5 de ago de 2013

A CIA deu proteção aos grandes traficantes de drogas do mundo

Arma mortal
A imprensa norte-americana, prostituída por acesso ao poder, promove a guerra contra as drogas — que gasta bilhões de dólares sem resultados.
A solução para o problema do tráfico é dar poder às comunidades afetadas pelo comércio e consumo das drogas.
Estas são algumas conclusões de Michael Levine depois de 25 anos de experiência como agente secreto da Agência de Combate às Drogas (DEA) dos Estados Unidos. Norte-americano do Bronx, ele escreveu três livros nos quais conta, em detalhes, todas as operações que poderiam destruir grandes cartéis, mas que foram sabotadas pela CIA, a Central de Inteligência.
Quando não aguentava mais a frustração, Michael Levine escreveu uma longa carta sobre a participação da CIA no chamado “golpe da coca”, na Bolívia, em 1980, que colocou o general Luis García Meza no poder. Michael enviou a carta a dois jornalistas da revista Newsweek. Um deles, Larry Rohter — que mais tarde se tornaria correspondente do New York Times no Brasil e ficou famoso por publicar reportagem difamando o ex-presidente Lula, sugerindo ser um bêbado.
A carta, registrada, foi entregue. Ele guarda até hoje o recibo. Michael passou duas semanas ao lado do telefone, esperando que os jornalistas o procurassem em busca de mais informações. Nada. Na terceira semana, finalmente, o telefone tocou. Era o Departamento de Segurança Interna da DEA, avisando que ele estava sendo investigado.
Daí em diante, Michael se calou, completou os anos de trabalho que faltavam cumprindo tarefas burocráticas e preparando os livros que desnudam a hipocrisia da retórica moralista do governo norte-americano em torno do combate às drogas.
Nos anos em que trabalhou como agente da DEA, Michael Levine gravou conversas, registrou eventos e garante que não escreveu nada de memória. “Não precisei inventar nenhum diálogo”. Nesta entrevista ao Viomundo, ele relembra alguns dos casos que acompanhou de perto. Elogia Mao Tse-Tung e se diz entusiasmado com o nascimento de uma nova imprensa, na internet.
Viomundo – Depois de 25 anos de trabalho na DEA, por que decidiu escrever livros sobre a organização e sobre o trabalho da CIA?
Levine — Quando alguém está jantando às suas custas, você tem que ao menos tomar o café da manhã dele. Ou seja, quando alguém te fere, te prejudica você tem de ferí-lo a qualquer custo. Eu tinha que revidar contra a CIA e contra os burocratas dos EUA para os quais a guerra contra as drogas era apenas uma ferramenta, um instrumento. Eu estava basicamente furioso.
Viomundo — Eles atrapalharam sua vida pessoal um bocado, sem falar o que estavam causando ao país…
Levine — Eles mentem para o mundo. Agentes e policiais com os quais trabalhei deram a vida acreditando no que esses burocratas e políticos nos disseram — e era uma mentira. A guerra contra as drogas nunca foi travada honestamente. Sempre foi um instrumento para outras coisas. Por isso o Evo Morales usou uma cópia do “The Big White Lie”, levantou o livro há coisa de um ano e disse: “É por isso que estou expulsando a DEA do meu país”.
Evo Morales com a tradução do livro de Michael Levine
Viomundo — O que aconteceu com você depois que publicou o livro? Sofreu retaliações?
Levine — Fui ameaçado. Eu escrevi dois livros, “Deep Cover” e “The Big White Lie”, sobre casos de infiltração, quando você vai para outros países, assume outra identidade e corre riscos reais. Pode acreditar, eu tinha medo o tempo todo. Mas gravei tudo. Todos os diálogos que você vai encontrar nos dois livros vêm de gravações. Não tive que inventar. Eu estava equipado o tempo todo. O “Deep Cover” foi publicado primeiro e se tornou um best-seller na lista do New York Times. Eu fui a um importante programa de TV em NY, o Donahue Show, e quando estava no bastidor, na chamada Sala Verde, esperando para ir ao ar, recebi um telefonema do quartel general da DEA.
Não sabia nem como eles tinham descoberto que eu ia aparecer no programa porque tudo foi mantido em segredo até o último minuto. Mas eles sabem… E um dos chefões me disse: “Enquanto estou conversando com você Mike, dez advogados estão debruçados sobre o seu livro, analisando página por página, para ver se podemos indiciar você por algum crime”. Eu disse: se você está tentando me assustar, já conseguiu. Muito mais do que imagina. Mas agora não vou voltar atrás. Foi então que ele disse as palavras “lembre-se do sanduíche de pasta de amendoim com geleia”.
Ele estava falando do Sante Bario, um agente que trabalhou comigo. Ele estava no México quando eu era o encarregado da Argentina, sediado em Buenos Aires. De uma hora para outra, Sante Bario foi preso pelo departamento de assuntos internos da DEA for tráfico de drogas com base no depoimento de um informante. Ele ficou preso em uma pequena cadeia do México, na fronteira dos EUA. Ele estava preso há duas ou três semanas dizendo que tinha sido vítima de uma armadilha, que a acusação era uma mentira, quando deram a ele um sanduíche de pasta de amendoim com geleia. Ele comeu e caiu no chão com convulsões. Entrou em coma. O primeiro exame de sangue indicou a presença de estricnina. Ele morreu um mês depois.
A autópsia concluiu que ele morreu porque engasgou com o sanduíche. Isso é fato. Você encontra essa reportagem na revista Time com o título “O estranho caso de Sante Bario”. Sante Bario se tornou uma ameaça para todos os agentes do DEA. Se você sair da linha pode terminar com um sanduíche de pasta de amendoim com geleia. E ali estava eu, logo após publicar o livro “Deep Cover”, com um dos chefões do DEA me lembrando do sanduíche. Então a longa resposta à sua pergunta é: sim, eles me ameaçaram…
Viomundo — Ao mesmo tempo em que foi ameaçado, você teve apoio de pessoas com as quais trabalhou na DEA?
Levine — Algum apoio… Gradualmente, com o tempo, vários vieram me dizer que eu tinha razão, que estava certo. Recebi e-mails deles, esse tipo de coisa. Pouco depois de escrever “Deep Cover”, meu filho era policial em NY e foi morto em uma troca de tiros na rua.
A direção da DEA em NY disse a todos os agentes que não fossem ao enterro do meu filho. Para você ver como estavam furiosos comigo. Mas alguns desobedeceram a ordem e foram ao enterro. Mas sempre tive apoio. Mais tarde, botei isso no You Tube. O chefão da DEA olhou bem para a câmera do programa 60 Minutos, o mesmo programa no qual eu apareci, e disse: “Não existe outra forma de dizer isso. A CIA funciona como um bando de traficantes”.
Não tem prova melhor do que essa. Mas foram necessários vários anos para ele vir a público dizer o que eu já havia dito nos meus dois livros. Acho que você pode dizer que os cabeças da DEA eventualmente concordaram com tudo que eu disse em meus dois livros.
Garcia Meza, “produto” da CIA na Bolívia
Viomundo — Você disse que a guerra contra as drogas era na verdade uma ferramenta para outros objetivos nas mãos dos políticos. Que objetivos?
Levine — Eu volto no tempo até a Guerra do Vietnã. Sou velho assim…
Fui para o Sudeste Asiático com outra identidade e consegui atingir, ou seduzir, o maior traficante de heroína da região. Isso foi no começo dos anos 70 e eles me convidaram para o Golden Triangle, área onde eles tinham uma fábrica. Provavelmente a maior fábrica de produção de heroína do mundo.
Antes da visita, o serviço de inteligência veio me dizer que eu não ia. Anos depois eu fiquei sabendo o motivo. Essas pessoas no sudeste asiático eram nossos aliados no Vietnã e a única maneira de dar apoio a eles era vendendo heroína para o resto do mundo. A CIA tinha que protegê-los para que pudessem ser nossos aliados no Vietnã. É uma escolha política. O contribuinte americano não queria mais pagar por aquela guerra.
Muitos anos depois, quando eu estava em Buenos Aires, me infiltrei na organização do Roberto Suarez [na Bolívia] e cheguei a um ponto em que poderia, literalmente, acabar com a organização. A máfia de Santa Cruz. Eles eram responsáveis pela maior parte da cocaína do mundo. Novamente, como escrevi no livro “Big White Lie” e vou continuar a escrever sobre isso.
A CIA veio e ajudou Klaus Barbie [o nazista que recrutou mercenários na Bolívia para ajudar a colocar no poder o general Luis Garcia Mesa, quando a esquerda venceu as eleições com Siles Zuazo] e os direitistas a derrubarem o governo da Bolívia que ajudou a DEA nessa operação. Então, basicamente, a CIA traiu o povo da Bolívia e não a DEA, como o Evo Morales disse. A CIA decidiu ajudar os traficantes de cocaína porque não eram de esquerda, não eram comunistas. Eles não queriam o risco de ver a Bolívia se tornar esquerdista.
Então, pegaram os traficantes e deram a eles o controle – foi o infame golpe da coca, a primeira vez na história que traficantes de droga tomaram conta de um país. E nessa época eles tinham um programa chamado Operação Condor. Fiz muitos trabalhos no Brasil também nessa época e a Operação Condor era um acordo entre os países do Cone Sul. Minha investigação bateu bem nessa operação. Eles estavam matando as pessoas que eu estava investigando por causa da alegação de que tinham tendências esquerdistas. Era um jogo muito, muito sujo.
Aí você chega a uma operação que eu descrevi no “Deep Cover”. Eu fazia parte de uma equipe infiltrada na operação chamada Trisecta, em três países. Eu fechei um negócio com uma organização chamada La Corporacion, da Bolívia, que no fim dos anos 80 controlava toda a cocaína. Arrumei o envio de 15 toneladas de cocaína através do México. Fiz um negócio, gravado em vídeo, com o exército mexicano, para proteger a droga e deixá-la entrar nos EUA.
Esse acordo está em vídeo, no You Tube, você pode ver. Foi feito com a aprovação do presidente do México que ía ser empossado, Carlos Salinas de Gortari. Gravado em vídeo! Imagine isso. Estamos falando do envio de 15 toneladas de cocaína! Em uma casa luxuosa, de frente para o Pacífico. Temos mapas espalhados sobre a mesa. Estou conversando com o Coronel Jaime Carranza, neto do homem que escreveu a Constituição mexicana, e ele aponta para o mapa, mostra o local onde vamos pousar o avião com a primeira tonelada de cocaína e diz: é aqui que estamos treinando os Contras para a CIA. Esse vídeo foi enviado, naquela mesma noite, para o secretário da Justiça dos Estados Unidos, em Washington e ele, imediatamente, revelou nossa identidade porque telefonou para o ministro da Justiça do México para contar toda a nossa operação. Botei tudo isso no livro.
Viomundo — O milagre é você ainda estar vivo para contar essa história…
Levine — Muitas vezes eu acordo e apenas toco na minha mulher, que amo muito, e digo: Deus, que milagre ainda estar aqui! Quase tenho vontade de chorar. Simplesmente contrariei todas as probabilidades muitas vezes. Mas estou aqui, falando com você.
Viomundo — Você também escreveu sobre a conexão entre a CIA e a epidemia de crack nos EUA.
Levine — Mais uma vez… está tudo no You Tube. Eu era um agente infiltrado e estava trabalhando com a Sonia Atala. Eu era bem jovem, e me puseram com a mulher que o Pablo Escobar chamou de Rainha da Coroa de Neve. A rainha da cocaína.
Mas me puseram com ela porque ela se tornou informante da DEA. E eu tinha que me passar por amante dela. Estávamos viajando juntos e ela começou a me contar sobre algo que havia Bolívia. Uma cocaína que se podia fumar e que era violentamente viciante. Isso foi em 1983. Meu primeiro pensamento foi: isso vai direto pros EUA. E com certeza, um ano depois era o crack nos EUA.
Mas a história que não foi contada é que quem protegeu essa organização, esse envio da droga, e impediu que essa organização fosse desmantelada foi a CIA. Novamente. Esse era o papel deles. Não estavam nem aí se era crack, heroína, cocaína, o que fosse. É o imposto Junky [um dos nomes que se dá a viciados em drogas nos Estados Unidos]. O Congresso não vai pagar pela operação, então a CIA os ajuda a vender drogas para os EUA e para o mundo. Dá apoio à operação. É uma escolha muito simples. Eu fiquei furioso. Perdi um dos meus filhos. Ele foi assassinado por um viciado em crack em uma troca de tiros quando ele tentou impedir um assalto. E aqui temos uma agencia do governo americano, financiada pelos impostos que eu estou pagando, e todo mundo está pagando, e eles estão dando apoio a traficantes de drogas responsáveis pela morte de milhares, se não de milhões de pessoas.
Viomundo – Como explica o que está acontecendo agora no México com essa guerra contra as drogas que já matou mais de 50 mil pessoas? Guerra que está se espalhando para toda a América Central?
Levine — Enquanto os norte-americanos continuarem comprando drogas, enquanto houver um mercado gigantesco para as drogas, o dinheiro continua chegando ao México e é esse dinheiro que provoca essa guerra. A equação é muito simples. Eu escrevi um livro chamado “Fight back” que o Presidente Clinton recomendou que fosse lido por quem trabalha com comunidades com problemas de drogas. Recomendou e deixou em cima da mesa. Não fez nada.
Ele fala como comunidades e bairros podem se livrar das drogas sem esperar pelo governo federal, pela polícia, sem usar balas e armas. É questão de atacar o mercado. Esqueça isso de ir atrás dos traficantes. Isso não funciona. Acho que foi o prefeito de Medellín, na Colômbia, disse, há uns 20 anos, se você matar cada líder de cartel, existem outros cem na fila esperando para pegar o lugar de cada um deles.
Ainda estamos gastando milhões para ir atrás da estrela individual do momento. E hoje em dia eles têm esses nomes: Dr. Morte, Evil. A imprensa tem essa competição para ver quem consegue revelar o pior barão das drogas. É um jogo de tolos. Não é assim que se ganha o jogo. Você pega uma comunidade que quer se livrar das drogas. Eles vão atrás dos usuários da comunidade. Não precisa nem de prendê-los. Basta seguí-los com câmeras. Colocar alguém na esquina com um alto-falante. Isso funciona. São técnicas que funcionam. E o resultado é que os traficantes perdem o mercado.
Viomundo — Então você acredita que é possível acabar com o problema da droga?
Levine — Sim! Leia o “Fight back”. Funcionou para a China, funcionou para o Japão em uma determinada época. A China usou um método semelhante. Quando Mao Tse-Tung tomou o país, havia 70 milhões de viciados em heroína e ópio. Em três anos não havia mais nenhum. As pessoas dizem que ele executou todo mundo. Isso não é verdade. Houve 27 execuções nesse período. Se você comparar isso com os 60 mil mortos no México…
O que realmente funciona é transferir responsabilidade para a comunidade. A comunidade é que é responsável por seus viciados e cria reabilitação e tratamento obrigatórios. É muito humano! Salva a vida dos usuários e salva a comunidade. No livro “Fight Back” eu detalho o que poderiam fazer se quisessem.
Escritórios da DEA no mundo
Viomundo – Você está trabalhando, escrevendo mais um livro?
Levine — Eu e minha mulher estamos trabalhando em um próximo livro. Já temos o primeiro rascunho pronto. Mas quero escrever um livro sobre o Roberto Suarez. Ele talvez tenha sido o maior e menos conhecido traficante de drogas da história. Era da Bolívia.
Viomundo — Você também mencionou o papel da mídia. Contou o que aconteceu quando mandou a carta para Rother e Strasser da Newsweek. Esse Rother é o Larry Rother que depois se tornou correspondente do New York Times no Brasil e chamou o presidente Lula de bêbado?
Levine — Esse mesmo. A única coisa que posso dizer com certeza é que ele recebeu a carta porque mandei certificada. Recebi o comprovante de volta. A carta foi entregue na revista. Ele pode dizer que não leu. Mas recebeu. Foi a história da Bolívia. Mandei a carta de Buenos Aires, onde era attaché. Mandei em papel timbrado da embaixada. Me arrisquei um bocado ao fazer isso. O resto é história…
Viomundo — Em sua opinião, o que acontece com a imprensa norte-americana, eles só checam as informações com representantes do governo? São obedientes?
Levine — Sabe, já participei de vários programas sobre isso. Eles são, basicamente, putas. Se vendem por acesso. Se prostituem por acesso. Querem acesso ao porta-voz da CIA e para conseguir isso não podem escrever nada mais crítico sobre a CIA.
Caso contrário, o acesso é negado. Quer acesso à DEA? Quer saber o que estão fazendo? Quer escrever sua materinha incrementada sobre tráfico de drogas? Melhor não escrever nada muito crítico. Eu escrevi um artigo sobre a mídia. Ganhou todo tipo de prêmio. Meu artigo se chama “Mainstream media, the drug war shills”. Ele faz parte do livro “Into the Buzzsaw”, de Kristina Borjesson. O livro foi muito elogiado pelas pessoas que estudam a mídia. Acho que mostra muito bem como a mídia continua vendendo uma guerra contra as drogas que mata milhões de pessoas, é totalmente sem propósito e não resolve nada.
Viomundo — Como o Plano Colômbia que investiu milhões de dólares no país e no fim, a produção de cocaína dobrou…
Levine — O Plano Colômbia, a Operação Snow Cap… Meu Deus! O Plano Colômbia foi um desdobramento da Operação Snow Cap.
Ação contra as drogas tem objetivos políticos, diz autor
Viomundo — O que foi a Snow Cap?
Levine — Eram as operações paramilitares na Bolívia e no Peru. Militares e agentes do DEA indo atrás dos traficantes na Bolívia e no Peru. O Plano Colômbia foi apenas um desdobramento. Eu conheci basicamente as pessoas mais graduadas do tráfico de cocaína do mundo nos anos 80. Eles achavam que eu era um mafioso meio siciliano, meio portorriquenho, e estavam me vendendo 50 toneladas de cocaína. Eu disse a eles que tinha muito medo de ir para a Bolívia por causa da Operação Snow Cap.
Com todas as tropas, com os militares ali, como vou fazer um negócio desses na Bolívia com todos os militares norte-americanos lá? Meu interlocutor riu! Riu e disse: eles não fazem nada. Andam pra cima e pra baixo. Sabemos o que vão fazer antes deles fazerem. Te garanto que você estará perfeitamente seguro Luis. Esse era meu nome. Ele me chamava de Luis. Repeti essa conversa para os responsáveis pela operação Snow Cap no QG da DEA e eles disseram o seguinte: “Nós sabemos que não funciona, mas já vendemos ao longo do Potomac” [rio Potomac, nas margens do qual fica o poder em Washington], o que significa dizer que a ideia já foi vendida para o Congresso, então é o futuro da DEA que está na corda bamba. Esquece a guerra contra as drogas. O Plano Colômbia é a mesma coisa. É política.
Viomundo — Eles vendem os planos, pegam o dinheiro e precisam fazer de conta que estão fazendo algo…
Levine — Exato. É sempre a mesma coisa. Tem que mostrar estatísticas para provar que os bilhões que você está gastando estão sendo bem gastos.
Viomundo — Você acredita que todos os presidentes que passaram pela Casa Branca nas últimas décadas sabem de tudo isso?
Levine — Eles sabem exatamente. Sabem que o que eu estou te dizendo é fato. Eles também sabem que se virarem e disserem isso ao público durante uma campanha presidencial serão derrubados da Casa Branca. Por que? A grande mídia — os cachorrinhos da grande burocracia formada pela CIA, DEA, etc. – vai perseguir este político.
Viomundo — Como explica então que seus livros tenham sido tão bem recebidos e que você tenha sido convidado para tantos programas de televisão?
Levine — Porque na mídia existem grandes indivíduos que se destacam. Mas a percentagem de jornalistas de verdade é cada vez menor, desde Woodward e Bernstein [os jornalistas do Washington Post que revelaram o escândalo Watergate]. Não se pode comparar a mídia de hoje com a daquela época. Mas você pode dizer que o motivo pelo qual ainda estou fazendo isso tudo é porque continuo procurando pelos Woodwards e Bernsteins.
Viomundo — Você  consegue conversar melhor com os jornalistas que migraram para a internet?
Levine — A internet está crescendo rapidamente e faz com que eu me sinta realmente muito bem porque está se tornando um grande desafio para essa “mídia de tribunal” que se proclama jornalismo. Basicamente, são estenógrafos. É maravilhoso, para mim, ver esse crescimento da internet.
Viomundo — Você acha que o seu trabalho, seus livros e artigos, tiveram algum impacto, produziram alguma mudança?
Levine — Acho que talvez faça alguma diferença. Provavelmente depois que eu tiver morrido. Eu não sei. A gente nunca sabe. E por isso é que continua fazendo. Alguém como eu… eu cresci tendo que lutar por tudo que conquistei. Sou inclinado a isso, a brigar, não importa a consequência. E morrer brigando. É o que pretendo fazer.
Viomundo — Então nos conte um pouco dessa infância…
Levine — Cresci no South Bronx (em Nova York), em um bairro péssimo. Meu irmão se viciou em heroína aos 15 anos. Nosso pai nos abandonou quando nós éramos muito, muito pequenos. Praticamente, cresci nas ruas do Bronx. Me alistei no exército para acertar a minha vida. E realmente funcionou. Me tornei lutador de boxe, peso pesado, fiz artes marciais, o que foi outra influência importante, que ajudou a manter o equilíbrio na minha vida.
Aos 19 anos, no exército, eu me meti em uma briga com outro militar por causa de um chapéu de 3 dólares. Ele explodiu, sacou a arma, encostou na minha barriga e puxou o gatilho. A arma falhou. Talvez tenha sido a melhor coisa que já me aconteceu porque aprendi a sabedoria de um antigo ditado árabe que diz que qualquer momento é o momento certo para morrer.
Levei isso comigo para sempre. Agora, não perco mais tempo. Vivo cada momento até o limite, curto e saboreio. Logo depois disso decidi usufruir de tudo que a vida poderia me oferecer antes que eu morresse o que poderia acontecer a qualquer momento. E não havia melhor maneira para um menino pobre do Bronx viver toda essa adrenalina e excitação do que como um agente secreto infiltrado. Foi o que me propus a fazer e fiz. De resto…
Heloisa Villela
No Viomundo
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O teatro de Alckmin não vai ocultar a tragédia do Caso Siemens

É, no mínimo, teatral a atitude do Governador Geraldo Alckmin de reclamar por ter de ir à Justiça pedir cópia da investigação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade,  sobre o processo de formação de cartel entre a Siemens, a Alstom e outras empresas, nos contratos com o governo paulista.
Aliás, com o governo dele mesmo, especificamente.
Em primeiro lugar, porque o Ministério Público paulista está na investigação, tanto que o Estadão diz hoje que é ele quem está negociando a delação premiada com executivos e ex-executivos da multinacional alemã.
E com quem o governador ia fazer a investigação, não seria com o Ministério Público?
Bastaria o Governador pegar o telefone e, com ligação local mesmo, falar com o chefe da Procuradoria Geral da Justiça de São Paulo, nomeado por ele,  e pedir que, quando oferecida a denúncia, eles se lembrassem – claro que não iam esquecer, né? – de pedir o ressarcimento dos cofres públicos do valor surrupiado pelo cartel e por quem dele tenha se aproveitado.
Não precisa ficar como o homem desesperado com o telefone do anúncio da Siemens no Estadão, nos anos 20, aí na ilustração.
serracalaDepois, porque Alckmin não agiu assim quando o caso da Alstom estourou, com processo na Suíça e quebras de sigilo bancário de figurões do tucanato.
Serra disse que não era preciso investigações extras porque o Ministério Público Federal e o Estadual já estavam apurando. Alckmin, candidato a prefeito - ainda não traído por Serra, então – ficou mudo, mesmo tendo defendido antes a apuração.
Ficou na bicuda, mesmo tendo dito antes que qualquer coisa que houvesse ocorrido no Governo Covas seria responsabilidade dele também: “Isso é uma continuidade, é governo do PSDB. Se é do PSDB, não tem distinção”.
Então, tá. É como aquela história de filme policial americano: você não é obrigado a falar, mas tudo o que disser será usado como prova.
Fernando Brito
No Tijolaço
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Politicamente incorretos e bem sucedidos

Como "Os Simpsons" e "Uma Família da Pesada" se mantêm no ar por tanto tempo fazendo piadas de temas delicados como religião e holocausto?
Os Simpsons
Cena de Os Simpsons
No banheiro da casa, um cachorro falante sai do chuveiro e um bebê com um ar malandro entra no cômodo segurando um copo de suco. Ele cobra um empréstimo que o animal diz não ter como pagar. É a deixa para o bebê espancar o bichano com o copo e depois com uma barra de ferro, antes de jogá-lo escada a baixo e colocá-lo em chamas. Tudo sem perder o ar de inocência.
A cena acima é uma das mais famosas do desenho Uma Família da Pesada. Os personagens são o emblemático Stewie, um bebê americano com sotaque britânico e personalidade sociopata. O cachorro é Brian, um humanoide escritor. Há 11 temporadas no ar nos Estados Unidos, o desenho não tem a mesma audiência de anos anteriores, mas é um sucesso da Fox.
As cenas de Stewie roubando carros, espancando crianças e atirando em sua mãe são virais na internet. E atraem há anos acusações de racismo, sexismo e intolerância, entre outras, de inúmeras entidades norte-americanas. Ainda assim, o programa de Seth MacFarlane, criador de American Dad e diretor do filme Ted, garantiu mais uma temporada. Há alguns anos, o comediante também conseguiu um contrato de 100 milhões de dólares com a Fox.
A fórmula provocativa, e para muitos ofensiva, de Uma Família da Pesada ainda parece funcionar. Assim como o formato precursor de Matt Groening com Os Simpsons, no ar desde 1989. Com piadas mais suaves e politizadas, embora não menos polêmicas, a paródia da família disfuncional norte-americana segue na grade da Fox há 24 anos.
Mas como estes programas resistem tanto tempo lidando de forma irônica com assuntos como o holocausto e religião? “Os Simpsons e Uma Família da Pesada, e os outros desenhos, são vistos como ‘ofensores da oportunidade equivalente’. Uma semana ofendem gays, na próxima os judeus, etc. Se um programa fizesse sempre piadas com um mesmo grupo, seria outra coisa. Mas como ninguém escapa, ninguém pode se queixar”, acredita Richard Peña, diretor emérito do Festival de Cinema de Nova York e professor na Universidade de Columbia.
O estranhamento pela longevidade de ambos os programas também é causado pela emissora que os exibe nos EUA. A Fox pertencente ao mesmo grupo que abriga o canal de notícias Fox News, o predileto de republicanos e conservadores. Apesar de estarem no mesmo espólio, os canais atuam de forma independente, o que permite uma estranha harmonia entre a programação jornalística conservadora e programas politicamente incorretos. “A Fox News é bem diferente da Fox Broadcasting Corporation [canal de entretenimento]. Por isso, o ângulo conservador da Fox News não afeta as demais programações”, explica Gerard Bocaccio, ex-vice-presidente do FX, canal que pertence ao mesmo grupo.
Em Family Guy, são frequentes as piadas com deficientes, caracterizações hostis de judeus e personificações de um Jesus dançante e profano. Um comportamento que provocou reações da Liga Católica dos EUA. A entidade protestou contra um episódio em que um padre é retratado como pedófilo. Na cena, Stewie tenta salvar um personagem das mãos de agentes nazistas vestindo-o como um padre. Ao ser questionado se o homem era mesmo um clérigo, o bebê responde: “Claro, garanto que é. Ele me molestou muitas vezes.”
Os Simpsons também não economiza nas sátiras religiosas. Em um episódio, a família recebe o vizinho Flanders, um cristão fervoroso, para um jantar. Ao agradecer pela refeição, Bart diz: “Deus, nós mesmos pagamos por este jantar. Então, obrigado por nada.” “Um programa de televisão, assim como os filmes, pode ser uma zona de liberação, de fantasia. Espero nunca matar alguém, mas é bacana planejar um assassinato com as protagonistas de um film noir. E depois, voltar a casa. Esse é um dos prazeres da arte”, diz Peña.

Aparentemente, esse tipo de humor “incorreto” agrada o público. Ambos os programas estão entre os mais longevos da televisão norte-americana. Para Bocaccio, isso se deve principalmente às receitas geradas por esses desenhos. “Bom gosto é subjetivo, mas se as pessoas rejeitassem esses programas, não os assistiriam. Em Hollywood, ninguém colocaria no ar um programa que não tivesse anunciantes e que não gerasse renda.”
Quando o tema é lucro, Family Guy e Os Simpsons têm números expressivos. A série de McFarlane vale mais de 1 bilhão de dólares, entre DVDs e vendas de produtos. Apenas o filme dos Simpsons arrecadou mais de 520 milhões de dólares e a marca vale mais de 8 bilhões.
Os dois programas já não lideram em seus horários, mas registram índices elevados de audiência entre adultos de 18 a 49 anos, público alvo dos anúncios mais importantes. Eles também ficam no ar pelo lado econômico. Muitas vezes, renovar um programa com audiência baixa pode ser mais econômico que lançar algo novo. “Se um programa ainda mantém espectadores, a economia faz sentido. Além disso, quanto mais tempo no ar, mais bem sucedida marca fica para ser licenciada futuramente.” Ainda mais em um tempo em que a competição com a internet é acirrada.
Gabriel Bonis
No CartaCapital
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O conto do fechamento das embaixadas

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Depois de semanas sob pesada pressão por causa da espionagem ilimitada contra todos e qualquer um, em qualquer ponto dos EUA e do mundo, os serviços de inteligência dos EUA convenientemente detectaram uma “ameaça” de futuros ataques indefinidos.[1] A ‘detecção’, como evidentemente a notícia também diz, só foi possível por causa da espionagem ilimitada contra todos, em todo o planeta:
“Os EUA interceptaram comunicações eletrônicas essa semana entre altos agentes operativos da Al-Qaeda, nas quais os terroristas discutiam ataques contra interesses dos EUA no Oriente Médio e Norte da África – informaram funcionários dos EUA, na sexta-feira.
As mensagens interceptadas e uma análise subsequente feita por agências da inteligência dos EUA levaram o país a lançar um raro aviso de alerta global para viagens de cidadãos norte-americanos na sexta-feira, em que se fala de possíveis ataques terroristas por operativos da Al-Qaeda e seus associados, a começarem no domingo e que se estenderão até o final de agosto.
Há apenas um mês, a conversa era que os “terroristas” estavam mudando seus sistemas de comunicação por causa dos vazamentos de material da Agência de Segurança Nacional dos EUA:
“Sabe-se que a Al-Qaeda e outros terroristas estão modificando seus métodos de comunicação à luz das revelações feitas pelo vazador Edward Snowden sobre o ‘programa de vigilância dos EUA na Agência de Segurança Nacional’.”
Funcionários dos EUA disseram que praticamente todas as organizações terroristas, entre as quais a Al-Qaeda, estavam mudando o modo de comunicar-se para impedir que os serviços de vigilância dos EUA as localizassem, depois que as revelações sobre os vazamentos surgiram na mídia.
Ben Venzke, da empresa privada de análise de informação IntelCenter, disse que os vazamentos distribuídos por Snowden serviram como alerta para extremistas e outros grupos hostis, que podem agora analisar seu modo de operar e melhorar a própria segurança.
Não parece meio esquisito, que apenas um mês depois de os terroristas terem recebido o tal “alerta” e “melhorado sua comunicação”... a mesma inteligência dos EUA consiga tão facilmente interceptar novas mensagens dos mesmos terroristas... que teriam “melhorado a própria segurança”?
E que diabo de “terroristas” seriam esses, cuja “ameaça” tem prazo marcado para acabar (exatamente dia 31 de agosto)?
Até alguns dos “analistas e funcionários do Congresso” citados num curto parágrafo no próprio New York Times acharam a coisa toda meio suspeita:
“Analistas e funcionários do Congresso sugeriram, na sexta-feira, que falar de ameaça terrorista justamente agora seria bom modo de distrair a atenção dos cidadãos e fazê-los esquecer da indignação contra os programas de espionagem e coleta de dados da Agência de Segurança Nacional...”
Mas... Será mesmo?! Não me diga! Seráááá?!
Mas o parágrafo prossegue:
“... e se, além do mais, as interceptações conseguirem descobrir algum complô verdadeiro, melhor ainda.”[2]
Quer dizer: seria melhor ainda se agora, que o alerta já foi dado, alguma coisa acontecer mesmo, em alguma embaixada dos EUA no Oriente Médio. Assim se justifica(ria) o alerta e também, claro, a espionagem ilimitada contra todos, praticada pela Agência de Segurança Nacional... que terá tornado possível, afinal, um alerta... verdadeiro.
Hmmmm... E quanto custaria, digamos, no Iêmen, comprar uma dupla de motoqueiros mascarados para darem uns tiros contra guardas, lá, de alguma embaixada?
[1] Não surpreendentemente, a história da “ameaça terrorista” já está, nesse momento, em português, na primeira página do UOL, em http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2013/08/04/eua-manterao-embaixadas-fechadas-ate-10-de-agosto.htm [NTs]
Traduzido pelo pessoal do Vila Vudu
No Blog do Bourdoukan
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Contraponto com Fernando Haddad

Bancários e blogueiros estreiam programa na web entrevistando Haddad

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Rei da Espanha indultou um pedófilo preso por violar um garoto de 11 anos

O rei Juan Carlos I, da Espanha, ícone do conservadorismo e sucessor do autocrata Francisco Franco, conseguiu a liberação de 48 espanhóis presos no Marroco, dentre os quais o cidadão espanhol Daniel Fino Galván, preso por estuprar 11 garotos no país africano. O rei espanhol fez o pedido ao rei marroquino Mohamed VI, após sua visita ao Marrocos no mês de julho.
O pedófilo espanhol cumpria uma pena de 30 anos de prisão, tendo já cumprido 18 meses da pena por estuprar garotos entre e cinco anos de idade, gravando tais agressões, após receber a sentença de um tribunal penal em Kenitra, próximo de Rabat.
Após a sua soltura, o cidadão da Espanha foi expulso do território marroquino, deixando para trás dois apartamentos de sua propriedade, no país africano, regressando ao território espanhol com indulto concedido pelo rei.
A decisão dos monarcas marroquino e espanhol geraram a fúria dos usuários do Twitter, para os quais "tal decisão era uma segunda violação" às vítimas. Ativistas do Movimento 20 de fevereiro, que tomou parte em vários eventos da Primavera Árabe, pediram um grande protesto na capital marroquina.
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Se eu fosse Deus

Eu gostaria de ser Deus não para consertar o mundo ou melhorar a humanidade, mas, confesso, para um fim menos nobre: conseguir mulher.
Posso imaginar como seria ter ao meu dispor todos os recursos de Deus para impressionar uma mulher. A começar pelo seu espanto ao saber da minha identidade. (Ela: “Você quer dizer Deus, Deus mesmo?! O Cara?!” Eu: “É”. Ela: “O Todo-Poderoso?!” Eu, para mostrar, além de tudo, simplicidade: “Sim, mas pode me chamar de Todo”).
Eu não a convidaria para jantar, apenas. Mandaria um anjo fulgurante convidá-la para jantar comigo, no meu apartamento celestial ou no restaurante da sua predileção. Onde já começaria a mostrar os meus poderes, pedindo mineral sem gás e transformando-a não apenas em vinho, mas num Chateau Petrus 82.
Conversaríamos sobre banalidades:
Ela: “Deve dar trabalho, ser Deus.”
Eu, modestamente: “No começo, foi difícil. Tive que fazer tudo sozinho, do nada. Desde então, só dou retoques”.
Depois do jantar Eu a convidaria para ir ver o eclipse da Lua do meu terraço à beira-mar.
— Mas hoje não tem eclipse da Lua!
— Quer apostar?
Quando ficássemos mais íntimos, e ela mais crítica, Eu faria tudo que ela pedisse.
— Terremoto...Precisa ter?
— Está bem. Não vai mais ter terremoto.
— Dá para acabar com a má fase do São Paulo?
— Vamos ver o que se pode fazer.
Eu não lhe mandaria bilhetes amorosos, mandaria tábuas gravadas amorosas, entregues por profetas barbudos, junto com flores — todos os dias.
Presentes de pedras preciosas? Por que ser sovina e não lhe dar, logo, uma mina de diamantes?
E se, com tudo isso, Eu não a conquistasse, me restaria um último recurso: refazer-me completamente, do barro. Seguindo as suas instruções.
— Sem barba. Outro nariz. Mais alto...
Luís Fernando Veríssimo
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Aliança do Pacífico é tentativa de dividir América do Sul, afirma Evo

Ao encerrar evento que reuniu forças progressistas da América Latina, presidente boliviano lamentou que novo bloco, iniciativa dos EUA, proponha a privatização de serviços básicos, como água e luz
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Evo Morales, em São Paulo, após encerrar Foro de São Paulo: integração regional para garantir democracia e governos progressistas
São Paulo – No Brasil para participar do Foro de São Paulo, o presidente da Bolívia, Evo Morales, criticou neste domingo (04/08) a criação da Aliança do Pacífico e classificou o novo bloco como uma “tentativa dos Estados Unidos de usarem um ou dois presidentes para dividir a América do Sul”.
“A Aliança do Pacífico quer estabelecer o livre comércio e privatizar serviços essenciais. Esses governos estão condenados a enfrentar os povos em seus países”, afirmou Morales em referência a Peru, Chile, México e Colômbia. Posteriormente, em coletiva de imprensa, o presidente boliviano também argumentou que “os serviços básicos, como luz e água, não deveriam ser tratados como um negócio”.
Evo Morales também deu detalhes de seu encontro de sábado (03/08) com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na ocasião, o boliviano sugeriu a criação de um “conselho permanente para defender e cuidar dos presidentes anti-imperialistas da América Latina”.
“Temos que nos organizar para defender os processos de libertação. Não podemos nos mobilizar apenas quando há problemas. Propus a Lula a criação de comissões técnicas e jurídicas para prevenir problemas que se apresentam a governos esquerdistas e garantir o processo de mudanças na América Latina”, argumentou. Morales veio à capital paulista pois a Bolívia é a próxima anfitriã do Foro de São Paulo, em 2014.
Assim como Lula havia feito na sexta-feira, o boliviano opinou sobre como os partidos de esquerda devem fazer política. “Revolução não se faz com dinheiro, mas com a consciência do nosso povo. Política é a ciência de servir aos outros povos. Se nossos presidentes abusam do poder e da autoridade, se desmoralizam. Se os partidos só pensam nas próximas eleições, estão equivocados. Eles têm que pensar nas próximas gerações. Essa tem que ser nossa diferença em relação aos neoliberais.”
Declaração final
Como parte do último dia do XIX Encontro do Foro de São Paulo, três partidos foram oficialmente integrados à organização de esquerda. São eles: Frente Guasú, do Paraguai, Partido do Povo do Peru e Marcha Patriótica da Colômbia.
Durante os sete dias de encontro na capital paulista, participaram do evento 1.333 pessoas, sendo 359 estrangeiros de 39 países. Na declaração final do encontro foram incluídos dezenas de temas, como o apoio ao diálogo de paz entre o governo colombiano e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia), uma denúncia contra a “sanguinária agressão das potências ocidentais e de seus aliados regionais à Síria” e a crítica à criação da Aliança do Pacífico, vista como uma “tentativa de sabotar a integração regional”.
Além disso, o Foro de São Paulo repudiou o “sequestro do avião” de Morales e a tentativa da “direita venezuelana e internacional de questionar e desestabilizar o mandato do presidente Nicolás Maduro”.
No RBA
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O camarote do papa

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Disse outro dia a meus alunos – custa-me habituar-me a essa condição inverossímil – da faculdade de comunicação que não há ciência nenhuma na prática do jornalismo.
Torceram-se umas caras, uns quantos pares de olhos esbugalharam, e então perguntei se havia dito alguma besteira, se eles acreditavam no contrário. “Acredito, disse uma moça. Se não, não estaria aqui”.
Retruquei-lhe que não me levasse a mal, que estávamos todos nós ali na sala – como aliás estamos todos nessa vida - para perder ilusões. (Digo perder ilusões, não a capacidade de iludirmo-nos com ilusões novas, com sorte mais amadurecidas que aquelas perdidas.)
Pois avalie você, moça, o que foi a cobertura jornalística da visita do papa ao Brasil, e veja se não tenho um pinguinho de razão. Passamos uma semana inteira sendo massacrados por um noticiário que para mim foi o maior depoimento de que não há imprensa laica no país, nem critérios ditos jornalísticos que sobrevivam, na hora do vamos ver, ao olhar ideológico – pior, ao olhar hegemônico – das principais empresas brasileiras de comunicação. Qual ciência, então?
Pois digo e repito: não há, não há, não há ciência no fazer jornalístico em nosso país – nem sei se no mundo haverá. Fato que, se for verdadeiro, não deve nos espantar demais, afinal o jornalismo nasceu do prelo e tem como justificativa última (única) a propriedade dos meios de difundir informação, nada mais. Mas deve, sim, nos espantar um pouco, afinal, lá se vão décadas desde que abriram-se as faculdades de jornalismo – o que, se entendo bem, serve para atribuir critérios científicos à razão de ser da nobre atividade – , e a prática do dito cujo segue, tirando uma melhorinha aqui, uma piorinha ali, na mesma.
Se minto, é de boa fé, vocês me desculpem e por favor me corrijam. Mas sou levado a crer que, se por um lado o jornalismo de hoje em dia tornou-se mais permeável ao acesso de gente normal, sem sangue azul, às funções de imprensa – o que, isoladamente, é coisa interessante – , por outro, não faculta nem requer mais do jornalista função maior de pensador, à guisa de substituição dos antigos “intelectuais” das elites – o que, somado à tal permeabilidade, talvez resultasse em ganho, em ampliação do espaço para um jornalismo mais crítico, menos elitista, mais arguto, inteligente, democrático e, quando nada, confiável.
Mas o que ocorre é que, na falta de gestão e prática minimamente norteadas por critérios e debates científicos – e não por tecniquinhas do cu da gia – dá nisso aí: fora uma ou outra brecha, o fato é que quando chega a hora de falar de coisa séria, seguimos pedindo a benção a papas e afins, na maior faceirice (ver de 1min21s em diante).
E vamos nos acostumando, acoitados, a dourar a pílula de nossos pequenos méritos, a trocar os fins pelos meios, a reconhecer entre nós mesmos nosso valor profissional pelo “com quem conseguimos falar”, bem mais que “pelo que falamos, seja lá com quem consigamos (escolhamos) falar”.
Dou um exemplo: essa entrevista global, reputada como grandíssimo furo de reportagem, com o papa Francisco. Qual o grande êxito, senão o de “ter boas fontes”, senão o de “ter conseguido vencer a resistência do Vaticano” a que o papa desse a entrevista? Que ela tenha sido “a primeira”? Que tenha “durado 45 minutos”? Mas que moedas de avaliação de sucesso ou fracasso jornalístico são essas?
A quem a esta altura já esteja me acusando de estar polemizando isso apenas porque 1) não fui eu quem conseguiu entrevistar o papa, aliás a grande personalidade que terei conseguido ‘perfilar’ (oh, verbo mais infame!) na vida terá sido… Pablo do arrocha; ou 2) porque sou um baiano despeitado pelo fato de o autor da façanha ter sido um jornalista pernambucano; a quem pensa assim convido a dar uma revisada na entrevista – e na bolha de auto-vangloriação global que ela gerou.
Vocês notarão que 1) o papa não disse nada demais, nada além do que quis, sobre o que quis e como quis. Se tivesse mandado um video gravado na humilde choupana onde vive, o conteúdo bem que poderia ter sido o mesmo; 2) o repórter diz que não houve pauta combinada, mas também não perguntou nada realmente espinhoso (Ditadura na Argentina? Pedofilia? Aborto?), que dirá algo que permitisse ao espectador entender melhor o que há (se há) de concreto por detrás do humanismo-populista de Francisco; 3) no dia seguinte, o repórter foi o convidado de um programa da própria emissora para ser “sabatinado” pelos colegas jornalistas. No programa, ele ouviu dos pares orgulhosos que a entrevista fora o que “qualquer jornalista” (?!) gostaria de ter feito, e ficou-se ainda sabendo que ele presenteara o papa com um livro seu, com uma “dedicatória muito carinhosa”; 4) apesar da “entrevista exclusiva”, a única fala mais ou menos impactante do papa nesse balaio todo – o aceno, lido com lupa, nas entrelinhas e com muito boa vontade, de tolerância à homossexualidade – foi dada no dia seguinte, numa coletiva, no avião. Note-se que, apesar de ter sido em resposta a uma pergunta de uma jornalista brasileira, não havia sido bem aquilo o que ela perguntara… ; 5) o repórter, com aquela típica cara-de-ver-Deus, alumiada por um facho de luz dourada, admirou-se do fato de o papa ter tido a preocupação de perguntar a ele (a ele, pobre jornalista neste vale de lágrimas!) se tinha sido claro ao final de cada resposta.
Ora, tenha santa paciência. Entrevista por entrevista, tanto faz com papa, rei, milionário, artista ou mendigo: importa é que cumpra a função ou de problematizar uma/algumas questões, ou de apresentar criticamente alguém ao leitor ou espectador. Se o papa deseja parecer fofinho, aparece na tv mostrando-se um fofinho, dá uma entrevista exclusiva afirmando que é um fofinho, e quando chega domingo à noite você recebe um telefonema de sua mãe dizendo “você viu o papa, que fofinho?” (achou graça? pois eu recebi) – se isso aconteceu, é porque o rei está nu e ninguém percebeu; e, nesse caso, há algo de podre no reino do jornalismo, amigos.
Enfim, vou ficando por aqui, que não quero estragar o santo domingo de ninguém com meu fel blasfemo. Em resumo, assim cada vez mais segue sendo o jornalismo. E, com tristeza, cada vez menos jornalista sigo sendo eu.
Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

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Os 7 milagres de Francisco

1) Andou de carro no Rio de Janeiro de janela aberta e não foi assaltado.

2) Fez o povo brasileiro aplaudir um argentino.

3) Andou no meio da polícia do Rio e não apanhou.

4) Encontrou Renan Calheiros e não foi acusado de nada.

5) Encontrou o governador e não gritou: “Cadê Amarildo?”"

6) Ficou engarrafado no Rio e não apareceu nenhum vendedor de Biscoito Globo.

7) Usou saia em Copacabana e não levou cantada.
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Tucano suspeito de propina constrói império

 6 de Fevereiro, 2011 

Fazenda de Fagali (dir.) tem 360 
hectares e está avaliada em R$ 10 milhões
Guilherme Baffi
Investigado pelo Ministério Público por suspeita de ter recebido propina da empresa francesa Alstom em troca de contratos públicos do governo paulista, o engenheiro Jorge Fagali Neto, de José Bonifácio, construiu e mantém um império que inclui uma fazenda avaliada em R$ 10 milhões, um apartamento em bairro nobre de São Paulo, uma empresa de consultoria agrícola e uma conta bancária na Suíça com saldo de US$ 7,5 milhões (R$ 12,5 milhões, no câmbio de sexta-feira).
Por conta das investigações, a Justiça brasileira e suíça bloquearam a conta de Fagali no país europeu, e em dezembro a 13ª Vara da Fazenda Pública quebrou os sigilos bancário e fiscal dele e de mais 10 pessoas, incluindo o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) Robson Marinho, chefe da Casa Civil no governo Mario Covas entre 1995 e 1997.
O patrimônio de Jorge contrasta com as origens humildes da família Fagali. Ele é o mais velho dos 12 filhos de Assaf Jorge Fagali, libanês que chegou a José Bonifácio nos anos 30, onde virou comerciante de tecidos. “Era uma família de classe média, sem ostentação”, diz uma pessoa próxima, que não quis se identificar. A casa onde a família morava, uma residência simples, permanece intacta no Centro do município.
Depois de passar a infância e a adolescência com a família em Bonifácio, Jorge foi cursar engenharia elétrica na Politécnica da USP, na Capital. Os estudos eram custeados pelo pai. Depois de formado, nos anos 70, ingressou na Companhia Energética de São Paulo (Cesp) por indicação política, sem passar por concurso. Foi quando começou sua ascensão profissional. Trabalhou na construção da hidrelétrica de Ubarana, no rio Tietê e, uma década depois já era diretor da estatal, época em que costumava chegar de avião a José Bonifácio. “O Aloysio (Nunes, hoje senador) e ele vinham muito aqui na cidade”, diz Emílio Capobianco, memorialista do município.
O auge da carreira política chegou em 1994, quando foi nomeado secretário de Transportes Metropolitanos na gestão Fleury. Entre 2000 e 2003, foi diretor de projetos especiais do Ministério da Educação, indicado pelo então ministro Paulo Renato, do PSDB. De 2007 a 2010, seu irmão, José Jorge Fagali, foi presidente do Metrô.
O crescimento da fazenda de Jorge, denominada “Estância Bela Aurora”, acompanha sua carreira política. De acordo com registros no Cartório de Imóveis da cidade, em 1988 ele adquiriu a primeira gleba, de 93,89 hectares, na beira da vicinal que liga a rodovia Assis Chateaubriand (SP-425) à cidade de Planalto. Entre 1993 e 1997 vieram as demais partes, e hoje a fazenda soma 360,26 hectares (3,6 milhões de metros quadrados), o equivalente a dois parques do Ibirapuera, na Capital.
Na última década, Jorge construiu um pequeno palacete na propriedade, avaliado em cerca de R$ 200 mil. A fazenda tem cultivo de laranja, cana, milho e seringueira, e exibe forte esquema de segurança - dois vigias por turno guardam a área, e na porteira da entrada é possível visualizar uma câmera de vídeo que monitora a aproximação de veículos e pessoas.
Dentro da fazenda também funciona uma consultoria agrícola, a B.J.G.. Aberta em 1998, tem capital social de R$ 24 mil, dos quais R$ 21,6 mil são de Jorge e o restante dos filhos Gisele e Bruno. Em maio de 2010, o deputado estadual Antonio Mentor, líder da bancada do PT na Assembleia, encaminhou representação ao Ministério Público pedindo para que o patrimônio construído pelos Fagali, incluindo a fazenda e a empresa em José Bonifácio, fossem investigadas dentro do inquérito da Alston.
O promotor Silvio Marques, um dos responsáveis pela investigação do caso, diz, porém, que as investigações tramitam em segredo de Justiça e não quis comentar o caso. Quando o caso Alstom estourou na imprensa, em agosto de 2009, Jorge rareou seus passeios a José Bonifácio, antes constantes. “Se vem para cá, na maioria das vezes ninguém fica sabendo”, afirma uma pessoa próxima.
Contas foram bloqueadas
Jorge Fagali Neto não foi o único a ter dinheiro suspeito bloqueado no exterior. Conta atribuída a Robson Marinho, atual conselheiro do TCE e chefe da Casa Civil do governador Mario Covas entre 1995 e 1997, também foi detectada nas investigações do Ministério Público suíço e bloqueada a pedido da Justiça brasileira. Marinho movimentou pelo menos US$ 3 milhões na conta do banco Crédit Lyonnais, de acordo com a Promotoria do país. Quando foi bloqueada, seu saldo era de US$ 1 millhão.
As duas contas já haviam sido bloqueadas pelo Ministério Público da Suíça - a decisão liminar da 13ª Vara da Fazenda Pública buscou evitar que a Justiça suíça suspendesse o bloqueio, sob alegação de que o Brasil não teria interesse no caso por não ter tomado nenhuma decisão judicial sobre os valores nas contas, e também para preparar um eventual pedido de repatriamento de recursos.
Na decisão que quebrou os sigilos de Marinho, Jorge Fagali Neto e outros nove envolvidos, a juíza Maria Gabriella Pavlópoulos Spaolonzi anota que “as investigações apontam, com plausibilidade, para a prática de corrupção, lavagem de dinheiro, atos de improbidade administrativa em detrimento profundo de relevantes princípios constitucionais”. Escreve ainda que “muitos dos apontados como envolvidos, ao longo das investigações, não indicaram a origem do patrimônio que se lhes agregou.”
Marinho evita comentar a conta na Suíça, com a alegação de que o processo tramita sigilosamente. Mas nega enriquecimento ilícito. Jorge Fagali Neto não foi localizado na última semana para comentar as investigações contra si no caso Alstom. Na última sexta-feira, ninguém atendeu as três ligações feitas para o seu apartamento na Capital, entre o início da tarde e o início da noite. No mesmo dia, a reportagem deixou recado com seu advogado em uma ação contra o banco Safra, José Glauco Scaramal, que se comprometeu a contatar Jorge e pedir a ele para entrar em contato com o Diário, o que não ocorreu até a tarde de ontem.
Dois dias antes, na quarta-feira, o cunhado de Jorge, Félix Arabe, que mora em José Bonifácio, disse não ter o telefone dele. “Ele quase não tem mais vindo à cidade”, disse. Procurado, o senador Aloysio Nunes informou por meio de sua assessoria que não comentaria o assunto o relacionamento com Fagali.
No Diarioweb
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Onde está Amarildo?

O trabalhador, pai de seis filhos, está desaparecido há três semanas e os principais suspeitos são policiais. Amarildo de Souza, de 47 anos, desapareceu no último dia 14. Ele foi abordado por PMs, quando voltava de uma pescaria. Câmeras de segurança espalhadas pela Rocinha mostram Amarildo sendo levado para a sede da unidade de polícia pacificadora que atende a região. Depois disso, ele desapareceu.
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A classe

 
O título desta coluna é uma reverência a Luiz Fernando Veríssimo que, em meados dos anos 80, escreveu uma crônica também assim intitulada. Naquele texto, o consagrado escritor, com deliciosa ironia, falava sobre o crescente empobrecimento da classe média. Eram tempos difíceis, de que muitos parecem esquecer-se.
Mas a classe média não ficou pobre e hoje, em novo cenário, o que se vê, pelo contrário, é a ascensão social de segmentos até então excluídos. Chega-se a mencionar uma “nova classe média”, mas essa, creio, é uma expressão forçada. O que há são algumas dezenas de milhões de miseráveis ou pobres que, em função de políticas públicas, estão alcançando um nível, ainda insuficiente, de dignidade e cidadania.
A verdadeira classe média, a da crônica do Veríssimo – a tal que, naquela época, escapou da pobreza – essa não vê agora com bons olhos a “perigosa” aproximação da classe “C” e põe o seu bloco na rua, com a hipocrisia de sempre, parecendo defender aquilo que, na realidade, não quer que aconteça. As paralisações dos médicos são emblemáticas nesse sentido e não é por acaso que ocorrem no exato momento em que estão ameaçados os seus interesses corporativos.
Em entrevista concedida à revista “Isto É”, de 24.07.2013, o escritor Ferreira Gullar declarou, possivelmente encantado com as últimas manifestações, que “quem faz revoluções é a classe média”. Em abono da sua tese, citou, entre outros, Marx, Fidel e Lenin, que, sendo da classe média, teriam conduzido, na teoria e/ou na prática, processos revolucionários.
Ferreira Gullar é um dos meus poetas prediletos, particularmente na sua fase de artista engajado, com produção de forte cunho social, nos chamados “anos de chumbo”. Hoje, porém, não me sensibilizam nem um pouco as suas posturas que namoram o neoliberalismo. Em relação ao que afirmou, penso que se esqueceu de mencionar que as históricas personalidades citadas foram revolucionárias justamente por não aceitar os valores de sua classe. Foram, por assim dizer, ovelhas desgarradas do rebanho da burguesia...
Na caracterização da classe média – que conheço bem porque a ela pertenço - acho que, pelo menos em nosso país, longe de promover revoluções, ela é bem mais chegada a golpes... Seus valores contraditórios a fazem, não raro, acender velas a Deus e ao Diabo.
Os seus arautos se dizem preocupados com a Educação, apregoam a necessidade de um ensino de qualidade por parte do Estado, mas, bem lá no fundo, sabem que a perpetuação de um ensino público deficiente garante para seus filhos – nos colégios particulares – a permanência de distinções que a desigualdade propicia. Uma espécie de reserva de domínio dos privilégios. Lembro-me bem de como foram dinamitados os CIEPS, um projeto de Darcy Ribeiro diretamente voltado para atacar e resolver o problema na raiz. Ainda me recordo do furor conservador que vociferava contra os gastos de Brizola com cada escola integral, considerado dinheiro que “daria para fazer várias escolas menores”. Tradução: para os pobres, a quantidade; para os ricos, a qualidade...
No campo da saúde, a classe adora fazer piadinhas com o SUS, um dos maiores sistemas públicos de saúde do planeta. Divertem-se destacando os seus defeitos – que existem, é claro - e deliberadamente omitem as múltiplas atividades positivas desses segmentos no atendimento aos milhões de brasileiros que só têm o SUS como solução. Masoquistas, talvez, parecem gostar de planos de saúde que achacam seus bolsos, ou de médicos que fazem da profissão um negócio. Pouco se lhes dá se existem 700 municípios no país sem um profissional da área.
Ao invés de festejar as vitórias registradas no IDH, que deu saltos nos últimos anos e que tem, esse sim, tudo a ver com a felicidade dos brasileiros, a nossa classe média prefere seguir o posicionamento dos suspeitíssimos gurus e “especialistas” que elegem como divindades o PIB, o Mercado, a Bolsa, o dólar... E, fiéis a uma mídia calhorda, estão sempre dispostos a encaixar um “mas” ou um “porém”, cada vez que se deparam com uma vitória da cidadania na luta contra a desigualdade.
Quando faltam todos os seus argumentos – invariavelmente colhidos no Jornal Nacional ou naquela conhecida revista semanal -, adoram indignar-se com a corrupção. Não com toda e qualquer corrupção, como conviria aos espíritos realmente preocupados com a ética, mas com uma de endereço certo, carimbada exclusivamente naqueles que lhe querem retirar certa exclusividade na zona de conforto. Não lhes preocupam, de forma alguma, os malfeitos dos seus ídolos na mídia ou na política – convenientemente omitidos - ou mesmo os seus próprios deslizes do cotidiano, materializados em propinas a guardas de trânsito, sonegações no imposto de renda, logros na alfândega e coisas do gênero...
A filósofa Marilena Chuaí talvez exagere ao caracterizar a classe média como fascista, violenta e ignorante. Prefiro achar que esse grupo social é desinformado, egoísta e hipócrita, com falso discurso voltado para o social. E, sem muita filosofia, convido os leitores a ouvir os críticos versos do cantor popular Max Gonzaga, na música “Sou classe média”, cujas frases finais apregoam: “Toda tragédia só me importa quando bate em minha porta / Porque é mais fácil condenar quem já cumpre pena de vida...”
Rodolpho Motta Lima
* * *
A Classe
A eliminação gradual da classe média brasileira, um processo que começou há anos mas que de uns tempos para cá assumiu proporções catastróficas, a ponto de a classe média brasileira ser hoje classificada pelas Nações Unidas como uma espécie em extinção, junto com o mico-rosa e a foca-focinho-verde, está preocupando autoridades e conservacionistas nacionais. 
Estudam-se medidas para acabar com o massacre indiscriminado que vão desde o estabelecimento de cotas anuais - só uma determinada parcela da classe média poderia ser abatida durante uma temporada - até a criação de santuários onde, livre de impostos extorsivos e protegida de contracheques criminosos e custos predatórios, a classe média brasileira se reproduziria até recuperar sua antiga força numérica, e numerária. Uma espécie de reserva de mercado. 
A tentativa de recriar a classe média brasileira em laboratório, como se sabe, não deu certo. Os protótipos, assim que conseguiram algum dinheiro, fretaram um avião para Disneyworld.
A preservação natural da classe média brasileira evitaria coisas constrangedoras como a recente reunião da classe realizada em São Paulo, à qual, de vários pontos do Brasil, compareceram dezessete pessoas. As outras cinco não conseguiram crédito para a passagem. 
A reunião teve de ser transferida do Morumbi para a mesa de uma pizzaria, e ninguém pediu vinho. Uma proposta para que a classe fizesse greve nacional para chamar a atenção do país para a sua crescente insignificância foi rejeitada sob a alegação de que ninguém iria notar.
Fizeram uma coleta para financiar a eleição de representantes da classe média na Assembléia Constituinte, mas acabaram devolvendo os 10 cruzeiros. 
A única resolução aprovada foi a de que, para evitar a perseguição, todos se despojassem de sinais ostensivos de serem da classe média, como carro pequeno etc., e passassem a viver como pobres. Aí não seria rebaixamento social, seria disfarce. 
No fim os garçons se cotizaram e deram uma gorjeta para os integrantes da mesa.
Cenas lamentáveis têm ocorrido também com ex-membros da classe média que, passando para uma classe inferior, não sabem como se comportar e são alvo de desprezo de pobres tradicionais, que os chamam de "novos pobres".
- Viu aquela ali? Quis fazer caneca de lata de óleo e não sabe nem abrir um buraco com prego.
- E usa lata de óleo de milho.
- Metida a pouca coisa...
- Já viram ela num ônibus? Não sabe empurrar a borboleta com a anca enquanto briga com o cobrador.
- E não conta o troco!
- Berço é berço, minha filha.
Alguns pobres menos preconceituosos ainda tentam ajudar os novos pobres a evitar suas gafes.
- Olhe, não leve a mal...
- O quê?
- É o seu jeito de falar.
- Diga-me.
- Você às vezes usa o pronome oblíquo muito certo.
- Mas...
- Aqui na vila, pronome oblíquo certo pega mal.
- Sei.
- E outra coisa...
- O quê?
- Os seus discos.
- O toca-discos foi a única coisa que eu consegui salvar quando me despejaram.
- Eu sei. Mas Julio Iglesias?!
Luís Fernando Veríssimo - (Comédias da Vida Pública - 17/07/85)
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Juízes de Tribunal boicotam trem-bala

Juízes do TCU colaboram para atrasar. Eles são do PDS, do PFL …, fracassomaníacos

Amigo navegante envia texto e áudio de solene sessão de um Tribunal, onde juízes deveriam julgar como juízes.
Trata-se do Tribunal (sic) de Contas da União.
Um tradicional reduto (imparcial…) do PDS e do PFL.
Um tradicional centro de resistência ao desenvolvimento do país, desde que passou a ser governado por Lula e Dilma.
No caso, os dois juízes que anunciam que vão boicotar o projeto do trem-bala foram do PDS e do PFL, dois baluartes da Democracia.
O Ministro José Jorge, como se sabe, foi o notável Ministro do Apagão, no Governo do Farol de Alexandria.
E candidato a vice na chapa Geraldo Alckmin – hoje entalado no propinoduto tucano -, devidamente derrotada por Lula em 2006.
José Jorge é uma autoridade em fracassos.
A começar pelo capítulo Energia…
Veja como votam e “julgam” os dois “juízes” pefelistas:
Fala do Ministro José Jorge, do TCU, comentando acórdão que aprovou o 1º estágio do processo de desestatização das BRs 262/ES/MG e BR-050/GO/MG:
(…) tem alguns projetos que são bem mais polêmicos. Eu lembro aqui, por exemplo, do trem bala. Esse trem bala é uma coisa que, aqui no Brasil, ninguém está pedindo esse trem. Vocês viram aí, teve desfile no Brasil inteiro e não teve uma placa a favor do trem bala. Ninguém é a favor desse trem bala. Isso surgiu na cabeça não sei de quem. Se fosse bala acho que tinha até gente a favor, mas trem bala, isso não tem … Porque se verifica que você tem sistemas de transporte urbano em quase todas as cidades do Brasil: em São Paulo, por exemplo, um trabalhador demora, em média, duas horas para sair do trabalho dele ou para sair de casa e chegar no trabalho e mais duas para voltar. Os metrôs, tanto do Rio quanto de São Paulo, e de outras cidades nem se fala, são mínimos. E ninguém … Esse trem bala eu não a quem vai beneficiar, porque para você ir do Rio para São Paulo você pode ir de ônibus, é uma viagem tranquila, confortável, e também pode ir de avião. Quer dizer, seria só gerar um sistema alternativo a mais. Caríssimo. Bilhões que nem os empreiteiros estão querendo. Serviço que empreiteiro não quer você já vê que… serviço de bilhões que ele não quer, já vê. Então eu acho que aqui, nós do TCU, nós temos a obrigação de, num processo feito esse, ser muito mais detalhado e pedir tudo aquilo que for possível. Inclusive ajudando a atrasar isso. Porque pode chegar o momento que alguém desista. Então quanto mais a gente puder ajudar a atrasar, para que se pense melhor, porque não é uma prioridade, enquanto isso se pode, evidentemente, priorizar a construção, a ampliação de metrôs, de sistemas de transporte coletivo. É só isso que eu gostaria de chamar a atenção. Que nem em todo processo nós podemos colaborar como estamos colaborando com esse [refere-se ao da desestatização] para agilizar. Não foi o caso? Vossa Excelência até pediu para votar primeiro. Exatamente eu imagino que é para agilizar, para que eles saiam correndo daqui e já possam lançar o edital. Eu acho que tem outros que a gente tem que colaborar para atrasar. Eu acho que esse do trem bala é um. Quer dizer, não há um consenso na sociedade, de que ninguém pede esse trem bala, ele surgiu não sei de onde, talvez por imitação, porque tem na China, tem na França, tem nos Estados Unidos. Acontece que esses países já resolveram essa questão de transporte urbano. Então, antes de resolver o transporte urbano, principalmente de Rio e São Paulo, é muito difícil que seja viável construir esse trem bala. Então eu acho que é isso que eu gostaria de ressaltar e parabenizar Vossa Excelência pela boa vontade, pela agilidade junto com o corpo técnico do Tribunal.
Fala do Ministro José Múcio:
Excelência, eu ia só cumprimentar a excelência do trabalho da equipe técnica do Tribunal, mas também preciso cumprimentar a competência da crítica do Ministro José Jorge. De repente eu me sinto assim no meio de uma passeata, fazendo os meus protestos, também aqui. Na verdade eu acho que é indiscutível que o sistema viário brasileiro acabou, e a gente sente, a despeito das simpatias partidárias ou ideológicas que isso está começando… os governos estão se sentindo… estão ficando impotentes para resolver. (…) Com relação ao trem bala, antevendo a visão aqui do Ministro José Jorge, parece que hoje o governo deu também um tiro no trem bala, porque os jornais anunciaram que ele deixou absolutamente de ser prioridade diante do caos que está havendo nas cidades não está mais nem preocupado em ligar Rio a São Paulo, mas resolver o problema urbano em todas as cidades.
Clique aqui e ouça a fala do ministro José Jorge.
Clique aqui para ouvir a do ministro José Múcio.
E aqui para ver o vídeo com o José Múcio.
Imagine, amigo navegante, o que esses imparciais juízes não fazem com outros projetos do PAC…
Como eles “julgam” para “ajudar a atrasar”.
Aqui, a ficha técnica do fracassomaníaco José Jorge:
E aqui a de seu colega de tribunal, o “Juiz” José Múcio, que encerrou – literalmente – a carreira política nos braços do PTB de Thomas Jefferson:
Viva o Brasil!
Paulo Henrique Amorim
José Jorge, o do Apagão, e Jose Múcio, o do Thomas Jefferson, juízes que enobrecem os tribunais pátrios
No Conversa Afiada
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