11 de jun de 2013

MP de SP tem central de grampos

MP usa a PM para operar o monitoramento. (E ainda querem investigar…)
Saiu no iG:

Grampo vira função da PM em São Paulo

Depoimento de coronel, a que o iG teve acesso, responsabiliza promotor do Gaeco por escutas de presos de Presidente Prudente e confirma ‘colaboração’ de PMs na ação
Vasconcelo Quadros – iG São Paulo
Num depoimento inédito ao qual o iG teve acesso com exclusividade, um oficial da PM abre a “caixa preta” da central de grampo gerida pelo Ministério Público de São Paulo. Ele revela que o sistema de monitoramento telefônico de criminosos presos na região de Presidente Prudente, no interior paulista, é operado pela Polícia Militar.
No interrogatório a que foi submetido para responder sobre suspeitas não confirmadas de participação em operações de espionagem clandestina, o coronel da reserva Homero de Almeida Sobrinho se defende, mas acaba contando em detalhes aquilo que as autoridades não queriam:
“Na realidade, funcionou e funciona na sede do referido Comando de Polícia Militar (Presidente Prudente) um trabalho de interceptação telefônica de exclusiva competência, controle e responsabilidade do Ministério Público”, diz o militar.
O depoimento foi prestado no dia 8 de fevereiro na delegacia seccional de Presidente Prudente ao delegado José Carlos de Oliveira Júnior em inquérito encaminhado às autoridades da capital cujo desfecho vem sendo mantido em segredo para não influir na votação da Proposta de Emenda Constitucional, a PEC 37 . A emenda pode retirar do Ministério Público o papel de investigação atribuído pela Constituição às polícias.
No depoimento, o coronel Homero de Almeida Sobrinho responsabiliza o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) de Presidente Prudente, pela escuta e diz que a “colaboração” da PM foi designar um grupo de policiais (40 homens) para atuar na sede do Comando de Policiamento do Interior (CPI) da cidade.
Com o conhecimento das autoridades que comandavam e das que comandam a segurança pública paulista, a corporação, segundo ele, cedeu efetivo e os recursos materiais necessários para grampear aparelhos, gravar e transcrever conversas de criminosos dentro e fora das penitenciárias da região.
“O atual secretário de Segurança Pública, Dr. Fernando Grella, desde a época em que era procurador-geral de Justiça sempre teve pleno conhecimento da existência desse trabalho do Gaeco e fazendo uso das instalações e efetivo do CPI de Presidente Prudente, tendo inclusive visitado por duas vezes, quando na função de procurador-geral de Justiça, o local de funcionamento do trabalho de interceptação telefônica”, disse o coronel.
Segundo ele, o atual procurador de Justiça, Márcio Fernando Elias Rosa, acompanhou Grella na ocasião. Almeida Sobrinho procura, no depoimento, sustentar a legalidade do procedimento. E faz questão de registrar que na primeira quinzena de janeiro deste ano, o atual comandante geral da PM, coronel Benedito Roberto Meira, numa visita em que acompanhou Grella, afirmou em entrevista à imprensa de Presidente Prudente que “o serviço de interceptação telefônica” teria continuidade.
O esquema de espionagem foi autorizado pelo ex-secretário de Segurança Pública Antônio Ferreira Pinto – derrubado no ano passado no choque com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo –, é administrado pelo promotor Lincoln Gakiya e, segundo Almeida Sobrinho, continua em franca operação. A central está no meio da guerra travada, de um lado, entre as forças de segurança contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) e, de outro, no conflito institucional envolvendo PM e Polícia Civil de São Paulo. Ferreira pinto era o pivô.
Promotor de Justiça e oficial da PM, o ex-secretário alijou a Polícia Civil de várias demandas de segurança. Sob o argumento de que havia altos índices de corrupção na instituição, passou as atribuições de investigação sobre o PCC à Polícia Militar, responsável legal pela prevenção e controle ostensivo da segurança. A mudança deu um duplo papel à PM, o de investigar e, ao mesmo tempo, combater o crime.
A opção estabeleceu um confronto direto entre o PCC e a corporação mais violenta do País, a Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) e se transformou num desastre. Na onda de violência do ano passado, morreram centenas de pessoas, entre elas muitos criminosos e mais de 90 policiais militares.
Em dezembro de 2012, diante das notícias de espionagem clandestina publicada nos jornais, a presidente da Associação dos Delegados do Estado de São Paulo, Marilda Pansonato Pinheiro, pediu a abertura de investigação. O ofício foi encaminhado à Delegacia Seccional de Presidente Prudente e resultou no interrogatório do coronel e num depoimento, por ofício, do promotor Lincoln Gakiya.
O promotor confirma as declarações do militar, nega qualquer irregularidade e, em sua defesa, diz que as interceptações telefônicas, protegidas por sigilo, foram autorizadas pela Justiça e são de sua inteira responsabilidade. Gakiya afirma que a PM presta apoio, como fazem também as polícias civil e federal, mas sustenta que as investigações são conduzidas e presididas pelo MP, sob o crivo do Judiciário.
Segundo ele, tanto a denúncia da suposta existência da central clandestina – baseada em denúncia anônima – quanto às alegações de que não há amparo legal no uso da PM são posições corporativistas dos policiais para garantir reserva de mercado e isonomia salarial. O secretário de Segurança, Fernando Grella, informou, através da assessoria de imprensa, que todas as escutas são autorizadas pela Justiça.
O procurador Elias Rosa diz que o MP é responsável pela atuação da PM, afirma que não há irregularidade e que os grampos têm controle jurisdicional.
Procurada pelo iG , a delegada se disse perplexa e afirma que as declarações do coronel Homero de Almeida Sobrinho “colocam no papel” o que era mera suspeita. “O depoimento do coronel é surpreendente. Ele confessa uma atividade manifestamente ilegal e afrontosa ao estado democrático e aos direitos individuais: a PM não pode fazer investigação, muito menos quando envolve grampo telefônico”, afirma. Ela ressalta que o fato de a Justiça autorizar não significa que as investigações devam ser feitas pela PM e nem protege direitos individuais.
“O Ministério Público é o fiscal da lei. Mas se ele está envolvido nas investigações, então quem investiga o investigador?”, pergunta a delegada. Marilda faz questão de frisar que “não há controle judicial sobre as investigações”.
A central de Presidente Prudente, continua a delegada, é apenas a ponta do iceberg de um sistema de espionagem ilegal, com fachada institucional, que contaminou toda a máquina do Judiciário paulista, dividiu os órgãos de segurança e se transformou em marca da política de segurança do governador Geraldo Alckmin.
“Por ordem do ex-secretário Ferreira Pinto, o Guardião (sistema de grampo que controla ao mesmo tempo até dois mil aparelhos telefônicos) que era operado no Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) foi transferido para a Rota. Daí se pode entender o que aconteceu no caso do ‘tribunal do crime’ em que a Rota atuou em Várzea Paulista”, diz a delegada.
Em setembro do ano passado, pelotões da Rota invadiram uma chácara no município de Várzea Paulista , a 60 quilômetros da capital, onde integrantes do PCC “julgavam” um criminoso acusado de estupro. No confronto, foram mortos oito criminosos e o “réu” que a polícia diz ter ido salvar. Nenhum dos 40 militares que participaram da ação saiu ferido. Ferreira Pinto e o governo atribuíram a descoberta do “tribunal” a uma denúncia anônima.
Os PICs
Em linha com juristas que vêm alertando sobre ilegalidade institucional e riscos ao sistema judicial, a delegada lembra que há em São Paulo e no País uma verdadeira febre de Procedimentos Investigatórios Criminais (PICs) abertos pelo Ministério Público com base numa resolução (a 02/2007) juridicamente frágil, criada pelo Conselho Nacional do Ministério Público “ao arrepio” do que determina a Constituição. Os PICs, segundo ela, não representam apenas uma violação inconstitucional ou a usurpação de função das polícias.
“Os PICs podem abalar o sistema judicial brasileiro. Existem mais de 100 processos no Supremo Tribunal Federal pedindo a nulidade de inquéritos penais abertos e tocados exclusivamente pelo MP”, diz. Ela lembra que uma das vantagens da guerra entre polícias, procuradores e promotores em torno da PEC 37 é a de que, se aprovada, a nova emenda legaliza milhares de investigações. Anulados, os inquéritos tornariam impunes criminosos de diferentes graus de periculosidade – do colarinho branco aos integrantes do PCC.
Levantamento da entidade mostra que até o final do ano passado o Ministério Público Estadual abriu 191.658 investigações autônomas amparadas nos PICs. Destas, 114.370 foram arquivadas, o que demonstra, segundo a delegada, a baixa efetividade das investigações tocadas só pelos promotores. No Ministério Público Federal, a quantidade de PICs é equivalente a 30% dos inquéritos tocados pela Polícia Federal: 31 mil investigações autônomas.
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Ex-vice-presidente diz que opositores venezuelanos teriam comprado 18 aviões de guerra dos EUA

Ex-candidato Capriles ironizou denúncia e qualificou suposto plano de agressão ao governo como “uma boa piada”
O ex-vice-presidente venezuelano, José Vicente Rangel, afirmou neste domingo (09/06) que “venezuelanos da oposição” teriam comprado, no final de maio, 18 aviões de guerra visando uma “agressão armada” à Venezuela. Segundo Rangel, que também é jornalista e atuou como ministro da Defesa e chanceler do falecido presidente Hugo Chávez, os aviões seriam levados para uma base militar dos Estados Unidos na Colômbia.
“Segundo a informação que tenho, em 27 de maio de 2013, levou-se a cabo uma reunião na cidade de Santo Antônio, no Texas, entre executivos da indústria de aviões de guerra e venezuelanos da oposição. Tema: a possível aquisição deste tipo de aviões por parte dos venezuelanos. Estes viram alguns catálogos e optaram por um determinado modelo. Assinaram contrato de compra para, no mais tardar, o começo do mês de novembro deste ano, de 18 aviões que serão localizados numa base militar dos EUA localizada na Colômbia”, expressou, em seu programa dominical transmitido pela emissora Televen.
José Vicente Rangel: "venezuelanos da oposição"
teriam comprado, no final de maio, 18 aviões de
guerra visando uma "agressão armada" à Venezuela
Rangel qualificou a informação como “extremamente grave”, e questionou se os organismos de segurança podem averiguar a informação com autoridades colombianas e norte-americanas. Segundo ele “a informação não deve ser subestimada”, devido ao “clima que atualmente existe de agressões midiáticas e políticas contra a Venezuela”. “Prepara-se uma agressão armada devidamente camuflada com a participação de mercenários, como aconteceu tantas vezes em diferentes momentos e nações?”, questionou o ex-vice-presidente, complementando que deixa “esta interrogante no ar”.
Nesta segunda-feira, o vice-presidente colombiano, Angelino Garzón, se manifestou no Twitter sobre as declarações do jornalista: “Diante das denúncias de José V. Rangel na Venezuela acho que o melhor que a Colômbia pode fazer é solicitar a verificação da ONU”, escreveu, sem se estender sobre o caso.
Reação da oposição
O ex-candidato à presidência, Henrique Capriles, respondeu por sua conta de Twitter que as declarações de Rangel são uma “boa piada”. “Que boa piada isso dos aviões de guerra, só é possível em uma mente retorcida e obscura como a deste nefasto personagem”, escreveu, em referência ao ex-vice-presidente. O líder opositor expressou ainda que Rangel “sempre está presente onde há tráfico de influências, comissões e sempre foi assim, corruptelas”.
O prefeito da região metropolitana de Caracas, Antonio Ledezma, disse em um programa de rádio que é preciso “ser muito irresponsável” para efetuar este tipo de denúncias. Segundo ele, a oposição não tem 18 aviões, mas sim “aviões artilhados com votos”. “Os aviões que temos são os candidatos legitimados nas prefeituras e também temos um navio insigne que é nosso candidato à presidência Henrique Capriles”, afirmou.
Ledezma disse ainda os governistas não devem “se esmerar muito em buscar golpistas”, porque segundo ele, o que “está derrubando o governo é a inflação”. Segundo ele, em vez de “tanques de guerra ou bombas”, a gestão de Maduro seria “o único caso do mundo” que cairia “pela força dos rolos de papel higiênico”. “Este governo não está sendo derrubado por aviões, nem por tanques de guerra, mas sim por papel higiênico, farinha, azeite, manteiga e café!!”, escreveu no Twitter, onde também questionou se o ex-vice-presidente “sofre de alucinações”.
Capriles caminha em bairro de Caracas. Ex-candidato à Presidência da Venezuela disse que denúncia sobre aviões é "piada"
Já o deputado opositor Eduardo Gómez Sigala disse à emissora colombiana NTN24 que a denúncia de Rangel carece de sustentação. “Essas são fantasias de José Vicente Rangel, que sempre esteve especulando com este tipo de notícias. Seria bom que apresentasse informações que tivessem alguma sustentação. O governo venezuelano tem problemas suficientemente sérios agora para pensar que alguém esteja comprando aviões para derrotar um governo que está caindo sozinho pela falta de papel higiênico, pela falta de alimentos, pela falta de gestão”, garantiu.
Paramilitares
A denúncia de Rangel vem no dia seguinte ao anúncio do presidente Nicolás Maduro, através de sua conta de Twitter, da captura de dois grupos de paramilitares colombianos que entraram na Venezuela. Segundo Maduro, os suspeitos teriam entrado no território para “atacar” o país. No último sábado, durante um ato do denominado “governo de rua”, o chefe de Estado convocou uma sessão do Conselho de Estado de seu país para definir as relações com o Estado e o governo da Colômbia.
As últimas semanas foram marcadas pela tensão diplomática entre as nações vizinhas, desatada pela reunião entre o presidente colombiano Juan Manuel Santos e o ex-candidato opositor Henrique Capriles. Na ocasião, Maduro disse ter perdido a confiança em Santos e que a permanência de seu país como acompanhante do diálogo de paz entre o governo colombiano e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) seriam avaliadas.
Na última sexta, no entanto, o presidente afirmou que poderia se reunir pessoalmente com Santos em uma iniciativa intermediada pelo ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva. Em reiteradas ocasiões, Maduro acusou o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe Vélez de conspirar contra sua vida e contra a estabilidade política da Venezuela, supostamente aliado a mercenários e a ultra-direita dos EUA.
Outro ponto de discordância entre os países foi o anúncio de Santos sobre a intenção de que a Colômbia ingressasse na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico do Norte), que também provocou alerta nos governos da Nicarágua e da Bolívia. Frente às declarações, o presidente boliviano Evo Morales pediu uma reunião de emergência com o Conselho de Defesa da Unasul (União de Nações Sul-americanas) para analisar o tema. Dias depois, no entanto, o ministro de Defesa da Colômbia negou que seu país queira aderir à aliança militar.
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Os EUA no abismo, de Ellsberg a Snowden

A perseguição a Edward Snowden é um episódio típico de nosso tempo.
Antigo funcionário da CIA, responsável pela revelação de que o governo americano possui uma máquina de espionagem de dimensões que superam temores que até ontem comentaristas de ar arrogante definiriam como “paranoia”, Snowden é o mais novo fugitivo da liberdade de expressão.
Encontra-se no mesmo patamar no qual o soldado Bradly Manning aguarda julgamento, pelo vazamento de milhares de documentos do Departamento de Estado, que derrubaram diversas máscaras da diplomacia norte-americana. Também lhe faz companhia, claro, Julian Assange, o criador do Wikileaks, até hoje à espera de um salvo conduto na embaixada do Equador em Londres.
O patrono desses personagens típicos da sociedade de comunicação de massas chama-se Daniel Ellsberg, o cidadão que em 1971 fez o favor de revelar, através do New York Times, os célebres papéis do Pentágono. Ali, um conjunto de documentos secretos mostrava que o governo dos EUA sabia perfeitamente que a guerra do Vietnã era uma causa perdida, mas preferia seguir enviando os jovens pobres e negros  da América para a morte em vez de enfrentar a elite imperial americana e negociar uma saída pacífica.
O destino de Ellsberg e de seus sucessores contém lições didáticas sobre nosso tempo.
Ellsberg foi perseguido, julgado – e absolvido. Nos anos 1970, os Estados Unidos estavam em guerra e seu gesto foi tratado como uma traição, pois ele proporcionava “conforto ao inimigo”.  O New York Times foi alvo de censura e, durante duas semanas, impedido de circular, fato raríssimo na história americana.
Mas considerou-se que Ellsberg  tinha o direito de revelar aos cidadãos americanos informações que eram de seu legítimo interesse. Um esforço de agentes secretos da Casa Branca para desmoralizá-lo terminou em fiasco e seus detalhes vieram a público. Descobriu-se que homens de confiança do governo Nixon haviam tentado penetrar em seus arquivos médicos para retratá-lo como louco. Foi mais um motivo para que Ellsberg fosse considerado inocente, deixando o escândalo para entrar na história da luta contra a guerra do Vietnã e da liberdade de expressão.
Quatro décadas depois, a situação é outra. Não há hipótese de Bradley Manning ser considerado inocente, ainda que seja impossível apontar um único caso em que as informações que ajudou a revelar tenham ameaçado vidas humanas ou causado prejuízos a interesses legítimos da política externa americana. Em nenhum momento se demonstrou que Manning não tinha o direito (ou quem sabe o dever) de divulgar as informações a que teve acesso.
Num sintoma do momento político, não se questiona a natureza de suas acusações nem se pergunta se o melhor local para um julgamento onde as liberdades civis estão em jogo é um tribunal militar – onde a questão disciplinar irá sobrepor-se sobre qualquer outra consideração.
Na perseguição a Assange, não falta sequer uma anedota pessoal, como ocorreu com Ellsberg. No caso, é uma obscura acusação de estupro feita na Suécia. 
No mundo de Ellsberg um “traidor” saiu livre do tribunal.
Herbert Marcuse, um dos mestres da contestação nos tempos de Ellsberg, fez uma crítica conhecida da sociedade contemporânea. Dizia que ela criava o homem unidimensional, aquele que não convivia com contradições nem conflitos, enxergando a realidade a partir de suas aparências e mistificações. Marcuse era uma ótima leitura nos anos 1960, mas é curioso imaginar o que poderia ter escrito sobre o mundo de hoje.
Manning, Assange e Snowden não são personagens fora de lugar. São rebeldes num  mundo conformista, onde a democracia costuma ser posta à prova com frequência surpreendente pelo governo norte-americano.
A perseguição implacável aos responsáveis pelo vazamento do Wikileaks e pela reportagem que denunciou o tamanho da espionagem mundial dos EUA fazem parte da mesma máquina que produziu e protege Guantánamo, onde cidadãos acusados de terrorismo foram sequestrados e torturados e já passaram mais de dez anos na prisão.
Como não há provas substanciais contra eles além de  inaceitáveis declarações prestadas sob tortura, que a decência impede que sejam chamadas de “confissões“, palavra que tem o pressuposto de terem como base a verdade, a única atitude razoável seria mandar todos para casa após tanto tempo.
Como ocorria no Vietnã, falta coragem – e força política – para enfrentar os erros e contradições do império.
Não é pura coincidência que pelo menos um personagem  tenha frequentado esses dois momentos.
A abertura dos arquivos das operações contra Ellsberg revelou que nos bastidores do governo Nixon já atuava um assessor presidencial chamado Donald Rumsfeld. Quatro décadas depois, como secretário de Defesa de George W. Bush, Rumsfeld foi denunciado pela liberação da tortura como método de investigação militar depois do 11 de setembro.
O personagem do momento é Barack Obama, que oferece uma nova prova de melancólica fraqueza política para dar um mínimo de coerência entre palavras e atos. Como  Marcuse poderia ter dito, o homem unidimensional atingiu um nível absoluto no governo Obama.
Suas decisões e gestos são movimentos de uma máquina implacável, que avança sobre direitos que se pensava sagrados e devora conquistas de valor histórico.
O desrespeito às liberdades individuais e privacidade de milhões de pessoas mostra uma postura sem freios nem pudores para defender aquilo que a Casa Branca considera seus interesses.
Imagine o destino reservado a quem pretender confrontá-los, não é mesmo?
A própria sociedade americana mudou. Há 40 anos, houve uma reação de solidariedade a favor de Ellsberg. Com o New York Times sob censura, o Washington Post, que havia tomado o furo, passou a divulgar os papéis do Pentágono, oferecidos pelo mesmo Ellsberg. E agora?
Pouco a pouco, muitas publicações que divulgaram os textos do Wikileaks preferiram tomar distância de Julian Assange. 
O julgamento de Bradley Manning ocorre em ambiente de segredo, e isso não gera grande emoção dentro ou fora dos Estados Unidos. Edward Snowden já é descrito como “delator” pelos meios de comunicação – palavra que envolve um juízo negativo e aponta para a criminalização de um gesto político.
Em declaração recente, o já velhinho Ellsberg voltou à cena e declarou que a democracia encontra-se à beira do abismo, nos EUA – e é bom refletir sobre o que ele diz.
Paulo Moreira Leite
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McCarthy na Casa Branca

Todos nós sabíamos da possibilidade técnica de que isso viesse a ocorrer, mas agora é o próprio governo norte-americano que admite a intromissão de seus agentes em qualquer terminal de computador do mundo - não só para conhecer seus arquivos, mas para alterá-los, controlá-los, intervir em seus comandos, apagá-los e substituí-los. É a paranóia americana elevada a dimensões apocalípticas.
Há dias, o New York Times publicou artigo de Julian Assange, o fundador do WikeLeaks, comentando a estreita aliança entre o Google e o Departamento de Estado, a tal ponto em que o CEO do maior portal de buscas prevê o império mundial dos Estados Unidos, mediante o sistema da internet. Agora se sabe que não é só o Google que se encontra associado ao projeto de domínio da Web pelos serviços de segurança, mas todos os outros sistemas de busca sediados nos Estados Unidos, além do Facebook e outras redes de relacionamento, ainda que tentem desmentir essa relação.
A ordem presidencial foi emitida por Obama em outubro do ano passado, conforme The Guardian, que fez a denúncia, com exclusividade, em sua edição de sexta-feira. Os grandes jornais do mundo imediatamente trataram também do tema.
O Big Brother de Orwell tiranizava um país em particular; nosso grande irmão Obama pretende dominar, de forma definitiva e absoluta, o mundo inteiro. De acordo com as 18 páginas das instruções, distribuídas a todos os órgãos encarregados da segurança nacional americana, não há alvo protegido, embora, em alguns casos, a ordem de invasão dos dados tenha que partir do próprio presidente.
Obama, que, segundo algumas fontes, pretendia falar grosso com o presidente chinês, a propósito da alegada invasão dos arquivos do Pentágono por hackers de Pequim, no encontro que mantiveram, na Califórnia, e na mesma sexta-feira, perdeu o discurso. Horas antes, e constrangido, ele fora obrigado a admitir a insolência.
O sistema das comunicações eletrônicas, descoberto há pouco mais de um século com Marconi e outros pesquisadores, chegou às dimensões fantásticas de nosso tempo, como expressão da liberdade. Essa liberdade, acompanhada do conhecimento, oferece ao homem a possibilidade de sair da pre´-história, conforme alguns pensadores que não convém mencionar. Não há outro instrumento, a não ser a internet, capaz de mobilizar instantaneamente os cidadãos . Mas, esse meio, sob o controle de algum país em particular, pode significar uma ditadura mundial insuportável, já que não será contrastada por nenhum outro poder.
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Henry Kissinger na parede

O jornalista estadunidense Luke Rudkowski encostou Henry Kissinger na parede. O ex-secretário de Estado norte-americano recebia, pasmem, o premio Liberdade, fornecido por uma entidade denominada Intrepid Freedom Awards.
Luke Rudkowski questionou Kissinger em função de declaração do ex-secretário de Estado segundo a qual “o ilegal fazemos de forma imediata, o inconstitucional demora um pouco mais”.
O jornalista perguntou a Kissinger como se sentia ao receber um prêmio de liberdade quando se é um assassino de massas, procurado em muitos países e que comprou milhões de pessoas em todo o mundo? E foi mais adiante acrescentando: o senhor sabe que tudo isto (a cerimônia) é uma mentira?
Visivelmente abalado, como demonstra o vídeo que circula no youtube, Kissinger chamou o jornalista de “covarde” e insistia para que ele desaparecesse de sua frente. Claro, negou-se a fazer declarações.
A lembrança da figura nefasta de Kissinger é importante nos dias de hoje sobretudo para os brasileiros, que estão sendo informados sobre um incalculável número de crimes de lesa humanidade cometidos no contexto da Operação Condor, de responsabilidade também do ex-secretário de Estado.
Já nonagenário, Kissinger vai ficar impune para o resto da vida, mesmo se sabendo que o que aconteceu nos anos de chumbo no Cone Sul tem o seu dedo como chanceler do governo estadunidense, na época sob a chefia de Gerald Ford, substituto de Richard Nixon retirado do poder por causa do escândalo de Watergate. Os sucessivos governos norte-americanos até hoje agem no exterior sempre em defesa das grande corporações estadunidenses. No Chile, na Argentina, no Brasil, no Uruguai e na Bolívia não foi diferente nos anos de chumbo.
Já que Kissinger não será indiciado pelos acontecimentos, pelo menos que as novas gerações sejam informadas sobre como procedeu este senhor naquele período. Os arquivos implacáveis de Washington já liberados falam melhor do que qualquer coisa.

Pablo Neruda
Na área internacional, segue na ordem do dia a interrogação sobre as circunstâncias da morte do poeta chileno, Prêmio Nobel de Literatura de 1971, Pablo Neruda.
O ex-agente da CIA de nome Michel Townley está sendo acusado por Manuel Araya, motorista de Neruda, como autor do envenenamento do poeta chileno. Townley, além de processado pelos assassinatos do general chileno Carlos Prats e pelo ex-chanceler Orlando Letelier, pode estar implicado também na ação da repressão que teria resultado na morte do ex-Presidente João Goulart. Poderia ser ouvido, mas as autoridades norte-americanas não permitem, mantendo-o em absoluto anonimato.
Os indícios de que Jango foi assassinado com a troca de remédios são fortes. O ex-agente da inteligência uruguaia Mario Barreiro contou com detalhes como aconteceu a troca de remédios na ocasião em que Townley diriga a CIA na Argentina, onde morreu Jango.
A CIA também foi denunciada por Barreiro, bem como agentes brasileiros. Espera-se também que a Comissão Nacional da Verdade chegue a eles. Um depoimento de Townley seria relevante.
Grave denúncia
Da Venezuela vem uma grave denúncia feita pelo jornalista e ex-vice presidente bolivariano José Vicente Rangel. Segundo ele, a oposicionistas apoiadores do candidato derrotado Henrique Capriles Radonski assinaram contrato para a aquisição de 18 aviões de combate que seriam colocados em uma base militar dos Estados Unidos na Colômbia.
Rangel foi mais adiante na denúncia ao revelar que a operação foi feita durante uma reunião em San Antônio, Texas (sul dos Estados Unidos), onde estavam presentes opositores da Venezuela e executivos da indústria de aviões de guerra dos Estados Unidos. Rangel garantiu também que o contrato firmado no final de maio vai se materializar até novembro. Rangel exortou as autoridades venezuelanas a investigarem com todo o rigor a denúncia.
Certamente os meios de comunicação de mercado se divulgarem essa informação vão tentar ridicularizá-la de todas as formas, como já fizeram em outras oportunidades.
Como a oposição venezuelana continua tentando desestabilizar o mandato do Presidente Nicolás Maduro, todo cuidado é pouco, até porque há precedentes no sentido de desestabilizar a revolução bolivariana, inclusive com o apoio ostensivo do governo dos Estados Unidos.
José Vicente Rangel revelou também que líderes da oposição venezuelana estão viajando para o exterior com o financiamento do Instituto Nacional Democrata, subvencionado pelo Congresso estadunidense.
Depois disso, o governo venezuelano divulgou a prisão, no interior do país, de nove paramilitares colombianos que, segundo o Ministro Miguel Rodriguez Torres, da Justiça e Paz, tinham como missão o assassinato do Presidente Nicolás Maduro.
Mário Augusto Jakobskind
No Direto da Redação
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FHC já admite que Aécio não tem condições de ser candidato

Segundo o jornalista Carlos Chagas, FHC comentou com importante prócer do PT que Aécio não vai fixar-se porque não tem estatura, continua pequeno
Há quinze dias Novojornal noticiou; “PSDB S/A. De partido político a empresa de Sociedade Anônima”, informando a maneira pouco ortodoxa que o senador Aécio Neves pretendia administrar o partido, descrevendo ainda à cilada que representava assumir a presidência nacional do PSDB, a interferência do denominado “Grupo Mineiro”, e seu total despreparo para pleitear sua candidatura à presidência da República em 2014.
Talvez porque Minas Gerais seja hoje um Estado com sua imprensa sitiada, a mídia nacional pouco ou quase nada soubesse sobre Aécio Neves e o denominado “Grupo Mineiro”. Porém, não foi necessário muito tempo para que o conhecimento ocorresse.
Enquanto em Minas Gerais a imprensa regional continua nada escrevendo a este respeito, no restante do País a denominada grande imprensa já admite abertamente a falta de condições da candidatura do senador e presidente nacional do PSDB Aécio Neves à presidência da República.
Neste sentido o jornalista Carlos Chagas escreveu na Tribuna da Imprensa neste domingo 02 de junho:
“Deve cuidar-se o senador Aécio Neves. Quem assistiu esta semana o programa de propaganda partidária gratuita do PSDB e pertence ao bloco dos ingênuos terá desligado sua televisão  impressionado com a unidade e a euforia  dos tucanos.
O novo presidente do partido, ainda que sem ter sua candidatura presidencial alardeada pelos colegas paulistas, surgiu como o aglutinador do partido, o D’Artagnan dos mosqueteiros José Serra, Geraldo Alckmin e Fernando Henrique.
Nas telinhas, tudo pareceu encaminhar-se para a sagração posterior de Aécio como candidato.
Ledo engano. Athos, Portus e Aramis rejeitam o ex-governador mineiro. José Serra é candidatíssimo. Geraldo Alckmin trabalha com a hipótese de disputar o palácio do Planalto, oferecendo a Serra a candidatura a governador de São Paulo.  
E Fernando Henrique, tido como incentivador de Aécio, ainda há dias comentava com importante prócer do PT que o senador não vai mesmo fixar-se porque não tem estatura, continua pequeno…
A força dos paulistas é grande no ninho.   A estratégia deles parece deixar que Aécio Neves apareça como candidato por conta própria e sabotá-lo mais ou menos como quem come mingau: pelas bordas.
Deixar que ele percorra o país, como já prometeu mais de uma vez, mas sem respaldá-lo, até que no começo do ano que vem possam constrangidamente concluir que ele não emplacou e melhor seria concorrer ao governo de Minas, aguardando tempos presidenciais  mais promissores.
É claro que de ingênuo o senador não tem nada. Conhece em detalhes a artimanha de seus companheiros e, mais ainda, a personalidade de cada um deles, que começou a acompanhar desde os tempos do avô, Tancredo Neves, que abominava Fernando Henrique, não confiava em Serra e desconhecia Alckmin. 
O importante para Aécio é evitar a impressão de uma guerra entre paulistas e mineiros, até porque, do seu lado da fronteira, conta apenas com os índios, sem nenhum cacique de peso.
Conseguiu eleger-se presidente do PSDB, ainda que hoje já desconfie de haver caído numa armadilha. Sabe da importância de tornar-se conhecido, mais do que já é, bem como da necessidade de cautela em seu confronto com os três mosqueteiros. 
O ideal seria dividi-los. Imprescindível também se torna buscar alianças, como com o governador Eduardo Campos, o candidato ideal para seu companheiro de chapa. Sem esquecer Sérgio Cabral.
Em suma, a escalada é íngreme e a montanha, escarpada, para Aécio Neves. Vitoriosa, porém, sua fixação como candidato deixaria clara a impossibilidade de os tucanos paulistas voarem alto”.
O Jornalista Janio de Freitas da Folha de São Paulo também neste domingo 02 de junho escreveu:
“Haja paciência
Até a eleição faltam 16 meses, mas a intensidade do assunto faz parecer que estamos no ano que vem.
Até a eleição presidencial, faltam 16 meses. Mas, forçada pelos jornais e por dois aspirantes à disputa, a intensidade do assunto faz parecer que estamos no ano que vem. Não é novidade. É, talvez, apenas exagero da precipitação habitual, entre outras deformações que se tornam exageradas demais no jornalismo de uma política muito medíocre.
Aguentar mais 16 meses desse funk é uma ideia aterradora, se já agora fica difícil suportar as caras diárias de Aécio Neves e Eduardo Campos nos jornais. Ainda bem que, no Brasil, a justiça tarda, mas não chega. O que chega, até sob a forma de sentença, é a vingança. O nosso tédio será vingado.
Eduardo Campos já adotou o sistema senta/levanta. Faz uma aparição e some um período. Não está forçado a isso por discordâncias levantadas contra sua candidatura no seu PSB, as quais não se aplacarão só porque o governador de Pernambuco fique um tanto mais no governo onde deve estar.
A investida da exposição pessoal de Eduardo Campos em grande parte do país, com ênfase no Sudeste e no Sul, não lhe rendeu politicamente nada. Além disso, o périplo acentuou a evidência de sua contradição, ao mesmo tempo integrante da "base governista" e pré-candidato de oposição a Dilma. E para isso Eduardo Campos não teve resposta aceitável, frustrada a expectativa de explorar um divórcio que Dilma não quis efetivar.
A pausa para meditação, com aparições que apenas marquem presença, tanto indica que Eduardo Campos deu a partida com antecipação e modo errados, como aponta para a necessidade de trabalho agora redobrado. Inclusive, para tentar a correção do problema que criou no seu partido, com o excesso de personalismo.
A meta inicial de Aécio Neves é a mesma de Eduardo Campos: fazer-se conhecido. Ainda não decorreu tempo suficiente para aferir-se o resultado de seu célere "tour" pelo país. Deu, sim, para uma dúvida e uma constatação. Aécio Neves, tendo iniciado tão cedo sua campanha e com tanta intensidade, será capaz de sustentá-la, com o necessário crescendo, por mais 16 meses? É muito improvável, nem suas características pessoais combinam com tamanha exigência.
A constatação decorre de suas falas. Aécio utiliza-se de referências frequentes a Tancredo Neves, na busca de uma identificação familiar com extensão ao destino político. Tancredo, porém, em todas as circunstâncias de sua vida política, caracterizou-se por só falar quando teve o que dizer. E o pré-candidato Aécio Neves só tem falado o que não precisa dizer, porque vazio de interesse ou banal como crítica.
Eduardo Campos leva sobre Aécio Neves, porém, uma vantagem significativa: pode dar as costas a José Serra sem maior risco”.
A respeito da fuga de lideranças do PSDB a imprensa nacional noticia:
“Deixou sequelas entre tucanos o estilo “trator” do senador Aécio Neves (MG), para viabilizar sua candidatura a presidente. Se ele não tratar melhor uma das estrelas do PSDB, senador Álvaro Dias, por exemplo, o paranaense vai acabar aceitando um dos convites de outros partidos.
Preterido por Aécio para permanecer na liderança do PSDB, Dias tem feito falta à oposição quase inexistente no Congresso Nacional. Ele ainda sonha em disputar o governo paranaense contra o tucano Beto Richa, que é também seu desafeto.
 O senador Álvaro Dias (PSDB/PR) pode estar deixando o ninho tucano. Ele tem convite de outros partidos, como o PV, e sonha com a disputa do governo do Paraná em 2014, contra Beto Richa, seu desafeto, que é do PSDB. Em sua coluna deste sábado, Claudio Humberto aborda os dilemas do senador.
O Partido Verde cogitou lançar a candidatura do senador Álvaro Dias (PR) à Presidência da República, quando Fernando Gabeira parecia hesitar sobre esse projeto. Mas o político do PSDB, apesar de honrado com a possibilidade, ainda não vê motivos para deixar seu partido”.
Como se não bastasse todo clima desfavorável, novo desespero tomou conta da campanha de Aécio após pesquisa do Instituto Vox Populi apontando que a população considera o governo FHC pior do que as administrações petistas em todos os aspectos: na gestão da economia e da educação, no combate à corrupção e mesmo na luta contra a inflação; a despeito disso, Aécio está convencido de que não faz mais sentido esconder o ex-presidente do eleitor em 2014.
Eis alguns pontos:
- na geração de empregos, 7% dos entrevistados disseram que FHC atuou melhor, enquanto 75% responderam que Lula e Dilma o superaram;
- na habitação, 3% para FHC e 75% para Lula e Dilma;
- nos programas para erradicar a pobreza, 4% ficaram com FHC e 73% com os petistas; na educação, FHC foi defendido por 5% e Lula e Dilma por 63%;
- na política econômica, em geral, FHC foi avaliado como melhor por 8% e os petistas por 71% dos entrevistados;
- no controle da inflação, FHC teve seu melhor resultado: 10% acharam que foi melhor que os sucessores, mas 65% responderam que Lula e Dilma é que agiram ou agem melhor;
- no combate à corrupção, FHC teria atuado melhor que seus sucessores para 8%, enquanto 48% dos entrevistados afirmaram que Lula e Dilma foram-lhe superiores.
Os dados são eloquentes e revelam que o eleitor ainda guarda uma boa memória sobre o governo FHC. Aécio, no entanto, tem ouvido economistas que fizeram parte de seu governo, como Armínio Fraga e Pedro Malan, e tem feito questão de valorizar seu legado, como fez no programa do Ratinho, quando disse que FHC é o verdadeiro pai do Bolsa Família.
Depois de perderem duas eleições escondendo FHC, os tucanos mudaram de estratégia. Mas falta ainda convencer o eleitor de que essa é uma boa estratégia.
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Processo contra Cláudio de Castro Vasconcelos anda devagar

O inquérito que corre na 12ª Vara Criminal Federal de Brasília, e investiga a responsabilidade de Cláudio de Castro Vasconcelos no suposto desvio de dinheiro da Visanet para a DNA Propaganda, do empresário Marcos Valério, caminha devagar, sem grandes chances de se tornar efetivamente uma denúncia e, posteriormente, resultar num julgamento do ex-gerente de Propaganda do Banco do Brasil.
Segundo despacho da delegada de Polícia Fernanda Costa de Oliveira, enviado em 19 de abril do ano passado ao IPL nº 0555/2006-4, a conclusão do inquérito está comprometida. Diz a delegada:
“... a presente investigação, que soma seis anos sem atingir proximidade em sua conclusão, teve sua conclusão comprometida em razão da amplitude de seu objeto. Não houve como efetivar todas as ações sugeridas pelo nobre membro do MPF em sua requisição inicial, distanciando-se do desfecho da persecução penal”.
Se o inquérito contra Vasconcelos, que corre em segredo de Justiça na 12ª Vara Criminal Federal de Brasília, não chegar a lugar nenhum, Henrique Pizzolato, que foi diretor de Marketing entre 2003 e 2005, será o único condenado por uma acusação de desvio de dinheiro do BB que teve por base quatro notas técnicas de indicação de serviços de patrocínio e publicidade dos cartões Visa do banco, assinadas por ele, Vasconcelos e mais seis pessoas (o diretor de Marketing, Pizzolato; o gerente-executivo de Propaganda e Marketing, Vasconcelos; o diretor de Varejo e o gerente-executivo de Varejo. Além deles, assinaram as notas técnicas mais três pessoas, em substituição aos integrantes ausentes). Aliás, uma delas sequer teve a assinatura de Pizzolato, que estava de férias.
Para justificar a denúncia de que o chamado Mensalão foi um esquema do Partido dos Trabalhadores para comprar apoio de outros partidos no Congresso, para assuntos de interesse do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o então procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, partiu da tese de que o dinheiro do Fundo de Incentivo Visanet (FIV), que era usado pelo BB para promover a marca Ourocard e o uso dos cartões de débito Electron, financiou este esquema. Fazia as campanhas para o Banco do Brasil a agência de publicidade DNA, do empresário Marcos Valério, por força de uma licitação que datava do ano 2000.
A Comissão Parlamentar de Inquérito dos Correios, em março de 2006, concluiu o relatório pedindo o indiciamento de 126 pessoas pelo Mensalão, entre as quais quatro executivos do Banco do Brasil – Pizzolato, os outros três que assinaram solidariamente as quatro notas técnicas (não foram considerados os três substitutos, nem o funcionário do Banco do Brasil Léo Batista dos Santos, que era o gestor do Fundo Visanet no BB). A CPMI apontou para o indício de coautoria. O então procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, incluiu apenas o nome do diretor de Marketing, Henrique Pizzolato, na denúncia apresentada ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra 40 dos 126 apontados pela CPMI, e excluiu os outros três executivos do BB, rejeitando a tese de coautoria. Vasconcelos foi acionado pela Justiça de primeira instância, que não andou muito desde agosto de 2006, quando foi apresentada pelo procurador Antonio Fernando de Souza. Em 29 de setembro, o juiz decretou segredo de Justiça a pedido do Ministério Público Federal. Os demais, não se sabe se foram denunciados.
Se fosse aceita a tese de coautoria, os quatro teriam que ser denunciados no STF – e, neste caso, existia um grande complicador para a tese de que o Fundo Visanet regara os cofres do Mensalão, pois três deles estavam no BB desde antes do início do governo petista, não tinham qualquer vínculo com o PT e foram nomeados para suas funções por presidentes do BB escolhidos no governo Fernando Henrique Cardoso. Ou teriam que, juntos, figurar num mesmo processo na primeira instância – mas se Pizzolato não fosse incluído no processo do STF, a denúncia do procurador-geral contra os 40 não iria a lugar nenhum. Souza desconheceu todas as outras possibilidades de aporte ao caixa dois do PT e ficou apenas com uma, a do dinheiro do Fundo Visanet, e imputou a uma única pessoa, Pizzolato, a responsabilidade pelo suposto desvio. Nessas circunstâncias, se tirasse o ex-diretor de Marketing do BB, todo o inquérito do mensalão ruiria.
O outro complicador era que os procedimentos contábeis que foram considerados irregulares na CPMI, e reiterados pela denúncia de Souza ao STF, datavam de 2001, dois anos antes de Pizzolato assumir a direção de Marketing. Quando a tese de coautoria foi derrubada, sobrou uma história segundo a qual um diretor que assumiu em fevereiro de 2003, quando a agência DNA já trabalhava para o BB, tornou-se o responsável por procedimentos ocorridos dois anos antes de sua posse, o que é impossível. Mas foi ela que prevaleceu no voto do relator do julgamento do Mensalão, Joaquim Barbosa, que foi majoritário.
Quem era Cláudio de Castro Vasconcelos
Vasconcelos era gerente-executivo de Propaganda e Marketing do BB desde 2001, nomeado pelo então presidente do BB Eduardo Guimarães. Continuou na função em 2003, quando o novo governo nomeou Cássio Casseb presidente da instituição. Pelo regulamento do banco, os gerentes-executivos da diretoria de marketing não se subordinavam ao diretor, mas diretamente ao presidente. O contrato com a agência DNA foi assinado depois de uma licitação, em 22 de março de 2000, pelo então diretor de Marketing, Renato Luiz Belineti Naegele. Como é praxe no Banco do Brasil, todavia, Naegele referendou uma decisão aprovada pelo Conselho Diretor (presidente e vice-presidentes) e pela área jurídica. A primeira prorrogação também foi assinada por Naegele, em 21 de março de 2001; a segunda, por Cláudio Vasconcelos, em 22 de março de 2002.
Em 17 de fevereiro de 2003, quando Pizzolato assumiu a diretoria de Marketing, o gerente-executivo de Propaganda, que ainda era Cláudio de Castro Vasconcelos, já havia pedido a terceira prorrogação do contrato com a DNA. A nota DIMAC Nº 2003/0401, que propõe a prorrogação dos contratos com as agências que operavam para o Banco do Brasil (além da DNA, mais duas trabalhavam para o BB), data de 4 de fevereiro daquele ano. Pizzolato solicitou, então, um parecer ao Departamento Jurídico do banco, que respondeu em 20 de fevereiro que a prorrogação não apenas era legal, como vantajosa para a instituição.
“Os contratos (...) preveem a possibilidade de o Banco optar pela prorrogação do ajuste por até três períodos, iguais e sucessivos de doze meses”. (...) “Nada obstante disso, a Nota da DIMAC registra que, sob o aspecto financeiro, ‘a prorrogação do contrato das agências permite ao Banco do Brasil manter as regras de remuneração estabelecidas na licitação, que são muito mais vantajosas para a Empresa do que aquelas praticadas pelo mercado e regulamentadas pelo Conselho Consultivo de Normas-Padrão – CENP, em maio de 2002’.” Apenas dois dias depois de receber o parecer favorável da consultoria jurídica do BB, Pizzolato assinou a terceira prorrogação (22/3/2003). No dia 23 de setembro houve uma nova licitação, prorrogada no ano seguinte – e os contratos delas decorrentes foram assinados por Henrique Pizzolato.
Em 2009, em audiência no Tribunal Regional da 2ª Região, Vasconcelos explicou a sistemática de aprovação das campanhas de veiculação de publicidade que eram pagas pelo Fundo de Incentivo Visanet com seus próprios recursos. “No Banco do Brasil não existem decisões individualizadas. Todas as decisões são por um comitê”. A nota técnica assinada em 22 de abril de 2002 envolveu a aprovação de pelo menos 20 pessoas. “Ela foi aprovada primeiro no comitê da diretoria de Marketing, depois no comitê de comunicação, de que fazem parte outros diretores da empresa e, por fim, no conselho diretor do banco, onde participam o presidente e os vice-presidentes do banco”, afirmou. Repetiu o mesmo argumento para as três outras notas técnicas.
No mesmo depoimento, afirma que Pizzolato não tinha poderes para, sozinho, aprovar campanhas do tamanho das propostas pelas quatro notas técnicas. E reiterou que a Diretoria de Marketing não efetuava nenhum pagamento. “No Banco do Brasil também existe a segregação. Quem contrata não paga”.
Maria Inês Nassif
No GGN
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Dilma e a classe média

Obrigado a pagar por uma imensa fatia no bolo de impostos num país onde as grandes fortunas estão isentas de transtornos tributários, o cidadão de classe média faz sua parte na redistribuição de renda, mas não recebe o que lhe seria devido
Avaliando a primeira queda de Dilma Rousseff nas pesquisas de opinião desde a posse, Ricardo Mendonça avaliou, na Folha deste domingo:
“As maiores oscilações foram verificadas entre brasileiros que ganham mais de dez salários mínimos (queda de 24 pontos), entre os que têm ensino superior (16 pontos), moradores da região Sul (13 pontos) e pessoas que têm entre 25 e 34 anos (13 pontos).”
Com exceção dos jovens, estamos falando dos brasileiros de classe média, uma das grandes quimeras da política brasileira. São estes homens e mulheres situados na metade superior da pirâmide social brasileira que, segundo o Data Folha, estão se afastando de Dilma. A presidente continua como favorita à eleição de 2014, por larga margem. Seria reeleita, se o pleito fosse hoje. Tem índices de aprovação superiores aos de Lula e Fernando Henrique Cardoso no mesmo período.
Mas a vantagem não é a mesma, o que coloca a postura da classe média em discussão.
Há poucas semanas, a professora Marilena Chauí, mestre inesquecível da Filosofia da USP na década de 1970, uma das referências intelectuais da luta pela democratização do país, fez uma declaração que chamou a atenção. Disse a professora
"A classe média é uma abominação política porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim".
Essa visão da professora, com todo respeito que ela merece, é puro absurdo. Reflete uma visão filosófica da realidade, como se homens e mulheres se movimentassem movidos por ideias puras, e não em função de interesses e necessidades concretas. Traduzindo: a classe média pode até tornar-se fascista, pode aderir a métodos violentos e pode mostrar-se ignorante, mas não “é” fascista, não “é” ignorante nem “é” violenta.
Avaliando o comportamento da classe média europeia ao longo do século XX, em que ela deu apoio a movimentos fascistas mas também se engajou no apoio a soluções democráticas e socialistas, o historiador Tony Judt explica que o comportamento político da classe média não obedece a nenhuma causa especialmente maligna nem defeituosa. Como todas as outras classes sociais, seu comportamento se altera na medida em que seus interesses específicos são atendidos – ou desprezados – pelos governantes de plantão.
Recapitulando a formação do Estado de bem-estar social da Europa, com a criação de um serviço publico universal de qualidade, na saúde e na educação, Judt avalia que foi possível fazer uma troca aceitável com cidadãos de classe média.
Eles seguiam pagando impostos muito altos, mas tinham direito a um atendimento aceitável, gratuito ou muito barato, sendo dispensados de arcar com despesas muito maiores do que seria exigido num sistema privado.
Observando as consequências econômicas deste processo, Judt escreve em O Mal Ronda a Terra que a classe média se viu “com mais recursos disponíveis do que em qualquer outra época desde 1914.”
Essa situação contribuiu, é claro, para afastá-la da tentação do fascismo, que atraiu cidadãos de classe média – e também milhões de trabalhadores, Marilena Chauí! – que não encontravam uma resposta para o drama do desemprego e da falta de perspectiva.
Esta é a questão, portanto. Os brasileiros de classe média colheram diversos benefícios diretos e indiretos do crescimento econômico e da distribuição de renda da última década. A elevação geral do emprego e ampliação do mercado interno abriu oportunidades e vantagens para todos, e não só para quem recebe o Bolsa Família
Mas não se trata de um processo linear nem igual para todos. Obrigado a pagar por uma imensa fatia no bolo de impostos num país onde as grandes fortunas estão isentas de transtornos tributários, o cidadão de classe média faz sua parte na redistribuição de renda, mas não recebe o que lhe seria devido. O preço daqueles serviços que precisa comprar do próprio bolso – a escola dos filhos, o plano de saúde – cria uma situação de aperto e um sentimento de injustiça.
Vamos combinar. A qualidade dos serviços públicos segue tão precária que as autoridades sequer se constrangem de procurar caríssimos hospitais privados para tratar da própria saúde ou estabelecimentos particulares para educar filhos e netos.
Os protestos contra o aumento da passagem de ônibus, que tiveram participação imensa de jovens de classe média - e também de famílias de trabalhadores -, são um retrato do problema.
Nesta situação, profissionais liberais de histórico progressista, pais de família dedicados e cidadãos responsáveis são cortejados por uma oposição política em busca de velhos argumentos. O impostômetro é uma demagogia republicana, nascida nas sonhos do Estado mínimo de Ronald Thatcher e Margaret Reagan, mas chama a atenção de quem não se sente retribuído pelo dinheiro que entrega ao Fisco.
Em outra operação no mesmo sentido, procura-se convencer a classe média de que ela possui princípios morais mais sólidos e respeitáveis do que o conjunto da população, criando uma diferença intransponível - porque baseada no preconceito - em relação à maioria dos brasileiros.
Num exercício que refletia decepção de tantos sábios com a reeleição de Lula em 2006, um ano depois do mensalão, procurou-se construir a lenda de que os cidadãos de maior renda têm maiores princípios morais. Mesmo desmentida por todas as pesquisas estatísticas sérias, que jamais registraram diferenças relevantes no plano dos valores entre classes sociais nem entre regiões do país, fez-se um esforço a fundo. Ora, a partir da renda. Ora, a partir de um traço ainda mais importante para quem dedica boa parte de sua renda a escola dos filhos, que é uma boa educação.
No best seller “A cabeça do brasileiro”, o antropólogo Alberto Carlos Almeida dividiu a população do país por níveis de educação – em vez de faixas de renda – e anunciou:
“Para a população de baixa escolaridade, que apoia a quebra de regras patrocinada pelo ‘jeitinho brasileiro’, há também uma tendência em mostrar-se tolerante com a corrupção.”
Conforme o professor, para muitas dessas pessoas, as denúncias “simplesmente não são importantes.”
Este é ponto.
Existe sim um esforço político para construir uma educação politicamente conservadora para a classe média. Procura-se estimular um comportamento egoísta do ponto de vista social.
Aquela fatia imensa dos meios de comunicação que se comporta como aparelhos ideológicos não deixa de contribuir nessa direção.
Essa operação será ou não bem sucedida - e terá maior ou menor impacto em 2014 - na medida em que o governo se mostrar capaz de ampliar respostas na construção de estado de bem-estar universal, gratuito ou muito barato.
Paulo Moreira Leite
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Te cuida, Perillo


Em um estado onde o chefe do crime organizado tem uma coluna de jornal, coisa assim era mesmo de se esperar.
Em sua coluna de hoje no Diário da Manhã, de Goiânia, o bicheiro Carlinhos Cachoeira avisa ao governador de Goiás, Marconi Perillo, que vai contar tudo o que sabe sobre a bandidagem instalada (aliás, por ele mesmo) dentro do governo local do PSDB.
A assessoria de Perillo, comandada por João Bosco Bittencourt, caiu na esparrela de informar a um repórter de O Popular, que Andressa Mendonça, mulher de Cachoeira, entrou de penetra em uma festa no Palácio das Esmeraldas.
Se o bicheiro abrir a boca, vai ser um deus-nos-acuda em Goiás e na sucursal da Veja, em Brasília.
#merdanoventilador



* * *
A verdade sem mentira
“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, João 8:32
veja aqui
Um homem pode suportar muitas provações em sua vida. Pode cumprir seu desiderato e pagar por seus erros. Pode sofrer injustiças e perseguições sem fraquejar e aceitar tudo como um ensinamento destinado ao seu crescimento interior. Pode ter amigos em um dia e ser abandonado por eles quando a má sorte sobrevém. Pode ser apunhalado por quem considerava companheiro de jornada e exercitar a virtude da tolerância, responsável pela preservação da paz e da harmonia.
Entretanto, um homem não pode jamais permitir que sua companheira, sua cara-metade, sua alma gêmea, a mulher a quem ele devota amor seja ofendida de qualquer maneira que for. A função primeira de um homem frente a sua amada é postar-se à sua frente e não deixar que nada, absolutamente nada, lhe atinja, sob pena de ter de renunciar à própria vida, pois um homem de verdade não tem o direito de continuar a ver o sol nascer se não defender a vida, a dignidade e a honra de sua mulher.
Pois foi isto o que se sucedeu com minha esposa, Andressa Mendonça e contra isto me levanto com todas as minhas forças e armas. Estou pronto para o embate e não medirei esforço nem terei compaixão para defendê-la e desde já aviso que o céu será meu limite. O tempo socorrerá apenas quem dele fizer uso com extrema rapidez para reparar a agressão proferida. Depois de entrar na arena para digladiar não permitirei recuo de quem quer que seja e só sairei dela vitorioso ou morto.
Na última sexta-feira foi realizado no Palácio das Esmeraldas um desfile beneficente com renda revertida para a Santa Casa de Misericórdia de Goiânia. Os convites foram vendidos ao custo de R$ 350,00 cada. Minha esposa, Andressa, empresária, foi convidada a participar e prestar sua colaboração para com uma causa que sem dúvida é nobre e justa. Não se furtou a sua responsabilidade social e cristã em ajudar e participar de uma ação engrandecedora.
Compareceu como cidadã, empresária que paga seus impostos, pessoa bem relacionada e velha conhecida do governador e da primeira-dama e como uma pessoa que sabe da necessidade de se integrar às boas causas e contribuir para suprir as lacunas que o Estado não preenche, como uma saúde de qualidade e gratuita. No momento em que esteve no Palácio foi cortejada pelos poderosos e bem tratada, principalmente pela generosa contribuição que deixou. Bastou que se retirasse para que fosse renegada, tal a uma doente que não se quer por perto.
A imprensa interessada em noticiar as presenças ao desfile beneficente indagou sobre quem esteve efetivamente. Aconteceu o inconcebível: a assessoria de imprensa do Palácio renegou seu indelével direito de estar presente onde melhor lhe aprouver e chegou ao cúmulo de negar que ela tivesse sido convidada.
Alto lá. Não nos faltem com o respeito. Andressa não foi e jamais iria a um lugar em que não fosse convidada. Até porque não precisamos passar por penetras em lugar algum. Dizer que minha esposa não foi convidada a comparecer a um desfile no Palácio das Esmeraldas, residência oficial do mandatário maior do Estado, equivale a dizer que ela entrou sorrateira pela porta dos fundos e que não estava na prestigiada lista de quem era recebida pela organizadora maior da dita festa, a primeira-dama do Estado.
Minha esposa é uma mulher digna e honesta, que encara a vida e as dificuldades de cabeça erguida. Mãe amorosa e esposa adorável. Companheira das horas alegres e também das difíceis. Quando estive recluso na violência do cárcere ela não me negou amparo, apoio, auxílio e sobretudo amor. Jamais permitirei que seja agravada, muito menos por desclassificados que não têm moral sequer para limpar-lhe os sapatos.
Se querem me atingir estou preparado. Mas, acusar minha amada e companheira de subterfúgio rasteiro como o de entrar de penetra em uma festa no Palácio das Esmeraldas passou dos limites. Quem quer ser respeitado deve se dar ao respeito.
Um governo que não se presta ao respeito dentro de seus próprios limites não pode se dar ao desplante de atingir a honra de pessoas de fora de seu alcance. Estou falando de um governo que permite que um de seus principais expoentes diga ser esse mesmo governo composto de bandidos e não recebe uma reprimenda exemplar, a começar da exoneração sumária. Fica o dito pelo não dito e a história dos bandidos dentro do governo permanece sem contestações ou desmentidos. Onde será que começa o banditismo? Onde fica o cerne da bandidagem no governo, em sua origem, em seu centro ou na periferia que se formou com as adesões de última hora?
Se quiserem saber onde estão os maiores problemas e as principais sangrias dentro desse governo é só encarar a briga que estou pronto para o embate. Em bom brasileirês falo com a cabeça erguida e com o peito arfante: cai pra dentro quem quiser que eu sustento o desafio. Escolham as armas. A verdade, que liberta e quebra paradigmas, mostrará ao povo goiano os erros cometidos ao longo dos anos e dará o norte da reparação e do caminho certo.
Mas, não cometam a insanidade de tentar atingir de forma tão rastejante minha esposa porque não vão gostar nem um pouco de conhecer o peso de minha mão. A caixa que Pandora abriu e permitiu que as desgraças se abatessem sobre os homens será brincadeira de criança diante do que posso perpetrar para defender a honra e a dignidade minha e de minha família.
Carlos Augusto de Almeida Ramos, empresário
No Diário da Manhã
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Zero por cento de segurança

"Não é possível ter, ao mesmo tempo, 100% de segurança e 100% de privacidade com inconveniência zero."
Com essa frase, digna do cinismo mais patético, o presidente Barack Obama tentou justificar o fato de seu país ter se transformado em um verdadeiro ciber-Estado policial.
Graças à imprensa, descobrimos que o governo norte-americano usa o dinheiro dos contribuintes para espionar suas próprias vidas, por meio do monitoramento contínuo de ligações telefônicas e atividades na internet. Mas eles podem ficar tranquilo, pois, como disse Barack, "não vemos o conteúdo das ligações, só a duração e os números". Esta é a sua maneira de glosar o slogan preferido de Bill Clinton: "Fumei, mas não traguei".
Julian Assange, o mais conhecido preso político das ditas democracias liberais, já havia advertido: "A internet, nossa maior ferramenta de emancipação, está sendo transformada no mais perigoso facilitador do totalitaris- mo que já vimos".
Com a invenção do fantasma da ameaça terrorista permanente, os Estados democráticos encontraram, enfim, uma justificativa para agirem, de fato, como Estados totalitários, fazendo a Stasi [polícia secreta da antiga Alemanha Oriental], com suas técnicas grosseiras de vigilância, parecer uma brincadeira de criança.
Ninguém precisa grampear seu telefone ou colocar um espião na sua cola quando tudo o que você escreve alegremente no Facebook acaba, necessariamente, nas mãos de um iluminado da Agência de Segurança Nacional (NSA).
Eu mesmo tenho uma ideia: por que não colocar câmeras de observação nas televisões, em vez de só se focar nos telefones e na internet? George Orwell já demonstrou como essa técnica pode ser eficaz.
Mas a boa questão levantada pela frase de Obama é a seguinte: afinal, de onde veio a ideia demente de que precisamos de 100% de segurança?
Nunca nos livraremos de jovens desajustados que montam bombas caseiras ou fanáticos empunhando machadinha. Não há absolutamente nada que possamos fazer para evitar isso. Podemos minorar a letalidade dessas pessoas controlando a circulação de armas, e só.
O verdadeiro problema é termos chegado à situação de todo um país entrar em pânico quando se associa um crime comum à palavra "terrorismo". Pois, ao tentar realizar o sonho dos 100% de segurança, como se nossa utopia social fosse um paraíso de condomínio fechado, acabamos por acordar no pesadelo de um Estado que vira, ele sim, a fonte da pior das inseguranças.
A insegurança da submissão voluntária ao controle contínuo de alguém que reforça sua autoridade alimentando-se de nossos medos. A insegurança do fim da vida privada.
Vladimir Safatle
No fAlha
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Dilma seria eleita no primeiro turno em 2014, diz pesquisa CNT

A presidente Dilma Rousseff seria reeleita no primeiro turno para a Presidência da República caso as eleições de 2014 fossem hoje, segundo pesquisa divulgada pela CNT (Confederação Nacional do Transporte) em conjunto com o instituto MDA nesta terça-feira (11).
Nos dois cenários analisados pelos pesquisadores, a presidente teria mais de 50% das intenções de voto.
No primeiro cenário avaliado, a presidente teria 52,8% das intenções de voto, contra 17% do senador Aécio Neves (PSDB-MG); 12,5% da ex-senadora Marina Silva (Rede Sustentabilidade) e 3,7% do governador Eduardo Campos (PSB-PE).
Na segunda simulação, em que figuram apenas Marina e Aécio, Dilma lidera, com 54,2% das repostas dos entrevistados, ante 18% de Aécio e 13,3% de Marina. Os entrevistados que votam em branco somam 8,6% e os que não sabem ou não responderam totalizaram 5,9%.
Em ambas as simulações, a diferença de Dilma para o segundo colocado é de cerca de 35 pontos percentuais, semelhante ao intervalo verificado pela pesquisa Datafolha divulgada no último domingo. No entanto, ao contrário do Datafolha, que traz Marina Silva na segunda posição, na pesquisa CNT/MDA Aécio Neves aparece em segundo lugar.
Segundo a CNT, a pesquisa não contemplou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva porque ele já declarou que não sairá como candidato.
Apesar dos números favoráveis à atual presidente, 73,1% dos entrevistados afirmaram que ainda não possuem candidato para a eleição de 2014. Apenas 17,4% deles sabem em quem votar no próximo pleito, enquanto 2% votariam branco ou nulo e 7,5% não sabem ou não responderam.
"A presidente ganharia em todos os cenários em primeiro turno. Mas se aproxima muito de um segundo turno à medida que eles [demais candidatos] passam a ser mais conhecidos. Eles vão crescendo nas intenções de voto, disse Clésio Andrade, presidente da CNT, em entrevista após a divulgação dos dados.
A pesquisa também considerou uma situação em que opinaram apenas os entrevistados que conhecem os prováveis candidatos - 755 num universo de 2.010 pessoas. Nessa situação, Dilma teria com 44,1%, Aécio 22,8%, Marina 14,2% e Eduardo Campos 5,8%, o que levaria a disputa para o segundo turno. Ainda nesta simulação, brancos e nulos somariam 8,9% e 4,2% dos entrevistados não responderam ou não sabiam.
Sobre o grau de conhecimento dos candidatos, a CNT/MDA verificou que Dilma foi reconhecida por 99,5% dos entrevistados, seguida por Marina Silva (75,6%), Aécio Neves (72,6%) e Eduardo Campos (45%).
Quando questionados sobre qual partido político gostariam de ver na Presidência da República, 23,1% dos entrevistados apontaram o PT, legenda da presidente, enquanto 5,1% escolheram o PSDB, o maior partido de oposição ao governo federal, cujo presidente é o senador Aécio Neves.
O PMDB, partido do vice-presidente Michel Temer e maior sigla da base aliada, recebeu apoio de 2,5% dos entrevistados, seguido pelo PSB, do governador de Pernambuco e presidenciável Eduardo Campos, com 0,7%. Outros 41,7% não sabiam ou não escolheram e 24% não apontaram nenhum partido.
Aprovação pessoal e do governo
A 113ª Pesquisa CNT/MDA também avaliou os índices de popularidade do governo e pessoal da presidente Dilma Rousseff. A presidente é aprovada por 73,7% dos entrevistados, e seu governo, por 54,2%. Na última pesquisa, de julho de 2012, Dilma teve aprovação pessoal de 75,7% e aprovação de seu governo foi de 56,6%. A queda na aprovação pessoal de Dilma está dentro da margem de erro, de 2,2 pontos percentuais.
A redução da aprovação da mandatária foi noticiada no domingo por pesquisa do instituto Datafolha. No entanto, como a periodicidade da pesquisa da CNT é diferente, não foi possível detectar a tendência de queda mostrada pelo Datafolha.
Foram entrevistadas 2.010 pessoas em 134 municípios de 20 Estados entre os dias 1º e 5 de junho deste ano. Esta é a segunda pesquisa da CNT em parceria com o instituto MDA - os levantamentos anteriores foram feitos com os institutos Vox Populi (1º ao 28º) e com o Sensus (29ª a 111ª).
A pesquisa não tem periodicidade definida - o último levantamento, feito entre os dias 18 e 26 de julho de 2012, foi divulgado em agosto de 2012.
Pessimismo
A pesquisa registrou um maior pessimismo dos brasileiros com relação às expectativas para os próximos meses. Com relação à oferta de empregos, 39,6% dos entrevistados acham está melhor agora, ante 54,1% do ano passado. Já 44,5% acham que ficará igual, ante 32,2% da avaliação anterior, e 11,5% acreditam que poderá piorar frente 9,6%. Aqueles que não sabem ou não responderam não se mantiveram no patamar de 4%.
A expectativa de aumento renda mensal também caiu de 35,8% deste ano ante 49% do ano passado. Mas a maioria (51,9%) acredita que deverá se manter igual – que é maior que a avaliação anterior de 42,9%. Somam 8,5% os que disseram acreditar que a renda vai diminuir, antes era 5,1%.
As ofertas de saúde e educação também registraram baixa na perspectiva de melhora de 43,7% (em julho de 2012) para 26,2% (em junho deste ano) e 47,2% (em julho de 2012) para 33,1% (em junho deste ano), respectivamente.
A situação da segurança no país também apresentou queda no otimismo: 29,1% dos entrevistados acham que vai melhorar, frente 39,1% da pesquisa passada. Outros 41,1% acham que ficaria igual (o índice era de 41,2%) e 27,3% acham que vai piorar ante 17,1% da avaliação anterior.
"Há uma queda em relação no otimismo em relação ao emprego e à renda mensal. [Houve] também quedas nos índices de saúde e segurança estes itens pesam. É um alerta ao governo, apesar dos altos índices de popularidade da presidente", destacou Clésio Andrade.
Confiança
Entre as instituições que inspiram maior confiança nos entrevistados, a Igreja aparece em primeiro lugar, com 37,5%, seguida da Polícia Federal (13,8%), do Supremo Tribunal Federal (8,2%), od Ministério Público (7,8%), da Presidência da República (7,1%). Senado, com 0,7% de confiança, e Câmara dos Deputados, com 0,6%, aparecem no final da lista. Outros 18,7% dos entrevistados disseram não acreditar em nenhuma delas, e 5,7% não sabem ou não responderam.
Os entrevistados também se dividiram quando questionados sobre o impacto da inflação em sua renda: 36,7% avaliaram que será alto; 36,6% acham que será moderado; 18,6% consideram que será baixo e 8,1% não sabem ou não responderam.
Pesquisa anterior
Na pesquisa anterior, o então cenário eleitoral mostrava que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceria com 69,8% dos votos caso a eleição se realizasse no dia que os entrevistados foram questionados. Na sequência, estaria o senador Aécio Neves (PSDB-MG), com 11,9% das intenções de voto e o governador do Pernambuco, Eduardo Campos (PSB) com 3,2%. A margem de erro era de 2,2 pontos porcentuais para baixo ou para cima.
Em um segundo cenário, a CNT trocou Lula pela presidente Dilma Rousseff, que venceria as eleições com 59% das intenções de voto, seguida por Aécio com 14,8% e Eduardo Campos com 6,5% das intenções de voto.
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Outra visão

Há duas inflações: uma real, indesejável
mas suportável, e outra que é originária
de intenções políticas
Os entrevistados e os que escreveram sobre a queda de oito pontos na avaliação positiva de Dilma Rousseff, constatada pelo Datafolha, expõem uma visão peculiar em dois sentidos. Primeiro, e mais importante, no que se pode ter como a unânime (sem os petistas) visão de um significado de extrema força, na perda. Segundo, pela maneira também unânime como a inflação é vista nas avaliações, um fato com consequência política, mas sem antecedente político.
Por um gráfico da Folha de ontem, via-se que Fernando Henrique chegou aos dois anos e meio do primeiro mandato com avaliação de presidente ótimo/bom por 39% dos entrevistados. Lula chegou aos primeiros dois anos e meio do seu governo com avaliação ainda mais baixa, de 36%. E com avaliação de regular e ruim/péssimo altíssima, somados, de 63%, contra sofríveis 58% de Fernando Henrique.
Mesmo com a perda de oito pontos em idênticos dois anos e meio do seu mandato, Dilma Rousseff ainda recebe 57% de conceito ótima/boa presidente. Mais 18 pontos do que Fernando Henrique e 21 acima de Lula. E, na soma dos conceitos regular e ruim/péssima, os seus 42% são 16 pontos menores que os de Fernando Henrique e 21 menores que os de Lula.
Ainda uma constatação curiosa: entre o Datafolha de março e o de agora, intervalo em que se registra a perda dos oito pontos, a opinião de regular e ruim/péssima sobre Dilma aumentou apenas um ponto, de 41% para 42% ─ na margem de erro, portanto.
Que efeito tiveram aqueles humilhados números de Fernando Henrique e de Lula na busca das respectivas reeleições? Rigorosamente nenhum. Nem mesmo algum efeito dificultante do processo de construção, nos meses seguintes, das duas vitórias.
A vantagem imensa de Dilma Rousseff na comparação com os dois antecessores não é uma promessa de vitória, se candidata à reeleição. Mas muito menos pode servir de base, a meu ver, quer para a dedução de perspectivas eleitorais sombrias já a esta altura, quer até mesmo de uma situação com tendência razoavelmente nítida de agravamento.
As deduções mais negativas correspondem, suponho, ao clima propagado nos meses em que se deu a perda dos oito pontos por Dilma. Pode-se dizer que, nos comentários todos, a inflação é a causa da perda. Ou a principal. A pesquisa contém indício claro nesse sentido. Mas o que a mim parece também claro é que não foi propriamente a inflação sentida, foi a inflação ouvida e lida. Posta nas cabeças pela artilharia com que os meios de comunicação fazem os índices vizinhos do limite, a tal "meta" estabelecida há meses, parecerem uma explosão inflacionária.
A luta por uma inflação domada tem perdido sucessivos rounds, mas não houve até agora, nem se mostra como provável, descontrole de fato assustador. Há duas inflações: uma real, indesejável mas suportável, e outra originária de intenções políticas.
SEM PROBLEMA
Esperada para amanhã a decisão do Supremo sobre o projeto que dificulta mais partidos, a eventual derrota da liberdade total de criá-los não dificulta a candidatura de Marina Silva ─ como está divulgado com frequência. Não é indispensável que tenha o seu próprio partido, a pretendida Rede Sustentabilidade, porque lhe estão oferecidas as legendas do Partido Verde e da Mobilização Democrática (ex-PPS). A ameaça é só onda.
Janio de Freitas
No fAlha
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Medíocres e perigosos

O reacionário é, antes de tudo, um fraco. Um fraco que conserva ideias como quem coleciona tampinhas de refrigerante ou maços de cigarro – tudo o que consegue juntar mas só têm utilidade para ele. Nasce e cresce em extremos: ou da falta de atenção ou do excesso de cuidados. E vive com a certeza de que o mundo fora da bolha onde lacrou seu refúgio é um mundo de perigos, pronto para tirar dele o que acumulou em suposta dignidade.
Como tem medo de tudo, vive amargurado, lamentando que jamais estenderam um tapete a sua passagem. Conserva uma vida medíocre, ele e suas concepções e nojos do mundo que o cerca. Como tem medo, não anda na rua com receio de alguém levar muito do pouco que tem (nem sempre o reacionário é um quatrocentão). Por isso, só frequenta lugares em que se sente seguro, onde ninguém vai ameaçar, desobedecer ou contradizer suas verdades. Nem dizer que precisa relaxar, levar as coisas menos a sério ou ver graça na leveza das coisas. O reacionário leva a sério a ideia de que é um vencedor.
A maioria passou a vida toda tendo tudo ao alcance – da empregada que esquentava o leite no copo favorito aos pais que viam uma obra de arte em cada rabisco em folha de sulfite que ele fazia – cultivou uma dificuldade doentia em se ver num mundo de aptidões diversas. Outros cresceram em meios mais abastados – e bastou angariar postos na escala social para cuspir nos hábitos de colegas de velhos andares. Quem não chegou onde chegaram – sozinhos, frise-se – não merece respeito.
Rico, ex-pobre e falidos, não importa: o reacionário ideal enxerga em tudo o que é diferente um potencial de destruição Por isso se tranca e pede para não ser perturbado no próprio mundo. Porque tudo perturba: o presidente da República quer seu voto e seus impostos; os parlamentares querem fazê-lo de otário; os juízes estão doidos para tirar os direitos acumulados; a universidade é financiada (por ele, lógico) para propagar ideias absurdas sobre ideais que despreza; o vizinho está sempre de olho em sua esposa, em seu carro, em sua piscina. Mesmo os cadeados, portões de aço, sistemas de monitoramento, paredes e vidros antibala não angariam de todo sua confiança. O mundo está cheio de presidiários com indulto debaixo do braço para visitar seus familiares e ameaçar os nossos (porque os nossos nunca vão presos, mesmo quando botam fogo em índios, mendigos, prostitutas e ciclistas; índios, mendigos, prostitutas e ciclistas estão aí para isso, quem mandou sair de casa e poluir nosso caminho de volta ao lar).
Como não conhece o mundo afora, a não ser nas viagens programadas em pacotes que garantem o traslado até o hotel, e despreza as ideias que não são suas (aquelas que recebeu de pronto dos pais e o ensinaram a trabalhar, vencer e selecionar o que é útil e o que é supérfluo), tudo o que é novo soa ameaçador. O mundo muda, mas ele não: ele não sabe que é infeliz porque para ele só o que não é ele, e os seus, são lamentáveis.
Muitas vezes o reacionário se torna pai e aprende, na marra, o conceito de família. Às vezes vai à igreja e pede paz, amor, saúde aos seus. Aos seus. Vê nos filhos a extensão das próprias virtudes, e por isso os protege: não permite que brinquem com os meninos da rua nem que tenham contato com ideias que os retirem de sua órbita. O índice de infarto entre os reacionários é maior quando o filho traz uma camisa do Che Guevara para casa ou a filha começa a ouvir axé e namorar o vocalista da banda (se ele for negro o infarto é fulminante).
Mas a vida é repleta de frestas, e o tempo todo estamos testando as mais firmes das convicções. Mas ele não quer testá-las: quer mantê-las. Por isso as mudanças lhe causam urticárias.
Nos anos de 1970, vivia com medo dos hippies que ousavam dizer que o amor não precisava de amarras. Eram vagabundos e irresponsáveis, pensava ele, em sua sobriedade.
Depois vieram os punks, os excluídos de aglomerações urbanas desajeitadas, os militantes a pedir o alargamento das liberdades civis e sociais. Para o reacionário, nada daquilo faz sentido, porque ninguém estudou como ele, ninguém acumulou bens e verdades como ele e, portanto, seria muito injusto que ele e o garçom (que ele adora chamar de incompetente) tivessem o mesmo peso numa urna, o mesmo direito num guichê de aeroporto, o mesmo assento na mesa de fast food.
Para não dividir espaços cativos, frutos de séculos de exclusão que ele não reconhece, eleva o tom sobre tudo o que está errado. Sabendo de seus medos e planos de papel, revistas, rádios, televisão, padres, pastores e professores fazem a festa: basta colocar uma chamada alarmista (“Por que você trabalha tanto e o País cresce tão pouco?”) ou música de suspense nas cenas de violência (descontrolada!) na tevê para que ele se trema todo e se prepare para o Armagedon. Como bicho assustado, volta para a caixinha e fica mirabolando planos para garantir mais segurança aos seus. Tudo o que vê, lê e ouve o convence de que tudo é um perigo, tudo é decadente, tudo é importante, tudo é indigno. Por isso não se deve medir esforços para defender suas conquistas morais e materiais.
E ele só se sente seguro quando imagina que pode eliminar o outro. Primeiro, pelo discurso. No começo, diz que não gosta desse povinho que veio a seu estado rico tirar espaço dos seus. Vive lembrando que trabalha mais e paga mais impostos que a massa que agora quer construir casas em seu bairro, frequentar os clubes e shoppings antes só repletos de suas réplicas. Para ele, qualquer barberagem no trânsito é coisa da maldita inclusão, aqueles bárbaros que hoje tiram carta de habilitação e ainda penduram diplomas universitários nas paredes. No tempo dele, sim, é que era bom: a escola pública funcionava (para ele), o policial não se corrompia (sobre ele), o político não loteava a administração (não com pessoas que não eram ele).
Há que se entender a dor do sujeito. Ele recebeu um mundo pronto, mas que não estava acabado. E as coisas mudaram, apesar de seu esforço e de sua indignação.
Ele não sabe, mas basta ter dois neurônios para rebater com um sopro qualquer ideia que ele tenha sobre os problemas e soluções para o mundo – que está, mas ele não vê, muito além de um simples umbigo. Mas o reacionário não ouve. Os ignorantes são os outros: os gays que colocam em risco a continuidade da espécie, as vagabundas que já não respeitam a ordem dos pais e maridos, os estudantes que pedem a extensão de direitos (e não sabem como é duro pegar na enxada), os maconheiros que não estão necessariamente a fim de contribuir para o progresso da nação, os sem-terra que não querem trabalhar, o governante que agora vem com esse papo de distribuir esmola, combater preconceitos inexistentes (“nada contra, mas eles que se livrem da própria herança”), os países vizinhos que mandam rebas para emporcalhar suas ruas.
O mundo ideal, para o reacionário, é um mundo estático: no fundo, ele não se importa em pagar impostos, desde que não o incomodem. Como muitos não o levam a sério, os reacionários se agrupam. Lotam restaurantes, condomínios e associações de bairro com seus pares, e passam a praguejar contra tudo.
Quando as queixas não são mais suficientes, eles juntam suas solidões e ódio à coletividade (ironia) e se organizam. Juntos, eles identificam e escolhem os porta-vozes de suas paúras em debates nacionais. Seus representantes, sabendo como agradar à plateia, são eleitos como guardiões na moralidade. Sobem a tribunas para condenar a perversidão, o aborto, a bebida alcoólica, a vida ao ar livre, as roupas nas escolas. Às vezes são hilários, às vezes incomodam.
Mas, quando o reacionário se vê como uma voz inexpressiva entre os grupos que deveriam representá-lo, bota para fora sua paranoia e pragueja contra o sistema democrático (às vezes com o argumento de que o sistema é antidemocrático). E se arma. Como o caldo cultural legitima seu discurso e sua paranoia, ele passa a defender crimes para evitar outros crimes – nos Estados Unidos, alvejam imigrantes na fronteira; na Europa, arrebentam árabes e latinos; na Candelária, encomendam chacinas e, em QGs anônimos, planejam ataques contra universitários de Brasília que propagam imoralidades.
O reacionário, no fim, não é patrimônio nacional: é um cidadão do mundo. Seu nome é legião porque são muitos. Pode até ser fraco e viver com medo de tudo. Mas nunca foi inofensivo.
No Limpinho & Cheiroso
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