19 de jul de 2013

Serra: Atrás de uma vaga na urna eletrônica

Tucano tenta viabilizar nova candidatura ao Planalto, mas PSDB lhe dá duas opções: Câmara ou Senado
A queda da popularidade de Dilma Rousseff após as manifestações de junho reacendeu o desejo de José Serra de disputar a Presidência da República, algo que ele já tentou sem sucesso em 2002 e 2010. O ex-governador paulista, no entanto, recebeu do PSDB, seu partido, sinais de que só há espaço para ele em 2014 em dois cenários: disputar uma vaga na Câmara dos Deputados ou no Senado.
A saída mais provável caso queira tocar seu projeto presidencial é a filiação ao PPS do deputado Roberto Freire, que já abriu publicamente as portas da legenda para o tucano.
Nesse cenário, a prioridade de Serra passaria a ser uma aliança com o PSD do ex-prefeito Gilberto Kassab, o que daria à sua candidatura maior poder de fogo - leia-se tempo de TV. A união de PPS com PSD renderia 1 minuto e 55 segundos na propaganda eleitoral. O PSDB do senador Aécio Neves tem, sozinho, 1 minuto e 43 segundos; o PT, 2 minutos e 49 segundos; e o PP, um dos partidos mais procurados por causa de seu tempo de TV, 1 minuto e 19 segundos.
"Ele (Serra) está animado. Com a crise econômica e os protestos, o nome dele reúne o que se tem melhor: um economista que é um bom executivo", diz Roberto Freire.
Remanescentes do grupo "serrista" e amigos dele ouvidos pelo Estado dizem que o ex-governador não conseguiria levar muitos tucanos consigo. O fracasso da fusão entre o PPS e o PMN frustrou a construção de uma "janela da infidelidade" oposicionista. Assim como ocorreu com o PSD de Kassab no lado governista, o movimento permitiria uma migração de parlamentares insatisfeitos com o governo Dilma.
Ex-presidente do PSDB - cargo hoje ocupado por Aécio -, o deputado Sérgio Guerra duvida, porém, que Serra venha a deixar o partido. "Nunca trabalhei com esse hipótese e continuo não trabalhando", afirma.
O ex-governador tem uma reunião marcada com dirigentes do PSDB paulista amanhã. Uma pesquisa encomendada pelo partido no fim de junho tem sido usada por Serra como argumento de que ele ainda é uma forte alternativa. De acordo com aliados, ele aparece bem no Sul e no Centro-Oeste.
Líderes tucanos, porém, dizem que a chance de ele conseguir emplacar uma prévia interna contra Aécio é zero. O sonho dos tucanos paulistas é que o ex-governador aceite disputar uma vaga de deputado federal. Com isso, o partido resolveria dois problemas: elegeria uma grande bancada na Câmara e deixaria a vaga no Senado para um partido aliado na chapa do governador Geraldo Alckmin, que disputará a reeleição.
Uma terceira via para Serra seria se filiar ao PSD. Kassab ganhou projeção após ser alçado à condição de prefeito por Serra, de quem era vice. Depois, conseguiu se manter no cargo vencendo uma eleição contra Marta Suplicy (PT) na qual utilizou todo o staff de Serra. Na sucessão municipal de 2012, Kassab apoiou o ex-governador na sua tentativa frustrada de voltar à Prefeitura.
Hoje, porém, Kassab diz informalmente nas rodas políticas que já pagou a dívida com seu padrinho político. Sinaliza, com isso, que pretende manter um pé no governo Dilma.
Até hoje, Kassab não declarou apoio formal à petista, mas seu partido conta com um ministério - nas mãos de Guilherme Afif Domingos - e costuma se alinhar à base governista.
O ex-prefeito já deu declarações públicas, feitas antes dos protestos de junho, que indicavam apoio à reeleição de Dilma.
Ex- líder do PSD na Câmara, o deputado Guilherme Campos diz que Serra é um nome "forte" na política e que não se assustaria se Kassab apoiasse Serra em uma eventual candidatura à Presidência. "Kassab e Serra sempre tiveram conversas", disse. Ele alimenta a especulação ao afirmar que o PSD é um partido independente. "Apesar de estar alojado no governo Dilma, o partido não compõe a base aliada."
Outros parlamentares do PSD dizem nos bastidores que a aproximação de Serra com o partido interessa apenas ao tucano, tanto nas disputas internas tucanas como fora delas. Tucanos também avaliam que Serra tem mais a ganhar do que Kassab numa eventual parceria para a eleição de 2014.
Entre os petistas, a candidatura de Serra é tratada como um fato concreto, seja pelo PPS, seja pelo PSD. A tese é que ela seria boa para toda a oposição, pois forçaria um segundo turno.
Ritual
Um tucano que é amigo de Serra lembra que a indecisão do ex-governador faz parte de um "ritual" repetido em todas as eleições, independentemente do cenário ser favorável ou não. Depois de uma temporada de isolamento, ele ressurge nos bastidores para testar opções de tabuleiro. E só decide aos "45 minutos do segundo tempo".
Na terça-feira passada, Serra fez uma aparição relâmpago em Brasília, onde se encontrou com os senadores Pedro Taques (PDT-MT) e Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). Taques disse que foi uma conversa informal, na qual trataram apenas sobre os protestos, a situação econômica e a queda de popularidade de Dilma.
Quarta-feira, via Twitter, após informar aos seus seguidores de que conversou com os parlamentares, o ex-governador disse que falta liderança no País. "No Brasil de hoje falta liderança e sobram desperdícios, de recursos, de talentos e de tempo", escreveu.
O nome de Serra não tem aparecido nas recentes pesquisas estimuladas - quando o entrevistado escolhe entre nomes definidos. No levantamento do instituto MDA divulgado terça-feira pela Confederação Nacional dos Transportes, ele aparece com 1,2% na pergunta espontânea, quando o entrevistado não é submetido a uma lista prévia.
Pedro Venceslau e Ricardo Chapola
No O Estado de S.Paulo
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Igreja desmata centenas de árvores nativas para evento da JMJ

Mais de 300 árvores nativas da Mata Atlântica são cortadas para evento da Jornada Mundial da Juventude

Após uma denúncia, fiscais do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), do RJ, flagraram, no começo desta semana, o desmatamento de um terreno da Paróquia de São Sebastião de Itaipu, na Região Oceânica de Niterói.
árvores desmatamento jornada mundial juventude
Igreja de Itaipu corta 334 árvores para missa campal. Vice-prefeito de Niterói diz que ação foi lamentável e nega ter dado autorização
Foto: Hudson Pontes / O Globo
No total, foram removidas 334 árvores nativas da Mata Atlântica. O objetivo era abrir espaço para celebrar uma missa campal durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), evento que reunirá milhares de jovens entre os dias 23 e 28 de julho no Rio de Janeiro, sob o lema “Ide e fazei discípulos entre todas as nações” (Mt 28, 19) – o que torna o fato ainda mais contraditório.
A paróquia se prepara para receber 800 peregrinos. De acordo com O Globo, o vice-prefeito de Niterói, Axel Grael, negou que a prefeitura tenha dado autorização para o corte do terreno, que fica às margens do Parque Estadual da Serra da Tiririca, uma unidade de conservação estadual.
Grael também disse que o episódio é “lamentável” e que um evento destinado à juventude deveria ter caráter educativo e, portanto, compromisso com o meio ambiente e com o futuro. Segundo o secretário de Meio Ambiente de Niterói, Daniel Marques, os responsáveis foram multados e terão de fazer medidas compensatórias.
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Jornalismo com contraindicação nas revistas femininas

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Na capa, uma chamada atraiu os meus olhos: “Células-Tronco - As novidades para deixar o rosto jovem em minutos”. Como nasci mulher e loira, ou seja, sou geneticamente incapaz de ter senso crítico, e além de tudo os 50 anos estão mais perto do que longe e sei que o Photoshop não presta para o dia a dia, fui direto à matéria. Maravilha! As células-tronco prometem corrigir tudo! Leio: “devolver à pele o viço, elasticidade e corrigir defeitos da idade”. Também vou guardar a revista para minha filha adolescente, porque – segundo o artigo “Células-tronco para uma pele jovem”, da revista Corpo a Corpo (Editora Escala) – a injeção também melhora as cicatrizes da acne e outros defeitos da pele. Na visão sobre o assunto oferecida pela repórter que entrevistou a dermatologista Dayse D’Ávila, o método é simples e seguro.
Porém, mulheres, alguém tem que contar como é a realidade, mesmo que seja ruim. O que diz a matéria não é tudo verdade. Especialmente a última palavra: seguro.
Deixo para os estudiosos da comunicação avaliar a peça jornalística pelo Index of Scientific Quality (Índice de Qualidade Científica) e dar um resultado entre um (baixa qualidade) e cinco (alta qualidade). Para isso, eles terão que medir o grau de clareza do texto em relação a seu público-alvo, a distinção clara entre opiniões e informações, o nível de evidência e credibilidade das fontes utilizadas, o fundamento em relação a suas afirmações e ter comprovado que apresenta claramente os benefícios e riscos.
Porém, como o que melhor sabemos fazer os jornalistas é contar histórias verdadeiras, vou contar uma, publicada na Scientific American, que vai ajudar os leitores a dar o seu veredicto.
Era uma vez uma mulher que chegou numa luxuosa clínica estética da Califórnia, The Morrow Institute, reclamando que não conseguia abrir o olho direito. Quando o médico pediu para ela tentar, ela reclamou de dor. Alem do grito, do corpo da mulher saiu outro som, como se fosse uma música rítmica, feita com castanholas. O cirurgião, Allan Wu, convidou-a logo para ir ao centro cirúrgico. O que ele achou ao cortar a pele, entre a sobrancelha e o olho, ninguém esperava.
As pinças cirúrgicas começaram a extrair pedaços de osso, um depois de outro... demoraram seis horas para acabar. O inexplicável era que os ossos estavam isolados, e o crânio não tinha nenhuma fratura. Um enigma para a ciência? Não por muito tempo. A resposta estava no prontuário.
Três meses antes, a mulher tinha recebido – em troca de 20 mil dólares – injeções de células-tronco em uma clínica de Beverly Hills. Como na técnica recomendada na matéria brasileira, as células tinham sido obtidas da própria gordura da paciente, da região abdominal. A única diferença é que as células-tronco foram colocadas junto a um material de recheio clássico, que contém um mineral (hidroxiapatita de cálcio). O procedimento médico tinha dado bons resultados estéticos. O problema estava na natureza.
O que aconteceu foi que as células-tronco (que em condições normais não estariam lá) aproveitaram o mineral disponível (que se não fosse pelo procedimento estético também não estaria lá) para construir pedaços de osso (que, logicamente, não deveria crescer ali). Ou seja, tendo os elementos, a natureza simplesmente atuou segundo as suas próprias e conhecidas regras. Pena que não era o que a mulher esperava.
As células vivas não são um remédio como qualquer outro. Células-tronco são celebres porque podem se transformar em diversos tipos de tecido. Isto tem sido obtido em laboratório e, em alguns casos como o relatado, no corpo dos pacientes. O lado B desta terapia biológica é que as células-tronco podem diferenciar-se em tecidos que não sejam os desejados, podem crescer de forma pouco controlável, podem gerar cartilagem, osso, ou outros tipos celulares, sem que se possa controlar a quantidade e o formato. É por isso, justamente, que ainda não estão permitidas na prática médica. Porque ainda há muita insegurança no processo, não pelos resultados estéticos.
A história relatada começa no ano de 2009. E acaba? Ninguém sabe. As células-tronco ainda estão lá. “Pode acontecer de novo”, advertiram à paciente arrependida. Paradoxos dos tratamentos biológicos: têm uma aura de saudáveis que nem sempre tem correspondência com a realidade.
Da história americana há muitas leituras, entre elas a de que terapias com células-tronco potencialmente perigosas se oferecem como tratamento de beleza até nos países mais sérios. No Brasil, é sabido que há profissionais oferecendo tratamentos com células-tronco sem ter havido sequer consenso sobre sua validade prática. E, afinal de contas, não é aceito pelas autoridades de saúde. Os pacientes podem cair na armadilha por pensar que, se um tratamento é oferecido em um consultório bonito, e o profissional até der um recibo pelo pagamento, é evidente que se trata de uma prática legal. Porém, no Brasil, como em muitos países, não há uma lista de procedimentos permitidos ou proibidos, e todos são cientes disso: falta fiscalização para impedir a comercialização de terapias não comprovadas. (Voltando ao caso americano, qualquer médico no Brasil pode colocar as células-tronco junto ao mineral, como no exemplo dado, porque não há um método único recomendado pelas associações profissionais).
Um paciente pode ser enganado por um médico que desrespeita as regras. O jornalista não pode, ele é responsável pelo que publica. A imprensa generalista pode não saber de tudo, mas tem que saber entrevistar. A resposta da pergunta certa para esta matéria é que a única terapia com células-tronco comprovada e aprovada no mundo para uso em humanos é o transplante de medula óssea. O resto é experimental. O que significa? Muitas coisas; entre elas, por exemplo, que não há garantias. E que se alguém fizer, tem que ser gratuita.
Entre nós
Todas as revistas femininas dedicam a maioria das suas páginas – excetuando moda – a assuntos relacionados à saúde. O interesse das leitoras pela medicina não é mais do que um reflexo de uma mudança de atitude na qual os pacientes se encarregam de sua própria saúde e buscam informações em todas as fontes possíveis. As mulheres ainda mais, responsáveis pela saúde de varias gerações da família.
O contato entre a mídia e as vozes especialistas é, por sua vez, cada vez mais fluido, facilitado pelas assessorias de imprensa cada vez mais populares no setor médico. Porém, em muitos casos, a busca midiática responde a razões de estratégia de marketing pessoal. A ingenuidade ou falta de capacitação de alguns jornalistas, somada às pressões de diferentes origens, pode fazer estragos.
É lamentável que, na busca pelo apelativo, muitas vezes se esqueça de que o essencial deveria continuar sendo a qualidade da informação, ainda mais quando pode haver consequências gravíssimas como é o caso dos artigos de conteúdo médico. As notícias sobre dietas, por exemplo, deveriam ser tratadas com o rigor imposto à prescrição de um tratamento para obesidade. Não é o que acontece. Em geral, as dietas publicadas oferecem a metade dos minerais necessários, falta a elas cálcio e ferro, e têm menos vitaminas do que o adequado para o funcionamento correto do organismo [ver aqui].
Em conclusão, o boom informativo sobre medicina pode ter efeitos contraproducentes se à quantidade não forem incorporadas doses crescentes de qualidade.Na mesma edição da matéria das células-tronco há, dez páginas depois, outra matéria de título autoexplicativo “Bisturi, aí vou”. Esta, como é devido, tem dentro de um box um texto menor, porém de titulo acertado: “Todo cuidado é pouco”.
Nas primeiras páginas da mesma revista, há um espaço fixo que se chamaEntrenós. Claramente, é uma conversa amigável, íntima, com as leitoras. Nós é uma referencia às outras mulheres.
Gostaria de ter uma conversa assim com os jornalistas que fazem as matérias de saúde nas revistas femininas. Ou talvez não seja necessário, não acho palavras melhores para dizer do que as que a editora Karine César colocou naquele Entrenós para suas leitoras:
“Basta um comentário colocado de forma equivocada para que toda nossa segurança vá por água abaixo. Leva muito tempo para percebermos que um mundo cheio de regras e julgamento serve para nos nortear e motivar... Mas não pode nunca nos paralisar”.
É assim mesmo. As matérias de medicina das revistas femininas fazem muita diferença na vida das leitoras e suas famílias. É preciso apenas tentar fazê-las cada dia melhor. É fácil: em saúde, geralmente isso se alcança com o respeito a algumas regras.
Roxana Tabakman, bióloga e jornalista, autora de A saúde na mídia: medicina para jornalistas, jornalismo para médicos (lançamento previsto da edição em português para setembro de 2013, pela Editora Summus) 
No OI
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Vice-presidente dos EUA liga para Dilma para dar explicações sobre denúncias de espionagem

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O vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ligou na noite desta sexta-feira (19) para a presidenta Dilma Rousseff, para dar explicações acerca das denúncias de violação da privacidade brasileira. Durante a conversa, a presidenta Dilma aceitou a proposta apresentada pelo governo dos Estados Unidos, para que o Brasil envie a Washington, nos próximos dias, uma comissão de técnicos e autoridades do país, a fim de receber explicações detalhadas, no âmbito técnico e político, acerca das denúncias.
Durante a ligação, que durou cerca de 25 minutos, Biden deu explicações gerais e reiterou a proposta apresentada pelo embaixador norte-americano no Brasil, Thomas Shannon, sobre o envio da delegação brasileira aos EUA. Biden também lamentou muito a repercussão negativa desses fatos na sociedade brasileira.
A presidenta Dilma expressou ao vice-presidente americano sua grande preocupação com a violação da privacidade de cidadãos e de instituições de Estado brasileiros. E disse que espera esclarecimentos à sociedade, como um todo, porque ela também foi atingida, além do governo. A presidenta acrescentou que espera também que haja uma mudança de políticas, para que práticas como essas sejam alteradas e que não haja risco de violação da privacidade e da soberania brasileiras no futuro.
A presidenta também confirmou sua viagem aos Estados Unidos em 23 de outubro próximo e disse esperar que, até lá, o episódio esteja superado.
Os integrantes e a data de envio da comissão serão definidos posteriormente.
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Aécio em terceiro lugar

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Mais uma vez, uma pesquisa eleitoral mostra as mudanças de cenário político depois dos protestos de junho.
Por motivos mais do que esperados, uma grande novidade tem sido evitada, pudicamente, por nossos comentaristas e observadores: pelos números de hoje, Aécio Neves está longe do segundo turno.
Claro que há muito chão pela frente e este ambiente pode mudar. Os arquivos políticos estão abarrotados de profecias eleitorais fracassadas, ainda mais aquelas anunciadas com tanta antecedência.
Mas este quatro é ilustrativo dos humores do eleitorado.
A candidatura de Aécio não só perdeu pontos – o único a enfrentar um esvaziamento além de Dilma – mas encontra-se a uma distância cada vez maior em relação a Marina Silva.
A novidade real das pesquisas é essa: se as eleições fossem hoje, Dilma e Marina iriam para o segundo turno.
Estes números dizem menos sobre méritos e defeitos do candidato do que sobre o universo político que ele representa. A força de Aécio junto ao eleitorado de Minas Gerais dificilmente pode ser colocada em dúvida.
Mas, num país onde o PSDB levou a presidência no primeiro turno em 1994 e 1998, e chegou ao segundo turno em 2002, 2006 e 2010, os protestos de rua ajudaram a criar uma nova polarização política. Tão celebrada pela maioria dos observadores com bom espaço nos grandes órgãos de comunicação, a herança tucana, nem de longe, parece suficiente para ancorar uma candidatura de oposição a Dilma.
A dinâmica da nova situação política parece clara. Os decepcionados com o PT não se transformam em nostálgicos do PSDB. Pelo contrário.
Até por uma coincidência do calendário da propaganda eleitoral, Aécio deveria estar tinindo nas intenções de votos. Nas semanas anteriores aos protestos o PSDB inundou a TV com seus filmes de propaganda. Seria seu lançamento em escala nacional, preparado com grande competência, aliás, por uma equipe de publicitários recém-chegados da Venezuela, onde fizeram a campanha do principal adversário do chavista Nicolás Maduro.
Deu para entender também qual era a campanha que esperavam fazer, certo?
As pesquisas trouxeram uma novidade tão grande que muitas pessoas têm dificuldade de conviver com ela. Se os eleitores da oposição já sabiam quem não queriam – Dilma – agora não sabem mais em quem precisam votar para impedir uma quarta vitória consecutiva do PT.
O silêncio dos analistas sobre o ambiente geral da campanha é revelador do tamanho do problema. Empregar os números de Lula numa tentativa para desgastar Dilma é uma forma de evitar a questão real da campanha, que é o naufrágio do PSDB.
Desde o retorno das eleições diretas, em 1989, o país assistiu a uma mesma história em suas campanhas eleitorais. A disputa sempre foi entre o candidato do PT, Lula, concorrente em cinco das seis disputas, contra um adversário com apoio das forças mais conservadoras. Em cinco eleições realizadas, tivemos PT contra o PSDB.
A pergunta, agora, é saber se o eleitorado que saiu aos protestos de junho recusa essa polarização.
Aécio perde intenções de voto para uma candidatura que se beneficia de sua imagem de concorrente alternativa, que se apresenta como uma candidata sem passado, sem passagem pelo senado nem pelo ministério do governo Lula. Candidata presidencial pela segunda vez, Marina nunca foi a segunda depois que a campanha de 2010 começou de verdade.
Para infelicidade de seu adversário direto, Marina conta com toda benevolência possível dos meios de comunicação para esconder a imensa simpatia que recebe da “velha” política, dos “velhos” interesses que alimentam o “velho” Brasil, não é mesmo? Parece que ela é alternativa desde criancinha, não é mesmo?
Ninguém pergunta quais são suas ideias econômicas para retomar o crescimento e impedir um retorno a situação lamentável que se vivia no início da década passada. Tampouco se avaliam as consequências de sua reação amigável diante das barbaridades prometidas por Marco Feliciano no congresso. Acionistas de um dos maiores bancos brasileiros estão engajados até a medula em sua candidatura, numa aproximação que vai muito além do apoio eleitoral – e poucos analistas de debruçaram sobre o significado desse movimento.
Marina já declarou que não é de oposição nem da situação – mas ninguém achou que a definição era tão repulsivamente oportunista como o “não é de direita nem de esquerda” empregado por Gilberto Kassab para falar sobre o PSD.
O ponto principal destes levantamentos é a perspectiva da multidão.
A rigor, os manifestantes não discordam do governo. Aceitam o que foi feito em termos de distribuição de renda e demais melhorias iniciadas em 2003. Não querem uma volta atrás.
Por isso, prestam atenção em Marina, que carrega, a cada passo, uma história política com vários cruzamentos com Lula e o PT. No imaginário do eleitorado, ela é muito menos adversária de Dilma do que Aécio.
Em sua fotografia atual, as pesquisas indicam que uma parcela grande eleitores tomou distância de Dilma e do governo, mas não se reconcilia com o PSDB nem com os sinais escancarados da velha ordem. Este é o ponto.
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Se a internet não é confiável, por que a mídia a idolatra?

http://www.ilheus24h.com.br/v1/wp-content/uploads/2013/06/Espionagem-na-Internet1.jpg 
O Globo prestou um enorme favor ao governo federal ao denunciar com enorme estardalhaço o monitoramento americano do conteúdo da internet brasileira (primeira página, 7/7). Ainda atrapalhado com a implementação dos pactos & pacotes para atender as exigências das ruas (sobretudo no tocante à reforma política), o governo federal – embora laico e secular – deve ter dado graças a Deus pela inesperada dádiva.
Outros governos haviam repudiado com veemência a interferência da NSA com base nos dossiês vazados por Edward Snowden, o ex-agente do órgão máximo da segurança americana ora confinado em um aeroporto de Moscou. Mas a menção específica ao Brasil no topo do ranking dos países mais espionados do continente acionou a arcaica usina de ressentimentos anti-ianques, um dos motores da política brasileira nos últimos setenta anos.
A revelação de Snowden teve o mérito, entre outros, de tornar público o descalabro que reina em nosso ciberespaço. E não apenas no tocante à proteção contra a xeretagem internacional.
Quando o ministro da Defesa, o embaixador Celso Amorim, confessa sem meias palavras, em audiência pública, que não usa a internet para assuntos importantes, ele oferece um duplo e arrasador atestado. De inconfiabilidade a um sistema que ninguém ousara contestar e de incompetência a todos os que, de alguma forma, administram a comunicação digital no Brasil. Tanto na esfera pública como privada.
O ministro não descobriu a pólvora – foi apenas inequívoco e sintético. Como ele, muitos militares, diplomatas, cientistas, ministros, políticos, empresários e autoridades policiais deixaram de usar a internet há algum tempo. Os delinquentes antes de todos.
Também nós, comuns mortais, usuários do maravilhoso mundo das conexões e da interatividade, começamos a enxergar as armadilhas embutidas no sistema. Nos dois últimos dias, este observador recebeu em sua caixa postal algumas convocações gravíssimas, todas fajutas, fraudadas, usando timbres e identificações de agências governamentais e poderes públicos que não poderiam ser violados. Mas foram.
Isso acontece todos os dias, com toda gente. Coisa de hackers pés de chinelo. Colegas chineses mais refinados violaram as contas dos cartões de crédito de Michelle Obama, primeira-dama dos EUA. Com um inocente pen drive, sofisticados agentes americanos contaminaram o sistema de computadores das usinas nucleares iranianas.
O hacker é filho dos relativismos da era moderna. Hackers que cansaram de ser hackers tornam-se denunciadores de graves violações de direitos humanos. Como Snowden. Outros preferem ganhar milhões como seguranças de sistemas digitais.
A mídia encheu a bolha e agora terá que conviver com ela vazia
A confissão-denúncia do ministro da Defesa pega em cheio nossa mídia, especialmente a “tradicional”, impressa ou eletrônica. Ao longo da última década, nossos jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão entregaram-se ao delírio digital, o nada admirável mundo binário, a mais formidável bolha da história da humanidade.
A mística de que redes sociais e aplicativos podem corrigir o mundo e salvar a humanidade começa a exibir suas insuficiências. A entrevista na Folha de S.Paulo com o militante europeu anti-Facebook Max Schrems [ver aqui] está atrasada alguns anos. Poderia ter evitado que uma geração inteira abrisse mão de sua intimidade em favor de uma visão simplista de comunhão e comunidade.
Atrasada ou não, a entrevista é bem-vinda. Sinaliza uma mudança de atitude: da passividade genuflexa a um questionamento proativo. Na corrida novidadeira, mídia e mediadores não se deram conta de que convertiam ferramentas em divindades. Ferramentas em altares produzem panaceias e idolatrias.
Alberto Dines
No OI
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The Economist e o ressentimento nacional

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Mesmo com edição refinada e sobretudo anglo-saxã, a revista reflete um pensamento neoliberal contra as políticas de estímulo à produção e ao consumo. E, por isso, dirige suas críticas a Guido Mantega
Que o setor televisivo das empresas de entretenimento e desinformação da Globo assuma como suas as provocações da The Economist é um fato repetido que não merece nenhum comentário novo. O que merece uma menção é o reiterado uso, por parte de seus jornalistas, do adjetivo “prestigiosa”, é o que afirma o correspondente Dario Pignotti em artigo recente para a Carta Maior e eu mesma aqui no Congresso em Foco numa de minhas últimas colunas (É a imprensa, estúpido!) e reiteradas vezes de forma colateral em muitas outras.
Prestigiosa para quem, cara pálida?
The Economist, que este ano “celebra” seu 170º aniversário, não perdeu o pique e segue pressionando de forma muito, digamos, imperial, as potências emergentes, aqueles países que, na sua opinião, precisam receber lições sobre como superar a época da barbárie econômica (leia-se aqui: populismo, desenvolvimentismo, nacionalismo, intervencionismo, esquerdismo, distribucionismo) para chegar a um estado civilizatório superior: o do livre mercado absoluto!
Por sua fé neoliberal, The Economist lembra a própria Margaret Thatcher enlouquecida na “missão” de impor seu modelo e os interesses representados pelo Partido Conservador numa cruzada tão voraz que acabou por engolir o ideário econômico dos antigos reformistas do Partido Trabalhista Inglês, rebaixados na figura de Tony Blair ao triste papel de mensageiros do decálogo neoliberal.
Thatcher, provinciana e pouco erudita, aplicou na Inglaterra a política mais regressiva desde o pós-guerra por meio de “reformas” legislativas e duma repressão pinochetista contra os mineiros que tentaram inutilmente impor algum freio a sua agenda em defesa de um Estado mínimo. Contra eles ela lançou, não só o Plano de Ajuste Neoliberal, com a Guerra das Malvinas. E foi aplaudida pelo povinho britânico, segundo Naomi Klein, desviando, com sucesso, a atenção do fracasso interno no país para o “esforço” duma guerra externa sem nenhum sentido.
Voltando à The Economist: bem escrita, enxuta de adjetivos, editada com maestria refinada, mordaz e, sobretudo, anglo-saxã: é um produto de qualidade muito diferente do abertamente conservador Wall Street Journal. Mas essa precisão não impede que The Economist seja um órgão ideológico e um instrumento político com seu programa e seus objetivos, como qualquer meio de comunicação de porte global. Seu compromisso é impor sua agenda radical no debate econômico e aniquilar todo vestígio de “populismo estatista”.
Segundo Pignotti (e eu acho que ele exagera um pouco), “o último capricho da revista, que põe a prova sua capacidade de pressão, parece ser querer derrubar o ministro da Fazenda, Guido Mantega, em quem detecta um vestígio do pensamento e da ação econômica que julga uma “herança do atraso”: o risco de regressar a uma era pré-thatcherista.”
O que a política econômica personalizada do ministro Mantega ameaçaria para publicações como The Economist, Financial Times, The Wall Street Journal e agências de risco como a Standard and Poors não são ideias, mas sim a disputa do capital transnacional para ficar com a maior parte dos excedentes da sétima economia mundial.
Quando as multinacionais da informação, que elevam a The Economist à condição de bíblia, demandam “confiabilidade” e “segurança jurídica”, na realidade estão usando um eufemismo para chantagear governos periféricos para que renunciem a toda soberania econômica e eliminem todo tipo de regulações. O modelo a ser imitado é o Chile e, mais recentemente, a Aliança para o Pacífico.
Dessa forma, inventa-se uma espécie de Pensamento Único Econômico, um consenso imposto a força, que não é filho da liberdade de expressão ou do pluralismo, mas sim da imposição e dos ataques aos interesses nacionais dos países do sul.
The Economist aposta numa política conservadora porque critica as políticas de estímulo à produção e ao consumo. Na contramão do grosso dos economistas, Mantega não fugiu da polêmica com a publicação britânica, identificando-a como um órgão alinhado com a direita européia. A revista, disse o ministro brasileiro, “deve ter a mesma opinião que o governo de seu país (Grã-Bretanha) e dos estados europeus em geral cujas políticas econômicas tiveram um resultado o qual não preciso mencionar”.
Como era de se esperar, as afirmações de Mantega não mereceram nenhuma repercussão nos veículos de imprensa dominantes em nível global, associados em sua maioria ao credo e aos interesses encarnados pela The Economist.
Donde se conclui: a eterna macaqueação – tão tipicamente brasileira há séculos – o ressentimento e a inferioridade generalizada de senzala prosseguem assombrando nossas “elites” e o povinho por elas monitorado.
O fato é que se, internamente, se acredita piamente que “o Brasil não pode dar certo”, quem acreditará em nós lá fora?
Márcia Denser
No Congresso em Foco
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Raízes do Brasil: no levante dos bisturis, ressoa o engenho colonial

http://www.sofadasala.com/pesquisa/medicina08.JPG 
Credite-se à elite brasileira façanhas anteriores dignas de figurar, como figuram, nos rankings da vergonha do nosso tempo.
A seleta inclui a resistência histórica à retificação de uma das piores estruturas de renda do planeta.
Ademais de levantes bélicos (32,62,64 etc) contra qualquer aroma de interferência num patrimônio de poder e riqueza acumulado por conhecidos métodos de apropriação.
O repertório robusto ganha agora um destaque talvez inexcedível em seu simbolismo maculoso.
A rebelião dos médicos contra o povo.
Sim, os médicos, aos quais o senso comum associa a imagem de um aliado na luta apela vida, hoje lutam nas ruas do Brasil.
Contra a adesão de profissionais ao programa ‘Mais Médicos', que busca mitigar o atendimento onde ele inexiste.
A iniciativa federal tem uma dimensão estrutural, outra emergencial.
A estrutural incorpora as unidades de ensino à política de saúde pública. Prevê um currículo estendido em dois anos de serviços remunerados no SUS.
Prevê, ademais, investimentos que dotem os alvos emergenciais de estruturas dignas de atendimento.
A ação transitória requisitará contingentes médicos, cerca de 10 mil inicialmente, para servir em 705 municípios onde o atendimento inexiste.
Ou naqueles aquém da já deficiente média nacional de 1,8 médico por mil habitantes ( na Inglaterra, pós Tatcher, diga-se, é de 2,7 por mil).
Enquadram-se neste caso outros 1.500 municípios.
O salário oferecido é de R$ 10 mil.
O programa recebeu cerca de 12 mil inscrições.
Mas o governo teme a fraude.
A sublevação branca incluiria táticas ardilosas: uma corrente de inscrições falsas estaria em operação para inibir o concurso de médicos estrangeiros, sobre os quais os nacionais tem precedência.
Consumada a barragem, desistências em massa implodiriam o plano do governo no último dia de inscrição.
Desferir o golpe de morte com a manchete do fracasso estrondoso caberia à mídia, com larga experiência no ramo da sabotagem antipopular e antinacional.
A engenharia molecular contra a população pobre constrange o Brasil.
Cintila no branco da mesquinhez a tradição de uma elite empenhada em se dissociar do que pede solidariedade para existir: nação, democracia, cidadania.
O boicote ao ‘Mais Médicos’ não é um ponto fora da curva.
Em dezembro de 2006, a coalizão demotucana vingou-se do povo que acabara de rejeita-la nas urnas.
Entre vivas de um júbilo sem pejo, derrubou-se a CPMF no Congresso.
Nas palavras de Lula (18/07):
"No começo do meu segundo mandato, eles tiraram a CPMF. Se somar o meu mandato mais dois anos e meio da Dilma, eles tiraram R$ 350 bilhões da saúde. Tínhamos lançado o programa Mais Saúde. Eles sabiam que tínhamos um programa poderoso e evitaram que fosse colocado em prática".
As ruas não viram a rebelião branca defender, então, o investimento em infraestrutura como requisito à boa prática médica, ao contrário de agora.
A CPMF era burlada na sua finalidade?
Sim, é verdade.
Por que não se ergueu a corporação em defesa do projeto do governo de blindar a arrecadação, carimbando o dinheiro com exclusividade para a saúde?
O cinismo conservador é useiro em evocar a defesa do interesse nacional e social enquanto procede à demolição virulenta de projetos e governos assim engajados.
Encara-se o privilégio de classe como o perímetro da Nação. Aquela que conta.
O resto é sertão.
A boca do sertão, hoje, é tudo o que não pertence ao circuito estritamente privado.
O sertão social pode começar na esquina, sendo tão agreste ao saguão do elevador, quanto Aragarças o foi para os irmãos Villas Boas, nos anos 40, rumo ao Roncador.
Sergio Buarque de Holanda anteviu, em 1936, as raízes de um Brasil insulado em elites indiferentes ao destino coletivo.
O engenho era um Estado paralelo ao mundo colonial.
O fastígio macabro fundou a indiferença da casa-grande aos estalos, gritos e lamentos oriundos da senzala ao lado, metros à vezes, da sala de jantar.
Por que os tataranetos se abalariam com a senzala das periferias conflagradas e a dos rincões inaudíveis?
Ninguém desfruta 388 anos de escravidão impunemente.
Os alicerces do engenho ficaram marmorizados no DNA cultural das nossas elites: nenhum compromisso com o mundo exterior, exceto a pilhagem e a predação; usos e abusos para consumo e enriquecimento.
A qualquer custo.
O Estado nascido nesse desvão tem duas possibilidades aos olhos das elites: servi-la como extensão de seus interesses ou encarnar o estorvo a ser abatido.
A seta do tempo não se quebrou, diz o levante branco contra o 'intervencionismo'.
O particularismo enxerga exorbitância em tudo o que requisita espírito público.
Mesmo quando está em questão a vida.
Se a organização humanitária ‘Médicos Sem Fronteiras' tentasse atuar no Brasil, em ‘realidades que não podem ser negligenciadas', como evoca o projeto que ganhou o Nobel da Paz, em 1999, possivelmente seria retalhada pela revolta dos bisturis.
Jalecos patrulham as fronteiras do engenho corporativo; dentro delas não cabem os pobres do Brasil.
Saul Leblon
No Blog das Frases
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Conservadorismo de branco é a vanguarda do atraso

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As manifestações de médicos, nessa última terça-feira, revelam um núcleo duro e mobilizado das elites brasileiras. Sua influência nos meios de comunicação, na sociedade e nas instituições já ameaça o programa de saúde recentemente lançado pelo governo. A julgar pelas emendas apresentadas na Câmara dos Deputados, a desfiguração desse projeto será inevitável.
O Palácio do Planalto pode estar pagando um preço por ter agido de forma atabalhoada, sem consultar e articular as correntes mais progressistas da medicina, o que seria obrigatório para batalha dessa envergadura. Mas a reação não é contra eventuais falhas de interlocução: sua natureza reside em defender privilégios corporativos, contrapostos aos interesses do país e aos direitos da cidadania.
As três principais bandeiras nas marchas dos jalecos brancos são elucidativas. São contra a extensão da residência em dois anos, com obrigatoriedade de servir o Sistema Único de Saúde. Não concordam com a vinda de doutores estrangeiros para cobrir déficit de profissionais, especialmente nos rincões do país. Reivindicam a derrubada do veto presidencial sobre o chamado Ato Médico, que fixava supremacia da categoria em relação a outros trabalhadores do universo sanitário.
São reivindicações de quem olha para o próprio umbigo. Insuflada pelos extratos mais ricos e articulados com o conservadorismo, a mobilização médica não entra na briga para a melhoria da saúde pública. Seus maiores aliados são os que comandaram campanha para eliminar a CPMF e retiraram cerca de 40 bilhões de reais anuais para o financiamento do setor.
Não passa de deslavada hipocrisia quando se afirma que o problema não é a falta de médicos, mas a carência de estrutura nos hospitais e centros de atendimento. As dificuldades são inegáveis, isso é fato. No contexto deste embate, porém, não passam de álibi para que o andar de cima possa fazer sua vida sem reciprocidade com os milhões de brasileiros que suaram a camisa e pagaram impostos para garantir a existência de boas faculdades públicas de medicina.
O Brasil tem um número pífio de médicos, na proporção de 1,8 para cada mil habitantes. Na Inglaterra, esse índice é de 2,7. Em Cuba, de 6. Nos últimos dez anos, surgiram 147 mil novas vagas no mercado de trabalho, mas apenas 93 mil profissionais foram formados. Há 1,9 mil municípios com menos de um médico por 3 mil habitantes. Em outras 700 cidades, não há doutores com residência fixa. Nem é preciso dizer que esses 2,6 mil municípios sem assistência adequada estão entre os mais pobres e distantes dos grandes centros.
O governo criou o Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), para levar médicos ao interior e aos subúrbios. A demanda era de 13 mil trabalhadores, mas apenas 3,8 mil postos foram preenchidos, apesar do salário de 8 mil reais que é oferecido, agora aumentado para 10 mil no Programa Mais Médicos. Até mesmo bairro periféricos de cidades importantes, como Porto Alegre e São Paulo, não conseguem atrair interessados.
Parte expressiva da categoria, diplomada em instituições do Estado, não está nem aí para a hora do Brasil. Não quer sair de sua zona de conforto e se acha no direito de pensar apenas em carreira pessoal e montar um rentável consultório privado em alguma metrópole.
Entidades da área, especialmente o Conselho Federal de Medicina, fazem de tudo para impedir a ampliação do número de faculdades (em nome da qualidade de ensino, é claro) e a contratação de médicos estrangeiros ou formados no exterior. A reserva de mercado, para essa gente, está acima da saúde pública.
E essa gente é muito diferenciada. Enquanto 40% do total de alunos da Universidade de São Paulo frequentaram colégios públicos, na Faculdade de Medicina essa origem restringe-se a 2% dos matriculados. Na turma de 2013, nenhum deles era negro. Médicos ricos querem ficar mais ricos atendendo os ricos. Como os pobres têm bem menos chances de ganhar o canudo, esses que se lasquem.
O governo tentou resolver o problema apenas por métodos de atração. Não encontrou auditório. Resolveu, então, adotar um modelo semelhante àquele adotado, há décadas, por países tão distintos quanto Israel e Cuba, instituindo uma variante de serviço civil obrigatório, ainda que bem remunerado.
A formação de um médico, na universidade pública, custa ao redor de 800 mil reais para o tesouro da União e dos estados. Nada mais justo que haja alguma forma de retribuição pelo aporte realizado por toda a sociedade para cada indivíduo que virou doutor. Dois anos de reembolso, com um razoável contracheque, é uma bagatela. Vale lembrar que o dever do Estado é com o povo, não com os médicos.
Talvez os estudantes das faculdades privadas pudessem estar isentos dessa medida, mas todo o cuidado é pouco para evitar que os endinheirados aproveitem brechas para escapar de sua obrigação social, trocando de curso. Uma ou outra correção cabe ser feita, mas o ministro da Saúde e a presidente Dilma Rousseff estão cumprindo sua tarefa constitucional.
O que falta, além de mobilizar os setores da saúde favoráveis às providências adotadas, é travar uma batalha de valores mais firme sobre o programa em discussão. Por enquanto, parece que a preocupação principal é acalmar a ira de médicos ensandecidos pelo egoísmo de classe. O objetivo principal deveria ser debater os deveres de solidariedade dos que recebem privilégios e os direitos de todos a receber assistência médica de qualidade.
Não se pode dar moleza a porta-vozes da ignorância e má fé. Quando personagens como Cláudio Lottenberg e Miguel Srougi se voltam contra a vinda de médicos cubanos, há pouco o que acrescentar. Mentem descaradamente sobre a qualidade desses especialistas, cuja proficiência é atestada pela Organização Mundial da Saúde e pelas 65 nações nas quais trabalham para suprir deficiências locais.
Afinal, seria um horror para o reacionarismo de branco assistir médicos da ilha de Fidel, muitos entre eles negros, pegando no batente em locais para os quais seus colegas brasileiros viram as costas e tapam o nariz. A nudez de seu comportamento lhes seria insuportável.
Breno Altman, diretor editorial do site Opera Mundi e da revista Samuel
No 247
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Passeata dos coxinhas de jaleco

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Carta de um médico cubano

 
Simplesmente respeito, solidariedade e ética
“Meu nome é Juan Carlos Raxach, cubano, que desde 1998 escolhi o Brasil como meu país de residência, e sinto o maior orgulho de ter me formado, em 1986, como médico em Havana, Cuba.
É com tristeza e dor que vejo as notícias publicadas pela mídia e nas redes sociais, a falta de respeito e de solidariedade proveniente de alguns colegas brasileiros, profissionais ou não da área da saúde, que atacam e desvalorizam os médicos formados em Cuba como uma forma de justificar a sua indignação às medidas tomadas pelo governo brasileiro no intuito de melhorar a qualidade dos serviços do SUS.
A qualidade humana e a alta qualificação dos profissionais de saúde cubanos têm permitido que ainda hoje, quando o país continua a enfrentar graves problemas econômicos que se alastram desde os anos 90, após a queda do campo socialista da Europa do leste, os índices de saúde da população cubana seguem colocados como exemplo para o mundo.
São índices de saúde alcançados através do trabalho interdisciplinar e intersetorial desses profissionais.
Por exemplo, em 2012 a mortalidade infantil em Cuba continuava sendo 4,6 por cada mil nascidos vivos, menor que o índice de Canadá e dos Estados Unidos.
A expectativa de vida é de 78 anos para os homens e 80 para as mulheres.
E já em 2011 existia um médico a cada 143 habitantes.
Em 2012, a dra. Margareth Chan, diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), reconheceu e elogiou o modelo sanitário de Cuba e destacou a qualidade do trabalho que realizam os profissionais de saúde e os cientistas cubanos, e felicitou às autoridades cubanas por colocar o ser humano no centro da sua atenção.
Não é desprestigiando nossos colegas de profissão, seja qual for o seu país onde tenha se formado, que vamos colocar em pauta e debater as verdadeiras causas da deterioração da qualidade dos serviços de saúde no Brasil.
Na hora de nos manifestar, o respeito, a solidariedade e a ética são necessários para estabelecer o diálogo e ir ao encontro da solução dos problemas.
Solidariamente,
Juan Carlos Raxach
Juan Carlos Raxach é assessor de projetos da Associação Brasileria Interdisciplicar de AIDS – ABIA
No Viomundo
Veja também: O programa de solidariedade médica de Cuba e o silêncio da mídia
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Sobre coxinhas de jaleco e seus cartazes sem noção

Cerca de 400 médicos marcham pelas ruas de Porto Alegre em protesto contra o programa “Mais Médicos”.
Olha como ele está feliz segurando sua faixa, faixa na qual ele iguala uma das parcelas mais mimadas da elite brasileira, quase sempre branca, quase sempre masculina, aos negros arrancados da África, amontoados em um porão de navio e desterrados no Brasil para o trabalho incessante, o estupro, a tortura e a morte.
Deve ser mesmo uma felicidade quase incontrolável, ser tão ignorante e tão insensível…
Paulo Cândido
No Maria Frô
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O mau jornalismo da Folha no caso dos médicos “desistentes”


O dr. Thomaz Srougi e Cesar Camara na frente da clínica médica particular na favela do Heliópolis. Cesar atende lá com jaleco do Sírio-Libanês, onde também trabalha
Há muitas críticas sinceras aos programas do governo Dilma no setor da Saúde, dentre os quais o Mais Médicos. O próprio Viomundo já publicou várias delas, aqui, aqui e aqui.
Porém, causa-nos estarrecimento ler nas redes sociais manifestações de xenofobia, racismo e desrespeito aos médicos estrangeiros, para não falar da completa piração direitista de que os médicos cubanos viriam ao Brasil promover uma revolução comunista.
As entidades médicas, por razões corporativistas, dizem que não faltam médicos no Brasil e que o problema seria a má distribuição. Não é verdade. Faltam profissionais nas regiões mais distantes e nas periferias das grandes cidades e eles também estão mal distribuídos. Nas regiões Sul e Sudeste do País há maior concentração de médicos, enquanto no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, ela é menor.
A leitora indignada que nos procurou protestou contra a cobertura distorcida que, segundo ela, é dada pela Folha de S. Paulo ao assunto, especialmente no caso do programa Mais Médicos.
Ela aponta para a seguinte sequência de eventos:
Senhora presidente, mais um clamor, respeitoso. Assuma a determinação política de priorizar recursos para as áreas sociais. Atue na saúde com competência e sensatez, não com respostas transloucadas aos gritos indignados da nação. Para que os brasileiros possam vislumbrar o alvorecer com esperança. E combata com arrojo o grupo de ímprobos e incompetentes instalados no teu entorno. Sem esquecer o arcebispo Desmond Tutu: “Se ficarmos neutros numa situação de injustiça, teremos escolhido o lado do opressor”.
Difícil conseguir isso? Não, se reconhecermos entre nossos dirigentes aqueles dotados de sabedoria e integridade, capazes de transformar a sociedade, tornando-a mais justa para seus filhos. Com esses sentimentos, coloco-me ao lado de José Serra.Pode-se concordar ou não com sua forma de se relacionar, muitas vezes difícil, mas não há como ignorar algumas marcas incomparáveis da sua atuação política. Nos cargos públicos que ocupou, suas ações beneficiaram não apenas os mais desprotegidos, mas todos os estratos da nação. Na saúde, Serra opôs resistência quase solitária aos interesses indevidos que, com uma frequência além do razoável, rondam o setor.
Até aí, normal. Ter opinião é necessário e importante, diz a leitora.
Porém, hoje, a Folha deu na capa do caderno Cotidiano: “Médicos alegam falta de direitos e desistem de programa de Dilma”.
Leiam o subtítulo: “Profissionais recuam de inscrição ao saber que não há décimo-terceiro e FGTS” (grifo nosso).
É fato que este é um dos aspectos mais criticados do programa: a falta de garantias trabalhistas para os profissionais. Bolsistas ou contratados? É um debate justo e necessário.
Porém, dos 11.701 médicos inscritos no programa, a Folha só ouviu dois, ambos apresentados como desistentes.
Ambos disseram ter se inscrito e desistido do Mais Médicos por deficiência do programa.
Porém, é importante destacar que houve um movimento de doutores no sentido de sabotar o programa. Como? Fazendo a inscrição e desistindo posteriormente ”para atrapalhar o cronograma e o recrutamento dos médicos estrangeiros”, segundo a própria Folha explicou.
Impossível dizer se os dois médicos ouvidos pela Folha pretendiam desde o início participar do protesto. Eles se manifestaram como se tivessem sinceramente desistido por objeções à iniciativa posteriores à inscrição.
O fato é que a reportagem que motivou o protesto da leitora traz uma imensa foto do dr. Cesar Camara, com a frase:
“Não há direito algum. Fica complicado aceitar um trabalho nessas condições”, diz o urologista Cesar Camara, 38, de São Paulo, que fez a inscrição e desistiu de efetivá-la.
E quem é o dr. Camara?
Na terça-feira que precedeu a reportagem (publicada quinta) ele pede ajuda para encontrar médicos que tenham se inscrito e posteriormente desistido do Mais Médicos.
As relações do dr. Cesar Camara com a família do chefe vão além.  Ele trabalha na clínica médica do dr. Thomaz Srougi, filho do dr. Miguel, que fica na entrada da favela de Heliópolis e só realiza consultas particulares, que custam de R$ 40 (clínica-geral) a R$ 60 (especialidades). Não vale convênio, tampouco cartão do SUS.
César também trabalha no Hospital Sírio-Libanês. Aliás, ele usa na clínica de Heliópolis o jaleco que tem costurado o nome do Sírio-Libanês. Segundo matéria publicada no Estadão, a sua consulta particular custa R$ 450.
César iria largar tudo isto —  carreira promissora na Urologia da USP, trabalho no Sírio-Libanês, um dos mais prestigiados hospitais do Brasil, consultas de R$ 450 no seu consultório e a clínica com o filho do chefe — para participar do programa Mais Médicos, para atender pacientes do SUS?
O programa Mais Médicos, vale lembrar, pagará uma bolsa de R$ 10 mil por mês, mas os médicos terão de cumprir 40 horas semanais de trabalho. Supondo que Cesar tivesse escolhido ir para a periferia da cidade de São Paulo, onde encontraria tempo para as suas outras atividades?
O jornal não sabia disso? Não questionou o médico para saber se ele se inscreveu apenas para desistir e atrapalhar a implantação do programa, cujo objetivo é atender de graça nas periferias, através do SUS, pacientes como os que ele atende cobrando em Heliópolis?
Independentemente das respostas do doutor Cesar, de uma coisa estamos certos: a leitora indignada tem razão.
Luiz Carlos Azenha e Conceição Lemes, a partir de leitora indignada da Folha
No Viomundo

Sírio-Libanês diz que médico “desistente” não trabalha lá

Nota da Assessoria de Imprensa do Hospital Sírio-Libanês
Sobre a matéria intitulada O mau jornalismo da Folha no caso dos médicos “desistentes”, o Hospital Sírio-Libanês esclarece que o Dr Cesar Câmara não pertence ao corpo clínico do Hospital como médico titular ou como assistente de qualquer médico da instituição.
A imagem usada para ilustrar a reportagem, com o jaleco do HSL, está desatualizada.
Na expectativa de contar com a colaboração dos senhores na publicação de uma errata, colocamo-nos à disposição.
Atenciosamente
Assessoria de Imprensa do Hospital Sírio-Libanês
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Lula fala sobre política externa na Conferência 2003-2013 e defende Snowden

Durante seu discurso, Lula ressaltou os pontos principais de sua Política Externa. Um deles é a colocação da questão da fome mundial em lugar de destaque na agenda de discussão internacional, a partir dessa inserção o debate ganhou nova forma no cenário global.

Lula defende Snowden: "ele presta serviço à humanidade denunciando os EUA"

Ex-presidente também afirmou que Brasil assumiu papel-chave na geopolítica mundial ao não se submeter a Washington
Lula defende autonomia na política externa brasileira
Douglas Calixto / Opera Mundi
Sob críticas ou aplausos, a política externa brasileira teve outro rumo na administração de Luiz Inácio da Silva. O ex-presidente, em palestra na UFABC nesta quinta-feira (18/07), usou palavras do cantor Chico Buarque para definir qual foi a estratégia brasileira em sua administração (2003-2010). “Fomos respeitados porque não falamos grosso com a Bolívia ou falamos fino com os EUA”, disse.
Nessa linha, Lula não titubeou ao ser perguntado sobre a sua opinião sobre o ex-funcionário da CIA Edward Snowden, responsável por revelar esquema internacional de espionagem comandando por Washington. “Ele prestou um serviço à humanidade, denunciando um mau comportamento dos EUA”, afirmou o ex-presidente, dizendo não conhecer os motivos para o Itamaraty ter negado o pedido de asilo político ao norte-americano.
“Os EUA se comportam como os xerifes do mundo e as elites brasileiras, que dirigiam esse país, sofriam do mal de 'cachorro vira-lata'. Qualquer imposição norte-americana tinha que ser aceita sem qualquer tipo de debate porque nós nascemos para ser inferiores. Eu lutei contra isso e nós mudamos o nosso patamar. Hoje o Brasil tem sua autonomia”, disse o presidente.
Em auditório lotado em São Bernado, Lula ligou a posição de destaque no Brasil no cenário internacional ao fato do enfrentamento de ondas conservadores que “defendiam a relação de serventia aos EUA”, exatamente como o que acontece com o escandâlo de espionagem norte-americana, delatado por Snowden no mês de junho.
O ex-presidente também cobrou uma posição mais insiva da ONU nos confrontos no Oriente Médio. Para ele, a entidade teve critérios diferentes, sempre privilegiando as grandes potências. “A mesma força que a ONU teve para criar o estado de Israel deveria ter para criar o estado palestino”, disse.
O exempo marcante de Lula para explicar a queda de braço com as grandes potências foi o tratamento discriminatório dos países ricos em relação à participação do Brasil nas negociações entre Washington e Irã sobre o programa nuclear iraniano. O ex-presidente afirmou que diversos dirigentes o consideraram ingênuo por se envolver com a questão.
"Conversei com os principais líderes mundiais e ninguém deles havia falado com Ahmadinejad (ex-presidente iraniano). Quando disse que iria me encontrar com ele, fui atacado por diversas pessoas. Disseram para mim que ele não cumpria com o que falava e que era inegociável. Disse isso para Ahmadinejad e sai de lá com um documento assinado com todas as exigências que Barack Obama havia dito que seria inegociáveis com o Irã. Isso prova que as grandes potências não aceitam um novo ator no cenário mundial", criticou o presidente.
Lula também discorreu sobre América Latina, dizendo que o bloco alcançou um incrível patamar de crescimento social após "uma sucessão histórica de fatos", disse em referência à eleição Hugo Chávez, Evo Morales, Néstor Kirchner, entre outros presidentes ligados às causas sociais e de ordem contra hegemônica. "O que aconteceu aqui foi um momento histórico", ponderou.
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Protestos podem voltar mais fortes e incontroláveis, diz sociólogo

Boaventura de Sousa Santos aponta a insatisfação popular como fruto da expansão da classe média brasileira, que ficou mais exigente. Para ele, só uma reforma política profunda pode evitar que povo volte às ruas.
Os protestos no Brasil perderam intensidade, mas, se o governo não der uma resposta rápida às reivindicações do povo, podem voltar ainda mais fortes – e de forma incontrolável. O alerta é do português Boaventura de Sousa Santos, doutor em sociologia pela Universidade de Yale (EUA) e diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal).
Autor de estudos sobre emancipação social, direitos coletivos e democracia participativa, ele vê a onda de indignação que tomou as ruas do país como fruto das mudanças vividas pela sociedade brasileira nas últimas décadas. A classe média, afirma, cresceu e com ela as demandas dos cidadãos por melhores serviços públicos ganharam força.
Para Boaventura, o Congresso está “divorciado das prioridades dos cidadãos” e, por isso, uma reforma política se faz necessária. “Há medidas de emergência que têm de ser tomadas, mas nada disso é possível se não houver uma reforma política profunda. Neste momento todo o sistema político tende a perverter e a inverter as suas prioridades”, afirma em entrevista à DW Brasil.
Deutsche Welle: Como o senhor avalia a onda de protestos?
Boaventura de Sousa Santos: As manifestações foram uma surpresa tanto no plano interno como no plano internacional. Tudo levava a crer que tudo no Brasil estava indo bem. Internamente, os próprios partidos, especialmente o do governo, foram apanhados de surpresa. O que foi surpresa foi o motivo para que a explosão ocorresse. Havia um mal-estar, e ele resulta do êxito das políticas que foram instituídas no Brasil a partir de 2003 [quando Lula assumiu o poder] e que fizeram com que 40 milhões de pessoas entrassem para a classe média.
Protestos foram realizados em cidades brasileiras e no exterior
Elas criaram expectativas não só no que diz respeito à sua vida, mas também ao modo como se posicionam na sociedade, ao modo como usam os serviços públicos. E esses 40 milhões começaram a ver que, nos últimos tempos, pelo menos, havia uma certa estagnação dessas políticas. Os serviços públicos não acompanharam as transformações sociais.
A chamada "classe C" ficou mais exigente?
Eu penso que sim, pois as políticas de inclusão realizadas nos últimos dez anos atingiram seu limite e as formas de participação não são hoje tão eficazes quanto eram. Além disso, o serviço público não se desenvolveu como deveria. O caso da saúde é significativo. Por outro lado, num país que tem uma tradição de movimentos sociais fortes, eles viram suas atividades nos últimos tempos se tornarem bastante restringidas. Por isso começou a haver uma certa frustração quanto às prioridades do governo e, naturalmente, um desgaste.
Que medidas o governo Dilma deveria tomar para atender às exigências da população?
A medida fundamental é uma reforma política. Fica evidente que há medidas de emergência que têm de ser tomadas, mas nada disso é possível se não houver uma reforma política profunda, porque neste momento todo o sistema político tende a perverter e a inverter as suas prioridades. Dilma tomou essa medida corajosa, de propor uma revisão constitucional, mas o Congresso não tem grande vontade política para uma reforma política profunda.
As respostas que o governo e o Congresso deram até agora não são satisfatórias?
Como é que o Congresso é capaz de aprovar num prazo de uma semana tantas leis e questões importantes, como a [tipificação da] corrupção como crime hediondo? Essa correria tem um lado positivo e um lado negativo. Isso mostra que o Congresso só se move se houver pressão popular. Portanto, esse é o lado negativo: o Congresso está divorciado das prioridades dos cidadãos e só acorda quando os cidadãos o obrigam a acordar. É por isso que é necessária uma reforma política.
Sousa Santos diz que existe uma crise de representatividade
no sistema político brasileiro e de outros países
Para o senhor, quem são os manifestantes?
As manifestações são muito importantes para pressionar as instituições, os partidos e os governos, mas elas não fazem propriamente uma formulação política. O que elas fazem é pressão para que haja formulação política. Vimos no Brasil como as agendas eram tão diversas quanto a composição das classes presentes nos protestos. Houve uma forte presença da juventude. As manifestações têm uma composição e, misturadas nelas, há forças aproveitadoras que tentaram tirar dividendos contra o PT. Mas elas são uma minoria. É uma insatisfação popular, sobretudo das camadas mais jovens, contra uma política que não responde aos seus anseios.
É possível manter uma mobilização de massa a longo prazo?
Mesmo nos casos dos países que ela se mantém durante mais tempo, como durante o Occupy, nos EUA, e agora no Egito, tudo acontece por etapas. Portanto, há momentos de refluxo. E eu penso que, no caso brasileiro, ela não se aguenta neste momento, embora possa vir a explodir mais tarde. Neste momento há uma certa espera, uma espera com esperança de que alguma coisa se faça. Se ela não se fizer, a situação pode voltar, pode até, aliás, ser mais incontrolável. Se não houver uma reposta rápida a estas reivindicações, o refluxo atual voltará eventualmente mais incontrolável e mais forte.
Muitos manifestantes nas ruas levantaram uma bandeira antipartidarista. Existe atualmente uma crise de representatividade no sistema político brasileiro?
Acho que sim. E neste momento não só no [sistema político] brasileiro, mas também no europeu. E ocorre fundamentalmente do fato de que os governos hoje estão capturados pelo capital financeiro internacional, se ver bem, em função das exigências do capital financeiro. O próprio Brasil compromete uma parte significativa de sua arrecadação para o pagamento do serviço da dívida. E este também é o caso da Europa. No fundo, é isso que está criando essa crise de representação, na medida em que os cidadãos não se sentem representados pelos seus representantes e é isso que faz com que as pessoas venham para a rua.
Para Sousa Santos, o Congresso Nacional está divorciado das
prioridades dos cidadãos
As manifestações foram, de certa forma, uma demonstração de decepção com o governo. Esse governo do PT, apesar das medidas de inclusão social, perdeu a credibilidade?
Não. O problema é que, enfim, é um governo de esquerda que, no entanto, tem uma coligação problemática, dada a organização partidária no Brasil. O problema é que os brasileiros conhecem muito bem o que foram as políticas de direita [dos governos] anteriores, nenhum deles realizou as políticas de inclusão social que agora têm lugar. E, portanto, há um certo descrédito na política em seu conjunto. O PT e o governo da presidente Dilma têm uma crise de legitimidade a resolver. E só podem resolver com mais democracia, com mais políticas de inclusão, com mais dinheiro para os cidadãos e menos para as grandes empreiteiras e para o grande capital financeiro internacional.
No DW
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TV Globo adquire direitos de transmissão dos protestos em 2014

TV Globo adquire direitos de transmissão dos protestos em 2014
Irascíveis, manifestantes exigem boicote ao biscoito Globo
ZONA SUL - Em coletiva de imprensa realizada no cenário da minissérie Anos Rebeldes, a TV Globo anunciou a aquisição dos direitos exclusivos para transmitir os protestos em 2014. "Os embates entre manifestantes e policias serão narrados por Galvão Bueno, com comentários de Rodrigo Pimentel e Arnaldo Cesar Coelho", comunicou Ali Kamel. "Para tanto, já temos confirmadas seis cotas de patrocínio", comemorou.
O pacote comercial da emissora também oferece merchandising na novela Chamas da Vida. Escrita por Manoel Carlos, a trama se passa no Leblon durante a ação de vândalos. "Regina Duarte será Helena, uma moça amedrontada que se esconde no Sushi Leblon durante um ato de vandalismo e se apaixona por um jornalista da mídia NINJA interpretado por José Mayer", antecipou o escritor.
Solidário, Luciano Huck anunciou que reformará o helicóptero de Sérgio Cabral no quadro Lata Velha. Faustão anunciou o quadro Dança dos Anonymous.
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Os gatos antipovo das lebres reformistas

Vestais da esquerda saíram do armário com suas túnicas udenistas e se abraçam à direita no ataque a algumas das instituições democráticas vigentes. Sempre estiveram juntas nesse assalto, parceria obscurecida pela discordância entre elas sobre políticas sociais. O coração reacionário dessa cumplicidade pulsa na aceitação de que os políticos que consideram desmoralizados e sem credibilidade são exatamente os mesmos, esses que estão aí, aos quais entregam a responsabilidade para elaborar uma proposta de reforma em que todos os itens sugeridos, até agora, castram avanços pretéritos da sociedade. Propostas de substituição do sistema proporcional são comuns à direita e à esquerda desde a publicação da Constituição de 88. Voto majoritário puro ou misto e voto em lista, para não mencionar a abolição do voto obrigatório, são variantes nascidas no coração do reacionarismo nacional, em São Paulo, e em parte adotado pelo Partido dos Trabalhadores e até por centrais sindicais. Estas, contagiadas pela vizinhança dos Jardins, retratavam Getulio Vargas como um caudilho maligno e nunca perceberam, por exemplo, que o imposto sindical garantiu, fundamentalmente, o financiamento privado da participação política dos trabalhadores. Privado, isto é, por eles mesmos. Hoje defendem o financiamento público das campanhas alheias e recusam o financiamento privado, restrito a pessoas físicas e com limite de contribuição, enquanto os conservadores especulam com a possibilidade de que contribuições de qualquer natureza só possam ser concedidas a partidos, administradas por seus dirigentes, não a candidatos individuais. Eis as fantásticas rupturas democratizantes alegremente saudadas pelas babás (leia-se “analistas”) dos filhotes dos filhotes da ditadura. Nunca a esquerda nocauteada admitiu tão completamente a sedução ideológica da direita contra o poder do voto popular. Pedir de nariz arrebitado um plebiscito para aprovar opções elaboradas pela direita é apenas desolador.
Em meio ao assédio do casal de vestais da esquerda e garanhões da direita tem sido fácil aprovar medidas que não passam de engodo ou representam tiros demagógicos que fragilizam a Constituição diante de futuras rajadas reacionárias. Dois exemplos recentes: a redução para um do número de suplentes de senadores e a do número de assinaturas para legislação de iniciativa popular.
Com a mímica da redução do número de suplentes de senadores, a proposta recém aprovada no Senado simplesmente restabelece o comando autorizado pelo parágrafo quarto do artigo 60 da Constituição de 1946, fixando em um o número de suplentes, e que valeu até que a emenda ditatorial de 17 de outubro de 1969, em seu parágrafo terceiro do artigo 41 da Constituição de 69, aumentasse para dois esse número. A Constituição democrática de 88 incorporou e consagrou no parágrafo terceiro de seu artigo 46 esse detrito ditatorial. Pretender avançar retornando a um texto pré-ditadura equivale a contrabandear gato por lebre.
No minueto do impedimento da candidatura de parentes para a vaga de suplentes de senadores, a emenda dita progressista aprovada retrocede outra vez à Constituição de 46, que já os tornava inelegíveis no item c) da alínea I de seu artigo 140. Enorme gato enfatuado, esses arrufos de vanguarda deixam escapar, pimpona, a verdadeira ratazana, sócia atleta do sindicato dos corruptores ou da oligarquia familiar – a instituição genérica da suplência senatorial, em si mesma, a qual deveria ser simplesmente abolida.
Há pior. A Constituição de 88 prevê, além de plebiscitos e referendos, a tramitação de legislação de iniciativa popular, desde que apoiada por um por cento do eleitorado nacional (em torno de 1 milhão e trezentos mil subscritores). Os senadores Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) e Lindberg Farias (PT-RJ), respectivamente autor e relator da PEC 3/2011, aprovaram, em 10/7/13, redução da exigência para 0,5% do eleitorado, com aceitação de subscrição digital, ou seja, cerca de 650 mil feicebuquistas. À época da Constituinte de 86, o fenômeno das redes sociais era inexistente e, portanto, nem se prenunciava o perfil que, aliás, ainda está por ser inteiramente delineado. O eleitorado de então, em torno de 94 milhões e meio, correspondia a menos 48% dos 140 milhões e 400 mil eleitores atuais. Era mais do que hospitaleiro o requisito de subscrição de 1% daquele eleitorado para dar andamento a propostas legislativas, sem torná-las inviáveis ou criar ameaças potenciais ao trabalho normal do Congresso. Mas o aumento homeopático no número absoluto de apoiadores, pela lei que aprovaram, não protege a vulnerabilidade a que ficam expostos os quase cento e cinqüenta milhões de eleitores que não opinarem, expulsos da irrisória porcentagem de 0,5% de ativistas agraciados com a difusão de molotovs legais, propiciada pelos dois senadores e os que os seguiram, a saber, pouco acima da metade da Casa, 55 votos a favor.
O crescimento do eleitorado impõe como salvaguarda das maiorias – atenção, salvaguarda das maiorias – o aumento no porcentual de apoiadores para justificar o curso obrigatório de iniciativas populares. Hoje, com a revolução nas mídias sociais e a capacidade de mobilização de minorias ideologicamente organizadas, a possibilidade de fustigar o ordenamento legislativo do país é mais do que óbvia. Estão aí os “anônimos”. Sem mencionar tentativas de congestionar Congressos legítimos com dezenas e dezenas de iniciativas “populares” coordenados por grupos fascistas. Aumentar seu potencial de dano a custos baratos é atentado constitucional que febre momentânea ou aventureirismo crônico explicam. Inaceitável à a adesão ou silêncio cúmplice dos analistas modernos e de vanguarda, babás dos netos da ditadura.
Ademais, ficam à mercê os brasileiros não eleitores e, cassação elitista de direitos, os excluídos do mundo eletrônico, entre eles os analfabetos digitais ou sem mesada gorda. Pois os facebuquistas não irão procurar os analfabetos sem renda ou aparelhos eletrônicos para obter a adesão deles. Nem saberão que há iniciativas de legislação popular com adesão digital. Sutil discriminação tecnológica.
Estabelecido por decreto ditatorial, o voto ao analfabeto foi concedido ao final do governo Figueiredo, com a restrição de que, embora votantes, não podiam ser votados. A Constituição de 88 incorporou essa meia cidadania, estabelecendo, no parágrafo terceiro de seu artigo 14, que “são inelegíveis os inalistáveis e os analfabetos”. Agora, os senadores de esquerda estabeleceram que os netos da ditadura pilotando tabletes terão oportunidades desiguais de aderir a iniciativas populares.
À noite do modernismo digital, todos os gatos passam por lebres.
Wanderley Guilherme dos Santos
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