10 de jun de 2013

O homem que vazou os dados do esquema de vigilância nos EUA

Refugiado em Hong Kong, Edward Snowden diz que não quer viver “em uma sociedade em que tudo é gravado”.
Snowden
Snowden: Bond é para os fracos

Um ex-assistente técnico da CIA é o homem responsável pelo vazamento de informações que levaram a um dos mais importantes escândalos na história política recente americana. Edward Snowden tem 29 anos e trabalhava na consultoria Booz Allen. Foi funcionário da Agência de Segurança Nacional nos últimos quatro anos.
Na ASN se revoltou ao ver como o governo americano monitora pela internet a vida das pessoas. Nos servidores de companhias como Google, Microsoft e Facebook, os serviços de inteligência dos EUA têm livre acesso a emails, chats, compras — a tudo, enfim, que os cidadãos imaginam fazer protegidos pelos direitos de privacidade.
Snowden é o espião dos nossos tempos. Não um tipo afetado que fala inglês com um ovo na boca, tomando martíni e pilotando carros vintage, como Bond, mas um nerd que trabalha em casa com um computador e é ativista de direitos humanos.
Ele fez o cálculo certo: o fato de sair à luz do dia o torna um alvo mais difícil para quem quer que queira apagá-lo. Digamos, o governo americano. Além disso, ele declara que está seguindo um princípio moral: “Eu não tenho nenhuma intenção de esconder quem eu sou porque sei que eu não fiz nada de errado”.
Ele pediu para sair do armário, segundo o Guardian, jornal que publicou suas revelações. Para Glenn Greenwald, autor do furo, Snowden tem a mesma estatura de gente como Daniel Ellsberg e Bradley Manning. Ao entregar os documentos secretos da Agência de Segurança Nacional, ele adicionou um bilhete: “Eu entendo que vou sofrer por meus atos”.
Snowden foi entrevistado por Greenwald e outro repórter em Hong Kong, para onde se mudou (viveu no Havaí até maio). Ele optou por fugir para Hong Kong porque a China é um dos poucos países do mundo que não vão ceder a pressões de extradição dos Estados Unidos.
Sua explicação para ter se tornado o chamado “whistleblower” (o termo para definir quem passa segredos de estado para a imprensa) é quase prosaica: “Eu não quero viver numa sociedade que faz esse tipo de coisa… Eu não quero viver num mundo em que tudo o que eu faço e falo é gravado. Isso não é algo que eu vá apoiar ou aceitar”.
“Há coisas mais importantes do que dinheiro. Se eu fosse motivado por dinheiro, poderia ter vendido esses documentos para quaisquer países e ficado muito rico”.
Snowden é descrito como calmo, inteligente, simpático. É mestre em computação. Apoia organizações a favor da livre circulação de informações na internet. Está compreensivelmente tenso. Durante o encontro com os jornalistas, um alarme de incêndio disparou e ele entrou em parafuso. “Isso não aconteceu antes”, disse ele.
Desde que fez o check-in no hotel onde está hospedado, saiu apenas três vezes do quarto. A conta está alta. Ele coloca travesseiros na porta para se prevenir. Cobre a cabeça e o computador com um pano vermelho para que a senha não seja descoberta por câmeras ocultas.
Não votou em Obama ou Romney nas últimas eleições. “Votei num terceiro partido. Mas eu acreditei nas promessas de Obama. Ele continuou com as políticas de seu antecessor”.
Obviamente, não vê chance alguma de voltar aos Estados Unidos. Conta com a possibilidade de ser preso por violar o Pacto de Espionagem. Sua esperança é buscar asilo na Islândia, país com tradição de defensor dos direitos na web. “Acredito que tudo isso valeu a pena”, afirma Snowden. “Não tenho arrependimentos”.

Kiko Nogueria
No DCM
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O Millenium e a conta de luz do Aécio

Todo mundo já está acostumado com os protestos organizados pelo Instituto Millenium, esconderijo da direita mais reacionária, contra os impostos na gasolina.
Os alvos são, sempre, o Governo Federal e a Petrobras.
A Petrobras recebe R$ 1,36 por litro na refinaria e o Governo Federal, como a gente já mostrou aqui, reduziu para 10% do preço de venda a incidência de imposto sobre a gasolina. O resto dos impostos são estaduais.
Mas é curioso que, enquanto se reclama dos encargos setoriais incidentes na conta de luz, não aparece uma alma para criticar as alíquotas dos impostos estaduais que se aplicam ao consumo de energia elétrica.
Estes encargos, agora, representam 3,9% do valor cobrado.
Enquanto o ICMS chega a 30% do valor pago pelo consumidor.
E adivinhe você quem é o estado campeão na cobrança de imposto sobre a conta de energia?
Sim, exatamente Minas Gerais, que tem uma alíquota de 30% incidindo sobre todos os que consomem mais de 90Kwh mensais. Isto é, quase todo mundo que tenha uma geladeira, uma televisão e um chuveiro elétrico, assim mesmo usado com extrema moderação. E mais nada, nem uma lampadazinha.
É só conferir a tabela aí de cima. Quem tiver dúvida, acesse a tabela completa das alíquotas de ICMS, aqui. Está na pagina 18 do documento.
Bem, o Sindicato dos Fiscais mineiro, depois de fazer protestos em praça pública distribuindo lâmpadas econômicas,  começou a veicular uma campanha explicando e condenando as altas alíquotas cobradas delo governo do Estado nos preços, além da energia (30%), na gasolina (27%) e nas contas de telefone (25%).
O que fez o Governo do Estado?
Está tentando proibir, através do Judiciário, a veiculação dos anúncios.
Ah, e não houve aumento das alíquotas depois que Aécio saiu do Governo, não. Passou oito anos lá cobrando 30% dos consumidores.
É assim que ele quer combater a inflação?
Fernando Brito
No Tijolaço
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Outro corintiano preso com sinalizador

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Economist critica até transmissão de futebol do Brasil

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Revista britânica, que tem feito sucessivas críticas à política econômica brasileira, optou agora por atacar a transmissão do jogo entre Brasil e Inglaterra, feita pela TV Globo; publicação citou "delay" de áudio no primeiro tempo e reclamou da publicidade móvel em campo; "O Maracanã reconstruído, apesar dos temores, não desabou. Ainda assim, a partida entre Brasil e Inglaterra no último dia 2 não ocorreu sem alguns problemas", diz texto
Portal Imprensa - A revista britânica The Economist fez duras críticas à transmissão do amistoso entre Brasil e Inglaterra. "Infelizmente, a Globo foi incapaz de atender aos padrões esperados", avaliou o veículo.
Um texto na editoria de esportes da publicação lamenta a qualidade das imagens, do som e do efeito provocado pela publicidade móvel exibida no primeiro tempo, informou o blog do jornalista Mauricio Stycer.
"O Maracanã reconstruído, apesar dos temores, não desabou. Ainda assim, a partida entre Brasil e Inglaterra no último dia 2, um ensaio para a Copa do Mundo no ano que vem, não ocorreu sem alguns problemas", inicia o texto.
Segundo a revista, os espectadores britânicos, vendo o jogo pela ITV, rechearam o Twitter de reclamações, mas a emissora alegou que não tinha culpa, já que a responsabilidade era da Globo.
A transmissão da brasileira estava com "delay" no primeiro tempo — o som da narração chegava segundos depois da imagem.
A publicidade móvel também foi alvo de protestos. Por meio de uma nova tecnologia, anúncios virtuais podem se sobrepor às placas nas laterais do campo, o que dá a chance de exibir propagandas diferentes para cada mercado.
De acordo com a Economist, este tipo de publicidade foi usada pela primeira vez no Brasil durante a partida e, "tal como um atacante fora de forma, foi substituída no segundo tempo".
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PAC 2 Investiu 56,3% do previsto até 2014

Programa de Aceleração do Crescimento 2 injetou R$ 557,4 bilhões em infraestrutura logística, social e urbana até abril deste ano, segundo balanço divulgado nesta segunda-feira pela ministra Miriam Belchior, do Planejamento; foram concluídas 54,9% das obras previstas até o ano que vem, resultado 18,4% superior ao apresentado no último balanço; programa contabiliza 1,8 mil quilômetros de rodovias concluídas...
O Programa de Aceleração do Crescimento 2 (PAC2) investiu R$ 557,4 bilhões em infraestrutura logística, social e urbana até abril deste ano. Esse valor corresponde a 56,3% do total previsto até 2014.
Em termos de ação foram concluídas 54,9% do que era previsto até 2014, o que corresponde a R$ 388,7 bilhões, resultado 18,4% superior ao apresentado no último balanço de (R$ 328,2 bilhões).
No último balanço do PAC 2, no início do ano, o governo informou que 47,8% de R$ 1 trilhão previstos em investimentos para o período 2011-2014 já haviam sido feitos.
O programa de retomada de planejamento e execução de obras de infraestrutura social, urbana, logística e energética é dividido em seis eixos: urbanização, fornecimento de água e eletrificação, moradia, transportes, energia e cidadania.
PAC 2 contabiliza 1,8 mil quilômetros de rodovias concluídas
O PAC 2 já contabiliza 1.889 quilômetros (km) de rodovias concluídas. Há, ainda, outros 7.349 km de obras em andamento. Deste total, 2.654 km são de obras de duplicação e adequação, e 4.695 km de construção e pavimentação.
De acordo com o balanço do programa, foram concluídos importantes trechos que servem de corredores para o escoamento de produção e integração entre regiões produtoras e consumidoras: 260 km da BR-135 em Minas Gerais; 74 km na BR-235 na Bahia. Ao todo, 51,6 mil km de rodovias estão sob manutenção.
Estão também em andamento 2.579 km de ferrovias em obras. A equipe do governo destaca, entre os trechos de ferrovias, 1.089 km em obras na Norte Sul; 536 km da Ferrovia de Integração Oeste-Leste; e 84 km da Ferronorte. Foram concluídos 96 km da Ferrovia Transnordestina entre Missão Velha (CE) e Salgueiro (PE).
O Balanço do PAC informa que há, nos portos, 12 obras e projetos de recuperação, alargamento, dragagem de aprofundamento e de terminal de passageiros em portos como os de Fortaleza, Vitória, Suape e Santos. Informa, ainda, que já foram concluídos sete terminais hidroviários e iniciadas obras em outros 14 na Região Norte.
Foram concluídas 14 obras em aeroportos. Entre elas, as de ampliação de Guarulhos, Vitória, Goiânia e Cuiabá. Juntas, essas obras agregam à capacidade dos aeroportos, 14 milhões de passageiros por ano a mais.
Daniel Lima e Pedro Peduzzi
Agência Brasil
No A Nova Via
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O “Esquenta”, de Regina Casé, é o programa mais racista da TV?

Ela envia uma mensagem retrógrada com seus estereótipos dos negros.
Ela
Ela
O Esquenta é o programa mais conservador da televisão brasileira. É uma versão barulhenta e colorida de velhos costumes. Num primeiro olhar, parece uma grande festa na periferia, na qual as gírias, danças e modas de regiões com IDH baixo e criminalidade alta são irradiadas para todo o país pela tevê.
Vemos meninos contorcendo as articulações em performances de passinho, meninas com minissaia e microvocabulário, rapazes negros com cabelos louros e óculos espelhados de cores berrantes rodando o salão felizes e eufóricos. A festa mistura samba, funk, estilo de vida despreocupado e despudorado, concurso de beleza, humor, artistas de novela, enfim, para usar um termo bem periférico, “tudo junto e misturado”.
Essas características, apenas, não me incomodam. Não sou quadrado, respeito e até admiro algumas formas de cultura vindas do gueto e abuso do direito de desligar a TV. O que me irrita, e muito, e faz com que chame o programa de conservador e escravocrata é a cor de pele predominante nessa festa maluca.
Certamente o Esquenta é o programa com o maior percentual de negros da TV aberta. Enquanto as novelas, seriados e telejornais são predominantemente caucasianos, quem manda ali são os negros e pardos.
É esse o ponto. O programa reforça o estereótipo dos negros brasileiros como indivíduos suburbanos, subempregados, mas ainda assim felizes, sempre com um sorriso no rosto, esquecendo-se das mazelas cotidianas por meio da dança, do remelexo, das rimas pobres do funk, do mau gosto de penteados e cortes de cabelo extravagantes.
Sou negro e não sei sambar, não pinto meu cabelo de louro, não uso cordões, não ando gingando nem falo em dialeto. Não sou exceção, felizmente. Sei que há muitos caras e moças como eu. Muitos são poliglotas, outros gostam de música clássica, vários gostam mais de livros do que de pessoas, outros reclamam do calor da Brasil, certamente há os que são introspectivos e de poucas palavras, e há os que nem sentem falta do feijão quando viajam para o exterior.
Embora o Esquenta não tenha a proposta de ser um programa sobre cultura negra, ele ajuda a construir um estereótipo. Por que as novelas não têm galãs negros ou musas negras? Faça a lista dos galãs e das musas televisivas e depois veja quantos são negros. O número será irrisório.
O Esquenta ajuda a manter essa ordem. Em vez de rapazes elegantes, mostra dançarinos com cabelos bizarros. As moças, sempre de shorts minúsculos e prosódias vulgares, nunca serviriam de modelo para capas da Marie Claire ou da Claudia.
Regina Casé e seu programa parecem dizer aos jovens dos guetos: “Ei, isso mesmo, aprendam passinho, aprendam a rebolar até o chão, continuem com seu linguajar próprio, porque tudo isso é lindo, é legal, é Brasil, é tudo junto e misturado, continuem com seus empregos modestos, porque a vida é agora, é para ser vivida, curtida, com alegria, malemolência, sempre com um sorriso no rosto”.
E assim, aquela menina sentada no sofá vai continuar achando o máximo desfilar com pouca roupa e pelos das pernas pintados de loiros pela comunidade. Nunca vai pensar em aprender a falar alemão ou tentar entender os grafites de Banksy, da mesma forma que os rapazes nunca sonharão em trabalhar no Itamaraty e praticarão bullying contra os meninos polidos que não falam em dialeto e inventam de estudar violino, já que um programa televisivo de uma das principais emissoras do país legitima seu estilo de vida mal educado e de poucas perspectivas.
Como um coronel oligarca e cínico, o programa dá uma recado para a garotada negra e parda da periferia: “É isso, dancem, cantem, divirtam-se. Mas não saiam do seu lugar”.
Marcos Sacramento
No DCM
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Dizer que governo volta ao modelo FHC é picaretagem jornalística

Não passa de pressão editorializada a notícia publicada neste fim de semana pela Folha de S.Paulo sobre uma suposta mudança na política econômica e um retorno às receitas de Fernando Henrique Cardoso.
O jornal afirma que, “com exceção do controle de gastos públicos, pouco a pouco o governo retoma as outras duas bases do tripé econômico: metas de inflação e câmbio flutuante”. Um dos economistas que justificam essa tese é o tucano Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central no tucanato.
Esse retorno do modelo FHC é um desejo da Folha e dos demais jornalões. Um desejo expresso como notícia com base nas opiniões de confessos tucanos ou ortodoxos da velha guarda. São viúvas do neoliberalismo apresentados como oráculos da sabedoria e da ciência econômica que os deuses lhes transmitiram num passado bem distante num livro de ouro. Embrulhado em nota de 100 dólares.
Pura picaretagem jornalística.
Novo modelo
Qualquer análise, mesmo superficial, mostra que o modelo atual econômico diferente completamente do adotado pelos tucanos. Uma nota publicada pelo jornalista Elio Gaspari neste fim de semana ilustra bem essa mudança.
Ele trata da informação de que FHC criou uma empresa para investir num empreendimento imobiliário. O ex-presidente justificou que “é difícil encontrar investimento em renda fixa que dê alguma coisa". Renda fixa é um investimento financeiro, sem relação com a produção.
Gaspari lembra que, durante o tucanato, esse tipo de aplicação rendeu, na média, 26,6% ao ano, com um pico de 45%. Hoje, a Selic paga 8%. “Portanto, é melhor botar o dinheiro para trabalhar”, afirma o colunista.
“Os tucanos da Sarlat [empresa de FHC] mostraram que confiam no país e patrocinaram uma linda peça de propaganda para a doutora Dilma”, acrescenta.
Essa nota é um belo contraponto à matéria da Folha. O próprio FHC reconhece, com seu investimento, a grande mudança entre um modelo e outro.
É um aval que ele dá à nossa política econômica e ao rumo que demos ao país, um atestado de garantia para o nosso governo. Investe na produção que o governo garante...
ZéDirceu
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Biografia de Dirceu é caso para o Procon

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Jornalista Breno Altman disseca livro de repórter da revista Veja; aponta erros factuais, contradições e pressa; falta de checagem entre afirmações e fontes leva texto a envolver ex-ministro José Dirceu em situações das quais não há registro nenhum de sua participação; presença de Thaís Oyama, chefe do autor Otavio Cabral na revista, tanto na copidescagem do livro como no texto da capa de Veja que o anuncia mostra que "promiscuidade é irrelevante" para os padrões éticos da publicação semanal; "É um desrespeito ao leitor e ao código de defesa do consumidor", diz resenhador; artigo exclusivo
O título é um petardo que coraria escritores mais tarimbados e talentosos. O jornalista Otávio Cabral, da equipe de "Veja", não deixou por menos: "Dirceu, a biografia". Um recorde incrível foi batido pelo autor, que deixaria humilhados biógrafos de maior fama: levou apenas seis meses para pesquisar e escrever "a" obra definitiva sobre personagem crucial da história política brasileira, cuja vida pública percorre quase cinquenta anos.
Patrocinado pela revista que paga seu salário, publicação notória pela isenção quando o assunto é José Dirceu, Cabral mereceu capa em edição desta semana, na lambuja de artigo assinado por Thaís Oyama, sua chefe imediata. A empreitada foi carimbada como "completa e surpreendente".
A resenhadora, aliás, recebe derretidos agradecimentos, no próprio livro, por ter ajudado a "melhorar o texto" e tirar o escriba de "algumas enrascadas". Mas essa aparente promiscuidade é um detalhe irrelevante para os elevados padrões éticos que vicejam na editora situada às margens do rio Pinheiros.
Tampouco tem importância a opinião do pretenso biógrafo, ainda que o grau de intoxicação vá bem além do admissível. Fernando Morais, renomado escritor de esquerda, fez da vida de Assis Chateaubriand, homem de direita, obra prima da biografia. Otávio Cabral, repórter a serviço da mídia fascistóide, porém, não escreveu sobre seu personagem, mas contra ele. Isso era de se esperar. A marca registrada dos jornalistas de "Veja", afinal, com raríssimas exceções, é ostentar os mais aclamados prêmios no vale-tudo que tantaliza boa parte da imprensa tradicional.
Fundamental mesmo é que o livro não passa de uma fraude, da primeira à última linha. Uma enganação. Um desrespeito ao leitor e ao código de defesa do consumidor. O que a revista anuncia e o escritor promete não passam de propaganda enganosa e abusiva. Ambos sonegam informações relevantes, conduzem ao erro e prejudicam o conhecimento da verdade.
Para começo de conversa, Cabral simplesmente omite a lista dos entrevistados para a biografia. Ninguém sabe quem testemunhou ou declarou a maior parte dos fatos. O autor fala em 63 pessoas com quem teria encontrado na fase de pesquisas. Pouquíssimas são citadas nas notas de rodapé. Qualquer biografia que se preza registra as fontes de investigação.
A jornalista Mônica Bergamo, em post no Facebook, já desmentiu relato no qual se viu citada. Certamente não será a única. Fernando Morais, que não foi ouvido pelo autor, também repele como falsos os momentos nos quais é referido. Eu mesmo fui tratado, em determinada passagem, como "porta-voz de Dirceu para momentos delicados, como o sequestro de Abílio Diniz". Não apenas é uma deslavada mentira, como Cabral, por quem aceitei ser entrevistado, jamais me perguntou a esse respeito.
A maior parte das passagens é mera republicação, às vezes literal, de reportagens da própria "Veja" ou de outros veículos, difundidas nas últimas décadas. O autor não se dá ao trabalho de cotejar informações e testemunhos, verificar fatos, refazer caminhos. Seu desempenho não vai além de um colegial que pesquisa algum tema no Google e copia acriticamente o que vê pela frente. Se o livro fosse um TCC – o Trabalho de Conclusão de Curso que as faculdades de jornalismo exigem de seus alunos, Cabral teria levado bomba.
Não vacila em agir com este despudor sequer ao recorrer a arquivos da ditadura militar. Documento assinado pelo delegado Alcides Cintra Bueno Filho, torturador de carteira registrada no DOPS paulista, relata que Dirceu teria sequestrado, em 1968, estudantes ligados ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC). No texto sofrível de Cabral, é o que basta para ser apresentado como fato líquido e certo. E esse é apenas um exemplo.
Outro mais? Lá pelas tantas, o autor conta que Dirceu teria participado de uma ação, em 1972, que resultaria no assassinato de um sargento da Polícia Militar. A fonte? Relatórios do II Exército, que se referem a uma testemunha identificando o líder petista em um cartaz de procurados. A ditadura não abriu inquérito, a partir de prova tão frágil, mesmo José Dirceu sendo um homem marcado para morrer, mas o escrevinhador mandou bala. Não foi capaz, ao menos, de entrevistar um suposto sobrevivente daquela operação, José Carlos Giannini, apesar de citá-lo.
Um biógrafo de verdade, como Mário Magalhães, ao escrever sobre Carlos Marighella, comparou três fontes sobre cada episódio, no mínimo, antes de cravá-lo como verdadeiro. Não é à toa que levou dez anos para concluir sua obra sobre o comandante guerrilheiro. Esse método definitivamente não é o do jornalista de "Veja". Além do recorta-e-cola de matérias antigas e textos policiais, apostou muitas de suas fichas em boatos sem origem indicada e em depoimentos de conhecidos desafetos do biografado. A ideia do contraditório e da acareação lhe é totalmente estranha.
Inúmeras das notas que chancelam determinadas informações apontam para "um assessor", "um jornalista" ou "uma testemunha". Sem nome ou sobrenome. Seria trágico se não fosse cômico. Um dos depoentes que dá a cara é o ex-petista Paulo de Tarso Venceslau. Amigo de Dirceu no movimento estudantil, depois dos anos 90 virou inimigo figadal. Mas seus relatos são tratados pelo autor como verdades cristalinas, sem qualquer contraponto. O resultado seria o mesmo se uma biografia de Fidel Castro fosse escrita principalmente a partir de entrevistas com cubanos da Florida ou se a história de Trotsky fosse contada pela direção soviética dos anos 30 e 40.
O pastiche se supera quando especula que havia suspeita sobre Dirceu ter sido o delator que teria levado às quedas e ao extermínio do Molipo, organização armada à qual pertencia. O próprio Cabral, no entanto, cita que os contemporâneos do biografado, alguns também sobreviventes do massacre, negam essa versão e prestam-lhe seguidas homenagens e manifestações de solidariedade. O autor se baseia em depoimento de um ex-coronel das Forças Armadas, envolvido em atividades repressivas, que não é corroborado por mais ninguém ou por qualquer documento. Pura patifaria.
Não consegue, a propósito, sequer dar ares de seriedade a suas invencionices. Profundamente ignorante sobre a história do país e da esquerda, confunde incontáveis dados, datas e personagens, além de se atrapalhar e cair em seguidas contradições. Paulo Vanucchi, citemos um caso, é apresentado como militante da ALN em um canto e do MEP n'outro, algo estapafúrdio, misturando organizações sem qualquer identidade entre si.
Identifica o Departamento América, organismo do Partido Comunista Cubano, como parte do serviço secreto. Destaca que Dirceu teria ficado na Casa do Protocolo, supostamente localizada em área periférica de Havana, quando há inúmeras casas de protocolo, como os cubanos chamam as residências para convidados estrangeiros, todas com endereço em um dos bairros mais nobres da cidade. E por aí vai. Cabral, diga-se, conseguiu escrever páginas e páginas sobre a estadia de seu personagem em Cuba sem ter pisado na ilha para ouvir testemunhas e pesquisar fontes primárias. Um assombro de arrivismo.
Para apimentar o enredo, deu espaço a todo tipo de fofoca sobre a vida pessoal do ex-ministro. Fez uma lambança sem tamanho, atribuindo situações e sentimentos, ainda que jamais tenha ouvido qualquer de suas ex-companheiras. Erra até datas de casamento e cria relações como um romancista de folhetim barato. No bom estilo inventa-e-foge, planta maliciosamente que o mulherengo infernal teria algum vínculo homossexual com o intelectual cubano Alfredo Guevara, para logo dizer que não era bem assim.
Sobre o chamado "mensalão", então, Cabral faz um prato caprichado. Uma colada básica no relatório de Joaquim Barbosa, e está liquidada a fatura. Nem mesmo aproveita a loquacidade do advogado José Luiz de Oliveira e Lima, costumeiramente disponível a contar sobre bastidores de seu cliente, para investigar contraprovas da defesa ou analisar mais a fundo tanto os acontecimentos entre 2003-2005 quanto o julgamento de 2012. Preguiçosa e interesseiramente, adota sem pestanejar o ponto de vista de quem lhe assina o cheque de cada mês.
Os únicos leitores com os quais Cabral parece ter compromisso, a bem da verdade, são seus chefes na Veja. A estes entregou a mercadoria prometida: mais um libelo contra José Dirceu. Feito nas coxas, seguindo o manual para linchamento de reputações que faz sucesso entre seus pares, mandando às favas qualquer critério jornalístico ou rigor de pesquisa. Coisa de charlatão.
Ao distinto público, no entanto, está sendo oferecido gato por lebre. O livrinho é um estelionato editorial que lança mais luz sobre o autor e seus patrocinadores que sobre o biografado. Um bom caso para o Procon.
Breno Altman é diretor editorial do site Opera Mundi e da revista Samuel
No 247
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O rendez-vous de madame Devaux

Como uma discreta e sofisticada cafetina francesa amealhou um patrimônio milionário, entretendo políticos e empresários poderosos nos anos 1950
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A década de 1950 é chamada de Anos Dourados no Brasil porque, entre outros motivos, foi próspera para negócios e rica em experimentações comportamentais. A francesa Alice Devaux reunia em seu peculiar trabalho um pouco de cada uma dessas características e ganhava muito dinheiro. Ela era cafetina de luxo e seu diferencial não era o charmoso sotaque francês, já que várias conterrâneas tinham a mesma profissão no País, mas o fato de saber guardar segredos. E isso valia ouro, além de pedras preciosas, apartamentos, carros, etc. Sua clientela pagava caro por momentos de sexo com prostitutas em sigilo total. “Passavam por aqui deputados, senadores, empresários e me lembro também de um delegado de polícia. Mas não me peça para citar nomes”, diz o aposentado Roberto Lanaro, 81 anos, que ainda reside em um apartamento no andar de baixo da cobertura de Alice, na avenida Beira-Mar, no centro do Rio de Janeiro. Com espetacular vista para o Pão de Açúcar, o Corcovado e a Baía de Guanabara, o imóvel, no 12º. andar, era o ponto de encontro entre belas mulheres e homens ricos — e casados, na grande maioria.
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O apartamento cinematográfico, com vista para a
Baía de Guanabara (topo), onde Alice (acima) recebia belas
mulheres e homens ricos. Abaixo, a ex-tutora Ely Guimarães Pinto
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Discrição, sobriedade, elegância e até certa erudição também eram trunfos de Madame Devaux. “Ela era muito elegante e educada, porém, praticamente não falava com os vizinhos”, lembra Lanaro. O silêncio e a agilidade para apagar pistas comprometedoras eram essenciais à rede de rendez-vous que envolvia vários outros apartamentos que ela emprestava aos clientes para encontros românticos ou esbórnia. A deslumbrante cobertura linear de 250 metros quadrados era mais usada para reuniões, festas e happy hours. Apesar da metragem, o imóvel tem apenas dois quartos. O espaço privilegiado é da sala, com piso de granito preto Tijuca — que não existe mais no Brasil porque a extração está suspensa — e do terraço panorâmico. Ali, homens importantes e influentes eram apresentados uns aos outros e, algumas doses de uísques depois, escolhiam uma garota de programa, chamadas de prostitutas na época. Alice também administrava encontros de amantes antigos ali.
Chama a atenção uma suíte que pertence ao imóvel, mas é totalmente independente, disfarçada. Sua entrada é pelo corredor, bem perto dos belíssimos elevadores de madeira. Há suspeitas de que o estratégico quarto era usado para encontros sexuais rápidos. A cozinha era pequena, ao estilo do arquiteto francês Le Corbusier (1887-1965), com a funcionalidade típica de uma cabine de avião: prateleiras e armários geometricamente desenhados para circundar uma pessoa. Alice reservou uma espaçosa suíte para si própria, com direito a despertar com vista para o Pão de Açúcar. Um antigo inquilino de um de seus imóveis teria dito que a cafetina mantinha fieis camareiras treinadas em arrumação de luxo, equivalente a hotéis cinco estrelas. Vale lembrar que não existiam motéis naquele tempo.
“Ela tinha caixas e mais caixas de joias valiosíssimas. Colares, brincos, anéis, broches feitos de ouro, brilhantes e pedras preciosas. Foram leiloadas em meados de 1980 por ordem de um juiz, num hotel de Copacabana. Quem arrematou não faz ideia que pertenceram a uma cafetina”, revela à ISTOÉ a ex-administradora dos bens de Alice e também companheira dos últimos anos de vida, Ely Maria Cazadio Guimarães Pinto, 76 anos. “Tudo indica que a cobertura da Beira Mar era uma espécie de sede e, os apartamentos, filiais. Encontrei lá muito material para decoração, objetos dourados, finos. Acredito que eram usados para dar maior luxo aos imóveis”, afirma Ely. Embora a curadora tenha convivido com Alice até a morte, ela garante nunca ter ouvido confissões ou mesmo a admissão de que tinha sido cafetina.
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PATRIMÔNIO
Terreno em condomínio na Gávea, avaliado em R$ 5 milhões,
e prédio de salas comerciais, no centro
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Nascida em Paris, em 1903, a francesa desembarcou no Rio em 1925, aos 21 anos, tendo se naturalizado brasileira em 1951. Morreu em 1989, sozinha em uma clínica geriátrica, após anos de luta contra o Mal de Alzheimer. Apenas três pessoas acompanharam seu enterro: Ely, o marido dela e uma assistente do Tribunal de Justiça. “Aparentemente, não tinha parentes. Todos os familiares morreram na Primeira Guerra Mundial”, explica a ex-curadora. Mas sua história não acabou com a morte. Madame Devaux deixou um patrimônio de 16 imóveis, sem herdeiros. Finalmente, o espólio irá a leilão em meados de julho, com renda revertida para a Prefeitura, como manda a lei. Sua fortuna também incluía ações da extinta Companhia Luz Steárica e da empresa Controle Industrial e Financeiro S/A, onde foi sócia-diretora. Esses investimentos, entre outros, viraram pó com as mudanças de moedas brasileiras e o fim das empresas. Como executiva, ela se destacou em uma reunião de conselho deliberativo, realizada em 1941, conforme consta de ata publicada no Diário Oficial da União. A francesa administrava sua rede de rendez-vous como se fosse uma empresa comum. Com firmeza e objetivo de lucro. Afinal, tudo era negócio mesmo.
A cobertura, hoje repleta de problemas estruturais devido à falta de conservação, deverá render algo em torno de R$ 1 milhão. O bem mais valioso é o terreno de quatro mil metros quadrados na Gávea, bairro nobre da zona Sul carioca, vizinho de figuras como o arquiteto Hélio Pellegrino, o neurocirurgião Paulo Niemeyer e o maestro Isaac Karabchevsk. Avaliado em pelo menos R$ 5 milhões, foi o último endereço de Alice antes de ser transferida para a clínica geriátrica. “Para a prefeitura, não faz sentido gastar dinheiro público para reformar um imóvel e alugá-lo. Esperamos conseguir o máximo possível por apartamentos e salas comerciais, que estão, em sua maioria, no Centro, uma região que sofreu grande valorização nos últimos anos”, afirma o superintendente de Patrimônio Imobiliário da prefeitura, Fabrício Tanure, que avalia em pelo menos R$ 10 milhões todo o espólio da francesa. Especialistas do ramo imobiliário, entretanto, calculam que este valor pode dobrar.
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Mas por que Alice e outras cafetinas francesas faziam tanto sucesso entre os poderosos? O historiador carioca Milton Teixeira diz que a preferência dos ricaços brasileiros por moças dessa nacionalidade se deve à fama que elas ganharam de boas amantes desde o período que a corte portuguesa morou na cidade, na década de 1810. Oriundas de um país onde a emancipação da mulher foi mais rápida, elas conseguiram bons empregos no comércio, mas dinheiro alto vinha mesmo dos bordéis. “O próprio imperador Dom Pedro I teve duas amantes francesas. Até hoje usamos expressões do idioma francês trazidas por elas”, afirma o historiador.
Michel Alecrim
Colaborou Eliane Lobato 
No IstoÉ
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