21 de ago de 2013

Que fase...

Justiça cassa tempo de TV do PSDB por 'promoção de Alckmin'

O TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo) decidiu na noite de terça-feira (20) cassar cinco minutos do tempo de televisão e rádio das inserções estaduais do PSDB. A Corte entendeu que houve promoção pessoal do governador paulista Geraldo Alckmin em propaganda veiculada no dia 12 de abril.
Segundo o relator do processo, o desembargador Mathias Coltro, "as inserções tiveram nítido caráter de promoção pessoal com ênfase ao nome de Geraldo Alckmin e atribuído caráter pessoal às realizações", o que segundo o magistrado teria "desvirtuado a finalidade da propaganda partidária gratuita".
O presidente do diretório estadual da legenda, o deputado federal Duarte Nogueira, disse que o partido vai recorrer. "Não haverá prejuízo para nossas inserções de outubro e do final do ano", afirmo.
De acordo com ele, "não houve promoção pessoal. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aparece na inserção fazendo uma referência ao governo do Estado e ao Alckmin enquanto pessoa jurídica."
No Uol
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Sensacionalismo estimula preconceito no caso Sheik

Maradona e Caniggia, 17 anos à frente
Quanto mais a imprensa trata
como estranho, mais as pessoas se sentem
à vontade para desovar preconceitos

Pode até parecer contraditório, mas a imprensa se chocou mais com a foto de Emerson Sheik beijando um amigo do que o próprio público conservador do futebol.
Na segunda-feira, menos de meia dúzia de pessoas foram reclamar no centro de treinamento do Corinthians. Ainda assim, as grotescas faixas ganharam enorme espaço nos informativos pela internet.
A ânsia de criar um escândalo era notória.
Sites esportivos se puseram a fazer enquetes sobre torcedores e a possível homossexualidade de seus ícones.
No Jornal da Band, a foto chegou a ser qualificada como “mais um capítulo na tumultuada história do jogador”.
O sensacionalismo sobre o fato é nada menos do que tosco. Claramente destinado a impulsionar sentimentos e provocar reações, mais ou menos como a mídia tem agido na questão da criminalidade.
Parece não ser suficiente relatar ou descortinar os fatos, mas necessário estimular o leitor ou espectador a uma posição de repulsa, que mais tarde, coletada nas pesquisas dos próprios órgãos, será repudiada como falta de civilidade.
A incapacidade de tratar a foto como algo natural, seja ela uma brincadeira entre amigos, seja um afeto entre parceiros, parte do princípio de que a homossexualidade, admitida em tantos outros espaços de celebridades, está interditada no futebol, espaço supostamente destinado a “machos viris”.
Uma verdadeira estultice, que acaba por fazer com que a homossexualidade seja reprimida e torna as pessoas ao mesmo tempo mais infelizes e mais violentas.
A luta contra a homofobia, a tolerância com as diferenças e o reconhecimento das pessoas de suas próprias singularidades, que muitas vezes se escondem justamente no álibi da rejeição, devem ser incentivados, não apenas traduzidos como folclóricos, polêmicos ou tumultuários.
Quanto mais a imprensa trata como estranho ou inusitado, mais as pessoas se sentem à vontade para desovar seus preconceitos.
Por tudo isso, mesmo que o beijo pouco signifique do ponto de vista sexual, a foto foi uma bola dentro do jogador.
Se o fato de homens se beijarem torna-se corriqueiro, seguramente menos homossexuais serão agredidos em suas carícias. E menos gente talvez passe a entender o amor como algo anormal, simplesmente porque não é que aquilo que gosta de fazer.
Longe da vergonha, para o torcedor não deixa de ser um orgulho: cai muito bem na casa que abrigou a rebeldia da Democracia Corintiana dar um pontapé na luta contra a homofobia.
Para os condutores do preconceito, ou os que faturam estimulando-o, a resposta precisa veio do próprio jogador:
“Está na hora de mudar essa babaquice”.
Marcelo Semer
No Sem Juízo
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Brasil vai receber quatro mil médicos cubanos

Contratação será feita por convênio assinado hoje pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, com a Organização Panamericana de Saúde (Opas); profissionais atenderão as 701 cidades que não foram escolhidas por nenhum médico inscrito até agora no programa Mais Médicos; na primeira etapa do convênio, 400 cubanos virão imediatamente para o País, enquanto o restante chegará nos próximos meses; medida recebeu duras críticas da categoria quando foi cogitada há alguns meses; médicos brasileiros voltarão às ruas?
O Brasil receberá quatro mil médicos cubanos para trabalhar em 701 cidades que não foram escolhidas por nenhum profissional inscrito na primeira etapa do programa Mais Médicos, do governo federal.
A contratação será feita através de um convênio assinado nesta quarta-feira 21 pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, com a Organização Panamericana de Saúde (Opas). A informação foi divulgada nesta tarde pelo ministério.
Na primeira etapa do convênio, 400 cubanos virão imediatamente para o País, enquanto o restante chegará nos próximos meses. Em julho, quando anunciou o Mais Médicos, a presidente Dilma Rousseff deixou claro que os estrangeiros só preencheriam vagas que não recebessem o interesse de brasileiros.
Na primeira etapa de seleção, as inscrições preencheram menos de 15% da demanda municipal identificada pelo governo. Na primeira vez em que foi cogitada, há alguns meses, a contratação de médicos cubanos foi vista com duras críticas pela categoria médica brasileira, que se disse "traída" pelo governo de Dilma Rousseff. Padilha acabou voltando atrás na ocasião.
Centenas de médicos em vários Estados também saíram às ruas contra a contratação de estrangeiros como um todo, alegando que não faltam profissionais no Brasil, e sim estrutura. A presidente tem ressaltada em seus discursos, no entanto, que 700 municípios brasileiros não têm nenhum profissional.
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Analisando o ranking dos maiores grupos de comunicação do Brasil

1) A OI, “super tele” que o governo Lula ajudou a criar quando alterou a regulamentação e permitiu que a Telemar comprasse a Brasil Telecom, tem um endividamento oneroso cerca de 50% maior do que a soma dos endividamentos de todas as suas principais concorrentes (Telefonica, Embratel, TIM, Claro, NET, GVT e Algar). É difícil imaginar como essa empresa conseguirá lidar com uma dívida tão grande, com as enormes demandas de investimentos do mercado de telecomunicações e com a sanha por dividendos demonstrada por seus controladores (e que levou à demissão de seu ex-presidente, Francisco Valim).
2) A receita líquida da Globo (mesmo sem incluir os jornais e as rádios do grupo) é mais de seis vezes superior à receita líquida da Abril S.A., o segundo maior grupo de mídia do Brasil. Se forem acrescentadas a receita líquida do SBT, do grupo OESP e da RBS, mesmo assim a soma não alcança um terço da receita líquida da Globo.
3) O mesmo fenômeno se repete no lucro líquido da Globo. Se somarmos Abril, SBT, OESP e RBS, o lucro líquido da Globo é cerca de 11 vezes maior.
4) Só os jornais da família Marinho (Infoglobo) já são hoje o terceiro maior grupo de mídia do país, atrás apenas da própria Globo e da Abril.
5) O endividamento oneroso da Globo é menor do que seu lucro líquido obtido apenas em 2012.
6) Já o endividamento oneroso da Abril S.A. é mais de dez vezes superior ao patrimônio líquido da empresa. Isso ajuda a explicar o tamanho da crise da Abril e porque os Civita começam a apostar mais em educação do que em mídia.
7) Embora seja o homem mais rico do mundo, Carlos Slim ainda sofre para conseguir lucros expressivos de suas empresas brasileiras (Embratel, Claro e NET). Principalmente a Claro segue sendo seu calcanhar de aquiles e mais uma vez a empresa fechou o ano com lucro líquido negativo.
8) Os grandes conglomerados mundiais de comunicação (Warner, Disney, Viacom, etc) não constam dessa relação porque suas empresas no Brasil (distribuidoras de cinema e programadoras de TV paga, por exemplo) são meros escritórios que repassam o lucro obtido no país para suas matrizes no estrangeiro.
8) Para quem tinha alguma dúvida, os balanços de 2012 são definitivos. A Globo é o único grupo de comunicação de capital brasileiro capaz de sobreviver no médio prazo. Todos os demais são minúsculos frente aos concorrentes estrangeiros e serão tragados ou terão que se contentar em ocupar nichos bem específicos. A ausência de políticas públicas gerou uma situação gravíssima para o futuro de nossa democracia.
No Blog do Gindre
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Alckmin irá cobrar imposto sobre herança de Civita?

: ***FOTO DE ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 26.05.2013: ROBERTO CIVITA/ABRIL  - Morreu neste domingo (26), aos 76 anos, o empresário Roberto Civita, filho de Victor Civita, fundador do Grupo Abril. Roberto Civita estava internado no Hospital Sírio-Libanês, na Bel
Governador de São Paulo precisa cobrar o Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação de Quaisquer Bens e Direitos sobre a herança do dono da Editora Abril, que morreu em maio; o ITCMD costuma ser "esquecido" por governadores amigos de magnatas, até que corra o tempo de prescrição; no caso, valor pode chegar a R$ 444 milhões
Depois da morte de Roberto Civita, dono da Editora Abril, em maio desse ano, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, precisa fazer a cobrança de um imposto sobre sua herança. Seria o Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação de Quaisquer Bens e Direitos (ITCMD) que, no caso, pode chegar a R$ 444 milhões.
O cálculo foi feito pelo blog Amigos do Presidente Lula, que lembra que a cobrança costuma ser "esquecida" por governadores amigos de magnatas até que corra o tempo da prescrição. Acontece que o dinheiro, nos cofres do governo do Estado, é revertido para a população. A pergunta, então, é: Alckmin irá se "esquecer" de cobrar os Civita?
Leia abaixo o post do blog sobre o assunto:
Alckmin tem que cobrar até R$ 444 milhões de imposto na herança de Civita. Vai 'esquecer'?
Disparou o alarme de alerta no bolso do cidadão paulista, quando saiu a notícia no mês passado de que os herdeiros do falecido barão da mídia Roberto Civita, dono da editora Abril e da revista Veja, pediram segredo de Justiça no inventário.
Espera-se que o judiciário recuse o sigilo, pois o povo tem direito de saber a parte que lhe cabe na forma de impostos devidos por todo cidadão honesto e decente.
A preocupação é porque o governo de São Paulo tem que cobrar o Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação de Quaisquer Bens e Direitos (ITCMD). E este imposto costuma ser "esquecido" de cobrar por governadores "amigos" de magnatas, até que corra o tempo de prescrição.
Os tucanos preferem tributar os pobres como se fossem ricos e os ricos como se fossem pobres.
Este imposto, em São Paulo, tem uma alíquota fixa de 4% sobre heranças acima de R$ 48.425,00. Alguns estados adotam uma tabela progressiva, mais justa, que vai de zero para pequenas heranças até 8% para as grandes heranças (nos Estados Unidos, os Civita pagariam de imposto 40% sobre a herança).
Se sua família herdar uma casa de R$ 50 mil, no estado de São Paulo, já terá que pagar os 4% deste imposto para ter direito à herança.
Os herdeiros de Roberto Civita também são obrigados a pagar 4%, o que pode atingir o valor de R$ 444 milhões só de impostos para os cofres públicos paulistas, com base na avaliação da revista Forbes, em março de 2013. Segundo a revista, Roberto Civita e família tinham US$ 4,9 bilhões, equivalente a cerca de R$ 11,1 bilhões. Se essa fortuna toda estiver no nome de Roberto Civita, o ITCMD que o governador Geraldo Alckmin terá que cobrar será os R$ 444 milhões.
Precedente da Globo e do propinão exige atuação preventiva do Ministério Público de São Paulo
A preocupação com esta história de segredo de justiça procede, diante do recente episódio do escândalo da sonegação fiscal da Rede Globo na compra de direitos de transmissão da Copa de 2002 da FIFA através de operações em paraísos fiscais. O valor cobrado pela Receita Federal alcançou o valor de R$ 615 milhões. Estava tudo em segredo, e uma funcionária da Receita foi condenada à prisão por dar sumiço neste processo milionário.
Por isso, o Ministério Público de São Paulo precisa acompanhar este processo de inventário, para não deixar o governador Geraldo Alckmin "esquecer" de cobrar da família amiga do governador esse dinheiro público.
Afinal o governador tucano se "esqueceu" (com ironia, por favor) de apurar o propinão tucano no Metrô desde 2008, pelo menos.
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Mauro Rubem: Perillo gastou R$ 210 milhões em publicidade

O deputado estadual Mauro Rubem (PT), de vermelho, em foto divulgada no Facebook
O governador de Goiás, Marconi Perillo, é um “ditador”, um “monarca”, que tenta calar a oposição e os críticos com ações na Justiça para reduzir o desgaste político causado pela associação com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, na tentativa de se reeleger em 2014. É o que diz o deputado estadual Mauro Rubem, do Partido dos Trabalhadores, que avalia: apesar do desmantelamento da quadrilha de Cachoeira, condenado a 40 anos de prisão, pouco mudou na política de Goiás.
A ação do tucano contra Rubem se deu por conta de comentário feito no twitter. Ao sugerir a seus seguidores a leitura da reportagem A central de grampos de Marconi Perillo, da CartaCapital, Rubem comentou: “Com a central de grampos montada pelo governador, o ciclo da quadrilha de Marconi e Cachoeira se fecha”. O governador Perillo pede indenização de 100 mil reais. Liminarmente, obteve na Justiça decisão que obrigou o deputado estadual petista a remover o comentário e a evitar novas acusações contra Marconi nas redes sociais.
“O objetivo é calar aqui a oposição, calar os críticos e às vezes pessoas que nem são políticas, pessoas do povo, estudantes, que nem tem atividade político-partidiária… São cinquenta pessoas ou mais que são processadas diretamentre, mas as ameaças são muito fortes aos veículos de comunicação”, diz Rubem. Segundo ele, o governador usa notificações extrajudiciais para evitar que jornais e emissoras de rádio abram espaço para críticos dele. O petista estranha que muitos casos tenham sido decididos pelo mesmo juiz e que ele, Rubem, nem teve direito de defesa, como denunciou em entrevista a Leandro Fortes, de CartaCapital.
Dei uma de advogado do diabo e perguntei a Mauro Rubem se ele estava seguro da relação entre Perillo e Carlinhos Cachoeira: “Ela é totalmente provada. Ela tem diversos elementos, inclusive as gravações que foram colocadas no ar, tudo isso é real e verdadeiro. Quando nós temos um grupo, uma quadrilha instalada, efetivamente é um grupo de pessoas que estavam bem articuladas — e ainda estão, aqui no estado de Goiás — defendendo os interesses deste grupo, que foi o que financiou a campanha do próprio governador e tem relações bem diretas”.
O deputado diz que depoimentos dados à CPI que investiga a quadrilha na Assembleia Legislativa de Goiás apontam na mesma direção: o ex-senador Demóstenes Torres, por exemplo, entrou no governo Perillo como secretário de Segurança Pública já articulado com o grupo. Cachoeira, condenado a 40 anos de prisão, recorre em liberdade. “Esse grupo continua agindo com muita liberdade”, afirma Rubem.
Numa recente pesquisa CNI/Ibope, Marconi Perillo só ficou adiante de Sergio Cabral (PMDB-RJ). Só 29% dos goianos confiam no tucano, abaixo da média nacional de 38%.
“Ele não consegue andar nas ruas se não for com 50, 60 seguranças. E tem uma ação truculenta com qualquer pessoa que faz cobrança”, diz o deputado petista.
Prossegue o deputado petista: “Ano passado ele gastou mais dinheiro em publicidade, R$ 211 milhões, do que com a Universidade Estadual de Goiás, que tem quase 60 unidades espalhadas pelo estado, que é uma universidade importante para nós e não recebeu R$ 180 milhões”.
“Ele faz uma tentativa de recuperar a sua imagem fazendo obras de forma acelerada, preços altíssimos e qualidade duvidosa, tentando resgatar a imagem e se preparando para o ano que vem”, afirma Rubem.
“A gente está vendo aqui a refundação da monarquia dos Goyazes tendo como imperador o senhor Marconi Perillo”, acusa o parlamentar processado por Perillo.
Vai além: “Todo ditador tem de ter uma ação solta de repressões”.
Rubem se refere ao fato de que Goiás só recentemente, no início de 2013, ganhou uma delegacia de combate ao crime organizado, um estado que tem uma extensa lista de violações dos direitos humanos. De 1999 — quando o grupo político do governador assumiu o poder — até hoje foram 43 desaparecidos após abordagem policial em Goiás, além de 33 moradores em situação de rua executados.
Para o petista, este quadro não aconteceu por acaso: a impunidade seria essencial para o pleno funcionamento da quadrilha de Carlinhos Cachoeira.
Ouça a íntegra das acusações na entrevista abaixo e leia os documentos divulgados pelo deputado:







Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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Charge online - Bessinha - # 1901

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Abaixo da dignidade

Otávio Cabral
Flagrado numa sucessão inesquecível de erros factuais no livro “Dirceu – A Biografia”, o jornalista Otávio Cabral promete através da Folha de S. Paulo que vai fazer correções na próxima edição.
Mas é difícil escapar da pergunta. Se o livro não tivesse erros em tamanha quantidade seria um uma obra aceitável como um produto cultural, destinado a enriquecer o conhecimento dos brasileiros e o debate de nosso tempo?
Essa é a questão. Erros acontecem em toda atividade humana: na medicina, na engenharia, no Direito e no jornalismo.
Mas erros em excesso não são detalhes. Espelham desconhecimento.
Quem erra muito sabe pouco – aprende-se com uma criança em alfabetização ou com um adulto que tenta falar daquilo que não entende.
Os erros de “Dirceu” ajudam a entender o livro. Otávio Cabral escreveu uma obra onde os fatos não tem a importância que deveriam ter numa obra que pretende se enquadrar no gênero das biografias. Aqui, eles são descartáveis. Podem ser trocados, descartados, substituídos. Não tem valor em si. Servem a um propósito, que é sustentar a visão de Cabral sobre Dirceu.
Além de fatos quimicamente falsos, há outros, em estado vaporoso. Cabral não sabe são verdadeiros, ou se não passam de puros boatos. Mas divulga tudo mesmo assim, sem esconder a vontade de fazer carga – de qualquer maneira, por todo lado.
Como exercício de terrorismo moral, o livro é uma exibição de má pontaria.
O problema real é sua falta de conhecimento sobre personagem e os diversos contextos da vida de José Dirceu. Você atravessa mais 360 páginas e não consegue entender as causas da influência de Dirceu nas últimas décadas da política brasileira. Não se trata de aprovar ou não o que ele faz.
Trata-se de saber o que ele fez, quando, onde, por que.
O autor não tem conhecimento real sobre a ditadura militar que marcou a geração de Dirceu e de tantos brasileiros. Não faz ideia de como era a vida no país daquele tempo, limitando-se a produzir julgamentos ideológicos. Também lhe faltam elementos importantes para entender o que foi o processo de democratização e o processo político que levou Lula e o próprio Dirceu ao Planalto, em 2003.
Já na orelha o livro faz uma afirmação absurda: “em 2003, pela via democrática que não ajudara a construir, (Dirceu) alcançaria o Palácio, ministro de um presidente eleito pela esperança.”
Considerando métodos honestos de discussão, não há como sustentar a noção de que Dirceu “não ajudou” a construir a vida democrática no país.
Maior liderança estudantil dos anos 60, exilado, guerrilheiro, no final da década de 70 Dirceu atuou ainda na clandestinidade junto a movimentos que resistiam a ditadura, pediam anistia aos presos políticos e foi um dos articuladores reconhecidos da campanha das Diretas-Já. Levando em conta o tamanho reduzido do PT naquele início da década, seu papel como organizador da ala mais combativa do movimento pelas diretas foi equivalente, todas as proporções guardadas, à atuação de um governador como o tucano Franco Montoro.
Sem deixar de ser amigo da ditadura comunista de Fidel Castro, anos depois Dirceu destacou-se no esforço para aproximar Lula e o PT de forças políticas moderadas, capazes de garantir uma base mais ampla para o governo. Com apoio de Lula foi o principal responsável pela elaboração de uma política de alianças que ajudou a construir o bloco político que permitiu a vitória do PT nas eleições de 2002 e mesmo em 2006 e 2010, quando se encontrava fora do governo. Os principais adversários de Dirceu, durante muitos anos, foram vozes da ala esquerda do PT, que denunciavam sua “aliança com a burguesia”.
Se estivesse em busca do Dirceu real, e não de um mito adequado ao conservadorismo primitivo que marca a formação política do país, Otávio Cabral teria registrado sua atuação no Congresso e na Casa Civil para facilitar aproximações com empresários, negociando acordos e desatando nós – e sempre tomando porradas internas por isso.
Durante a campanha de 2002, Dirceu foi aos Estados Unidos para estabelecer relações com o governo do presidente republicano George W. Bush. Naquele momento, a candidatura Lula era alvo de uma campanha reacionária, em Washington, para apresenta-lo como uma combinação de Hugo Chávez, alvo de um golpe de Estado no início daquele ano, com apoio dos EUA, e de Fidel Castro, que a Casa Branca tentou derrubar por meio século. Dirceu retornou como interlocutor legítimo do novo governo junto ao Departamento de Estado e da embaixadora Donna Hrinak.
O acadêmico Mathias Spektor assinala que naquele período Brasil e Estados Unidos atingiram um padrão de bom entendimento poucas vezes conseguido ao longo da historia diplomática dos dois países – e jamais reconhecido pela imprensa brasileira. Seria absurdo ignorar que Dirceu teve um papel pioneiro na construção desta situação.
Sem acesso a Dirceu nem a fontes dispostas a ajudá-lo a formar uma visão consistente sobre 50 anos dedicados à política, o livro contenta-se com entrevistas já publicadas e envelhecidas. Também dá credito a relatos de segunda mão e depoimentos de velhos camaradas que se tornaram adversários e até inimigos de Dirceu, método ideal para produzir uma obra que transpira raiva e ressentimento.
Num exercício de psicanálise à distancia, Cabral escreve que, filho de um pequeno empresário conservador, em 1964 Dirceu apoiava o governo Jango “mais para se opor ao pai do que por ideologia.”
Falando sobre 1968, o livro enxerga a ação da ditadura contra os estudantes de um ponto de vista que poucos observadores já tiveram enunciaram em público. Comentando o sucesso de uma das ações do líder estudantil Dirceu, a ocupação da Maria Antônia, Otávio Cabral escreve que isso ocorreu por causa da “falta de repressão.”
Então é assim. O leitor precisava chegar a 2013 para Otávio Cabral dizer que em 1968 havia “falta de repressão” no Brasil.
Como sabem até alunos de curso fundamental, o regime militar cuidou de resolver essa situação poucos meses depois, quando baixou o AI-5.
Preso naquele ano, no fim do Congresso de Ibiúna, Dirceu planejava fugir da prisão porque tinha “medo da tortura,” escreve Cabral, o corajoso.
Pelo método da banalização do mal, o livro vai chegando aonde pretende. Ameniza a brutalidade da ditadura, num esforço necessário para reduzir o valor de quem ousou mobilizar-se contra ela. Ao falar em “medo da tortura” o livro assume um ponto de vista conhecido e lamentável.
A prática da tortura, no mundo inteiro, tem um discurso estabelecido para tentar justificar-se. Situados na posição confortável de um interrogatório, torturadores profissionais preferem explicar confissões obtidas por uma suposta falta de caráter de suas vítimas, pelo “medo”, pela “covardia,” e não pela ação dos choques elétricos no pau de arara. Numa tentativa de explicar um comportamento desumano, querem fazer seus contemporâneos acreditarem que, antes de vencer suas vítimas pela dor física, haviam sido capazes de derrotá-las no plano moral. Conforme esta fabricação imoral, a covardia das vítimas era mais importante do que a dor que efetivamente sentiam.
Lançado nas semanas anteriores ao julgamento dos recursos da ação penal 470, era de se imaginar, com otimismo, que o autor tivesse a ambição de trazer novidades nesse terreno. Mas não.
O livro limita-se a fazer coro com denúncias conhecidas, aproveitando a ocasião para tentar chegar às listas de mais vendidos. Levando a má investigação policial para o campo jornalismo, "Dirceu" com aspas deduz, infere, quer tornar plausível a visão de que Dirceu sem aspas era o chefe do esquema – mas não tem provas nem fatos novos. Otávio Cabral entrevistou José Antônio Oliveira Lima, advogado de Dirceu, mas não teve curiosidade de entender os argumentos de uma defesa que, como se sabe, obteve um apertado placar de 5 a 4 numa deliberação importante, sem falar numa condenação ampliada porque o presidente do STF Joaquim Barbosa cometeu um erro de datas na hora em que definia a pena.
Por oposição, a leitura de “Dirceu” me fez pensar em “Hitler”, de Ian Kershaw. Uma das melhores biografias jamais escritas, “Hitler” contém uma lição bem sucedida para um exercício difícil: narrar a história de vida de uma pessoa pela qual o autor não possui um milímetro de simpatia. Trabalhando quatro décadas depois da morte de Hitler, Kershaw escreveu um total de 1076 páginas. Seu trabalho é impecável. Não deixa nenhum fato de lado, não perde o rumo nem confunde a realidade com seus argumentos nem afirma o que não pode sustentar. É um livro repleto de ensinamentos universais de política, de história, de reações humanas.
Aplica-se, à cultura, aquela verdade que Hanna Arendt descobriu para a Justiça.
Mesmo um nazista, como Adolf Eichmann, tinha direito a um julgamento justo.
Por mais errada que seja sua visão de José Dirceu, Otávio Cabral não tinha o direito de lhe dar um tratamento abaixo da dignidade.
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Crimes famélicos em Goiás

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Justiça identifica indícios de fraude no Rede Sustentabilidade

Quatro cartórios no Estado de São Paulo identificaram indícios de fraude em assinaturas coletadas pelo partido da ex-senadora. Ministério Público e Polícia Federal foram acionados para fazer exame grafotécnico na lista de apoiadores apresentada para registro no TSE. Candidata que aparece em segundo lugar nas pesquisas de 2014 alega que problema se deve a falta de parâmetros dos cartórios na certificação
A Justiça Eleitoral acionou o Ministério Público e a polícia para investigar indícios de fraude e irregularidades na coleta de assinaturas em São Paulo para a criação da Rede Sustentabilidade, partido da ex-senadora Marina Silva.
Segundo informações da Folha, em Ourinhos, no oeste paulista, ao menos dois eleitores que aparecem na lista de apoiadores da legenda declararam não ter assinado nenhuma ficha do partido.
Indícios de fraude também foram informados por cartórios de Mogi das Cruzes, São Bernardo do Campo e em São José do Rio Preto, em São Paulo.
Segundo o promotor responsável, Marcos da Silva Brandini, terá de ser feito o exame grafotécnico para confirmar se as assinaturas são ou não dos eleitores.
O partido rebateu a suspeita e afirmou em nota que os problemas podem ter sido provocados pela falta de parâmetros dos cartórios na certificação dos apoios.
Em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, a ex-senadora Marina Silva se reuniu com a presidente Carmen Lúcia, do Tribunal Superior Eleitoral, e pediu pressa na validação das assinaturas para a criação da Rede Sustentabilidade: “essas assinaturas precisam ser validadas, porque não temos culpa se eles não têm o parâmetro para fazer a validação ou se contam com estrutura de pessoal que não está dando conta de fazer o processamento dentro do prazo”, disse.
A candidata à Presidência tem até o dia 5 de outubro para registrar o partido caso queria disputar as eleições de 2014.
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Cristãos gregos do século X casavam homossexuais

São Sérgio e o seu parceiro São Baco: santos gays
É bem conhecido o mantra: o casamento – cristão, é claro – é a união de um homem e uma mulher. Só que a igreja da Idade Média celebrou – ao que parece – bodas homossexuais. Sabe-se, graças ao historiador americano Richard John Boswell (1947-1994), sobre as uniões de mesmo sexo na Europa antiga e medieval.
Foi ele quem descobriu que os cristãos gregos dos séculos X e XI abençoaram oficialmente "uniões do mesmo sexo". Tal consideração enfurece a atual igreja ortodoxa, que jura que só se tratavam de castas "confraternizações". É possível.
No entanto, um surpreendente ícone do Monte Sinai representa a união de dois homens santos do século IV, São Sérgio e São Baco, com Jesus, que tem todo o jeito de ser um "pronubus" (testemunha da boda).
Boswell afirma que existiam análogas "disposições para abençoar a união de dois homens" entre os cristãos eslavos desde o ano mil, que teriam durado na Europa até os tempos modernos.
Na França da Idade Média também há sinais: de acordo com o medievalista Allan A. Tulchin, existiam uniões masculinas especiais, os chamados "contratos de irmanamento", pelos quais os "irmãos" ("affrèrés" – "frères") se comprometiam, diante de testemunhas, a viver juntos, compartilhando "um pão, um vinho e uma bolsa de dinheiro".
Obviamente, ninguém está em condições de comprovar as consequências concretas desse tipo de amável coabitação, mas uma coisa é clara: nenhum dos bons cristãos daquele tempo se escandalizava com isso.
Com tradução de Moisés Sbardelotto.
Arnaud Gonzague
Le Nouvel Observateur
No Paulopes
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Apresentador russo sugere que corações de gays sejam queimados

Apresentador de TV russo propõe que corações de LGBTs mortos sejam queimados
Apresentador de TV russo propõe que corações de LGBTs mortos sejam queimados. Kiselev diz defender medida pois médicos não conseguem garantir ausência de doenças em sangue e órgãos
“Eu acho que impor multas aos gays por propaganda homossexual para menores não é suficiente. Eles deveriam ser proibidos de doar sangue, esperma. E seus corações, em caso de acidente de automóvel, deveriam ser enterrados no solo ou queimados, como inadequeados para a continuação da vida”. Foi com estas palavras que Dmitry Kiselev, apresentador do canal estatal russo Rossyia 1, o segundo mais visto do país, se referiu em abril do ano passado às minorias sexuais, em cadeia nacional. Quando termina a frase, a plateia aplaude Kiselev.
O vídeo viralizou neste último fim-de-semana na Rússia e foi reproduzido por milhões de pessoas nas redes sociais do país e entre organizações LGBT do mundo inteiro.
Nos canais russos do YouTube, as palavras de apoio à declaração de Kiselev são uma clara maioria. “Muito bem, Kiselev. Eles devem ser destruídos. (…) Temos que proteger a maioria normal da minoria pervertida (…) Quero que meus filhos e netos tenham uma vida saudável física e psicologicamente, como ordenou deus todo-poderoso”, comentou o usuário Ilya Terechin. “Ele (Kiselev) disse tudo corretamente. Não deem ouvidos a estes lixos tolerantes”, replicou Aleksandr Belyi. “Só uma correção. Não são gays. São pederastas”, disse Paola Uvanovich também em um canal russo do YouTube.
Em entrevista ao jornal russo Izvestia, Dmitry Kiselev tentou se explicar. “As minhas palavras sobre os órgãos dos homossexuais foram uma provocação saudável”. Segundo o apresentador, ele queria apenas levantar a discussão na Duma (câmara baixa do Parlamento russo) sobre a doação de orgãos e sangue por homossexuais. “Não sou homofóbico. Tenho muitos amigos homossexuais. Mas isso (impedir que gays sejam doadores) é uma prática mundial, em quase todos os lugares… Estados Unidos, Europa, Japão, países árabes, menos na Rússia”.
No Pragmatismo Político
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Black Bloc: “Fazemos o que os outros não têm coragem de fazer”

Eles afirmam não temer o confronto com a polícia e defendem a destruição de “alvos capitalistas”. Conheça a história e a forma de luta que se popularizou com o movimento antiglobalização e ganha destaque no Brasil
“Os ativistas Black Bloc não são manifestantes, eles não estão lá para protestar. Eles estão lá para promover uma intervenção direta contra os mecanismos de opressão, suas ações são concebidas para causar danos às instituições opressivas.” É dessa forma que a estratégia de ação do grupo que vem ganhando notoriedade devido às manifestações no País é definida por um vídeo, divulgado pela página do Facebook “Black Bloc Brasil”, que explica parte das motivações e forma de pensar dos seus adeptos.
A ação, ou estratégia de luta, pode ser reconhecida em grupos de pessoas vestidas de preto, com máscaras ou faixas cobrindo os rostos. Durante os protestos, eles andam sempre juntos e, usualmente, atacam de maneira agressiva bancos, grandes corporações ou qualquer outro símbolo das instituições Eles afirmam não temer o confronto com a polícia e defendem a destruição de “alvos capitalistas”. Conheça a história e a forma de luta que se popularizou com o movimento antiglobalização e ganha destaque no Brasil “capitalistas e opressoras”, além de, caso julguem necessário, resistirem ou contra-atacarem intervenções policiais.
Devido ao atual ciclo de protestos de rua, o Black Bloc entrou no centro do debate político nacional. Parte das análises e opiniões classifica as suas ações como “vandalismo” ou “violência gratuita”, e também são recorrentes as críticas ao anonimato produzido pelas máscaras ou panos cobrindo a face dos adeptos. Mas o Black Bloc não é uma organização ou entidade. Leo Vinicius, autor do livro Urgência das ruas – Black Bloc, Reclaim the Streets e os Dias de Ação Global, da Conrad, (sob o pseudônimo Ned Ludd), a define o como uma forma de agir, orientada por procedimentos e táticas, que podem ser usados para defesa ou ataque em uma manifestação pública.
(Flickr.com/nofutureface)
Zuleide Silva (nome fictício), anarquista e adepta do Black Bloc no Ceará, frisa que eles têm como alvo as “instituições corporativas” e tentam defender os manifestantes fora do alcance das ações repressoras da polícia. “Fazemos o que os manifestantes não têm coragem de fazer. Botamos nossa cara a tapa por todo mundo”, afirma.
O jornalista e estudioso de movimentos anarquistas, Jairo Costa, no artigo “A tática Black Bloc”, publicado na Revista Mortal, lembra que o Black Bloc surgiu na Alemanha, na década de 1980, como uma forma utilizada por autonomistas e anarquistas para defenderem os squats (ocupações) e as universidades de ações da polícia e ataques de grupos nazistas e fascistas. “O Black Bloc foi resultado da busca emergencial por novas táticas de combate urbano contra as forças policiais e grupos nazifascistas. Diferentemente do que muitos pensam, o Black Bloc não é um tipo de organização anarquista, ONG libertária ou coisa parecida, é uma ação de guerrilha urbana”, contextualiza Costa.
De acordo com um dos “documentos informativos” disponíveis na página do Facebook, alguns dos elementos que os caracterizam são a horizontalidade interna, a ausência de lideranças, a autonomia para decidir onde e como agir, além da solidariedade entre os integrantes. Atualmente, há registros, por exemplo, de forças de ação Black Bloc nas recentes manifestações e levantes populares no Egito.
Manifestantes se reúnem em rua do Leblon, no Rio de Janeiro,
próximos à casa do governador Sérgio Cabral
(Foto: Mídia Ninja)
Black Bloc no Brasil
Para Leo Vinicius, é um “pouco surpreendente” que essa estratégia de manifestação urbana, bastante difundida ao redor do mundo, tenha demorado a chegar por aqui. “Essa forma de agir em protestos e manifestações ganhou muito destaque dentro dos movimentos antiglobalização, na virada da década de 1990 para 2000. Não é uma forma de ação política realmente nova”. No Brasil, existem páginas do movimento de quase todas as capitais e grandes cidades, a maior parte delas criadas durante o período de proliferação dos protestos. A maior é a Black Bloc Brasil, com quase 35 mil seguidores, seguida pela Black Bloc–RJ, com quase 20 mil membros.
A respeito da relação com o anarquismo, Vinicius faz uma ressalva. É preciso deixar claro que a noção de que “toda ação Black Bloc é feita por anarquistas e que todos anarquistas fazem Black Bloc” é falsa. “A história do Black Bloc tem uma ligação com o anarquismo, mas outras correntes como os autonomistas, comunistas e mesmo independentes também participavam. Nunca foi algo exclusivo do anarquismo. Na prática, o Black Bloc, por se tratar de uma estratégia de operação, pode ser utilizado até por movimentos da direita”, explica o escritor.
Para alguns ativistas, o processo de aceitação das manifestações de rua, feito pela grande mídia e por parte do público, de certa forma impôs que, para serem considerados legítimos, os protestos deveriam seguir um padrão: pacífico, organizado, com cartazes e faixas bem feitas e em perfeito acordo com as leis. Vinicius demonstra certa preocupação com a possibilidade do fortalecimento da ideia de que essa forma “pacífica” seja vista como o único meio possível ou legítimo de protestar. Ele afirma que não entende como violenta a ação Black Bloc de quebrar uma vidraça ou se defender de uma ação policial excessiva. “A violência é um conceito bastante subjetivo. Por isso, não dá pra taxar qualquer ato como violento, é preciso contextualizá-lo, entender as motivações por trás de cada gesto”, avalia.
Para ele, a eficácia de uma manifestação está em saber articular bem formas de ação “pacíficas” e “não pacíficas”. Foi esse equilíbrio, analisa, que fez com que o Movimento Passe Livre – São Paulo (MPL-SP) barrasse o aumento da tarifa na capital paulista. “Só com faixas e cartazes a tarifa não teria caído”, atesta. “Quem tem o poder político nas mãos só cede a uma reivindicação pelo medo, por sentir que as coisas podem sair da rotina, de que ele pode perder o controle do Estado”, sentencia.
Por outro lado, Vinicius alerta que é preciso perceber os limites para evitar que as ações mais “radicais” façam com que o movimento seja criminalizado ou se isole da sociedade e, com isso, perca o potencial de realizar qualquer mudança. Em sua obra, faz a seguinte definição daqueles que adotam a estratégia Black Bloc: “Eles praticam uma desobediência civil ativa e ação direta, afastando assim a política do teatro virtual perfeitamente doméstico, dentro do qual [a manifestação política tradicional] permanece encerrada. Os BB não se contentam com simples desfiles contestatórios, certamente importantes pela sua carga simbólica, mas incapazes de verdadeiramente sacudir a ordem das coisas”, aponta.
Outra crítica recorrente é o fato de os BB usarem máscaras ou panos para cobrirem os rostos. Os adeptos da ação explicam que as máscaras são um meio de proteger suas identidades para “evitar a perseguição policial” e outras formas de criminalização, como também criar um “sentimento de unidade” e impedir o surgimento de um “líder carismático”.
Luta antiglobalização
Com o passar do tempo, segundo Jairo Costa, as táticas Black Bloc passaram a ser reconhecidas como um meio de expressar a ira anticapitalista. Ele explica que geralmente as ações são planejadas para acontecer durante grandes manifestações de movimentos de esquerda.
O estudioso destaca como um dos momentos mais significativos da história Black Bloc a chamada “Batalha de Seattle”, em 1999, contra uma rodada de negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC). Em 30 de novembro daquele ano, após uma tarde de confrontos com as forças policiais, uma frente móvel de black blockers conseguiu quebrar o isolamento criado entre os manifestantes e o centro comercial da cidade. Após vencer o cerco policial, os manifestantes promoveram a destruição de várias propriedades, limusines e viaturas policiais, e fizeram várias pichações com a mensagem “Zona Autônoma Temporária”. Estimativas apontam prejuízos de 10 milhões de dólares, além de centenas de feridos e 68 prisões.
Para Costa, um dos episódios mais impactantes – e duros – da história Black Bloc foi o assassinato de Carlo Giuliani, jovem anarquista de 23 anos, durante a realização simultânea do Fórum Social de Gênova e a reunião do G8 (Grupo dos oito países mais ricos), na Itália, em julho de 2001. Ele lembra que, após vários confrontos violentos – alguns deles vencidos pelos manifestantes, que chegaram a provocar a fuga dos policiais, que deixaram carros blindados para trás –, ocorreu o episódio que levou à morte de Giuliani.
“Ele partiu para cima de um carro de polícia tentando atirar nele um extintor de incêndio. Muitos fotógrafos estavam por lá e seus registros falam por si. Ao se aproximar do carro, Giuliani é atingido por dois tiros, um na cabeça. E, numa cena macabra, o carro da polícia dá marcha a ré e atropela-o várias vezes”, narra. Os assassinos de Carlo Giuliani não foram condenados. Dois anos após o fato, a Justiça italiana considerou que a ação policial se deu como “reação legítima” ao comportamento do militante.
Alvos capitalistas
Entre as formas de ação direta do Black Bloc destacam-se os ataques aos chamados “alvos simbólicos do capital”, que incluem joalherias, lanchonetes norte-americanas ou ainda a depredação de instituições oficiais e empresas multinacionais. Costa explica que essas ações “não têm como objetivo atingir pessoas, mas bens de capital”.
Zuleide justifica a destruição praticada contra multinacionais ou outros símbolos capitalistas, porque elas seriam mecanismo de “exploração e exclusão das pessoas”. “Queremos que esses meios que oprimem e desrespeitam um ser humano se explodam, vão embora, morram. Trabalhar dez horas por dia para não ganhar nada, isso é o que nos enfurece. Por isso, nossas ações diretas a eles, porque queremos causar prejuízos, para que percebam que há pessoas que rejeitam aquilo e que lutam pela população”, explica.
Ela reconhece que essas ações diretas podem deixá-los “mal vistos” na sociedade, já que há pessoas que pensam: “Droga, não vou poder mais comer no ***** porque destruíram tudo”. Porém, Zuleide afirma que o trabalhador, explorado por essas corporações, “adoraria fazer o que nós fazemos”, mas, por ter família para sustentar e contas a pagar, não faz. “Esse é mais um dos motivos que nos fazem do jeito que somos”, pontua.
Vinicius explica que, nas “ações diretas”, os black blockers atacam bens particulares por considerarem que “a propriedade privada – principalmente a propriedade privada corporativa – é em si própria muito mais violenta do que qualquer ação que possa ser tomada contra ela”. Quebrar vitrines de lojas, por exemplo, teria como função destruir “feitiços” criados pela ideologia capitalista. Esses “feitiços” seriam meios de “embalar o esquecimento” de todas as violências cometidas “em nome do direito de propriedade privada” e de “todo o potencial de uma sociedade sem ela [as vitrines]”.
Sem violência?
Em praticamente todas as manifestações, independentemente das causas e dos organizadores, tornou-se comum o grito: “Sem violência! Sem violência!”, que tinha como destinatários os policiais que, teoricamente, entenderiam o caráter “pacifista” do ato. Também seria uma tentativa de coibir a ação de “vândalos” ou “baderneiros”, que perceberiam não contar com o apoio do restante da massa.
Zuleide reconhece que, inicialmente, a ação Black Bloc era alvo desses gritos, mas, segundo ela, quando as pessoas entendem a forma como eles atuam, isso muda. “Os manifestantes perceberam que o Estado não iria nos deixar falar, nos deixar reivindicar algo, e começaram a nos reprimir. Quando há confronto [com a polícia], nós os ajudamos retardando a movimentação policial ou tirando eles de situações que ofereçam perigo, e alguns perceberam isso”, afirma.
Apesar de os confrontos com policiais não serem uma novidade durante as suas ações, os adeptos afirmam não ter como objetivo atacar policiais. Contudo, outro documento intitulado “Manifesto Black Bloc” deixa claro que, caso a polícia assuma um caráter “opressor ou repressor”, ela se torna, automaticamente, uma “inimiga”.
No “Manual de Ação Direta – Black Bloc”, também disponível na internet, a desobediência civil é definida como “a não aceitação” de uma regra, lei ou decisão imposta, “que não faça sentido e para não se curvar a quem a impõe. É este o princípio da desobediência civil, violenta ou não”. Entre as possibilidades de desobediência civil são citadas, por exemplo, a não aceitação da proibição da polícia que a manifestação siga por determinado caminho, a resistência à captura de algum manifestante ou, ainda, a tentativa de resgatar alguém detido pelos policiais.
Também são ensinadas táticas para resistir a gás lacrimogêneo, sprays de pimenta e outras formas de ação policial, além de dicas de primeiros socorros e direitos legais dos manifestantes. De acordo com o documento, as orientações desse manual tratam apenas da desobediência civil “não violenta”.
Outra orientação é que seja definido, antes da manifestação, se a desobediência civil será “violenta” ou “não violenta”. Caso se opte pela ação ‘não violenta’, essa decisão deve ser respeitada por todos, visto que não cumprir o combinado pode pôr “em risco” outros companheiros, além de ser um sinal de “desrespeito”.
Contudo, o mesmo manual deixa claro que o que “eles fazem conosco” todos os dias é uma violência, sendo assim, “a desobediência violenta é uma reação a isso e, portanto, não é gratuita, como eles tentam fazer parecer”.
Uma breve história
1980: O termo Black Bloc (Schwarzer Block) é usado pela primeira vez pela polícia alemã, como
forma de identificar grupos de esquerda na época denominados “autônomos, ou autonomistas”, que lutavam contra a repressão policial aos squats (ocupações).
1986: Fundada, em Hamburgo (Alemanha), a liga autonomista Black Bloc 1500, para defender o Hafenstrasse Squat.
1987: Anarquistas vestidos com roupas pretas protestam em Berlim Ocidental, por ocasião da presença de Ronald Reagan, então presidente dos EUA, na cidade.
1988: Em Berlim Ocidental, o Black Bloc confronta-se com a polícia durante uma manifestação
contra a reunião do Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).
1992: Em São Francisco (EUA), na ocasião do 500º aniversário da descoberta da América por Cristóvão Colombo, o Black Bloc manifesta-se contra o genocídio de povos nativos das Américas.
1999: Seattle contra a Organização Mundial do Comércio (OMC). Estima-se em 500 o número de integrantes do Black Bloc que destruíram o centro econômico da cidade.
2000: Em Washington, durante reunião do FMI e Banco Mundial, cerca de mil black blockers anticapitalistas saíram às ruas e enfrentaram a polícia.
2000: Em Praga (República Tcheca), forma-se um dos maiores Black Blocs que se tem notícia, durante a reunião do FMI. Cerca de 3 mil anarquistas lutam contra a polícia tcheca.
2001: Quebec (Canadá). Membros do Black Bloc
são acusados de agredir um policial durante uma marcha pela paz nas ruas de Quebec. Após esse evento, a população local e vários manifestantes de esquerda distanciaram-se da tática Black Bloc e de seus métodos extremos.
2001: A cidade de Gênova (Itália), ao mesmo tempo, recebeu a cúpula do G8 e realizou o Fórum Social de Gênova, com um grande número de Black blockers, além de aproximadamente de 200 mil ativistas. A ação ficou marcada pela violenta morte do jovem Carlo Giuliani, de 23 anos.
2007: Em Heiligendamm (Alemanha), reunião do G8 foi alvo de uma ação com a participação de cerca de 5 mil blackblockers . Mobilização Black Bloc de cerca de 5.000 pessoas
2010: Toronto (Canadá), na reunião do G20. Neste confronto, mais de 500 manifestantes foram presos e dezenas de outros ativistas foram parar em hospitais com inúmeras fraturas.
2013: Cairo (Egito). O Black Bloc aparece com forte atuação nos protestos da Praça Tahir, no combate e resistência ao exército do então presidente Hosni Mubarak.
Fonte: Artigo “A Tática Black Bloc”, escrito por Jairo Costa, na Revista Mortal, 2010
Paulo Cezar Monteiro
Esta matéria faz parte da edição 125 da revista Fórum.
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Cassação em Taubaté é nova bomba de Alckmin

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Depois das denúncias no metrô, envolvendo as empresas Siemens e Alstom, governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, terá que explicar a corrupção na Fundação para o Desenvolvimento da Educação, que, nos últimos anos, liberou mais de R$ 700 milhões em bolsas universitárias; até recentemente, a FDE era comandada por José Bernardo Ortiz, homem de total confiança de Alckmin; ontem, seu filho, José Bernardo Ortiz Júnior, teve seu mandato cassado na prefeitura da rica cidade de Taubaté justamente em função dos desvios na FDE, que alimentaram sua candidatura; é mais um escândalo que conecta desvios no setor público ao financiamento de campanhas políticas
Uma decisão tomada ontem pela Justiça Eleitoral, que cassou o mandato do prefeito de Taubaté (SP), José Bernardo Ortiz Júnior, do PSDB, é a nova bomba que explode no colo do governador Geraldo Alckmin, que ainda não se recuperou do chamado propinoduto do metrô, alimentado pelas empresas Siemens e Alstom. Ortiz Júnior foi cassado porque sua campanha foi alimentada, segundo a Justiça, com recursos desviados da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), uma poderosa autarquia do governo estadual, que, nos últimos anos, distribuiu mais de R$ 700 milhões em bolsas universitárias (leia mais aqui sobre a cassação de Ortiz Júnior).
O problema é que, até recentemente, a FDE era comandada por um dos mais próximos auxiliares de Alckmin: José Bernardo Ortiz, que vem a ser o pai do prefeito cassado. Ortiz foi afastado do comando da FDE e teve seus bens bloqueados porque, segundo a Justiça, teria superfaturado licitações até para a compra de mochilas escolares. Mesmo com todas as suspeitas, Alckmin sempre reiterou a confiança em Ortiz (leia mais aqui). Segundo o Ministério Público, as mochilas teriam sido superfaturadas em R$ 11,5 milhões.
No entanto, café pequeno perto dos R$ 700 milhões distribuídos em bolsas universitárias nos últimos anos em São Paulo – o que fez com que instituições de ensino recém criadas se transformassem rapidamente em potências do setor (leia mais aqui).
Com a cassação de Ortiz Júnior, Alckmin se depara mais uma vez com um escândalo que conecta desvios de recursos no setor público ao financiamento de campanhas políticas. Exatamente como no caso do metrô.
No 247
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Dirceu não cometeu “crime continuado”

Martinez morreu num dia só e, não, em dois. A menos que o julgamento seja de exceção.
O Conversa Afiada publica artigo de Luiz Moreira, autor de análise demolidora sobre a necessidade, (aqui), de o Supremo aceitar os embargos infringentes.
A menos que o Tribunal seja composto de justiceiros e 'colonistas', não, de juízes:

A Ação Penal 470 e a Súmula 711 do Supremo Tribunal Federal

Professor Luiz Moreira (Conselheiro Nacional do Ministério Público, Doutor em Direito pela UFMG).
A jurisprudência e a doutrina pátrias são uníssonas em alegar, quanto à realização de crimes continuados, tratar-se de criação jurídica, por meio da qual o agente, “mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, devem os subsequentes ser havidos como continuação do primeiro, aplica-se-lhe a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em qualquer caso, de um sexto a dois terços”, conforme disposto no artigo 71 do Código Penal.
Desta forma, a noção de crime continuado refere-se a uma política criminal em que se exige a necessidade de que o agente, ao realizar mais de uma conduta, pratique mais de um crime (que devem ser da mesma espécie) e exista um nexo de continuidade entre estes crimes, os quais serão materializados por meio de certa homogeneidade ou uniformidade de suas circunstâncias de natureza objetiva.
Assim, tendo ocorrido crime continuado inexistiria também violação ao princípio da legalidade, eis que, constituindo-se numa figura jurídica que acentua a prática de vários crimes, é possível, inclusive, a aplicação de lei mais grave.
De modo inclusivo, o enunciado da súmula 711, do Supremo Tribunal Federal (STF) estabelece que “a lei penal mais grave aplica-se ao crime continuado ou ao crime permanente, se a sua vigência é anterior à cessação da continuidade ou da permanência.”
A fim de tentar corrigir erro material constante da definição de qual lei era vigente na data de consumação dos crimes de corrupção, nas modalidades ativa e passiva, há tentativa de argumentativamente desconsiderar que cabe exclusivamente ao tempo a determinação da lei aplicável à espécie.
É que há muitos aspectos obscuros na condução da Ação Penal 470, vulgarmente chamada de “mensalão”.
Procurei demonstrar noutros artigos que a metodologia utilizada, vinculando antecedente ao consequente, transformou não apenas o julgamento em peça argumentativa (silogismo), mas afastou o STF da determinação constitucional que o define como instituição que garante os direitos fundamentais, ainda que dos réus da Ação Penal 470.
Esquecendo-se das elementares regras de sucessão de leis no tempo, há o propósito de aplicar aos casos tipificados como de “corrupção ativa” e de “corrupção passiva” penas que não se aplicam ao caso, por serem mais rigorosas, no instante em que se consuma a continuidade delitiva.
A pedra de toque sobre a qual se tem debruçado o Supremo Tribunal Federal encontra-se muito distante dessa realidade simplista na qual se insere o crime continuado e a aplicação mais gravosa de pena àquele que, em determinada circunstância, praticou um tipo penal.
Primeiramente, o entendimento doutrinário construiu uma perspectiva estruturante do crime doloso, num viés analítico em que este passa pelas fases de cogitação, preparação, execução e consumação.
Por seu turno, deve-se observar que, para o direito penal brasileiro, é pacífico, no que se refere a sua classificação quanto ao resultado, o entendimento de que o tipo penal (crime) pode descrever uma conduta e um resultado naturalísticos e, no entanto, não exigir a produção deste para sua consumação.
Neste caso, sempre que ocorrer o resultado naturalístico para estes crimes formais haverá mero exaurimento do crime.
No universo dos crimes formais encontram-se, dentre outros, os crimes de corrupção – tanto na modalidade ativa, quanto na modalidade passiva – e, nesta senda, considerando que a fase em que se encontra consumado o crime apresenta-se pela simples prática daquilo que é chamado o núcleo do tipo penal – o verbo que estabelece o preceito primário referente ao bem que se pretende tutelar, ou seja, oferecer ou prometer vantagem indevida, para os crimes de corrupção ativa, e solicitar ou receber vantagem indevida, para os crimes de corrupção passiva.
Assim, o efetivo recebimento da vantagem indevida representa tão somente uma fase subsequente à prática do crime. Portanto, mero exaurimento, eis que ao praticar o verbo (núcleo do tipo), consuma-se o crime.
Também neste ponto sobram equívocos, que podem ser explicados se for admitida a tese segundo a qual argumentos são produzidos para justificar a intenção de condenar os réus a penas “exemplares”, ainda que para isso provas e técnica jurídica sejam contornadas.
Para tanto há o propósito de se transferir, erroneamente, a fase de consumação para uma possível fase de exaurimento, que é mero desdobramento daquela, sem nem atentar para a efetividade de sua ocorrência, “esquecendo-se” que os réus estão sendo condenados pelas práticas de tipos penais formais.
Mas qual seria a utilidade prática desta indução?
Em 12 de novembro de 2003, data posterior à consumação dos delitos referente aos tipos penais de corrupção – ativa e passiva – tidos como praticados pelos réus da citada ação penal, foi sancionada a Lei 10.763, aumentando as penas para os delitos ora mencionados.
Portanto, mesmo ante a inexistência de prática de crime continuado, para os tipos formais nos quais foram denunciados os réus da Ação Penal 470, há tendência de ser aplicado o enunciado da súmula 711 do STF.
Ora, é elementar que nos casos de (1) corrupção ativa e no de (2) corrupção passiva há exigência de tipicidade estrita, consubstanciada (1) no oferecer ou prometer vantagem indevida e (2) no solicitar ou receber vantagem indevida.
Como crimes dolosos, são fases tanto da corrupção ativa como da passiva a cogitação, a preparação, a execução e a consumação.
Portanto, a pergunta a ser respondida por qualquer Juiz, cuja resposta é válida também para os réus da Ação Penal 470, é quando houve a consumação do crime.
É que o crime se consuma quando do oferecimento da vantagem indevida (no caso de corrupção ativa) e quando da solicitação da vantagem indevida (no de corrupção passiva). O pagamento e o consequente recebimento do valor acertado é seu mero exaurimento. Não há que se confundir consumação com exaurimento, pois a consumação caracteriza a ocorrência do crime enquanto o exaurimento é mero desdobrar da consumação.
Por conseguinte, neste caso, é absolutamente inaplicável o teor da Súmula 711 do STF, por não haver na espécie crime continuado ou crime permanente, mas tipos penais regidos por normas e espécies absolutamente diversas. Assim, é necessária a prática de mais de um crime e a existência de nexo de continuidade entre tais crimes. Ora, se imputam os crimes de corrupção, nas modalidades ativa e passiva, regulados por técnica e tipicidade específicas, que não se confundem com os crimes continuado ou permanente. Não sendo da mesma espécie, não podem obter a mesma classificação.
Conforme as normas jurídicas ainda vigentes no Brasil, constitucionais e penais, aos réus da Ação Penal 470 aplicam-se o princípio da legalidade e a proibição de retroativa da lei penal mais gravosa, sempre na sucessão de leis penais no tempo, ainda que para crimes praticados em continuidade delitiva, pois mesmo havendo sobreposição de lei mais severa deverá ser aplicada a lei anterior, reconhecendo-se a sua ultra-atividade em favor do réu.
Convém recordar que 04 de outubro de 2003 é a data de falecimento do então Presidente do PTB, Deputado José Carlos Martinez.
Assim, forçoso concluir que, nesta data, já teria se ocorrido a consumação dos crimes de corrupção ativa e passiva. A lei que majora as penas de corrupção, ativa e passiva, a Lei 10.763, é de 12 de novembro de 2003. Portanto, sancionada depois da morte do então Presidente do PTB.
O que qualquer estagiário de direito do STF sabe é que o tempo rege o direito penal e que não a Súmula 711 não se aplica aos casos de corrupção, ativa ou passiva.
O que talvez eles não saibam é que não isso valeria se se tratar de um julgamento de exceção.
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Congresso mantém vetos presidenciais a quatro projetos

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O Congresso manteve os vetos presidenciais analisados na sessão que se estendeu até as 22h de ontem (20). Depois de uma apuração lenta de votos em função da checagem de cédulas únicas, o resultado foi divulgado durante a madrugada, pela Secretaria Especial de Informática do Senado (Prodasen). Deputados e senadores mantiveram todos os 50 vetos aos quatro projetos que estavam na pauta.
O assunto que causou mais tensão – marcado por protestos e tentativas de negociação nos últimos dias – foi a Lei do Ato Médico, que regulamenta a medicina. Apesar de representantes de entidades médicas tentaram reverter a decisão do Planalto, a maioria dos 458 deputados e 70 senadores que participaram da sessão decidiu acatar os vetos do Palácio do Planalto à lei, inclusive ao artigo que define que apenas médicos podem fazer diagnósticos e prescrições.
Os parlamentares também decidiram manter a decisão do Planalto sobre os vetados à lei que estende o Programa Universidade para Todos (ProUni) às instituições municipais de ensino superior, à proposta que desonerou produtos da cesta básica e ao artigo que retira do cálculo dos repasses dos fundos de Participação dos Estados (FPE) e dos Municípios (FPM) as desonerações feitas pela União.
No caso das desonerações tributárias sobre recursos destinados à União, a ideia inicial de deputados e senadores era desonerar esses repasses sob o argumento de aliviar as contas de estados e municípios que arrecadam menos com as medidas de desoneração, mas o Planalto alertou que além de inconstitucional, o artigo limita a margem de manobra do governo e convenceu.
Outro ponto que os parlamentares voltaram atrás diz respeito à desoneração de produtos da cesta básica. Vários deles, que haviam sido acrescentados pelos parlamentares à lista, como frango, sucos e biscoitos, foram retirados pelo governo. Na sessão de ontem, o veto a essas novidades também foi mantido.
Apesar do resultado, as negociações entre Executivo e Legislativo devem continuar, pois no dia 17 de setembro ocorre mais uma sessão do Congresso para análise de vetos. Um dos pontos que pode gerar tensões entre os representantes dos dois poderes é a manutenção da multa de 10% do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para empresas que demitirem sem justa causa. Os parlamentares retiraram a cobrança, mas o governo quer que a multa continue sendo paga. A pressão dos empresários que querem manter o fim da multa também é grande.
Carolina Gonçalves e Karine Melo
No Agência Brasil
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Cuba: Números que gritam e números que enganam

Análise sobre o desenvolvimento humano em Cuba desde 2000, baseada no relatório anual de Desenvolvimento Humano do PNUD
Estudo demonstra que, diferentemente do que tem sido propalado sem fundamentação, as reformas cubanas não surgem como tentativa de solução para crise econômica alguma. Pelo contrário, os índices investigados comprovam o alto desenvolvimento recente da ilha, tanto na esfera econômica quanto humana. Explicados principalmente pela interação com o bloco de países da ALBA, os indicadores positivos fazem o desempenho do país figurar entre os maiores das Américas. Este artigo é somente um resumo do estudo mais completo, com gráficos e maiores detalhes, que pode ser visto em: docs.google.com
O estudo foi elaborado baseado nos dados do último relatório anual de Desenvolvimento Humano do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), publicado em 14 de Março passado (http://www.pnud.org.br/arquivos/rdh-2013.pdf). Parte-se dos índices propostos pelo Programa para a análise, ainda que haja críticas e sugestões de aprimoramento dos cálculos.
A principal matéria do estudo é comparar a evolução do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) dos diferentes países do continente americano desde 2000. O intuito é buscar algum grau de abstração dos processos históricos mais remotos, e dar maior destaque às inflexões político-econômicas mais recentes. Em outras palavras, o olhar sobre a transição foi priorizado em detrimento do olhar sobre estado.
Saúde
O componente de saúde do IDH é calculado através da expectativa de vida ao nascer.
Cuba figura em 2º lugar no IDH que considera somente a saúde (0,94), logo abaixo do Canadá (0,96), e empatada com Costa Rica e Chile. Cabe registro de que Cuba situava-se em 4º lugar no ano de 2000, com desempenho ligeiramente inferior aos países latino americanos com quem agora aparece empatada, e aos EUA, que por Cuba foram ultrapassados. A título comparativo, Cuba tem atualmente como expectativa de vida 79,3 anos, enquanto Canadá tem 81,1, EUA 78,7, e o Brasil, 73,8.
Outras variáveis poderiam ser levadas em conta para se ter maior consistência nessa medida. Uma composição mais multifacetada de estatísticas a serem consideradas sobre o tema enriqueceria o índice, e possivelmente elevaria ainda mais a constatação do sucesso do modelo socialista cubano nesta área.
Um outro dado que comprova a qualidade e universalidade do acesso à saúde em Cuba, por exemplo, é a taxa de mortalidade infantil (quantidade de crianças com menos de 1 ano mortas entre 1000 nascidas). Neste critério, Cuba lidera o ranking das Américas, empatando com o Canadá e ultrapassando os EUA na última década. Esse dado torna incontestável o sucesso da ação governamental deste país nesta esfera.
O motivo principal do alto desempenho cubano com relação a esta área revela-se facilmente: Durante praticamente todos os anos desde 2000, Cuba é o país das Américas que mais vem investindo em saúde. O percentual do orçamento para essa pasta em relação ao PIB estava ao redor dos 10% em 2010 (último ano com registro), com histórico de crescimento significativo na última década (em 2000, correspondia a aproximadamente 6%).
Educação
Nessa outra dimensão, novamente Cuba se destaca. Mesmo antes de 2000, Cuba já se situava entre as primeiras nações americanas no que tange ao cuidado e desempenho em educação. Porém, a partir de 2000 o índice tem um crescimento consistente, sendo ainda mais acentuado após 2005 (período coincidente com o aumento da relação comercial com a Venezuela e demais países da ALBA), quando esse país aproxima-se substancialmente dos países capitalistas ricos do continente (EUA e Canadá).
Também para a Educação, há que se considerar outras variáveis, a título de maior completude no estudo do tema. O próprio PNUD considerava em anos anteriores a taxa de alfabetização de adultos de cada país para a análise de desenvolvimento da Educação. Agora, adota-se uma composição dos índices de média de anos na escola e expectativa de anos na escola. Consideremos, portanto, a taxa de alfabetização adulta cubana. Com impressionantes 99,8%, Cuba não somente lidera o ranking das Américas, como aparece como 2o lugar no mundo. EUA e Canadá não têm dados recentes de alfabetização, porém os últimos índices publicados em CIA World Factbook, datados de 2003, indicavam 99% para ambos (ver https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/fields/2103.html#us).
Assim como para a Saúde, não é difícil encontrar a principal razão do sucesso nas políticas públicas de Educação em Cuba. Cuba, de longe, supera todas as nações do continente no que se refere ao percentual de investimento em Educação em relação ao PIB. Se em 2000, com 7,7%, este país já tinha a taxa mais de 2% maior que a da Bolívia, que figurava em 2º lugar, de 2008 a 2010, com uma oscilação de 14% a 13%, Cuba não tem parâmetros de comparação com nação alguma da região.
Renda
Não se pode negar que a renda é um fator que condiciona o desenvolvimento humano, haja vista que para que se desenvolvam sistemas sociais deve haver investimento. Ocorre que a renda não representa o investimento em si. Não retrata o desenvolvimento humano, no máximo indica um potencial deste desenvolvimento. O propósito do IDH é justamente medir o desenvolvimento humano, e não o econômico. O objetivo deveria ser medir o resultado, não a condição. Não obstante, é sabido o fato de a renda do indivíduo propiciar uma melhor busca por seu desenvolvimento social. No entanto, há que se acrescentar que quase nada mede a renda nacional per capita se a mesma não considera o nível de desigualdade de renda do país. Uma renda alta, porém fortemente concentrada, pode gerar, no máximo, um desenvolvimento humano elevado para a parcela superior mínima que usufrui da quase totalidade da renda. Ou seja, ainda que se opte por continuar considerando esse componente no cálculo do IDH, que amenos se faça um ajuste, levando-se em conta por exemplo o coeficiente de GINI (que mede o grau de desigualdade na distribuição da renda domiciliar per capita entre os indivíduos) das nações.
Além disso, registra-se o fato de essa ser a variável mais sensível ao embargo econômico imposto a Cuba por parte dos EUA.
Ainda com todas essas ressalvas, cabe destacar a extraordinária evolução cubana neste critério durante o período. Com um salto de $ 3209 para $ 5539 na renda nacional per capita com ajuste PPP - correspondente a um aumento de 72,61% - Cuba ultrapassou 3 países. Para ilustrar a grandeza desse avanço, em termos de percentuais de acréscimo, considerando todo o continente, Cuba só ficou atrás do Panamá - que teve crescimento de 75,59% no mesmo período.
Evolução do IDH desde 2000
Aqui se apresenta de forma concisa o principal objetivo do estudo, que é ilustrar a evolução dos índices de desenvolvimento humano das nações elencadas, desde o ano de 2000.
Os países que despontam na evolução do desenvolvimento humano no continente são justamente aqueles alinhados ao redor da ALBA. Não se pode supor que seja mera coincidência 3 destes países (Nicarágua, Venezuela, Cuba) liderarem o ranking. Com o Equador (6o. colocado), então constata-se que os países da ALBA ocupam 4 das 6 primeiras posições. Considerando o escopo adotado, enquanto os países pertencentes à ALBA tiveram a média de crescimento anual de 0,92 em seu IDH, o conjunto de países das Américas tiveram crescimento médio de 0,70, e os da América Latina 0,75. Claramente, governos que tomaram decisões mais arrojadas com relação à estatização de empresas, distribuição de renda, investimentos sociais e integração latino-americana baseada na complementaridade econômica e solidariedade foram justamente aqueles que experimentaram maior acréscimo em seu desenvolvimento humano.
Considere-se agora o IDH com e sem o componente de renda, para que se perceba como as imprecisões indicadas anteriormente nessa esfera prejudicam Cuba. Ao desconsiderar-se o componente de renda de IDH, Cuba sai da sexta posição no continente (empatada com o Panamá e México), para a terceira, situando-se apenas atrás dos dois países ricos da América (EUA e Canadá).
Conclusões
Se Cuba já possuía índices de desenvolvimento humano marcantes ao final do século passado, os mesmos tornaram-se ainda mais favoráveis neste século. A tese de que as recentes mudanças econômicas no país se dão como resposta a uma suposta crise não se sustenta. Pelo contrário, as movimentações de quebra do isolamento comercial e econômico geraram um avanço nas estatísticas que tratam o tema de desenvolvimento humano, e mesmo econômico. Tudo indica que as famosas reformas econômicas de Raul Castro surgem num contexto em que os problemas básicos da humanidade estão bem encaminhados em Cuba, permitindo anseios por uma ainda maior qualidade de vida, mesmo que isso seja percebido materialmente, através de acesso a mais e melhores itens de consumo.
Destacam-se o estabelecimento de governos aliados e a instituição da ALBA, em 2004, liderada pela Venezuela, como fatores decisivos nessas conquistas.
Além de tudo, não restam dúvidas que a queda do embargo estadunidense sobre Cuba faria deslanchar ainda mais os indicadores de desenvolvimento humano desta nação caribenha.
Ao contrário do que faz crer o senso comum de um leitor das mídias tradicionais brasileiras, e mesmo internacionais, as nações que mais se destacaram nos últimos anos no continente foram justamente aquelas cujos governos vêm sendo mais atacados nesses veículos.
Pode-se então presumir que a mídia em geral tem maior aversão a estas experiências somente porque elas propiciaram maior incremento de IDH? Não exatamente isso. Na realidade, esse veículos, por pertencerem ao grande Capital, representam e repercutem a visão das classes dominantes, com todos os seus interesses e preconceitos. Para conquistar maior crescimento de IDH, os governos desses países tiveram que, necessariamente, enfrentar os grandes proprietários, reduzindo a priorização a estas classes, invertendo-a para as classes mais baixas. Interferiu-se significativamente, portanto, na configuração de classes, propriedades, e consequentemente, de poder. Daí a perseguição, mentira, distorções, e visão única sobre a conjuntura desses países por parte desses setores da imprensa.
Gustavo Marun, diretor da Casa da América Latina e militante do PCB (RJ)
No PCB
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Hipólito da Costa era Ninja

Há um clima de estupidez no ar. Estupidez no sentido de barbárie, estupidez no sentido de estultice. Felizmente longe das guerras, damos a volta ao mundo em busca de um belicismo extemporâneo que distribui tacapes a quem deveria ocupar-se em construir consensos.
Para enfrentar o frio e/ou o esvaziamento das redações, nossa mídia empenha-se num esquentamento generalizado. Quer barulho, calor. A vítima do mais recente exercício de tiro ao alvo tem sido a nanica Mídia Ninja, subitamente alçada à posição de destaque pela própria grande mídia.
Arrependida e para não se desmoralizar, girou para o lado suas metralhadoras midiáticas e descarregou seu furor contra o coletivo musical chamado Fora do Eixo, onde o projeto Ninja foi incubado. O criador desse circuito alternativo, Pablo Capilé, foi convertido em Inimigo Público nº 1 e em seguida linchado pelas manadas de predadores das redes ditas sociais. É possível que o FdE tenha cometido erros e enveredado pelo caminho das simplificações, mas qualquer experiência antes de ser bem sucedida atrapalha-se com enganos.
A Mídia Ninja, comandada por Bruno Torturra, passou a chamar a atenção no exato momento em que o país começou a reparar nos absurdos e abismos para os quais estava (está?) sendo conduzido. Tal como as Jornadas de Junho, é um fenômeno – e os fenômenos precisam ser observados, comparados, referenciados, discutidos. Sobretudo aproveitados.
Injeção de ânimo
História é mudança, jornalismo é mudança em alta pressão, mudanças não percebidas geram desastres. Em abril passado, a indústria jornalística brasileira finalmente assumiu a sua crise identitária e estrutural. Em junho, enquanto a sociedade ia para as ruas tentando vocalizar suas frustrações, patenteou-se a incapacidade de nossa imprensa – e de nossas lideranças políticas, acadêmicas e administrativas – em perceber o que acontecia além dos respectivos umbigos.
A Mídia Ninja destacou-se naquele momento. Foi parar no Jornal Nacional – o registro oficial, autorizado, do que acontece. E essa façanha não foi casual, resultou da pasmaceira generalizada, do culto aos formatos rígidos e à inovação burocratizada.
Os Ninja entraram em campo com a tecnologia a serviço da autenticidade, da instantaneidade, e não a serviço da cosmética, do glamour e da falsa informalidade. Não chegou a ser um sacolejo real, foi uma promessa de movimento. Ninguém discutiu o seu “modelo negócio”, todos se animaram com o modelo de despojamento.
O fenômeno equivale ao acontecido nos anos 1960-70, durante a ditadura militar, quando uma imprensa amordaçada ou autocensurada só conseguiu aproveitar as lições e paradigmas da imprensa alternativa, udigrudi (de underground) ou nanica, quando o processo de distensão política já estava em andamento.
Qual era a matéria-prima da imprensa alternativa? A informação não censurada, a opinião livre, A Folha de S.Paulo foi atrás: não apenas criou uma página de opinião (que até então não tinha) como foi preenchê-la com a contratação de um punhado de marginalizados e punidos pela ditadura. Meses depois criou a segunda página de opinião (inspirada na op-ed-page dos americanos) e chegou mesmo a atrair para a equipe do jornal alguns azes da imprensa alternativa (o mais notório, Tarso de Castro, egresso do Pasquim). Pouco depois, o jornal foi obrigado a recuar, esqueceu o surto libertário, e o resto da imprensa fingiu que nada acontecera.
Se não for atalhada, constrangida e manietada, a Mídia Ninja poderá equivaler em matéria de adrenalina, descontração e invenção aos nanicos e alternativos de quarenta anos atrás. Queiram ou não aqueles e aquelas que se consideram proprietários exclusivos da experiência alternativa.
Sentido de direção
A edição do Economist de 10/8 (pág. 30) relembra a história do estudante Soe Myint, que conseguiu escapar da brutal repressão dos militares da antiga Birmânia (hoje Myanmar), refugiou-se na Índia e lá criou uma agência de notícias usando uma rede clandestina de repórteres. O país prepara-se hoje para eleições livres e esses repórteres marginais estão em postos-chave da grande imprensa birmanesa. Eram alternativos, algo Ninjas, fizeram bom jornalismo, ficaram.
Perseguido pelo senador Joseph McCarthy, o repórter investigativo Isidor Fainstein entrou para a história do jornalismo americano como I.F. Stone. Ao longo de 17 anos, escreveu e editou sozinho um newsletter semanal com a melhor cobertura da política americana. Era um Ninja, tornou-se paradigma, instituição.
Antes dele, em 1808, um conterrâneo refugiado em Londres para escapar das malhas da Inquisição lançou um mensário que escreveu e editou sozinho durante 14 anos, o Correio Braziliense. Hipólito da Costa foi um clássico Ninja e tornou-se o patriarca da imprensa livre em língua portuguesa.
Os Ninja capazes de entender o conceito de renovação poderão dar sentido e direção a uma mídia engessada e baratinada.
Alberto Dines
No OI
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