ferramenta. Enquanto as armas dos nossos inimigos são militares, a nossa arma é a história, o conhecimento, o saber, a verdade.

Então a questão é, qual é a força da honestidade e da verdade contra a força dos canhões, das bombas, dos submarinos e da tecnologia de vigilância? Essa é a nossa batalha.

Já vimos a verdade vencer em algumas situações, prevalecer sobre a força militar e é isso que estamos fazendo, e isso é um esforço global. Achamos que as pessoas no Japão devem repudiar o AMPO [tratado militar com os Estados Unidos] junto com as bases norte-americanas, assumir a liderança na briga pela abolição das armas nucleares e começar a falar a verdade sobre sua própria história.

Nós queremos que vocês façam isso em solidariedade ao povo norte-americano. Nós sabemos que a sociedade japonesa tende ao conformismo, ao contrário de fazer ondas. Mas depois de Fukushima, começamos a ver os japoneses se organizando para protestar.

Isso aconteceu nos anos 60 com AMPO e Vietnã, e nunca mais aconteceu em uma escala tão grande. Então, esperamos que os japoneses, incluindo aí o bravo povo de Okinawa, e as pessoas ao redor do mundo se unam a nós nesse esforço.

Achamos que o projeto Untold History é um veículo em torno do qual todos podem se mobilizar. Nós estamos todos no mesmo barco quando falamos de governos que mentem sobre o passado. Eles mentem porque sabem que podem escapar ilesos. Mas estamos dizendo que eles não podem.

Oliver Stone, cineasta, ganhou vários Oscars com filmes como Platoon, Wall Street, JFK, Born in the Fourth of July, Natural Born Killers, Salvador e W. Ele e Peter Kuznick são co-autores do Untold History of the United States, um documentário de 10 partes exibido pelo Showtime Network, e do livro que tem o mesmo título, publicado pela Simon & Schuster, em 2012.

Peter Kuznick é professor de história e diretor do Instituto de Estudos Nucleares da American University. Autor de Beyond the Laboratory: Scientists as Political Activists in 1930s America.

Satoko Oka Norimatsu e Narusawa Muneo
tradução de Heloisa Villela
No Viomundo
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