5 de out de 2013

Estão faltando ideias e sobrando frases feitas para Marina

Blablablá na filiação de Marina ao PSB

É bom que Marina participe das eleições de 2014. Mas ela tem que mostrar muito mais substância do que mostrou na cerimônia de sua filiação ao PSB para que possamos levá-la a sério em sua pretensão de ser a “coisa nova” na política brasileira.

Se você espreme a fala de Marina não vai encontrar uma única ideia original, inovadora, capaz de derrubar queixos.

O que se ouviu foi o triunfo da embalagem, expresso em frases pré-fabricadas. O maior exemplo disso foi o brado de que seria “enterrada a Velha República”.

Isso não quer dizer, rigorosamente, nada, se não é acompanhado de ideias claras. Se as tem, Marina escondeu bem em sua fala de hoje.

Marina se empenhou em tentar inutilmente provar que não estava fazendo o que estava fazendo – buscar abrigo num partido para poder concorrer em 2014.

Só convenceu a quem queria ser convencido. Ela está sim repetindo um gesto velho na política brasileira que ela promete reformar sem dizer, ou sem saber, como. Ficou no ar o cheiro inconfundível da hipocrisia.

O Brasil precisa desesperadamente de homens públicos – ou mulheres – capazes de acelerar drasticamente o combate ao que é de longe o mais dramático problema brasileiro: a irritantemente persistente desigualdade social.

Privilégios têm que ser corajosamente enfrentados e removidos. Não é possível, para ficar num caso, que um caso de sonegação bilionária como o da Globo fique por isso mesmo. Não é possível que os ricos e as grandes corporações encontrem tantas mamatas, de empréstimos a juros maternais no BNDES a fórmulas que lhes permitem safar-se de pagar os devidos impostos.

A maior fraqueza do PT nestes dez anos foi a timidez, ou falta de coragem, no enfrentamento das facilidades proporcionadas ao assim chamado 1%.

As jornadas de junho mostraram a insatisfação da sociedade com a lentidão dos avanços sociais. Índios tratados miseravelmente, pobres desalojados em péssimas condições para obras da Copa – tudo isso gerou espasmos justificadíssimos de indignação.

Não está ainda claro se o PT entendeu com clareza a mensagem das ruas. Mas Marina, hoje, não deu sinal de haver entendido o que foi dito pelos brasileiros que saíram às ruas.

Se não bastasse o blablablá da filiação, fora dela Marina disse que é preciso acabar com o “chavismo” no Brasil – e não com a iniquidade.

É o tipo de frase que cabe em Serra, em Jabor – mas não em alguém que se apresenta como novidade.

Paulo Nogueira
No DCM
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Como fica o jogo político com Marina vice de Campos


Com a ida de Marina Silva para o PSB de Eduardo Campos, o jogo político torna-se interessante.

Havia um conjunto de combinações possível.

Com Marina viabilizando seu partido, o jogo de 2014 seria jogado por Dilma Rousseff, Marina, Aécio Neves (ou José Serra) e Eduardo Campos.

A probabilidade maior era um segundo turno entre Dilma e Marina. Segundo interlocutores de Lula, ele considerava a melhor alternativa para Dilma, já que, exposta à luz da campanha, Marina seria mais fácil de ser derrotada no segundo turno. Mas há quem analisasse que, com três candidatos da oposição, aumentava a probabilidade de segundo turno. Com dois, diminui.

Outra possibilidade seria a dupla Eduardo Campos e Aécio Neves. Campos garantiria o discurso, Aécio a estrutura do PSDB. Mas seria difícil para ambos misturarem o discurso de Campos – de elogiar o presente e prometer um futuro melhor – com o do PSDB – de que nada foi feito de modo certo após 2003. E mais difícil ainda definir quem seria o candidato e quem o vice.

A terceira probabilidade seria Marina de vice de um dos dois. Escolheu Campos.

Efeitos imediatos:

1. Campos e Aécio têm discursos diferentes na forma, embora semelhantes no conteúdo. Defendem maior eficiência do Estado, gestão etc. Mas Campos se posiciona como o ex-aliado de Lula-Dilma, que reconhece os avanços conquistados mas diz que pode avançar mais. Já Aécio não conseguiu se desligar do discurso negativista que tem sido a marca do PSDB.

2. Aécio provavelmente radicalizará ainda mais o discurso do contra, por dois bons motivos. O primeiro, o de se diferenciar de Campos. O segundo, o de suplantar Serra no anti-petismo.

3. Campos definitivamente ganha o apoio do empresariado moderno de São Paulo, que já o admirava pelas qualidades de gestor. Esvazia o PSDB de um braço importante mas que, de qualquer forma, já se distanciara do partido.

4. Haverá um choque de cultura no PSB, entre a velha guarda – capitaneada por Roberto Amaral – e os novos aliados. Nada que comprometa a unidade da chapa. Mas, apesar das questões programáticas não serem tão relevantes nas eleições presidenciais, obviamente haverá uma composição de posições que poderá resultar em uma mistura interessante.

5. Serra continuará apostando na não decolagem de Aécio. Aliás, o fato de Aécio ter aceitado a permanência de Serra no partido mostra sua dificuldade de lidar com as armas do poder. Lembra um pouco a piada do galo bom e do galo ruim. É bom de trato mas ruim de briga.

6. Mantidas as atuais condições de temperatura, Dilma permanece franca favorita. E, em qualquer situação de tempo, o PPS de Roberto Freire permanece irrelevante.

Luis Nassif
No GGN
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José Dirceu avisou...


Não se surpreendam se Marina virar vice de candidato da oposição


Em 24 de abril de 2013

Não se surpreendam se a candidata a presidente da República, ex-senadora Marina Silva, terminar como candidata a vice de um dos candidatos que se movimentam aí para disputar o Planalto na eleição do ano que vem. Há um sutil, mas bem perceptível, movimento na mídia esvaziando a pré-candidatura dela à Presidência.

Todos os jornais começaram simultaneamente a destacar suas dificuldades – a principal delas a formação da REDE Sustentabilidade, que ela tenta montar para ter um partido seu para a disputa eleitoral do ano que vem. Agora, para confirmar, vem o jornal "The Guardian", de Londres, com uma reportagem em que enumera, com todas as letras, as dificuldades de Marina.

Sem falar na pérola publicada no jornal britânico de que o governo da presidenta Dilma Rousseff abandonou a agenda ambiental em troca do desenvolvimento, programas minerais e a construção hidroelétricas… Aí, explica-se: talvez o jornal britânico queira reservar o mercado de ferro apenas para suas empresas (de sua holding) que atuam no Canadá e na Austrália.

A reportagem do "The Guardian"

O fato – prestem atenção e acompanhem comigo – é que realmente a REDE esta emperrada e a candidatura Marina já não atende a estratégia da oposição. Talvez a tática seja levar Marina a ser a vice de um dos candidatos, destes que tanto se apressam em defendê-la e ajudá-la agora, principalmente na formação de seu novo partido, o que não faziam antes. A conferir.

Em reportagem publicada nesta 3ª feira (ontem [23/abr]), o "Guardian" afirma que a ex-senadora enfrenta dificuldades para concorrer novamente à Presidência em 2014 (ela foi candidata em 2010, quando ficou em 3º lugar, com 19 milhões de votos). O texto elogia a trajetória de Marina na militância ambientalista, mas analisa que ela perdeu espaço político no país após 2010.

"Apesar do seu perfil global – ela carregou a bandeira olímpica na abertura dos Jogos de Londres – (Marina) Silva mergulhou nas sombras em seu país", diz o jornal britânico. É aí que o jornal embute: a agenda da sustentabilidade foi "deixada de lado" pelo governo Dilma Rousseff em favor de investimentos em áreas como mineração e infraestrutura.

"Mais importante, porque muita gente perdeu a esperança"

"São tempos difíceis para ser um militante ambientalista", afirma o jornal, mesmo reconhecendo que a presidenciável Marina já deu um "passo considerável" na coleta do meio milhão de assinaturas que precisa para fundar seu novo partido, a Rede Sustentabilidade. À publicação britânica, a ex-senadora fala meio "no muro" sobre sua possível candidatura em 2014, que ela ainda não confirmou formalmente. "Não sei se vai ser mais difícil desta vez, mas sei que vai ser mais importante, porque muita gente perdeu a esperança."

O "Guardian" registra, ainda, que a mudança de religião – ela era católica e se tornou evangélica – teria afastado Marina parte de seus possíveis aliados. "(Marina) Silva continua popular, mas seu ardor religioso – ela se converteu do catolicismo para o cristianismo evangélico – desanimou alguns apoiadores em potencial", diz o jornal.

No Blog do Zé
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Geopolítica e ética internacional


“Eu via no universo cristão uma leviandade com relação à guerra que teria deixado envergonhadas as próprias nações bárbaras”.
Hugo Grotius, “O Direito da Guerra e da Paz”, 1625.

Por definição, todo poder territorial é limitado e expansivo. Envolve a existência de fronteiras, e de algum tipo de “inimigo externo” ou “bárbaro”, de quem se defender e a quem “conquistar” e “civilizar”. Por isto, os projetos expansivos de poder sempre se revestem de algum sentido de missão, e adotam algum sentido moral e messiânico. E toda conquista vitoriosa produz e impõe algum tipo de discurso e de ordem ética “supranacional”. Em muitos casos, estes poderes expansivos se associaram com religiões que se propunham ajudar na conquista messiânica e na “conversão” dos povos bárbaros. E o mesmo aconteceu com o colonialismo europeu, até o momento em que adotou a retórica laica e universalista do “direito natural”, e mais recentemente, dos “direitos humanos” e das “intervenções humanitárias”.

Na hora do nascimento dos atuais estados europeus, e do início de sua expansão conquistadora ao redor do mundo, o jurista holandês, Hugo Grotius (1583-1645) - que foi um dos pais do direito internacional moderno – identificou a contradição fundamental do “universalismo ético" dos europeus. Grotius acreditava na existência do “direito natural, comum a todos os povos, tão imutável que não poderia ser mudado nem pelo próprio Deus” . Mas ao mesmo tempo, reconhecia que num sistema internacional formado por muitos estados, com identidades, culturas e interesses diferentes, sempre existiriam muitas “inocências subjetivas”, frente a uma mesma “justiça objetiva”. E nestas circunstancias, não haveria como arbitrar “objetivamente” quem teria a razão, nem como decidir sobre a legitimidade de uma guerra declarada entre dois povos que reivindicassem uma interpretação diferente, dos mesmos fatos e direitos.

Por isto, apesar de Grotius considerar que a “segurança” e a “paz” eram direitos inalienáveis de todos os homens e de todos os povos, também considerava que a guerra era um recurso inevitável, num sistema politico com muitos estados competitivos entre si. Mesmo assim, Grotius nunca imaginou a possibilidade de uma guerra que tivesse como objetivo promover ou universalizar o próprio “direito natural dos homens”. Para ele, os direitos humanos e a fé religiosa eram uma conquista de cada homem e da cada povo em particular, e uma guerra feita em nome dos “direitos naturais”, seria uma contradição em si mesma, ou seria uma “guerra de conversão”, como as Cruzadas que ele abominava, apesar de ser um cristão fervoroso.

Quase dois séculos depois, o filosofo iluminista alemão, Immanuel Kant (1724-1804), reconheceu a existência desta mesma contradição, no caminho do seu projeto de uma “paz perpétua” universal. Mas Kant acreditava na superioridade dos europeus, e defendia sua “missão civilizatória” no mundo. Por isso, propunha seu projeto de paz, mas considerava que primeiro os europeus teriam que converter o resto do “gênero humano” à mesma “ética internacional civilizada” que eles haviam criado. Para Kant, portanto, “no grau de cultura em que ainda se encontrava o gênero humano, a guerra era um meio inevitável para estender a civilização, e só depois que a cultura tivesse se desenvolvido (Deus sabe quando), seria saudável e possível uma paz perpétua”.

Neste início do Século XXI, a contradição identificada por Grotius e Kant adquiriu muito mais força e extensão, com a multiplicação do numero de estados do sistema mundial, e com o fim da bipolaridade ideológica da Guerra Fria. Depois de 1991, muitos acreditaram na vitória do “cosmopolitismo europeu”, mas já no início do século XXI, todos perceberam que o sistema mundial segue sendo o mesmo, só que ficou ainda mais complexo e heterogêneo, do ponto de vista ético, cultural e religioso. E tudo indica que neste novo universo ampliado e sem ameaça comunista, as grandes potências ocidentais decidiram transformar a questão do “respeito aos direitos humanos”, no novo grande princípio ético legitimador das suas velhas “guerras civilizatórias”.

Chama atenção, neste sentido, que todas estas guerras, das duas últimas décadas, tenham sido lideradas pelos mesmos países que compõem – simultaneamente - o “diretório militar” do mundo ocidental, e seus pequeno “círculo de criadores da moral internacional”: Estados Unidos, Inglaterra e França. Ou seja, contra toda boa norma jurídica, neste momento da história internacional, os mesmos três países que formulam a ética, os direitos e as regras são os que julgam, condenam e punem quem eles consideram culpado, o que em geral já está definido de antemão. Com ou sem o consentimento do resto do “gênero humano”, que ainda não foi “civilizado”, e que não tem poder para dizer: basta!

José Luis Fiori é professor titular de Economia Política Internacional da UFRJ e coordenador do Grupo de Pesquisa do CNPQ/UFRJ "O Poder Global e a Geopolítica do Capitalismo". (www.poderglobal.net)
No Carta Maior
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Maria Rita Kehl: “Cidade com desigualdade é um inferno”

O principal problema das grandes cidades é a desigualdade social, que faz do mesmo território um espaço distinto para as diferentes classes sociais. As contradições dentro de uma mesma cidade levam ao sentimento de desencanto, que está na raiz das mobilizações que tomaram o país em junho.


A avaliação é da psicanalista Maria Rita Kehl, que é especialista em psicologia social e em psicanálise. Em entrevista ao Brasil de Fato, Maria Rita Kehl relaciona desigualdade, juventude e violência policial.

Maria Rita Kehl foi indicada pela presidenta Dilma Rousseff, em 2010, para integrar a Comissão Nacional da Verdade, criada para investigar os crimes cometidos pelo Estado brasileiro durante o regime militar.

Autora do livro O Tempo e o Cão (Boitempo), que debate a depressão na sociedade contemporânea, ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Educação, Psicologia e Psicanálise.

Brasil de Fato: Quais os impactos da dinâmica hostil de uma cidade como São Paulo na população?

Maria Rita Kehl: A cidade é uma das invenções mais geniais da humanidade. O que destoa é a desigualdade. O problema é que a cidade onde mora a moça que faz a faxina não é a mesma em que eu moro, embora seja o mesmo município.

Por quê?


A cidade em que ela mora quase não tem calçamento e quando tem é de péssima qualidade. Se o lugar é muito maltratado, as pessoas se sentem mal também. Às vezes o bairro nem é perigoso, mas não tem onde brincar, não tem árvore, não tem sombra e não tem beleza. Cidade com desigualdade é um inferno.

Qual a consequência para a vida das pessoas?

Um sentimento de permanente desencanto, em termos de uma patologia social. Esse sentimento deixa as pessoas sensíveis à injustiça. Não dá para dizer que basta me preocupar com meu umbigo. A cidade é um espaço de sociabilidade. Não sei se todo mundo que foi protestar em junho vive mal. Muita gente que tem carro deve ter ido para a rua, como quem não precisa de saúde pública. E muitos estudantes que vivem em bairros bacanas.

Como você caracteriza essa juventude que foi às ruas?

Uma geração com um sentimento muito grande de desencanto. Vou fazer aqui uma hipótese: foram duas grandes desilusões. Uma foi dada pela imprensa, com as denúncias de corrupção do PT - sem entrar na discussão do que a imprensa fez virar esse caso. A imprensa é muito de direita no Brasil.

E a segunda desilusão?

Os governos petistas diminuíram a desigualdade no que se refere à renda, mas não diminuíram a desigualdade no que se refere aos meios de produção. A pessoa pode melhorar sua renda como operária, em uma grande obra, mas não tem as condições de ser o dono do seu próprio trabalho. Veja que contradição. Promover a igualdade não é só melhorar a renda, mas garantir a autonomia. Essa juventude de agora pode sair desse sentimento de desencanto, que nasceu com essas desilusões. É uma desilusão com a política, não só com o PT.

O que essa juventude tem em comum com os jovens que lutaram contra a ditadura?

No século 20, houve uma relação entre idealismo e juventude, que despertou como força política. A juventude é mais sensível e menos resignada com os problemas do mundo. Agora, está inaugurando a sua vida cidadã. Tem a ideia de que a juventude é nossa esperança, que vai mudar nosso futuro. Não é uma esperança pelo que vai fazer no futuro, mas pelo que faz agora. No futuro, serão adultos e vão estar barrigudos. É hoje que a juventude traz esperança, porque denuncia e não se conforma.

O que você espera desse movimento que tomou as ruas em junho?

A juventude voltou a ser protagonista. Minha preocupação é como esse movimento com bandeiras muito pulverizadas vai voltar a mobilizar. A questão de voltar o preço da passagem foi uma conquista importante. E daqui pra frente? Quando os sem-terra saírem às ruas, essa juventude vai sair junto? O MST é o movimento mais importante do Brasil. Minha pergunta é: com essa pulverização de muitas causas, é possível uma política que faça alianças e que resulte em uma transformação de mais longo prazo?

O Brasil é um país conservador?


O Brasil tem uma classe patronal injusta, que não tem vergonha de explorar. Quando a pessoa ganha o Bolsa Família, para tirar a cabeça da miséria, essa classe reclama que aquele dinheiro está saindo do imposto dela. É horrível. Veja o caso da PEC das domésticas. Danuza Leão [colunista da Folha de S. Paulo] escreveu que era justo as domésticas terem horário para trabalhar, mas perguntou como ficaria o direito dos amigos dela de tomar um chá depois das 22h...

O que isso significa?

A pessoa está tão fechada no seu mundo que não se toca. Pensam que doméstica ter hora para dormir tira o direito deles de tomar o chá. É uma alienação muito profunda e sutil. A grande elite não considera o trabalhador com direitos iguais, mesmo após a abolição da escravidão.

Você faz parte da Comissão da Verdade. Como a vida das pessoas é afetada hoje pela falta de acesso à verdade sobre os crimes da ditadura?

A nossa anistia teve condições impostas por quem tinha a força. Não houve uma votação democrática. A gente sente aos poucos os sintomas de não ter havido uma verdadeira reparação da violência e da ilegalidade do Estado. O primeiro sintoma evidente é que a brutalidade do Estado permanece contra os mais pobres. A tortura permanece no Brasil. Só que isso não sai na imprensa, porque quem poderia denunciar tem medo. São as mães dos meninos que estão na cadeia, são as mães dos mortos de maio de 2006.

Os mortos pela polícia após os ataques do PCC?


Em maio de 2006, depois dos ataques do PCC [facção criminosa Primeiro Comando da Capital], a polícia de São Paulo entrou numa ação de vingança. Em uma ou duas semanas, matou mais do que matou na ditadura militar. Foram mais de 400 jovens. Só que as mães têm medo de denunciar. Até hoje tem desaparecidos. A tortura continua, a impunidade da tortura continua e o medo de denunciar a tortura continua. Porque as polícias continuam militarizadas. E em alguns Estados, como em São Paulo, é interesse do governador que continue esse terror que a polícia espalha entre as classes baixas.

Que outros resquícios da ditadura ainda continuam?


O Estado continua autoritário em suas relações com o povo. Se você for em qualquer repartição pública paulista, você será maltratado. Não necessariamente vai ser preso, mas vai ser considerado um cidadão de segunda categoria. Há falta de informação. Não se sabe por que a sua consulta é agendada somente para dali três meses. Não se sabe por que o médico não veio. Não se sabe exatamente para que local você tem que ir. Não te informam direito. Esse autoritarismo, que continua, é cotidiano. É sintoma de 40 anos de ditadura sem reparação.

Quais as consequências da violência nas periferias da cidade?

A principal consequência é o medo. A violência aprofunda o fosso da desigualdade. Se o jovem da periferia participar de uma manifestação na Avenida Paulista, ele não vai ser preso. Mas se fizer uma manifestação lá no Jardim Ângela ou no Capão Redondo, pode ser duramente reprimidos e marcados pela polícia.

O que se espera com o relatório final da Comissão da Verdade?

O que a gente espera é que, quanto mais informação a sociedade tenha sobre esse período, menos se apoie a ditadura. Não podemos esquecer que a ditadura só se impôs porque teve apoio de uma parcela da sociedade. O relatório pode criar uma rejeição profunda à volta de um regime como a ditadura, mesmo de quem nunca sofreu nada naquele período. A gente espera que o relatório vá para as escolas para que até as crianças possam entender.

Mariana Desidério, do Brasil de Fato
No Vermelho
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A borboleta virou lagarta?


O tabuleiro mexeu: Campos e Marina estarão juntos em 2014.

Nasce a 'quarta via', o socialismo econeoliberal. "Para destruir o chavismo do PT", diz a suave senadora que deixou o PT em 2009, 'para ser coerente com a luta 'pelo desenvolvimento sustentável'.

Marina decidiu.

E comunicou a seus pares em caráter irrevogável: será a vice de Eduardo Campos, que ganha assim um discurso palatável à classe média, ele que antes só falava à Fiesp e à Febraban.

Marina perde a Rede, mas sobretudo, a aura de maria imaculada e ganha a companhia dos Bornhausen, os afáveis banqueiros de Santa Catarina, que terão o comando do PSB no Estado e voz ativa na esfera nacional.

Os Demos também querem 'destruir o chavismo do PT' e tem precedência na fila. É natural que ocupem espaços.

Parece não incomoda-la: Marina é obstinada. Tudo pela causa. A sua passa a ser a mesma de Campos, Aécio, Serra, Freire e a da plutocracia em busca de uma 'terceira via' para capturar o Estado novamente.

Todos contra Dilma.

Funciona?

Dúvidas: quanto vai durar o casamento entre o personalismo anêmico de votos de Campos e a pureza armada de Marina?

Como evitar que a identidade de propósitos da frente anti-petista apenas pulverize os votos dos já convertidos?

Marina Silva prometeu neste sábado 'sepultar de vez a velha República'. São palavras fortes.

Mas o que cogitaria como nova República um Heráclito Fortes, por exemplo, outro demo recém convertido ao socialismo complacente do PSB?

Como diz Zizek, passada a fase alegre dos consensos, será preciso ir além, sem se transformar em um desastre.

A ver.

No Carta Maior
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Eduardo/Marina é o novo PSDB

Eles acham que a Dilma vai fracassar – e o PSDB também

Ele preferiu sair ao lado do Aécio...

O profeta Tirésias estava na varanda, entre Varginha e Três Corações, em Minas, tomava do “melhor o melhor café do Brasil” e degustava, calmamente, uma fatia do queijo Serra da Canastra.

Ou seja, preferia não ser incomodado.

Mas, o ansioso blogueiro, como é ansioso, insistiu.

– Desculpe, incomparável Profeta, mas, e agora, com o casamento da 'Bláblárina' com o Eduardo Campriles?

– Campri, o que , meu filho ?

– Nada, nada, Profeta.

– Bem, a primeira observação é que você acreditou que ela ia para os braços do Roberto Freire.

– E quem disse que não vai, também, também…

– Você talvez tenha razão.

– Mas, Profeta, o que vai acontecer do ponto de vista eleitoral.

– Primeiro, louve-se a esperteza do Eduardo Campos. Foi uma tacada e tanto.

– Por que, Mestre?

– Porque ele saiu de Pernambuco, de braços com a Marina…

– Blablá…

– O quê?

– Deixa pra lá, Profeta. Prossiga.

– O Eduardo fez o que o avô dele não conseguiu: sair de Pernambuco. Não saiu sozinho, mas, de qualquer forma, saiu.

– Saiu, mas entregou o socialismo dele ao verdismo direitista da Marina…

– E quem disse que ele não estava já na Direita?

– Como assim?

– Aquela foto dele com o Aécio.

– Qual o problema?

– Meu filho, se eu quero ser presidente da Republica… é mais negócio sair ao lado do Lula ou do Aécio?

– É, da fato…

– Ele já tinha feito a escolha dele: sair da Esquerda e ser o candidato da Direita…

– Como o 'Cerra'…

– O 'Cerra' fez isso, desde que abandonou a sede da UNE…

– É verdade, Profeta. Mas, é do ponto de vista eleitoral?

– Eles vão continuar com os 15%, 18% da Marina. E mais uns caraminguás do Eduardo.

– Não vai ter o que os economistas chamam de “sinergia”? Dois mais dois dão oito…

– Eles vão disputar os votos que não eram e são da Dilma. Vai ser uma batalha do lado direito do espectro político.

– Porque com o PT e o Lula não tem pra ninguém do lado esquerdo, do centro para a esquerda. É isso?

– É o calculo que o Eduardo deve ter feito, lá atrás, quando acreditou que tinha sido o grande vencedor das eleições de 2012…

– Todas as alianças dele soa pela Direita…

– Malafaia, Heraclito, Bornhausen, a destituição do presidente do Partido no Rio. Ele já caiu pro lado de lá.

– Então vai ser uma luta feroz entre Eduardo, 'Bláblárina', Aécio e 'Cerra'…

– Não, meu filho, o Eduardo e a Marina são o novo PSDB.

– Por quê? O PSDB acabou?

– Quase. Vai demorar um pouco, porque o PSDB está infiltrado no PiG. Mas o Golpe o Eduardo foi no coração do PSDB. Ele pensou assim: a Direita – e os financiadores da Direita – são meus e da Marina. Não tem pra ninguém!

– Mas, o 'Cerra', o Fernando Henrique…

– Caput, meu filho. C’est fini, diria o Principe da Privataria.

– Então o Aécio também c’est fini?

– O Aécio tá fugindo do jogo desde 2010. Agora, foi eleito presidente do PSDB, fez o programa do Partido, e, quando o 'Cerra' disse “eu fico!”, ele foi lá disse que a decisão fica para o ano que vem… Entregou o ouro.

– Fugiu.

– O 'Cerra' tem mais coragem. Uma coragem suicida.

– E no segundo turno, todos unidos contra a Dilma.

– Segundo turno? A Dilma está onde sempre esteve.

– E a 'Bláblárina'?

– Ela vai ter que dar um salto mortal para se explicar, daqui pra frente. Que historia é essa de “política nova”, “métodos novos? Com o Bornhausen? Com a Ana Amélia no Rio Grande do Sul? Com a RBS? E as outras alianças Brasil afora com os tucanos?

– Sim, mas ela não tem um compromisso filosófico com a Rede? Com os verdes?

– A Rede é do capitulo da marqueteria. O projeto dela não é político, partidário, programático, filosófico, nada (clique para ler “Bláblá é um salto no escuro”).

– O que é?

– Pessoal. É uma vingança.

– Contra o que, quem?

– A Dilma!

– Por quê?

– Porque ela não foi a Dilma em 2010.


– Globo o quê?

– Deixa pra lá, Profeta. E a Globo?

– A Globo vai nomear o Cerra pra Receita Federal…

– Desculpe, não entendi, meu filho.

– Deixa pra lá, Profeta. Mas, e a Globo?

– Vai ser Eduardo desde criancinha.

– Mas, o Eduardo… não é socialista, a “terceira via”?


– Tá bom, Profeta. Mas… e o Eduardo? Qual é dele?

– Ele. Na Esquerda ele sumiu. O Lula engoliu ele. Ele acha que tem um buraco na Direita brasileira. E quem vai ocupar isso é ele. Que a Dilma vai fracassar. E o Brasil vai cair no colo dele. Nem que seja pra inventar o Socialismo Verde… Depois do Socialismo Moreno do Brizola, agora teremos o Verde. Que, como se sabe, pode apodrecer ante de ficar maduro.

– Calma, Profeta… Mas, todo político é assim, “sou mais eu”…

– O Eduardo quer ser em 2014 o Fernando Henrique de 2018… Só que… só que… o Eduardo… ele é oco.

– Oco?

– Pergunte ao Ciro. Pergunte ao Janio. Não foi ele quem disse que o Eduardo era um embuste ao apoiar a Dilma e um embuste ao se lançar conta ela?

– Pensei que você fosse citar o Roberto Amaral, aquele da frase… o PSB não ser Viagra do PSDB…

– Não sei ser o Viagra, não.

– Vai ser o quê ?

– Vai ser o próprio… do PSDB…


Pano rápido.

No Conversa Afiada
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Rede e PSB montam coligação fantasma


Ninguém entendeu nada. Nem os jornalistas, nem os políticos, nem a própria Marina Silva e o próprio Eduardo Campos. Tentando disfarçar o casuísmo algo desesperado de Marina Silva de se coligar ao PSB, ela inventou uma “coligação democrática”, na verdade uma coligação fantasma entre uma legenda que não existe e um dos partidos mais pragmáticos do país.

Enfatizou que não está fazendo uma aliança pragmática, mas programática, quando se trata exatamente do inverso.

O PSB, com todo o respeito que se deve a um partido tradicional da política brasileira, é exatamente o oposto de tudo aquilo que a Rede vinha propondo a seus militantes. Talvez não haja partido mais afeito ao “pragmatismo”, na pior acepção desta palavra, do que o PSB, e particularmente o PSB de Eduardo Campos.

Em nome de sua candidatura, Campos tem se aliado com o que há de mais reacionário e atrasado na política brasileira, atraindo para o partido gente como a família Bornhausen e Heráclito Fortes. Além do apoio de Ronaldo Caiado.

O PSB, nos últimos anos, aliou-se ao PT no governo federal, e ao PSDB nos estados. Que pragmatismo é mais descarado do que esse?

Além disso, Marina Silva externou uma vitimização lamentável, tratando o Tribunal Superior Eleitoral como se estivesse lidando com hidrelétrica inimiga, e não a instituição mais importante da burocracia democrática, um dos bastiões institucionais mais respeitados pelo povo brasileiro e pela classe política.

Sirkis, Feldman, Domingos Dutra, Pedro Ivo, a cúpula da Rede também se filiou ao PSB. Eu fico pensando o que passou pela cabeça de Sirkis ao se ver assinando às pressas a filiação num partido que jamais se preocupou com o meio ambiente ou com o desenvolvimento sustentável.

Recuso-me a comentar uma suposta declaração de Marina Silva sobre derrotar o “chavismo do PT” e que havia 2 mil pessoas recebendo dinheiro público para falar mal dela nas redes. É muita baixaria. É coisa do Serra.

O maior perdedor foi Aécio Neves e o PSDB.

Nem falo de Roberto Freire, que ficou com a terceira brocha na mão em poucos meses. Tentou se fundir com PMN e não conseguiu. Ofereceu-se despudoradamente a Serra e foi esnobado. Por fim, ofereceu-se de forma ainda mais sem vergonha à Marina, e foi desprezado.

Eduardo Campos, ele sim, certamente, foi o grande ganhador desse imbróglio todo.

Assistimos hoje a uma inesquecível aula de hipocrisia e demagogia.

Miguel do Rosário
No Tijolaço
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Caiu a máscara: Marina diz que quer acabar com a hegemonia e o chavismo do PT


BRASÍLIA - Numa reunião que terminou às 4h30m da madrugada deste sábado com muito choro, a ex-senadora Marina Silva comunicou a seus seguidores que seu sonho de ser presidente da República teria que ser adiado, e que seu projeto, agora, é acabar com a hegemonia e o "chavismo" do PT no governo. Acusada pelo deputado Alfredo Sirkis (PV-RJ) de ter um processo de decisão "caótico", Marina chegou à reunião dizendo que tinha tomado uma decisão sem volta: seria candidata a vice na chapa presidencial do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e sua posição era inegociável. Na reunião, ela não ouviu, só falou. Mas depois houve uma choradeira geral. Marina então relatou sua conversa com Campos ao telefone:

- Eduardo, você está preparado para ser presidente do Brasil? Eu vou ser sua vice e estou indo para o PSB - contou Marina, relatando ainda que Campos ficou mudo, mas muito eufórico.

Ela disse que ia ouvir a todos, mas que não voltaria atrás, porque estava sem alternativa. Todos ficaram contra, cada um com seus argumentos. Seu braço-direito da vida inteira, Pedro Ivo batista, seu maior conselheiro, estava por fora do acordo.

- Eu fiz esse acerto com o Eduardo Campos porque chegou a um ponto que eu não tinha outra alternativa. E o PSB é um partido sério. A minha briga, neste momento, não é para ser presidente da República, é contra o PT e o chavismo que se instalou no Brasil - disse Marina.

- Mas você sabe que se fizer isso vai ter que abrir mão do sonho de ser presidente - ponderou Pedro Ivo.

- Esse sonho vai ficar para outro momento. Vou ser vice do Eduardo e acabar com essa hegemonia do PT na Presidência - disse Marina, mostrando ressentimento com o que considera que foi feito para barrar a criação do Rede.

Ela disse que a combinação é para que a coligação seja PSB/Rede, para que o Rede se incorpore tão logo seja criado. Marina reclamou muito de perseguição dentro do governo e do PT contra ela. Disse que seria muito pior se fosse para um nanico como o PEN ou PMN.

- Eu seria desossada com muito mais facilidade. Seria tratorada. Eu sei que tem mais de duas mil pessoas pagas com dinheiro público para acabar comigo nas redes sociais - disse Marina.

No O Globo
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Todos erraram. E a aliança Marina-Eduardo muda todo o quadro eleitoral de 2014


Todos erraram. Os jornalões não chegaram nem perto. A Veja torcia por José Serra. Até a CartaCapital errou, ao apostar na filiação ao PPS. Mas Marina Silva e Eduardo Campos (PSB) se aliaram, como prevíamos ontem no nosso blog. E mudaram todo o quadro eleitoral para 2014. Lembrem que, em abril, nós já havíamos alertado para ninguém se surpreender caso Marina se tornasse vice de algum candidato da oposição

Mas essa mudança do quadro eleitoral não é necessariamente contra Dilma e o PT. Pode ser que Aécio Neves seja o principal perdedor. Basta avaliar o novo cenário, se tudo se confirmar no final do prazo legal.

Mas sem dúvida a aliança Marina-Eduardo muda o quadro eleitoral de 2014!

Filiação

O anúncio formal da filiação de Marina ao PPS ocorreu na tarde deste sábado, num ato político em Brasília, ao lado de Eduardo Campos. Desde a manhã, a notícia já estava dada, mas sem a confirmação oficial.

Por ora, não foi anunciado quem será candidato a presidente e quem será candidato a vice em 2014.

ZéDirceu
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Não é reviravolta. É a direita que se vira e volta


O senador Aécio Neves, a esta altura, deve estar em cólicas.

Confirmada a adesão de Marina Silva à candidatura Eduardo Campos e sua presença como vice do neocoronel nordestino, sua já frágil candidatura entra em parafuso.

Nem tanto pela eventual expressão eleitoral que possa ter Campos como candidato de Marina, que é algo ainda a ser provado, porque vice tem a importância eleitoral que Índio da Costa ilustra bem.

Mas porque isso pode significar um movimento de reposicionamento do poder econômico em favor do “galeguinho dos olhos verdes” como forma de tentar derrotar o projeto progressista que Lula, com Dilma, representa.

Ou, traduzindo melhor, um definitivo abandono da elite paulista ao PSDB como seu instrumento de captura do poder.

Em política, todos sabem, as somas não são aritméticas.

Os quatro de Campos e os dezesseis de Marina não somam 20.

Mas, talvez, somem os 13% de Aécio.

E um candidato “confiável” para a direita com mais de 13% não é o mesmo que Marina com 20 ou 25%.

É uma alternativa, que Marina não era, sozinha, cabendo-lhe o papel, apenas, de garantir o segundo turno, quando fosse ultrapassada pela ação da máquina partidária do PSDB.

Do estranho “contubérnio”, como dizia o velho Brizola, entre Campos e Marina, renasce José Serra.

Serra é o “Boi Garantido” da direita, papel que Aécio não conseguiu conquistar.

Está vivíssimo, de novo.

Aécio perdeu o duelo dos netinhos.

Talvez seja preciso chamar o vovô.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Serra desistiu? Aécio que se cuide!

Ele

Em entrevista neste sábado ao jornal Estadão, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) reforçou a dúvida que atormenta os tucanos. Apesar de ter anunciado que não trocaria de partido para disputar as eleições presidenciais de 2014, o eterno candidato José Serra ainda está no páreo e vai dar muita dor de cabeça para o cambaleante Aécio Neves. “O Serra tem enorme prestígio político, pessoal, tem voto. Ele tem prestígio real e seu engajamento na campanha é muito importante para a vitória, seja ele candidato ou não. Essa decisão nós só vamos oficializar no ano que vem”.

“Eu diria hoje que a maioria dos militantes do PSDB pende para o Aécio, mas a candidatura Serra, se ocorrer, será vista com naturalidade por todos”, completou Aloysio Nunes, um serrista de carteirinha. A entrevista desmonta a imagem de unidade tucana que os seguidores do senador mineiro e presidente da sigla tentam plantar na mídia amiga. Nada ainda está definido no principal partido da oposição e a decisão da ex-verde Marina Silva de ingressar no PSB e fazer uma dobradinha com Eduardo Campos deve conturbar ainda mais o conflagrado ninho tucano.

No próprio anúncio de que não abandonaria o PSDB, o ex-governador paulista foi enigmático. Ele não disse que apoiaria Aécio Neves – nem sequer citou o seu nome. “A minha prioridade é derrotar o PT, cuja prática e projeto já comprometem o presente e ameaçam o futuro do Brasil... O PSDB, partido que ajudei a conceber e a fundar, será para mim a trincheira adequada para lutar por esse propósito. A partir dela me empenharei para agregar outras forças que pretendem dar um novo rumo ao país”, afirmou o maroto José Serra em sua página no Facebook.

Ao “festejar” a decisão do seu rival de permanecer na sigla, o cambaleante presidenciável tucano também foi cauteloso. “Ainda não é o momento definir a candidatura presidencial do PSDB e do conjunto de forças que se dispuserem a marchar conosco. A presença de José Serra em nossas fileiras fornece a nós, tucanos, e aos partidos aliados uma opção de grande dimensão política a ser avaliada no momento e segundo critérios adequados para o sucesso da luta comum”, afirmou Aécio Neves numa lacônica nota oficial.

Como registrou na ocasião Josias de Souza, blogueiro da Folha com livre trânsito do ninho, as duas manifestações evidenciam que a rinha tucana ainda não foi decidida. “Quem olhar para o PSDB acreditará na possibilidade de paz no Oriente Médio... Serra tentou de tudo para virar candidato. Mas, tudo não quis nada com ele. A bordo do PPS, teria um tempo de propaganda mixuruca. Os financiadores de campanha torceram o nariz. E Serra se deu conta de que a coragem é essa curiosa qualidade que foge justamente nos instantes de maior apavoramento. A taxa de desunião do PSDB não aumentou. Continua nos mesmos 100%”.

Altamiro Borges
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Marina no PSB é pragmatismo na veia e a morte da Rede

Marina torna a cadidatura de Campos muito mais forte, e acaba de matar a Rede Sustentabilidade

A notícia da vez em relação à decisão de Marina Silva é de que ela vai se filiar ao PSB. E que pode ser candidata a vice na chapa de Eduardo Campos. O PSB é um partido muito melhor do que a ampla maioria dos partidos políticos no Brasil. Mas não é diferente da maior parte deles. Ao contrário, talvez tenha como maior vocação o governismo. Onde há governo, o PSB é a favor. Tem sido um partido mais pragmático que o PMDB, que é acusado disso o tempo todo na mídia.

O partido de Eduardo Campos apoiava o PT no governo federal, no Rio Grande do Sul, na Bahia, em Brasília. O PSDB, em Sâo Paulo, Minas e Paraná. E o PMDB no Rio de Janeiro. Brasil afora, em quase todas as cidades onde o PSB está montado, ele ou é governo ou é governo. São raros os lugares onde se acha um PSB de oposição.

A decisão de Marina parece ter levado esse pragmatismo em conta. Ela se filia num partido que de alguma forma não é de direita, nem de esquerda e nem de centro. É governo. O que a leva a ter na vida real um espaço concreto para operar politicamente.

O jogo das eleições de 2014 fica muito diferente com essa sua decisão. Porque a candidatura Campos passará a ser muito mais forte. Mas ao mesmo tempo, Marina acaba de matar o que poderia vir a ser a Rede Sustentabilidade. Porque não fará sentido para muitos daqueles que a acompanharam integrar um projeto como o do PSB, que em vários lugares tem no comando do partido políticos altamente vinculados com o conservadorismo e a velha política. Em Santa Catarina, por exemplo, Campos acaba de entregar o partido aos Bornhausen.

O fato é que Marina se pintou. Se pintou para a guerra. Sua decisão de ir para o PSB é muito mais uma ação pragmática para tirar o PT do governo federal do que qualquer outra coisa. Ela faz parte de um projeto onde estarão não só Campos, mas Roberto Freire, Serra, Aécio, Borhausen etc.

Por fim, se Marina se filiou ao PSB por “questões programáticas”, imagino que a questão ambiental não esteja entre elas. Na votação do código florestal o partido liberou sua bancada para votar a favor ou contra o código. E a bancada se dividiu praticamente ao meio. Ou seja, metade votou com os ruralistas. É esse o programático de Marina? Ou seria o pragmático…

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O começo do 2º turno


O ingresso de Marina Silva no PSB tem implicações sobre o conjunto da campanha presidencial para 2014. Na prática, o segundo turno já começou.

Vamos entender o que aconteceu. Ao oferecer o PSB para Marina Silva, Eduardo Campos trouxe, para dentro de sua legenda, a candidata que é segunda nas pesquisas de intenção de voto. O próprio Eduardo Campos está em quarto lugar, não sai do chão e acaba de sofrer uma derrota interna importante. O governador do Ceará, Cid Gomes, deixou o PSB. Em matéria de dissidência, seria equivalente, no PSDB, a Geraldo Alckmin romper com Aécio Neves e abandonar o partido, levando embora os votos de São Paulo.

Acabo de ouvir um líder importante do PSB. Ele me garante que Campos e Marina vão formar uma chapa e que o governador de Pernambuco será o titular, deixando para a nova aliada será a vice. O acordo é este, garante. Também é isso que dizem pelo lado de Marina.

Por mais respeito que tenha por essas pessoas, sei que os segredos fazem parte da política. Duvido e dou risada. Não acho que Marina foi ao PSB para ser vice de um candidato que tem 25% de suas intenções de voto. Se fosse para isso seria melhor ficar em casa em nome dos princípios da Rede de Sustentabilidade e pronto.

Em segundo lugar, a experiência demonstra que ninguém vota em vice-presidente. Vota-se no titular, obviamente. Desse ponto de vista, a aquisição de Marina não acrescentaria muita coisa a Eduardo Campos. Outra questão: você acha que o neto de Miguel Arraes poderia beneficiar-se do discurso anti-político de Marina?

Na verdade, essa composição resolve muitos problemas para as partes. Assegura uma legenda a candidatura de Marina. E pode abrir uma saída para seu novo parceiro.

Enfraquecido e sem perspectivas de crescimento na eleição presidencial, Eduardo Campos fica liberado para disputar uma eleição que pode vencer, para senador, em vez de correr o risco de ficar sem um único mandato para chamar de seu depois de 2014.

Mas não é só isso. Se Marina era a única candidata da oposição que não fazia água, um eventual crescimento de sua candidatura nos próximos meses pode provocar outra mudança. Estou falando de Aécio Neves.

Até março de 2014 será possível definir, oficialmente, quem concorre a qual posto eleitoral. Imagine se, até lá, Aécio estiver no mesmo lugar de hoje, em terceiro, mas a uma boa distancia do segundo lugar. Estará diante do mesmo cenário de Eduardo Campos: sofrer uma derrota e ficar sem mandato.

O apoio a Marina, em nome do conhecido discurso de “unidade das oposições”, pode ser uma excelente oportunidade para Aécio mudar o rumo de sua campanha. Teria a benção de boa parte dos empresários e, com certeza, dos meios de comunicação. Poderia reforçar o coro anti-petista, cada vez mais estridente e reacionário, com a voz suave de quem esteve lá, como Marina.

Basta olhar para a disputa pelo governo de Minas, onde o PT apresenta-se com um ministro e um dos maiores empresários do Estado, para constatar uma novidade. Pela primeira vez em sua história, o PSDB encontra-se sob o risco real de uma derrota por falta de candidato a altura. Se ficar sem chance na luta presidencial, Aécio poderia ser levado a salvar os móveis do PSDB na disputa estadual e voltar para Minas. Essa possibilidade, que parece muito remota agora, delirante até, explica a permanência do eterno candidato a presidente José Serra no PSDB.

Por trás de tantas mudanças, encontra-se uma situação real, que é o risco da oposição sofrer uma quarta derrota consecutiva para o condomínio Lula-Dilma desde 2002. Com 38% das intenções de voto, contra 32% para a soma dos adversários, Dilma ameaça os concorrentes com uma possível vitória no primeiro turno. É essa musica adversa que provoca movimentos entre seus adversários.

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A volta do morto-vivo

Aécio renuncia à pré-candidatura.

Embate entre Aécio Neves e José Serra não está definido
José Cruz/ABr
Aparentemente, a disputa presidencial voltará ao embate já corriqueiro entre o PT e o PSDB. Tem sido assim ao longo dos últimos 20 anos. Ou seja, cinco eleições presidenciais. Pode haver uma variação no sexto confronto, em 2014, se o tucano mineiro Aécio Neves for candidato. Os paulistas estiveram presentes em todas as seis disputas pela cadeira do Planalto, em eleição direta, após a ditadura.

Ele, no entanto, não é mais uma aposta certa dos tucanos. Tímido como pré-candidato, ele cedeu à pressão do forte reduto tucano de São Paulo. Alguém diria que as costas de Aécio, com tantos alfinetes espetados, lembram almofada de alfaiate.

Assim, de repente, embora não surpreendentemente, o cenário da disputa presidencial no tucanato passou a indicar a possibilidade de uma virada. Isso está prenunciado na nota oficial distribuída na terça-feira 1º de outubro pelo próprio Aécio Neves. Na condição de presidente do PSDB, anunciou e cobriu de louvores a permanência de José Serra no ninho.

“A presença de Serra em nossas fileiras fornece a nós, tucanos (...), uma opção de grande dimensão política a ser avaliada no momento e segundo critérios adequados para o sucesso da luta comum.”

Em outras palavras, ainda não há candidatura definida no PSDB.

Agora se entende melhor a indefinição de Aécio. Embora oficiosamente sagrado pré-candidato, não assumia inteiramente o papel. Dessa forma, tornou-se um alvo fácil, mesmo tendo sido dado a ele, pelo partido, o papel de estrela única do programa de televisão. Já há reações sensíveis no PSDB, onde Serra era considerado, equivocadamente, um morto-vivo. Não existe, porém, morte política.

Por que Aécio renunciou à condição de pré-candidato e jogou para março de 2014 o anúncio da candidatura oficial do partido? Assim queriam os serristas. Terão, então, seis meses para religar fios internos e melhorar a posição junto aos diretórios estaduais.

A presença do paulista Serra força a realização das prévias, com as quais Aécio se comprometeu talvez apenas como um gesto diplomático. Não por acaso, o senador “serrista” Aloysio Nunes Ferreira lembrou no mesmo dia que o PSDB reabriu as portas ao grupo: “Em nenhum momento foi descartado que haverá prévias”.

A certeza em Aécio era tanta que alguns institutos (Datafolha e Ibope) já haviam decidido excluir Serra da lista das pesquisas. Tinhoso, ele assumiu pessoalmente a tarefa de se manter na lista de pré-candidatos.

Essas sondagens podem ter influência na persistência de Serra. Elas indicam a dificuldade de Aécio de escalar o patamar das intenções de voto. Os dois vivem em empate técnico, com o paulista em ligeira vantagem.

Como afastar Serra da disputa entre os tucanos, se ele mantiver a preferência do eleitorado, sinalizado nas intenções de voto registradas nas pesquisas?

Há quem conte com a rejeição do eleitor por ele. Nesse sentido é o único pré-candidato que destoa muito da curiosa situação de empate entre os candidatos.

Rejeição, no entanto, é construção cultural. Um preconceito que, como qualquer outro, pode ser desconstruído. Aécio, porém, não pode contar só com essa rudimentar teoria. Agora, com Serra ao lado, será forçado a dormir de olhos abertos.

Mauricio Dias
No CartaCapital
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Paulo Coelho e a extravagante lista dos 70 escritores de Frankfurt

O mago

A ausência de Paulo Coelho sempre preencherá alguma coisa.

Essa frase me ocorreu quando soube da decisão de Paulo Coelho de não participar da (enorme) delegação brasileira que estará na Feira de Livros de Frankfurt. Nela, a literatura brasileira receberá uma homenagem especial dos organizadores alemães.

Paulo Coelho está protestando. Embora incluído, ele não gostou da lista de 70 escritores convidados pelo Ministério da Cultura para viajar para Frankfurt. Disse que só conhecia 20 dos 70.

Ele acusou os responsáveis pela lista de nepotismo. Algumas pessoas teriam sido convidadas por serem “amigas”. E o engraçado é que Paulo Coelho respondeu ao alegado nepotismo com nepotismo descarado: ele tentou enfiar na lista alguns escritores.

Não conseguiu. E em protesto saiu da delegação. Numa entrevista a um jornal alemão, ele anunciou a decisão, e aproveitou para falar mal do Brasil. Disse que no exterior sempre lhe perguntam o que aconteceu com o Brasil.

Ele poderia responder brevemente: “Aconteceu uma ditadura militar que nos tornou campeões mundiais de desigualdade.” Mas prefere responder com platitudes demoradas que fogem da essência do problema e parecem nascidas da leitura dos editoriais do Globo.

Uma alma mais cínica poderia sugerir a ele um acréscimo na resposta: “Aconteci eu, também.”

Paulo Coelho foi mal no episódio. Mas involuntariamente ele faz refletir sobre a extravagante decisão do Ministério da Cultura de levar 70 escritores brasileiros para Frankfurt, com despesas pagas pelo contribuinte.

É muita gente. Para que isso? Temos tantos escritores destacados que justifiquem tamanha quantidade de convites?

Não. Basta ver a lista. E atenção: isto não é uma exclusividade nacional. Peça a um francês que aponte 70 autores de seu país. Ou a um russo. Onde os Tolstois, os Flauberts? Na segunda, na terceira dezena você já não parece ter nomes a citar qualquer que seja sua nacionalidade.

Mesmo numa área em que somos tradicionalmente fortes: o futebol. Encontrar 70 jogadores dignos de uma seleção é uma missão quase impossível. Passe para a música, e a situação não muda.

Sejamos simples. Sejamos frugais. Sejamos parcimoniosos no uso do dinheiro do contribuinte. Sejamos “Mujicas”.

Esta é a principal lição que se tira do caso.

Paulo Nogueira
No DCM
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2014 mais perto

A um ano da eleição, o cenário é mais favorável a Dilma Rousseff do que aos concorrentes. A oposição tem problemas

Pesquisas apontam ampla vantagem de Dilma
 na corrida eleitoral
José Cruz/ABr
Deste sábado 5 ao dia da próxima eleição, um ano exato vai se passar. No domingo 5 de outubro de 2014, os brasileiros vão às urnas escolher o presidente da República, governadores, senadores e deputados.

Ao longo de 2013, a eleição presidencial apresentou-se de três maneiras. No primeiro trimestre, o favoritismo da presidenta Dilma Rousseff era imenso. Sozinha, ela alcançava algo em torno de 60% nas pesquisas, enquanto a soma de Marina Silva, Aécio Neves e Eduardo Campos, seus adversários mais prováveis, mal chegava a 25%.

O tamanho de sua candidatura não fazia, no entanto, sentido, considerado o modo como hoje se organiza politicamente a sociedade brasileira: era “grande demais”.

No segundo trimestre, iniciou-se um processo de redução da vantagem, que se intensificou e atingiu o ápice entre junho e julho, na esteira dos movimentos de protesto. A presidenta caiu abaixo de 35% e a soma dos outros foi além de 45%. Dilma ficou “pequena demais”, pelo que representa e pelo que são os oponentes.

Estamos no terceiro momento. Mudou o que alguns achavam definitivo em julho. Quem tem problemas são os outros e não Dilma.

Nas pesquisas mais recentes, ela reconquistou parte expressiva do que havia perdido e voltou ao patamar de 40%. Enquanto isso, e por consequência, caíram os adversários.

Em setembro, na pesquisa CartaCapital/Vox Populi e na última do Ibope, Marina perdeu parcela ponderável do que havia obtido recentemente: no Vox, retrocedeu a 19%; no Ibope, a 16%. Aécio e Campos estacionaram, um na casa de 10% e o outro abaixo de 5%. Resultado: reconfigurou-se um quadro em que Dilma Rousseff teria mais votos sozinha do que o conjunto de seus rivais. Em outras palavras, poderia vencer a eleição no primeiro turno.

Não deixa de haver paralelismo entre o acontecido a Lula em 2005 e o ocorrido com Dilma neste ano. Ambos, por razões diferentes, chegaram ao “fundo do poço” e se recuperaram. O primeiro o bastante para se reeleger. Dilma não parece estar no mesmo caminho?

Grave para as oposições é o fato de os problemas de seus candidatos a um ano da eleição não se limitarem ao mau desempenho nas pesquisas. As dificuldades são maiores.

Aécio e Campos podem não admiti-lo publicamente, mas esperavam muito mais da utilização do tempo de propaganda de seus partidos na televisão. Apostavam que, ao estrelar inserções e programas nacionais (e ao se assenhorar de boa parte das veiculações estaduais do PSDB e PSB), aumentariam o nível de conhecimento e crescer significativamente na intenção de voto.

Isso não aconteceu, porém, no primeiro semestre. E nada indica que ocorrerá no semestre em curso. Ou seja, a menos que alguma coisa extraordinária aconteça no primeiro semestre de 2014, quando terão a última janela de mídia de massa, ambos devem chegar ao período de campanha com o porte atual. Modesto, diga-se.

Para o candidato do PSDB, isso quer dizer que José Serra continuará no seu encalço. Se o mineiro não decolar, sempre haverá um correligionário a imaginar que, quem sabe, não seria melhor ter o paulista como opção. Como descartar um nome de desempenho igual (ou superior) nas pesquisas e que obteve 40 milhões de votos em 2010?

E Campos? Se permanecer com 4% ou 5%, qual poder de atração terá sua candidatura? Quantos, dentro do próprio PSB, não vão “cristianizá-lo”? Que novos partidos conseguirá arregimentar à procura de tempo de televisão?

Resta Marina Silva, às voltas com as conhecidas e incompreensíveis dificuldades para criar a Rede. E, por meio delas, deixando evidentes as limitações de seu projeto. Com a torcida da mídia antipetista, o apoio da “classe média ilustrada” e o endosso de milionários, o que lhe faltou? Se até um ­desconhecido ­ex-vereador do interior de São Paulo conseguiu fazer um partido para chamar de seu (no caso, o PROS), como explicar as trapalhadas da ex-senadora e seus simpatizantes? E o que dizer do recado transmitido, ao se imaginar merecedora de “tratamento especial” da Justiça?

Ao se levar em conta as boas notícias de seu lado e as más no entorno de seus adversários, o fato é que os 12 meses anteriores às eleições de 2014 começam bem para Dilma.

Queimou a língua quem, há dois meses, correu para vaticinar que ela estava fora do jogo.

Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi.
No CartaCapital
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Como a Constituição de Ulysses salvou o Brasil do Tea Party


No próximo dia 10, às 19 horas, no Barão de Itararé, estarei debatendo o tema das novas mídias com o sociólogo espanhol Ignacio Ramonet, ao lado de seu conterrâneo Manuel Castells, um dos grandes pensadores atuais sobre o fenômeno das novas mídias.

O texto abaixo faz parte de um conjunto de reflexões que penso levar ao debate.

Periodicamente, o processo civilizatório sofre soluços de insensatez, tempos bicudos em que falham as ferramentas institucionais de mediação, os avanços são esquecidos, a radicalização campeia e o jogo político se torna selvagem.

O que ocorre hoje nos Estados Unidos é ilustrativo de como se formam essas ondas e os riscos que trazem quando não são moderadas pelo sistema político institucional. Antes de ontem, o presidente Barack Obama deu entrevista angustiada, acusando parlamentares republicanos de terem perdido o controle do Tea Party.

É pedagógico analisar o fenômeno norte-americano, sua reprodução no Brasil e entender como, em alguns momentos - como foi na Europa dos anos 20 e 30 – as circunstâncias podem levar a sistemas autoritários. E como, em um país de tradição golpista como o Brasil - como prova a história no século 20 - impediu-se que o vezo autoritário se impusesse sobre o sistema democrático.

Os grandes momentos de inclusão

O ponto inicial  desses terremotos são os grandes momentos de inclusão da história.

Especialmente nos regimes democráticos, a civilização se forma a partir de processos gradativos de inclusão social e política. Foi assim na abolição da escravatura, nas lutas feministas e nos grandes movimentos migratórios, do campo para as cidades ou entre países.

Cada luta é um parto. Depois dela, o renascimento do país em um nível superior. Durante, criam-se momentos propícios para o exercício da intolerância, influenciando especialmente a classe média estabelecida, o chamado cidadão-massa, alienado em relação à política e às próprias organizações do seu meio.

É ele que se sente ameaçado  no seu emprego ou no seu status, nas suas convicções, em um quadro em que o ritmo das mudanças torna a vida imprevisível.

Nas últimas décadas aceleraram-se os grandes fluxos migratórios mundiais, de latinos e orientais em direção aos países centrais, houve a ascensão das massas miseráveis nos países-baleia e uma crise sistêmica que corroeu as bases ideológicas do neoliberalismo.

Na Europa e Estados Unidos aumentou a intolerância em relação aos imigrantes, especialmente depois que a desindustrialização interna e a bolha imobiliária empobreceram a classe média. No Brasil, a resistência em relação à chamada nova classe C.

Esses movimentos são potencializados pelas novas formas de comunicação, pelas redes sociais, permitindo pela primeira vez, em muitos países, manifestações políticas que geraram inúmeras “primaveras”. Mas também a difusão de preconceitos e intolerância.

Mas, principalmente, pela exacerbação da velha mídia, do velho conceito de mass midia, vivendo seus estertores.

O mercado das ideias

O conceito de “opinião pública” é central nas modernas democracias. São os ventos da opinião pública que elegem políticos e consagram meios de comunicação de massa, movimentam o mercado de consumo e o show bizz, vendem eletroeletrônicos e sonhos. E esse jogo é exercitado no chamado "mercado das ideias", com características comuns a outros mercados e algumas características próprias essenciais - como o fato de intervir nas relações psicossociais e políticas de um país.

É um mecanismo complexo. Na parte superior, há os grandes intelectuais, humanistas, políticos, lideranças sociais construtores da civilização, tentando consolidar princípios de justiça social, de mediação política, permitindo os avanços sem a perda de controle.

No meio, um conjunto de instituições fazendo a mediação: os três poderes, os partidos políticos, sindicatos, associações etc.

Na base, setores organizados, como grupos, ONGs, associações em geral. Mas também o homem-massa em estado bruto, movendo-se por instintos primários da generosidade ao ódio, da solidariedade à intolerância, sempre procurando cavalgar as ondas para não se abater pela solidão atávica das democracias e do mercado. As ondas podem levar tanto a uma campanha beneficente mas, muito mais, a linchamentos públicos.

O desafio surge nos grandes curtos circuitos históricos, nos momentos de crise que torna o mercado de ideias tão instável que rompe os liames entre a massa e os organismos de mediação. Cria-se o ambiente propício ao estouro de manadas, do qual se aproveitam os agentes oportunistas.

Foi o que vem ocorrendo nos últimos anos ao redor do mundo.

A crise de 2008 e o período que a precedeu transformaram em pó não apenas ativos financeiros mas bandeiras partidárias globais. Apresentou-se a desregulamentação total como panaceia para todos os problemas. Desde que o Estado saísse de todas as áreas, inclusive das redes de apoio social aos menos favorecidos e de garantias básicas aos cidadãos, haveria uma era de ouro de aumento generalizado do bem estar.

A crise de 2008 mostrou uma pesada conta paga e uma nova conta apresentada – nova dose de sacrifício para permitir aos países sair da crise.

É nesse quadro que aparecem os agentes oportunistas, dentre dois protagonistas relevantes do mercado de ideias: os políticos e a mídia de massa.

Agente oportunista 1 – o político

Nos Estados Unidos, a reação da massa foi o Tea Party e o discurso anti-árabes e anti-imigrantes. No Brasil, movimentos difusos de radicalização, fundados no anti-petismo, no anti-nordestinos, no anti-pobres em geral. Em ambos os casos, essa intolerância inicial não era organizada, mas disseminada por pequenos grupos que refletiam sentimentos comuns à classe média.

No início, a radicalização das ideias fica fora do arco de propostas dos partidos – mesmo dos mais conservadores. As propostas radicais ocupam espaço no vácuo das ideias dos partidos.

Nos Estados Unidos resultou no fenômeno Sarah Pallin – a ignorante governadora do Alaska que se tornou candidata a vice-presidente. No Brasil, na transmutação de José Serra, tido até então como um intelectual na política.

Serra nunca foi grande intelectual nem grande político. Mas era um dos melhores intelectuais dentre os políticos; e um dos melhores políticos dentre os intelectuais. E exemplo acabado de como as circunstâncias moldam as lideranças políticas.

Nos anos 90 apresentava-se como “desenvolvimentista” e liberal, embora não comprovasse com ações concretas. Nos anos 2000 mostrou-se como o gerente, embora nunca tenha sido grande gestor. No final da década, como o profeta dos velhos tempos, ameaçando com o fogo do inferno os ímpios e os imorais, embora nunca tenha sido probo nem conservador. Quando precisou, posou de intelectual; quando foi necessário, envergou o anti-intelectualismo mais atroz

Superou suas limitações políticas e intelectuais com duas características próprias: um feeling superior para captar os grandes movimentos de manada; a uma ambição ampla o suficiente para se adaptar a qualquer tempo, sem se balizar por coerência, princípios, ideias.

Em um país sem tradição de Tea Party ocupou o espaço vago a ponto de se tornar candidato a presidente em duas eleições.

Mas, para isso, foi essencial a aliança com outros agentes oportunistas no campo da velha mídia, especialmente com Roberto Civita, como se verá a seguir, que talvez tenha sido o verdadeiro criador do “novo-velho Serra”. Desse casamento emerge um exemplo extraordinário – e assustador – das estratégias midiáticas em tempos de instabilidade..

Agente oportunista 2 – a mídia de massa

Na mídia de massa, o processo é o mesmo dos políticos. Ela estará sempre ligada nas grandes ondas. Pode ser uma Copa do Mundo, um linchamento de suspeito, uma campanha pelo impeachment, uma guerra do Iraque, uma Escola Base. O veículo que consegue manobrar essas ondas, ganha um poder adicional.

Nos Estados Unidos, a onda conservadora foi cavalgada pela FoxNews, de Rupert Murdoch, empenhado em enfrentar as gigantes que surgiam no bojo das inovações tecnológicas, ameaçando o reinado dos grupos tradicionais de mídia.

Incorporou a linguagem do Tea Party e abriu mercado para o colunismo de esgoto, de uma agressividade quase pornográfica. Foi um estilo vitorioso, que chegou a ameaçar a eleição de Obama.

No Brasil, esse movimento foi importado pela Veja. E aí entra o fator Roberto Civita.

Desde a histórica revista Realidade, Civita tornou-se um grande especialista em entender os movimentos da mídia norte-americana e transportá-los para o Brasil. No final dos anos 60 percebeu o estilo do jornalismo-produto das revistas semanais, concebeu a revista Veja e a entregou ao grande nome que surgia na época, Mino Carta.

Mais tarde, esse padrão do “jornalismo produto” (em que as notícias são quase como "roteirizadas" antecipadamente) serviu de inspiração para a revolução da Folha nos anos 80.

Nos anos 70, Octávio Frias foi buscar o diferencial na imprensa alternativa da época, especialmente no Pasquim. Dos anos 80 em diante, a inspiração jornalística (não necessariamente política) veio da Veja.

Civita foi o primeiro a perceber a essência do movimento de radicalização de Murdoch e sua nova linguagem. E transportá-las para o Brasil.
O primeiro colunista a exprimir esse novo estilo, radical, agressivo, foi o finado Tales Alvarenga – que, na época, tinha coluna na Veja e o cargo de diretor responsável. Da noite para o dia nasceu um Tales de linguagem agressiva, que nunca havia se manifestado ao longo de sua carreira.

O primeiro grande teste foi a campanha contra o desarmamento, pesada, conservadora, mas que encontrou um eco extraordinário em segmentos da classe média.

Ali foi o ponto de partida. Pela primeira vez, desde a redemocratização, emergia das trevas o pensamento mais conservador e anacrônico e tinha uma enorme aceitação junto ao cidadão-massa.

Depois de Tales, a mão previsível do mercado criou uma legião de gladiadores. Em determinado momento, foi um estilo tão forte que contaminou o próprio noticiário. Desde os anos 50 não se teve um noticiário tão editorializado como nesses últimos anos.

E foi nessa emulação do modelo norte-americano, que Civita imaginou-se Murdock e pensou em Serra como Sara Pallin, a mídia como partido político e, sendo bem sucedidos, Serra, presidente, preservando a sobrevivência dos grupos de mídia nacionais contra a invasão dos novos gigantes da mídia o Facebook e Google.

É esse o modelo esquemático que norteou a ação da mídia de 2005 para cá e explica a parceria Veja-Serra.

Os anticorpos institucionais

Caso essa parceria tivesse sido bem sucedida, teria mergulhado o país em uma noite de São Bartolomeu porque, do mesmo lado, os dois maiores poderes da República: a Presidência da República e mídia, em um pacto de guerra de extermínio a toda forma de pensamento dissidente, de desarme do sistema de freios e contrapesos.

Em 2010 escrevi no fragor da batalha, e repito agora: as eleições de 2010 ainda serão tratadas pela historiografia como um marco, que impediu a invasão persa sobre a recém criada democracia brasileira. 

Aos poucos, o organismo institucional vai recobrando a racionalidade, seja no STF (Supremo Tribunal Federal), na Pocuradoria Geral da República, seja nos partidos políticos de ambos os lados, com a adesão cada vez maior de personalidades de princípios democráticos sabendo que a política – não os coliseus – é o campo para o debate de ideias e de divergências.

A estabilidade política, não só agora, como ao longo desses 25 anos, deve-se à Constituição Federal, que permitiu o feito extraordinário de um país historicamente sujeito a golpes de Estado consolidar os princípios democráticos, em meio a tormentas e terremotos ocasionais.

Não fosse a Constituição,no final do ano passado um grupo de alucinados do STF teria invadido o Congresso e empalmado o poder. Ao detalhar de modo claro a independência entre os poderes, a Constituição reduziu a margem de arbítrio na interpretação do texto constitucional, permitindo a reafirmação da legalidade.

O país deve gratidão eterna aos homens que, 25 anos, desenharam nossa Constituição. Especialmente ao grande comandante Ulisses Guimarães.

Luis Nassif
No GGN
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