23 de ago de 2013

A conta secreta do propinoduto

Documentos vindos da Suíça revelam que conta conhecida como "Marília", aberta no Multi Commercial Bank, em Genebra, movimentou somas milionárias para subornar homens públicos e conseguir vantagens para as empresas Siemens e Alstom nos governos do PSDB
Na edição da semana passada, IstoÉ revelou quem eram as autoridades e os servidores públicos que participaram do esquema de cartel do Metrô em São Paulo, distribuíram a propina e desviaram recursos para campanhas tucanas, como operavam e quais eram suas relações com os políticos do PSDB paulista.
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A CONTA DA PROPINA
Dinheiro para tucanos saiu da “conta Marília” no
Leumi Private Bank, em Genebra, na Suíça
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Agora, com base numa pilha de documentos que o Ministério da Justiça recebeu das autoridades suíças com informações financeiras e quebras de sigilo bancário, já é possível saber detalhes do que os investigadores avaliam ser uma das principais contas usadas para abastecer o propinoduto tucano. De acordo com a documentação obtida com exclusividade por IstoÉ, a até agora desconhecida “conta Marília”, aberta no Multi Commercial Bank, hoje Leumi Private Bank AG, sob o número 18.626, movimentou apenas entre 1998 e 2002 mais de 20 milhões de euros, o equivalente a R$ 64 milhões. O dinheiro é originário de um complexo circuito financeiro que envolve offshores, gestores de investimento e lobistas.
Uma análise preliminar da movimentação da “conta Marília” indica que Alstom e Siemens partilharam do mesmo esquema de suborno para conseguir contratos bilionários com sucessivos governos tucanos em São Paulo. Segundo fontes do Ministério Público, entre os beneficiários do dinheiro da conta secreta está Robson Marinho, o conselheiro do Tribunal de Contas que foi homem da estrita confiança e coordenador de campanha do ex-governador tucano Mário Covas. Da “Marília” também saíram recursos para contas das empresas de Arthur Teixeira e José Geraldo Villas Boas, lobistas que serviam de intermediários para a propina paga aos tucanos pelas multinacionais francesa e alemã.
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ELO ENTRE OS ESQUEMAS
Ligado aos tucanos, o lobista Arthur Teixeira, dono de offshores
no Uruguai, recebeu recursos da “conta Marília”
O lobista Arthur Teixeira personifica o elo entre os esquemas Alstom e Siemens. Como IstoÉ já revelou numa série de reportagens recentes, com base nas investigações em curso, Teixeira e seu irmão Sérgio (já falecido) foram responsáveis por abrir as empresas Procint e Constech, além das offshores Leraway Consulting e Gantown Consulting, no Uruguai, com o único objetivo de servir de ponte ao pagamento de comissões a servidores públicos e a políticos do PSDB. Teixeira tinha acesso privilegiado ao secretário de Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes, e ao diretor de Operação e Manutenção da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), José Luiz Lavorente, o encarregado da distribuição em mãos da propina.
Até 2003 conhecido como Multi Commercial Bank, depois Safdié e, a partir de 2012, Leumi Private Bank AG, a instituição bancária tem um histórico de parcerias com governos tucanos. Em investigações anteriores, o MP já havia descoberto uma outra conta bancária nesse banco em nome de Villas Boas e de Jorge Fagali Neto, ex-secretário de Transportes Metropolitanos de SP (1994, gestão de Luiz Antônio Fleury Filho) e ex-diretor dos Correios (1997) e de projetos de ensino superior do Ministério da Educação (2000 a 2003) na gestão Fernando Henrique Cardoso. Apesar de estar fora da administração paulista numa das épocas do pagamento de propina, Fagali manteria, segundo a Polícia Federal, ascendência e contatos no governo paulista. Por isso, foi indiciado pela PF sob acusação de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Fagali Neto também é irmão de José Jorge Fagali, que presidiu o Metrô na gestão de José Serra. José Jorge é acusado pelo MP e pelo Tribunal de Contas Estadual de fraudar licitações e assinar contratos superfaturados à frente do Metrô.
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Para os investigadores, a “conta Marília” era usada para gerenciar recursos
de outras contas destinadas a abastecer empresas e fundações de fachada
Para os investigadores, a “conta Marília” funcionaria como uma espécie de “conta master”, usada para gerenciar recursos de outras que, por sua vez, abasteceram empresas e fundações de fachada, como Hexagon Technical Company, Woler Consultants, Andros Management, Janus, Taltos, Splendore Associados, além da já conhecida MCA Uruguay e das fundações Lenobrig, Nilton e Andros. O MP chegou a pedir, sem sucesso, às autoridades suíças e francesas o arresto de bens e o bloqueio das contas das pessoas físicas e jurídicas citadas. Os pedidos de bloqueio foram reiterados pelo DRCI, mas não foram atendidos. Os investigados recorreram ao STJ para evitar ações similares no Brasil.
O MP já havia revelado a existência das contas Orange (Laranja) Internacional, operada pelo MTB Bank de Nova York, e Kisser (Beijoqueiro) Investment, no banco Audi de Luxemburgo. Ou seja, “Marília” é mais um nome próprio no dicionário da corrupção tucana. Sabe-se ainda que o cartel operado pelas empresas Siemens e Alstom, em companhia de empreiteiras e consultorias, usava e-mails cifrados (quadro abaixo e veja aqui).
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RELAÇÃO COM FHC
Um dos beneficiários da propina oriunda da Suíça, Geraldo Villas Boas
mantinha uma conta conjunta com Jorge Fagali Neto, ex-diretor de projetos do
Ministério da Educação (2000 a 2003) na gestão de Fernando Henrique Cardoso
Os novos dados obtidos pelo Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional (DRCI) do Ministério da Justiça dão combustível para o aprofundamento das investigações no Brasil. Além do processo administrativo aberto pelo Cade sobre denúncia de formação de cartel nas licitações de São Paulo e do Distrito Federal, outras duas ações sigilosas, uma na 6ª Vara Federal Criminal e outra na 13ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, apuram crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e improbidade administrativa. Além de altos funcionários do Metrô, como os já citados Lavorente e Fagali, as investigações apuram a participação do ex-secretário de Energia e vereador Andrea Matarazzo, em razão de contratos celebrados entre a Companhia de Energia de São Paulo (CESPE) e a Empresa Paulista de Transmissão de Energia Elétrica S.A. (EPTE).
Na documentação encaminhada pelo DRCI ao MP de São Paulo, a pedido do promotor Silvio Marques, também constam novos dados bancários de vários executivos franceses, alemães e brasileiros que tiveram algum tipo de participação no esquema de propinas. São eles os franceses Michel Louis Mignot, Yves Barbier de La Serre, André Raymond Louis Botto, Patrick Ernest Morancy, Jean Pierre Antoine Courtadon e Jean Marcel Jackie Lannelongue e os brasileiros José Amaro Pinto Ramos, Sabino Indelicato e Luci Lopes Indelicato, além do alemão Oskar Holenwger, que operou em toda a América Latina. Na Venezuela, Holenwger é citado junto a Mignot, La Serre, Morancy e Botto em investigação sobre lavagem de dinheiro, apropriação indébita qualificada, falsificação de documentos e suposta corrupção de funcionários públicos do setor de energia.
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DA COZINHA DE COVAS
De acordo com o MP, o conselheiro do TCE, Robson Marinho (foto), homem de confiança
do ex-governador Mário Covas, recebeu dinheiro através da conta Marília 
O apoio das autoridades de França e Suíça às investigações brasileiras não tem sido tão fácil, e a cooperação é mais recente do que se pensava. O Ministério da Justiça chegou a pedir o compartilhamento de informações ainda em 2008 – auge da investigação da Siemens e da Alstom. Mas não foi atendido. Os franceses lembraram que, nos termos do acordo bilateral, a cooperação só pode se desenrolar por via judicial. Dessa forma, foi necessário notificar o Ministério Público Federal para que oficiasse junto à 6ª Vara Criminal Federal e à 13ª Vara da Fazenda Pública. O compartilhamento só foi efetivado em dezembro de 2010.
A Suíça, ainda em março de 2010, solicitou a cooperação brasileira na apuração das denúncias lá, uma vez que parte do dinheiro envolvido nas transações criminosas teria sido depositada em bancos suíços. Os primeiros dados, relativos à empresa MCA e ao Banco Audi de Luxemburgo, chegaram ao Brasil em julho de 2011. Foram solicitadas ainda oitivas com determinadas testemunhas, o que foi encaminhado ao MPF em São Paulo e à Procuradoria Geral da República (PGR). Paralelamente, a Polícia Federal abriu o inquérito nº 0006881-06.2010.403.6181, mas só no último dia 25 de julho o procurador suíço enviou às autoridades os dados bancários solicitados, por meio de uma decisão denominada “conclusive decrees”, proferida em 14 e 24 de junho. Foi com base nisso que a Suíça já bloqueou cerca de 7,5 milhões de euros que estavam na conta conjunta de Fagali e Villas Boas, no Safdié. Tratou-se de uma decisão unilateral suíça e a cifra não é oficial – foi fornecida ao Ministério da Justiça por fonte informal. A Suíça só permite o uso dos dados enviados em procedimentos criminais.
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Claudio Dantas Sequeira e Pedro Marcondes de Moura
No IstoÉ
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Pão de Açúcar ofende comunidade negra e gera revolta

Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) divulgou carta em que exige retratação pública da empresa
Estátua utilizada pelo Pão de Açúcar na unidade da Vila Romana, em São Paulo
Uma estátua utilizada na decoração de uma unidade da rede de supermercados Pão de Açucar, localizada no bairro Vila Romana, em São Paulo, está causando revolta nas redes sociais desde a última segunda-feira (19). A estátua em questão representa uma criança negra, com grilhões nos tornozelos, segurando uma cesta de pães.
A comunidade negra se sentiu ofendida e considerou de absoluto mau gosto a peça de decoração. Mensagens em rede sociais defendem que a estátua remete à escravidão e ao racismo. Além disso, o Grupo Pão de Açúcar também é acusado pelos internautas de fazer apologia ao trabalho infantil, uma vez que a estátua retrata uma criança carregando uma cesta de pães de tamanho e peso incompatível com o seu.
Após a repercussão negativa na internet, o Grupo Pão de Açúcar divulgou uma nota oficial afirmando que “a estátua em questão foi adquirida como parte de uma coleção de peças decorativas de loja, sem intenção ou apologia a qualquer tipo de discriminação. A rede agradece os contatos recebidos dos clientes e lamenta o fato ocorrido, uma vez que pauta suas ações na ética, promoção e respeito à diversidade. Assim que tomou ciência do caso, o Pão de Açúcar providenciou a retirada da estátua das lojas e está revendo o processo de seleção de peças decorativas.”
Mesmo com a nota e a decisão do Grupo Pão de Açúcar de retirar a estátua, a AMNB (Articulação de Organizações de  Mulheres Negras Brasileiras) divulgou nesta quinta-feira 22, uma carta em que manifesta seu repúdio ao caso e cobra da rede de supermercados uma retratação pública. “Neste sentido que nos dirigimos ao Senhor, Diretor Presidente do Grupo Pão de Açúcar, Sr. Enéas Neto, para dizer que estamos esperando que este Grupo faça uma retratação publicamente, mesmo tendo retirado a estátua colocada de sua loja, reconhecendo neste ato como fortalecedor do racismo no Brasil”, diz a carta.
Leia a íntegra da carta divulgada pela ANMB: 
Ao Sr. Enéas César Pestana Neto
Diretor Presidente
Grupo Pão de Açúcar
Senhor Diretor,
A Articulação de Organizações de Mulheres Negras (AMNB) é uma rede de organizações de mulheres negras, constituída atualmente por 28 organizações distribuídas por todas as Regiões do Brasil. Nossa missão está calcada no enfrentamento ao racismo e das desigualdades econômicas, sociais deste País.
Segundo dados levantados pela  Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD, 2011)), O Brasil tem cerca de 192 milhões de brasileiros, destes, 51% se auto-declararam negros e negras, o que faz  do Brasil, o pais com a segunda maior população de negros  de todo mundo – 97 milhões,  atrás apenas da Nigéria, com aproximadamente 160 milhões.
A identidade de um povo é construída a partir de suas relações sociais. O estado brasileiro, escravista durante mais de trezentos anos, deixou marcas extremamente fortes nesta população, marcas estas que são reforçadas pela manutenção de atitudes como essa.
Nos deixa extremamente atônitas o fato de tomarmos conhecimento da estátua exposta decorativamente no Supermercado Pão de Açúcar, no bairro Vila Romana, na cidade de São Paulo, que retrata uma criança negra com grilhões nos pés portando uma cesta de pães (em anexo).
Queremos chamar atenção para dois aspectos: (1) Esta imagem contribui para a manutenção do racismo, pois é a materialização do inconsciente coletivo que coloca o negro sempre num lugar social e simbólico, de subalternidade; não é por acaso que esse menino continua com os grilhões nos pés, símbolo de escravização. (2)  Ela, também, compactua e autoriza, de forma subliminar, o trabalho infantil, que no Brasil é realizado por uma maioria de crianças negras.
Outro grande prejuízo é o impacto negativo desta imagem para a autoestima das crianças negras e para a construção uma referencia positiva de si, que as leve a se sentir em iguais condições na companhia das crianças brancas. Como vocês acham que se sentem as crianças negras que frequentam esta loja? 
Nós mulheres negras e indígenas vimos sendo tratadas, sob a escravização e o racismo, como objetos, vulneráveis á todos os tipos de violência pessoal, estrutural. Conhecemos, portanto, a profunda dor das violências que nos atingem. E temos lutado, ao longo de todos os séculos da história do Brasil, por justiça e reparação, pelo o direito de viver a cidadania plena.
Neste sentido que nos dirigimos ao Senhor, Diretor Presidente do Grupo Pão de Açúcar, Sr. Enéas Neto, para dizer que estamos esperando que este Grupo faça uma retratação publicamente, mesmo tendo retirado a estátua colocada de sua loja, reconhecendo neste ato como fortalecedor do racismo no Brasil.
É necessário, e estamos disponíveis a contribuir com essa instituição, a construção de uma ação reparadora que sensibilize clientes e trabalhadores, em toda sua rede, na direção de um país onde a diferença seja compreendida como um valor positivo.
Sem mais,
Simone Cruz
Secretária Executiva AMNB
Organizações Integrantes da AMNB:
ACMUN – Associação Cultural de Mulheres Negras – RS
BAMIDELÊ – Organização de Mulheres Negras na Paraíba – PB
CACES – Centro de Atividades Culturais, Econômicas e Sociais – RJ
Casa Laudelina de Campos Mello – SP
Casa da Mulher Catarina – SC
CEDENPA – Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará – PA
CRIOLA – Organização de Mulheres Negras – RJ
CONAQ – Coordenação Nacional  de Articulação das Comunidades Quilombolas – MG
GELEDÉS – Instituto da Mulher Negra – SP
Grupo de Mulheres Negras Felipa de Sousa – RJ
Grupo de Mulheres Negras Mãe Andressa  – MA
Grupo de Mulheres Negras Malunga – GO
IMENA – Instituto de Mulheres Negras do AP
INEGRA – Instituto Negra do Ceará – CE
Instituto AMMA Psique e Negritude – SP
IROHIN – DF
KILOMBO – Organização  Negra do Rio Grande do Norte – RN
Maria Mulher – Organização de Mulheres Negras – RS
Mulheres em União – Centro de Apoio e Defesa dos Direitos da Mulher – MG
NZINGA – Coletivo de Mulheres Negras de Belo Horizonte
Observatório Negro – PE
ODARA – Instituto da Mulher Negra – BA
OMIN – Organização de Mulheres Negras Maria do Egito – SE
Rede Mulheres Negras do Paraná – PR
Uiala Mukaji – Sociedade das Mulheres Negras de Pernambuco – PE
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Confiança do consumidor se recupera e sobe 4,4% em agosto

Após cair por três meses consecutivos, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) subiu 4,4% em agosto, para 113,1 pontos, de acordo com a Sondagem de Expectativas do Consumidor, da Fundação Getulio Vargas (FGV). Melhora ocorreu tanto nas avaliações quanto ao presente quanto nas expectativas para o futuro próximo.
Em julho, sob efeito da influência das manifestações que ocorreram por todo o país no mês anterior, o indicador tinha caído 4,1%, menor nível desde maio de 2009.
Na comparação com o mesmo período do ano passado, a confiança registrou queda de 6,3%, mas a magnitude é menor que aquela verificada no mês passado, de baixa de 11,2%.
Em agosto, o Índice da Situação Atual (ISA) avançou 7,3%, após recuar 9,7% em julho. O quesito que mede o grau de satisfação dos consumidores com a economia atual foi responsável pela evolução favorável da confiança neste mês. O indicador aumentou 17,4% em agosto, recuperando parte da forte influência negativa verificada nos dois meses anteriores, quando havia caído 20,3%. Entre julho e agosto, a proporção de consumidores que avaliam a situação atual da economia como boa subiu de 14,9% para 17,4%, enquanto a dos que a julgam ruim caiu de 47,1% para 37,8%.
Já as expectativas em relação aos meses seguintes tornaram-se mais otimistas. O Índice de Expectativas (IE) fechou em alta de 3,5%, para 110,4 pontos, o melhor resultado desde janeiro e um nível superior à média, de 108 pontos. Houve melhora no quesito que mede o otimismo em relação à economia. O indicador avançou 7,5%, ao passar de 103,4 pontos para 111,2 pontos, o maior desde janeiro. A parcela de consumidores projetando melhora da situação econômica saiu de 27,9% para 29,8%; a dos que preveem piora diminuiu de 24,5% para 18,6%.
A pesquisa é feita com base numa amostra com cerca de 2 mil domicílios em sete das principais capitais brasileiras. A coleta de dados para a edição de agosto foi realizada entre os dias 1 e 20 do mês.
No MobilizaçãoBR
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Aprovação do governo Dilma sobe e atinge 38%, diz Ibope

Pesquisa Ibope-Estado mostra que avaliação de ótimo/bom do governo federal cresceu de 31% para 38% desde 12 de julho e índice de ruim/péssimo caiu de 31% para 24%
O governo da presidente Dilma Rousseff (PT) recuperou parte da aprovação perdida após as manifestações populares de junho. Pesquisa Ibope em parceria com o Estado concluída nesta segunda-feira, 19, mostra que a taxa de ótimo/bom do governo cresceu de 31% para 38% desde 12 de julho. Ao mesmo tempo, as opiniões de que o governo é ruim ou péssimo caíram de 31% para 24%.
A avaliação de que o governo é "regular" permaneceu em 37%. Apenas 1% não soube ou não quis responder. A recuperação ocorreu principalmente no Sul e no Sudeste, onde as taxas de aprovação cresceram 12 e 11 pontos porcentuais, respectivamente.
Para a CEO do Ibope Inteligência, Marcia Cavallari, a recuperação de parte da popularidade de Dilma está relacionada ao refluxo das manifestações de rua, principalmente no Sudeste. "Os protestos diminuíram de tamanho e de alvo. A presidente não está mais no foco das manifestações", afirma Marcia.
Ajudou também a melhoria de alguns indicadores econômicos, como a redução da inflação e do desemprego, e o aumento da confiança do consumidor. Nesta sexta-feira, 23, a Fundação Getúlio Vargas mostrou que seu índice de confiança cresceu 4,4% em agosto. "São todos indicadores concretos, que fazem diferença no dia a dia do eleitor", afirma a CEO do Ibope Inteligência.
A pesquisa Ibope mostra que a recuperação da popularidade de Dilma é lenta. Sinais de que sua imagem estava melhorando haviam sido detectados pelo Datafolha duas semanas atrás. Em comparação àquela pesquisa, a aprovação governo foi de 36% para 38% agora. Ainda está longe, porém, do patamar em que já esteve. Em março, a presidente chegou a 65% de ótimo/bom no Datafolha e 63% no Ibope.
A pesquisa Ibope-Estado foi feita entre os dias 15 e 19 de agosto. Foram 2.002 entrevistas face a face, feitas na residência dos entrevistados. A pesquisa tem abrangência nacional: foi feita em 143 municípios de todas as regiões do Brasil. Sua margem de erro máxima é de dois pontos porcentuais, para mais ou para menos, num intervalo de confiança de 95%.
José Roberto de Toledo
No Estadão
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Presidente CRM-MG faz apologia do crime

"Vou orientar meus médicos a não socorrerem erros de cubanos"

Besta-fera e ignorante
Declaração é do presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG), João Batista Gomes Soares, que argumenta que os médicos de Cuba precisam passar pela revalidação do diploma estrangeiro, além do exame de proficiência em língua portuguesa para trabalhar no Brasil; ele ameaça denunciá-los por exercício ilegal da profissão
O presidente do sindicato, João Batista Gomes Soares, classificou o projeto como "coisa da época da ditadura". Em Minas, a vinda dos médicos cubanos pode virar caso de polícia.
"Se ouvir dizer que existe um médico cubano atuando em Nova Lima, por exemplo, mando uma equipe do CRM-MG fiscalizar. Chegando lá, será verificado se ele tem o diploma revalidado no Brasil e a carteirinha do CRM-MG. Se não tiver, vamos à delegacia de polícia e o denunciamos por exercício ilegal da profissão, da mesma forma que fazemos com um charlatão ou com curandeiro", disse presidente da entidade. "Nossa preocupação é com a qualidade desses médicos, que são bons apenas em medicina preventiva, não sabem tirar tomografia. Vou orientar meus médicos a não socorrerem erros dos colegas cubanos", acrescentou.
O dirigente afirmou que não adiantará o médico comprovar ter sido contratado através de convênio entre Brasil e Cuba. "Esse programa do governo federal é conversa e conversa não é superior à lei vigente no país", disparou. "Não vou respeitar medida provisória, que é coisa da época da ditadura. Não entendo que MP revoga lei e vou me ater ao que a lei determina", acrescentou.
* * *

Os jalecos engomados e seus uivos de desespero

Criminoso. Não há outra palavra para definir o comportamento do presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais, João Batista Gomes Soares. O fanfarrão declarou, com todas as letras, que vai orientar os médicos a não socorrerem eventuais erros dos cubanos que foram contratados pelo governo para trabalhar em áreas carentes. O cidadão está incitando profissionais da saúde a omitir socorro a quem eventualmente precisar.
O cara não teve nem a decência de manter a palavra. Quando viu o tamanho da barbaridade que falou, tentou consertar: "Nós não temos que socorrer o médico cubano, nós temos que socorrer o paciente". Essa frase capenga não consegue esconder o principal: a fúria que despertou em certa parcela da população, supostamente esclarecida, a vinda dos jalecos cubanos. A máscara caiu. Entraram em desespero, estão apelando, enlouqueceram. Por puro ódio. Ou vergonha do próprio egoísmo. Não há outra explicação.
Não adianta a enorme lista de argumentos a favor do programa Mais Médicos. Nada vai amenizar os instintos primitivos daqueles que simplesmente querem que tudo permaneça exatamente como está. Que continuem morrendo os milhares de brasileiros nos rincões deste País em que não há um único médico num raio de centenas de quilômetros. É pra esses lugares esquecidos que vai essa legião estrangeira.
Mas a turma do jaleco engomado quer mais que o povo, literalmente, morra. Porque nenhum brasileiro, muito menos os formados nas universidades públicas, quer ir para onde essa turma de missionários está indo. A máscara caiu no momento em que o governo abriu as inscrições para as vagas e nenhum, absolutamente nenhum, médico brasileiro se dispôs a enfrentar a porrada que é atender os mais necessitados — e , sim, em condições precárias, quando não inexistentes.
Agora, da maneira mais hipócrita, daquela forma maléfica que nossas elites têm quando não conseguem mais esconder seu individualismo, sua mesquinhez, sua alma pequeno burguesa, aparecem com o último argumento que lhes restou: os médicos cubanos são escravos. Escravos! Eles serão usurpados pelo governo da Ilha Maldita, separados de suas famílias e, quem sabe, carregarão bolas de ferro amarradas aos pés. Dai-nos paciência.
Sem ficar alimentando esse falso debate, só exponho um argumento contra essa falácia. Os cubanos são voluntários. Vou repetir: voluntários. E desconheço alguém que voluntariamente aceite ser escravizado. Eles serão remunerados, dentro de um programa que já foi implantado em mais de cem países, com competência e sucesso reconhecidos internacionalmente. Menos aqui no Brasil. Claro.
Um sistema político que consegue criar um excedente de médicos, a ponto de espalhá-los pelo mundo, sempre em regiões de extrema pobreza, merece ser tratado com um mínimo de respeito. E não sofrer os ataques violentos e irracionais que temos presenciado, principalmente nas páginas dos grandes jornais e revistas e nas telas dos telejornais dos barões da mídia. É a política, estúpido!
Quanto ao cidadão do CRM, só digo uma coisa: o que ele declarou, além de criminoso, é patético: nenhum paciente atendido por um médico cubano (que eventualmente erre) vai ser depois socorrido por médicos brasileiros, por um único motivo: eles não estarão lá.
Não deixe de ler também: O “Dr. Puliça” de Minas está prejudicando os colegas…
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Poder de investigação do MP volta à pauta

O Congresso Nacional retoma aos poucos as discussões sobre o teor da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 37, cuja derrubada foi uma das principais reivindicações das manifestações populares de junho.
Após grande pressão popular, ela foi rejeitada pelo plenário da Câmara dos Deputados em 25 de junho, por 430 não e 9 sim. Agora a discussão volta por meio de cinco projetos de lei também apresentados em junho.
Quatro deles propõem que o Ministério Público possa promover a investigação criminal. Foram apresentados pelos deputados Onix Lorenzoni (DEM-RS), Marina Santanna (PT-GO), Arthur Maia (PMDB-BA) e Carlos Sampaio (PSDB-SP), a partir de uma minuta elaborada pelo Ministério Público que, claro, propõe que o MP possa fazer investigação criminal. O quinto projeto, apresentado pelo deputado Bernardo Santana (PR-MG), vai na linha do que defende a polícia civil: só ela pode investigar.
É justamente aí que reside a polêmica sobre o assunto. A Constituição de 1988 fala que compete à polícia a investigação, mas também permite a dupla interpretação, motivo por que, na prática, o Ministério Público passou promovê-las.
Os cinco projetos foram apensados e direcionados à Comissão de Segurança Pública da Câmara. Houve intensa disputa por sua relatoria. O deputado Lourival Mendes (PTdoB-MA), autor da PEC 37, foi um dos que mais pressionaram para ser o relator. Ciente da disputa, o presidente da comissão, Otávio Leite (PSDB-RJ), avocou a relatoria para si. A primeira audiência pública aconteceu na quarta-feira. Estão previstas mais três.
"Ficou a sensação de que o assunto não foi concluído. Houve muita negociação, mas as ruas refutaram qualquer alternativa", disse Leite. Sua ideia é apresentar um relatório até outubro. Não há como prever a tendência da comissão. Há desde os mais pró-polícia, como o deputado João Campos (PSDB-GO), até os mais pró-Ministério Público, como Major Fábio (DEM-PB). Depois, o texto segue para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e, na sequência, ao plenário da Casa. Mas de acordo com alguns líderes, o assunto deve avançar, mas não será apreciado no plenário neste ano.
Leite ainda não tem uma posição sobre o tema, embora sinalize um meio termo entre o que quer a polícia e o Ministério Público. "A questão é avaliar em quais casos e em quais situações o MP poderá investigar", disse. "Quero acabar com o ping-pong entre as duas instituições, de um jogar responsabilidade para o outro. O que me interessa são procedimentos para dar mais velocidade aos inquéritos para que sejam concluídos."
Ele também declarou que irá dialogar com o Supremo Tribunal Federal (STF), onde desde 2008 tramita o Recurso Extraordinário n. 184. O tribunal tende a reconhecer o direito de investigação do Ministério Público. Seis ministros já se manifestaram nesse sentido: Celso de Mello, Gilmar Mendes, Luiz Fux e Ricardo Lewandowski; e os ex-ministros Carlos Ayres Britto e Cezar Peluso.
Mas nega que será a decisão definitiva do Supremo que irá influenciar seu relatório. "Não haverá menor influência."
No Valor
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No caso Alstom, procurador de Grandis contradiz atuação anterior

O Ministério Público Federal (MPF), em processo no qual tem à frente o procurador da República Rodrigo de Grandis, considerou prematuro o relatório da Polícia Federal (PF) que indiciou políticos tucanos. Ele solicitou novos depoimentos de envolvidos no caso do pagamento de propinas a integrantes do PSDB e a servidores do governo tucano paulista pelo grupo francês Alstom (contratos na área de transportes e de energia elétrica).
Concluído em agosto de 2012, o relatório partiu de informações obtidas pelo Ministério Público da Suíça, que até bloqueou contas de tucanos paulistas naquele país, suspeitas de resultarem de corrupção e propina paga mediante contratos em que a multinacional foi favorecida por membros do PSDB e da administração estadual tucana de 1995 a 2003.
Mas, agora, está na Folha de S.Paulo de hoje: o procurador da República Rodrigo de Grandis, responsável pelo caso, cobra novas investigações porque, segundo ele, é preciso "aprofundar o que já é conhecido em termos de extensão. (...) Isso não é excepcional, faz parte da dinâmica da própria investigação". De Grandis pediu à Receita Federal e ao Banco Central novos dados de envolvidos e indiciados no escândalo.
A PF, conforme já foi divulgado antes, registra no inquérito que "foi produzido um conjunto robusto de provas, que demonstrou indícios de materialidade e autoria nos crimes pelos quais os investigados foram indiciados".
E agora, quem diria, o antes Torquemada procurador federal Rodrigo De Grandis pede novas investigações no caso das denúncias e investigações da corrupção tucana em Sao Paulo. Esse seu comportamento contradiz toda a sua atuação nos últimos anos em São Paulo. Ele está sob suspeição e deveria se declarar impedido de continuar no caso.
No Blog do Zé
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Sem alarde da mídia, Alckmin renova 5,2 mil assinaturas da Veja

No último dia 14 de junho, enquanto as atenções estavam voltadas para os protestos nas ruas de São Paulo, o Diário Oficial do Estado publicou a compra – sem licitação – de 5.200 assinaturas semestrais da revista Veja para serem distribuídas nas escolas da rede pública. O valor contratado foi de R$ 669.240,00, a ser desembolsado em nome da Fundação para o Desenvolvimento da Educação, órgão do governo estadual.
Há anos os governos tucanos paulistas recebem duras críticas pela compra em grande volume destas revistas e jornais. As críticas começam pela dispensa de licitação, afinal há pelo menos outras três revistas semanais no Brasil que concorrem com a Veja.
A linha editorial da publicação é, digamos assim, a mais simpática ao governo paulista e hostil à oposição dentro do estado. E isso atrai questionamentos aos governadores tucanos da vez, sobre haver mais interesse político próprio do que público nesta compra.
Outro ponto polêmico é se a revista é realmente adequada para ser direcionada ao ambiente escolar, tantas são as polêmicas em torno de suas reportagens. E não me refiro apenas aos diversos casos que ensejaram processos e condenações, seja de indenização por danos morais, seja de direitos de resposta.
Há também casos de reportagens contestadas e repelidas pelo meio acadêmico e científico, inclusive um caso de apologia ao consumo de remédios para emagrecer que haviam sido proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). E lembremos que, no ano passado, a revista esteve envolvida com o escândalo do bicheiro Carlinhos Cachoeira, cujas interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça captaram diálogos que sugerem estreita proximidade entre o alto escalão da Veja, bem acima do recomendável e até hoje mal explicada.
Com esse perfil editorial, que não podemos chamar de educativo, seria melhor o governador Geraldo Alckmin deixar que quem a queira ler que a compre, em vez de fazer distribuição compulsória para escolas com dinheiro público.
Além disso, a revista sequer está direcionada para a faixa etária dos estudantes. A própria editora Abril publica, em seu perfil dos leitores que apenas 11% têm mais de dez e menos de 19 anos. A maior fatia de leitores tem mais de 50 anos.
Mesmo que não existisse nenhum dos argumentos anteriores, recente pesquisa da Fundação Perseu Abramo registrou que 37% dos entrevistados se informam pela internet, contra 24% por revistas impressas. A pesquisa ouviu 2,4 mil pessoas de todas as idades acima de 16 anos. Se fosse refeita só com a faixa etária de estudantes até o ensino médio, a diferença a favor da internet seria muito maior, pois as novas gerações usam intensamente as redes. Por isso, o mais provável é que grande parte dos exemplares comprados para as escolas fiquem encostados em vez de serem lidos pelos alunos, o que revela um mau gasto de dinheiro público.
Enfim, a decisão de continuar comprando estas assinaturas é muito boa para os interesses empresariais dos donos da revista, inclusive sustentando a tiragem artificialmente, o que segura o preço dos anúncios. Pode ser boa também para os interesses políticos do governador, mas é péssima para os cofres públicos paulistas e para os estudantes das escolas públicas.
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Médicos cubanos: pode criticar, mas não é trabalho escravo

Se considerarmos que a condição dos médicos cubanos que estão sendo trazidos ao Brasil é de trabalho escravo contemporâneo, como querem fazer crer alguns contrários ao programa Mais Médicos, também teremos que incluir nessa conta milhões de trabalhadores do agronegócio, da construção civil, dos serviços que recebem salários abaixo do piso ou do mercado. O governo cubano deve receber os recursos das bolsas de R$ 10 mil e repassar parte delas aos seus médicos no Brasil.
Renato Bignami, responsável pela fiscalização de casos de escravidão em São Paulo, analisa que, a princípio, os elementos do novo programa do governo federal não caracterizam trabalho análogo ao de escravo. Se considerarmos que configuram a priori, parte do trabalho no Brasil seria escravo. Ou seja, um desconhecimento do artigo 149 do Código Penal, que trata do tema, e da jurisprudência em torno dele.
E os fiscais do trabalho já viram muita gente, inclusive escravos envolvidos em processos do próprio governo federal, como na produção de coletes para recenseadores do IBGE, em obras do Minha Casa, Minha Vida, do Programa de Aceleração do Crescimento, do Luz para Todos…
Ganhar pouco ou mesmo estar em condições precárias de trabalho são coisas diferentes de trabalho escravo. Estampar algo como “trabalho escravo” pode ser útil para dar notoriedade a um argumento, uma vez que é um tema grave e que gera repulsa por parte da sociedade. Mas, por isso mesmo, deve-se tomar muito cuidado ao divulgá-lo, que é o que os jornalistas que cobrem o tema tentam fazer o tempo todo. Saibam que muita coisa fica de fora porque não se sustenta.
De acordo com o artigo 149, são elementos que determinam trabalho análogo ao de escravo: condições degradantes de trabalho (aquelas que excluem o trabalhador de sua dignidade), jornada exaustiva (que impede o trabalhador de se recuperar fisicamente e ter uma vida social), trabalho forçado (manter a pessoa no serviço através de fraudes, isolamento geográfico, ameaças e violências físicas e psicológicas) e servidão por dívida (fazer o trabalhador contrair ilegalmente um débito e prendê-lo a ele).
Não espero que o corporativismo tacanho de alguns representantes de associações médicas entendam isso. Mas o cidadão comum, sim, precisa compreender a diferença.
Uma coisa é a política pública em si, de levar médicos estrangeiros ao interior do Brasil em áreas carentes, que – a meu ver – está correta. Outra é deixar de garantir direitos a grupos de trabalhadores, nacionais ou estrangeiros, o que não pode ser aceito.
Se a lei que sair do Congresso Nacional sobre essa política pública, oriunda da análise da medida provisória encaminhada pelo governo, retirar direitos, ela será inconstitucional. Pois mesmo se o regime de trabalho proposto pela MP for excepcional, ele precisa obedecer à Constituição. Caso contrário, vai naufragar. Simples assim.
Essa adaptação vai acabar ocorrendo via controle de constitucionalidade abstrata, pela Procuradoria Geral da República ou pela Procuradoria Geral do Trabalho, ou via milhares de ações individuais por parte dos próprios médicos envolvidos.
Ao mesmo tempo, é fundamental o Ministério Público do Trabalho monitore qualquer irregularidade que prejudique o trabalhador, fazendo com que o governo respeite a Constituição Federal (principalmente o artigo 7o, que versa sobre os direitos dos trabalhadores), as convenções da Organização Internacional do Trabalho e os tratados de direitos humanos dos quais o país é signatário. Prevenir é melhor que remediar.
“Acho difícil acreditar que a Organização Pan-Americana de Saúde validaria uma experiência com mão de obra escrava”, pondera José Guerra, secretário-executivo da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, vinculado à Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, lembrando que a vinda de médicos tem a parceira da Opas.
Marcus Barberino, juiz do trabalho da 15a Região e um dos maiores especialistas jurídicos em trabalho escravo contemporâneo, concorda que não é possível afirmar que o programa incorre em escravidão contemporânea. E que é preciso ter muito cuidado com o conceito. ”A proteção contra tratamentos discriminatórios ao trabalho é de âmbito constitucional e não permite tratamento distinto quanto aos direitos fundamentais. Fora da moldura constitucional, todo programa público será revisto pelo Judiciário naquilo que confrontar com a Constituição, que corresponde ao piso civilizatório universal”, afirma.
Como já disse aqui, a gente perde os cabelos, há anos, tentando fazer a bancada ruralista no Congresso Nacional entender que trabalho escravo contemporâneo não é qualquer coisa, como falta de azulejo no banheiro ou salário baixo, mas um pacote de condições que configura uma gravíssima violação aos direitos humanos. E, de repente, pessoas que desconhecem o tema usam-no em proveito próprio.
Como disse um médico amigo meu que conhece bem a fronteira agrícola amazônica e lá trabalhou: se esse povo todo que fala essas groselhas conhecesse o que é trabalho escravo de verdade ou, pelo menos, a realidade dos trabalhadores rurais do interior do país, não teria coragem de fazer esse paralelo absurdo.
Acima de tudo, isso é falta de contato com a realidade e de respeito com quem realmente está nessas condições e precisa ser resgatado para ter sua liberdade ou dignidade de volta.
No Blog do Sakamoto
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Vou desenhar!

Algumas pessoas, por deficiência intelectual, preguiça mental ou por servilismo canhestro, têm dificuldades para separar o interesse ideológico do dado factual. Para a festejada miss Soledade, colunista de Zero Hora, Rosane de Oliveira, investir na saúde pública é “aposta de risco”. A regra é clara, a RBS trata tudo como se fosse um simples jogo. É por isso que seus colunistas transitam livremente do campo esportivo para o político, sem estarem preparados para nenhum dos dois. Mas se desincumbem das tarefas que os chefes mandam com docilidade bovina. Ser subserviente, no caso da RBS, é condição sine qua non. Duvido que Yoani Sánchez seja tão dócil quanto Rosane é com seu patrão. Num país como o nosso, em que a desigualdade social é gigantesca, receber dez mil reais parece troco, uma esmola, quase uma ofensa, tamanha a desconsideração pelo valor. Como já esgotaram a lista de possíveis problemas, agora se apegam ao valor que ficará no bolso dos médicos cubanos. Esta filigrana se escora no fato de que profissional liberal não paga imposto. Ou alguém nunca ouviu no consultório particular a pergunta: é com nota? Porque com nota é um valor; sem, outro. E não vão ouvir a população que se beneficiará pelo acesso ao serviço médico. A população que, em virtude da luta da RBS, pode ficar sem médico, deveria repensar sua relação com este grupo mafiomidiático e dar aos funcionários da RBS o mesmo tratamento que ela está dando a quem está sem médico.
Se Cuba não é o paraíso que os simpatizantes apregoam, também não é a falsa democracia que a RBS defende, até porque a RBS simpatizou abertamente com a ditadura brasileira. Por que será que Yoani Sánchez pode circular o mundo falando mal de Cuba e retornar para casa para usufruir das “precariedades” da Ilha? E o que aconteceria se Edward Snowden ou Julian Assange pisassem nos EUA? O mesmo que aconteceu com Bradley Manning… Imagine-se o que diria Rosane de Oliveira, em nome da RBS, se Cuba espionasse o Brasil como fez os EUA…
Se um médico cubano que fica, digamos, com apenas 50% do salário, pode ser considerado escravo, o que se pode dizer do entregador do jornal Zero Hora, que recebe um salário mínimo mensal? Conheço pessoas altamente qualificadas que recebem da RBS, para desenvolverem atividades administrativas, 50% dos 50% dos cubanos. A RBS os considera seus escravos?! Perguntem quanto ganha um vendedor da Vivo, da OI ou Tim, estas festejadas multinacionais. Seriam todos trabalhadores escravos? Esta semana um trabalhador do Bank of America, em Londres, morreu em virtude da “jornada extenuante” de trabalho. E ele recebia menos que os médicos cubanos… A RBS não tratou como trabalho escravo, e nem cobrou tratamento mais humano. Precisa explicar esta diferença de tratamento para as mesmas questões? Se não entendeu, sinta-se na estrebaria e relinche!

"Dilma faz aposta de risco ao trazer cubanos"

Rosane de Oliveira
rosane.oliveira@zerohora.com.br
Se der certo, o programa Mais Médicos estará para a presidente Dilma Rousseff como o Bolsa Família para o ex-presidente Lula. É saúde a demanda número 1 da população em todos os Estados brasileiros. Os prefeitos querem mais médicos e não se importam se são cubanos, espanhóis, portugueses, argentinos ou uruguaios. Diante do desinteresse dos brasileiros em receber uma bolsa de R$ 10 mil para clinicar nas periferias das grandes cidades e nos confins do Brasil, o governo vai importar profissionais de outros países, ignorando as críticas dos sindicatos e dos conselhos regionais de medicina, que exigem a revalidação do diploma.
Se os estrangeiros conseguirem dar às populações desassistidas a atenção que não têm hoje, Dilma pode se consagrar com esses eleitores, mas enfrentará uma oposição ferrenha dos médicos brasileiros. Os descontentes poderão usar sua capacidade de articulação para desgastar a presidente e, assim, tentar impedir sua reeleição, mas Dilma foi convencida pelos ministros Alexandre Padilha e Aloizio Mercadante de que vale a pena comprar a briga.
A maior dificuldade de Dilma em relação aos médicos cubanos será convencer a população de que não está trazendo escravos de jaleco, com diploma de curso superior. Porque é inconcebível para a cultura brasileira aceitar que os R$ 10 mil da bolsa oferecida pelo Brasil sejam pagos ao governo cubano e que só uma pequena parcela retorne para o médico.
Ainda que 20% ou 30% de R$ 10 mil seja uma pequena fortuna para os médicos que trabalham em Cuba, acostumados a receber uma ração básica e salário em torno de US$ 20, no Brasil, o apelo de consumo é diferente. O fato de não poderem dispor do dinheiro, como poderão os médicos de outras nacionalidades, e de estarem impedidos de trazer a família para viver com eles no Brasil coloca os cubanos na condição de escravos em pleno século 21.
Com a importação de 4 mil médicos cubanos e a remessa do dinheiro para a ilha, o governo brasileiro contribui para a sobrevida do regime comunista cubano. É oxigênio para uma ditadura asfixiada pelo embargo dos Estados Unidos, que ensaia os primeiros passos de uma abertura, mas está longe de ser o paraíso socialista que seus simpatizantes apregoam.
ZERO HORA
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“Comer uma mulata” não lhe fará menos racista

“Deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata!”. A seguir, cinco considerações sobre elogios racistas
Elogio racista é toda demonstração de admiração, afetividade ou carinho que se concretiza por meio de ideias ou expressões próprias ao racismo. Com ou sem a intenção de, que fique bem claro. Um dos mais conhecidos é o famoso “negro de alma branca” que nossos antepassados tanto ouviram. Mas não são apenas nossos homens que conhecem muito bem os elogios racistas. Nós mulheres negras também somos agraciadas com esses pequenos monstrinhos, usados inadvertidamente por amigos, familiares. Muitas vezes até por nossos parceiros.
Decidi fazer uma lista com 5 elogios racistas (e sexistas, diga-se de passagem) que muitas de nós escutamos quase que diariamente. Alguns são consenso, acredito. Outros nem tanto. Fico aguardando ansiosa para que você, mulher negra, deixe seu comentário dizendo se também acontece com você.
Se concorda, se discorda. E sobretudo, o que você faz para deixar bem claro que o elogio racista pode ser tudo, menos bem vindo e apreciado.

01. “Você é uma morena muito bonita”

Esse é o elogio racista que mais escutei em toda minha vida. Minhas primeiras lembranças são do tempo da escolinha. Mesmo mulheres como Adriana Alves ainda são chamadas de morenas, pois se acredita que chamar alguém de negra é uma ofensa racial. Se você precisa se expressar, tente um simples “você é bonita ou atraente”. Ou ainda “você é uma negra linda”, o que, dependendo do contexto pode ser tão ruim quanto.
Mas em hipótese alguma diga que uma negra é morena, moreninha, morena escura. Que não é negra. Isto sim é racismo dos graúdos, pura e simplesmente. Quando acontece comigo, digo que não sou morena e nem moreninha, sou n.e.g.r.a. O bom é que, dependendo de como essa resposta é dada, a pessoa já se toca que ela não deveria ter começado o conversê, que simplesmente não estou disponível para esse tipo de diálogo. Nem com conhecidos, muito menos com estranhos.

02. “Seu cabelo é muito bonito, posso pegar?”

Há alguns anos atrás, uma senhora ultrapassou todos os limites de uma convivência pacífica ao se aproximar de mim, cheia de dedos, me tocando sem permissão e dizendo que eu tinha uma “peruca muito bonita”. Não retruquei de caso pensado, antecipando seu constrangimento por jamais ter cogitado que uma mulher negra pudesse ter um cabelo comprido, ao natural. Minha vingancinha, e sou dessas, foi olhar aquela expressão de arrependimento por ter percebido o que fez.
elogios racistas negras
Alek Wek também é uma modelo de traços delicados
(Imagem / Blogueiras Negras)
Entendo que simples visão de uma negra com cabelo natural pode ser inebriante. Que persiste a completa desinformação sobre o nosso cabelo. Porém, isso não justifica o toque sem permissão. Não importa se é cabelo natural ou não. A menos que você conheça muito bem a pessoa, não toque em seu cabelo sem consentimento. Eu iria mais longe. Para mim a boa etiqueta simplesmente reza que não se deve nem mesmo pedir para tocar o cabelo de uma pessoa desconhecida.

03. “Você tem os traços delicados”

Dizer que uma negra tem traços “delicados” muitas vezes tem a ver com a ideia de que será bonita se tiver uma expressão “fina”, leia-se semelhante a de uma pessoa branca. Como se determinado tipo de nariz (ou bochechas) fosse exclusivamente dessa ou daquela etnia. Uma de suas variantes é outra expressão igualmente racista – “você é uma mulher negra bonita” – algo que ao meu ver é a mesma coisa de dizer que “você é bonita para uma negra”.
Afinal, qual a dificuldade de dizer que uma mulher negra simplesmente é… Uma mulher bonita? Porque Alek Wek tem de ser descrita como uma “mulher negra bonita” enquanto as mulheres brancas são apenas “mulheres bonitas”? Mais uma vez, toda a sutileza do elogio racista. Ele reconhece que você é uma pessoa admirável, mas sempre fazendo questão de te colocar “no seu lugar”, como se algumas fronteiras jamais pudessem ser cruzadas.

04. “Você tem a bunda linda”

Essa é uma opinião que certamente não é unânime. Faço questão de expressá-la como uma provocação que representa o pensamento de uma parcela significativa de mulheres negras. Para muitas de nós, esse comentário expressa a hiperssexualização a que somos historicamente submetidas como exemplifica a triste biografia de Saartjie, denominada a Vênus Hotentote, exposta como atração circense em função da admiração que suas nádegas causaram na Europa do século XIX.
mulata elogios racistas
Mulata da Leandro de Itaquera
(Reprodução)
Apesar de todo respeito que tenho por tudo aquilo que acontece entre duas pessoas, preciso considerar a tradição racista secular desse tipo de discurso. Trata-se de reduzir a mulher a um pedacinho do seu corpo, desconsiderar sua humanidade, transformá-la num pedaço de carne exposto no açougue como aconteceu e acontece diariamente. Meu conselho é pergunte antes se a mulher a quem você pretende cumprimentar tem a mesma leitura desse tipo de elogio.

05. “Você é uma mulata tipo exportação!”

Esse elogio ainda o tratamento dispensado à mulher negra no seio da senzala, da casa grande. O pensamento que nos reduz em brinquedos sexuais. Dizer que uma mulher negra é uma “mulata tipo exportação” é esquecer uma tradição escravocrata secular, que transforma a mulher negra em “peça” que alcançará boa cotação no mercado onde a carne mais barata é a nossa. O nome desse mercado é exotificação. Em alguns casos, hiperssexualização.
Infelizmente também estamos falando sobre o modo racista com que as mulatas de escola de samba, mulheres que respeito e admiro, são mostradas e consumidas. Mulheres que levam o samba no pé, no sorriso, na raça. Que, ao invés de serem uma referência de beleza, são vendidas como frutas exóticas na temporada do carnaval. Mulheres que recentemente tem sido preteridas por “personalidades da mídia” em nome de uma pretensa “democracia racial” e muitas vezes com a anuências de algumas agremiações.
Qual é a sua opinião?
Porém, preciso dizer que os elogio racistas podem (e devem) subvertidos. Quando o assunto são as mulatas de quem já falei aqui, isso é bastante evidente. Ser uma mulata exportação também atesta um padrão de excelência e traduz qualidades como perseverança, força. Minha professora de dança adora dizer que a graça de uma bailarina é diretamente proporcional à sua força. Mulatas são a expressão mais concreta desse enunciado.
Por isso fiz questão de usar como título desse post, um trecho do poema de Elisa Lucinda, Mulata Exportação, que resume tudo o que tentei dizer até aqui: “deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata” como muita gente gosta de pensar. E acrescento, “opressão, barbaridade, genocídio, nada disso se cura trepando com uma escura!”. Muito menos tecendo elogios racistas, diga-se de passagem. Quem o diz é a mulata exportação do poema. Sou eu, somos todas nós que já ouvimos essas porcarias.
Confesso que essa lista tem algo de muito pessoal, cujas entrelinhas tem muitas dedicatórias alimentadas por ironia. Nem por isso menos pertinente. Por isso adoraria ouvir a opinião de vocês. Esqueci algum elogio racista que te incomoda? Que te fez espumar de ódio, revirar os zóios e dizer algumas verdades? Você também acredita que esse tipo de comentário, como tudo aquilo que é racista e preconceituoso, diz muito sobre a pessoa que o faz do que sobre a pessoa a quem se destina?
Charô Nunes, Blogueiras Negras
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Coleção História Geral da África

Foto: Divulgação 
A coleção História Geral da África já foi publicada em árabe, inglês e francês; e sua versão condensada está editada em inglês, francês e em várias outras línguas, incluindo hausa, peul e swahili. Agora, a população brasileira foi brindada com a versão em português deste que é considerado pela UNESCO como um de seus projetos editoriais mais importantes dos últimos trinta anos.    
Marco no “processo de reconhecimento do patrimônio cultural da África”, a coleção  facilita a compreensão sobre “o desenvolvimento histórico dos povos africanos e sua relação com outras civilizações a partir de uma visão panorâmica, diacrônica e objetiva, obtida de dentro do continente” – como descrevem os coordenadores do projeto,  no site da UNESCO.    
Como também explicado pelos responsáveis pelo projeto, a coleção foi produzida por mais de 350 especialistas das mais variadas áreas do conhecimento, “sob a direção de um Comitê Científico Internacional, formado por 39 intelectuais, dos quais dois terços eram africanos”. Para ler mais sobre o assunto, clique aqui ou acesse o site da organização.
Download gratuito (somente na versão em português):
DivulgaçãoVolume I: Metodologia e Pré-História da África
(PDF, 8.8 Mb)
ISBN: 978-85-7652-123-5
DivulgaçãoVolume II: África Antiga
(PDF, 11.5 Mb)
ISBN: 978-85-7652-124-2
DivulgaçãoVolume III: África do século VII ao XI
(PDF, 9.6 Mb)
ISBN: 978-85-7652-125-9
DivulgaçãoVolume IV: África do século XII ao XVI
(PDF, 9.3 Mb)
ISBN: 978-85-7652-126-6
DivulgaçãoVolume V: África do século XVI ao XVIII
(PDF, 18.2 Mb)
ISBN: 978-85-7652-127-3
DivulgaçãoVolume VI: África do século XIX à década de 1880
(PDF, 10.3 Mb)
ISBN: 978-85-7652-128-0
DivulgaçãoVolume VII: África sob dominação colonial, 1880-1935
(9.6 Mb)
ISBN: 978-85-7652-129-7
DivulgaçãoVolume VIII: África desde 1935
(9.9 Mb)
ISBN: 978-85-7652-130-3
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Entrevista com Ricardo Darín

O ator e galã argentino fala sobre as vantagens de ter um papa portenho, por que Pelé é uma besta, o disco brega que gravou nos anos 70, golpes de sorte, cinema brasileiro e o dia em que deu um autógrafo para a mãe de Maradona
Na terceira semana de junho, Ricardo Darín cancelou uma série de apresentações que faria no teatro Maipo, em Buenos Aires, e enfurnou-se em sua casa para tentar baixar uma febre de 39 graus que havia uma semana insistia em castigá-lo. Mesmo febril e muito gripado, na manhã do dia 19 pegou sua BMW preta e foi, sozinho, até o hospital fazer um raio X da face – ele desconfiava estar com uma forte sinusite. Foi o suficiente para os sites e programas de fofoca espalharem a exagerada notícia de que a saúde do ator argentino era preocupante, de que ele havia sido internado em caráter de urgência e até de que estava nas últimas.
Aos 56 anos, Ricardo Alberto Darín é um dos maiores ídolos da Argentina, desfrutando da mesma popularidade de estrelas como o ex-jogador de futebol Maradona, o atual craque do Barcelona Lionel Messi e o novo papa portenho Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco. Não é de se estranhar, portanto, que a imprensa de celebridades busque notícias sensacionalistas sobre o astro de filmes como O Segredo dos Seus Olhos, O Filho da Noiva e Um Conto Chinês.
Com quase 50 anos de carreira, 40 filmes e dez peças no currículo, Darín está de volta ao cinema com o suspense Tese sobre um Homicídio, que tem estreia prevista para o dia 26 de julho no Brasil. Também está em cartaz na Argentina com a adaptação teatral de Cenas de um Casamento, escrita pelo dramaturgo e cineasta sueco Ingmar Bergman nos anos 70 para a televisão. Contracena com a atriz Valeria Bertuccelli sob direção de Norma Aleandro, uma espécie de Fernanda Montenegro portenha e com quem ele fez sua estreia na vida artística, aos 8 anos de idade, no rádio. De lá para cá protagonizou incontáveis comerciais, fez novelas, teatro e cinema. No final dos anos 70, desfrutando de grande popularidade por causa de um programa de TV que fazia na companhia de outros jovens galãs, chegou a gravar um disco do qual lembra com certo desgosto: “Aquilo foi um delírio, uma estupidez”. Foi nessa época que ficou amigo de Maradona, durante um concurso de Miss Mundo, ocasião em que o ex-craque, ainda um garoto, lhe pediu um autógrafo para dar à sua mãe.
Darín é tudo o que você não espera de uma celebridade. A começar pelo fato de não se considerar uma celebridade. “O inimigo número um dos atores é o ego”, diz. Filho de um casal de atores “talentosos, mas que não tiveram sorte na vida”, ele conhece todos os meandros, truques e armadilhas do mundo artístico. Insiste em dizer que é um cara de sorte, joga a responsabilidade pelo seu sucesso no talento dos profissionais com quem trabalha e não dá pelota para o Oscar que O Segredo dos Seus Olhos ganhou em 2010. “Não fez diferença alguma na minha vida”, diz.
Para esta entrevista, Darín recebeu o jornalista Ricardo Moreno em sua ampla casa no bairro de Palermo Hollywood, em Buenos Aires, que divide com a esposa, a psicanalista Florencia Bas, de 45 anos, os filhos Chino, 24, Clara, 20, e quatro chachorros: três buldogues franceses e um jack russell, de nomes Kenya, Nelson, Nancy e Marón. Casas, na verdade, pois são duas. Alguns anos atrás, sabendo que a vizinha idosa venderia seu imóvel para uma incorporadora, Darín arrematou-o e ainda deixou a velhinha morando lá.
O encontro, inicialmente agendado para a tarde do dia 20 de junho, uma quinta-feira, teve que ser remarcado para o dia seguinte por causa da forte gripe do ator. Sem a intermediação de assessores de imprensa ou relações públicas, Darín mandou uma mensagem para o celular do fotógrafo Enrico Fantoni perguntando se havia problema em atrasarmos em 24 horas o encontro, pois não se sentia bem. Às 16 horas do dia 20, Darín abriu a porta e pediu para que entrássemos rápido – fazia um frio de 3 graus do lado de fora. “Quer um café? Uma água? Um suco? Uma Coca-Cola?”, ofereceu. Em duas horas de conversa, entre tosses, espirros e um bom humor contagiante, Darín não se esquivou de nenhuma pergunta. Pelo contrário, colocava novos assuntos à mesa enquanto Florencia servia sanduíches de pão de miga recheados de presunto e queijo.
Por que o cinema argentino é melhor do que o brasileiro?
Não estou tão certo de que o cinema argentino seja melhor. Falar do cinema em geral é arriscado. Podemos falar de filmes em particular, mas falar do cinema como indústria de um país é complicado.
Ok, não vamos entrar no mérito da indústria. Mas por que os filmes argentinos vêm tendo mais sucesso do que os longas brasileiros?
Eu acredito que o cinema na Argentina tem a sorte de contar com roteiristas novos, gente desintoxicada do passado. Eles não se sentem na imperiosa necessidade de ter que falar de coisas como a ditadura, por exemplo. Têm liberdade para tratar de outras temáticas. Mas o Brasil deu mostras incríveis de um bom cinema durante muitos anos. E aqui, na Argentina, se consumia muito, mas muito cinema brasileiro.
E quais são os filmes brasileiros de que você mais gosta?
Central do Brasil [de Walter Salles, 1998] e Pixote [de Hector Babenco, 1981]. Há outros, muitos outros. Mas os primeiros que me vêm à cabeça são esses.
Voltemos à indústria cinematográfica. Qual é a sua opinião sobre ela?
Todos os cinemas do mundo foram dominados por grandes corporações americanas, que não só fazem os filmes, mas também os distribuem, os promovem, fazem os pacotes completos e ainda vendem a pipoca, a Coca-Cola e te cobram o estacionamento dentro dos complexos que elas mesmas construíram.
No Brasil, a Globo é a maior produtora de cinema. Você acha isso bom?
Ah, esse é outro assunto. Se a Rede Globo capta a maior quantidade de investimentos e, naturalmente, vira a maior produtora de cinema nacional, ela vai querer que os protagonistas de seus filmes sejam os atores e diretores de suas novelas. E há uma distância grande entre o que é fazer televisão e o que é fazer cinema. Não quero dizer que os atores de televisão não possam trabalhar no cinema ou vice-versa. Mas se desde a concepção resolve-se fazer mais ou menos a mesma coisa que se faz na TV para tratar de captar audiência, porque tal novela teve muito Ibope, isso é como um cachorro que corre atrás do próprio rabo. Tem que haver uma independência. Evidentemente há um problema aí. E é tão claro esse problema que nem precisa de um diagnóstico.
Existe algum ator brasileiro reconhecido na Argentina assim como você é no Brasil?
Temo dizer que, neste momento, não há. De uns tempos para cá, as produtoras argentinas simplesmente não lançam quase mais nada do Brasil aqui. A não ser que seja um blockbuster tipo Tropa de Elite. E o que acontece com o cinema argentino no Brasil é o contrário. Eu tive a sorte de filmes como Clube da Lua, O Filho da Noiva, Kamchatka e O Segredo dos Seus Olhos, entre outros, terem estreado e sido muito bem recebidos no Brasil.
E tem alguma ideia de por que eles foram tão bem recebidos?
Tenho algumas teorias. Uma delas é que no Brasil ainda existem alguns pequenos donos de cinema independente que tratam de programar suas salas de uma forma distinta à das grandes empresas. Eles conhecem sua clientela, seu bairro e o tipo de gente que mora por ali. Quem sabe seja por isso que os filmes que faço ainda passem no Brasil.
A gente valoriza muito o Oscar, que nós nunca ganhamos, enquanto a Argentina tem dois. Mudou muita coisa para o cinema argentino ter ganhado as estatuetas?
Para mim não fez diferença alguma. Também não sei se ajudou o cinema argentino de uma forma geral, mas me parece que não.
Mas alguém deve ter se beneficiado, não?
Beneficia os produtores, as pessoas que trabalharam nessas equipes. Para cada uma delas, o Oscar representa notoriedade. O que não podemos deixar de reconhecer no prêmio em si é a transcendência mundial que ele tem. Mas não sei se isso ajuda a fazer filmes melhores. Suponho que se te perguntam se você quer trabalhar em um projeto em que o produtor é alguém que ganhou um Oscar, as coisas facilitam um pouco, você vai prestar mais atenção no discurso do cara. Mas o que tampouco é garantia de alguma coisa.
Você nunca teve vontade de fazer filmes em Hollywood?
A verdade é que não. Talvez porque nunca me propuseram algo realmente atrativo. Quando aparecer algo que eu ache interessante, certamente vou considerar. Leio muitos roteiros. Alguns o meu agente lê e diz: “Nem leia que você vai perder a paciência”.
Que tipo de convite já apareceu?
Custo a entender por que um produtor norte-americano me procura para fazer o papel de um chefe de narcotráfico mexicano. E falando inglês! Não faz sentido. É de uma infantilidade e minimalismo tremendos.
Benicio del Toro fez papéis como esse…
O Benicio é muito mais inteligente do que eu, além de mais jovem e muito melhor ator. E também mais simpático. Ele pode ir e vir, cobrir várias frentes, já provou isso. Mas, sim, teve que pagar esse preço inicial para chegar aonde chegou. Hoje em dia, afortunadamente, ele tem liberdade para escolher papéis que tenham mais a ver com o que acredita.
Três anos atrás você anunciou que faria um filme com o Walter Salles. O que aconteceu?
O produtor associado, Óscar Kramer [produtor de filmes como O Passado, Carandiru e Kamchatka] faleceu em 2010. E isso naturalmente gerou uma pausa no projeto, pois precisávamos digerir e assumir essa perda de alguma maneira. O Walter continuou trabalhando no roteiro enquanto filmava Na Estrada. O projeto não foi abandonado, mas está em stand by pois nossas agendas se complicaram. Mas continuo com vontade e esperança de que ainda possa levar adiante esse projeto de trabalhar com ele.

Seu novo filme, Tese sobre um Homicídio, estreia agora no Brasil. Do que se trata?
É um suspense policial. A história se passa dentro da faculdade de direito em que meu personagem, o professor Bermúdez, dá aula de criminalística. Ele é o responsável por um mestrado para advogados no qual todos têm que fazer, ao final do curso, uma tese. E durante esse curso acontece um assassinato de características muito particulares. Bermúdez fica obcecado com esse crime e resolve ir fundo na investigação.
Há mais de uma década você estreia pelo menos um filme por ano, às vezes até mais. É algo planejado?
Não. As coisas simplesmente acontecem. Cinema é algo que começa a ser feito com muita antecedência, dois, três anos antes de o filme realmente estrear. Tem a ver com a distribuição, com a produtora. Eu nunca planejo nada. A única coisa que tenho planejada e que nunca consigo cumprir são as minhas férias.
Mas você está satisfeito com esse ritmo ou tem vontade de trabalhar menos?
Eu tenho vontade de não fazer nada. A verdade é essa: tenho vontade de não fazer nada. Por mim, se eu pudesse, iria viajar por aí. Mas há compromissos que você vai assumindo, coisas combinadas, amigos, um livro que entusiasma, uma história que parece ser interessante e que valha a pena ser filmada.
Há quanto tempo você não sai de férias?
Muito tempo. Nem lembro. Estive planejando viajar antes de começar esta temporada no teatro e não consegui.
Isso é sinal de que surgem muitos convites para você trabalhar. O que vem por aí?
Terminei de rodar Relatos Selvagens. É o filme de um cineasta jovem e muito talentoso chamado Damián Szifrón. Estou botando muita fé nele. São cinco ou seis contos curtos e que, aparentemente, não têm ligação entre si. Mas, no fundo, todos têm um denominador comum, que é a sobrecarga de violência na sociedade. Algo que vocês, brasileiros, conhecem muito bem, sobretudo neste momento de tantas manifestações pelas ruas.
Você acompanhou o que está ocorrendo nas ruas do Brasil?
Sim. E é claro que não foi só por 20 centavos. Falando dos gastos da Copa, especificamente: eu entendo o significado que uma Copa do Mundo tem para nós, latinos. Mas há tantas necessidades sociais importantes, básicas, elementares, e que não podem ser atendidas por falta de orçamento, que eu começo a pensar se não estamos realmente ficando todos loucos com essa Copa. Tento imaginar a presidente Dilma numa dessas reuniões de emergência, sentada à mesa com seus ministros e assessores, e perguntando: “E agora, o que fazemos?” As pessoas têm muita paciência mesmo…
E parece que essa paciência terminou.
Não é preciso ter uma grande educação para se dar conta de quando você está sendo desrespeitado.
O Pelé foi muito criticado por um vídeo feito durante as manifestações em que pedia que as pessoas as esquecessem e apoiassem a seleção brasileira. Você viu?
O Pelé sempre foi uma besta. O Pelé sempre esteve do lado do poder. Fez um acordo com uma multinacional e está tranquilo para o resto da vida. É uma pena, um cara tão grande como ele foi, um verdadeiro craque, e que deveria estar do lado do povo. É uma lástima, o Pelé é uma lástima.
E, por falar em Pelé, ouvi dizer que você e o Maradona são amigos desde a adolescência. Qual a relação entre vocês?
Conheci-o quando ele tinha 15 anos. Ninguém sabia quem era o Maradona. Estávamos em um programa de televisão, um concurso para escolher a Miss Mundo. Erámos muito jovens: ele com 15 e eu com 18. Os dois sentados, sozinhos, à mesma mesa, e ele me pediu um autógrafo para a sua mãe. Ficamos amigos. Viajamos juntos, jogamos muito futebol, tênis. Mas a relação sempre foi um pouco estranha. Tivemos momentos de grande e profunda amizade e outros de distanciamento. Agora faz muito tempo que não nos vemos. A última vez foi quando a sua mãe faleceu, no velório dela [em novembro de 2011]. Minha mulher ainda é muito amiga da sua ex-mulher e de suas filhas.
E quem você acredita quem foi melhor em campo: Pelé ou Maradona?
Não dá para comparar, pois pertencem a duas épocas distintas do futebol. Vi ambos jogarem muita vezes e cada um deles representou, em seu momento, duas formas muito particulares de se movimentar dentro do campo. Pelé foi um atleta, mas Maradona era mais rápido e habilidoso em situações difíceis. Mas não posso ser hipócrita: meu coração está do lado do Diego.
No começo do ano você causou a ira da presidente Cristina Kirchner ao questionar o enriquecimento patrimonial da sua família. Arrepende-se de ter dito aquilo?
De forma alguma. Não disse nada de errado, nem nada que as pessoas não tinham vontade de perguntar. Só que com a maioria das pessoas não há tanta repercussão. Lamentavelmente, em vez de aparecer uma resposta tranquilizadora, o que apareceu foram mais perguntas a respeito.
Ela lhe respondeu por meio do Facebook em um texto em que, em vez de dar a devida explicação, citava um episódio que levou à sua investigação em 1990 por importar um caminhão que teria entrado na Argentina com uma isenção especial para pessoas com deficiência, algo que depois foi provado que não passava de um mal-entendido. Isso o incomodou?
O que me incomodou foi que parecia que eu estava querendo fazer um ataque pessoal a ela, e não era essa a minha intenção. Ela se equivocou na resposta, mas tampouco foi tão grave assim. Há coisas piores.
Como o quê?
Eu não deveria nunca mais falar de política, pois toda vez que abro a minha boca forma-se um circo bárbaro ao redor e, como disse um amigo, eu não estou preparado para fazer uma análise certeira, aguda, da situação atual da política argentina. Mas também me pergunto: existe alguém com capacidade para fazer uma análise tão certeira e aguda sobre o que está acontecendo neste país?
E ter um papa argentino é bom para o país?
É, claro. Agora podemos fazer mais piadas e contar mais vantagem em cima dos brasileiros pela competição permanente que temos com vocês. Estou brincando. É sensacional que alguém como o [Jorge Mario] Bergoglio tenha conseguido chegar lá. A Igreja Católica, o grande poder eclesiástico, histórico, arcaico, cometeu um erro, se deu conta desse erro e, finalmente, considerou que a saída para salvar o seu “negócio” era ter um papa argentino [risos]. Bergoglio é um homem muito valioso, um homem que tem experiência de rua. Sempre esteve em contato com as pessoas mais humildes, que é o que definitivamente a Igreja Católica deve voltar a fazer. Além de ser ótimo para toda a América Latina, é bom o fato de termos lá no Vaticano um dos nossos, e que anda pela rua a pé e não em carroças de ouro. Ainda que eu não saiba ao certo o quanto ele pode durar nesse lugar. O que me causa temor é exatamente isso: se uma pessoa como o Bergoglio vai durar nessa posição de papa.
Por quê?
Porque é uma posição política. E ele não dá sinais de ser complacente com o poder. A sensação que tenho é a de que ele está realmente tentando buscar uma renovação dentro da Igreja para captar mais fiéis, para que a gente volte a crer nos sacerdotes, condenando o que as pessoas pedem que se condene lá dentro. Naturalmente não podemos esperar que da noite para o dia ele faça uma revolução. E digo isso sem ser católico. Mas me chamam a atenção as suas atitudes. Imagino que, para os católicos, para a gente de fé, essas atitudes devem emocionar e chamar ainda mais a atenção.
Você tem alguma religião ou acredita em algo?
Não tenho nenhuma religião. Creio na força da natureza e no ser humano, ainda que o ache débil, vulnerável, um ser que comete muitos erros e que é um grande e imperdoável depredador. Conheço certas características de certas religiões – algumas compartilho, outras, não. Mas não sei, mesmo assim, se isso me habilita a dizer que não acredito em Deus. Porque às vezes eu digo: “Meu Deus, me ajude!” O ser humano tem a necessidade de acreditar que algo maior esteja olhando tudo o que acontece aqui. Pode ser uma besteira, uma infantilidade, porque é provável que não tenha nada e nem ninguém. Somos nós contra nós mesmos. Mas quem sabe nós não sejamos valentes o suficiente para aceitar isso. Por isso preferimos acreditar que existe algo superior que nos vá entender, ser misericordioso, perdoar e ajudar.
Dizem que o problema de um papa argentino é que ele já chega pensando que é Deus. Essa fama de povo arrogante tem razão de ser?
[risos] Nem todos são arrogantes. Generalizar dessa maneira seria uma injustiça. Aqui em Buenos Aires dizem o mesmo dos brasileiros. São lugares-comuns que, no fim das contas, nos são caros para fazermos piadas uns com os outros e com nós mesmos. Claro, há argentinos muito arrogantes, sobretudo nos aeroportos. Não sei por que, mas me parece que nos aeroportos nós temos a capacidade de fazer reluzir o pior de cada um de nós, e não estou falando apenas dos argentinos, mas de todos os povos. Há argentinos arrogantes, soberbos, mal-educados, intolerantes, gritões, subjugantes, mas também há tanta gente humilde, sensível, transparente, respeitosa. Seria injusto, portanto, dizer que os argentinos são arrogantes. É o tipo de coisa que nos causa graça, então tomamos como se fosse um traço que define todo um povo. Mas não é.
Como é sua relação com os programas e as revistas de celebridades?
Que vão para a puta que os pariu. Ainda assim sempre tive uma relação boa com todo mundo porque respeito o trabalho do cara que está lá, atrás da janela, com frio, na chuva, esperando que eu apareça para dizer alguma coisa. É a minha forma de respeitar o seu trabalho. Só isso.
Você pensava chegar aonde chegou 30, 40 anos atrás?
Eu não pensava nada. Sou filho de um casamento entre dois atores, dois bons atores, mas que nunca tiveram sorte. Nunca conseguiram ter estabilidade, sempre com problemas econômicos, o dinheiro nunca chegava ao fim do mês. Para mim, o máximo que eu esperava ter era um trabalho. O resto era absolutamente secundário. E, nesse sentido, eu tive toda a sorte que eles não tiveram. Nunca precisei pedir trabalho. Até porque sou um dos que acreditam que essa é uma profissão em que, lamentavelmente, se você precisa de trabalho, não pode pedir. Basta que se deem conta de que está procurando emprego para não te darem. Nunca tive planos de querer ser fulano ou beltrano. Isso passa às pessoas que veem as coisas de fora. Eu sempre vi a partir da cozinha. Ou seja, não me reconheço ambicioso nesses termos. O que não significa que eu não seja ambicioso. Algo devo ter, porque senão não iria para a frente, não evoluiria. Sempre ri demais desse ofício. Não me podem contar nada de como funciona, ou tentar me explicar o que é a essência de um ator, o que passa na cabeça dele, no corpo, na alma. Disso eu vi tudo: dos meus pais, da minha irmã [a atriz Alejandra Darín], de mim. Como uma família de atores tivemos muitas oportunidades de viver e experimentar. Sempre fui, e não me canso de dizer, um cara de muita, muita sorte.
Nos anos 1970, pouca gente no Brasil sabe que você gravou um disco romântico-brega que hoje vale um bom dinheiro nos sebos de Buenos Aires. O que foi aquilo?
Foi uma palhaçada, uma brincadeira, um delírio, uma loucura.
Você não gosta de falar sobre isso?
Não tenho problema em falar. Mas foi uma estupidez, não tinha nada de artístico, nada de nada. Foi uma ideia absurda e estúpida de um cara que se aproveitou do fato de eu ser muito jovem na época, de não ter experiência, que me fez acreditar que podíamos fazer algo que fosse decente, atrativo, e que resultou numa estupidez.
Uma coisa meio Serge Gainsbourg latino?
Tipo isso. Nessa época, na Argentina, existia um cara chamado Roberto Vicario, que era um narrador [Darín emposta a voz, imitando o galã] com muita ênfase em cada coisa que falava. Eu não tinha medo de nada, tudo me causava muita graça, eu topei fazer e o resultado foi desastroso.
Você guardou algum disco?
Sim. Mas é ridículo.
Uma amiga me confessou que só sai com homens que tenham visto – e se emocionado – com O Segredo dos Seus Olhos. Ela está louca?
Adorei saber disso! Mas não faz sentido tentar entender as mulheres. Esqueça. Elas são tão maravilhosas que não existe explicação. São como uma obra de arte. Mulheres têm reações muito estranhas.
Mas o que existe em você que tanto mobiliza o sexo feminino?
Eu não sei. E você já deve ter passado por isso. Às vezes, na rua, você vê aquela mulher extraordinária, espetacular, com um fulano que você pensa: o que ela está fazendo com esse tipo? Por algo será! E nem sempre por aquilo que a gente normalmente imagina. As mulheres têm uma leitura muito mais profunda e delicada da vida, das pessoas e dos acontecimentos.
Pode exemplificar?
Nós somos muito mais pragmáticos, enquanto as mulheres são mais misteriosas. As coisas com elas funcionam de outra maneira.
Muitos de seus personagens são indivíduos desajustados, antipáticos, toscos, perdedores. Tem algum com quem você se identifica mais?
O [diretor e roteirista Juan José] Campanella escreveu quatro filmes – O Mesmo Amor, a Mesma Chuva, O Filho da Noiva, Clube da Lua e O Segredo dos Seus Olhos – pensando em mim. Então não seria uma loucura pensar que os personagens que ele escreve se parecem comigo.
O Campanella, inclusive, já o comparou ao [ator italiano] Nino Manfredi.
Ele está louco, louco! Já me comparou também a James Stuart, a [Vittorio] Gassman. Sempre te comparam a alguém.
E você se compara com quem?
Com ninguém. O ser humano tem essa necessidade de ser comparado para saber se está melhor ou pior. Não faz sentido. Eu não me comparo a ninguém e nem quero parecer ninguém. Não creio ser um fenômeno.
Nem com o seu pai?
Não. Meu pai era totalmente distinto. Era tremendo. Esse era o meu pai [Darín levanta da cadeira onde está sentado e dirige-se a um aparador de onde traz uma foto em preto e branco, emoldurada, do seu pai em traje de gala, com um ar existencialista, dançando em uma festa na companhia de uma mulher desprovida de grandes atributos estéticos]. Não, não! Este era o meu pai! [apontando a mulher] [risos].
Você realmente parece não levar a sua profissão a sério, não é?
Ser ator é uma profissão em que o narcisismo e a egolatria estão em primeira ordem. Chega alguém e diz que você é um fenômeno e você gosta, afinal faz bem para o ego, e começa a acreditar que realmente é um fenômeno. Minha luta sempre foi contra isso. O inimigo número um do ator é o ego, o narciso que temos dentro da gente. Tem que manter esse sujeito com o pé no pescoço e imobilizado no chão, porque, quando ele se levanta, vira um monstro.
A impressão que tenho é de que você, no bom sentido, sempre atribui aos outros o seu sucesso: o diretor, o roteiro, a equipe, até os golpes de sorte da vida.
Trabalhar com gente de qualidade ajuda a elevar a tua própria qualidade. Ninguém pode ficar com o prêmio para si mesmo. É injusto. Atores são a parte visível de um filme, então fica mais simples dizer: “Ah, eu adoro o filme do fulano!” Mas ali trabalharam 150 pessoas. Profissionais que tiveram que quebrar a cabeça, que passaram dias na moviola, fazendo a trilha… Eu não posso, então, chegar ao ponto de ser tão atrevido, desrespeitoso de achar que o mérito é apenas meu quando há 150 pessoas atrás da câmera fazendo com que eu pareça mais interessante e charmoso do que eu sou.
Você dá muito palpite?
Opino, me meto, discuto, sugiro, brigo. Mas eu diria que sou mais um dialoguista – ajudo, e gosto, de reescrever diálogos. Não se trata de uma exigência particular, e sim de uma questão orgânica. Um ator dificilmente pode estar bem em cena se estiver fazendo algo em que não acredita. O que não significa que ele tenha que pensar como pensa o personagem. Mas, sim, deve acreditar no que está dizendo. E, para isso, é necessário que o texto seja o mais próximo do natural. Às vezes uma palavra escondida no meio de uma fala vira um obstáculo. E ninguém sabe que o problema está ali até que se descubra. É como o ouvido natural dos músicos.
Com quantos anos você começou a trabalhar?
Aos 8, fazendo radionovela. Mas apareci pela primeira vez na televisão aos 2 e meio, em uma cena com os meus pais. Depois do rádio fiz dublagem de filmes infantis, televisão, comerciais. E nos anos 70 comecei a fazer alguns filmes, participações muito pequenas, e depois mais teatro e televisão. Aos 20 anos tive um golpe de sorte grande com um programa de televisão, que fez estrondoso sucesso na Argentina, junto com outros jovens atores.
O que lembra dessa época?
Era muito divertido. Ríamos muito. E, além da TV, tínhamos uma equipe de futebol chamada Los Galancitos. Jogávamos em benefício de vários hospitais da Argentina. Lotávamos estádios. Certa vez fizemos um jogo para 35 mil pessoas. Estávamos convencidos de que também éramos atletas profissionais.
E isso durou quanto tempo?
Mais de dez anos! Fazíamos teatro e televisão durante a semana e jogávamos bola nos fins de semana. E todo o resto do tempo com meninas, sem parar. Foi uma época, digamos, muito agitada.
Devia ser uma vida dos sonhos para um rapaz de 20 e poucos anos.
Era preciso ter muito preparo físico [risos].
E do que você mais sente falta daquela época?
Dos meus joelhos!
Ricardo Moreno | Fotos: Enrico Fantoni, no site da Playboy
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