10 de ago de 2013

Reportagem da Época foi cortina de fumaça para abafar o propinão tucano

Estes documentos enfraquecem reportagem malfeita da revista Época:

http://www.senado.gov.br/comissoes/documentos/SSCEPI/DOC056.pdf
As organizações Globo parecem desesperadas com o propinão do Alckmin no metrô, pois a revista Época trouxe uma reportagem que lembra aquele caso do Rubney Quicoli.
O título da reportagem é "As denúncias do operador do PMDB na Petrobras", acusando gente do PMDB de receber dinheiro sobre contratos internacionais. Longe de mim colocar a mão no fogo por muita gente do PMDB, e alguns nomes são figurinhas carimbadas em escândalos, mas o problema é que esta reportagem especificamente não convence. No mínimo a estória está muito mal contada.
Feita por Diego Escosteguy, que produziu várias matérias na revista Veja antes das eleições de 2010 que foram desmentidas depois, se apoia apenas em uma suposta confissão de um ex-diretor da Petrobras, chamado João Augusto Rezende Henriques, e o texto de Escosteguy confessa que tudo pode ser mentira, ao terminar com a frase: "Investigações oficiais ainda são necessárias para apurar todas as suas denúncias". Ou seja, na prática confessou que, por enquanto, é um factóide, para servir de cortina de fumaça para desviar o foco do propinão tucano no metrô.
Detalhe: há um cheiro do dedo aecista por trás dessa reportagem.
A estória está tão mal contada que tem erros grotescos, que enumeramos abaixo:
1) A pista da reportagem, segundo Escosteguy, foi um contrato do escritório de advocacia de Brasília, Cedraz e Tourinho Dantas, que teria um contrato para receber uma comissão de uma empresa Argentina que comprou uma refinaria que a Petrobras tinha lá.
O que Escosteguy escondeu na reportagem, não se sabe com quais intenções, já que a informação é relevante, é que o escritório de advocacia citado é do filho do ministro Aroldo Cedraz do TCU, ex-deputado do PFL e amigo do velho ACM. Outro dono do escritório é o ex-deputado Sérgio Tourinho Dantas (PFL), primo do famoso banqueiro Daniel Dantas.
2) A partir desta "pista", Escosteguy não explica qual o elo de ligação com João Augusto Henriques, a fonte da reportagem, pois Henriques foi diretor da Petrobras Distribuidora no governo FHC, saindo em 1998.
3) O mais curioso é que, na narrativa de Escosteguy, João Augusto Henriques não se limita a acusar terceiros. Do nada, o jornalista diz que estava tomando um cafezinho com ele no Leblon, no Rio, buscando informações sobre o contrato citado, e ele resolve confessar que teria cometido crimes graves, como ser co-autor de corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, etc. Na reportagem não tem documento nenhum sobre isso, só a narrativa da suposta "confissão". Se realmente existiu essa conversa, dificilmente ela será confirmada, como já aconteceu em outras reporCagens de Escosteguy, quando estava na Veja.
A não ser que Escosteguy tenha omitido que os crimes teriam sido cometidos na época em que ele estava na BR Distribuidora, no governo FHC, e já estejam prescritos.
Dedo aecista por trás da reportagem:
4) Outra omissão de Escosteguy é ter escondido o fato de João Augusto Henriques ter sido condenado pelo TCU (Tribunal de Contas de União) a devolver uma grana milionária e pagar multa de R$ 500 mil por uma operação danosa aos cofres públicos quando estava na Petrobras Distribuidora, no governo FHC. O Ministério Público também o investiga.
Detalhe: Essa condenação foi junto com Djalma Bastos de Morais, vice-presidente da Petrobras Distribuidora na época e, desde 1999, presidente da CEMIG, o que mostra sua proximidade com Aécio Neves (PSDB-MG).
Outra curiosidade é que fica evidente na reportagem Aécio mirando o PMDB de Minas, sobretudo o ministro da Agricultura, que defende manter a coligação com o governo Dilma
5) Escosteguy enfiou o PT no meio, em uma estória mirabolante de que a Odebrecht teria feito caixa-2 milionário para a campanha de Dilma em pleno ano de 2010. Coisa difícil de acreditar, pois a empresa doou legalmente tanto para o PT, como para o PSDB, e não teria motivo nenhum para doar ilegalmente. Além disso, seria louca se fizesse fora da lei, depois de tudo o que aconteceu nos últimos anos, para arriscar a virar alvo de operações da Polícia Federal.
Por tudo isso, sem surgir alguma confirmação, essa reportagem não tem credibilidade nenhuma.
ZéAugusto
No Amigos do Presidente Lula
* * *

Em 24 horas, "bomba" de Época é desmentida

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Lobista João Augusto Henriques, que teria revelado ao repórter Diego Escosteguy a existência de um esquema de desvio de verbas na Petrobras destinado a alimentar campanhas políticas, incluindo da presidente Dilma, distribui nota em que nega ter feito tais declarações; autor da reportagem promete divulgar as fitas do caso, que atinge ainda Michel Temer, Henrique Alves e Marcelo Odebrecht, no site da revista; jornalista já esteve envolvido em outras polêmicas, como a reportagem em que fez a denúncia, jamais comprovada, de distribuição de pacotes de dinheiro na Casa Civil
Uma reportagem "bomba" da revista Época, anunciada como tal ontem à noite pelo jornalista Ricardo Noblat, já está coberta pela polêmica. O lobista João Augusto Henriques, que teria revelado ao jornalista Diego Escosteguy a existência de um esquema de propinas na Petrobras destinado a financiar campanhas políticas, incluindo da presidente Dilma, divulgou nota para negar que tenha dado tal depoimento.
Pelo Twitter, Escosteguy reagiu. "Soube agora que o lobista João Augusto Henriques distribuiu nota à imprensa afirmando, em linhas gerais, que não disse o que disse", postou. Em seguida, mais um tweet. "A entrevista foi gravada, óbvio. Estamos preparando os trechos em áudio. Assim que possível, publicaremos os trechos no site de ÉPOCA".
Diante da suspeição, o correto seria publicar a íntegra – e não apenas trechos. Até porque Escosteguy é também autor de outras reportagens polêmicas, que jamais se provaram, como a que denunciou, às vésperas da eleição presidencial de 2010, a distribuição de pacotes de dinheiro na Casa Civil.
No 247
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Carlos Berriel: A origem da “superioridade racial” dos paulistas


Planalto garantiu “preservação” dos paulistas contra invasão, pensava Paulo Prado
Da ficção historiográfica ao paulista
 como ‘raça superior’
A Semana de Arte Moderna de 1922 foi, no plano ideológico, a iniciativa de uma “oligarquia racista, reacionária e ao mesmo tempo modernista”, para servir aos interesses de classe da elite cafeicultora e a um projeto de hegemonia paulista, que via o Brasil como uma colônia a ser explorada pela metrópole de Piratininga.
Mesmo autores como Mário de Andrade foram próximos a esse projeto, cuja justificativa é construída no livro Retrato do Brasil, de Paulo Prado, cafeicultor, historiador e grande mecenas da Semana de 22. Isso é o que afirma o professor do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp Carlos Berriel, autor de Tietê, Tejo, Sena: a obra de Paulo Prado, livro sobre a trajetória e a obra de Prado.
Publicado originalmente em 2000, o livro, nascido de uma tese de doutorado defendida em 1994, foi relançado neste ano, em edição revista e ampliada, pela Editora Unicamp.
Em entrevista ao Jornal da Unicamp, Berriel falou não apenas sobre a trajetória intelectual de Paulo Prado e a influência de seu pensamento, mas também sobre a necessidade de se rever o lugar do modernismo paulista no cânone da literatura brasileira.
A festa de lançamento do livro, em Campinas, acontece no próximo dia 15, no Empório do Nono, em Barão Geraldo, a partir de 18 horas.
Abaixo, os principais trechos da entrevista, na qual o autor defende também a ideia de que o modernismo paulista sofreu influências inclusive da visão colonialista desenvolvida por intelectuais portugueses no fim do século 19.
Jornal da Unicamp – O senso comum sobre a Semana de Arte Moderna de 22 diz que os artistas de vanguarda engabelaram a elite do café, fazendo os barões pagarem por um espetáculo que eles não entendiam e que, no fundo, os afrontava. Seu livro indica que não foi bem isso… No fim, quem estava usando quem? Os artistas usaram os cafeicultores, ou vice-versa?
Carlos Berriel – Acho que o enfoque correto não é esse. O modernismo paulista é a estética da elite do café, é praticamente a sua visão de mundo. Não se trata de dois partidos que, com consciência limitada, andaram juntos durante um tempo. Isso não é verdade. A tese que defendo, nesse livro, é muito mais ampla: o meu trabalho avalia o modernismo do ponto de vista da sua gênese enquanto consciência de classe social, enquanto projeto político. É um estudo de consciência de classe. A classe de origem do modernismo paulista é a do baronato cafeicultor.
JU – Mas tem a questão do Oswald de Andrade, que depois virou comunista…
Berriel – Oswald de Andrade se separa do núcleo duro do modernismo, do grupo do café, de 28 para 29. Aliás, ele não se separou, ele foi expulso desse grupo porque, como editor da Revista de Antropofagia, permitiu que fosse publicado um artigo tratando, de forma muito desrespeitosa, o Retrato do Brasil, o livro de Paulo Prado que tinha acabado de sair. E Oswald tem uma origem de classe um pouco diferente.
Embora o lado materno seja sim, da aristocracia do café, o pai era um empresário moderno, que foi quem instalou o sistema de bonde em São Paulo e quem urbanizou o que hoje são os Jardins. Mas mesmo sendo membro do Partido Comunista, Oswald manteve sua teoria da Antropofagia, que é modernista.
Mas nós não podemos falar do modernismo como uma coisa unívoca – cada caso é um caso, cada obra existe em si mesma e tem sua razão própria. No fundo, cada autor e dada obra possuem um percurso diferente. E também é importante considerar que existe o modernismo paulista, e existem as letras modernas, que não são a mesma coisa. O modernismo é moderno, mas nem todos os modernos são modernistas.
Há a tendência, de uma historiografia marcada pelo próprio modernismo, de trazer para as águas do modernismo autores e obras que não têm nada a ver com esse movimento, como por exemplo Graciliano Ramos, José Lins do Rêgo e outros. Então, existem as letras modernas em Minas, no Rio de Janeiro, no Nordeste, etc., e existe o modernismo paulista, que são coisas diferentes. Essa distinção é essencial, e sua ausência é muito danosa para a compreensão da época.
JU – Em uma das notas de seu livro aparece José Lins do Rêgo, reclamando dos modernistas paulistas.
Berriel – Ele dizia: nós do Nordeste não temos nada a ver com isso. E ele é super hostil ao movimento. Graciliano Ramos não chega a escrever sobre isso, mas pelo depoimento de pessoas que foram muito próximas a ele sabemos que a sua opinião de que o modernismo paulista era a pior possível.
Acho que é fundamental tomar autor por autor e ler o que cada um escreveu, e não o que nós achamos que eles disseram. Meu livro busca manter a disciplina de ler exatamente o que o autor disse, exatamente o que ele está dizendo.
Procurei evitar – e espero ter conseguido – acrescentar qualquer coisa minha, a favor ou contra. Procurei manter uma disciplina de objetividade diante do que o texto efetivamente diz. Quis apenas colocar o discurso em pé: ele disse isso. Quais os pressupostos? São esses aqui, conforme está na obra. Foi uma coisa muito difícil, mas não se pode fugir dessa prática.
JU – Algo que chama muito a atenção na obra de Paulo Prado é a questão do racismo, ou racialismo, que em certos pontos me fez lembrar das polêmicas recentes em torno da obra de Monteiro Lobato. Essa questão de raça era uma coisa muito forte na cultura paulista daquela época?
Berriel – As teorias raciais eram uma coisa muito forte da época, e não apenas no Brasil. O final do Império, a libertação dos escravos, ainda era uma coisa recente…
No Brasil temos a tradição de que classe social é raça, que vem do problema da escravidão. E é algo de que não se livra do dia para a noite. E já que estamos falando da elite rural, eles eram ex-escravocratas, e o fato de alguns serem abolicionistas não implicava necessariamente que não fossem racistas. Isso é uma coisa muito presente na cultura brasileira, e aquele foi um período no qual o Brasil ia buscar as suas teorias, os seus arcabouços teóricos, no exterior. Foi comum, nessa época, ir buscar as teorias raciais e trazê-las para cá – teorias que depois deram no que deram.
Para sermos justos com esses autores, precisamos lembrar que nem Paulo Prado, nem Monteiro Lobato ou qualquer outra pessoa, sabia que daí viriam os campos de concentração, por exemplo. Eles não sabiam nem tinham como saber. Então, não podem ser responsabilizados por uma coisa que ainda viria a ocorrer. Porém, eles beberam da mesma fonte teórica do racismo “científico”, e isso precisa ser levado em consideração.
JU – Qual o propósito de se trazer essas ideias ao Brasil?
Berriel – Há um sentido muito prático: o que é que está em jogo no Brasil? Aqui se constituiu, desde a proclamação da República – principalmente na chamada República Velha –, a hegemonia de um setor econômico sobre o conjunto do país. Ou seja, a oligarquia do café, que monopolizava o Estado através da política do café-com-leite, transformou o Brasil em um sistema caudatário de São Paulo, através do chamado Convênio de Taubaté, de 1906, que instituiu no país um sistema semicolonial, em que São Paulo age como metrópole e o resto do Brasil submete-se como colônia.
O sistema funcionava da seguinte forma: São Paulo poderia produzir quanto café quisesse, pois o Estado brasileiro compraria, através de um empréstimo internacional a ser pago com as finanças de toda a nação.
Na prática significa que todos os Estados compravam o café paulista – e não o recebiam – cotado em libras esterlinas. Mais tarde ele poderia ser exportado ou não. Poderia ser queimado ou jogado no mar, tanto fazia.
Na lógica econômica, trata-se de um sistema colonial interno, com um sangramento da economia de todos os Estados brasileiros, que repassam seus recursos para a oligarquia do café – que em decorrência enriqueceu extraordinariamente, e se imaginou uma locomotiva puxando 20 vagões vazios.
Esse sistema durou um terço de século, e quando acabou por decreto de Vargas, em 1932, São Paulo promoveu uma guerra civil pelo retorno de seus privilégios.
O modernismo, a Semana de 22, é a manifestação, no plano artístico, da mentalidade do Convênio de Taubaté – e mesmo Oswald denunciou isso. A política do café e o movimento modernista veem São Paulo como uma entidade capaz de sintetizar o país como um todo, de dar ao Brasil uma lógica histórica que lhe falta e um projeto realista.
JU – Mas parece que, em vez de ser uma síntese, São Paulo se define em oposição ao país como um todo.
Berriel – É o que está na obra de Paulo Prado. Toda essa absurda ficção historiográfica, que não tem pé nem cabeça, que instala os bandeirantes como construtores do Brasil, por exemplo, faz parte de um discurso que preside o ano de 1922. Isso está na lógica fundante do Museu do Ipiranga, também de 1922.
Paulo Prado é o maior produtor e exportador de café do mundo, e ao mesmo tempo a consciência mais lúcida e ousada da oligarquia. E ele é o grande organizador da Semana de Arte Moderna, e sabemos disso pelo depoimento do Oswald, do Mário, de Menotti del Picchia, da Tarsila do Amaral: ele é o cara.
JU – E qual a teoria dele sobre São Paulo e o Brasil?
Berriel – É uma teoria de que existiriam no Brasil duas mestiçagens distintas. Ele elimina a ideia de raça pura, o que não existe mesmo, ele não cai nessa. Então, no Brasil existiriam duas mestiçagens, ligadas à história de Portugal. Aliás, quando se diz que o modernismo foi uma ruptura com a herança portuguesa, na verdade é o oposto: acho que nada, na cultura brasileira, foi mais ligado a Portugal do que o modernismo.
JU – Qual é essa influência portuguesa?
Berriel – Há uma teoria, que vem da chamada Geração de 70 – o grupo do historiador Oliveira Martins, de Eça de Queirós, de Ramalho Ortigão – de que Portugal contou com uma raça heroica que promoveu as navegações, os descobrimentos, e essa raça heroica vai até 1580, que é quando Portugal cai sob o domínio espanhol. Queda da qual não se recuperará jamais, e a partir dela a raça portuguesa entra em decomposição, em decadência.
Então é uma teoria também de base racial, segundo a qual há uma raça portuguesa que degenera, de modo que o português depois de 1580 é um decadente, degenerado e inútil. Paulo Prado absorve essa teoria, que vem de Antero de Quental, que vem de Oliveira Martins – este aliás é a grande referência dele, sob vários aspectos.
Ao mesmo tempo em que Paulo Prado descobre Oliveira Martins, com quem ele convive em Paris na casa do tio, Eduardo Prado, acontece o chamado Ultimatum inglês, em 1889. Na época, Angola e Moçambique formavam um território contínuo de possessão portuguesa. Quando é descoberto ouro no Transvaal, no meio do caminho entre Angola e Moçambique, a Inglaterra ordena que Portugal se retire, e é obedecida: Portugal entrega o território.
Aquilo foi uma crise tremenda em Portugal, e foi, por coincidência, o momento em que Paulo Prado chegava a Paris para morar com o tio na casa frequentada por Oliveira Martins, pelo Eça de Queirós e muitos outros. No mesmo mês, acontecem várias coisas: a queda do império no Brasil, o rei de Portugal morre, vem o Ultimatum, Paulo Prado está chegando a Paris e há a coroação do novo rei de Portugal, que assume um país desmoralizado.
O novo rei, íntimo da Geração de 70, chama Oliveira Martins para reorganizar as colônias, a política colonial. E é esse historiador e essa preocupação que captam o interesse de Paulo Prado: uma teoria sobre colônias. O modernismo paulista começa a nascer a partir de uma teoria do reordenamento das colônias de Portugal.
JU – E a ideia da raça heroica portuguesa, com as duas mestiçagens no Brasil?
Berriel – Paulo Prado observa que São Paulo é o único local que não foi fundado no litoral, mas no planalto, “protegido” do contato exterior pela Serra do Mar. E quem funda São Paulo são os portugueses de antes de 1580, a dita raça heroica. Daí por diante São Paulo fica inacessível aos portugueses da decadência pós 1580.
Ao resto do Brasil, sem a barreira da Serra do Mar, os portugueses apodrecidos chegaram também. E acabam sendo maioria. Então, no Brasil forma-se um amálgama racial com o elemento apodrecido do português pós-1580, com a depravação do escravo negro e a lascívia do índio. Isso então gera o brasileiro, que não serve para nada. É um horror. E é o que explica, na teoria dele, por que o Brasil é a calamidade que é.
São Paulo, ao contrário, vai ser o resultado de outra mescla racial, em que não comparece o negro. E o índio, em São Paulo, inexplicavelmente não é lascivo. O índio que se mistura ao português heroico, gerando o paulista, é alguém que tem o perfeito domínio da natureza e do território. Possibilitando, portanto, o surgimento do bandeirante, que é o português que mantém o espírito das navegações (agora terrestres ou fluviais), e que ao mesmo tempo tem o domínio do ambiente natural, trazido pelo índio.
Essa construção, bastante – digamos – poética e livre de Paulo Prado, serve como diagnóstico que é lido com respeito por muita gente, lido como verdade.
Paulo Prado chega a dizer que o paulista já é uma raça. Então, temos no Brasil uma raça superior e uma raça inferior. E o Estado brasileiro deveria seguir essa lógica. Esse paulista é o único capaz de produzir uma arte autêntica – a modernista –, enquanto o brasileiro rasteja no romantismo, no parnasianismo, etc.
JU – Essa ideia de excepcionalismo paulista é algo que se vê ainda hoje, não? É uma ideia que nasce com Paulo Prado, ou ele foi apenas um vetor?
Berriel – Essa ilusão, essa ideologia, vinha sendo constituída em simultaneidade com o crescimento da importância do café na economia brasileira. Paulo Prado transforma essas ideias num movimento artístico, com a Semana de 22. Quando o café se torna importante, o Brasil já é um sistema político organizado na Corte, no Rio de Janeiro. São Paulo tem uma luta contínua – política, econômica e cultural – para romper com a síntese cultural e política consubstanciada no Rio de Janeiro.
O modernismo é, digamos assim, um sistema cultural em formação que se dispõe contra o sistema cultural dominante até então. Consubstanciado no Rio de Janeiro, na Academia Brasileira de Letras, na Corte, na capital do Império e da República.
O modernismo, quando desautoriza esse sistema, joga no ridículo toda a literatura anterior. Na verdade o que temos é uma disputa de hegemonias. O modernismo luta pela transferência da hegemonia política, cultural e econômica do Rio para São Paulo. É um movimento indissociável da política, portanto, e a desautorização das formas estéticas e literárias dominantes é a outra face da desautorização do sistema político brasileiro, em que todas as províncias possuíam direitos equivalentes.
Dizer que a poesia de Olavo Bilac ou de Coelho Neto não tem qualidade é uma estupidez, como Mário reconhecerá mais tarde. Eliminar, ridicularizar o simbolismo, ou o parnasianismo, como eles fizeram, na verdade é um momento da disputa pela hegemonia política.
A ação iconoclasta dos modernistas buscava cortar os vínculos nacionais com a sua própria tradição, já acumulada. O Brasil não deveria mais se reconhecer pela tradição cultural já constituída, mas seria necessário refundar o país a partir da experiência exclusivamente paulista. Este é o sentido mais profundo da Semana.
JU – Retrato do Brasil faz um diagnóstico dos problemas brasileiros que parece muito atual: corrupção, incompetência, ineficiência… Paulo Prado acertou o problema, mas errou a causa?
Berriel – Parece que esse livro, de repente, ficou muito atual. Esse rol de queixas, muito justas aliás, você vai encontrar em todos os lugares e em todas as épocas, e não só no Brasil. A questão é: se o projeto político modernista tivesse sido vitorioso, os problemas seriam resolvidos? Esse projeto, segundo o que sugere o Retrato do Brasil, passaria pelo fim da igualdade jurídica entre os Estados, e mesmo entre os cidadãos. Um Estado baseado no privilégio racial é eficiente e competente? Seria a solução para os problemas elencados?
Aventou-se o controle da movimentação dos indivíduos, sendo cogitado inclusive o uso de passaportes internos. Os nordestinos não poderiam vir para São Paulo livremente, por exemplo. Isso, no fundo, é o apartheid como o que se implantou na África do Sul. E no fundo, isso não é o sonho inconfessado da direita brasileira? Mas o apartheid resolveu algum problema de corrupção no mundo? O Convênio de Taubaté não seria a mãe de todas as corrupções brasileiras?
JU – Essas questões parecem fazer parte de uma pauta conservadora…
Berriel – Toda vez que a direita paulista se sente um pouco acuada, bate sempre na mesma tecla: a revolução de 32. O que foi a revolução de 32? Havia o Convênio de Taubaté. O país faliu por causa do crack da bolsa de Nova York em 29. São Paulo continua a cobrar este Convênio, sendo que o Brasil produzia café que não tinha mais consumidor.
Mesmo com o sistema internacional falido, a oligarquia cafeicultora quer que o Estado brasileiro mantenha a compra do café, com ou sem comprador internacional. Getúlio anuncia que em 32 não vai mais manter o acordo e dissolve o Convênio de Taubaté.
E aí a oligarquia de São Paulo se levanta pelo respeito “à Constituição”. Que Constituição? Agora, tem todo o discurso ideológico: São Paulo se levanta contra a ditadura de Vargas. Mário de Andrade, Paulo Prado e Alcântara Machado fundam a Revista Nova, que incita à luta armada contra Vargas. Por quê?
Porque de repente “os paulistas”, isto é, os barões do café, se tomaram de amores pela Constituição? Não. Foi pelo Convênio de Taubaté. Estava esfacelado o projeto de São Paulo metrópole de um Brasil colônia. O país estava se desmantelando por causa de uma oligarquia racista, reacionária e – não há como negar — modernista.
JU – Mesmo levando em conta as particularidades de cada autor, pode-se dizer que, de modo geral, o modernismo paulista abraça essa visão de São Paulo grande, bandeirante, condutora da nação?
Berriel – Sim. Mário de Andrade mesmo escreve uma carta a Manuel Bandeira em 1932 onde diz: “eu não sou mais brasileiro, sou paulista”. Mas, em 1942, Mário fez uma grande autocrítica e denuncia os salões da aristocracia como corruptora do movimento. Muito corajoso e lúcido.
JU – Mas isso é curioso, porque a esquerda brasileira abraçou os modernistas. Ou não?
Berriel – Em grande parte, sim. Isso mostra que a esquerda precisa construir sua própria interpretação do Brasil, e não aceitar uma interpretação do país que vem do núcleo da reação. Esse é um dos problemas da esquerda brasileira: ela precisa interpretar o Brasil não só no plano econômico, ou através da história dos partidos políticos, mas precisa entrar na representação simbólica da identidade nacional.
A esquerda brasileira raramente considera relevante a vida literária e artística, e acaba, por decorrência, endossando concepções da direita que nasceram na literatura e nas artes. O importante não é tanto ler os comentadores – como eu mesmo –, mas ler os próprios autores.
Foi o que procurei fazer aqui: estudei o modernismo sem considerar os intérpretes do modernismo, mesmo tendo-os lido. Para que pudesse chegar ao texto. Porque senão eu seria atravancado por essa coisa que o modernismo virou no beabá das escolas, aquelas frases, como “a Semana de Arte Moderna ocorre no ano em que se fundou o Partido Comunista no Brasil”. É verdade.
E não tem nada a ver uma coisa com a outra. Eu poderia dizer, da mesma forma, que a Semana de Arte Moderna ocorreu no mesmo mês em que Mussolini tomou o poder na Itália. É verdade? É. Você tira o que quiser daí, inclusive significados vazios. E perde o país.
JU – E as consequências reais do modernismo paulista para a literatura brasileira: foi tudo isso mesmo que se vende? Ou o pessoal que estava começando a escrever no Nordeste teria feito a mesma coisa sem a Semana?
Berriel – Não teria feito a menor diferença. Para os escritores do Nordeste não faria a menor diferença ter ou não ter existido a Semana. Por outro lado, por exemplo, Carlos Drummond de Andrade: mineiro, vem de outra tradição, ele foi sim influenciado pelo Mário de Andrade. Manuel Bandeira, não, Manuel Bandeira já estava pronto.
Na Semana de Arte Moderna ele já era um poeta consagrado, toda a herança dele vem do simbolismo, de outros autores. Mas há alguma influência, sim, principalmente do Mário de Andrade, que é um grande escritor, um dos maiores do Brasil.
Quando a gente vai direto aos autores, aos textos, não a interpretações prévias, mas deixa o autor falar, podemos chegar a coisas surpreendentes.
Acho que esse é um programa extremamente interessante, que pode reabrir o cânone literário brasileiro. Reabrir, estudar de novo essas coisas, porque não está funcionando mais a ideia da centralidade da Semana de 22. Há muito tempo não está funcionando mais.
JU – A ideia de que a literatura brasileira estava engessada em beletrismo vazio e aí os modernistas chegaram chutando a porta é um mito?
Berriel – Isso é um mito. E Lima Barreto, e Euclides da Cunha? É muito fácil ridicularizar um escritor, assim como é fácil improvisar um poeta futurista: junta-se um pouco de aeroplano, um torpedo, acrescenta-se uma xícara de onomatopeia de máquina, vruum, zazzz… e você tem um poeta futurista, quentinho.
Mas esse é um procedimento ilegítimo, pois desse modo não se quer compreender um problema literário, mas descartá-lo, simplesmente.
Agora, tome a poesia de verdade, a literatura que existia na época: não é de se jogar fora, não. Por causa, inclusive, desse domínio do modernismo, muita obra interessante, escritores interessantes, caíram no esquecimento. Eu cito, por exemplo, o Visconde de Taunay, um escritor lidíssimo no Brasil, com uma obra muito interessante, que publicou quase 30 livros, dos quais hoje só são conhecidos dois ou três. E os livros dele não são republicados desde 22.
Ele tem um romance que foi um grande best-seller – o que não diz muita coisa, mas diz alguma coisa – chamado Ouro Sobre Azul, que foi o livro mais vendido no fim do século 19. E é um livro de qualidade. E o último romance dele, No Declínio, é um romance de inspiração simbolista extremamente interessante. O modernismo criou uma espécie de buraco negro que escondeu boa parte da literatura brasileira, e que precisa ser redescoberta.
JU – Ligando um pouco o livro com sua área de pesquisa atual, a questão das utopias. Paulo Prado tinha a visão de uma utopia paulista?
Berriel – O Paulo Prado é muito pouco “poético”, ele é muito duro. O livro dele é um ensaio sobre a tristeza brasileira. Você tem ali uma visão racista, uma visão de degradação radical do brasileiro. Ele se utiliza, para construir a sua ideia do Brasil, dos inquéritos da inquisição. Confissões extraídas na tortura, esse é o material que ele usa para dizer o que é o Brasil. Pode ser, talvez, uma distopia. É um mundo muito feio, o que ele monta.
JU – Mas as ideias dele ainda são influentes.
Berriel – Sim, e volta e meia ressurgem. Em 1964 foi assim. Você tem agora essas manifestações na Avenida Paulista, aqueles grupos mais de direita tiram do baú algumas bandeiras que foram do modernismo, impregnadas de naftalina, e as usam para combater um governo, como o da Dilma, que se assemelha muito ao de Vargas: nacionalismo econômico, ampliação do mercado interno através da distribuição de renda, empresas estatais, Estado forte. E aí você tem manifestações que tiram do baú da oligarquia as ditas velhas tradições paulistas. Mas é preciso distinguir a ideologia da oligarquia do café dos reais interesses do homem comum de São Paulo.
JU – Isso é o modernismo?
Berriel – Isso é o modernismo paulista de Paulo Prado. Cada autor deverá ser estudado em si mesmo, e as similitudes e diferenças com o pensamento de Paulo Prado naturalmente aparecerão. Só temos a ganhar com isso.
por Carlos Orsi, no Jornal da Unicamp, sugerido por Ana Cláudia Romano Ribeiro, no Facebook
No Viomundo
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Imitação e dublagem de Silvio Santos gera dano moral

O Tribunal de Justiça de São Paulo condenou a Rádio e Televisão Bandeirantes a indenizar o Silvio Santos no valor de R$ 200 mil por danos morais. Na sessão desta quinta-feira (8/8), por maioria de votos, os desembargadores confirmaram a sentença de primeiro grau, mas afastaram os pedidos de tutela inibitória feitos pelo apresentador. Cabe recurso.
A Bandeirantes fez uma entrevista com Silvio Santos no momento em que o apresentador saia do barbeiro Jassa. O apresentador do SBT não quis falar e apenas mexeu a boca, sem responder nenhuma pergunta. Quando a entrevista foi ao ar, a Bandeirantes fez uma interpretação e leitura labial do que o Silvio Santos teria dito. Em uma das leituras labiais, o apresentador teria falado um palavrão.
Após o episódio, Silvio Santos entrou com a ação alegando que se sentiu ofendido com o programa e pediu dano moral. Ainda, o apresentador pediu para que o programa fosse proibido de parodiá-lo, além de não poder mais entrevistá-lo e veicular qualquer imagem do Silvio Santos no programa.
Em primeiro grau, o juiz entendeu que houve um excesso na entrevista por ter feito a leitura labial e por ter dito em cadeia nacional que o Silvio Santos teria falado um palavrão para a Bandeirantes, condenando a emissora ao pagamento de R$ 200 mil por danos morais. A ação foi julgada improcedente, porém, em relação aos três pedidos relacionados ao uso da imagem do apresentador, por entender que as questões devem ser analisadas caso a caso.
Tanto a Bandeirantes quando o Silvio Santos apelaram. A emissora, alegando que não houve dano moral e o apresentador para que os pedidos de tutela inibitória fossem julgadas procedentes.
Na apelação, o relator, desembargador Vito Guglielmi acolheu a apelação do Silvio Santos e concedeu a tutela inibitória. O 3° juiz, desembargador Paulo Alcides, pediu vista e depois julgou contra as tutelas inibitórias por entender não ser possível deixar o apresentador blindado para que ele nunca mais seja entrevistado ou parodiado e só julgou procedente o valor de R$ 200 mil de indenização por danos morais.
O revisor, Percival Nogueira, também pediu vista, e nesta quinta-feira acompanhou o desembargador Paulo Alcides no sentido de manter o valor por dano moral, mas não conceder o pedido de tutela inibitória. Ele considerou apenas relevante o dano moral para manter a sentença de primeiro grau. A decisão foi sugerida a indicação para jurisprudência.
Processo 0008025-52.2012.8.26.0011


Livia Scocuglia
No Consultor Jurídico
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STF muda com o sabor das ondas

Antes do julgamento do mensalão, o Supremo Tribunal Federal entendia que cassação de mandatos era atribuição do parlamento. Amparava-se no artigo 55 da Constituição Federal.
Julgou e decidiu assim em casos documentados.
Durante o julgamento do mensalão, os ministros mudaram da ideia.
Alguns dos votantes eram os mesmos de antes.
Buscaram amparo no artigo 15 da Constituição.
Depois do mensalão, com a condenação do senador Ivo Cassol, voltou a valer o entendimento anterior.
Mudaram nomes.
O que pensar?
Questão de hermenêutica? Uns interpretam de um jeito, outros de outro?
Subjetividade demasiada?
E o julgamento técnico?
Não faltará quem tome essa virada como prova de que o julgamento do mensalão foi político.
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Charge online - Bessinha - # 1886

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Datafolha: Dilma lidera em todos os cenários; Serra não chega ao segundo turno


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Celebramos la prohibición del uso de armas Taser a la Metropolitana de Buenos Aires

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El Premio Nobel de la Paz, Adolfo Pérez Esquivel, celebró que el poder judicial porteño impida el uso de las armas de descarga eléctrica “Taser” a la Policía Metropolitana de la Ciudad de Buenos Aires en conformidad con lo recomendado por el Comité contra la Tortura de las Naciones Unidas y Amnistía Internacional.
No es cierto que estas armas no sean letales. Ya ha quedado comprobado con cientos de muertes en Estados Unidos y otras partes del mundo, que las Taser torturan y matan. Lo que ocurrió es importante porque no se trata sólo de una discusión técnica. Es grave que el gobierno de Macri hable de una policía vecinal nueva, con una formación distinta centrada en valores democráticos y rechazando el abuso estatal de la última dictadura, si luego pretende que en la clases prácticas los mismos policías aprendan a electrocutar personas evitando matarlas. ¿Qué clase de nuevo modelo policial es ese?
En este sentido, el dirigente de derechos humanos, evaluó que la Policía Metropolitana es el más importante proyecto de policía municipal hasta el momento y está demostrando su fracaso. Lejos de la fuerza vecinal de proximidad ha incorporado casi 200 militares a sus filas a pesar de que lo prohíbe la ley de su creación, y la mayoría están en rangos operativos de calle. Hace unos meses más de 15.000 personas nos movilizamos a la Jefatura de Gobierno para exigir la renuncia del Ministro de Seguridad Guillermo Montenegro por haber reprimido salvajemente en el hospital Borda dejando pacientes, enfermeros, legisladores, periodistas  y militantes heridos. Por eso es bueno que ante tanta discrecionalidad el Poder Judicial comience a ponerle estos límites.
Y para finalizar agregó “además de la Ciudad de Buenos Aires, estas armas también deberían prohibirse en las provincias del país en las que ahora se están utilizando”.
Adolfo Pérez Esquivel
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Candidata renuncia à disputa na Austrália após dizer que Islã é país

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Para Veríssimo, volta de Lula seria "um erro"

Alinhado com governos de esquerda, escritor gaúcho aposta na reeleição de Dilma e afirma que PT não deve trabalhar pelo retorno do ex-presidente
Alinhado com a esquerda e simpático aos governos do PT, o escritor gaúcho Luís Fernando Veríssimo aposta na reeleição de Dilma e condena o "volta, Lula". Leia, abaixo, notas do Painel, da Folha:
A favorita 1 
Em entrevista ao programa É Notícia'', que vai ao ar à 0h30 de domingo para segunda-feira na Rede TV!, Luis Fernando Veríssimo afirma que Dilma deve ser reeleita e que considera improvável a hipótese de candidatura de Lula.
A favorita 2 
"Seria até um erro se tentasse voltar o Lula", diz o escritor, que elogia o governo, mas diz que Dilma perdeu o ímpeto'' de punir casos de corrupção que demonstrou nos primeiros anos de seu mandato.





No 247
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Propinoduto tucano: Estudante de Berkeley fura jornais brasileiros

O jornalista Bryan Gibel,  o jovem desta foto aí de cima, talvez já tenha terminado o curso de jornalismo em Berkeley.
ScreenHunter_2237 Aug. 09 18.25Espero que tenha sido aprovado com louvor, porque ele merece. Em 2012, o jovem Gibel produziu um trabalho interessante, intitulado “Corrupção além das fronteiras: uma fábula moral” (tradução livre minha). A dica me chegou via @stanleyburburinho.
Em seu trabalho, nos oferece um delicioso relato sobre conversas que manteve com advogados, jornalistas, políticos durante a viagem que fez ao Brasil para se aprofundar no assunto.

Para quem souber inglês, e se interessa em entender a lambança que os tucanos fizeram nos metrôs e trens de São Paulo, aí tem um ótimo material.
ScreenHunter_2239 Aug. 09 18.37É interessante também por trazer alguns emails aos quais a imprensa anda dizendo que “teve acesso”, como se se tratassem de grandes segredos. Não são. É um escândalo que vem rolando mundo a fora há anos, com todo mundo sabendo que políticos paulistas do PSDB estavam envolvidos. Só no Brasil o escândalo foi abafado até agora, quando a coisa explodiu por pressão internacional.
No trabalho de Gibel, vem detalhado o percentual das propinas pagas às autoridades num dos “projetos”: 7,5% de todo o valor do contrato!
Quem vai gostar muito de ler esse trabalho é o Merval Pereira, sobretudo agora que ele descobriu que os tucanos não são os éticos ilibados que ele achava que fossem.
Aproveito e indico outras matérias aos quais Merval deve prestar atenção:
Alstom pagou US$ 20 milhões a partidos do Brasil (onde está partidos, leia-se PSDB e DEM)
Miguel do Rosário
No Tijolaço
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Avaliação do Governo Dilma, segundo Datafolha

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Henry Sobel: 'Furto foi falha moral, não doença'

http://agenciabrasil.ebc.com.br/sites/_agenciabrasil/files/gallery_assist/3/gallery_assist639201/3fde273d53034.jpg 
Rabino se desfaz da versão criada para o caso das gravatas, pede perdão e se despede do País
Henry Sobel deixará o Brasil - circulou dias atrás. Diante da informação ainda restrita, o Estado procurou o rabino afastado da Congregação Israelita Paulista (CIP) em 2007, ao protagonizar um controvertido furto de gravatas numa loja de Palm Beach, nos Estados Unidos. Desde então Sobel deixou de ser a autoridade religiosa máxima da entidade, pediu aposentadoria no que foi atendido e levou o título de "rabino emérito" contornando uma crise que lhe trouxe profunda mágoa.
Por seis anos manteve a justificativa de que o furto fora motivado por desordem psicológica, depressão e efeito de remédios. Até no livro autobiográfico, Um Homem, um Rabino (Ediouro, 2008), com prefácio de Fernando Henrique Cardoso, sustentou a versão: "Para concluir minha recuperação, tenho que reconhecer a existência de um problema de saúde, que se manifestou em momentos de grave tensão". Nesta entrevista exclusiva, Sobel se desmente. Pela primeira vez assume que o furto tem a ver com "uma falha moral minha".
A revelação foi feita dias atrás, de modo manso porém surpreendente, ao longo de uma entrevista de duas horas e meia no apartamento do próprio rabino, no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Antes do gravador ser acionado, Sobel avisou que iria falar de algo pela primeira vez. Algo muito difícil. Havia escrito um longo texto, que consultou em diferentes momentos. E, recorrendo sempre aos fundamentos éticos do judaísmo, admitiu que furtou por fraqueza de caráter, não por debilidade física. "Desde jovem, fui um intolerante comigo. E o autojulgamento sempre foi severo demais. Mas o rabino é humano, portanto, falível."
Conta que amigos próximos ajudaram a montar a versão do desequilíbrio para protegê-lo. Que outros amigos silenciaram. E que uma oposição não o poupou das críticas. Agradece o acolhimento dos brasileiros, que chama de grande público não judeu. "Estranharam o fato. Mas não me julgaram."
Quase aos 70 anos, casado com Amanda e pai de Alisha, filha única, prepara-se para viver em Miami. Iniciará um longo período sabático só interrompido para voltar ao Brasil na época da Copa. "Sou apaixonado por futebol. Meu time, o São Paulo, anda em baixa, mas vibro, vibro... e vibro", revela com o dote de bom pregador, em que a repetição de palavras é recurso infalível e o sotaque americano, marca registrada. Fala da tristeza por não ter sido convidado a se encontrar com o papa Francisco (justo Sobel, que esteve com João Paulo II e Bento XVI, entre tantos líderes religiosos) e acha que sua representatividade vem sendo machucada. Por fim, ao rever sua corajosa atuação pública na morte de Vladimir Herzog, diz sentir o conforto do dever cumprido.
Por que está deixando o Brasil?
Deixe-me dizer que esta deverá ser uma entrevista difícil, com perguntas delicadas que pretendo responder. Fiz anotações que vou consultar, se me permitir. São 43 anos no Brasil. Minha história pessoal e a vida profissional estão muito interligadas. E ligadas ao Brasil. Mas resolvi deixar o País para diminuir o ritmo e preparar a aposentadoria. Passarei um período sabático em Miami. Lá vou me dedicar à leitura, escrever e refletir muito.
E por que Miami?
Primeiro, porque temos um apartamento lá. Segundo, porque a comunidade judaica daquela região é relativamente bem organizada. Em inglês se diz que Miami é gateway, ponto de partida para o mundo - Oriente Médio, Europa, América Latina... bom lugar para estar. Tentei ir para Washington, não consegui viabilizar o projeto. Então, é Miami. Mas voltarei ao Brasil no meio do ano que vem, para ver a Copa do Mundo daqui. Falando sério, vibro com futebol.
O senhor já não está aposentado?
Estou. Comuniquei meu pedido à CIP anos atrás, que foi aceito. Continuei por aqui porque tenho paixão pelo Brasil. Agradeço o País que me proporcionou trabalhar com a comunidade judaica e ter mantido contato com líderes religiosos de outros credos.
Como seria comparar o rabino Sobel dos anos 70, que chegou aqui jovem, num período difícil, e o rabino Sobel hoje, aposentado e querendo refletir?
Hoje sou um rabino machucado. Por motivos políticos. Vou dar um exemplo: minha congregação não me convocou para encontrar o papa Francisco na visita dele ao Brasil. Isso me magoou, afinal de contas, ele é um homem maravilhoso, líder de mais de 1 bilhão de seres humanos. No fundo, a minha representatividade tem sido machucada, algo que construí em 43 anos. Outro rabino foi escolhido para o encontro e eu me curvei perante o destino. Respondi à sua pergunta?
Sim, o senhor diz que hoje a sua representatividade não conta no Brasil.
O rabino argentino Skorka, amigo de Francisco, esteve por aqui, mas não o conheci. Ele mandou o livro que fez com o papa. Li e achei excelente. Alto nível de ambos os lados. Sei que é cedo para falar, mas a modéstia deste papa tem sido tocante. Gosto dos bons olhos dele, das improvisações... No entanto, a congregação achou melhor destacar para o encontro o rabino Michel Schlesinger, que me sucedeu na CIP. Gosto do Michel, pude ajudá-lo a fazer os estudos rabínicos em Israel e sei que tem grande futuro. Mas tenho meu ego para cuidar (risos)... Voltando ao ponto, pode escrever que não estou fugindo do Brasil.
E alguém diria isso?
Não sei, talvez. Aos 70 anos, não tenho motivos para fugir. Falo assim porque houve aquele incidente lastimável das gravatas, em consequência do qual saí da CIP.
Tem sido vítima de alguma forma de perseguição?
Não, isso não. Minha popularidade está intacta e o contato com o meu povão, idem. A criatividade é a mesma. O trabalho na comunidade é o mesmo. Os casamentos, as cerimônias de bar e bat mitzvah, os enterros infelizmente, tudo continua. Até a procura de dinheiro continua, porque aprendi a angariar recursos para a congregação junto a segmentos da economia. Tudo se mantém. O que não se mantém é a representatividade institucional. Isso me negam. Também sei que sou um privilegiado por ter trabalhado tanto tempo na mesma posição, o que é raro nas congregações.
Mas o senhor também deu uma dimensão particular a essa posição.
Acho que sim. Numa época difícil para o Brasil. Hoje a comunidade judaica se posiciona de maneira neutra perante os acontecimentos. Não existe uma definição própria, um rumo no que tange à sua posição perante fatores sociais e o caos da corrupção.
O esvaziamento de representatividade tem a ver com o caso das gravatas?
Por favor, coloque no papel o que trago no meu coração, porque vou falar de algo pela primeira vez. Antes não havia tido coragem nem vontade. Aquele foi um episódio desgastante, cheguei a pedir desculpas diante de câmeras das principais emissoras de TV do Brasil. Também tratei do assunto em livro autobiográfico. Falei em problema de saúde e no uso de um medicamento para dormir, o Rohypnol. O remédio teria me levado a cometer atos impensados. Ontem à noite, às vésperas desta entrevista e com o distanciamento que o tempo proporciona, decidi que não posso mais atribuir o que houve a fatores externos. Para ser e me sentir honesto, admito que cometi um erro.
Está dizendo que o furto não pode ser atribuído ao efeito de remédios, mas a uma falha sua?
Uma falha moral minha. E peço perdão. Veja o que escrevi ontem à noite: "É bom ser perdoado. Quando eu era menino, sempre que cometia um erro, podia contar com a compreensão, a ternura e o perdão dos meus pais. Lembro da sensação de ter um peso tirado do coração, uma gostosa certeza de ser aceito. (...) Quando cresci, foi a minha vez de conceder perdão aos meus pais pelos seus erros e fraquezas, fossem reais ou fruto da minha imaginação. Compreender nossos pais, e perdoá-los por serem menos perfeitos do que gostaríamos, é natural no processo de amadurecimento. Lembro das críticas se abrandando, os ressentimentos se dissolvendo, a consciência do afeto libertando a alma. É bom perdoar". E é muito bom perdoar a si próprio.
Como conseguiu chegar a essa aceitação dos fatos?
Eu era muito intolerante comigo quando me tornei rabino. O autojulgamento sempre foi severo e o sentimento de culpa, duradouro. Finalmente consegui me conscientizar de que o rabino é humano, portanto, falível. O incidente das gravatas é do conhecimento público, não preciso entrar em detalhes aqui... Tento me perdoar, o que não é fácil, porque perdoar não é esquecer. Se fosse, não haveria mérito no perdão.
O senhor passou seis anos nesse sofrimento, endossando uma versão? Afinal, como surgiu a história do remédio?
A palavra "surpresa" aplica-se à pergunta. De início houve a surpresa. Depois uma falta de crença na realidade, de que aquilo pudesse ter acontecido. Amigos procuraram afirmar que houve doença, queriam me proteger. Outros nem tanto. Quero ler mais um trecho sobre o perdão: "É impossível sobreviver se as raças não se perdoarem depois de tanta intolerância e preconceito. É impossível sobreviver se as religiões não perdoarem depois de tanto ódio e perseguições. É impossível sobreviver se as nações não perdoarem depois de tantas guerras e derramamento de sangue. Em todos os momentos e em todas as situações, as pessoas precisam ser capazes de dizer 'volte, eu te perdoo'. Dizer 'eu te amo, vamos tentar novamente'. Porque nunca é tarde demais". Perdoe o meu desabafo, mas há seis anos, todos os dias, lido com essa questão. Acho que posso amadurecer. E não deixar acontecer de novo.
Já acontecera antes na sua vida?
Não.
Foi um ato isolado?
Foi um momento que não sei explicar. A não ser como falha humana.
O senhor fala de um episódio anterior no livro, em que teria sido advertido numa loja, conseguindo pagar a mercadoria. Era parte da versão também?
Era parte da versão.
Nesses anos, teve ajuda psicanalítica?
Procurei um profissional, muito comunicativo e inteligente. Ele me ajudou a escrever o livro. Mas só agora posso assumir o que aconteceu.
Amigos ajudaram, outros, nem tanto. Sentiu-se abandonado?
A maioria das pessoas da comunidade não se manifestou. Hoje acho que muito daquele silêncio acabou sendo uma demonstração de apoio. E houve a oposição que não poupou esforços ao criticar. Já o grande público não judaico foi acolhedor. Achou estranho, mas evitou julgar.
Seu envolvimento com direitos humanos era um foco de tensão com a CIP? O senhor se expunha muito?
Deixe-me dizer que a experiência brasileira tem sido singular para o judeu. A hospitalidade encontrada aqui se converteu na liberdade que ele tanto buscava. Portanto, me parece perfeitamente compreensível que judeus se identifiquem com a luta dos direitos humanos e da justiça social neste País. Mas, respondendo à pergunta, não era fácil distinguir entre as críticas ideológicas e as críticas políticas a mim. Como qualquer líder público, alimentei adversários que procuravam motivo para a sua crítica. O caso das gravatas serviu para isso. Não digo que eu era o rabino mais popular, mas era certamente o mais ativo.
Anos atrás, o senhor dividiu a cena pública com líderes religiosos de peso, que o endossavam, como dom Paulo Evaristo Arns, dom Helder Câmara, o reverendo Jaime Wright...
....e agora dom Claudio Hummes. Tenho dom Claudio! Acho que posso contar esta passagem: sentindo a minha frustração de não poder ir ao papa, ele tentou, através do Vaticano, corrigir um problema político criado aqui. Não havia mais tempo, mas ele tentou. Sou grato a ele.
Dom Claudio ocupou o lugar de dom Paulo na sua vida?
Dom Paulo está afastado. Temos contatos esporádicos, especialmente quando ligo para ele. Mas dom Paulo não quer mais se inserir no dia a dia do Brasil. Meu interlocutor na Igreja Católica tem sido dom Claudio. É um homem íntegro, sensível, cauteloso em tudo o que faz. E seu conselho é confiável.
Este ano a família Herzog recebeu o atestado de óbito correto do Vlado - morto sob tortura e não por suicídio. Como recebeu a notícia?
Com muita alegria, porque Vlado merecia esse reconhecimento. E falta buscar outros Vlados cujos direitos foram violados, Vlados humilhados em vida e depois da vida. O trabalho pelos direitos humanos está apenas começando no Brasil. Temos um longo caminho a percorrer. E, enquanto for rabino, algo que pretendo ser até o fim da minha vida, assumo o compromisso de lutar por isso. A morte de Vladimir Herzog não terá sido em vão.
Quem o levou a decidir que Vlado fosse enterrado na área central do cemitério israelita, e não na área reservada aos suicidas, o que corroboraria a farsa da ditadura?
Dom Paulo. E foi dele que recebi o sábio conselho de organizar o culto na catedral. Quanto ao meu gesto: num conflito de forças opostas, é preciso avaliar bem o certo e o errado. Decidi apoiar os jornalistas, liderados por Audálio Dantas, seguir o conselho de dom Paulo e me manter ao lado da família Herzog. Porque eles falavam a verdade.
A que forças o senhor se refere?
De um lado, tinha a Chevra Kadisha, comitê de voluntários da comunidade encarregado de organizar o funeral conforme o rito judaico. De outro, tinha a família do Vlado, os jornalistas, dom Paulo. Vi que a Chevra Kadisha não estava representando a verdade naquele momento. Que tentou minimizar o ocorrido por cautela, medo ou falta de alternativa. Então não decidi entre duas verdades, porque isso não existe. O que existe é uma verdade acima de outra. Procurei o que era certo e Deus resolveria o resto. Isso significa ser judeu consciente. Assumir, agir, lutar se necessário. E confiar. Confiar.
Laura Greenhalgh
No O Estado de S.Paulo
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O que o Datafolha diz sobre Dilma 2014

A retomada da popularidade é uma notícia terrível para os adversários da presidenta.
Era previsível que a popularidade de Dilma se reerguesse depois dos protestos
Chances grandes para 2014
Era previsível que no calor das chamadas Jornadas de Junho a popularidade de Dilma ia cair.
Também era previsível que, passados os protestos, a popularidade de Dilma ia se reerguer.
É o que o último Datafolha está mostrando.
No auge das manifestações, o prestígio de Dilma baixou a 30%. Agora, subiu seis pontos percentuais.
Embora esperado, o movimento ascendente não foi uma boa notícia, naturalmente, para os adversários de Dilma.
A tendência é que o cenário anterior a junho vá se restabelecendo – e, com ele, o favoritismo enorme de Dilma nas eleições de 2014.
O maior partido de oposição, o PSDB, enfrenta a crise das propinas do metrô. Isso lhe tira da campanha presidencial o argumento que seus líderes mais têm usado nos últimos anos, com muito cinismo e poucos resultados: o da corrupção.
Resta, para eventualmente incomodar Dilma, Marina. Mas para Marina, considerando que ela viabilize sua candidatura, a maior vitória em 2014 seria ir para um hoje improvável segundo turno.
Sua Rede parece mirar mais 2018 do que 2014.
Vistas as coisas pelo ângulo de agosto de 2013, a disputa mais eletrizante de 2014 parece que vai se dar no governo de São Paulo.
Quanto o caso do metrô afeta Alckmin pessoalmente? Algumas pessoas consideram – discordo — que as acusações a Serra são uma forma de tentar preservar Alckmin.
Padilha pode surpreender?
Esta a questão. O programa Mais Médicos, obra dele, vai ajudá-lo. Os médicos rejeitam, mas o resto da sociedade, tirados os suspeitos de sempre, apoia.
Mais que tudo, o programa mostrou o descalabro da saúde pública nacional. Os brasileiros não sabiam que havia tão poucos médicos no Brasil. Ignoravam também que tantas cidades no interior do país simplesmente não contam com um só médico.
Demorou para que fosse discutida, num nível tão profundo, a medicina no Brasil? Que fossem estabelecidas comparações como o estilo de Cuba e o do Brasil?
Sim.
Mas antes tarde que mais tarde.
Serra ocupou o mesmo cargo de Padilha, e não promoveu um debate tão essencial ao país.
Padilha vai crescer.
São Paulo tende a ter uma das eleições mais animadas das últimas décadas.
Paulo Nogueira
No DCM
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Queda na inflação faz Dilma Rousseff recuperar apoio

Como antecipei ao longo desta semana aqui no blog e nos meus comentários no Jornal da Record News (ver links no final deste texto), o inferno astral que abalou o governo da presidente Dilma Rousseff, após os protestos de junho e as más notícias na economia, mudou de lado nos últimos dias, e atingiu em cheio a oposição tucana, agora às voltas com o Metrôgate. Contrariando todas as previsões apocalípticas de analistas e colunistas, o governo não acabou.
Ao contrário, a nova pesquisa Datafolha deste sábado mostra a recuperação parcial da popularidade da presidente, que subiu de 30% para 36%, e a volta do otimismo quanto aos rumos da economia, com a maioria da população esperando melhoras quanto às expectativas de inflação, emprego e salários, que é o que realmente pesa na balança.
A principal razão para esta virada no astral da população em relação ao governo é a queda na inflação, que chegou em julho ao seu índice mais baixo nos últimos tempos, batendo em míseros 0,03%, ao mesmo tempo em que a cesta básica também atingia o menor valor em três anos.
Esta constatação contraria as análises que atribuíam a abrupta queda de popularidade de Dilma registrada nas pesquisas anteriores unicamente às manifestações de protesto que tomaram conta do país no mês anterior.
As notícias alarmistas sobre descontrole da inflação - em alguns casos pontuais houve, de fato, aumento de preços - e o carnaval que alguns porta-vozes do Instituto Millenium fizeram em torno da alta do tomate, colocando até colares do dito cujo no pescoço, é que, a meu ver, fomentaram um clima generalizado de mal estar na onda dos protestos "contra tudo e contra todos", que acabaram atingindo também o governo federal.
As propostas lançadas por Dilma após o tsunami de junho - consulta popular sobre a reforma política e o programa "mais médicos", entre outras -, bastante combatidas na grande imprensa tiveram, no entanto, amplo apoio da população, o que também pode explicar sua recuperação parcial na pesquisa Datafolha.
"Esta semana o governo saiu das cordas", eu respondi ao Heródoto Barbeiro no JRN quando ele me perguntou o que havia mudado no cenário político. Além da queda na inflação e no valor da cesta básica, também o anúncio da safra recorde de grãos serviu para dar um novo fôlego ao governo, ao mesmo tempo em que as revelações sobre os cartéis e as fraudes no Metrô paulistano jogavam os tucanos na defensiva.
Se a economia dava seus primeiros sinais positivos depois de muito tempo, também no campo político a presidente retomou a iniciativa ao promover um festival de reuniões com líderes de partidos da base aliada. Se até agora nada de muito positivo resultou destes colóquios, o fato é que Dilma retomou o diálogo com os parlamentares, que andava engasgado desde o início do ano.
Como casais em crise, Executivo e Legislativo pelo menos já estão conversando. E Dilma teve motivos para comemorar: "A queda da inflação é uma maravilha!". Quando os repórteres tentaram mudar de assunto, perguntando sobre se o tal do trem-bala sai ou não sai, ela desconversou: "A cesta básica é mais importante".
E é mesmo. Trem-bala, a esta altura do campeonato, em que as cidades exigem mais e urgentes investimentos em serviços de transporte público, é uma rematada bobagem. Melhor mesmo esquecer este assunto de uma vez por todas.
Com esta oposição, e se não errar muito, o governo Dilma pode confirmar as previsões do mago João Santana, que de vez em quando acerta, e até o final do ano voltar a índices de popularidade mais próximos aos do primeiro semestre, em que chegou a bater o recorde de 65% de aprovação. De quebra, afastaria de vez a onda em torno do "volta Lula".

Nesta sexta-feira, em viagem ao Rio Grande do Sul, Dilma parecia já saber das boas novidades da pesquisa e mostrou-se bastante animada com sua campanha pela reeleição, embora a negue: "Eu não faço campanha. Sabe por quê? Todo o resto tem que fazer campanha porque quer o meu lugar. Eu estou exercendo o governo. A troco de que eu vou fazer campanha? Eu vou é governar". É isto mesmo que ela deve fazer. O resto é consequência.
Metrôgate
A melhor definição da semana sobre o imbróglio em que os tucanos se meteram nos trens e trilhos do metrô paulistano foi dada hoje por um leitor da "Folha", Cristiano Rezende Penha, de Campinas, SP:
"De duas uma: ou o governo do PSDB é muito incompetente por não perceber que milhões de reais eram desviados há anos dos contratos do Metrô, ou o governo do PSDB é muito "competente" por desviar milhões de reais dos contratos do Metrô há anos e sem ninguém perceber".
Bom final de semana a todos.
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Candidatura de Marina Silva está por um fio

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Rede Sustentabilidade não conseguiu as assinaturas necessárias para a criação do partido e o prazo se encerra na próxima quinta-feira; aliados estão jogando a toalha
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Tucaníssima, Veja rasga fantasia no caso Siemens

Se ainda havia alguma dúvida sobre o engajamento político da revista Veja, ele desaparece por completo na edição desta semana; reportagem "O acerto que saiu dos trilhos" é capaz de gastar papel e tinta com o caso Siemens praticamente sem mencionar políticos tucanos e sem publicar nenhuma foto; sobra até para um petista, o ex-presidente Itaipu, Jorge Samek, que teria pedido favores para perdoar uma dívida da multinacional alemã; nada sobre Geraldo Alckmin, Mario Covas, Robson Marinho (acusado de receber propinas de US$ 20 milhões) ou Andrea Matarazzo, também indiciado pela Polícia Federal; na única citação a políticos, José Serra e José Roberto Arruda, Veja afirma que os dois aparecem "em situações não comprometedoras"; uma reportagem vergonhosa, que não traz de nada de novo sobre o caso Siemens, mas revela a natureza partidária de Veja
Em grave crise financeira, a Editora Abril, que vem cortando títulos e demitindo profissionais, acaba de atirar de vez sua credibilidade no lixo. Numa reportagem vergonhosa, sobre o caso Siemens, a revista Veja é capaz de dedicar seis páginas ao escândalo que movimenta o debate político no Brasil como se ele ocorresse na lua ou em outro planeta – e não em São Paulo, onde fica a sede da editora.
Para quem ainda tinha alguma dúvida sobre o engajamento político da casa editorial dos Civita, Veja rasgou de vez a fantasia. É tucana, ou melhor, tucaníssima. E prova, com seu texto, que o cientista político André Singer tem toda a razão, ao falar sobre grupos sociais que articulam o debate contra a corrupção no Brasil. "Terão a mesma energia ou o ímpeto revelado irá esmorecer, agora que são outros os personagens na berlinda?", indaga na Folha (leia mais aqui).
Assinada pela jornalista Laura Diniz, com reportagem de Bianca Alvarenga e Pieter Zalis, o texto conta a história da Siemens e explica o que é cartel, como se os leitores estivessem interessados em biografias empresariais ou aulas de teoria econômica. "A isso se dá o nome de cartel, crime no qual um grupo de empresas se une para lotear o mercado e combinar preços, de forma a atropelar a livre concorrência e aumentar seus ganhos, já que, em seus acordos secretos, nunca decidem fixar os preços para baixo".
Ilustrada de forma asséptica, a reportagem não tem fotos de personagens, contrariando o padrão gráfico da própria Veja. Onde estão as fotos de Geraldo Alckmin, José Serra ou Mario Covas? Nada. Ou então de Robson Marinho e Andrea Matarazzo, acusados de receber propinas da Alstom, outra empresa partícipe do esquema? Também nada. Ou quem sabe de José Luiz Portella, o Portelinha, homem de confiança do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, citado num email da Siemens como articulador de um acordo que envolveria também José Serra? (leia aqui) O gato comeu.
Sem tucanos na mira, Veja conseguiu até a proeza de disparar contra um petista em sua leitura sobre o caso Siemens, ao resgatar uma história contra Jorge Samek, diretor-geral de Itaipu. Ele teria sido acusado de cobrar US$ 6 milhões para perdoar uma dívida da multinacional alemã.
Lá pelo finalzinho do texto, o leitor descobre, enfim, o nome de dois políticos. "Nos milhares de documentos e e-mails apreendidos, aparecem apenas os nomes de dois políticos, os ex-governadores José Serra (PSDB-SP) e José Roberto Arruda (DEM-DF). Os dois são apenas citados – e em situações não comprometedoras", diz a revista. Ah, bom...
A reportagem de Veja é histórica não pelo que traz de novo sobre o caso Siemens – de onde menos se espera, é que não sai nada mesmo, como diria o Barão de Itararé. Ela ficará marcada como um exemplo da natureza perversa da própria imprensa brasileira.
Veja tem lado. A Editora Abril tem lado. E isso ficou explícito e absolutamente escancarado neste fim de semana. O grande problema, para a democracia brasileira, é que empresta seu poder de fogo para manipular e pressionar instituições públicas, como a procuradoria-geral da República e o Supremo Tribunal Federal, sempre em defesa de seus próprios interesses políticos e comerciais.
No 247
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Alckmin e Serra - Festa do Trem


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Entenda as denúncias contra o PSDB

A Polícia Federal, o Cade, e os Ministérios Públicos do Brasil e da Suíça investigam caso de corrupção e formação de cartel durante os governos tucanos em São Paulo
José Serra e Geraldo Alckmin
O ex-governador José Serra (à esq.) e o atual governador
de São Paulo, Geraldo Alckmin (à dir.) durante reunião
da bancada do PSDB, no Senado
Os casos de corrupção e formação de cartel envolvendo os governos do PSDB de São Paulo são relativamente antigos, mas estão surgindo no noticiário devido ao avanço das investigações contra as irregularidades, tanto no Brasil quanto no exterior. Estão sob os holofotes neste momento duas questões diferentes, mas interligadas: o chamado Caso Alstom, no qual a multinacional francesa teria subornado diversos políticos brasileiros, e um conluio entre empresas para se aproveitar da construção do metrô de São Paulo.
A irregularidade que teria durado mais tempo é a formação de cartel. Na sexta-feira 2, a Folha de S.Paulo revelou que, em julho deste ano, a empresa alemã Siemens entregou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) uma série de documentos sobre o caso. Eles provariam que o governo tucano tinha conhecimento da formação de cartel. A motivação da empresa seria, segundo um jornal, se livrar de algumas das punições em troca da cooperação nas investigações. A informação de que o governo sabia dos esquema havia sido publicada por uma reportagem da revista Istoé de dias antes, segundo a qual o prejuízo para os cofres públicos paulista seria de 425 milhões de reais.
O cartel teria sido formado para a realização da construção da linha 5 do metrô de São Paulo, cuja licitação foi realizada entre 1998 e 2000, quando o Estado era governado por Mário Covas (PSDB). Nesta sexta-feira 9, a Folha informa que em um diário entregue ao Cade, Peter Rathgeber, gerente de vendas da Siemens, conta que o governo de São Paulo pressionou as empresas a formarem o cartel. A intenção era, segundo o diário, evitar que a disputa entre as companhias atrasasse as obras. Em 14 de fevereiro de 2000, diz a Folha, Rathgeber afirma que “por pressão do cliente" [o governo tucano], após diversas "reuniões secretas", "a união" entre a Siemens, a Alstom e a espanhola CAF foi realizada. O governo, então, recusaria os recursos pela desqualificação das empresas e nenhuma delas reclamaria. À Folha, o então secretário estadual de Transportes, Claudio de Senna Frederico, afirmou que nem ele nem Covas tinham conhecimento do esquema montado.
Na primeira reportagem sobre o caso, o jornal revelou que o esquema iniciado no fim dos anos 1990 se estendeu ao governo de Geraldo Alckmin (2001-2006) e ao primeiro ano do mandato de José Serra, em 2007, ambos do PSDB. Havia, ainda segundo a Siemens, um outro esquema montado para a manutenção de alguns trens de São Paulo, envolvendo a empresa alemã, a CAF e a canadense Bombardier. Atual governador de São Paulo, Alckmin disse que o Estado é “vítima” e prometeu investigar as irregularidades.
Teria havido na sequência uma tentativa de ampliar o cartel. Na quinta-feira 8, a Folha de S.Paulo afirmou que um e-mail enviado por um executivo da Siemens indica que José Serra sugeriu um acordo com a multinacional para evitar uma disputa empresarial por uma licitação da CPTM, em 2008. A intenção era, segundo o jornal, combinar um esquema entre a CAF e a Siemens, que não se concretizou, pois a empresa espanhola realizou o serviço sozinha. Serra negou as acusações.
Segundo denúncias, o esquema também funcionava no sistema metroviário do Distrito Federal, durante o governo de José Roberto Arruda (ex-DEM), estrela de dois outros escândalos: a violação do painel do Senado, em 2001, e o "mensalão do DEM", em 2010. Devido ao último caso, Arruda foi preso e cassado.
O caso Alstom
O caso Alstom é investigado, no Brasil, pela Polícia Federal. Segundo informou a corporação a CartaCapital, dois inquéritos foram abertos para apurar irregularidades no metrô de São Paulo. O primeiro já está concluído e foi entregue ao Ministério Público Federal, onde desfruta de segredo de justiça. De acordo com a Folha de S.Paulo, neste inquérito a PF indiciou, por corrupção passiva, o vereador Andrea Matarazzo (PSDB), ex-ministro do governo Fernando Henrique Cardoso e um dos líderes da oposição na Câmara Municipal de São Paulo. Segundo a PF, afirma o jornal, uma troca de mensagens de 1997 mostra executivos da Alstom discutindo o pagamento de vantagens ao PSDB, à Secretaria de Energia e ao Tribunal de Contas. O nome de Matarazzo não aparece como destinatário dos pagamentos, diz o jornal, mas a PF entendeu que ele foi um dos beneficiados porque foi secretário em 1998, ano em que um dos contratos com a empresa francesa foi assinado.
As investigações da PF são baseadas em apurações feitas pelo Ministério Público da Suíça. Nos documentos do país europeu consta a informação, segundo revelou o jornal O Estado de S.Paulo nesta sexta-feira 9, de que a Alstom pagou 20 milhões de dólares em propinas a partidos para obter contratos com o governo. Segundo um dos depoimentos, a "Alstom e a Cegelec (subsidiária da Alstom) estavam trabalhando juntas para organizar uma cadeia de pagamentos para tomadores de decisão no Brasil". A "cadeia de pagamentos" consistia na tentativa de realizar um "crime perfeito" segundo o MP suíço, pois envolvia pagamentos a políticos, ao Tribunal de Contas do Estado e ao secretário de Energia que daria os contratos.
A negociação era feita por uma figura nomeada como "RM". Segundo o Estadão, é Robson Marinho, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, que, depois de coordenar a campanha de Mário Covas em 1994, foi chefe da Casa Civil entre 1995 e 1997. Para realizar os pagamentos, diz o jornal, a Alstom até criou uma empresa, a Alcalasser, cuja única função era pagar propinas e comissões.
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