9 de jun de 2013

Um Lugar ao Sol

O diretor pernambucano Gabriel Mascaro (atualmente em cartaz com o documentário Doméstica) entrevistou moradores de nove coberturas em Recife, São Paulo e Rio de Janeiro para construir este mosaico de personagens que oscilam do normal ao grotesco no filme Um Lugar ao Sol, de 2009. Um deles, o empresário paulista Oscar Maroni, dono da boate Bahamas, exibe toda a filosofia de vida de quem frequenta (sic) “os melhores hotéis, os melhores relógios, as melhores roupas” . “Me sinto muito mal quando vejo pobres que não têm um Jaguar, um Mercedes”, diz. O filho de uma madame carioca, espécie de futuro Chiquinho Scarpa sob efeito de LSD, resume o privilégio de se morar no alto: quem possui uma cobertura estaria mais próximo de Deus do que o restante dos mortais. “Aqui nós podemos falar com Deus mais facilmente”, concorda a mãe.
Percebe-se que o “estar acima” dos cidadãos comuns não é apenas uma figura de linguagem quando o jovem pernambucano –que ganhou o apartamento de presente dos pais mas não quer ser chamado de playboy– revela preferir a piscina da cobertura do que a praia lotada, suja e cheia de tubarões lá embaixo. Ou quando o casal do Rio de Janeiro se alegra ao contar como é bonito, visto do alto, os bandidos trocando tiros nos morros vizinhos. “É tudo colorido, parecem fogos de artifício”, narra a esposa, olhos brilhando. Perfeita simbologia dos “diferenciados” que fogem do convívio com os habitantes da vida real, o documentário de Mascaro causa risos nervosos no espectador –além de desprezo. Não percam
No Socialista Morena
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A primeira semana de Titi Civita à frente da Veja

A estreia mostrou que é necessário arejar a revista com urgência.
Titi Civita, ao lado do pai, num evento da Abril
Titi Civita, ao lado do pai, num evento da Abril
 A vantagem de uma jornalista bem colocada sobre os demais brasileiros é que ela tem um imediato direito de resposta quando é vítima de um erro.
Não depende da justiça.
Isso levou a um fato notável na mídia brasileira: a jornalista Mônica Bérgamo, colunista social da Folha, obteve instantaneamente um pedido de desculpas do jornalista Otavio Cabral, da Veja.
Numa biografia de Zé Dirceu que está chegando às livrarias e que foi capa da Veja, Cabral errou ao situar o excelente texto de MB que narrava o preparativo de Dirceu, no final do ano, para enfrentar o que parecia ser a prisão iminente.
MB disse que o caso estava “completamente errado”. Dirceu, segundo o livro, a convidou para o que se prenunciava como uma espécie de última ceia.
Foi ela que o procurou, veio a retificação.
No Twitter, MB apontou o equívoco e, depois, informou que o autor e a editora tinham concordado em repará-lo. E deu o assunto por encerrado para ela.
Talvez para ela, mas para os demais brasileiros não. O caso merece ampla discussão pelo que revela além do erro.
Tiros previsíveis acabam não machucando
Tiros previsíveis acabam não machucando
Primeiro, o descompromisso com os fatos, sobretudo se eles são contra os suspeitos de sempre.
Ora, se o texto de MB foi tão importante para merecer citação no livro, por que não conversar com ela?
Segundo o Twitter, Cabral é casado com Vera Magalhães, editora do Painel da Folha. Se é verdade, ele não teria sequer que procurar MB. Bastaria pedir que sua mulher checasse o caso com a colega.
Os brasileiros não têm o privilégio da reparação de erro que MB tem. Isso por causa de Ayres Britto, autor do prefácio do livro precocemente morto de Merval Pereira sobre o Mensalão.
Ayres Britto, no STF, desativou a Lei de Imprensa da ditadura militar, mas fez um serviço tão ruim que deixou as coisas bem piores do que eram.
Ele não cuidou que fosse preservado o direito de resposta. Segundo a recapitulação dos fatos, ele até pensou nisso, mas teria decidido tratar de outras coisas depois que a Folha publicou uma reportagem em que seu genro aparecia numa situação constrangedora.
Eis a nossa mídia, eis o nosso Supremo.
Você não precisa ler o livro de Cabral para saber que é uma paulada em Dirceu. Basta saber que ele trabalha na Veja.
E isso mitiga a força de qualquer ataque, porque ele tenderá a ser calcado em razões que vão muito além do jornalismo e da preocupação com os brasileiros.
Do mesmo modo, qualquer elogio que a Veja faça a Joaquim Barbosa será enfraquecido pela sua enorme vontade em fazer dele o que não é: um ex-menino pobre que mudou o Brasil.
A perda de influência da revista ao se tornar tão previsível nos afagos e chutes está estampada no último Datafolha.
Joaquim Barbosa. Numa simulação como candidato em 2014, teve 8% das intenções de voto. O alvo predileto da Veja, Lula, teve 55%, o que lhe daria vitória no primeiro turno.
A relativa surpresa da capa é que na primeira edição sob nova gestão o tom seja o mesmo.
Desde a morte do pai, o caçula Titi Civita comanda oficialmente o Conselho Editorial da Abril. Isso quer dizer que ele é o responsável pela voz da Veja.
A visão de Roberto Civita do governo e do Brasil contemporâneo – em suas coisas boas e ruins — já estava completamente comprometida por conta de uma guerra pessoal travada contra Lula.
Dada a popularidade de Lula, e a fragilidade de quase todas as acusações feitas contra ele nos últimos dez anos, Roberto Civita e a Veja se tornaram objeto de repulsa de muitos brasileiros.
Em seu obituário, a Forbes classificou a Veja como uma das publicações “mais detestadas do Brasil”.
Era de esperar que sob Titi, mais jovem, na casa dos 40, a revista se tornasse mais arejada e menos raivosa, condições essenciais para que se faça bom jornalismo.
O primeiro sinal é ruim. A revista que está nas bancas parece ter 150 anos de idade, e tomada dos preconceitos da senectude. Você vai ao site e vê Reinaldo Azevedo pedir cadeia para os jovens do Movimento Passe Livre.
Não há por onde escapar.
Considerada a dimensão da repulsa à linha da revista, abrir a janela é urgente – caso se entenda que a receita que vinha sendo seguida não traz bons resultados.
Me chamou a atenção, ao escrever sobre a morte de RC, o grau de ódio em tantos manifestantes.
Permanecendo as coisas como estão, Titi Civita logo atrairá para si a herança da rejeição que marcou os últimos anos de seu pai.
Paulo Nogueira
No DCM
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Belfagor

A única história curta, conhecida, de Nicolau Maquiavel. Um diabo é enviado à terra para verificar porque todos os homens que chegam ao inferno apresentam como causa única de estarem ali o fato de serem casados
Nicolau Maquiavel
Nas antigas memórias das crônicas de Flo­rença lê-se uma história relacionada a um homem san­tíssimo que, em meio à devassidão da época, era mui respeitado por todos seus contemporâneos. Certo dia, absorto em suas piedosas editações, conseguiu ver que as almas dos infelizes mortais que morriam pecadores e que iam para o inferno lamentavam — se não todos, pelo menos a maior parte — que a razão de tal desdita devia-se ao fato de terem-se casado. Minos e Radamanto, juntos com ou­tros juízes do inferno, ficaram deveras admirados e, não po­dendo dar crédito às calúnias que tais almas lançavam ao sexo feminino, deram ciência disso a Plutão, tanto mais que tais la­mentações só faziam crescer. Plutão então deliberou examinar o caso de perto com todos os príncipes do inferno para, só depois, tomar partido do que fosse julgado o mais conveniente para descobrir a falácia e saber a verdade por inteiro. Convocou-os, pois, ao conselho, e falou nos seguintes termos:
— Embora eu, meus diletos amigos, por disposição celeste e vontade do destino, e ainda que me encontre acima do juízo de Deus e dos homens, no entanto, como maior prova de sabedoria e prudência, resolvi consultar-vos hoje sobre a conduta que devo seguir num caso que poderia redundar em infâmia para nosso império. Todas as almas dos homens que entram em nosso reino pretendem ter sido causa disso a própria mulher, o que não nos parece possível. Condenando tal afirmação, talvez os levianos nos acusem de maldade; caso não o fizermos, talvez os injustos nos considerem demasiado indulgentes e pouco afeitos à justiça. Querendo evitar uma e outra acusação, e não encontrando um meio para tal, decidimos convocar-vos a fim de que nos ajudeis com vossos conselhos e façais com que este reino continue a viver sem infâmia, como sempre tem vivido.
Nenhum daqueles príncipes das trevas deixou de considerar o caso importantíssimo e de grande monta. Estavam todos de acordo em que era necessário descobrir a verdade, mas discordavam quanto à maneira de assim proceder. Al­guns julgavam que se devia mandar um deles ao mundo, outros que vários, para ali pessoalmente co­nhecerem, soba forma humana, qual era a verdade. A outros pa­recia desnecessário tal transtorno: bastaria obrigar algumas almas, por meios de diversos tormentos, a confessá-la. No entanto, como a maioria optasse pela pri­meira opinião, foi essa a adotada. Mas ninguém se ofereceu vo­luntariamente para a empreitada; assim, recorreram eles a um sorteio. A sorte recaiu sobre Bel­fa­gor, arquidiabo, que an­te­riormente — antes de cair do Céu — tinha sido arcanjo.
Foi com relutância que ele aceitou o encargo, mas o poder de Plutão o constrangera a executar o que o conselho deliberara e teve assim que consentir nas condições solenemente aceitas por todos. Fora deliberado que aquele em quem recaísse a sorte receberia imediatamente cem mil ducados, e com eles viria nascer no mundo. A casar-se sob a forma de um homem e a viver com a mulher dez anos; depois, fingindo morrer, voltaria e exporia a seus superiores a própria vivencia, quais eram os encargos e os incômodos do casamento. Deliberou-se também que, durante o tempo em apreço, ele ficaria submetido a todos os achaques e males a que os homens estão sujeitos, inclusive a pobreza, a prisão, as doenças e todas as desgraças que aos mortais ocorrem, salvo se por meio de engano e astúcia conseguisse livrar-se delas.
Aceitas pois as condições e os ducados, foi-se Belfagor ao mundo e, devidamente provido de cavalos e acompanhantes, entrou ele em Florença com o maior aparato. Escolhera esta cidade para domicílio, entre todas as demais, por lhe parecer a mais plausível para quem quisesse viver empregando seu dinheiro em negócios. Fez-se chamar Rodrigo de Castela e a­lu­gou uma casa no bairro de Todos os Santos (Ognissanti). Para que não pudessem lhe descobrir os antecedentes, disse ter partido da Espanha ainda criança; dali fora à Síria e a Alepo, onde ganhara tudo o que possuía; de lá viajara para a Itália e a fim de se casar num lugar mais humano e mais conforme à vida civilizada e à sua própria índole.
Era Rodrigo um moço formoso, que aparentava trinta anos. Em poucos dias demonstrara ele quantas riquezas tinha e dera provas de sua liberalidade e humanidade; logo vários cidadãos nobres, providos de muitas filhas e pouco dinheiro, lhe ofereceram seus préstimos. Entre todas, Rodrigo escolheu uma belíssima donzela chamada Honesta. Filha de Américo Do­nati, que tinha mais três filhas, quase em idade de se casar, e três filhos já adultos. De família muito nobre e tido em bom conceito em Florença, era no entanto muito pobre, levando-se em conta sua numerosa prole e sua condição.
Rodrigo celebrou suas núpcias com esplendor e grandeza, não descuidando de nada que seja necessário em tais circunstâncias, pois entre as obrigações que lhe foram impostas ao sair do inferno, estava a de sujeitar-se a todos os caprichos humanos; assim, logo passou a deleitar-se com as honrarias e pompas do mundo e a gostar de ser louvado entre os ho­mens, coisas que o levaram a grandes gastos. Por outro lado, não tardou muito a apaixonar-se perdidamente por sua D. Honesta e quase não conseguia viver quando a encontrava triste ou aborrecida.
Com sua nobreza e formosura, a senhora Honesta levara con­sigo para a casa de Rodrigo um orgulho tão desmesurado que mesmo Lúcifer não o tivera igual. Rodrigo, que podia comparar um e outro, considerava o de sua mulher infinitamente superior, e consta que ainda chegou a ser maior quando percebera o amor que seu marido sentia por ela. Imaginando ser por todas as maneiras a dona absoluta, dava suas ordens sem consideração ou piedade, e se ele relutasse a fazer as suas vontades, desatava em recriminações e injúrias, o que era para o pobre Rodrigo motivo de viva pena e aflição.
Sem dúvida, por consideração a seu sogro, a seus cunhados e demais parentes, por respeito aos deveres do casamento e pelo amor que dedicava à esposa, sofria seus males com a maior paciência. Quero passar em silêncio sobre os grandes gastos a que era obrigado para contentá-la, vestindo segundo os novos costumes e as modas mais recentes, que nossa cidade varia por hábito natural; nem lembrarei que, para ela o deixar em paz, teve ele de ajudar o sogro a casar as outras filhas, o que lhe fez despender também considerável importância. Depois, querendo manter-se em boa paz com a mu­lher, consentiu em mandar um dos irmãos dela ao Oriente com casimira e outro para o Ocidente levando sedas, ao passo que para o terceiro irmão abriu em Florença uma oficina de ourives, em que despendeu a maior parte do dinheiro que possuía. Além disso, nas festas de Carnaval e de S. João, celebradas pela cidade inteira segundo tradição antiga, quando grande número de cidadãos nobres e ricos se honravam uns aos outros com magníficos banquetes, D. Honesta, para não ficar atrás de outras damas, queria que seu Rodrigo superasse a todos os demais com suas festas. Tudo isso, suportava-o Rodrigo pelos motivos supracitados; apesar de gravíssimas, nem graves as teria achado se houvessem introduzido a paz em sua casa, permitindo-lhe aguardar em sossego o momento de sua própria ruína. Mas foi o contrário o que aconteceu, pois a índole insolente da esposa, além das despesas insuportáveis, carreara-lhe inúmeros aborrecimentos. Nenhum criado a aguentava, não digo por muito tempo, mas nem sequer por alguns dias. Para Rodrigo era o mais duro dos incômodos não possuir um criado que tivesse amor a sua casa. Os próprios diabos que trouxera consigo como domésticos preferiram voltar aos fogos do inferno a viver no mundo sob as ordens daquela mulher.
Assim prosseguia a vida tumultuada e inquieta de Rodrigo. Tendo já consumido nos gastos desenfreados o que recebera em espécie, começou a viver à espera das entradas financeiras que aguardava do Ocidente e do Oriente. Como ainda tivesse bom crédito, pediu dinheiro emprestado para não ficar aquém de sua condição; e já certo número de letras sacadas por ele circulavam na praça, o que logo foi percebido pelos que trabalhavam neste ramo de negócios. Já era bem precária a situação de Rodrigo quando, de súbito, chegaram notícias do Oriente e do Ocidente: aqui, um dos irmãos de D. Honesta perdera no jogo todo o dinheiro de Ro­dri­go; ali, o outro, ao voltar de um na­vio carregado de suas mercadori­as, que não estavam no seguro, naufragou com toda a carga.
Mal estas novas circulavam pela cidade, os credores de Rodrigo reuniram-se. Consideravam-no um homem liquidado, mas ainda não podiam tomar providências por não haver expirado o prazo das cobranças; resolveram, pois, que mandariam quem o observasse habilmente, para que num abrir e fechar de olhos não resolvesse fugir. Por sua parte, Rodrigo, sem ver outro remédio e sabendo das obrigações de seu pacto infernal, decidiu fugir a todo o transe. Certa manhã montou a cavalo e saiu da cidade pela porta do Prato, perto da qual residia. Espa­lhada a notícia de sua fuga, os credores recorreram alarmados às autoridades e puseram-se no encalço dele, acompanhados não apenas de meirinhos como também de muitos populares.
Mal se distanciara da cidade cerca de uma milha, souberam eles de sua fuga, de sorte que, vendo-se perdido, resolveu Rodrigo, para melhor se esconder, abandonar a estrada principal e tentar a sorte em outras direções; porém o terreno árduo e abrupto dificultava tremendamente a sua marcha. Perce­bendo que era impossível seguir a cavalo, decidiu-se salvar-se a pé mesmo, deixando o animal no meio do caminho, e depois de ter muito tempo andado por entre vinhas e canaviais que cobriam os campos, aproximou-se de Pretola, detendo-se na casa de Giovanni Matteo de Bricca, um dos colonos de Gio­vanni dei Bene. Felizmente àquela hora chegava também ao local o próprio Gio­vanni Matteo pa­ra alimentar o gado. A ele se recomendou o fugitivo, prometendo-lhe que, se o salvasse dos inimigos que o perseguiam para fazer com que morresse na prisão, o tornaria rico, coisa que lhe daria prova antes mesmo de sair de sua casa; se não o fizesse, concordaria que o próprio camponês o entregasse a seus adversários.
Embora simples camponês, era Giovanni Matteo homem de coragem. Pensou que nada tinha a perder se tentasse salvá-lo, e prometeu-lhe auxílio. Em frente à casa havia um monte de estrume: foi lá que o escondeu, cobrindo-o de caniços e ramos colhidos para fazer fogo.
Mal acabara Rodrigo de esconder-se, seus perseguidores chegaram. Por mais ameaças que fizessem a Giovanni Matteo, não conseguiram fazê-lo confessar o que tinha visto. Assim, partiram, e de­pois de procurá-lo todo aquele dia e mais o seguinte, retomaram exaustos para Florença.
Afastada a agitação, Giova­nni Matteo tirou Rodrigo do esconderijo e pediu-lhe que cum­prisse a promessa, ao que Rodrigo lhe disse:
— Irmão meu, tenho uma grande obrigação para contigo e desejo cumpri-la de qualquer maneira; e para que acredites em que eu possa fazer, vou di­zer-te quem sou.
Nisso revelou a sua identidade contando em que condições saíra do inferno e como se casara. Em seguida, explicou-lhe como pretendia fazê-lo rico. O seu plano, resumindo, era o seguinte: quando Giovanni Mat­teo soubesse que alguma mulher estava tomada pelos espíritos, devia saber que era ele, Rodrigo, que se apoderara dela: nem sairia do corpo da vítima sem que Giovanni Matteo viesse a tirá-lo: assim, poderia o camponês pe­dir aos parentes da endemoninhada o preço que bem entendesse. Giovanni Matteo aceitou a proposta e Rodrigo partiu.
Decorridos alguns dias, propagou-se por toda Florença a notícia de que a filha de mestre Ambrósio Amadei, casada com Bonaiuto Tebalducci, estava tomada pelos maus espíritos. Não descuidaram os parentes de nenhum dos remédios a que se recorria em casos semelhantes; assim, puseram-lhe na cabeça o crânio de S. Zenóbio e o manto de S. João Gualberto.
Rodrigo, no entanto, zombava de tudo a­quilo. E para dar a entender a todos que o mal da moça era um espírito e não qualquer imaginação fantástica, falava em latim, discutia coisas de filosofia, descobria os pecados de muita gente, desmascarando-os, entre outros, a um frade que guardara em sua cela durante mais de quatro anos uma mulher vestida à maneira de um fradinho, coisas que a todos enchiam de espanto. Estava Mestre Am­brósio irritadíssimo e, havendo experimentado em vão todos os remédios, perdera já a esperança de curar a filha, quando Gio­vanni Matteo veio ter com ele, prometendo-lhe a saúde da filhinha se lhe dessem quinhentos florins para comprar uma propriedade em Pretola.
Mestre Am­brósio aceitou a proposta. En­tão Giovanni Matteo, depois de mandar dizer certo número de missas e executar certas cerimônias para embelezar a coisa, aproximou-se da moça e segredou-lhe ao pé do ouvido:
— Rodrigo, aqui estou eu esperando que me cumpras a promessa.
Ao que Rodrigo respondeu: — Com o maior prazer. Mas isto não chega ainda a te tornar rico. Eis por que, apenas saído daqui, entrarei na filha do rei Carlos de Nápoles, e de lá não sairei sem que me chames. E­xigirás então uma recompensa segundo a tua vontade, e de­pois disso não deverás mais me importunar.
Nisso saiu do corpo da mo­ça doente, para a alegria e admiração de toda Florença. Não tardou e espalhava-se por toda Itália a mesma desgraça ocorrida, desta vez com a filha do rei Carlos. Como os remédios dos frades de nada adiantassem, o rei, que ouvira falar em Gio­vanni Matteo, mandou que ele fosse conduzido até ele. Che­gando a Nápoles, o camponês, depois de algumas cerimônias de fachada, curou-a. Mas antes de sair do corpo da princesa, Rodrigo disse-lhe:
— Bem vês que hei cumprido a minha promessa de enriquecer-te. Agora que re­compensei o serviço que me fi­zeste, nada mais te devo; assim, aconselho-te a que não mais apareças à minha frente, pois se te fiz benefícios até aqui, daqui por diante poderia causar-te dissabores.
Giovanni Matteo retornou a Florença muito rico, pois o rei lhe havia dado mais de 50 mil ducados, e não pensava senão em desfrutar de sua riqueza, com muito gosto e sossego, sem cogitar que Rodrigo pudesse, em qualquer época, lhe causar algum dissabor. Bem cedo, no entanto, se desiludiu, ante a notícia de que uma filha de Luís VII, rei da França, estava possuída pelo demônio. Notícia essa que tumultuou de todo a alma de Giovanni Matteo, que não conseguia parar de pensar na autoridade daquele monarca e nas palavras que lhe dissera Rodrigo. De fato, o rei, não encontrando remédio para o mal de sua filha, e tendo ouvido falar da capacidade de Giovanni Matteo, mandou cha­má-lo, primeiro através dos correios, simplesmente; mas em vista de que o homem alegava certa indisposição, viu-se o rei forçado a recorrer ao governo de Florença, o qual obrigou Giovanni Matteo a obedecer.
Desesperado, foi Giovanni para Paris, onde foi logo explicando ao rei que efetivamente curara já certas pessoas endemoninhadas, mas que isso de modo algum significava que soubesse ou pudesse curá-las todas, pois algumas havia de natureza tão pérfida que não temiam ameaças nem encantamentos, nem religiões, seja qual for; que, no entanto, estava disposto a fazer o que pudesse, mas pedia desculpa e perdão se não viesse a ser bem-sucedido. Enfastiado, o rei declarou que, se não lhe curasse a filha, mandaria enforcá-lo. Viu-se Giovanni Matteo em péssimos lençóis, mas fez de sua fraqueza sua força: mandou vir a possuída e, aproximando-se-lhe do ouvido, recomendou-se humildemente a Rodrigo, lembrando-lhe o benefício prestado e como seria ingrato se o desamparasse naquele imbróglio. Rodrigo então assim reagiu:
— Traidor infame! Como te atreves a aparecer perante mim? Acreditas que podes te vangloriar de ter enriquecido à minha custa? Pois hei de mostrar-te a ti e a todos que sei muito bem dar e tomar qualquer coisa, como melhor me prover; e antes que partas daqui, farei enforcar-te, custe o que custar.
Dando-se por perdido, Giovanni Matteo, não vendo outro remédio, resolveu arriscar a sorte por outro meio. Mandou que levassem dali a possuída e disse ao rei:
Senhor, como falei a Vossa Majestade, há espíritos tão malignos que com eles ninguém pode; pois este é um dos tais. Mas quero fazer uma última tentativa: se for bem-sucedido, Vossa Majestade e eu teremos alcançado o nosso objetivo; caso contrário, estarei nas mãos de Vossa Majestade, que saberá ter comigo a compaixão que faz jus a minha inocência. Or­dene Vossa Majestade que se erga na Praça de Notre Dame um gran­de palco onde caibam todos os barões e todo o clero desta ci­dade; mande orná-lo de panos de seda e de ouro, e mande erguer no meio dele um altar. Preciso que no domingo próximo Vossa Ma­jes­tade se reúna no estrado do palco com todos os seus príncipes e ba­rões, numa pompa real, vestidos de trajes ricos e esplêndidos. De­pois da missa celebrada, Vossa Ma­jestade fará vir a possuída. Pre­ciso, além disso, que num ângulo da praça haja pelo menos vinte pessoas reunidas com trompas, cornetas, tambores, cornamusas, címbalos, timbales e outros instrumentos de toda sorte. Quando eu erguer o chapéu to­dos deverão tanger seus instrumentos e encaminhar-se na direção do estrado. Estas coisas, juntas com alguns remédios secretos, poderão fazer, julgo eu, com que o espírito ma­ligno desapareça.
Tudo isso o rei ordenou. Chegou a manhã de domingo. O palco improvisado estava cheio de personalidades, e a praça, cheia do povo. Celebrada a missa, a endemoninhada foi conduzida ao estrado por dois bispos e muitos senhores. Ao ver tamanha multidão e tanto aparato, Rodrigo ficou meio tonto e disse consigo mesmo:
“Que será que inventou esse traidor miserável? Será que está pensando me espantar com toda essa pompa? Ignora que estou acostumado a assistir as pompas do Céu e fúrias do In­ferno? Haverei de castigá-lo de qualquer maneira.”
Quando, logo depois que Giovanni Matteo se aproximou novamente e lhe pediu que saísse, Rodrigo assim lhe falou:
— Bela ideia a tua, para dizer a verdade! Que pensas alcançar com todo esse aparato? Acre­di­tas escapar assim ao meu poder e à ira do rei? Ladrão mi­se­rável, farei com que te enforquem haja o que houver!
Como não parasse de dizer tais palavras, acrescentando-lhes outras menos injuriosas, Giova­nni Matteo houve por bem não perder mais tempo. Ergueu o chapéu, todas as pessoas encarregadas de fazer barulho tocaram seus instrumentos e com rumor que atingia o Céu foram-se aproximando do estrado. O barulho aguçou os ouvidos de Rodrigo que, sem entender do que se tratasse, pediu assombrado que Giovani Matteo lho ex­plicasse, e Giovanni respondeu-lhe de forma bem perturbada:
— Ai, meu Rodrigo, é a tua mulher que vem te buscar! Foi, em verdade, maravilhoso ver até que ponto Rodrigo horrorizou-se ao ouvir o nome de sua mulher. Tamanho lhe foi o es­panto que, sem indagar a si mesmo se seria possível que ela ali estivesse, fugiu sem dizer uma palavra e assim deixou a princesa livre; preferiu voltar ao Inferno para dar conta de suas ações a submeter-se outra vez ao jugo matrimonial, su­por­tando tantos desgostos, a­bor­recimentos e perigos. E eis aqui como Belfagor, de volta ao inferno, pode dar testemunho dos males que uma mulher leva consigo a um lar, e como Giovanni Matteo, que foi mais astuto do que o diabo em pessoa, pôde retornar a sua casa cheio de alegria.
Conto publicado no livro “Os Cem Melhores Contos de Humor da Lite­ratura Universal”, organização de Flá­vio Moreira da Costa, Editora E­diouro. Tradução de Paulo Rónai e Au­rélio Buarque de Holanda.
No Revista Bula
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Inflação? Só que não!

Revista Exame, do grupo Abril do finado Robert Civita, mostra o gráfico:
Desculpe a nossa falha, não é o gráfico da urubóloga

O desempenho da inflação mês a mês até maio

IPCA ficou em 0,37% no mês; veja os dados por período e por grupo
Design: Juliana Pimenta
Apuração: Lilian Alvares
Fonte: IBGE
No Exame

Paranoia da inflação e hipocrisia da burguesia

A imprensa burguesa tem propagandeado que a inflação está fora do controle com a divulgação de noticias, artigos e comentários de políticos de oposição ao governo federal.
Com isso, colocam o tema dos preços como um fantasma atrás da porta de cada família brasileira, prestes a assaltá-la e tomar o seu dinheiro.
A construção dessa paranoia começou com a divulgação de matérias sensacionalistas sobre o aumento do preço do tomate, como se a valorização desse alimento tivesse de forma isolada incidência real na inflação dos gastos da maioria da população.
Qualquer estudante do primeiro ano de economia já sabe que os estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Fundação Getúlio Vargas têm diversos itens do orçamento doméstico médio dos brasileiros, sobre o qual se calcula o aumento da inflação real para as famílias.
Depois da criação da “crise do tomate”, a mídia burguesa tem apelado a cada dia para outros produtos, tentando criar novos factoides.
Essa manipulação grosseira se baseia em duas táticas complementares.
A primeira delas é criar na população paranoias e preocupações desnecessárias que resultem em ações de massa que desgastem o governo.
Essa tática deu resultado, por exemplo, com o boato de que a Bolsa Família iria acabar.
Com isso, 900 mil representantes das famílias mais pobres, desinformados ou mal informadas, correram para as agências da Caixa, provocando um verdadeiro tumulto, sobretudo nas cidades do Nordeste.
Hipocrisia descarada
A segunda tática da burguesia é jogar uma cortina de fumaça sobre os verdadeiros problemas do país, lançando mão da hipocrisia descarada.
Em primeiro lugar, a burguesia e seus meios de comunicação sabem que existe uma tendência geral de aumento dos preços de todas as mercadorias que estão na sociedade, independente do preço de um único produto.
Ora, se há uma tendência de aumento de preços em todas as mercadorias, quem são os atores econômicos que aumentam os preços?
São exatamente os capitalistas proprietários das fábricas, supermercados ou lojas do comércio.
Portanto, é a base social tucana que opera o aumento dos preços, beneficiando-se com o aumento dos seus lucros.
Assim, o discurso por trás da inflação esconde interesses de classes.
Em segundo lugar, ao mesmo tempo em que exageram nas notícias sobre um “descontrole inflacionário”, fazem pressão pelo aumento das taxas de juros.
Nós, brasileiros, já pagamos os juros mais altos do mundo.
A taxa média de juros paga na economia pelos comerciantes e pelos consumidores é de 58% ao ano.
Os bancos que financiam esses empréstimos ganham 52% de lucro líquido, com a inflação em torno de 6% ao ano.
Não existe paralelo no mundo para a lucratividade dos bancos com crédito no Brasil.
Com isso, os brasileiros ficam endividados no cartão de crédito ou no cheque especial, que têm taxas que ultrapassam em média 100% ao ano…
Ou seja, é um verdadeiro assalto.
Para efeito de comparação, a taxa média de lucro nas economias centrais é de 13% ao ano. Essa taxa já faz brilhar os olhos dos capitalistas nesses países…
Nenhum porta-voz da burguesia brasileira protesta nos jornais, revistas e nas TVs contra esse assalto aos brasileiros que o capital financeiro pratica todos os dias.
Ao contrário.
Esses ideólogos defendem aumentos das taxas de juros como uma pretensa medida para controlar o consumo das massas e impedir o tal descontrole da inflação.
A terceira hipocrisia da burguesia é omitir que a taxa de câmbio da nossa moeda em relação ao dólar é irreal.
A comparação dos preços das mercadorias em dólar nos Estados Unidos e em real no Brasil indica uma taxa de câmbio necessária ao redor de U$S1,00 por R$3,00.
Essa posição é defendida por diversos especialistas da área.
A atual taxa de câmbio próxima a U$S 1,00 por R$2,00 está provocando um processo de desindustrialização da economia brasileira e reprimarização das exportações.
A produção das manufaturas, que geram emprego e valor agregado, não consegue mais competir no mercado internacional.
Essa taxa de cambio é provocada pela emissão descontrolada do papel dólar pelo governo dos Estados Unidos e pela avalanche de capital financeiro especulativo em nosso país, que vem para cá se proteger da crise.
Nenhuma palavra dos porta-vozes da burguesia sobre o “descontrole” da taxa de câmbio.
Ou seja, a mídia da classe dominante sequer protege sua fração industrial.
Controle dos alimentos
A quarta hipocrisia é esconder que grande parte dos produtos agrícolas que se transformam em alimentos no mercado interno é controlado por um oligopólio formado por empresas transnacionais.
Depois da crise de 2008, houve uma corrida do capital financeiro internacional e das empresas transnacionais sobre as chamadas commodities para se proteger da perda de dinheiro.
Assim, fizeram um brusco movimento especulativo, que fez com que os preços das commodities aumentassem em três anos, em todo mundo, nada menos do que 200%.
Esse aumento de preço foi repassado para os consumidores de alimentos.
Portanto, o aumento de certos produtos alimentícios tem como responsáveis os que multiplicaram os seus ganhos: as grandes empresas do agronegócio, como Bunge, Monsanto, Unilever, Cargill, Nestlé, Danone, entre outras.
A quinta hipocrisia da mídia burguesa é ignorar que o Brasil é um dos maiores produtores mundiais de milho, enquanto a falta de alimentos dizima 18 milhões de cabeças de bois, vacas, porcos e bodes no Nordeste.
Foram colhidas 60 milhões de toneladas de milho na última safra.
No entanto, diante da pior seca no Nordeste, morrem os animais criados por camponeses da região.
A morte desses animais será uma perda irreparável para a população nordestina, que pode demorar uma geração para repor o rebanho dizimado.
As famílias se salvaram da fome graças a saques, aos benefícios do Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural) e ao programa Bolsa Família, que garantiram renda para fazer a feira e se alimentar.
Diante dessa situação, a presidenta Dilma Rousseff mandou seus ministérios tomarem providências.
O Ministério do Desenvolvimento Agrário resolveu doar tratores produzidos no Sul para as prefeituras do Nordeste. Foi só um negócio que não alterou questões estruturais.
Independente da situação, o Ministério da Integração Nacional continuou com a distribuição de lotes de perímetros irrigados para empresários do Sul, em vez de beneficiar os camponeses da região que padecem com a falta de água.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) foi autorizada a comprar milho para levar para o Nordeste e salvar o rebanho.
No entanto, a companhia fez vários editais e não encontrou quem vendesse milho suficiente para a demanda. Por quê?
A safra de milho é controlada por empresas transnacionais.
A Cargill e a Bunge exportaram nada menos que 18 milhões de toneladas de milho para os Estados Unidos no último ano.
Esse milho voltou ao país como etanol, importado por esses mesmas empresas.
Com isso, o preço do etanol se mantém bem acima do seu valor real.
Se o governo quisesse resolver o problema, poderia requisitar a produção de milho, proibir as exportações e salvar o rebanho no Nordeste, enfrentando o problema das mortes dos animais causado pela seca.
Nenhuma palavra na imprensa burguesa sobre a falta de milho no país campeão de produção agrícola.
Na verdade, foram escondidas as raízes da perda do rebanho no Nordeste.
Dessa forma, a mídia burguesa demonstra seu compromisso com o interesses do grande capital financeiro internacional.
Os meios de comunicação da classe dominante, “preocupados” com a inflação, omitem questões centrais relacionadas à formação dos preços no país.
Assim, os verdadeiros problemas que a sociedade brasileira enfrenta ficam submersos diante da manipulação e da hipocrisia dos donos de jornais, revistas e redes de televisão.
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Aviso-Warning Preventivo



Estar solteiro no dia dos namorados é a mesma coisa que estar vivo no finados: Você pode até não participar das comemorações, mas talvez esteja bem melhor que os homenageados!

No Sátiro
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Padilha explica importação de médicos

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Eike Batista responde: "O que o dinheiro não compra?"

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Turquia: neoliberalismo excessivo ameaça a “paz em casa”

A falta de transparência governamental, como no sul da Europa, e o desprezo pelos cidadãos e suas liberdades fundamentais, como no Oriente Médio, cimentaram o caminho para uma manifestação explosiva “Paz em casa, paz no mundo”, este é o lema oficial da República da Turquia. Cunhado em 1931 por seu fundador, Mustafa Kemal Atatürk, implica uma relação causal, mas os fatos desta semana em Istambul e outras cidades do país sugerem que a causalidade também pode funcionar na ordem inversa. Os protestos da semana passada, os dois anos da Primavera Árabe e o intenso mal-estar socioeconômico no sul da Europa parecem estar se derramando sobre a Turquia, que até agora permanecia sem problemas.
De todo modo, a economia é forte, embora não tanto quanto foi, em termos gerais, na década passada. Em consequência, as semelhanças que a Turquia compartilha com países do norte e do sul do Mediterrâneo que também atravessam uma crise têm mais a ver com uma má liderança. O êxito financeiro, alimentado pelos investimentos estrangeiros diretos em luxuosas propriedades imobiliárias em Istambul e ao longo da costa turca do Mar Egeu, e pela privatização maciça de empresas estatais, conferiu uma inédita popularidade ao governante Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), além de uma maior sensação de ser invencível.
Desde a vitória eleitoral do AKP em 2011, esta sensação se traduziu em menor transparência e responsabilidade por parte das principais figuras do governo. Recep Tayyip Erdogan, líder do partido e primeiro-ministro turco, bem como um punhado de colaboradores próximos, denegou ostensivamente os pedidos de assessores confiáveis para considerar as preocupações do cidadão médio e de ser mais inclusivo para 50% da população que não votou no AKP.
A falta de transparência governamental, como no sul da Europa, e o desprezo pelos cidadãos e suas liberdades fundamentais, como no Oriente Médio, cimentaram o caminho para uma manifestação explosiva da sensação de que já basta, que deixou três mortos, mil feridos e 1.700 detidos. Alguns observadores afirmam que a crise começou com um beijo, se referindo a uma proibição de maio das autoridades de Ancara de os casais darem demonstrações de afeto em áreas públicas, o que provocou protestos juvenis na capital.
Outros apontam sintomas anteriores de descontentamento. Em maio de 2012 e no outono boreal seguinte, Erdogan desafiou os direitos das mulheres de abortarem e praticarem cesariana para dar à luz, proclamando reiteradamente que as mulheres deveriam ter no mínimo três filhos. As associações feministas foram para as ruas. Mais recentemente, o parlamento, onde o AKP tem 326 das 550 cadeiras, aprovou legislação que restringe severamente a propaganda e o consumo de álcool, e Erdogan prometeu altos impostos para as bebidas alcoólicas.
Os turcos laicos, alguns dos quais votaram no AKP em eleições passadas devido ao desempenho econômico do governo, começaram a se queixar de que o primeiro-ministro interfere de maneira inaceitável no estilo de vida das pessoas. Ao mesmo tempo, os cidadãos estão cansados de uma economia excessivamente liberal que aumentou a brecha de renda entre a burguesia e a classe trabalhadora.
A decisão de converter o único espaço verde no centro de Istambul em um centro comercial e um luxuoso complexo de apartamentos foi o estopim, mais do que a causa, de chamada revolta de Gezi, o nome do lugar. Os prédios na avenida Cumhuriyet, vizinha ao parque, já foram demolidos para dar lugar a um grande complexo de caros comércios, residências e centros comerciais, enquanto a Praça Taksim, emblemática em Istambul, será convertida em uma grande mesquita.
Uma investigação independente, publicada em 2012 por uma organização não governamental, mostrou que a Turquia, com 75 milhões de habitantes, possui 85 mil mesquitas, 17 mil delas construídas nos últimos dez anos. Em comparação, o país tem 67 mil escolas, 1.220 hospitais, outros 6.300 centros de saúde e 1.435 bibliotecas públicas. O orçamento anual do Ministério de Cultura e Turismo é menos que a metade do que tem a Direção Geral de Assuntos Religiosos, que representa os muçulmanos sunitas do país (80% da população).
Os investimentos estrangeiros diretos que entraram no país desde 2002, principalmente do Catar, da Arábia Saudita e de fundos de pensão dos Estados Unidos e da Holanda, se concentram em especulativos projetos de bens de raiz de alto luxo. A quantidade de centros comerciais aumentou de 46, em 2000, para 300 no ano passado. Só Istambul tem atualmente em construção dois milhões de metros quadrados desses empreendimentos, segundo a consultoria internacional CBRE.
Uma série de privatizações anunciadas este ano (um sistema ferroviário, a empresa aérea nacional, as grandes companhias energéticas do Estado, a rede de autopistas e pontes) fornecerão fundos para assumir imponentes projetos de construção: uma terceira ponte sobre o Bósforo, um terceiro aeroporto em Istambul, um segundo Bósforo artificial que facilitará mais desenvolvimentos imobiliários luxuosos, a maior mesquita do Oriente Médio, que será construída em Istambul.
As manifestações que começaram há dez dias foram espontâneas e pacíficas, e parece que refletiram a frustração da população com um governo distante, mas a atitude de tolerância zero adotada pela polícia e as declarações incendiárias de Erdogan e de alguns de seus ministros transformaram isto em uma inesperada crise política com implicações incertas para a democracia turca.
A IPS conversou com personalidades políticas e conhecidos jornalistas que se mostraram reticentes em debater a situação enquanto esta se desenvolve.
A secretária pessoal de Fetullah Gulen, teólogo muçulmano turco e líder de um movimento mundial que promove o Islã moderado e o diálogo inter-religioso, disse à IPS que Gulen fará uma declaração em breve. Atualmente, vive auto-exilado no Estado da Pennsilvania, nos Estados Unidos, e tem milhões de seguidores muçulmanos.
O presidente da Turquia, Abdullah Gül, e o vice-primeiro-ministro, Bulent Arinc, ambos conhecidos por sua maturidade política e moderação, tentaram apresentar limitadas desculpas pelos abusos policiais contra as manifestações. A verdadeira prova de fogo para a evolução do clima político se dará quando Erdogan regressar do norte da África neste final de semana.
Entretanto, é improvável que a paz social seja restaurada com declarações semelhantes às que o governante fez antes de sua partida. “Pressionarei com o projeto Gezi: se vocês não querem um centro comercial, construirei uma mesquita”, afirmou Erdogan, acrescentando que os manifestantes “são meliantes”.
Para os especialistas em política turca, o atual mal-estar tem reminiscências do estilo hegemônico da liderança do Partido Democrático dos anos 1950. “Em 1957, o primeiro-ministro Adnan Menderes e o presidente Celâl Bayar estavam bastante confiantes de que haviam obtido 47% dos votos nas eleições”, contou Huseyn Ergun, veterano político e atual presidente do Partido Social Democrata.
“Haviam começado a impor sanções ao partido opositor e aos seus representantes. Também tinham no parlamento uma comissão investigadora contra a oposição e destruíram locais emblemáticos de Istambul. Você sabe como tudo isso terminou”, acrescentou Bayar. De fato, estiveram no poder até 1960, quando foram derrubados por um golpe militar, história que os turcos não querem ver repetida enquanto viverem.
Jacques N. Couvas
No Revista Fórum
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Charge online - Bessinha - # 1813

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Jornal alemão fecha e jornalistas despedem-se com ironia

O "Financial Times Deutschland", um jornal alemão de economia, publicou esta sexta-feira o seu último número. A crise financeira ditou o fecho da publicação e deixa sem emprego mais de 300 pessoas. Os jornalistas despediram-se de forma irónica no Facebook.
O anúncio do fecho do jornal, que surgiu em 2000, já tinha sido foi feito há duas semanas.
No início de novembro, também o "Frankfurter Rundschau", criado em 1945, anunciou o fim da publicação.
Este sexta-feira, a redacção do "Financial Times Deutschland" colocou uma fotografia no Facebook simbolizando o fecho do jornal, acompanhada de um texto irónico.
"Desculpem-nos, caros accionistas, por termos torrado tantos milhões. Desculpem-nos, caros anunciantes, por termos sido críticos quando falámos dos vossos negócios. Desculpem-nos, caros porta-vozes de imprensa, por termos seguido tão poucas vezes as vossas sugestões. Desculpem-nos, queridos políticos, que tenhamos acreditado tão pouco em vocês. Desculpem-nos, caros colegas, por vos termos posto a trabalhar tantas noites e tantos fins-de-semana. Desculpem-nos, caros leitores, que isto sejam as últimas linhas do Financial Times Deutschland. Lamentamos. Pedimos desculpa, sem reservas. Porém, se pudéssemos recomeçar, faríamos tudo igual", escreveram.
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Cardozo vai à guerra contra Alckmin

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Ministro José Eduardo Cardozo, da Justiça, assume discurso do candidato e diz que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, politiza a questão da segurança pública, que é hoje o ponto mais fraco da sua administração; em entrevista, ele afirmou que a população de São Paulo precisa de pessoas "à altura dos seus desafios"
Mesmo negando que pretenda ser candidato, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, acaba de se movimentar como um nome à disposição do PT para enfrentar o governador tucano Geraldo Alckmin, em 2014. Embora Alexandre Padilha, Guido Mantega, Aloizio Mercadante e Luiz Marinho tenham partido na frente, uma eventual candidatura de Cardozo conta com a simpatia da presidente Dilma, que vê na questão da segurança pública o tema central da disputa pelo Palácio dos Bandeirantes.
Em entrevista concedida à jornalista Vera Rosa, do Estadão (leia aqui), Cardozo bateu firme no governador em Alckmin e o acusou de "politizar" o debate. Confira trechos:
Sobre Alckmin atribuir a violência em São Paulo à falta de controle do governo federal sobre as fronteiras
É da tradição política as pessoas tentarem se isentar de responder certas questões, colocando a culpa em outros. Eu não farei isso. Vamos deixar a disputa eleitoral para o palanque. Em junho de 2011, lançamos o Plano Estratégico de Fronteiras e temos obtido resultados muito positivos. Querer atribuir a subida da violência em São Paulo a algo que está melhorando é querer se isentar de um problema sobre o qual poderíamos pensar em conjunto, sem politizar nem jogar responsabilidade para o outro.
Politização da segurança
Infelizmente eu acho que é isso, que ele está politizando, porque se o programa de fronteiras tem números melhores do que tinha anteriormente e São Paulo tem números de violência piores do que tinha antes, eu não posso estabelecer um nexo de causa e efeito. Muitas vezes, a cabeça de organizações criminosas que fazem o tráfico não está no local onde se planta a coca; está no grande centro onde é o consumo. Então, para combater o tráfico temos de combater a ação criminosa em todos os seus aspectos. Se ela está em presídios, tenho de ter coragem para enfrentá-la nos presídios. Segurança pública exige coragem política. Se eu tenho um grande centro de consumo, tenho de fiscalizar bem essa fronteira, além da fronteira nacional, para evitar que a droga chegue ou que o dinheiro saia.
Jogo de empurra
A responsabilidade é do Estado brasileiro. Acho que todos nós temos de estar juntos e parar com essa mania de querer empurrar a coisa com a barriga, culpando uns aos outros. Isso chega a ser pueril. Em momentos de crise, precisamos deixar de lado nossas divergências políticas e buscar convergências. Duvido que a população aceite esse jogo de empurra.
Quem é o culpado?
Se eu respondesse a essa pergunta e desse as minhas impressões estaria seguindo o caminho inverso do que estou querendo. Quero resolver o problema de São Paulo e não dizer, eleitoralmente, que o culpado é esse ou aquele. A população de São Paulo precisa de pessoas que estejam à altura de seus desafios, para enfrentá-los em conjunto. Nós não podemos ter vergonha ou medo de pedir auxílio quando temos um problema. Pouco me interessa aí o resultado eleitoral. Já passou o tempo do "quanto pior, melhor".
Colaborações entre a União e estados
Vou dar um exemplo: Alagoas está dentro do Brasil e também se submete ao mesmo programa de fronteiras. É o Estado mais violento do Brasil. O governador de Alagoas, Teotônio Vilela, que é do PSDB, pediu apoio e, em um ano de programa de fronteiras, o Estado reduziu em 15% os homicídios. Santa Catarina também estava com um problema gravíssimo com uma organização criminosa. O governador Raimundo Colombo (PSD) veio até nós e propusemos uma parceria. Qual foi o resultado? Em um único dia transferimos 60 presos. Ao mesmo tempo, fizemos um cercamento das fronteiras do Estado de comum acordo e uma ação nos presídios. Aquela situação calamitosa se resolveu. Será que não é possível a gente pensar um pouco maior nessas coisas? Eu acho que é possível.
Maioridade penal
A redução da maioridade penal é inconstitucional porque fere cláusula pétrea. A Constituição diz que a maioridade penal é conseguida aos 18 anos. Isso, portanto, gera um direito individual indiscutível a todas as pessoas que não têm 18 anos de não serem imputadas pela prática de delitos penais. Temos de focar a discussão nos marcos do Estado de Direito. A partir daí podemos discutir, por exemplo, as condições e o tempo de internação, associados a políticas de ressocialização do menor transgressor.
Ser ou não ser candidato
Não. Eu não sou candidato. Não tenho projeto pessoal de disputar eleição e falo isso com muita sinceridade. Só se houvesse uma Assembleia Constituinte exclusiva para votar a reforma política eu me candidataria a uma vaga (risos). O PT tem ótimos nomes, como o dos ministros Aloizio Mercadante (Educação), Marta Suplicy (Cultura), Alexandre Padilha (Saúde), Guido Mantega (Fazenda)...
No 247
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Uma metrópole em pânico

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Como a falta de uma política de segurança pública e a omissão das autoridades colocaram a maior cidade do Brasil de joelhos diante de criminosos cada vez mais cruéis. Aterrorizada, a população assiste indefesa a execuções em qualquer lugar

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São Paulo é a maior metrópole do Brasil, motor da economia nacional, responsável por 12% da riqueza brasileira. O governo paulista dispõe do segundo maior orçamento do País e emprega um contingente policial numericamente superior ao de muitos países latino americanos. São cerca de 120 mil policiais civis e militares. Bem usada, seria uma garantia de paz à população da cidade. Mas, apesar de tantos dados superlativos, São Paulo está de joelhos diante da criminalidade. A população da região metropolitana vive com medo, insegura e acuada diante de execuções sumárias realizadas à luz do dia e da barbárie de assassinatos cada vez mais cruéis que se repetem numa rotina apavorante. Na sexta maior cidade do mundo, o crime foi banalizado. A vida foi banalizada. Amparados na ausência de uma política de segurança pública, na omissão das autoridades constituídas e na inépcia de policiais – muitos ligados às bandas podres da instituição e outros desmotivados e até cerceados para o exercício de suas atividades –, os bandidos não escolhem hora e nem lugar para agir. Nem mesmo as câmeras espalhadas pela metrópole impedem uma matança que não escolhe alvos. Ao contrário, o que elas registram são imagens muito fortes de mortes cruéis, com impacto devastador e revoltante sobre quem as assiste. Mesmo aqueles que entregam seus pertences sem esboçar qualquer reação são friamente alvejados. A certeza da impunidade produto da letargia da polícia e da Justiça dão ânimo à crescente ousadia dos marginais. E o poder público assiste, inerte, à escalada de violência que faz de reféns 12 milhões de habitantes.
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A escalada de latrocínios – roubos seguidos de mortes – que aterroriza os paulistanos além de revelar a falência de um modelo de segurança pública que há duas décadas se instalou no Estado, também desafia os acadêmicos. Houve tempos em que se entendia o aumento da violência – e consequentemente do pânico – como mais um dos nefastos efeitos diretos da pobreza e da desigualdade econômica. Roubava-se e até matava-se numa ação de desespero, para sobreviver, numa lógica perversa, mas com algum sentido. Hoje, numa situação de pleno emprego e de indicadores sociais cada vez mais positivos, os assassinatos continuam. Mata-se por matar. Mata-se por impulso. Mata-se por nada. E a cada morte a sociedade se encolhe, se esconde e, lentamente, também morre. “Problemas sociais como desemprego, exclusão e pobreza podem até influir na violência urbana”, afirma o sociólogo Benedito Domingos Mariano, ex-ouvidor da Secretaria de Segurança de São Paulo. “Mas hoje essas causas não podem ser usadas como justificativa para escamotear as deficiências estruturais das polícias na atribuição de garantir a segurança pública”.
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Na semana passada, as imagens do auxiliar de manutenção Eduardo Paiva, 39 anos, sendo covardemente assassinado rodaram o Brasil. Seguido por bandidos após sacar R$ 3 mil do banco, ele levou um tiro na cabeça em frente a duas escolas, na segunda-feira 3 pela manhã, em Higienópolis, um dos bairros mais nobres de São Paulo. Eduardo foi executado quando estava de joelhos diante de seu assassino. As cenas são o retrato da sensação de insegurança que grande parte dos paulistanos vive todos os dias (leia relatos de outros crimes que chocaram a cidade nos quadros ao longo da reportagem). Segundo uma pesquisa do Instituto Datafolha, a maior preocupação de 42% dos moradores da capital é ter a casa invadida ou sofrer um assalto na rua. E, ao contrário do que possa parecer, esse sentimento é muito real. “O medo nunca é artificial, ele é um sentimento que depende de muito mais do que apenas o movimento real da criminalidade”, afirma Renato Sérgio de Lima, secretário geral do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Reduzi-lo depende de como a população compreende a ação do Estado e das polícias. Por isso, uma política de segurança pública eficiente tem que ser pensada não só na sua dimensão de prevenção e repressão. Ela tem que levar em consideração o que as pessoas sentem.” Nesse sentido, a metrópole paulistana não consegue visualizar nenhuma luz no fim do túnel.
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Viver em São Paulo hoje é uma experiência aterrorizante, mesmo nas mais simples ações cotidianas. Caminhar por uma calçada em uma rua qualquer, não importa se em bairro nobre ou na periferia. Comer uma pizza no seu restaurante favorito. Conversar com um amigo na porta de casa. Ir ao banco ou a uma casa lotérica. Sair para ou voltar da escola. Fazer um passeio de carro. O medo, para o paulistano, é sempre um incômodo companheiro. E, influenciado por ele, desconfia-se de qualquer um. Enxerga-se em todos os demais atitudes suspeitas. Apressa-se o passo, cancela-se programas, suspende-se a vida. Vive-se em liberdade teórica. Na prática, enquanto a bandidagem circula tranqüila, os cidadãos sentem-se aprisionados. Mas o que fez com que São Paulo chegasse a esse estado de barbárie? Segundo especialistas, nos últimos 20 anos o Estado não formulou uma política de segurança de médio e longo prazo. Apenas trabalhou com a questão da violência policial, alternando momentos de uma polícia matadora com momentos de uma polícia mais contida. Com essa fórmula, acabou não conseguindo punir efetivamente os maus policiais e os bons se sentem amarrados, na medida em que são obrigados a até contar e explicar cada tiro disparado. O problema é que para enfrentar o crime não precisamos necessariamente de uma polícia arbitrária. Precisamos, sim, de uma polícia eficiente.
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O latrocínio talvez seja o crime que mais assusta a população porque parece imprevisível. Ele começa com um assalto e termina em assassinato. É um dos grandes desafios para a polícia. A forma para evitá-lo é a investigação inteligente. Historicamente, o número de latrocínios tende a cair na medida em que os criminosos são presos. Ou seja, um latrocínio esclarecido pela polícia desencoraja a ação de outros criminosos. Assim, em São Paulo, este ano, o aumento de 64% nas estatísticas desse tipo de crime é, além de intimidador para as pessoas, revelador da inação oficial. Na Secretaria de Segurança pouco se sabe sobre o perfil de quem o comete e as circunstâncias em que ele acontece. Para Guaracy Mingardi, especialista em segurança pública da Fundação Getúlio Vargas, matar não é a finalidade do ladrão. “Quem mata é o criminoso pé-de-chinelo, aquele está bolado e não raciocina bem. Ele corre o risco de pegar muitos anos de cadeia por nada”, explica. Para ele, a diminuição desse tipo de crime passa pelo desarmamento, que reduz o estoque de armas, e um sistema de investigação amplo e eficiente. “Só conseguiremos diminuir o número de crimes violentos quando provarmos que não dá certo, que a possibilidade de ele ser preso é maior se ele matar. O problema é que a investigação, por regra, não é feita”, diz. A especialista em criminologia Ilana Casoy acredita que esse tipo de comportamento dos marginais pode ser explicado, em parte, pelo fato de que, no Brasil, o risco de roubar compensa. “Apenas 2,5% dos roubos são resolvidos. Nenhum outro negócio tem tal índice de sucesso. No caso de mortes, a chances de encontrar o autor são de 6%. Na Inglaterra são de 90%.” Para ela, a atitude violenta só pode ser coibida com a certeza da punição, não o tempo de pena. E para isso, evidentemente, é preciso investir em infraestrutura de investigação e inteligência, aspecto negligenciado pela Secretaria de Segurança Pública. “Precisamos elevar a taxa de esclarecimento porque quanto mais crimes a gente resolver, quanto mais assaltantes e infratores forem presos, mais nós estaremos prevenindo outros crimes, principalmente contra o patrimônio”, admite o secretário Fernando Grella.
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A teoria não chega à prática na pasta comandada por Grella. A ousadia dos bandidos caminha na direção oposta à competência da polícia. Numa demonstração de que não temem o efetivo policial, eles chegam a cometer assaltos nos mesmos lugares por dias consecutivos sem serem incomodados. Os ladrões que atuam no Morumbi, na zona sul, praticamente na porta do Palácio dos Bandeirantes, onde despacha há três anos o governador Geraldo Alckmin, promovem arrastões freqüentes na região. Na semana passada, Alckmin – chefe de Grella e, portanto, quem deveria ser responsável pela implantação de uma política de segurança - recebeu 400 convidados para um jantar beneficente na residência oficial. Era para ser uma noite descontraída, para incentivar ações solidárias, mas a escalada da violência dominou as conversas de empresários e socialites. Outras regiões da cidade, como o Paraíso e Perdizes, bairros de classe média, também são cenários freqüentes dos marginais. Qualquer paulistano sabe disso. A polícia, profícua em elaborar estatísticas, também. Ninguém, no entanto, explica porque a força pública não consegue mudar esse quadro. Há mais duas décadas, é sabido que nas cercanias da PUC, o número de carros roubados é enorme. Continua assim. E, isso traz aos marginais a certeza da impunidade. Em 14 de maio, em frente à universidade, o estudante Bruno Pedroso Ribeiro, de 23 anos, foi alvejado no pescoço depois de dar o celular ao seu algoz. Ficou quase um mês internado no Hospital das Clínicas. Três dias depois, na Vila Mariana, na zona sul, um adolescente foi baleado no abdômen dentro do carro onde estava com os pais e o irmão após a família ter entregado os pertences aos marginais.
Em bairros centrais da capital, antes tidos como ilhas de paz no caos da metrópole, essa falta de políticas abriu brechas para a entrada do crime, historicamente maior na periferia. Na semana passada, no Itaim Bibi, na zona sul, o motorista Márcio Cazuza, 42 anos, levou um tiro no tórax às 7h da manhã durante uma tentativa de assalto. As notícias de tiroteio tornaram-se comuns em bairros sofisticados da capital paulista. Até a rua Oscar Freire, famosa no Brasil por concentrar as principais lojas de grife, recentemente foi palco de uma troca de tiros entre a polícia e bandidos que fizeram um arrastão num salão de cabeleireiro. Mais aterrorizante ainda é não ter o que dar ao bandido. Num lance de extrema crueldade, criminosos tocaram fogo na dentista Cinthya de Souza, no final de abril, porque só conseguiram sacar R$ 30 de sua conta bancária. No dia 1º de junho, às 14h, um marginal disparou contra a cabeça da empregada doméstica Maria do Carmo Cunha, de 62 anos, que pagava uma conta atrasada em uma lotérica, porque as funcionárias do local não lhe entregaram dinheiro. Segundo Luciana Guimarães, diretora do Instituto Sou da Paz, “se não conseguirmos encarar a agenda do roubo, não conseguiremos reduzir os índices porque o latrocínio é um roubo mal sucedido”, explica. Só em 2012 foram registrados mais de 125 mil roubos na região metropolitana de São Paulo. Mas, apesar de toda a crueldade, não existe crime, organizado ou não, que resiste a uma política de segurança inteligente.
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O exemplo do Rio de Janeiro mostra como a ação policial pode, sim, fazer a diferença. Lá, o crime organizado exercia um poder paralelo com domínio territorial de áreas da cidade. Uma política de segurança bem pensada, planejada e executada mudou um quadro que por décadas pareceu irreversível. O Estado retomou os territórios com polícia, escola e centros de saúde. A polícia foi valorizada e recebeu diretrizes firmes de como agir, respaldadas pela secretaria de Segurança. Os maus policiais foram punidos. A população se sentiu segura, saiu às ruas e os criminosos perderam poder de fogo. Em São Paulo, a indefinição e a falta de apoio dos superiores enfraqueceram a polícia. Cobrado por medidas mais efetivas, o governador paulista lançou há três semanas seu terceiro pacote de segurança em três anos. Alckmin anunciou a intenção de dar bônus a policiais que cumprirem metas de redução de criminalidade em suas regiões, entre outras medidas, como a ampliação do efetivo, o que depende de concurso público. Segundo George Melão, presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo, no entanto, o governo terá de sentar à mesa e negociar se quiser avançar. “Calculamos que, para atender a demanda de investigação dos dias de hoje, precisamos entre 12 mil e 15 mil novos policiais civis”, diz. Ele também aponta a necessidade de melhorar a remuneração do policial no Estado, que é de R$ 2,5 mil em média, assim como a dos delegados, de R$ 7,2 mil. “O salário dos delegados em São Paulo é o pior entre todos os Estados da federação e, mesmo assim, o governo não se mostra disposto a negociar”, diz.
Fotos: Gabriela Biló, Nivaldo Lima, Paulo Preto/Futura Press;João Castellano/ag. istoé; Avener Prado/Folhapress; reprodução de câmera de segurança; Mário Bittencourt/Estadão Conteúdo; Eduardo Anizelli/Folhapress; Edison Temoteo/Futura Press; Pedro Paulo Ferreira/Fotoarena/Folhapress; Nilton Fukuda/Estadão; Lucas Jackson/Reuters; Fredy Amariles/Reuters; Fábio Guimarães/Extra/Ag. O Globo
No IstoÉ
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Texto e contexto

Na peça “Ricardo II”, de Shakespeare, há uma fala famosa que é muito citada como um hino patriótico à Inglaterra. Quem a diz é o duque John de Gount, tio do rei Ricardo II e pai de Henry Bolingbroke, desafeto exilado do rei, que acabará derrubando do trono.
John de Gount, à beira da morte, exalta as riquezas e as glórias do seu país (“este outro Eden”, “esta pedra preciosa posta no mar prateado”, a salvo “da inveja de terras menos felizes”, “este lote abençoado, este chão, este reino, esta Inglaterra”) num tom de entusiasmo crescente que empolga até quem não é inglês — se lido até a metade.
O resto da fala, raramente citada, é um lamento pelo declínio desta maravilha, cuja grandeza o rei está dilapidando. “Esta Inglaterra acostumada a conquistar, hoje é vergonhosamente derrotada por si mesma”, diz Gount, que termina desejando que “o escândalo desapareça junto com a minha vida, alegrando minha morte iminente”.
Já contei (umas cem vezes) que vi o Millôr Fernandes levantar uma plateia num encontro literário em Passo Fundo com a leitura de um texto de candente defesa da democracia e dos direitos humanos, e depois da ovação revelar que acabara de ler o discurso de posse do general Médici na Presidência da República, quando se inaugurava o período mais escuro da ditadura.
Um período em que com frequência o discurso do poder contrastava com a realidade à sua volta, e o texto era desmentido pelo contexto. A aula do Millôr foi sobre a força autônoma da retórica, capaz de mobilizar uma multidão que ignora seu contexto. Mas pior do que isto é quando o contexto é conhecido e mesmo assim as palavras compõem outra realidade, e empolgam e mobilizam do mesmo jeito.
A história brasileira está cheia de exemplos do triunfo da oratória bacharelista sobre a realidade do momento, do dito sem a menor relação com o feito.
Para ser justo com o Médici e o autor do seu discurso, é preciso reconhecer que em todo discurso de posse presidencial há um desencontro parecido entre intenção e realidade. Quem não se lembra do discurso de posse do Collor?
Shakespeare tem outros exemplos de textos em que uma parte se vira contra a outra, como a exaltação que vira lamento de John de Gount. O mais notório é a fala de Marco Antonio sobre o corpo de César assassinado, que começa dando razão aos assassinos e termina incitando a massa a matá-los. Em outro trecho da peça alguém diz que se deve ter muito, mas muito cuidado com os bons oradores.
Luís Fernando Veríssimo
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Mulher de bandido em festa no palácio do governo de Goiás

A mulher do bandido Carlinhos Cachoeira em festa da mulher do governador tucano Marconi Perillo nesta sexta-feira (07/06) no palácio Pedro Ludovico Teixeira.


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Fundadora da nova Arena abandona partido e volta ao PC do B

 ATENÇÃO  
Atualizando e corrigindo este post:
O perfil correto da fundadora do ARENA no facebook é Cibele Bumbel Baginski conforme pode ser visto aqui.
O perfil mencionado pelo blogueiro Charles Bakalarczyk é de Cibele Baginski Bumbel e está aqui.
O alerta foi dado pelo navegante Caio Botelho, em comentário neste post.

Charles Bakalarczyk comenta:
Olá pessoal.
Por favor, peço ao "ComTexto Livre" que informe aos seus leitores que, de modo ingênuo, fui vítima de um perfil fake.
Peço desculpas pelo equívoco.
Retirei a matéria do meu blog.Estou atrás de informações, inclusive estou tentando contactar com o perfil "verdadeiro" da Cibele.
No que se refere as minhas observações sobre o necessário espaço em sala de aula para debater política, objetivo principal da minha reflexão, mantenho na íntegra.
Um grande abraço, Charles

Cibele
Lembram da Cibele Bagiski Bumbel, que fundou a "nova Arena"? Para quem esqueceu: ver aqui matéria no G1.
Pois é, agora Cibele milita no PCdoB. Mudança radical, não é mesmo?
O blogueiro Charles Bakalarczyk conversou com ela no Facebook (ver imagens abaixo). Cibele disse que depois de idas e vindas - e muita confusão -, agora descobriu o ser lugar como comunista. Acompanhe o comentário do Charles:
Não faço aqui, por inoportuno, nenhum julgamento do movimento pendular dela. Inclusive, vou elogiá-la: quer participar, gasta energia com isso, dedica-se, ao seu modo, à política. Ninguém pode acusá-la de pecar pela omissão ou por falta de coragem!
Então, sem criticar seus passos, atenho-me a narrar o fato por ela revelado em uma página de acesso público e acrescento: não se trata de um fenômeno isolado, percebo essa dificuldade de posicionamento político-ideológico em um grande número de pessoas, jovens e adultos.
Talvez essa "alienação" seja um subproduto da tão propalada “neutralidade em sala de aula”, pregada pela grande mídia empresarial, como a revista Veja, que exclui da discussão entre alunos e professores os aspectos ideológicos e políticos que movimentam a vida real de todos nós (ver matéria publicada no Nassif On Line).
Ora de refletir. Formação de cidadãos conscientes, com posições ideológicas e democráticas firmes, requer um espaço vigoroso em sala de aula. Espaço de diálogo sobre política, história, filosofia e sociologia.
Fazer política com qualidade - e isso requer ideologia - exige aprendizado.
E quanto à Cibele, meu desejo: longa militância na política! E não deixe de visitar os bons e velhos livros de História, entre outros...
No Blog do Charles Bakalarczyk
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Câmara aprova redução do salário de professores de Juazeiro do Norte

A votação do projeto, enviado pelo prefeito Raimundo Macedo (PMDB), terminou em conflito entre professores, vereadores e Polícia Militar; cassetetes e spray de pimenta foram utilizados contra os educadores
Protesto de professores acabou em confronto com a Polícia  
Normando Sóracles/Agência Miséria
A Câmara Municipal de Juazeiro do Norte aprovou na tarde desta quinta-feira, 6, mensagem do prefeito Raimundo Macedo (PMDB) que reduz em até 40% o salário dos professores da rede pública do Município. A votação ocorreu sob protestos da categoria e acabou com conflito entre vereadores, educadores e Polícia Militar – com uso de cassetetes e spray de pimenta.
Mesmo com o tumulto, o projeto foi aprovado com 12 votos favoráveis, quatro contrários e três abstenções. Além de reduzir salário dos professores pelo corte de gratificações de insalubridade, a mensagem ainda aumenta a carga horária e retira direitos da categoria – como benefícios para educadores próximos da aposentadoria ou que ficarem doentes no exercício da profissão.
O clima esquentou logo no início da sessão, com o presidente da Câmara de Juazeiro, Antônio de Lunga (PSC), batendo boca com vereadores da oposição. A situação se agravou quando manifestantes invadiram o plenário da Casa, sendo contidos pela Polícia e Guarda Municipal. O projeto foi aprovado sob vaias dos professores.
Prefeitura
Durante a votação, o líder do governo na Câmara, Nivaldo Cabral (DEM), defendeu o projeto e destacou a necessidade de reduzir a folha da Prefeitura, que estaria “inviável”. Ele ressaltou que professores de Juazeiro tem salários acima do piso pago no Estado. O argumento do vereador foi rejeitado pela categoria, que acusa o Executivo de manter grande número de cargos comissionados “desnecessários” na gestão.
O Povo tentou entrar em contato com a Prefeitura de Juazeiro, mas não obteve resposta. Funcionários da gestão afirmaram que não podem se manifestar sobre o caso, pois o prefeito Raimundo Macedo se encontra em viagem ao exterior.
Atualmente, o piso estabelecido pelo Ministério da Educação para o magistério é de R$ 1,56 mil. Somando gratificações, professores de Juazeiro recebem cerca de R$ 2,2 mil. Com os descontos, educadores poderão perder até R$ 600.
No O Povo
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Charge online - Bessinha - # 1812

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