11 de out de 2013

“A candidatura do Eduardo está posta”

Em entrevista exclusiva à CartaCapital, a ex-senadora afirma que o surgimento de uma terceira via na política brasileira será "boa para todo mundo"

Marina Silva durante entrevista exclusiva a CartaCapital

Depois dos ruídos provocados pelas suas primeiras declarações após a filiação ao PSB, quando deixou no ar a possibilidade de encabeçar a chapa presidencial do partido, e da reação imediata dos caciques da legenda, a ex-senadora Marina Silva fez questão de afirmar nesta entrevista a CartaCapital a prevalência do governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Em todas as oportunidades possíveis, optou pela expressão “candidatura posta” ao se referir ao novo correligionário. Segundo Marina, a decisão de se aliar a Campos ocorreu no “calor da hora” e baseia-se em uma aliança programática disposta a superar o velho modo de fazer política. A seguir, os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: A decisão de se filiar ao PSB foi exclusiva da senhora, como afirmou o deputado Alfredo Sirkis, seu aliado?

Marina Silva: Depois da negativa do Tribunal Superior Eleitoral, motivada pela inércia dos cartórios, nós da Rede Sustentabilidade tínhamos de buscar um novo caminho. Havia tanta convicção da obtenção do registro do partido que a gente não tinha um plano B. Coletamos 910 mil assinaturas. Fizemos um trabalho criterioso, descartamos por conta própria 220 mil assinaturas. Encaminhamos 668 mil para os cartórios. Mas em função de uma série de razões que eu espero, um dia, possam ser esclarecidas, foram anuladas 140 mil assinaturas. Destas, 95 mil foram invalidadas sem nenhuma justificação.

CC: E a conversa com o Eduardo Campos? Como se deu?

MS: Fomos para o apartamento da minha amiga Maria Estela Bernardes e discutimos até seis horas da manhã. A ideia de resignação, de não participar do processo político, até por sermos um partido de fato, ainda não registrado, mas com base e militância, era para mim impensável. Se você pode contribuir, por que se ausentar? A ideia de conversar com o governador Eduardo Campos surgiu, mais ou menos, por volta das quatro horas da madrugada. Estávamos no debate. Se a única alternativa está no universo das candidaturas postas, vamos procurar aquela mais coerente com o nosso discurso. E essa candidatura se dispõe a uma aliança programática, invertemos a lógica dos últimos anos. Os políticos primeiro fazem uma aliança eleitoral e depois vão se virar nos 30 para ver se implementam algum programa.

CC: Aliança feita no calor da hora não contraria essa tese?

MS: Não. Selamos um compromisso por meio de uma carta. Vamos aprofundar a aliança a partir de agora. O PSB veio da luta democrática da sociedade, em defesa das conquistas sociais. Tem suas contradições? Tem. Há diferenças com a Rede Sustentabilidade? Claro. Mas todos os partidos guardam diferenças com a Rede Sustentabilidade, pois ela é a primeira tentativa de atualização da política, da criação de uma estrutura para o que chamo de um novo sujeito político. Quando o PT foi fundado, os partidos marxistas-leninistas, como o PCdoB, diziam que éramos um partido pequeno burguês. Acusavam os petistas de ser inimigos da classe operária e dos trabalhadores, uma invenção da burguesia para atrapalhar os partidos verdadeiramente revolucionários e transformadores. Já as forças conservadoras diziam: “Vocês são comunistas, o Lula é um perigo para a democracia e para a sociedade brasileira.”

CC: Que inovação a Rede apresenta?

MS: Estamos vivendo uma profunda transformação no mundo. Obviamente, fazemos parte dessa mudança, por isso é tão difícil compreendê-la. O olho não consegue ver o que está dentro dele. Mas é possível um esforço de olhar no espelho. A Rede procura dialogar com esse novo sujeito político, que se diferencia do anterior em vários aspectos. Na minha época, o ativismo era sustentado por organizações muito definidas: partidos, sindicatos, organizações estudantis, centrais sindicais. Isso no campo das lutas populares. Entre os grupos que a nós se opunham, havia corporações que faziam a sua parte dentro dos partidos. É o que chamo de ativismo dirigido. Hoje, emergiu o ativismo autoral. Esse tipo de ativismo não é mais dirigido por instituições ou líderes carismáticos. A Rede aprofunda esse diálogo com a sua base. Como não temos a lógica da votação para estabelecer quem ganha e quem perde, tradição clássica dos partidos, buscamos consensos progressivos. Ainda que a maioria da direção tenha concordado com a ideia da aliança programática, uma parte não concordou. Vamos continuar o debate, buscar o consenso progressivo. As pessoas têm o direito de discordar e manifestar sua posição. Nossos militantes não estão ali porque a Marina Silva ou a Rede pediu. Estão convencidas e acreditam nesse projeto. As manifestações de junho é uma demonstração disso.

CC: Por quê?

MS: Não eram protestos convocados por partidos ou sindicatos. Como surgiu essa multidão nas ruas? Todos queriam um mundo melhor, ainda que as bandeiras se apresentassem na forma de um mosaico, com uma polifonia de vozes. Havia, porém, algo em comum entre os manifestantes: o desejo de um Brasil melhor.

CC: Não houve perda de foco com a multiplicação das bandeiras, por vezes vezes conflitantes? Alguns analistas avaliam que os protestos eram “contra tudo que está aí”.

MS: Não vejo dessa forma. A lógica de ser contra tudo era a da minha geração. Tínhamos de enfrentar a ditadura, dizer não ao colégio eleitoral, não a um monte de coisa. Éramos tão impotentes que o máximo que podíamos fazer naquela época era dizer não. Nas manifestações de junho, vi cidadãos lutando a favor. Quem diz “queremos uma saúde de padrão FIFA” ou “queremos uma educação de qualidade” não está sendo contra, está sendo a favor.

CC: E quem pedia a volta dos militares ao poder?

MS: Ah, era uma minoria, pelo amor de Deus! Aliás, houve uma coisa muito bonita: ninguém dizia “fora Dilma”. Na minha época, quando surgiam tantas denúncias de corrupção, esse seria o primeiro grito, não? Dessa vez, as pessoas reconhecem o Estado Democrático de Direito, ninguém levantou essa bandeira. Não acho que houve perda de foco nessas manifestações. Foram os partidos e as lideranças políticas que perderam o foco. Eles não se preocuparam com o essencial para melhorar a vida das pessoas.

CC: A senhora afirmou que a filiação ao PSB é transitória, até a regularização da Rede como um partido. Mas o que prevê exatamente esse acordo que foi firmado com Campos?

MS: Na ditadura, os partidos marxistas leninistas eram ilegais. O que era feito? Esse mecanismo da filiação democrática transitória. Muitos militantes se filiaram ao MDB, que deu uma grande contribuição na época. Já tive uma experiência assim. Era do Partido Revolucionário Comunista. E nós atuávamos na estrutura legal do PT. Eu, Chico Mendes, tanta gente... Trata-se de um expediente historicamente reconhecido e respeitado. Como não nos concederam o registro da Rede, optamos por essa filiação transitória. Não sou uma militante do PSB. Sou a porta-voz da Rede Sustentabilidade, e com esse mecanismo vamos aprofundar uma aliança programática com o PSB. O primeiro ponto é pensar quais os avanços que podemos estabelecer na política. Acredito ser possível estabelecer uma governabilidade programática. Quando eu fui candidata em 2010, eu dizia: “se ganhar, vou governar com os melhores do PT, do PSDB, do PMDB, dos partidos de tradição de esquerda e o PV”. Essas pessoas existem.

CC: É possível formar uma maioria no Congresso sem acordos com partidos, apenas em torno de programas?

MS: Sim, basta estabelecer a agenda estratégica, essencial. Hoje, os partidos da base chantageiam o governo, exigem mais cargos, mais verba. Em vez dos anões ficarem se comendo, eles se juntaram e criam problemas para o governo. O discurso é sempre o mesmo: “tratem de nos seduzir, de nos conquistar”. Os deputados da Rede, que são ao menos sete, não vão participar dessa chantagem. As coisas boas e justas que o governo mandar para a Câmara dos Deputados e o Senado serão apoiadas. Não queremos desconstruir ninguém. Queremos é construir uma nova agenda para o Brasil, uma nova realidade política.

CC: Ainda que sejam apenas sete deputados diante de 513?

MS: Sim. Lembro quando a gente se orgulhava de ter apenas o Suplicy no Senado. Era só um diante de 88, e fazia a diferença.

CC: A senhora aceitaria ser vice de Eduardo Campos?

MS: O projeto é adensar um programa. Quando tentam calar a sua voz, é preciso buscar um canal. O que vai fazer a diferença nessas eleições não serão as estruturas, o tempo de televisão, será uma nova postura. E ela será muito saudável e boa, eu espero, para o ambiente da disputa. O Eduardo Campos mesmo disse: “A gente não pode ficar preso a essa lógica de televisão”. Quando ouvi isso, respondi: “Poxa vida, a gente tem que tentar. Nós temos uma contribuição”. E a candidatura do Eduardo está posta, jamais iria para uma conversa com ele com qualquer intenção de desconstruir essa candidatura posta. Muito pelo contrário, é uma tentativa de, programaticamente, instituir um novo processo.

CC: Como superar a polarização PT-PSDB?

MS: Em primeiro lugar, é preciso reconhecer o fim da governabilidade baseada na distribuição de pedaços do Estado, sem poder de fazer o essencial para o País, sem uma agenda estratégica. Temos um projeto que nos leva a um novo ciclo. Por isso fui procurar a candidatura posta de Eduardo Campos não para discutir posição na chapa, mas para debater as necessidades do Brasil de renovação política e desenvolvimento sustentável. Uma terceira via, não tenho dúvida, vai ser boa para todo mundo.

CC: E como a senhora avalia essas últimas duas décadas em que o PSDB e o PT governaram o País?

MS: Sem a estabilidade econômica propiciada pelo governo do PSDB, talvez não fosse possível a distribuição de renda na gestão petista, certo? E, talvez, aqueles que promoveram a estabilidade econômica agora possam olhar com mais carinho para a distribuição de renda. Ela não existiria se o PT não tivesse dado esse passo. Mas precisamos renovar a política. Podemos até não aceitar, mas compreender, que o Fernando Henrique teve que ser tutelado pela Velha República para se eleger e governar. Podemos até não aceitar, mas compreender, que o Lula também teve de ser tutelado. Chegou o momento de um novo projeto para o Brasil.

CC: O PSB e o governador Eduardo Campos são desenvolvimentistas clássicos. Não seria uma proposta incompatível com a agenda da senhora?

MS: Todos os partidos brasileiros, com a exceção do PV e da Rede Sustentabilidade, têm essa visão desenvolvimentista. Isso não me impediu de lutar durante quase 30 anos no PT pelo desenvolvimento sustentável. Chegou, porém, um ponto em que não vi mais uma disposição de dar um novo significado à visão desenvolvimentista. E vejo essa disposição no PSB. Vale a pena a intenção dentro da semente. Se ela vai germinar, nenhum de nós sabe, mas eu vou fazer de tudo para acontecer.

CC: A senhora se considera oposição ao governo Dilma?

MS: Não sou da oposição. Dizia isso já em 2010. Não sou de oposição nem de situação.

CC: É o que então? De centro?

MS: Eu assumo posição. Quando era senadora pelo PT e vinham boas propostas do Fernando Henrique, era favorável. Dentro do governo do PT, senadora petista, se havia algo que não concordava, assumia posição contrária. Basta verificar os anais do Senado. Quando Mangabeira Unger induziu o presidente Lula a mandar uma PEC para o Congresso para regularizar terras griladas, não podia dar aval àquilo. Fui contra, ao lado de Suplicy e um grupo pequeno, que mantinha uma posição histórica, jamais aceitaria uma decisão daquela. Em hipótese alguma me coloco nesse diapasão de oposição por oposição, ou de situação por situação. A oposição por oposição só vê defeitos, mesmo quando as virtudes saltam às vistas. E a situação por situação só vê qualidades, mesmo quando os erros são evidentes.

CC: No início do ano, a senhora declarou que Dilma, Aécio e Campos estavam “no mesmo diapasão”. Mudou o diapasão do governador pernambucano?

MS: Ele é uma liderança jovem. Uma coisa era ele na tentativa de viabilizar sua candidatura, com tudo que estava sendo minado nessa candidatura no velho diapasão: estrutura, palanque, tempo de televisão. Outra coisa é a possiblidade de reelaborar isso e, a partir de uma discussão programática, marcar com uma nova postura, já com uma estrutura concreta.

CC: A senhora sempre se refere aos 20 milhões de votos obtidos em 2010 como um legado. Acredita que esse eleitorado e os militantes da Rede vão abraçar esse projeto com o PSB?

MS: Assim que terminou o primeiro turno das eleições de 2010 surgiu a pergunta: “Vai apoiar a Dilma ou o Serra? Para quem a senhora vai passar os seus votos?” Respondi na lata: “Para ninguém. O voto não é meu, é do eleitor”. A visão patrimonialista se arraigou de tal forma na nossa cultura política a ponto de se falar em transferência de voto. É como se o político fosse dono do voto das pessoas, capaz de negociá-los ou transferi-los a outra candidatura. É um desrespeito com o eleitor.

CC: E a adesão de políticos tradicionais como Ronaldo Caiado e os Bornhausen no PSB...

MS: O Caiado disse hoje que já caiu fora (risos). Eu e o Caiado somos muito coerentes. Ele é inimigo dos índios, dos trabalhadores rurais. É muito coerente. Se eu ficar, ele sai na hora. E se ele ficasse, não teria como eu permanecer. Aí as pessoas me dizem: “E o Bornhausen?” Não é o pai, é o filho dele. Não conheço esse jovem Bornhausen. Cito como exemplo o César Dotto, lá no Acre. Pedro Dotto, pai do César, era um fazendeiro da velha guarda, com visão arcaica. Mas o filho dele não era ruralista, e sim um jovem engenheiro que tinha o direito de trabalhar. E foi trabalhar no governo do PT. Tentavam criar para mim todo o tipo de constrangimento. Mas não era o Pedro Dotto, era o jovem César, que tem o direito de ser quem é, de ser outra pessoa. Ele não vai mudar o nome do pai dele, porque em uma democracia, as pessoas têm direito de ser quem são.

CC: De qualquer forma, não fica mais complicado manter a sua posição de crítica distante?

MS: Não, não fica. O Caiado já saiu. E é só o começo. O PSB é um partido histórico da luta em defesa da democracia, da luta social. A referência de Eduardo é o seu avô, Miguel Arraes.

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Vox: Dudu não existe no Nordeste

Fora de Pernambuco, a Vox Populi, segundo o Tirésias, não achou mais que 3% para o Dudu.

Na foto, Lula e Dilma pedem voto para o Dudu na campanha de governador, em 2010

O profeta Tirésias, que revelou a estratégia do PT de enfrentar o Dudu como Churchill enfrentou Hitler, ofereceu ao ansioso blogueiro pesquisas recentes da Vox Populi que, com vazamentos inconfessáveis, a ele chegaram, na varanda da casa em Varginha.

Como dizia o sábio Oráculo de Delfos, quem disse que nordestino vota em pernambucano ?

Fora de Pernambuco, Dudu tem média 3…

CEARÁ
Dilma Rousseff (PT) 64%
Marina Silva (REDE/Rede Sustentabilidade) 13%
Aécio Neves (PSDB) 6%
Eduardo Campos (PSB) 2%
Ninguém/Branco/Nulo 10%
NS/NR 5%

PARAÍBA
Dilma Rousseff (PT) 51%
Marina Silva (REDE/Rede Sustentabilidade) 17%
Aécio Neves (PSDB) 9%
Eduardo Campos (PSB) 6%
Ninguém/Branco/Nulo 12%
NS/NR 5%

ALAGOAS
Dilma Rousseff (PT) 77%
Marina Silva (REDE/Rede Sustentabilidade) 8%
Aécio Neves (PSDB) 3%
Eduardo Campos (PSB) 1%
Ninguém/Branco/Nulo 7%
NS/NR 4%

SERGIPE
Dilma Rousseff (PT) 50%
Marina Silva (REDE/Rede Sustentabilidade) 15%
Aécio Neves (PSDB) 7%
Eduardo Campos (PSB) 4%
Ninguém/Branco/Nulo 14%
NS/NR 11%

No Conversa Afiada
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PF prende médico suspeito de pedofilia em Curitiba


Curitiba/PR - A Polícia Federal cumpriu nesta quinta-feira (10) um mandado de busca e apreensão expedido pela Justiça, que teve por finalidade a investigação da divulgação de imagens de pornografia infantil na internet.

O inquérito - iniciado com base em informações recebidas da polícia da Inglaterra - culminou na prisão em flagrante de um médico suspeito de pedofilia pela posse de grande quantidade de imagens relacionadas à exploração sexual de crianças e adolescentes.

Tendo em vista que o inquérito em questão tramita em segredo de justiça, não é possível o fornecimento de maiores detalhes acerca das investigações.

No PF
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Na onda das fotos de criança


No SQN
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Advogados de filho de Lula denunciam seis pessoas por ataques via internet

Esta é a ação mais enérgica da família Lula desde que
começaram as acusações contra Fábio Luis
Greg Salibian/Folhapres

São Paulo – O escritório de advocacia Teixeira, Martins & Advogados, em nome de Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, entrou com representação junto ao 78º Distrito Policial (DP) de São Paulo, contra pessoas que, pela internet, acusaram-no de ser dono de fazendas e aeronaves.

A representação foi feita no último dia 2 de outubro. Na sequência foi instaurado inquérito e, nos próximos dias, serão convocadas seis pessoas para prestar depoimentos. Dentre elas, Daniel Graziano, responsável pelo site Observador Político, do Instituto Fernando Henrique Cardoso.

A acusação não é contra o site em si, mas contra um comentário específico postado por um leitor cadastrado. Daniel será intimado a identificar o autor do comentário.

Na representação, os advogados juntaram a chamada materialidade do crime – notas e comentários devidamente registrados em cartório. O passo seguinte será identificar os autores finais. A partir daí, partir para a denúncia.

É a primeira atitude mais enérgica da família Lula contra os ataques sistemáticos que vêm sofrendo pela internet desde 2006. Neste momento, a reportagem principal do site Observador Político tem como título: "O brasileiro não se importa de ser severamente enganado".

Nota do Escritório Teixeira, Martins & Advogados
Polícia abre inquérito para apurar calúnia e difamação contra Fábio Lula

A delegada Victoria Lobo Guimarães, titular do 78º Distrito Policial da Cidade de São Paulo, instaurou inquérito policial para apurar a ocorrência de crimes contra a honra de Fábio Luis Lula da Silva. A delegada Victoria recebeu no dia 2 de outubro de 2013 representação dos advogados de Fábio Lula, pedindo a investigação de seis publicações na internet com conteúdo mentiroso e ofensivo. Fábio não é e jamais foi dono de qualquer fazenda ou de aeronave.

Os seis responsáveis pelas publicações já tiveram suas intimações expedidas pela delegacia e deverão ser ouvidos nos próximos dias.

“Estas publicações absurdas que têm surgido na internet, pretendendo vincular o nome do Fábio à compra de bens de elevado valor, caracterizam conduta criminosa e serão sempre levadas ao conhecimento das autoridades para as providências legais cabíveis”, afirma Cristiano Zanin Martins, um dos advogados que assina a representação.

Teixeira, Martins & Advogados

No RBA
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Mais uma do Vacarezza


Apesar da flagrante contradição entre o tal GT (grupo de trabalho) da Mini-Reforma, presidido pelo deputado Vacarezza (PT/SP), e as decisões do Partido, o deputado – um dos dirigentes do campo majoritário – insiste com “invenções” legislativas na contramão das decisões coletivas da bancada e do Partido.

Após rejeitar mudanças democratizantes e positivas, a presidência da Câmara Federal organizou esse GT para fazer outras mudanças para 2018.

Agora, propõe diminuir o número mínimo de adesões para novos partidos – 0,25% do número de eleitores da última eleição – ou a adesão de 26 deputados federais, isto é, 5% dos deputados. Em 1980, na “transição lenta, gradual e segura”, a ditadura impôs 10% de deputados para construir novos Partidos. Todos nasceram assim, com exceção do PT, que cumpriu a lei, nascendo de baixo para cima, dos movimentos sociais.

Em contrapartida, defende cláusula de barreira para ter direito a Fundo Partidário e Rádio e TV de 5% dos votos válidos, com uma transição de 3% e 4% nas próximas eleições.

Além do caráter contraditório e polêmico, 5% de cláusula de barreira é um exagero e antidemocrático com minorias e privilégio aos deputados que formarem partido de cima para baixo (PROS e SOLIDARIEDADE “nasceram” com vinte e poucos deputados), de onde saíram essas propostas?

No PT nunca foram apresentadas ou discutidas.

O deputado Vacarezza, como presidente do GT, defende esses projetos?

Esse é o método que quer colocar em prática também no PT?

Não basta a Executiva Nacional ter aprovado votar contra as decisões desse GT. Precisa, urgentemente, desautorizar e retirar esse deputado de tal Grupo de Trabalho, que só existiu para boicotar a reforma.

Raul Pont
No Aldeia Gaulesa
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O casamento de Aécio Neves e a lua de mel com o BTG Pactual em Nova Iorque


Em uma cerimônia super discreta, como é do perfil do mineiro Aécio, que não costuma se deixar badalar por aí, o senador e candidato tucano à Presidência da República, casou-se na última sexta-feira, no Rio de Janeiro, com a modelo gaúcha Letícia Weber. Aécio é senador por Minas, mas casar em BH evidentemente que não é o caso.

A assessoria do senador informou que o casamento foi apenas no civil. Após a celebração, o casal embarcou para Nova York, onde Aécio fez uma palestra para investidores a convite do Banco Pactual.

O jornal O Globo de hoje dá mais detalhes do caso:

“De acordo com a assessoria do tucano, o banco BTG Pactual havia convidado Aécio a fazer uma palestra num evento voltado para investidores estrangeiros em Nova York. O convite se deu em agosto e, como é de praxe, incluía passagens aéreas e hospedagem para o palestrante e um acompanhante. O banco reservou uma suíte para o casal, de segunda a quarta-feira, no hotel Waldorf Astoria. No caso de Aécio, segundo a assessoria, ele declinou de cobrar pela palestra.”

Evidente que em agosto o senador mineiro não tinha a menor ideia de que se casaria com Letícia Weber no início de outubro. Por isso a coincidência da ida para a Nova Iorque com passagem, hospedagem e quetais pagas pelo Banco BTG Pactual ter se dado exatamente no período da lua de mel do casal.

Como informado pela assessoria do banco, Aécio declinou do cachê que porventura poderia ser pago pela palestra. Isso faz toda a diferença.

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Brasil estuda compra de equipamentos russos para defesa aérea (Pantsir-S1)


No início da próxima semana uma delegação militar, chefiada pelo ministro da Defesa da Rússia Serguei Shoigu, deve visitar o Brasil e o Peru para manter nesses países uma série de negociações sobre o desenvolvimento da cooperação técnico-militar. Nas negociações no Brasil, provavelmente, será discutida a questão de aquisição de sistemas de defesa aérea Pantsir-S1. No Peru, as negociações incidirão sobre o tema de blindados. Anteriormente, os peruanos já manifestaram sua prontidão de comprar um grande lote de tanques T-90S e dos mais recentes veículos blindados russos.

O ministro da Defesa da Rússia planeja voar para o Brasil em 14 de outubro. Primeiro, deverá ser realizada uma reunião da delegação russa com o ministro da Defesa do Brasil Celso Amorim, o Chefe de Estado-Maior general José Carlos De Nardi, e, possivelmente, com a presidente Dilma Rousseff.

Em termos de cooperação técnico-militar, a América Latina sempre foi secundária para a Rússia em comparação, por exemplo, com a Ásia. Agora é hora de recuperar o tempo perdido, sublinhou em entrevista à agência russa de notícias Voz da Rússia o chefe do Centro de Análise de Estratégias e Tecnologias Ruslan Pukhov:

– Outro aspecto está relacionado com que agora tanto o Peru planeja comprar armamentos em quantias bastante significantes, como o Brasil tem um ambicioso programa de rearmamento. Por isso a Rússia está envolvida lá e ela tem boas chances. Se trata da área de equipamentos terrestres, no Peru, e no Brasil, de sistemas de defesa aérea. Obviamente, o ministro da Defesa Serguei Shoigu fará todos os esforços para promover as propostas russas. Então, a indústria russa de defesa vai conseguir dinheiro, o qual tão pouco será redundante no contexto de uma possível redução do orçamento militar. Outro momento ainda é que o Brasil, juntamente com a Índia, China, Rússia e África do Sul é um membro dos BRICS. É necessário reforçar os laços com esta associação. O Peru é também um jogador regional bastante grande que está ligado à rússia por laços de cooperação desde a era soviética – afirmou.

O Brasil mostrou um interesse especial no complexo Pantsir-S1. Este é o mais recente sistema de defesa aérea de curto alcance. Inicialmente, o complexo foi projetado por encomenda dos Emirados Árabes Unidos e destinado para exportação, nota Ruslan Pukhov:

– O segundo país que quis comprar este complexo foi a Síria, e o terceiro foi a Argélia. O exército russo foi o quarto usuário. Atualmente, estão sendo mantidas com vários países, incluindo o Brasil, negociações sobre o complexo que estão em fase de conclusão. O Brasil necessita deste sistema, inclusive a fim de proteger seu céu pacífico de possíveis incidentes, de ataques terroristas no âmbito da Copa do Mundo e da Olimpíada num futuro previsível. Eu acho que as chances de compra do complexo são altas, embora isso não signifique que tudo será assinado agora, durante a visita. Mas será feito mais um passo nessa direção – disse.

Quanto ao fornecimento ao Peru de um grande lote de tanques T-90S, as chances são bastante grandes. Recentemente foi realizada uma demonstração dessa máquina de combate à liderança militar do Peru. Ela incluiu tiros prático contra vários alvos. O T-90S fez uma grande impressão, nota o editor do jornal Revista Militar Independente, Viktor Litovkin:

– Além dos fornecimentos, nós podemos criar no Peru um sistema de manutenção e atualização destes tanques, empresas conjuntas que depois permitirão expandir os nossos negócios nesse país. Além de tanques, a Rússia pode também fornecer os mais recentes veículos blindados BTR-80A, que estão agora sendo fornecidos ao Exército russo. Já foram entregues ao Peru cerca de duas dezenas de helicópteros. Assim que os peruanos têm um grande respeito ao equipamento militar russo – acrescentou.

Se o acordo de fornecimento de 110 tanques T-90S e um lote igual de veículos blindados será finalizado, seu custo será de pelo menos 700 milhões de dólares. O acordo de fornecimento de sistemas de defesa aérea ao Brasil é estimado em US$ 1 bilhão.


No PIG
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Prefeitura suspende a inspeção veicular em São Paulo


O prefeito Fernando Haddad anunciou nesta sexta-feira (11) a suspensão da inspeção veicular na capital. A medida vale a partir de segunda-feira. Contrato com a empresa Controlar foi encerrado A Prefeitura de São Paulo anunciou nesta sexta-feira (11) que o contrato para serviços de inspeção veicular com a empresa Controlar está extinto. Em processo administrativo, a Procuradoria Geral do Município (PGM) concluiu que o prazo de 10 anos de vigência do contrato expirou em março de 2012. A partir desta segunda-feira (14) estão suspensos os serviços de inspeção até que seja realizada uma nova licitação.

“Foi um longo procedimento em que foi dado amplo direito de defesa para a empresa. Foi feita uma contagem do prazo contratual e a Procuradoria fez um exame bastante detido deste contrato. Não se trata de uma rescisão de contrato. O prazo tendo vencido e não havendo interesse da administração em renová-lo nos termos em que foi elaborado, nós procederemos agora a licitação dos serviços para o próximo período”, anunciou o prefeito Fernando Haddad.

Os motoristas que já tenham pago a taxa de inspeção e feito o agendamento para os próximos dias terão acesso a um sistema de reembolso que será oferecido pela internet pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Segundo o secretário Ricardo Teixeira (Verde e Meio Ambiente), cerca de 300 mil veículos que deixarão de fazer a inspeção neste ano serão convocados a passar pelo exame em 2014.

"É importante transmitir duas informações para o paulistano. A primeira é que não haverá mais inspeção a partir de segunda-feira enquanto não houver um novo contrato. Então ninguém deverá se dirigir aos postos de inspeção. E a segunda informação é de que ninguém será prejudicado pela suspensão do serviço. Todo caso será avaliado a partir dessa regra e toda definição vai ser tomada a partir da ideia de não lesar aquele que não deu causa ao problema. Então, não havendo o serviços, o paulistano não será prejudicado por conta disso", informou o secretário municipal de Negócios Jurídicos, Luís Massonetto.

Nota de esclarecimento - Inspeção Veicular

Depois de um longo processo administrativo e do cumprimento de todas as formalidades legais, a Prefeitura de São Paulo declara extinto o seu contrato com a empresa Controlar, para serviços de inspeção veicular.

Conforme previsto no contrato, a Prefeitura contou o tempo a partir da primeira ordem de serviço, descontou os períodos em que o documento esteve suspenso e concluiu que o prazo de 10 anos de vigência se expirou em março de 2012. Além disso, as autoridades municipais seguem na apuração de dois outros processos administrativos: um que trata de irregularidade na integralização do capital da empresa e outro que trata da validade do contrato após a condenação da Controlar em segunda instância, por ação de improbidade administrativa, movida pelo Ministério Público do Estado de São Paulo.

Verificado o fim do prazo contratual, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente vai encaminhar hoje ao Diário Oficial do Município despacho público determinando o encerramento das atividades da empresa. O serviço será suspenso a partir de segunda-feira, dia 14 de outubro.

A Prefeitura reitera que nenhum proprietário de veículo será prejudicado.

Veja agora como fica a inspeção veicular, considerando as novas regras anunciadas para 2014:

1 – Quem deverá realizar inspeção veicular em 2014?

- Todos os veículos fabricados e licenciados em 2011, 2009, 2007, 2005 e em todos os anos anteriores.

- Todos os veículos movidos a diesel;

- Todos os veículos não aprovados na inspeção veicular em 2013, ou seja, todos os veículos reprovados e aqueles que simplesmente não realizaram a inspeção em 2013.

Observação: cada veículo só precisa ser aprovado uma única vez durante o ano de 2014.

2 – Qual é o procedimento para o licenciamento dos veículos?

- A falta de inspeção veicular em 2013 não impedirá o licenciamento do veículo. Ou seja, para o licenciamento neste ano, basta ter sido aprovado em 2012.

- Se o veículo não foi aprovado em 2012, ele só poderá ser licenciado em 2014;

- Em relação a 2014, o cronograma de inspeção será publicado oportunamente, como ocorre todos os anos.

3 – Quem tem direito a reembolso relativo às inspeções de 2013?

- Todos os que pagaram a tarifa e foram aprovados em 2013;

- Todos os que pagaram a tarifa e não realizaram a inspeção

Observação: Os pedidos de reembolso da taxa de R$ 47,44 (2013) são feitos pela internet no site da Prefeitura.

4 – O que vai acontecer com multas?

- A falta de inspeção veicular em 2013 não ocasionará aplicação de multa ambiental a partir da suspensão dos serviços, até sua retomada em 2014;

- Eventuais multas aplicadas pelo sistema eletrônico após a suspensão dos serviços, por conta da falta de inspeção em 2013, serão canceladas.

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Vice da agência de espionagem dos EUA promete 'compromisso' com transparência

Chris Inglis, vice-diretor da agência americana NSA,
deu rara entrevista à BBC
O vice-diretor da National Security Agency (NSA) – agência do governo dos Estados Unidos responsável por fazer espionagem eletrônica – disse à BBC que a sua instituição tem o "compromisso" de melhorar a transparência das suas operações.

Em rara entrevista, durante uma passagem por Londres, Chris Inglis disse que é preciso achar um equilíbrio entre sigilo e transparência para conquistar a confiança dos cidadãos.

"Eu acredito que é preciso haver mais transparência", disse Inglis.

"Nós tivemos essa discussão muitas vezes ao longo do verão sobre a necessidade de talvez reequilibrar a linha entre a segurança nacional e as liberdades civis."

"Eu não acho que seja esse o caso. Eu acho que os dois lados precisam ter apoio igual e total. Eu não acho que devemos trocar um pelo outro."

"Mas acho que precisamos considerar o equilíbrio entre sigilo e transparência para reter a confiança das pessoas ou daqueles que 'calçam os sapatos' dos cidadãos em nome deles, como o Congresso, por exemplo. Precisa haver maior transparência e estamos comprometidos com isso."

Em junho, a imprensa noticiou documentos vazados pelo ex-agente de segurança Edward Snowden que revelavam que a agência americana NSA e a britânica GCHQ estavam usando sistemas de computador para monitorar as comunicações de cidadãos comuns.

O argumento usado pelas autoridades dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha é de que isso precisa ser feito para combater o terrorismo internacional. No entanto, desde então, novas revelações indicaram que alguns alvos da espionagem americana não têm relação alguma com terrorismo.

No Brasil, a NSA teria monitorado conversas da presidente Dilma Rousseff, dados sobre a empresa de petróleo Petrobras e comunicações do Ministério das Minas e Energia.

O vice-diretor da NSA disse que a tarefa da agência é "defender os cidadãos".

"O que descobrimos ao longo do tempo é que nossos adversários estão usando exatamente os mesmos sistemas de comunicação, serviços e caminhos dos nossos cidadãos", disse Inglis.

"Mas ao perseguir nossos adversários, também precisamos defender nossos cidadãos. Não podemos colocá-los em risco."

"Além de dizer que eu não sou o 'Big Brother', eu acho que estamos comprometidos com demonstrar que não somos o 'Big Brother'."

No BBC Brasil
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Réquiem para um sistema falido

Os salões da Câmara dos Deputados foram poucos para abrigar, na semana passada, as turbas atraídas pelo tráfico das legendas e dos mandatos comprados ou alugados até à próxima infidelidade


Transformada em mafuá – com seus salões e seus gabinetes convertidos em covis da traficância – a Câmara dos Deputados foi cenário adequado de um réquiem para um velho morto, o sistema partidário brasileiro, que, na semana passada, concluiu seu suicídio de décadas. Os salões e os gabinetes projetados por Niemeyer para o fazer político foram poucos e pequenos para abrigar as turbas atraídas pelo tráfico das legendas e dos mandatos, os leilões que ditavam a valia monetária de mandatos conspurcados, comprados (ou alugados até à próxima infidelidade) ao bater do martelo. Assim, em horas, foram construídos verdadeiros valhacoutos tratados juridicamente como se partidos fossem, súcias sem caráter político, sem programa, sem ideologia, sem nada, a não ser talões de cheque, promessas de cargos e verbas.

Em nome de um pragmatismo pedestre, a política é expulsa da política. Em poucas horas, com a conivência de direções partidárias que jamais zelaram pela fidelidade de seus quadros – imposta pelo STF - mais de cinquenta deputados federais (um tanto mais de deputados estaduais, vereadores e prefeitos) transferiram-se das legendas pelas quais haviam sido eleitos, direções estaduais foram alugadas ou cedidas mediante pregão, e assim, da noite para o dia, dos covis para a luz do sol, surgem partidos caleidoscópios, sem cor alguma, porque contêm todas as cores. Partidos papel em branco, capazes de aceitar toda e qualquer vontade, todo e qualquer projeto, engenhos jurídico-burocráticos sem a menor representatividade sociológica. Partidos nos quais os dirigentes são substituídos por gerentes.

Diante da recorrente inação legiferante do Congresso, e da omissão dos Partidos, o TSE, em 2007, em decisão posteriormente confirmada pelo STF que abonou sua constitucionalidade, reconheceu como pertencente ao Partido, e não ao eleito (parlamentar chefe de executivo), o mandato popular. Assim, ao desfiliar-se sem justa causa (v.g. perseguição política), o titular perdia o mandato e não levava consigo o tempo de televisão a que lhe correspondia, que ficavam, mandato e tempo de televisão e Fundo Partidário, com o Partido pelo qual fôra eleito, a não ser, entre outras, - eis a janela aberta inventada para inutilizar a regra -, na hipótese de nova agremiação.

Posteriormente, decisão monocrática de um ministro do STF passou a admitir que o trânsfuga levasse consigo, mesmo quando sua votação não houvesse atingido o quociente eleitoral, além do mandato, o tempo de televisão, na contramão do dispositivo legal que determina que, para os efeitos do cálculo do tempo de televisão e da quota-parte do Fundo Partidário, que se considere a bancada na data da instalação da Legislatura. Estava dada a senha para a fraude, a indústria do partido novo, que permite os rearranjos sem risco de perda de mandado, e dá, ao novo ‘partido’ a seiva de que carece para as tramóias de toda ordem, o tempo de televisão, e os bons recursos do Fundo.

A desmoralização do sistema de partidos e a criminalização da política, que podem escrever o epitáfio da democracia, nutrem-se na falência do sistema eleitoral e do sistema partidário. Isso é um óbvio cediço, e nem por isso convincente, pois todos o repetem para permanecerem de braços cruzados. Reforma, reforminha, agora, só em 2015 para valer para as eleições de 2016. Mas quem vai fazê-la? Os parlamentares que, em sua maioria, serão prejudicados por qualquer correção?

Com a autoridade que lhe sobra, o ministro Luís Roberto Barroso, do STF (Valor, 6/10/2013), põe de manifesto o que este escriba, e outros mais prestigiosos, vêm escrevendo neste espaço eletrônico: “A reforma política enfrenta um impasse: o Congresso Nacional, que é o lugar por excelência para conduzi-la, é composto de parlamentares, por atores que não são neutros em relação às soluções que venham a ser dadas. Todas as pessoas que estão lá serão diretamente afetadas por qualquer mudança. Na prática, não se consegue produzir consenso”.

Como desfazer esse nó górdio antes que ele estrangule a política?

A alternativa, volta a falar o ministro, pode ser o Plebiscito sugerido pela presidente Dilma e criticado à direita e à esquerda por aqueles muitos sabidos que só aceitam as reformas quando feitas para que nada mude. Seria um plebiscito, segundo entendo, mediante o qual o cidadão concederia poderes constituintes ao próximo Congresso a ser eleito, para, por exemplo, no prazo de um ano, elaborar as reformas, reformas indicadas na própria consulta, reformas as quais, para evitar a burla, seriam confirmadas ou não mediante referendo. O plebiscito seria convocado ainda em 2013 e respondido juntamente com as eleições parlamentares de 2014. Mas, um Congresso eleito nos termos dessa legislação e dos vícios de hoje poderá fazer as reformas que o povo, exemplarmente paciente, pede nas ruas?

Poderemos, porém, apostar todas as fichas da salvação da política numa reforma jurídico-legislativa operada na cúpula, e, como necessariamente, à margem da sociedade infelicitada? Qual reforma pode salvar de seu esvaziamento simbólico partidos sem vida, desprovidos de conteúdo? Como trazer de volta à política partidos que renunciaram à representação, que, dominados pela burocracia, optaram pelo pragmatismo que mata a utopia?

Roberto Esposito (La Republica, 7/5/2012), antes de nosso junho de 2013, perguntava: “Onde nasce essa desafeição que pervade as nossas sociedades até a borda? O que afasta cada vez mais a linguagem dos políticos daquele cruzamento de impulsos, emoções, esperanças que molda a nossa experiência? E por que, talvez nunca como hoje, a onda longa da política parece se inchar no tsunami da antipolítica”?

Serão mesmo nossos partidos, os partidos brasileiros, em sua maioria, suicidas, posto que a eles, por definição, não deveria interessar a antipolítica que, promovida pelo seu auto-esvaziamento, terminará por devorá-los? A verdade é que alguma coisa corrói, como caruncho, a maioria de nossos partidos; algo os molesta, como uma psicose coletiva que os leva a ceder a uma pulsão auto-destrutiva, na medida em que se apartam da quimera coletiva e deixam de ser instrumento de realização dos sonhos e das utopias que movem as massas.

No Brasil, há um elemento a mais, que a irrupção de junho parecia haver espancado: a permanente ausência do povo-massa, a síndrome da casa grande, onde reinam os ‘eleitos’ (pelos deuses) e a senzala, o Brasil real onde mora e trabalha o povo, o povo objeto. Que sociedade representaria o sistema partidário (e político e eleitoral) brasileiro, herdeiro de um autoritarismo larvar que se expressa em todas as atividades sociais (a começar pelas relações familiares mas que compreende as desigualdades sociais de gênero e cor, a homofobia e o preconceito racial) e encontra seu refinamento nas relações políticas? Acerta quem disser que é a nossa classe dominante, forânea, despida de valores democráticos, rentista do erário, sem perspectiva de futuro, vivendo o hoje pelo hoje, sem compromisso de nação e sem consciência de povo.

Roberto Amaral
No CartaCapital
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A Globo e o Brasil

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A balbúrdia democratizante das redes sociais


Estamos na infância das redes sociais e existe muita balbúrdia. Mas ela permite ampliar a democracia.

Na quarta-feira 9, em São Paulo, houve um evento de lançamento do novo site do “Carta Maior”.

Trata-se de um portal assumidamente de esquerda, que congrega pensadores brasileiros e internacionais, unidos em torno das mesmas ideias e da Internet. Havia desde intelectuais latino-americanos até o espanhol Ignácio Ramonet, fundador do prestigiado Le Monde Diplomatique.

* * *

A saga do Carta Maior repete-se em outras iniciativas da Internet. Em meio ao caos que domina o meio, aos ataques destrambelhados de esquerda e direita, à nova não-etiqueta – de um pessoal capaz de cometer, pela Internet, grosserias que jamais cometeriam presencialmente – começam a se moldar as referências, um pequeno arquipélago de blogs e sites independentes, capazes de fazer o contraponto.

* * *

É uma construção algo complexa, devido à diluição das vozes.

No velho modelo de jornal, um percentual maior de leitores lê Esportes, talvez os cadernos culturais e o Cidade – o caderno inicial com reportagens locais e, especialmente, policiais. Um contingente menor lê economia, política nacional e política internacional.

Só que essa leitura, menor porém mais qualificada, acabava disfarçada pelo modelo da velha mídia, no qual todos compravam o jornal inteiro para ler apenas partes dele.

* * *

No velho modelo, havia inicialmente uma divisão nítida entre os chamados tablóides (os jornais sensacionalistas), a imprensa de opinião e o jornalismo regional.

Embora de menor alcance, a imprensa escrita de opinião acabava pautando toda a cadeia da mídia, a imprensa regional, o jornalismo radiofônico e televisivo.

A partir de meados dos anos 90, a busca incessante de audiência acabou rompendo muitas barreiras que separavam o jornalismo de opinião do sensacionalismo barato dos tabloides. Mesmo assim, mantiveram os chamados artigos e colunistas de fundo, ajudando a disciplinar os conceitos junto ao público remanescente de formadores de opinião, que continuaram seguindo os jornais.

Com isso, o discurso político permaneceu bastante restritivo, externando a opinião de grupos restritos, em geral do eixo Rio-São Paulo.

* * *

A Internet surge para romper esse bloqueio. Ainda é uma realidade caótica, mas já dividida em camadas hierárquicas – do público menos intelectualizado, que se move por slogans, aos formadores de opinião, que se articulam em torno de conceitos.

São esses blogs e sites que ajudarão no trabalho civilizatório da rede, de disciplinar os ímpetos ativistas dos militantes, organizando o debate em torno de conceitos.

* * *

A Carta Maior cumpre essa função. No outro lado do espectro político, o site do Instituto Millenium tenta articular ideias e conceitos mais à direita. A maioria absoluta de seus colaboradores se criou à sombra do jornalismo tradicional.

* * *

Gradativamente, surgem outros pontos de referência, que se articulam com os blogs de combate (aqueles que buscam fazer barulho em torno de cada assunto, por mais insignificante que seja), destes com seus seguidores, se espraiando pelo Facebook e pelo Twitter.

* * *

Está-se na infância das redes sociais e existe muita balbúrdia. Mas é essa balbúrdia que permite ampliar a democracia.

Luis Nassif
No CartaCapital
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Serra voltou, Aécio sumiu, e agora tudo fica para 2014


Até outro dia, Dilma Rousseff tinha liderança folgada nas pesquisas e poderia ganhar já no primeiro turno, Aécio Neves era o candidato do PSDB escalado para perder e Marina Silva estava sem partido para entrar no jogo.

De repente, com a inesperada jogada de Marina de se oferecer ao PSB de Eduardo Campos para acabar com a "polarização PT-PSDB", a mais agitada semana da pré-campanha presidencial chega ao fim com o quadro sucessório absolutamente em aberto. Com as definições no campo da oposição adiadas para 2014, nem se sabe ainda quem serão os candidatos de oposição a Dilma.

Par acabar com a crise que começava a se instalar entre marineiros e socialistas sobre quem seria o candidato a presidente, apressaram-se Eduardo e Marina, dois ex-ministros do governo Lula agora na oposição, em dar uma entrevista coletiva nesta quinta-feira em São Paulo para anunciar que só vão definir o cabeça de chapa no próximo ano, depois de afinar um programa comum entre a Rede e o PSB.

A maior reviravolta provocada pela chapa Eduardo-Marina, ou vice-versa, acabou acontecendo no campo do PSDB, onde tudo parecia definido depois que Fernando Henrique Cardoso, ainda no ano passado, lançara a candidatura de Aécio Neves, que logo conquistou o apoio da maioria do partido.

Animado com a mudança do cenário eleitoral, o eterno candidato José Serra resolveu ressuscitar e voltou com tudo, ao garantir ter recebido de Aécio a promessa de que o nome tucano para disputar a sucessão de Dilma só será definido em março ou abril do próximo ano. Esta teria sido a condição de Serra para ficar no PSDB, depois de ameaçar debandar para o PPS. Vai começar tudo de novo no ninho tucano, como já vimos nas últimas três campanhas, em que a Serra levou até o último minuto o suspense sobre a candidatura do partido, enquanto os adversários já corriam o país atrás de votos e alianças.

O fato é que o ex-governador paulista voltou a viajar pelo país, fazer discursos como candidato, frequentar eventos ao lado do governador Geraldo Alckmin e ocupar espaços na mídia, enquanto Aécio sumia do noticiário. O resultado desta indefinição é o PSDB ser até o momento o único partido grande que não conseguiu fechar aliança alguma, nem com o PPS de Roberto Freire e o DEM, suas tradicionais forças auxiliares.

Do lado do PT, o ex-presidente Lula, que manteve uma reunião de cinco horas com Dilma em Brasília para discutir o novo cenário, finalmente se convenceu de que Eduardo Campos não só será mesmo candidato como fará uma campanha abertamente de oposição aos governos do PT. E recomendou ao comando da campanha de Dilma que como tal deve ser tratado.

No programa político do PSB exibido na noite de ontem, Eduardo prometeu "abandonar as velhas práticas políticas", afirmando que "o governo já deu o que tinha que dar", e Marina prometeu "sepultar a Velha República", mas sem a abrir mão dos poderosos grupos econômicos que a apoiam e ontem foram levados para uma reunião com o governador pernambucano.

Até o mês passado aliado da presidente Dilma, Eduardo só não explicou como vai abandonar estas velhas práticas tendo a seu lado a família Bornhausen e Heráclito Fortes, depois de buscar o apoio de Ronaldo Caiado, o antigo líder da UDR, que acabou sendo rifado pela entrada de Marina no barco socialista.

Como Dilma e Lula fizeram no programa do PT, Eduardo e Marina apresentaram um jogral na segunda parte do programa, com os muitos elogios mútuos trocados no lançamento da "Coligação Democrática" no último sábado, em que procuraram explicar a "aliança programática" entre a Rede e o PSB, mas sem dar maiores detalhes de como se dará a campanha "contra a falsa polarização entre PT e PSDB".

Se depender dos rumos erráticos do PSDB, parece mesmo que esta polarização já acabou, e a disputa se dará entre o PT e seus antigos aliados, que entraram na disputa com a corda toda. De qualquer forma, só saberemos como será o novo desenho do quadro eleitoral após a divulgação das próximas pesquisas, com os muitos cenários possíveis. Por enquanto, só há uma certeza: a única chapa definida é a de Dilma Rousseff para presidente com Michel Temer para vice.

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A ignorância e a má-fé da psicóloga paranaense Marisa Lobo

Marisa Lobo, a psicóloga que vive sendo questionada pelo Conselho de Psicologia devido suas afirmações homofóbicas, resolveu mostrar todo seu conhecimento sobre geografia:


A notícia a que Marisa Lobo se refere pode ser lida na íntegra no blog Pragmatismo Político e qualquer leitor mediano poderá, nas primeiras linhas, descobrir que o fato ocorreu no México e pelo que me consta o PT ainda não governa aquele país.


Reproduzi a leitura inusitada que Marisa Lobo fez da notícia no meu perfil do Facebook e ela veio no post replicar e postou outra notícia e outra vez depositou a culpa do descaso no atendimento hospitalar no PT:


Creio que Marisa Lobo realmente precisa voltar aos bancos escolares para entender que embora o governo federal seja dirigido por uma presidenta do Partido dos Trabalhadores, o Brasil é uma República democrática: aqui é permitido existir vários partidos e iniciativa privada, por exemplo.

Como vêem, a notícia que Marisa trouxe para consertar o soneto trata de um caso ocorrido em um estado e uma capital governados respectivamente pelo PSDB e seus aliados e para explicitar ainda mais a necessidade de Marisa voltar à escola o hospital é privado. Ou seja: Marisa culpa o Partido dos Trabalhadores do descaso ocorrido no México ou em território tucano e em hospital privado. Arnaldo Marques não previu este nível de "astúcia" da direita: Herança escravista? Selvageria das elites rurais? Elite empresarial predatória e concentradora de renda? Para com isso! No Brasil, a causa da pobreza – e da unha encravada – é a corrupção

Vários leitores no Facebook brincaram com a "habilidade leitora" da psicóloga:


Quanto a mim, ainda espero Marisa Lobo  responder as questões que lhe fiz:

1) Um dos gravíssimos problemas que impede o acesso de todos à saúde é a falta de recursos, Marisa foi a favor ou contra o fim da CPMF?

2) Marisa é a favor ou contra a vinda de médicos estrangeiros, especialmente os cubanos?

Vamos aguardar…

No Maria Frô
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“Trilhas de Honestino” demanda todo apoio e divulgação porque é busca da verdade e da justiça

Honestino Guimarães

Fundamental a mobilização de todos os brasileiros em torno da campanha “Trilhas de Honestino”, lançada ontem (10.10) pela família dele, durante a audiência pública da Comissão Estadual da Verdade do Rio (CEV-Rio) que marcou os 40 anos do desaparecimento do líder estudantil Honestino Guimarães.

À frente da campanha está sua filha, Juliana Botelho, que prestou seu primeiro depoimento à CEV-Rio. Juliana fez um apelo a todos para participarem desta campanha. “Contaremos com colaborações principalmente via redes sociais. Qualquer coisa interessa: fotos, relatos, pistas”, disse ela ao falar de sua expectativa na busca da verdade e justiça para o pai.

A ideia da campanha é reunir documentos, registros históricos, relatos, depoimentos e o que mais for possível para que possamos esclarecer o que aconteceu com Honestino. “É como cidadã brasileira e como filha que peço respostas que até hoje não foram dadas. O que aconteceu com o meu pai? Quem o matou? E onde está o seu corpo?”, questiona Juliana.

Honestino com 17 anos já estava na resistência à ditadura

Quando Juliana nasceu, em 1970, seus pais viviam clandestinos em São Paulo. Honestino era um líder estudantil procurado pela repressão, cuja trajetória na resistência à ditadura começou cedo. Primeiro lugar no vestibular de 1965, Honestino tinha apenas 17 anos quando ingressou na Faculdade de Geologia da Universidade de Brasília (UnB).

Dois anos depois, foi eleito presidente da Federação dos Estudantes Universitários de Brasília. Em setembro de 1968, denunciou um falso professor da UnB, que na verdade era um informante da ditatura, e por este motivo foi desligado da universidade. Naquele mesmo ano, mudou-se para São Paulo e se casou com Isaura Botelho, passando a viver na clandestinidade.

Quando o então presidente da UNE clandestina, Jean Marc van der Weid, foi preso, Honestino assumiu a presidência da entidade, que ocupou até 1971. Em 1973, no dia 10 de outubro, ele foi preso no Rio, pelos agentes da Centro de Informações da Marinha (CENIMAR), um dos vários órgãos de inteligência do regime militar. Tinha 26 anos. Desde então, nunca mais soubemos dele.

“Vamos partir do zero”

Durante a audiência da CEV-Rio, ontem, seu presidente, Wadih Damous, lembrou que “na história dos desaparecimentos políticos forçados na ditadura, o caso Honestino é único. Dele não há rastros. Honestino é o desaparecido total. Não há relatos, não há pistas, não há nada. Ele simplesmente desapareceu”.


“O que sabemos é que ele era vigiado e perseguido por diversos órgãos da repressão. É possível que tenha sido assassinado na rua, e se livraram do corpo. Vamos partir do zero”, complementou Damous. O Honestino é caso único, como enfatiza Damous, dentre os quase 200 desaparecidos políticos assassinados pela ditadura, conforme o reconhecimento oficial, ou cerca de 400, segundo os levantamentos das organizações de direitos humanos brasileiras.

A última informação dos militares sobre Honestino era falsa e foi dada à sua mãe Dona Maria Rosa Guimarães. Naquele 1973, em busca do paradeiro do filho, os militares disseram a ela que Honestino estava em uma prisão em Brasília e que ela poderia visitá-lo no Natal.

A dor de dona Maria Rosa ante a perfídia de que eram capazes os militares

Após tanta espera e tanta dor, Dona Maria Rosa chegou ao presídio e foi informada que o filho não estava lá. Ela faleceu ano passado sem jamais ter tido qualquer notícia sobre Honestino.

A campanha levada à frente agora por Juliana é de suma importância para o esclarecimento da verdade histórica neste país. E para a busca da justiça. Quem tiver alguma informação ou souber de alguém que possa ter, pedimos encarecidamente, que faça contato com a Juliana pelo e-mail memoriahonestino@gmail.com.

No Blog do Zé
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A carta que biógrafo de Clarice Lispector, Benjamin Moser, endereçou a Caetano Veloso


Caro Caetano,

Nos EUA, quando eu era menino, havia uma campanha para prevenir acidentes na estrada. O slogan rezava: ‘Amigos não deixam amigos bêbados dirigir’. Lembrei disso ao ler suas declarações e as de Paula Lavigne sobre biografias no Brasil. Fiquei tão chocado que me sinto obrigado a lhe dizer: amigo, pelo amor de Deus, não dirija.

Nós nos conhecemos há muitos anos, desde que ajudei a editar seu Verdade Tropical nos EUA. Depois, você foi maravilhoso quando lancei no Brasil a minha biografia de Clarice Lispector, escrevendo artigos e ajudando com o alcance que só você possui. Admiro você, de todo o meu coração.

E é como amigo e também biógrafo que te escrevo hoje. Sei que você sabe da importância de biografias para a divulgação de obras e a preservação da memória; e sei que você sabe quão onerosos são os obstáculos à difusão da cultura brasileira dentro do próprio Brasil, sem falar do exterior.

Fico constrangido em dizer que achei as declarações suas e da Paula, exigindo censura prévia de biografias, escandalosas, indignas de uma pessoa que tanto tem dado para a cultura do Brasil. Para o bem dessa mesma cultura, preciso dizer por quê.

Primeiro, achei esquisitíssimo músicos dizerem que biógrafos querem ficar com ‘fortunas’. Caetano, como dizem no Brasil: fala sério. Ofereço o meu exemplo. A biografia de Clarice ficou nas listas de mais vendidos em todo o Brasil.

Mas, para chegar lá, o que foi preciso? Andei por cinco anos pela Ucrânia, pela Europa, pelos EUA, pesquisando nos arquivos e fazendo 257 entrevistas. Comprei centenas de livros. Visitei o Brasil 12 vezes.

Fiquei contente com as vendas, mas você acha que fiquei rico, depois de cinco anos de tais despesas? Faça o cálculo. A única coisa que ganhei foi a satisfação de ver o meu trabalho ajudar a pôr Clarice Lispector no lugar que merece.

Tive várias vantagens desde o início. Tive o apoio da família da Clarice. Publico em língua inglesa, em outro país.Tenho a sorte de ter dinheiro próprio. Imagine quantos escritores no Brasil reúnem essas condições: ninguém.

Mas a minha maior vantagem foi simplesmente ignorância.

Não fazia ideia das condições em que trabalham escritores e jornalistas brasileiros. Não sabia quanto não se pode dizer, num clima de medo que lembra a época de Machado de Assis, em que nada podia ofender a ‘Corte’.

Aprendi, por exemplo, que era considerado ‘corajoso’ escrever uma coisa que todo mundo no Brasil sabe há quase um século, que Mário de Andrade era gay. Aprendi que era até inusitado chamar uma cadeira de Sergio Bernardes de feia.

Aprendi o quanto ganham escritores, jornalistas e editores no Brasil, e quanto os seus empregos são inseguros, e como são amedrontados por ações jurídicas, como essas com que a Paula, tão bregamente, anda ameaçando.

É um tipo de censura que você talvez não reonheça por não ser a de sua época. Não obriga artistas a deixarem o país, não manda policiais aos teatros para bater nos atores. Mas que é censura, é. E muito mais eficaz do que a que existia na ditadura. Naquela época, as obras eram censuradas, mas existiam. Hoje, nem chegam a existir.

Você já parou para pensar em quantas biografias o Brasil não tem? Para só falarmos da área literária, as biografias de Mário de Andrade, de João Guimarães Rosa, de Cecília Meirelles, cadê? Onde é que ficou Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre? Você nunca se perguntou por que nunca foram feitas?

Eu queria fazer. Mas não vou. Porque o clima no Brasil, financeiro e jurídico, torna esses empreendimentos quase impossíveis. Quantos escritores brasileiros estão impedidos de escrever sobre a história do seu país, justamente por atitudes como as suas?

Por isso, também, essas declarações, de que o biógrafo faz isso só por amor ao lucro, ficam tão pouco elegantes na boca de Paula Lavigne. Toda a discussão fica em torno de nossas supostas ‘fortunas’.

Você sabe que no Brasil existem leis contra a difamação; que um biógrafo, quando cita uma obra ainda com ‘copyright’, tem obrigação de pagar para tal uso. Não é diferente de você cantar uma música de Roberto Carlos. Essas proteções já existem, podem ser melhoradas, talvez. Mas estamos falando de uma coisa bem diferente da coisa que você está defendendo.

De qualquer forma, essas obsessões com ‘fortunas’ alheias fazem parte do Brasil do qual eu menos gosto. Une a tradicional inveja do vizinho com a moderna ênfase em dinheiro que transformou um livro, um disco, uma pintura em ‘produto cultural’.

Não é questão de dinheiro, Caetano. A questão é: que tipo de país você quer deixar para os seus filhos? Minha biografia foi elogiosa, porque acredito na grandeza de Clarice. Mas liberdade de expressão não existe para proteger elogios. Disso, todo mundo gosta. A diferença entre o jornalismo e a propaganda é que o jornalismo é crítico. Não existe só para difundir as opiniões dos mais poderosos. E essa liberdade ou é absoluta, ou não existe.

Imagino, e compreendo, que você pense que está defendendo o direito dos artistas à vida privada. Mas quem vai julgar quem é artista, o que é vida privada e o que é vida pública, sobre quem, e sobre o que se pode escrever e sobre quem e, sobre quem não? Você escreve em jornal, você, como o artista deve fazer, tem se metido no debate público. José Sarney, imortal da Academia Brasileira das Letras, escreve romances. Deve ser interditada também qualquer obra crítica sobre ele, sem autorização prévia?

Não pense, Caetano, que o seu passado de censurado e de exilado o proteja de você se converter em outra coisa. Lembre que o Sarney, quando foi eleito governador do Maranhão, chegou numa onda de aprovação da esquerda. Glauber Rocha, também amigo seu, foi lá filmar aquela nova aurora.

Não seja um velho coronel, Caetano. Volte para o lado do bem. Um abraçaço do seu amigo,

Benjamin Moser
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O Brasil e o “Negócio da China”



Desde o início dos tempos, elementos tangíveis e intangíveis, como as matérias-primas, a inteligência e o conhecimento, determinaram a concorrência entre os estados e a ascensão e a queda de impérios e civilizações.

A espionagem, pelo Canadá, de computadores do Ministério de Minas e Energia, e a proposta que a União Europeia pretende fazer ao Brasil, na próxima semana, no âmbito de “matérias- primas estratégicas” servem de alerta aos que acham que o advento de novas tecnologias vai sepultar ou diminuir a importância das commodities e das matérias-primas no xadrez geopolítico internacional, nos próximos anos.

Segundo declarou o vice-presidente da Comissão Europeia e Comissário de Indústria e Empreendedorismo, Antonio Tajani, em entrevista ao “Valor”, ontem, a Europa pretende propor ao Brasil uma aliança para impedir que a China continue tentando “ter o monopólio de matérias-primas industriais” em escala planetária.

Por trás do eufemismo, está o interesse europeu em um verdadeiro “negócio da China”- que se encontra sob controle de Pequim, neste momento.

Uma alternativa de acesso a terras raras, um conjunto de minerais essenciais para o avanço tecnológico em setores estratégicos, como imãs, baterias de alto desempenho, levitação magnética, ótica, energia eólica, lasers, computação, diagnóstico por imagem, automóveis híbridos e elétricos, aviação, espaço, etc.

País mais populoso do mundo, segunda economia do planeta, e o maior produtor mundial – cerca de 90% - de terras raras, com uma rígida política de comercialização desses minerais, a China pretende três coisas: agregar valor à sua produção, processando-a e transformando-a em produtos acabados em seu próprio território; controlar sua oferta nos mercados internacionais, de forma a obter preços mais justos; e evitar a formação de estoques estratégicos no exterior - terras raras são de grande importância para a área de defesa, por exemplo - por parte de seus maiores competidores.

O grande problema dos países da OTAN, do ponto de vista geopolítico, é que a disponibilidade de terras raras está concentrada, hoje, em países como a China, a Índia, a África do Sul e o Brasil. Todos são nações do BRICS, e é preciso – para eles - evitar que se construa, a partir daí, uma aliança.

O Brasil, com grandes reservas – entre outros minerais de onde se extraem essas matérias-primas - de nióbio e areias monazíticas, já está discutindo, junto com o novo marco da mineração, uma Política Nacional de Minerais Estratégicos e Terras Raras.

É nesse sentido, estratégico e geopolítico, que tem que ser avaliada qualquer proposta européia.

Quem quiser ter acesso a nossas reservas, que se associe ao Brasil para processá-las e agregar valor, aqui mesmo, por meio de transferência de tecnologia.

Não custa nada ouvir o que os europeus têm a dizer. Mas é preciso também conversar com os outros. Começando - depois da UE - pelos BRICS, naturalmente.
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O efeito Serra

Convém ao partido de Eduardo Campos e Marina Silva meditar a respeito deste risco

Como se deu que ele descambasse para a direita
Marina Silva tem o porte de uma dama inglesa dos tempos vitorianos, saída de uma página de Henry James ou de John Galsworthy. Assim sempre me pareceu colher na voz, nos gestos, no passo, um toque aristocrático absolutamente natural, a contrariar a origem pobre, para não dizer plebeia. Coisas da vida que a mim não surpreendem.

As preocupações de Marina Silva não têm mais o esmaecido parentesco com aquelas de uma dama inglesa da era vitoriana, nem se fale dos ideais das dondocas nativas. Um notabilíssimo do PT certo dia me disse: “Grande companheira”. Outro que estava presente acrescentou: “Deus me livre se chegasse à Presidência”. E poderia chegar?

As pesquisas exibem as boas cotações de Marina Silva e há algum tempo animam a mídia, certa de que no páreo do pleito presidencial ela atrapalharia bastante a candidatura da presidenta Dilma. Os barões midiáticos, com admirável afinação, fundaram e lideram o verdadeiro partido de oposição, pronto a aprovar uma composição em condições de se arvorar a pedra no caminho de qualquer candidato petista.

Marina Silva não dispunha de documentos em dia para encantar a mídia. Passou por uma experiência ministerial no primeiro governo petista e era tida como esquerdista voltada em excesso para os problemas do meio ambiente. Na qualidade de possível candidata à Presidência, deu a volta por cima na visão dos porta-vozes da casa-grande, concordes em esquecer seu pé na senzala e valorizar suas qualidades morais.

A aliança recém-selada da ex-ministra de Lula com Eduardo Campos tem suas contradições e gera incógnitas, a começar pelo papel que o PSB reservaria a uma solerte advogada da religião evangélica e ardente defensora do equilíbrio ecológico. São assuntos para a reportagem de capa desta edição. De minha parte, limito-me a perguntar aos meus atentos botões: Eduardo Campos sabe avaliar os riscos precipitados nas circunstâncias pelo inevitável apoio que uma chapa Eduardo-Marina, ou vice-versa, receberia de jornalões e quejandos?

Governador de Pernambuco, Campos mostrou bom serviço, reelegeu-se com folga e ganhou dimensão nacional, a ponto de surgir como pretendente à Presidência, embora nas pesquisas consiga por ora porcentagens bastante modestas. A linhagem familiar o beneficia e o entendimento entre socialistas e petistas que vingou até anteontem parecia de todo impecável.

Ouço um murmúrio, aproximo o ouvido. Os botões sussurram um nome inesperado: José Serra, José Serra... Estou perplexo. Eles escalam decibéis, afirmam no tom de Hercule Poirot quando desvenda as razões de um crime e aponta o responsável: “Foi o apoio da mídia que empurrou Serra para a direita”. Sou forçado a concordar. Sublinho, entretanto: apoio buscado ardorosamente por ele próprio e que não lhe foi regateado com a certeza do retorno. Tal havia de ser, concluo, a postura que o agradava ao cabo de uma longa carreira política percorrida em boa parte sobre trilhos diferentes.

Estranhas situações vividas no país da casa-grande e da senzala, onde as ideologias tiveram significado para poucos, pouquíssimos, enquanto valia para os demais a busca do poder pelo poder. Exemplares, no pós-ditadura, os tucanos liderados por Fernando Henrique Cardoso. Para se afastar de Ulysses Guimarães, ele inventou uma nova legenda, a contar, inclusive, com a boa-fé de um ou outro companheiro. Enfim, candidato à Presidência, Antonio Carlos Magalhães apressou-se a avisar com o sorriso na ponta dos lábios: “FHC não é tão de esquerda assim...”

De fato, o príncipe dos sociólogos comandou um governo de direita, com a devida subserviência às vontades americanas e aos ditames neoliberais. Em 2002, às vésperas da campanha eleitoral, ouvi de Serra que ele faria um governo muito mais à esquerda daquele de Lula. Palavras. Como isso se daria? Seria capaz de contrariar os jornalões que o queriam presidente? De confrontar-se com Octavio Frias, o velho, ou com o doutor Roberto?

Aí se amoita o risco para o contubérnio celebrado no PSB de Eduardo Campos e Marina Silva, descambar inexoravelmente para o conservadorismo da casa-grande antes ainda de atingir a meta desejada. E sem chance de chegar lá. É o jogo político inesgotável, herdado do comércio. A regra soletra: do ut des, dou para que você dê.


Mino Carta
No CartaCapital
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