22 de set de 2013

A entrevista de José Luis de Oliveira Lima, advogado de José Dirceu, para a Folha

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Na busca por Wächter e seu arquivo, “caçador de nazistas” esbarrou em bispo católico


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Ativista buscava dados sobre morte da mãe no Holocausto; Alois Hudal ajudou a acobertar comandante da SS

Terminada a Segunda Guerra Mundial, em 1945, centenas de sobreviventes do Holocausto passaram a procurar nazistas fugitivos para tentar levá-los à Justiça ou fazê-la com as próprias mãos. Aquele que ficou mais conhecido com essa iniciativa foi Simon Wiesenthal (1908-2005), cuja história se ligou à de Otto Wächter, comandante da SS e ex-governador da Cracóvia, na Polônia, e da Galícia, noroeste da Ucrânia.

Em seu livro “Assassinos Entre Nós”, Wiesenthal diz ter visto Wächter no dia 15 de agosto de 1942 coordenando os trens da morte que levaram judeus de Lemberg, hoje Ucrânia, para o extermínio. Cerca de quatro mil idosos foram arregimentados e enviados para campos de concentração. Entre eles, relembra o ativista judeu, estava a mãe que nunca mais tornaria a ver.

O filho de Wächter, Horst, nega a informação. Ao receber a reportagem de Opera Mundi no Castelo Hagenberg, Horst apresentou como prova uma carta do líder nazista à mulher, dizendo que estava em reunião do partido na Cracóvia. Ele diz ainda que Wiesenthal confundiu seu pai com Fritz Katzmann, que era o chefe da SS em Lemberg.

Carreira de Wiesenthal

Em favor da versão de Horst, além do documento, está o histórico de erros da obra de Wiesenthal. Ao tentar capturar o famoso médico de Auschwitz Joseph Mengele (1911-1979), que veio para o Brasil após a guerra, o pesquisador disseminou ao menos duas informações falsas.

Simon Wiesenthal
A primeira delas dizia que Mengele estava em Porto São Vicente, na região do Alto Paraná. No entanto, autoridades paraguaias responderam que tal localidade nem sequer existia. Antes disso, em novembro de 1968, Wiesenthal distribuiu à imprensa e aos órgãos policiais supostas fotos de Mengele nas ruas de Assunção. O fotografado, porém, não era o médico de Auschwitz.

O trabalho de Wiesenthal, no entanto, foi fundamental para muitos sucessos em prisões de nazistas. Teve papel relevante nas buscas por Adolf Eichmann (1906-1962), finalmente capturado em 1960 na Argentina e levado a Israel por agentes do serviço secreto do país, o Mossad.

Eichmann foi o responsável pela montagem burocrática do sistema de extermínio nazista, e seu julgamento, em 1962, foi um marco na história da condenação de criminosos de guerra. O caso também é bastante conhecido por ter sido objeto de reflexão da filósofa Hannah Arendt, que resultou no livro “Eichmann em Jerusalém”.

A prisão de outro nazista de alto coturno, o chefe do campo de Treblink, Franz Stangl (1908-1971), é resultado direto das pesquisas de Wiesenthal. Um genro de Stangl teria fornecido ao austríaco, já famoso pela busca de nazistas, a localização de Stangl, preso em 1967 no Brasil. Na época, ele trabalhava com o nome verdadeiro na Volkswagen, em São Bernardo do Campo (SP) e foi extraditado para a Alemanha, onde foi julgado e condenado a prisão perpétua.

Logo em seguida à prisão de Eichmann, animado com a captura, passou a considerar Wächter “o fugitivo nazista mais odiado”. Seu paradeiro, até então, era desconhecido e as circunstâncias de sua morte, duvidosas.

O comandante da SS e governador havia escapado para Roma sob nome falso, no pós-guerra. Passara a se chamar Alfredo Reinhardt e estava sob os cuidados do bispo austríaco Alois Hudal, responsável pela chamada “Linha dos Ratos”, que acobertou e facilitou a fuga de criminosos de guerra para a América do Sul – entre eles, Mengele e Stangl. Ele manteve sob proteção Wächter e seu arquivo, conhecido como “Arquivo Wächter”, no mosteiro anta Maria Dell’Anima, perto da Piazza Navona, em Roma.

Opera Mundi teve acesso às correspondências do ativista judeu depositadas no Instituto Simon Wiesenthal, em Viena, que narram a investigação sobre o paradeiro do comandante da SS e sobre seu arquivo, uma caixa de documentos do governo nazista na Galícia, que continha informações importantes sobre a morte de milhares de judeus no leste europeu.

Em sua investigação, Wiesenthal conseguiu reunir farta documentação proveniente de Berlim, como a ficha completa do comandante da SS e todos os seus passos na carreira militar, mas ainda buscava informações relevantes sobre os guetos e os trens da morte de Cracóvia, na Polônia, e Lviv, hoje Ucrânia, de onde saíram as locomotivas e vagões que levaram sua mãe.

Otto Wächter (esq.) com Heinrich Himmler (centro), durante a ocupação alemã na Polônia
Governo da Polônia

As correspondências, porém, mostram que os pedidos de informações preciosas sobre o paradeiro de Wächter e seu arquivo esbarraram nas negativas do esquivo bispo Hudal.

Insistência e frustração

Durante as décadas de 1950 e 1960, período em que Wiesenthal mais se esforçou em encontrar o arquivo, a morte de Wächter em Roma já havia sido noticiada por jornais austríacos e italianos. Mesmo assim, desconfiado das circunstâncias, o ativista judeu pediu diversas vezes ajuda a terceiros, que sondaram o bispo Alois Hudal sobre a morte e os pertences do comandante da SS.

“Meu colega, um alto aristocrata austríaco, visitou o bispo Hudal em 1950 e perguntou sobre o Arquivo Wächter. Hudal disse a ele que o arquivo estava depositado na ‘Anima’, mas que ele não poderia acessá-lo”, escreveu Wiesenthal em 21 de junho de 1961 a um procurador da cidade de Waldshut, no sul da Alemanha.

Sem desistir, Wiesenthal endereçou mais cartas a procuradores alemães e italianos, expondo a necessidade de encontrar os documentos. Em 28 de março de 1962, o ativista judeu recebeu uma resposta desanimadora da procuradoria de Ludwigsburg, dedicada a investigar os crimes do nazismo.

“Bispo Hudal declarou que nunca viu o Arquivo Wächter. Ele viu Wächter uma única vez e ele tinha sido envenenado, morrendo em um hospital de Roma. Ele é o diretor da igreja alemã assim chamada e deu a ele o último sacramento”, afirma o procurador. Ele continua: “Não vejo necessidade de continuar a investigação, afinal, as informações comprovam que Dr. Wächter não está mais vivo”.

Mesmo depois da negativa, Wiesenthal manteve correspondência com um de seus informantes, Theodor Faber, em Salzburgo. Em 3 de abril de 1962, pouco depois de receber a carta da procuradoria de Ludwigsburg, o ativista judeu afirmou que ainda acreditava que os documentos estariam na igreja, confiando na primeira informação recebida. No entanto, o arquivo nunca foi encontrado.

Em carta do arquivo, Wächter fala em fugir para o Brasil

Caro Ladurner!
Eis que volto agora da cidade completamente acabado. Durante o dia a temperatura chega a graus consideravelmente mais quentes. Mas as noites esfriam maravilhosamente. Eu agora entendo porque todos os homens aqui vestem camiseta regata por baixo da camisa. Resfria-se muito facilmente com a mudança de tempo, razão pela qual o guia Baedecker e a experiência de Deterling acham aqui muito pior que no Norte.

Leia aqui o restante da carta de Wächter 

O destino do arquivo

Horst Wächter, filho do comandante da SS, afirmou a Opera Mundi que sua mãe, “desesperada e sem saber o que fazer com os documentos”, destruiu o arquivo e deixou para sempre uma lacuna na história. Mesmo sem acesso aos números, dados e protocolos da administração nazista na Galícia, há documentos depositados no Castelo Haggenberg e compilados por Horst, sob análise de acadêmicos alemães, que podem ser considerados uma nova fonte de valor incalculável para a história do nazismo.

São centenas de fotos e correspondências entre Otto Wächter e sua mulher, Charlotte Bleckmann, que trazem informações inéditas sobre a atuação do comandante da SS à frente da administração da Galícia. As cartas atravessam a Segunda Guerra Mundial e chegam ao período em que o nazista estava escondido em Roma, sob proteção do bispo Hudal. As informações desenham um perfil detalhado do nazista, que encheriam os olhos de Simon Wiesenthal.

O ativista judeu morreu em 2005 sem saber o paradeiro daquele que considerava seu maior inimigo. Wiesenthal tentou, até a década de 1980, buscar mais informações sobre Wächter, novamente sem sucesso. Horst afirma que, àquela época, “não estava preparado” para abrir o arquivo. Foi a partir dos anos 2000 que mergulhou nos documentos. “Com o passar dos anos, a necessidade de dizer a verdade aumentou, assim como a reação contrária da minha família”.

No Opera Mundi
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Por que Gandra chutou o balde do STF

Se não foi possível degolar o Dirceu, o “domínio do fato” não pode pegar o Fernando Henrique 


A entrevista de Yves Gandra Martins à Folha, aquele jornal que se penitencia, agora, da pesquisinha que fez para amedrontar o Celso de Mello, a entrevista terá efeito devastador sobre o julgamento dos embargos infringentes, que Celso conferiu a Dirceu, Genoino, Delubio e João Paulo Cunha.

Gandra constrangerá alguns dos que votaram contra a aceitação dos embargos – menos, é claro, o Gilmar  e o Marco Aurelio Vaidoso de Mello.

Esses são impermeáveis.

Luiz "Fucks", já se percebe, começa a sentir que o mundo girou e a Lusitana rodou.
Clique aqui para ler “Acabaram as bombas atômicas da Globo”.

Até porque o relator, nesse caso, terá a importância do Mano Menezes na seleção do Felipão.

Por que Gandra, demiurgo do sistema conservador, chutou o balde do STF?

Porque não há provas contra Dirceu.

Mas, também, porque as bombas atômicas da Globo acabaram.

Se, com toda a pressão, todos os mervalicos pigais, todos os 18′ do jn nacional, com todas as luzes da global ribalta, o artigo de Marco Aurelio, o Vaidoso, inacreditável, no Globo, NO GLOBO!, com todas as pesquisinhas do Otavinho – com tudo isso, se, com tudo isso, o Direito foi reestabelecido e atenuadas algumas condições do “julgamento de exceção”, de um julgamento essencialmente político, partidário (porque anti-PT), se com tudo isso não será possível degolar o Dirceu para o jn, é porque, de fato, a Lusitana girou.

Com este Supremo e com o próximo, não se dará mais o Golpe.

De Estado nem no Direito.

É nesse ambiente político renovado que se deve entender a entrevista que chuta o balde.

Se não foi possível pegar o Dirceu, o que acontecerá se o “domínio do fato” sobreviver?

Agora, a se acreditar nas promissoras entrevistas do Procurador Janot, o pau que dá em Francisco também dá em Chirico.

E, aí, com o Supremo revigorado e o pau em Chirico, o que será do PSDB, do Aécio e sua emissora de rádio, do Principe de Privataria e do clã Cerra?

Quer dizer que o Dirceu tinha o domínio do fato, mas o Príncipe não tinha sobre a compra de voto?

O Padim Pade Cerra não tinha domínio sobre os fatos que cercam o enriquecimento de sua clã, como demonstrou o Amaury Ribeiro Junior?

É preciso reestabelecer o Direito, rapidamente.

Antes que o Presidente Barbosa legitime a Satiagraha e a Castelo na Areia tucana.

Já imaginaram o “domínio do fato” em vigor na hora em que o pau der em Chirico?

Um domínio sem fato bater na porta da casinha que a filha do Cerra empresta ao pai?

A tropicalização do “domínio do fato”, que o Supremo transformou no turbante da Carmen Miranda, só serve para pegar petista.

Agora, chega!

Se não enforcou o Dirceu, agora temos que esquece-lo.

Fazer que não existiu.

O professor Gandra Martins chutou o balde por uma questão de honestidade intelectual.

Ele leu a peça contra o Dirceu e não viu um fiapo de prova.

O advogado Gandra Martins ainda terá de voltar ao Supremo muitas vezes.

Chutar o balde terá sido uma decisão difícil.

Sergio Bermudes, que diz ligar para o Gilmar duas vezes ao dia, provavelmente, não ousaria tanto.

Mas, o professor Gandra é tão ingenuo na política quanto seu irmão, o renomado pianista João Carlos Martins.

Os dois conhecem a partitura.

Sabem Bach de cor.

Paulo Henrique Amorim
No Conversa Afiada
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Documentos sugerem que presidentes militares comandavam centros de tortura

Os generais João Figueiredo e Garrastazu Médici, em foto de 1978

Organogramas apresentados pela Comissão de Verdade de São Paulo mostram cadeia de comando da repressão

São Paulo – A ideia de “porões da ditadura” para definir locais ocultos onde se torturava e matavam os opositores do regime militar e militantes de esquerda é falsa, segundo constatação da Comissão da Verdade estadual de São Paulo. Em audiência realizada hoje (20) na Assembleia Legislativa, a comissão apresentou documentos em que fica claro que o aparato da repressão funcionava com base numa cadeia do comando e num organograma de Estado.

A oitiva “Os ditadores, o sistema de repressão política e a cadeia de comando” teve a participação dos presidentes da Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog (da Câmara Municipal paulistana), o vereador Gilberto Natalini (PV), e da Comissão Nacional da Verdade, Rosa Cardoso.

Segundo as pesquisas desenvolvidas pela comissão paulista, o sistema que começava no estado de São Paulo, por exemplo, funcionava a partir da Operação Bandeirante (OBAN) e chegava ao ditador, o presidente da República. A OBAN se reportava ao Destacamento de Operações de Informações (DOI), e a cadeia de comando seguia na sequência: Centro de Operações de Defesa Interna (CODI), chefia do Estado Maior do Segundo Exército, Estado Maior das Forças Armadas, Sistema Nacional de Informações (SNI) e, por fim, presidente da República.

Segundo o coordenador da comissão paulista, Ivan Seixas, o estudo e a sistematização dos aparatos repressivos demonstram claramente que “o torturador não está num porão, mas no sistema, através do qual ele se reporta por fim ao ditador, chamado Presidência da República”.

A comissão paulista pretende desmontar a visão segundo a qual torturadores e assassinos da ditadura (1985-1964) cometiam excessos não autorizados pelos comandos e pela alta patente da República.

“Porões dão a ideia de algo escondido, sem controle. A partir de agora vamos começar a trazer documentos para mostrar que não era nada por acaso, mas vinha do gabinete do presidente da República”, diz Adriano Diogo, presidente do colegiado.

Não foi por acaso, por exemplo, que o governador de São Paulo Roberto Abreu Sodré e seu secretário de Segurança Pública, Hely Lopes Meireles, foram os dois principais organizadores da Operação Bandeirante, lançada oficialmente em junho de 1969.

“Eram os homens de confiança do presidente da República que assumiam os órgãos públicos”, afirma Diogo. Um dos mais renomados é Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do DOI-Codi, órgão do Segundo Exército, por quatro anos (1970-1974). Ele comandava seções de tortura pessoalmente.

USP

No âmbito do estado de São Paulo, o sistema de espionagem passava pelos órgãos vinculados ao governo, entre os quais um dos mais caros ao regime era a Universidade de São Paulo.

Um documento apresentado pela Comissão da Verdade mostra a participação direta do gabinete da reitoria da USP no monitoramento de atividades acadêmicas e eventos políticos de iniciativa de então jovens lideranças.

O documento “Confidencial” trata de informações de atividades relacionadas à Semana dos Direitos Humanos e data de 24 de novembro de 1975. O reitor da USP na época era Orlando Marques de Paiva.

No cabeçalho, pode-se ver o trâmite das informações que passam pela DSI (Divisão de Segurança e Informação) do Ministério da Educação e SNI. Cada ministério tinha uma DSI.

“No período de 10 a 15 de novembro de 1975, realizou-se a Semana de Direitos Humanos na Igreja de São Domingos, situada na rua Caiubi-164-Perdizes-SP”, diz o documento. A seguir, lista as entidades que promoveram o evento, quase todas grêmios estudantis. Mas a relação inclui a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo.

A comissão da verdade mostrou um documento da Marinha, datilografado, em que se define o Sistema Nacional de Informações (Sisni) como “o conjunto de órgãos destinados a produção de informações em proveito da política de segurança e da política de desenvolvimento do país”.

Segundo o documento, o Serviço Nacional de Informações (SNI), “o órgão de cúpula do Sisni, tem como clientes principais” o presidente da República, “em primeira prioridade”, o Conselho de Segurança Nacional e sua Secretaria-Geral. Eram considerados “clientes eventuais do SNI” o poder Judiciário e o poder Legislativo.

Eduardo Maretti
No RBA
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Ilustre quem?


Pelo jeito o novo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, não busca os elogios fáceis da mídia: ao contrário de seus antecessores, não saiu anunciando com alarde que vai pedir a prisão imediata dos condenados na Ação Penal 470. Bom sinal de que conhece a lei e não procura as câmeras de TV.

O antecessor Roberto Gurgel pediu a prisão mesmo sabendo que o Supremo Tribunal Federal não a concederia, por ilegal. Mas valia, para ele, a exposição na imprensa.

A interina, uma desconhecida que fez tudo o que pôde para aproveitar os minutos de glória, repetiu várias vezes isso. Continua desconhecida.

ATENÇÃO, “JURISTAS” DA MÍDIA

Manifestações da população têm de ser levadas em consideração, e pesquisas de opinião dão indicações importantes para os que legislam e governam.

Mas juízes têm de julgar de acordo com as leis. Se as leis são ruins, devem ser mudadas pelos que legislam.

Não é porque as pessoas querem linchar um criminoso que o linchamento se torna legítimo. Não é porque a multidão dispensa o direito de defesa, tão certa está da culpa dos acusados, que ele não tenha de ser exercido.

Isso, em uma democracia, vale para amigos e para inimigos.

Hélio Doyle
No 247
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“Muitos que criticam os políticos cometem algum tipo de corrupção”

Oscar Pilagallo, jornalista, autor do livro
Corrupção - Entrave ao Desenvolvimento do Brasil

Para o jornalista e escritor Oscar Pilagallo, a visão de que a corrupção tem aumentado no Brasil pode estar distorcida, pois na época da ditadura militar, por exemplo, não havia instrumentos de transparência pública e a imprensa, principal meio de denúncia desse tipo de crime, estava censurada. “O que está aumentando não é necessariamente a corrupção, mas a percepção de que a corrupção existe”, diz ele em entrevista à Gazeta do Povo.

O jornalista acaba de lançar o livro Corrupção – Entrave ao Desenvolvimento do Brasil, escrito com base em debates entre 14 pessoas conhecedoras do tema em 2012, num evento promovido pelo Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (Etco). Uma das conclusões do livro é que são vários os fatores que contribuem para a corrupção, inclusive os pessoais. “Muita gente que critica os políticos também acaba cometendo atos que envolvem algum tipo de corrupção na vida privada”, diz o jornalista – que, porém, acredita que o caso do mensalão ainda não está perdido.

Segundo seu livro, a tendência à corrupção não depende só de características pessoais; o sistema também colabora. Quais os aspectos que podem levar a esse crime?

Vários aspectos. Muita gente que critica os políticos também acaba cometendo atos que envolvem algum tipo de corrupção na vida privada, como tentar tirar vantagem pessoal, furar fila ou fazer fila dupla. São pequenos atos que não são graves, mas a conduta é errada. No mundo da política partidária, acontece esse mesmo comportamento, mas elevado a um grau exponencial que acaba causando problemas a toda a sociedade.

O brasileiro é corrupto?

É mais uma coisa da natureza humana do que da nacionalidade. Não acho que o brasileiro seja mais ou menos corrupto do que pessoas de outros países. Aliás, as pesquisas internacionais mostram que o Brasil está em situação pior que os países mais desenvolvidos, mas em situação melhor que os países comparáveis ao Brasil, como Rússia, Índia e China. Na América Latina, com exceção do Chile e do Uruguai, o Brasil está melhor que os outros. Ou seja, o brasileiro está em um nível compatível com o grau de desenvolvimento da sociedade. Muita coisa foi feita, mas ainda falta muito mais para ser feito.

Isso inclui a punição da corrupção?

Certamente. A sensação de impunidade tende a fazer com que as pessoas fiquem mais relaxadas. Quem tem predisposição para uma atividade corrupta fica com as mãos livres, acreditando que não vai haver punição.

Além da punição, o que mais é necessário para combater a corrupção?

A legislação é muito importante e podemos analisar esse aspecto de duas maneiras: o que foi feito e o que ainda falta fazer. Desde a redemocratização, praticamente todos os governos tomaram iniciativas ou criaram meios para tornar as contas públicas mais transparentes e, portanto, coibir a corrupção. Isso começou no governo Sarney, que criou o Sistema Interno de Administração Financeira do Governo Federal [Siaf]. Em 2000, Fernando Henrique Cardoso criou a Lei de Res­­ponsabilidade Fiscal. No governo Lula foi criada a Controladoria-Geral da União. Mais recentemente, a presidente Dilma criou a Lei de Acesso à Informação e, há um mês, foi aprovada a Lei Anticorrupção, que criminaliza a corrupção por parte das empresas. Sempre olhamos a corrupção do lado do agente público. Mas muitas vezes esquecemos que, se alguém é corrompido, é porque alguém corrompeu – em geral, do setor privado. Enfim, os governos respondem à demanda da sociedade – uma prova foram as manifestações recentes que fizeram uma condenação explícita da corrupção. A situação ainda está longe da ideal, mas temos que reconhecer o que foi feito.

A alternância de poder também ajuda a combater as irregularidades?

A alternância de poder é um mecanismo que coíbe a corrupção porque a permanência de um mesmo partido no governo por muito tempo acaba gerando vícios. Nos países onde não houve alternância de poder, como o México, as pessoas se acomodam. Não há uma renovação e isso tende a gerar um ambiente favorável à corrupção. A alternância em si não resolve, mas pode ter um papel salutar.

O julgamento do mensalão pode abrir uma nova visão sobre o combate à corrupção?

O mensalão foi um caso de tanta visibilidade que vai servir como um divisor de águas. Quando tudo acabar, vai ficar a impressão que a impunidade não é tão grande assim. Por outro lado, é um processo complexo, tudo é feito com base nas leis que estão sendo interpretadas e acredito que as manifestações que ocorrem têm caráter partidário dos dois lados: de pessoas que criticam o STF e, por outro lado, das pessoas que falam o contrário.

Há uma tentativa de desqualificar os órgãos de controle e, nesse caso, o STF?

As pessoas com viés partidário tentam desqualificar a ação do STF. Na iminência de haver outro julgamento, tentam desqualificar os votos dos ministros indicados pelo PT – quando, na verdade, o próprio [Joaquim] Barbosa, que tem sido bem rígido nas condenações, foi indicado por Lula. É uma questão complexa e quem é leigo dificilmente pode ter uma opinião muito equilibrada. Os ritos da Justiça estão sendo cumpridos e, no futuro, a imagem que vai ficar ainda será a de um divisor de águas. Haverá punições e outras pessoas terão as penas reduzidas. Mas, no conjunto, vai haver a impressão de que foi um processo importante para combater a corrupção.

O Judiciário ainda é lento na análise de casos de corrupção?

A Justiça no Brasil infelizmente é lenta. Um bom exemplo disso é o do ex-governador de São Paulo Paulo Maluf, que foi condenado em um fórum no exterior por vários casos de corrupção. Logo depois da condenação, ele elogiou a Justiça brasileira, em que os réus têm todo tipo de possibilidade de rever a decisão e protelar a condenação. Esse elogio, partindo do Maluf, é uma crítica à atuação da Justiça brasileira.

Uma das ferramentas de combate à corrupção é a transparência. As ferramentas que existem são suficientes?

Todo o conjunto dá uma boa base para se combater a corrupção, mas só o instrumento não é suficiente. Aos poucos, acredito que a sociedade vai aprendendo a usar esses instrumentos e fará cobranças a partir deles. Mas é um processo. Não é porque a Lei Anticorrupção foi sancionada, por exemplo, que daqui a um ou dois meses o problema vai estar sanado. Aos poucos, ela vai ser acionada e o resultado vai aparecer. Minha impressão é que o caminho e a direção estão corretos; a velocidade é que poderia ser maior. Mas é uma questão de amadurecimento da sociedade.

Essas novas ferramentas de transparência têm deixado a corrupção mais visível?

É bem provável. Às vezes, temos a impressão de que a corrupção está aumentando. Mas o que está aumentando não é necessariamente a corrupção, e sim a percepção de que a corrupção existe. Isso porque esses instrumentos permitem que novos casos venham à tona, da mesma maneira que a imprensa livre e investigativa também traz casos ao conhecimento público. Não dá para comparar a situação de hoje com a da ditadura militar, quando a imprensa estava censurada. Não dá para saber se hoje há mais corrupção do que naquela época porque a situação é totalmente diferente.

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Datafolha pesquisará trensalão tucano?


O Datafolha divulgou uma pesquisa com o nítido objetivo de interferir no resultado do julgamento do chamado “mensalão”. Por que não realizar uma sondagem sobre o recente escândalo do “trensalão” tucano?

No dia do voto decisivo do ministro Celso de Mello no Supremo Tribunal Federal (STF), o Datafolha – empresa da famiglia Frias, a mesma que edita a Folha serrista – divulgou uma pesquisa com o nítido objetivo de interferir no resultado do julgamento do chamado “mensalão”. Após o intenso bombardeio midiático, a sondagem mostrou o óbvio: 55% dos entrevistados seriam contra os embargos infringentes e 79% pediram a imediata prisão dos “mensaleiros”. Já que está tão interessado em sondar a opinião púbica – que a mídia confunde com a opinião publicada –, o instituto também poderia realizar uma pesquisa sobre o recente escândalo do “trensalão” tucano.

Antes da sondagem, porém, a imprensa deveria cumprir seu papel e produzir mais reportagens investigativas sobre o milionário esquema de propinas entre o governo tucano de São Paulo e as poderosas multinacionais do setor de transportes, como a Siemens e a Alstom. O assunto explosivo simplesmente sumiu dos noticiários dos jornalões e das emissoras de rádio e tevê nas últimas semanas. No caso das revistonas, a asquerosa Veja até hoje nem sequer tratou do escândalo. A mesma mídia, tão seletiva e parcial em suas denúncias, também deveria aumentar o tom das críticas à postura pouco transparente e bastante suspeita do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

Quando a revista IstoÉ produziu a primeira matéria sobre o propinoduto tucano – logo apelidado pelos irreverentes internautas de “trensalão” –, o governo paulista negou as acusações e a mídia amiga fez um pacto mafioso de silêncio absoluto. Como o tema agitou as redes sociais e as ruas, com vários protestos exigindo a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), parte da imprensa foi forçada a tratar do assunto e o governador garantiu que investigaria as denúncias. Até hoje, porém, nada foi feito. O próprio editorial da Folha desta quinta-feira (19) constata, meio a contragosto, que Geraldo Alckmin está enrolando a sociedade.

“Se Alckmin estivesse mesmo disposto a esclarecer o escândalo milionário que atinge sucessivas administrações tucanas, poderia ter adotado medidas mais concretas que as palavras favoráveis a ‘toda a transparência’ e ‘suas consequências’... Sobram razões para que o caso seja investigado nas variadas frentes disponíveis. Geraldo Alckmin e sua base de apoio, apesar das palavras, mostram entendimento divergente. A Assembleia Legislativa de São Paulo, amplamente dominada pelo PSDB e seus aliados, poderia ter instaurado Comissão Parlamentar de Inquérito sobre os transportes. Como seria de esperar – e de lamentar –, contudo, ela não o fez, e nada sugere que virá a fazê-lo”.

Nesta semana foram iniciados os trabalhos de três CPIs na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Nenhuma delas toca no assunto. Elas irão apurar as causas da violência contra a mulher, o desaparecimento de pessoas e a regularidade dos serviços prestados pelas empresas de energia elétrica. A oposição ao governo tucano, composta por PT, PCdoB e um deputado do PDT, até tentou coletar as assinaturas para criar uma comissão de inquérito sobre o “trensalão” – conseguiu 27 das 32 necessárias. O PSDB sabotou descaradamente o pedido de abertura da CPI. A mídia amiga evitou dar manchete para mais este golpe na Alesp. Cadê o Datafolha para pressionar os tucanos?


Altamiro Borges, jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e organizador do livro “Para entender e combater a Alca” (Editora Anita Garibaldi, 2002).
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STF, partidarização e questão social


Se o rigor com que se julgouo PT, pelo viés social da Justiça brasileira, tornar-se jurisprudência, teremos avançado por linhas tortas

Em artigo de jornal escrito apenas três anos atrás, por ocasião da eleição presidencial de 2010, sentia-me seguro para assinalar a impossibilidade de se falar de partidarização da Justiça brasileira.

Claro suporte para essa tese era trazido pelo silêncio em torno das numerosas nomeações de Lula para o Supremo Tribunal Federal, em cuja recomposição extensa ninguém acusava jogo político partidário ou estreitamente "ideológico".

Isso podia ser contrastado, por exemplo, com a dramática exibição de partidarismo na Justiça dos Estados Unidos a que assistíramos em 2000, na luta judicial em que resultou a disputa entre George W. Bush e Al Gore pela Presidência.

Até para espanto de alguns, aí foi possível antecipar com precisão o teor das decisões de acordo com o predomínio das nomeações de um ou de outro partido nas diversas instâncias judiciárias chamadas a manifestar-se naquele país.

Esse contraste podia ser ligado a um outro, relativo à estrutura partidária. Enquanto o caso brasileiro tem sido o de uma história de partidos fracos e estrutura partidária fluida e precariamente institucionalizada, nos Estados Unidos teríamos algo paradoxal: a partidarização da Justiça decorreria lá de certa "ossificação" resultante do próprio êxito da institucionalização e do penetrante enraizamento dos dois grandes partidos, e caberia talvez falar de um "excesso" de institucionalização.

Mas a ausência de partidarismo na Justiça do Brasil estava longe de significar a ausência de um viés importante, a saber, seu inequívoco componente elitista, com o substrato da "questão social" brasileira.

A grande desigualdade social do país tem fatalmente resultado em que os cidadãos apareçam também aos olhos da Justiça como de primeira e de segunda classes, com diferenças decisivas na possibilidade de acesso efetivo a ela e na sensibilidade e eficiência de suas respostas.

O desenrolar do processo do mensalão no STF, contudo, acaba produzindo a novidade de uma Justiça brasileira partidariamente contaminada, ou ao menos passível de ser assim percebida.

A decisão do STF quanto aos embargos infringentes é atacada por líderes políticos de oposição ao governo petista; textos na imprensa exploram (e denunciam...) o papel supostamente cumprido pelas nomeações de Dilma para o tribunal no que seria a mudança de rumo do processo (ainda que a autoridade do voto de Celso de Mello imponha reavaliações a respeito); colunistas veem como "natural" não só o fato de que a sociedade se divida quanto ao processo entre governismo e oposição, mas também o de que a mesma divisão se dê entre os próprios ministros do STF...

Como ver essa partidarização súbita? Um aspecto é banal: trata-se, afinal, de julgar ações de um partido, o PT (ou de lideranças importantes dele), no exercício do governo do país. Mas, sem entrar numa sociologia do comportamento criminoso de partidos de certo tipo no governo, há algo mais, que liga aquele aspecto à questão social e ao viés que tem imprimido em nossa Justiça.

Não só o PT é o partido que trouxe de modo singularmente intenso a questão social à disputa eleitoral, como tema vigoroso e que ameaça levá-lo ao controle demorado do poder, mas também o velho viés da Justiça respalda a hipótese de lhe ser mais fácil julgar severamente um partido com o perfil do PT do que outros.

Se a severidade, que alguns temem ter sido comprometida pelos embargos infringentes, vier a resultar em que se transformem em jurisprudência efetiva os padrões rigorosos exibidos até agora, teremos avançado por linhas tortas ao ter de generalizar princípios cuja aplicação o viés social facilitou neste caso. E talvez os embargos ajudem a que a partidarização tenha então valido a pena.

Fábio Wanderley Reis, cientista político, doutor pela Universidade Harvard (EUA), é professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais
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Mídia cuidadosa... com o carrão de Chiquinho Scarpa

Os mesmos jornais que levaram a sério o trote de uma celebridade foram vítimas de outra trapaça: de que os embargos infringentes eram assunto "em debate" no Supremo


Na mesma semana em que anunciaram sentenças apocalípticas depois que o STF decidiu dar cumprimento a uma legislação aprovada pelo Congresso em 1998 e aceitar os embargos infringentes para os réus da ação penal 470, o milionário Chiquinho Scarpa pregou uma peça em nossos meios de comunicação. Anunciou o enterro de um Bentley, talvez o mais caro automóvel do mundo. Quando repórteres e fotógrafos compareceram a sua residência, informou a todos que aquilo não passava de um trote. Chiquinho só queria anunciar seu apoio às campanhas pela doação de órgãos.

A imprensa não teve dificuldade em reconhecer que fora lograda com imensa facilidade por uma celebridade especializada em autopromoção, mas fez o possível para dar a impressão de que se tratava de um episódio isolado. Claro que não é.

Os mesmos jornais que levaram a sério o trote de Scarpa foram vítimas de outra trapaça – muito mais grave – no STF. Sem conferir nem checar informações publicadas, levaram a sério as alegações, divulgadas pelos próprios ministros, de que os embargos infringentes eram um assunto “em debate” no Supremo, que havia uma “omissão” legal a respeito e que era preciso resolver, em pleno tribunal, no que se deveria acreditar. Era um puro Bentley de Chiquinho Scarpa, como mostrou uma reportagem de Paulo Celso Pereira, do Globo, mas o tratamento foi bem diferente.

Dois dias depois que dez dos onze ministros do STF já haviam votado, com bases em premissas inteiramente falsas, o que dá um tom de teatro do absurdo à troca de argumentos ocorrida durante a primeira sessão, é que se soube que não havia omissão coisíssima nenhuma. Havia falta de cuidado, de conhecimento, de compromisso com a publicação de informações confiáveis. Os embargos são uma garantia prevista em lei. Sua vigência plena foi confirmada por decisão de deputados e senadores em 1998, que rejeitaram uma mensagem de FHC propondo sua extinção. Esta verdade seria lembrada por Celso de Mello no voto da quarta-feira seguinte, mas nenhum jornal destacou o próprio erro ao longo da semana.

Capaz de publicar um editorial no dia em que Celso de Mello deu seu voto, o Estado de S. Paulo nem sequer mencionou que a discussão sobre a vigência sobre os embargos era matéria vencida, idêntica a criação de um Estado novo, como Tocantins, ou as provisões da Lei Seca. Ninguém tem “dúvidas” sobre a existência de Tocantins nem vai perguntar ao PM que parar seu automóvel, numa madrugada, se ele “acha” que pode perder a carteira se resolver não se submeter ao bafômetro.

No entanto, numa atitude de tolerância espantosa diante de um erro que poderia ter consequências graves para os direitos de doze réus, nenhum ministro foi cobrado por ignorar uma lei em vigor. Muitos desses ministros são fontes de jornalistas, mantêm conversas em off e ajudaram a alimentar o erro e a confusão. Não foram questionados. Ninguém quis saber quem havia sido o Chiquinho Scarpa da história.

É fácil de entender por que os meios de comunicação reconheceram, descontraidamente, o erro sobre o Bentley. Era uma notícia irrelevante e inofensiva. Se o automóvel tivesse sido enterrado, conforme o prometido, nenhum direito teria sido atingido.

Já o embargo infringente era um fato muito mais relevante, o que torna ainda mais constrangedora a decisão de fingir que nada aconteceu. Ainda ontem, comentaristas com ar de doutor debatiam na TV a decisão do STF como se fosse uma questão de opinião entre ministros e não uma questão de fato. Não foram aparteados, nem corrigidos.

Esconder este erro ajuda a manter uma situação política: manter o julgamento da ação penal 470 num ambiente autoritário, que não permite questionamentos. A pensadora Hanna Arendt já explicou que a criação de uma ditadura é possível a partir do momento em que uma sociedade é incapaz de distinguir o que é fato e o que é opinião. E é isso que se pretende obter, no processo do mensalão.

O suposto “debate” sobre a natureza dos embargos permite prosseguir, ainda hoje, a postura de pressão sobre o STF. Já se fala que o Supremo “curvou-se”, que “cedeu” e assim por diante, numa tentativa de esconder que, no fim das contas, apenas se cumpriu uma lei em vigor – e que seria absurdo esperar outra decisão.

Para cobrar uma decisão rápida, que inclua a prisão imediata de “figurões” de qualquer maneira, é preciso dizer que o julgamento já atingiu um prazo “longuíssimo”, argumento que só ganha consistência quando se alega que está sendo prolongado artificialmente. Mas quando se admite que os embargos estão em vigor desde 1990 e foram confirmados em 1998, o adjetivo “longuíssimo” adquire outro significado. Longa é a existência dessa garantia legal, indiscutível. Errado foi quem imaginou que tudo poderia ter sido encerrado na semana passada.

A postura de ignorar estes fatos, contudo, obedece a uma notória conveniência política.

É uma forma de estimular o STF a atropelar garantias, o que seria visto como escandaloso se não vivêssemos numa época em que muitos comentaristas torcem para isso mesmo – desde que as aparências possam ser mantidas e a maioria das pessoas não perceba que lhe bateram a carteira de cidadãos. É neste trabalho que estão todos empenhados.

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Trégua: o que fazer com ela?


Governo e forças progressistas respiram nesse momento o ar fresco que sopra da janela aberta no front interno e externo.

Depois de meses em que a iniciativa política coube à maré antagônica, o mando do jogo mudou de mão e favorece o governo.

Sinais: o recuo da inflação; o ‘Mais Médicos’; o esgotamento midiático do ‘mensalão’ (sem produzir, por ora, o emblema das prisões cinematográficas); a resposta soberana à espionagem da CIA; a sustentação dos níveis de consumo, emprego e renda – um naufrágio previsto diariamente pelas editorias de renda fixa e rentismo em geral; e a reviravolta no calendário do Fed.

O BC dos EUA decidiu azedar de vez a 4ª feira do conservadorismo brasileiro. Depois do voto de Celso de Mello, no STF, Ben Bernank anunciou que o horizonte dos incentivos à liquidez nos EUA foram dilatadas sem prazo de reversão, desanuviando a pressão cambial sobre as contas externas e a inflação.

Seria injusto dizer que o conjunto é obra exclusiva do acaso.

Mas tampouco é justo atribuí-lo a uma sólida capacidade de resposta da agenda progressista.

Ao lado de trunfos encorajadores, persistem lacunas preocupantes.

A de natureza política mais geral resume todas as demais.

O novo ciclo de políticas de crescimento e convergência da riqueza, requerido pela sociedade, exige decisões que talvez não caibam no espaço quase ornamental reservado à mobilização progressista, dentro do bloco de alianças do PT.

De forma mais direta: a institucionalidade que sustenta o projeto do partido hoje está em desacordo com as tarefas que o sustentariam amanhã.

É preciso dizer que no polo oposto o quadro tampouco é confortável.

A verdade é que as mobilizações de junho emitiram recados, alguns de inegável cabimento.

Mas as ruas não designaram nenhum protagonista novo capaz de transformar esses sinais em um projeto rival ao do governo.

A sociedade exige políticas públicas que tratem o estrutural e o emergencial ao mesmo tempo e com igual intensidade. O sucesso do ‘Mais Médicos’ responde a isso. A receptividade aos corredores exclusivos de ônibus em São Paulo, idem.

Em que arcabouço esses saltos pontuais ganham nervos e musculatura de uma nova dinâmica de desenvolvimento?

A reforma universitária, por exemplo, seria a contrapartida estrutural de uma nova família de políticas públicas inspirada no ‘Mais Médicos’?

O debate não é acadêmico.

Nem é suficiente remeter as omissões a uma panaceia do discurso ornamental: a ‘radicalização da democracia participativa’.

O que quer que isso possa significar desemboca em um vazio estratégico, se desprovido dos pilares intermediários para atravessá-lo .

O vácuo favorece o outro lado.

O oportunismo midiático, ao mesmo tempo em que vitamina a insatisfação, adicionando-lhe ingredientes regressivos, o ódio aos partidos, por exemplo, (os de esquerda, em especial), aniquila tudo o que floresce à margem de sua pauta monotemática.

Qual seja, destruir o PT. E restituir o Estado à tutela tucana e assemelhada.

A matraca empolga setores convertidos da sociedade, mas não organiza um novo projeto de futuro.

A redundância o conservadorismo no golpismo renitente.

E acomoda perigosamente o governo.

O vácuo de hoje pode não se repetir amanhã: outsiders que gravitam na órbita conservadora tateiam uma forma de preenchê-lo.

Desnecessário citar nomes.

É suficiente dizer que rótulos novos tentam vender um conteúdo velho: a terceira via.

O sortido estoque, que já produziu caçador de marajás, não produziria um ‘Capriles Nieto’ disposto a ‘fazer mais com menos’? Ou a versão disso em tom verde?

O desenlace vai depender muito da forma como o PT e as forças progressistas decidirem explorar a janela aberta pela conjunção de ventos favoráveis que sopram atualmente.

A corrida eleitoral adiciona aos alísios um espaço de ruptura com grilhões de uma governabilidade que, frequentemente, subjuga governos, partidos e projetos em um círculo vicioso de prostração política acanhamento estratégico.

Desde 2002, o PT se convenceu de que não governaria sem uma aliança com o PMDB, que lhe desse estabilidade e maioria legislativa.

A história mostrou que estava certo no diagnóstico eleitoral.

Dentro e fora do partido, porém, acumulam-se evidencias e arguições que sugerem o esgotamento desse ciclo.

A questão não envolve apenas uma renovação de nomes, siglas ou rostos aliados.

É mais complicado .

O que está em debate é o método de governo. E a ferramentaria de governabilidade correspondente.

É possível governar para além do limite programático do PMDB, sem a mobilização democrática da sociedade?

Sem uma estrutura de mídia ecumênica, que supere o veto hoje imposto ao debate e às reformas requeridas pelo passo seguinte do desenvolvimento?

Para além do aparente labirinto há escolhas a fazer.

A primeira: decidir como se pretende desfrutar a sobrevida da liquidez mundial, sinalizada pelo anúncio do Fed, na 4ª feira.

Com mais do mesmo? Consumindo a ‘folga’ com importações baratas que acalmam a inflação, sucateiam o parque fabril e embalam a classe média em tours à Miami?

Em segundo lugar: como se pretende conduzir a campanha eleitoral de 2014? Como um evento publicitário, a exemplo do que se fez nas últimas?

Ou requalificá-la como um espaço de mobilização, debate e pactuação de diretrizes para a nova institucionalidade que o avanço do desenvolvimento brasileiro requer?

A ver.

Saul Leblon
No Blog das Frases
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'Já estamos todos condenados', diz João Paulo Cunha

Deputado afirma estar 'na berlinda' desde 2005 e desafia Barbosa a deixá-lo responder 'pessoalmente' a acusações do mensalão

João Paulo sobre Barbosa: "Estou pronto para ir ao Supremo e pedir para eu deixar eu falar"
André Dusek/Estadão

Brasília - Condenado a 9 anos e 4 meses de prisão por lavagem de dinheiro, corrupção passiva e peculato, o deputado e ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) foi um dos poucos réus que não comemoraram a decisão do Supremo Tribunal Federal de julgar novamente parte dos crimes do mensalão. "Nós estamos na berlinda desde 2005. Então, já estamos todos condenados."

Sem esconder o ceticismo, João Paulo passa os dias entre o curso de Direito - um dos sócios da faculdade é o ministro do STF Gilmar Mendes - e rápidas aparições pela Câmara. Em outubro, vai divulgar uma cartilha de 50 páginas, intitulada A Verdade, nada mais que a verdade, na qual exibe notas fiscais e recibos anexados ao processo.

Nesta entrevista ao Estado, o deputado desafia o presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, a deixá-lo responder pessoalmente às acusações do mensalão. "Se ele quer disputar a opinião pública, que entre num partido e dispute eleição. Ele não pode ficar, da cadeira de presidente do Supremo, falando bobagem", afirma.

João Paulo diz não temer a prisão e planeja dar aulas. Se tiver a pena reduzida pelos embargos infringentes, pretende trabalhar no Grêmio Esportivo Osasco, cidade onde mora. "Se eu puder aparar grama, pintar arquibancada e arrumar o campo, vou ficar feliz."

O que o senhor vai alegar no recurso ao STF para se livrar da pena por lavagem de dinheiro?

A peça apresentada pelo ministro Joaquim Barbosa é digna de um roteiro literário. No caso da lavagem de dinheiro, a minha mulher foi ao banco, entregou a identidade, tirou xerox, assinou, pegou o dinheiro, pagou o instituto de pesquisa, recebeu a nota fiscal. Então, onde tem lavagem? Lavagem significa alguma coisa suja. Esse dinheiro não era sujo.

A acusação afirma que era dinheiro público...

Não era. Era dinheiro do PT. É outro absurdo. O ministro Joaquim Barbosa também me acusa de ter desviado R$ 1 milhão e, por isso, pago pelo crime de peculato. Entretanto, esse recurso, na casa de R$ 1 milhão, corresponde à comissão que a agência SMP&B ganhou dos veículos de comunicação, em 2004, por anúncios apresentados. Então, qual é o desvio? Era uma previsão contratual, legal. Eu não tenho nada a ver com o peixe e vou pagar?

A indicação do ministro Luiz Fux como relator dos embargos atrapalha, já que até agora ele só votou pela condenação?

Nós só esperamos que o ministro Luiz Fux dê um pouco mais de atenção para aquilo que vamos apresentar. Você pode escrever: a história vai buscar o acerto de contas com o Supremo Tribunal Federal.

Como assim?

Esse julgamento entrará para a lista de mais um erro do Judiciário. Joaquim Barbosa faz o papel do tenente Vieira no caso dos irmãos Naves. Guarda semelhança porque a população de Araguari (MG) queria o linchamento e a prisão dos irmãos, a polícia acusava (tenente Vieira era o delegado), o juiz foi conivente. Ao final, concluíram que os dois irmãos eram inocentes. O processo do mensalão vai ser semelhante.

O senhor teme ser preso ou tem certeza de que isso não vai ocorrer?

Eu não temo. Nós estamos na berlinda desde 2005. Então, já estamos todos condenados. Sofremos o que não desejamos para ninguém.

O senhor está descrente em relação à revisão de sua pena?

Independentemente da revisão, teremos mais espaço para falar. O Supremo é uma casa que exige recato. Por que nos Estados Unidos, uma democracia de 200 anos, não há TV Justiça? Se o ministro Joaquim Barbosa quer disputar a opinião pública, que vá para Minas ou entre num partido aqui em Brasília e dispute eleição.

O senhor acha que ele quer ser candidato? O prazo para se filiar termina em 5 de outubro...

Para mim não importa se ele vai ser ou não vai ser. Mas ele não pode ficar, da cadeira de presidente do Supremo, falando bobagem, sem dar direito ao réu de ir se defender lá. Eu estou pronto para qualquer dia ir lá no Supremo e pedir para ele deixar eu falar lá da tribuna dele, para responder ao que ele fala no microfone, não nos autos. Justiça tem dois pratos. A balança do ministro Joaquim Barbosa tem um prato só, o da condenação. Então, ele não é juiz. Ele é promotor.

O Supremo age com dois pesos e duas medidas ao não se debruçar sobre o mensalão mineiro, atribuído ao PSDB?

A mim não interessam essas comparações. Esse clima de "Fla-Flu" não ajuda o País. As relações ficam irracionais.

Se a sua condenação for mantida, renunciará ao mandato?

Não vou renunciar. Eu pretendo levar o meu mandato até o último dia. E vou levá-lo.

O senhor confia que não será cassado pela Câmara?

Confio. Os companheiros da Câmara, principalmente os que foram deputados quando fui presidente, me conhecem. Sabem que os contratos da Câmara estão na internet porque eu coloquei. Não vou mentir, não vou enganar ninguém.

É favorável ao voto aberto no Congresso?

Nas grandes democracias, o voto é sempre fechado. Onde você tem o voto aberto? Nas ditaduras. Sou favorável ao voto secreto, mas chega um momento em que o Congresso fica tão acuado que não há alternativa.

Integrantes do governo avaliam que a reabertura do julgamento pode provocar desgaste na campanha da presidente Dilma Rousseff à reeleição...

O que vai fazer a presidenta ganhar não é o mensalão voltar ou não ao centro da conjuntura. Já tivemos quatro eleições - 2006, 2008, 2010, 2012 - em que o mensalão foi usado e não deu certo (no ano passado, João Paulo teve de renunciar à candidatura a prefeito de Osasco, após ser condenado). Não dará certo novamente em 2014. Pela primeira vez o PT terá candidatos fortes em São Paulo, no Rio e em Minas, com chances de ganhar. Ao contrário do que nossos adversários pensam, o gás do PT não está acabando.

O que o senhor tem feito ultimamente, além de juntar documentos para se defender? Continua o curso na faculdade de Direito?

Voltei a estudar e estou terminando o quarto ano de Direito. Se Deus quiser, vou terminar. Muita gente fala que, pela primeira vez, um poderoso vai ser condenado. Eu, poderoso? Moro na periferia de Osasco há 23 anos, vou terminar meu mandato, não tenho uma aposentadoria, não tenho uma fonte de renda, não tenho empresa. Que poderoso eu sou?

Se o senhor for preso, como pretende sobreviver?

Vou ter que trabalhar, ué. Estou estudando e pretendo dar aula. Sempre trabalhei, não tenho medo do trabalho. Na minha vida nunca as coisas foram fáceis. Eu trabalho desde criancinha. Com 11 anos eu pegava trem com a minha mãe, que era empregada doméstica.

O ex-ministro José Dirceu disse que, na cadeia, gostaria de cozinhar, lavar roupa. E o senhor, o que faria?

Se eu ficar em regime fechado, vou pedir para trabalhar na prisão. Não vou ficar parado. Vamos ver o que eles oferecem lá, mas, hoje em dia, com avanço tecnológico, tem muita coisa que você pode fazer. E depois vamos entrar com revisão criminal, recorrer à Corte americana, aos órgãos internacionais, fazer uma denúncia política do julgamento. Vamos ao Congresso americano, ao Parlamento europeu, à ONU...

A ideia é fazer uma articulação conjunta com José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares?

Eu acredito que iremos em conjunto. Nós somos parceiros do infortúnio.

Um amigo seu disse que o senhor quer trabalhar no Grêmio Esportivo Osasco, se ficar no regime semiaberto. É isso mesmo?

Eu tenho duas paixões: o Grêmio Osasco e o São Paulo Futebol Clube. Quero ajudar o Grêmio a se estabelecer na primeira divisão do futebol paulista. Se eu puder aparar grama, pintar arquibancada, arrumar o campo, vou ficar feliz.

O PSB do governador Eduardo Campos decidiu entregar os cargos. Esse racha na base aliada não ameaça a reeleição da presidente Dilma em 2014?

Acho que tem de tomar muito cuidado. Eu não empurraria Eduardo Campos para fora da nossa aliança nem o Paulinho (deputado Paulo Pereira da Silva, do PDT, que está fundando o Solidariedade). A presidente demorou um pouco para destravar a infraestrutura e para perceber que havia curto-circuito na articulação política. Os protestos de junho acabaram ajudando a despertar o governo, que estava muito devagar, e também um pedaço do PT.

Muitos dizem que a reabertura do julgamento do mensalão deixa uma sensação de impunidade, de que tudo acaba em pizza...

É um absurdo. Fomos os que mais lutamos para acabar com a impunidade. Agora, por exemplo, há 2 mil acórdãos para serem publicados no Supremo. O ministro Joaquim Barbosa se finge de morto. Esse processo é um erro do Judiciário. Outros exemplos de injustiça, além do caso dos irmãos Naves, foram Sacco e Vanzetti, nos EUA, e Dreyfus, na França. Os tribunais de Roma também não respeitaram o devido processo legal para condenar Jesus Cristo, há 2 mil anos. Ouviram a opinião pública, que mandou crucificar Jesus.

O senhor está se comparando a Jesus Cristo?

Absolutamente. Estou falando sobre erro do Judiciário e sobre injustiças motivadas a partir da opinião da multidão.

Qual é seu livro de cabeceira?

Estou terminando de ler O Último Dia de um Condenado, do Victor Hugo. É muito bom. Pretendo enviá-lo ao ministro Joaquim Barbosa, com o filme sobre o caso dos irmãos Naves.

Vera Rosa
No O Estado de S.Paulo
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Merkel gana las elecciones alemanas con un 42,5% según sondeos

“Este es un gran resultado", expresó Merkel al conocer los resultados preliminares.
Foto: Efe

Sondeos realizados a boca de urna dan la victoria a la canciller alemana, Ángela Merkel, en las elecciones legislativas realizadas este domingo en el país europeo.

Cifras preliminares afirman que Merkel, que siempre fue la gran favorita durante las campañas, habría ganado con el 42,5 por ciento de los votos, tras unas elecciones que mostraron alta participación.

Aunque el resultado no se ha hecho oficial por las actividades electorales, Merkel se pronunció al conocer la cifra y saludó su virtual triunfo.

"Este es un gran resultado (...) Haremos lo posible para que los próximos 4 años sean de éxito para Alemania", expresó.

Merkel también agregó que "agradezco la confianza depositada" y dijo que "Mañana (lunes) abordaremos en el partido la situación, con los resultados en la mano, pero hoy es ya momento de celebrarlo".

Según las proyecciones a boca de urna, el Partido Liberal (FDP), socio de Merkel que aspiraba un 5 por ciento de los votos, quedó sin escaños en el Parlamento.

La Unión Cristianodemócrata y su hermanada Unión Socialcristiana de Baviera (CDU/CSU) consiguieron, según las proyecciones de voto al cierre de los colegios electorales, su mejor resultado en más de dos décadas, al conseguir más del 42 por ciento de los sufragios.

Analistas citados en los medios locales han dicho que de confirmarse estos resultados serían un "desastre" para los liberales, partido histórico que integró 17 de los 22 gobiernos federales en Alemania.

El secretario general del FDP, Christian Lindner, admitió vivir la "hora más amarga" desde su fundación al conocer las primeras proyecciones de los resultados y aseguró en declaraciones al canal público ARD que es el peor momento que el partido ha atravesado a lo largo de su historia.

Los alemanes fueron llamados este domingo a las urnas para elegir a los diputados que formarán parte de la 18%AA legislatura del Bundestag, la principal cámara legislativa de Alemania, considerada Cámara baja.

En principio se eligen 598 diputados, sin embargo, por la particularidad del sistema electoral alemán, esta cifra puede aumentar. Tras su elección, estos legisladores elegirán entre ellos al jefe de Gobierno o canciller para los próximos cuatro años por mayoría absoluta.

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17h 44min - É Primavera


Vai Chuva
Composição de Cassiano e Sílvio Rochael.

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Bruce Springsteen - o show

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O que a Veja mostrou ao censurar textos de memes das atrizes da Globo

Censurado pela Veja

Imagine que você é um jovem jornalista que trabalhe num site de uma grande publicação.

Você bate os olhos numa notícia: a multiplicação dos memes sobre a foto das atrizes da Globo em protesto contra a decisão do STF de respeitar a lei e, portanto, permitir embargos de alguns acusados no processo do Mensalão.

Repito: decisão de respeitar a lei, como demostrou em mais de duas horas o ministro Celso de Mello.

Então você faz, satisfeito, um texto sobre os memes porque isto é notícia: afinal, é uma reação ao fato que mais marcou os brasileiros na semana.

E finalmente você recebe dos superiores não os parabéns por ter identificado um assunto de alto interesse – mas a brutalidade da censura arbitrária.

Sua reportagem é, simplesmente, deletada porque a realidade que ela revela não se coaduna com a realidade que a publicação tenta, a bordoadas, impingir a seus leitores.

“Que eu estou fazendo aqui?” é a pergunta inevitável que você se faz numa situação deprimente daquelas.

Bem, não é o roteiro de um pesadelo jornalístico para jovens. É o que aconteceu na Veja na mesma semana em que a revista comemora seus 45 anos parecendo ter, mentalmente, 145.

A autocensura foi notada no Twitter, e causou merecido escárnio.

Vai ficando cada vez mais difícil para a Veja, por coisas desta natureza, atrair jovens talentosos: quem quer trabalhar nestas circunstâncias?

Você tem vinte e poucos anos, tem o idealismo da juventude: o que você pode fazer numa revista que representa e defende a manutenção de um Brasil iníquo e na qual você não pode publicar sequer um texto sobre memes?

A Veja, ao chegar aos 45 anos, é simplesmente a negação do zeitgeist – o espírito do tempo. Combater a desigualdade social é a essência do zeitgeist moderno, não apenas no Brasil mas no mundo.

Mas a Veja marcha do lado contrário, impávida e orgulhosa.

É assim que ela chega a 45 anos. E é por causa disso que ela não irá muito adiante: por seu divórcio com o mundo tal como ele é. Em sua louca cavalgada editorial, a revista pôs na capa desta semana a imagem da justiça curva. A justiça teria se curvado aos poderosos, aspas, ao acolher os chamados embargos infringentes. Ora, como um heroi da própria Veja — o jurista Celso de Mello — demonstrou em seu voto longo no STF na verdade o que se fez foi respeitar a lei e a Constituição.

A internet está castigando a revista, é certo: a cada dia menos pessoas leem publicações impressas. Revistas muito maiores que a Veja, no mundo, já morreram, como a americana Newsweek. A própria Time, a maior de todas, agoniza sem que seus proprietários consigam encontrar um comprador para ela.

Mas o problema maior da Veja não é uma tecnologia que a faz obsoleta – é um conjunto de crenças absurdas que a faz cega.

Paulo Nogueira
No DCM

* * *

aa 

Veja censura até sua própria página na internet. Não admite “sacrilégios”


A Veja é uma espécie de “camarada Stálin” da direita. E pior.

Stálin mandava retocar – na época o “photoshop” era guache no negativo – as fotos onde Leon Trotsky aparecia nos acontecimentos da revolução russa.

Veja manda deletar da internet o que considera “sacrílego” à sua fé fundamentalista em subjugar as instituições e qualquer coisa que possa sugerir que alguém não necessariamente ligado aos “petralhas” possa discordar do que diz.

Foi por isso que algum guri ingênuo da sua redação resolveu publicar uma notinha-bobagem sobre o caso das globais que posaram e distribuiram fotos “de luto” pela decisão do STF sobre o caso do chamado “mensalão”. Notinha sem nenhum tipo de crìtica a elas, até aplausos, como você pode ler abaixo:

O espírito zombeteiro do rock fez das suas nesta quinta-feira. A iniciativa de cinco atrizes deAmor à Vida, a novela das nove da Globo, de se vestir de preto e fechar a cara para fotos em protesto à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de reabrir o julgamento do mensalão, virou meme em plena noite do metal do Rock in Rio — a noite do preto no festival carioca.

Carol Castro, Rosamaria Murtinho, Nathalia Timberg, Susana Vieira e Bárbara Paz aparecem de camisas negras em duas imagens publicadas por Bárbara em seu perfil no Instagram. ”Atrizes em luto pelo Brasil!”, escreveu a Edith da trama de Walcyr Carrasco. 

Não que as atrizes não tenham direito — e sobretudo razão — de protestar. É que o espírito zombeteiro do rock, menino levado, não perde uma piada.

Só que o Stálin Civita não tem humor e não suportou ver as montagens zombeteiras que, aliás, todas ali se submeteram a ter de suportar, porque contra teatrinho, teatrinho e meio.


Como nós defendemos a liberdade de imprensa até na Veja, mesmo não considerando isso mais que uma bobagem, vamos reproduzir o que a revista censurou. Enquanto não tirarem, aliás, você pode ver no “cache” do Google, enquanto eles também não retiram de lá.

Sobre o assunto, o Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo, já disse acima o que representa.

Aqui, me limito a reproduzir o que a Veja censurou.

Se alegarem que é montagem destinada a desmerecer pessoas, respondo que se trata de um pequeno prazer pessoal, em devolução a uma capa da revista, nos idos de 2002, onde misturava leonel Brizola a figuras como Maluf e Collor, com seus rostos montados sobre dinossauros.

Lamento que as senhoras da foto possam estar se sentindo atingidas. Mas que usam só a sua imagem para o debate tem de admitir que o debate acabe virando também imagem.

Afinal, ridendo castigat mores, rindo critica-se os costumes, já dizia o romano Cícero.



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Fernando Brito
No Tijolaço
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Globo assume seu lobby pela Rede de Marina Silva


Jornal dos Marinho escala seus dois principais colunistas para defender a criação da Rede Sustentabilidade, mesmo que o partido não cumpra as exigências legais; segundo Merval Pereira, há um movimento suprapartidário em defesa da Rede e contra a burocracia dos cartórios; ele avisa que, se o partido for barrado, o caso irá ao STF; Miriam Leitão, por sua vez, diz que "se Marina for barrada, por não cumprir um número de assinaturas, será um crime contra a democracia"; ora, crime é não cumprir a lei; além do mais, Marina pode concorrer por outro partido e tem convite do PEN, leia aqui e aqui.
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“O Som ao Redor”, escolhido para tentar concorrer ao Oscar, é incrível (mas não vai salvar o cinema nacional)

O Som ao Redor foi escolhido pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro. A seleção dos que concorrerão ainda será definida pela academia.

Mereceu. Muito. O Som ao Redor destoa da produção nacional. Primeiro porque é bom. Segundo, porque não tenta fazer sociologia. Em terceiro lugar, não é derivativo de novelas. É, sobretudo, uma história bem contada, com tensão e clima. O protagonista João vive num condomínio no Recife. A rua pertence a seu avô Francisco, antigo dono de engenho. Por causa de uma onda de roubos, um grupo de seguranças é contratado. O chefe é Clodoaldo. E Clodoaldo tem contas a acertar.

Ok. Existe ali um subtexto nordestino. Mas ninguém fala com sotaque Tieta do Agreste ou passa fome na seca. O diretor Kleber Mendonça Filho gastou R$ 1,8 milhão e levou seis semanas e meia para filmar. Os cenários ficam próximos do apartamento onde ele mora.

Kleber foi crítico de cinema e produziu vídeos nos anos 90. Usava uma camiseta em que se lia “todo cineasta é um crítico frustrado”, uma inversão que causou comoção entre seus amigos diretores. O longa foi eleito um dos 10 melhores filmes do ano passado pelo New York Times. Não é um sucesso de público: cerca de 100 mil pessoas o viram no Brasil. É bem menos do que, por exemplo, Gonzaga de Pai Para Filho ou Faroeste Caboclo. Por sorte, o critério para a escolha não é a bilheteria. Os organizadores tiveram juízo e bom gosto.

Há alguns meses, Mendonça se viu no meio de uma polêmica. Em entrevista para a Folha, disse o seguinte: “Se meu vizinho lançar o vídeo do churrasco dele no esquema da Globo Filmes, ele fará 200 mil espectadores no primeiro final de semana”. O então diretor da Globo Filmes, Carlos Eduardo Rodrigues, ficou mordido. “Desafio o cineasta a produzir e dirigir um filme e fazer 200 mil espectadores com todo apoio da Globo Filmes! Se fizer nada do nosso trabalho será cobrado”.

Mendonça respondeu: “O sistema Globo Filmes faz mal à idéia de cultura no Brasil, atrofia o conceito de diversidade no cinema brasileiro e adestra um público cada vez mais dopado para reagir a um cinema institucional e morto”.

Há algum tempo, alguém deu o nome de “Retomada” a um suposto movimento de renascimento, ou algo que o valha, da nossa produção cinematográfica. É uma balela. É quase tudo meia boca, por motivos diversos. O cinema nacional que enche as salas hoje é feito de caça-níqueis como De Pernas Para o Ar ou E Aí, Comeu? O Som ao Redor não vai salvar o cinema nacional — e nem poderia. Não tem a pretensão de apontar caminhos, nada… Mas o fato de gente talentosa como Kleber Mendonça Filho estar fazendo filmes é uma grande notícia. E, digo sem ufanismo, tomara que consiga a indicação.

Kiko Nogueira
No DCM

Sinopse:

A vida numa rua de classe média na zona sul do Recife toma um rumo inesperado, após a chegada de uma milícia que oferece a paz de espírito da segurança particular. A presença desses homens traz tranquilidade para alguns, e tensão para outros, numa comunidade que parece temer muita coisa. Enquanto isso, Bia (Maeve Jinkings), casada e mãe de duas crianças, precisa achar uma maneira de lidar com os latidos constantes do cão de seu vizinho.

Assista:

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