6 de jun de 2013

“A polícia é brutal e corrupta”


carlos latuff 

Entrevista com Carlos Latuff - Cartunista e ativista político
Apesar de ter iniciado sua carreira como ilustrador numa pequena agência de propaganda no centro do Rio de Janeiro, em 1989, o ativista político Carlos Latuff tornou-se cartunista publicando sua primeira charge num boletim do Sindicato dos Estivadores, em 1990, e permanece trabalhando para a imprensa sindical até os dias de hoje.
Com o advento da Internet, Latuff deu início ao seu ativismo artístico o qual ele chama de “artivismo”, produzindo desenhos copyleft para o Movimento Zapatista.
Após uma viagem aos territórios ocupados da Cisjordânia, em 1998, tornou-se um simpatizante da causa Palestina, destinando boa parte de seu trabalho a esse tema.
Tem trabalhos espalhados por todo o mundo. A exemplo disso, a primeira publicação de uma charge brasileira no concurso de charges sobre o Holocausto, promovida pela Casa da Caricatura do Irã, em resposta às caricaturas de Maomé divulgadas na imprensa europeia, foi de sua autoria. O desenho retrata um palestino em lágrimas diante do muro erguido por Israel, usando um uniforme de prisioneiros dos campos de concentração nazistas: em vez da Estrela de David no peito, aparece o Crescente Vermelho.
Durante o ano de 2011 vários protestos estouraram em todo o mundo árabe, sendo chamados de “Primavera Árabe”, Latuff se torna no meio midiático através de seus trabalhos artísticos, um dos grandes expoentes internacionais do movimento fazendo quase que diariamente charges sobre episódios durante todo o evento. SCAF (Conselho Supremo das Forças Armadas do Egito), Líbia e OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) são por exemplo temas frequentes de seu trabalho, sendo divulgado pela mídia brasileira e diversos veículos internacionais.
Seu trabalho sobre os acontecimentos se tornaram inclusive notícia em grandes meios de comunicação, tendo suas declarações expostas nos mesmos, como por exemplo quando disse “É um trabalho autoral, mas não se trata da minha opinião. É preciso que seja útil para os manifestantes, e que eles possam usar aquilo como uma ferramenta”. E também de forma curta e direta dizendo “charge incomoda”.
Seu trabalho com temas sobre a “Primavera Árabe” tornou-se algo tão evidente e importante para os povos que viveram e que ainda vivem os acontecimentos, que se tornou fácil encontrar os trabalhos de Latuff nas mãos de protestantes pelas ruas de todas nações árabes e de outros países que vivem tal efervescência. Seus desenhos são impressos e expostos em tamanho normal, e por vezes ampliados e copiados em cartazes. Nessa entrevista exclusiva ao portal Panorama Mercantil, ele faz um relato de sua trajetória e expõem a sua visão sobre temas espinhosos que ocorrem no Brasil e no mundo.
Panorama Mercantil - Latuff, entrando em seu site nos deparamos de cara com a frase do cineasta Gláuber Rocha:”A função do artista é violentar”. Os artistas brasileiros, em especial os chargistas, tem violentado muito, pouco ou quase nada?
Carlos Latuff - Parece que com o fim da Ditadura Civil-Militar no Brasil em 1985, os cartunistas e chargistas adotaram um tom mais ameno, especialmente se tomarmos como exemplo, aqueles que participaram do jornal ‘O Pasquim’. Alegam que com a democracia já não é mais necessário o discurso que faziam contra o autoritarismo, como se esse tivesse acabado de fato com a redemocratização. As minhas passagens por delegacias nos anos 2000 por ter feito charges contra a violência policial, me dizem o contrário. Agora mais do que nunca é preciso levantar a voz e as canetas contra o estado policial em que estamos mergulhando.
Panorama - Como era a sua visão política, antes de ter contato com o Movimento Zapatista?
Latuff - Na minha juventude nunca militei, nunca me interessei por política, trabalhava para a imprensa sindical porque foi a única mídia que abriu as portas pra mim sem exigir o “quem indica”. No entanto, o contato com os sindicalistas e com a esquerda produziu um acúmulo ideológico, somado a isso, o meu contato com o Movimento Zapatista fez de mim o que sou hoje, um “artivista”.
Panorama - Você disse que a mídia se alimenta dos processos violentos em países em conflito como “Drácula”. Isso se dá apenas pelo lado pró-Israel, ou os pró-Palestina atuam da mesma forma?
Latuff - Não me lembro de ter feito essa comparação com Drácula, mas a questão é que catástrofes produzem altos índices de audiência, sejam guerras, operações policiais em favelas ou incêndios em casas noturnas.
Panorama - O quão as informações sobre o conflito Israel X Palestina chegam distorcidas para nós aqui no Brasil, já que você esteve lá e viu de perto toda a situação?
Latuff - Quando estive na Palestina em novembro de 1998, a internet era diferente. Hoje com as redes sociais a comunicaçao foi potencializada. É possível ter contato com a realidade palestina diretamente com os palestinos. Existem muito mais fontes para se consultar, sem ter de passar necessariamente pelo “mainstream media”. Quando visitei os territórios ainda não havia a Segunda Intifada (conjunto de eventos que marcou a revolta civil dos palestinos contra a política administrativa e a ocupação israelense na região da Palestina a partir de setembro de 2000, enquanto a Primeira Intifada ocorreu em 1987.), nem o muro do apartheid e nem a divisão da Palestina entre Cisjordânia e Gaza. Se na época a situação já não era fácil, agora ficou ainda pior.
Panorama - Os seus trabalhos foram muito utilizados na “Primavera Árabe”. Acredita que por serem charges, o poder da imagem foi muito mais forte se por exemplo fossem textos com o mesmo conteúdo?
Latuff - Sendo a imagem uma linguagem universal que pode ser compreendida por povos de idiomas e culturas diferentes, seu alcance é muito maior. Se um texto requer tradução, uma charge sem palavras transmite uma mensagem mais fácil e rápida. E quando um manifestante resolve imprimir a charge e levá-la para as ruas, isso significa que além de ter compreendido a mensagem, ele agregou o desenho para sua vida e sua luta. A charge virou seu alto-falante.
Panorama - Como você vê a inversão de papéis de governos como do Bahrein, quando dizem que o seu trabalho não é neutro, sendo que os próprios talvez são os que menos sabem o que quer dizer a palavra neutralidade?
Latuff - Não existe neutralidade em lugar nenhum. Até mesmo um cadáver tem lados! Quando morre um palestino vítima de um dos tantos ataques de Israel, seu corpo no caixão é levado em cortejo pelas ruas, é um ato político. Assim também quando o estudante Edson Luiz foi morto pela Ditadura em 1968 seu corpo foi levado para a Assembléia Legislativa do Rio. Ou seja, nem mortos somos neutros. Existe os que assumem lados e outros que os mascaram.
Panorama - As pessoas que te chamam de antissemita sabem o que é ser um antissemita ou simplesmente repetem o discurso de terceiros?
Latuff - A maioria repete sem qualquer reflexão. Compram o discurso de que críticas contra o Estado de Israel, contra seus políticos ou militares, é um ataque a todo povo judeu. Essa estratégia tem sido aplicada ad nauseam ( sob de argumento de repetição) pelos defensores de Israel como forma de blindar o Estado de qualquer crítica. Isso sem falar que semitas são os árabes também.
Panorama - A primeira coisa quando se fala do conflito entre israelenses e palestinos, é que a motivação é religiosa. Você diz que a questão é apenas política. Quem está querendo mudar o foco então desviando a questão para a Bíblia?
Latuff - O discurso religioso serve como cortina de fumaça. Os defensores do Estado de Israel seguem a linha Chacrinha: “Eu vim para confundir e não pra explicar”. Tentam confundir a opinião pública com questões religiosas e raciais para encobrir o que de fato se resume a questão palestina: o neocolonialismo.
Panorama - Alguns comentários na web dizem que você é um grande crítico dos meios de comunicação, mas mesmo assim quando é convidado para ir na Globo News, que pertence ao maior grupo de comunicação do Brasil não pensa duas vezes. Como enxerga essa afirmação dos seus críticos?
Latuff - Antes eu costumava não dar entrevistas para veículos de grande circulação. Hoje entendo que, se querem ouvir o que tenho a dizer, eu digo. O importante é não mudar o discurso por estar diante das câmeras da Globo. Tenho adotado tambem a estratégia de gravar toda entrevista por telefone, para o caso de minhas palavras serem manipuladas ou postas fora de contexto.
Panorama - Uma charge sua que nos chamou bastante atenção e ao nosso ver é bastante forte, foi aquela sobre Pinheirinho, quando um policial Militar, uma advogada, o governador paulista Geraldo Alckmin e um investidor brindam com sangue a retirada das pessoas daquele lugar que na sua visão, trarão grandes dividendos financeiros aos mesmos. Nos fale mais sobre essa charge?
Latuff - Creio que a charge fala por sí, a celebração da barbárie. As vidas de toda uma comunidade jogada na sarjeta para atender interesses de especuladores. Um crime inominável. Eu visitei o Pinheirinho dias antes do despejo. Me revolta lembrar que os sorrisos daquelas crianças foi apagado pela Tropa de Choque. O que aconteceu no Pinheirinho foi terrorismo de Estado.
Panorama - Você é um grande crítico da Polícia no Brasil dizendo que ela é feita apenas para repressão. Então lhe perguntamos:A sociedade precisa da Polícia?
Latuff - Precisa de segurança, não necessariamente de Polícia, ainda mais dessa Polícia brutal e corrupta que temos. Mas afinal, o Estado também é brutal e corrupto, como esperar que a Polícia seja diferente?
Panorama - Alguns estudiosos dizem que parte da classe média brasileira, é que sustenta às atrocidades contra os menos favorecidos, uma visão bem parecida com a sua. Então de certo modo, podemos dizer que vivemos uma Guerra Civil não declarada no país?
Latuff - Não há Guerra Civil aqui. Não existem forças antagônicas se degladiando pelo poder. O tráfico, por exemplo, não é uma força estrangeira buscando a derrubada do regime e a implantação de outro. Tráfico, Polícia e Estado são tentáculos de uma mesma criatura monstruosa. O que existe é terrorismo de Estado, é controle social.
Panorama - Em algum momento, você já sentiu medo por causa das reações contrárias ao seu trabalho?
Latuff - Sim, mas é que nem dor de cabeça. Dá e passa.
No Panorama Mercantil
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Charge online - Bessinha - # 1810

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Quem evangeliza os evangélicos? (Ou: Coando mosquitos para engolir camelos)

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Esperança para muitos de dias melhores na política no Brasil, a provável candidata à Presidência Marina Silva viu-se envolvida numa polêmica ao dizer que o pastor e deputado Marco Feliciano é criticado “por ser evangélico e não tanto por suas posições política”. Face às reações, a ex-senadora foi obrigada a esclarecer melhor sua frase, mas fica a questão sobre o que significa mesmo ser evangélico e em que medida certos líderes religiosos tem a ver com os atos e as palavras de Jesus. O pastor Feliciano oferece pistas valiosas para uma tentativa de resposta. Especialmente pela eloquente metáfora de um crime virtual que ele publicamente cometeu.
Numa de suas prédicas contra a santidade aparente dos fariseus, Jesus diz que todo o oculto será um dia proclamado dos telhados. Graças à hoje quase divina onipresença de celulares que filmam, esse tempo de onisciência parece ter chegado.
E foi assim que alguns canais de televisão puderam reproduzir uma cena estarrecedora. Durante um culto, o pastor e deputado Marco Feliciano, todo vestido de branco, lamentava não ter estado presente na morte de John Lennon para desfechar mais três tiros no corpo caído: um pelo Pai, outro pelo Filho e o terceiro pelo Espírito Santo. Microfone numa das mãos, revólver imaginário na outra, chegou a encenar para os fiéis como seria o seu ato.
A cena, deprimente, desperta em cristãos mais sensíveis ao que importa a necessidade de rever algumas facetas do explosivo crescimento midiático e comercial de certos grupos evangélicos, e de fazer isso em termos estritamente – evangélicos.
Uma dessas facetas é a relação com o dinheiro. O evangelho de Jesus é claro e radical ao pregar o desapego das riquezas deste mundo – “não se pode servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro”. No entanto, recentemente a revista norte-americana Forbes colocou seis dos nossos mais combativos líderes evangélicos entre os homens pessoalmente mais ricos do Brasil. O que não é de estranhar, tal a criatividade e fervor com que o pecado da simonia, ou venda de favores divinos, é praticado em cultos onde a conta bancária da Igreja rivaliza em citações com os versículos sagrados. Neles, os fiéis são constantemente estimulados a fazer suas ofertas, “mas só se Deus lhes pedir isso no fundo dos seus corações, diz o pastor com voz melíflua, como se aquelas vidas já tão vulneráveis estivessem em condições de ficar mal com Deus também.
Outro ponto igualmente delicado nessas igrejas mundanamente tão vitoriosas é a questão do poder. Em várias passagens o evangelho é claro ao dizer que o Reino de Jesus não é deste mundo – “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” é a mais conhecida expressão dessa verdade. Quando, depois da partilha dos pães, quiseram fazê-lo rei, Jesus “fugiu dali para o outro lado do lago”. No entanto, entre nossos líderes evangélicos mais creditados na Forbes, é intensa a participação no jogo político- partidário do país, não como cidadãos, mas acintosamente em nome dos votos do rebanho, formando avidamente bancadas evangélicas como se delas, por força de lei, devesse vir uma salvação que, como o evangelho insiste, é de outra ordem. Qualquer pessoa verdadeiramente religiosa sabe que não é pelo poder, dinheiro, milagres grotescos e truques de marketing que o reino de Deus avança.
Evangelho quer dizer boa-nova e alguns empresários da fé mal desconfiam que, com sua fixação em dinheiro e poder, estão apenas reproduzindo o pior da Igreja Católica em outras eras. Foi ao unir-se ao Império Romano no século IV que ela se desfigurou a ponto de passar séculos sofrendo toda a sorte de interferências mundanas em sua real missão. Foi vendendo indulgências para construir grandes templos que em Roma que ela deflagrou, e mereceu, a Reforma Protestante. A mistura de religião com poder civil sempre se revelou receita infalível de guerras e perseguições sem fim e nem é preciso ser um grande estudioso para constatar o quanto, na história da humanidade, o pecado e a dúvida mataram muito menos do que certo tipo pureza e de fé.
Triste perceber também o quanto essa militância política de líderes evangélicos em nada revela aquela chama sagrada dos grandes profetas de Israel que não temiam enfrentar os poderosos em nome dos mais fracos e mais pobres. O mal, para os eleitos da Forbes, nunca está nas estruturas injustas, corruptas e opressoras. Nenhum deles vai morrer como o pastor Martin Luther King morreu pelos direitos dos negros, ou sofrer como o bispo Desmond Tutu sofreu apoiando Mandela contra o apartheid, ou levar uma bala no coração em pleno altar como Dom Oscar Romero durante a sangrenta ditadura de El Salvador, ou ter de fugir do Brasil como fez a Irmã Giustina por ousar encarar a elite de São Gabriel da Cachoeira que estuprava meninas índias. Por pouco ela não tem o mesmo destino da Irmã Dorothy no Pará.
Enfrentar as injustiças dos poderosos pode pegar mal para o negócios e depois, diria o Pastor Feliciano, aquelas meninas eram apenas umas indiazinhas, não eram negras nem homossexuais. Melhor, então, chutar beatle morto. Melhor lutar para impedir que seja aprovado no Brasil esse grande responsável pela injustiça, a miséria, o analfabetismo, a alta da inflação, a falta de saneamento básico, o descontrole dos gastos públicos e o desmatamento ilegal : o casamento gay.
Jesus se refere a essa magnificação da irrelevância para encobrir o que importa quando diz que os fariseus são mestres em “coar mosquitos e engolir camelos”.
Vale lembrar, no entanto, que, silenciosamente, muitas igrejas evangélicas bem sabem que nada tem de evangélico esse uso de Deus para excluir e perseguir quem quer que seja, ou aquele tipo de pureza que precisa do impuro para brilhar, combater, explorar ou, vestido de branco, matar.
Esses arroubos de ira falsamente sagrada são úteis apenas na medida em que nos lembram algumas verdades bem comprovadas na prática: que nada é mais tóxico do que uma pureza infeliz, que o nazismo era, em última análise, uma forma de pureza e que não precisa esperar muito para constatar que todo o moralista extremado alguma está escondendo, aprontando ou levando por fora.
Mas é reconfortante pensar que nada disso vem do evangelho. Nas palavras e nos atos de Jesus, a fronteira entre o bem e o mal nunca se passa entre raças, seitas, partidos ou opções sexuais, mas pelo coração de cada um, diariamente. O que ele mais pedia aos seus seguidores não deveria vir de fora, das aparências e conveniências sociais, mas de dentro, do coração . E eram coisas bem simples e libertadoras: um amor tão indiscriminado como o sol e a chuva que igualmente vivificam a horta dos santos e dos pecadores; um amor tão eficiente como o do bom samaritano que recolhe (e não chuta) o esquecido à beira da estrada; um desapego radical aos deuses deste mundo, dinheiro, poder e vaidades; uma confiança, nas difíceis, semelhante à dos pássaros do céu e dos lírios do campo; e, principalmente, trabalhar todos os dias e todas as formas pelo advento do Reino de Deus, um reino de fraternidade e paz, a cujo serviço estão, ou deveriam estar, as organizações religiosas em seu nome formadas.
.oOo.
Carlos Moraes é jornalista, escritor e formado em Teologia. Publicou, pela Editora Record: Como ser feliz sem dar certo e outras histórias de salvação pela bobagem, Agora Deus vai te pegar lá fora e Desculpem, sou novo aqui.
No Sul21
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Mulher de vermelho vira símbolo dos protestos na Turquia

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MG: Ministério Público quebra blindagem e instaura processo contra Aécio Neves

margaridasalomaoprjoao
Os deputados federais mineiros Margarida Salomão (PT) e Padre João (PT) avaliaram positivamente nesta quarta-feira (5) a decisão do Ministério Público Estadual (MPE) de Minas Gerais de instaurar inquérito civil para apurar fatos envolvendo repasses de verbas publicitárias do governo do estado para a Rádio Arco-Íris (Jovem Pan BH).
A empresa de comunicação tem como sócios o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e sua irmã Andrea Neves. O período investigado pelo MPE é de 2003 a 2010, período em que o senador ocupou o cargo de governador.
A Rádio São João Del Rei S/A e a Editora Gazeta de São João Del Rei Ltda, que também receberam recursos públicos durante a gestão de Aécio Neves no governo de Minas, serão investigadas. Essas empresas pertencem a Andrea Neves, atualmente presidente do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas).
“As forças democráticas do Estado comemoram essa ação do MPE como uma vitória. Embora o Ministério Público esteja cumprindo o seu dever, esse ato constitui uma quebra, uma ruptura da blindagem, que tanto Aécio como sua irmã Andrea têm desfrutado”, disse a deputada Margarida Salomão. De acordo com Margarida, do ponto de vista institucional, ocorre um “eco” que reflete as preocupações do povo mineiro. “Estamos convencidos de que a Justiça mineira vai cumprir o seu dever”, enfatizou Margarida Salomão.
Ainda segundo a deputada, a movimentação do Ministério Público cria expectativa na sociedade de elucidação dos fatos que envolvem a figura de um ex-governador, hoje senador, e da irmã dele, então gestora de Comunicação Social do Governo. “Ela (Andrea) é quem definia para onde iam as verbas publicitárias. Aqui nós temos uma relação incestuosa do público com o privado. A rádio recebeu recursos públicos (alega o senador que de forma legal) e os destinou para, entre outras coisas, comprar um Land Rover que o ex-governador fazia uso privado. Essas coisas têm causado indignação na opinião pública mineira”, salientou a petista.
Indiferença 
Para o deputado Padre João, a Justiça mineira começa a acordar diante de tantas denúncias que envolvem Aécio Neves e membros da família dele. “O Ministério Público tem um papel importante, no entanto, eles ficaram indiferentes durante quase 10 anos em relação ao desvio do dinheiro público praticado na gestão tucana. Nós acreditamos nesse despertar do MP. Espero que ele cumpra, de fato, o papel a ele delegado. O povo não pode ser punido com a má destinação ou desvio de recursos público”, observou .
O parlamentar petista relatou que, à época, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais tentou instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o caso, mas, segundo ele, foi barrada pelos defensores do governo tucano de Aécio Neves. “Minas é um estado governado por Lei Delegada, aniquilando o Poder Legislativo. Houve tentativa de CPI que foi impedida. Cabe ao MP e ao Judiciário ir a fundo na investigação, levantar todos os valores e punir, não só o senador, mas os responsáveis que ilegalmente receberam dinheiro público”, defendeu o deputado Padre João.
Os fatos 
A parceria comercial entre Aécio e a Rádio Arco-Íris só foi descoberta porque o senador foi parado em operação policial na cidade do Rio de Janeiro, em abril do ano passado, e teve a carteira de habilitação (vencida) apreendida ao recusar o teste do bafômetro. O senador era o condutor de um veículo Land Rover, de propriedade da Rádio Arco-Íris (Jovem Pan FM-BH), emissora que recebe regularmente recursos públicos do Estado de Minas Gerais.
Benildes Rodrigues
No PT na Câmara
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Diretores da Saúde se demitem após suspensão de campanha polêmica

Prostituição e direito à saúde

Alexandre Padilha errou. Realizar campanhas de saúde pública é seu dever e não mera opção.
Sou feliz sendo prostituta
Cartazes da campanha do Ministério da Saúde que foi cancelada por
Alexandre Padilha após pressão de evangélicos
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, há pouco adotou a decisão de retirar campanha em favor da melhoria da auto-estima das profissionais do sexo com vistas à prevenção da Aids e doenças sexualmente transmissíveis. Um dos cartazes da campanha trazia a frase “Eu sou feliz sendo prostituta”. Também foi exonerado pelo ministro o diretor do departamento de DST, Aids e Hepatites Virais.
A retirada da campanha deu-se, aparentemente, por pressão da chamada “bancada evangélica“, que usou da Comissão de Direitos Humanos, presidida pelo deputado Marcos Feliciano (PSC-SP), para criticar a iniciativa.
Esse é o terceiro recuo do ministro em situações semelhantes. Conforme matérias veiculadas pela mídia, diversos profissionais e especialistas em saúde pública discordaram veementemente do recuo do ministro. Tais especialistas apontam diversas pesquisas científicas que demonstram que não é possível combater de forma plenamente eficaz o contágio da Aids sem a valorização da auto-estima das parcelas mais vulneráveis da população.
Não é preciso gastar muito esforço de argumento para afirmar que o Brasil é um pais laico, aliás como qualquer outra verdadeira democracia representativa.
Por esta razão questões de saúde pública devem ser tratadas por critérios exclusivamente técnico-científicos. Aspectos de moralidade religiosa não devem interferir em decisões administrativas neste tema.
Queiram os evangélicos ou não, no Brasil a atividade de prostituição é uma atividade lícita, não sendo capitulada como crime em nossa legislação penal. Embora não regulamentada como profissão, é lícita como qualquer outra das inúmeras atividades de trabalho lícitas não regulamentadas.
Em verdade, a regulamentação de uma profissão ou trabalho serve à limitação de seu exercício e não à ampliação da possibilidade de seu exercício, como pode imaginar o leigo. Tanto a prostituta que oferece e realiza serviços sexuais quanto o cliente que paga pelos mesmos estão, ambos, realizando uma atividade inerente a sua esfera pessoal de liberdade garantida pelo direito e por nossas leis.
Saúde é um direito do cidadão e dever do Estado realizá-lo. É um direito das prostitutas contarem com campanhas de prevenção da Aids dirigidas especialmente a elas, pois em razão do exercício de suas atividades lícitas estão mais sujeitas que a média da população à exposição ao vírus.
Mais do que um direito específico das prostitutas como grupo minoritário vulnerável, medidas de contenção da transmissão da Aids neste meio profissional beneficiam toda população e, portanto, é um direito de toda sociedade.
Aparte a hipocrisia moral e social que o assunto traz à tona, a realidade é que muitos homens, inclusive pais de família e até evangélicos, usam dos serviços de prostitutas e como tal funcionam como vetores de transmissão do vírus desse grupo mais vulnerável para o todo social, inclusive suas esposas, namoradas, parceiras e parceiros.
Campanhas de aumento da auto-estima das profissionais do sexo com vistas à mitigação da transmissão do vírus da Aids e demais DSTs em seu meio são, além de direito desta minoria social, um direito difuso de toda sociedade.
Ao ceder aos reclamos obscurantistas de setores religiosos, nosso ministro da Saúde errou. E errou de forma incompatível com nossa Constituição. Realizar as referidas campanhas de estimulo à auto-estima é seu dever e não mera opção sua.
Por outro lado, é muito preocupante ver o parlamento como voz do obscurantismo em termos dos direitos fundamentais e humanos. Embora não majoritária a, bancada evangélica consegue ser cada vez mais dominante nas pressões e ações parlamentares face à inação um tanto covarde da maioria mais esclarecida das casas legislativas.
Tal circunstância serve para mostrar que na tensão entre parlamento e STF não há mocinho ou bandido. Nos temas que tangenciam os costumes afetivos, sexuais e familiares, se não fossem as medidas contundentes da corte no exercício da interpretação constitucional, nossos direitos fundamentais nesses temas seriam letra morta.
Em temas importantes da vida cotidiana estaríamos sujeitos a interpretações medievais da Bíblia e não a valores humanos universais e laicos, traduzidos em direitos, como posto em nossa Constituição.
Pedro Serrano
No CartaCapital
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O País das Putas Tristes

Bastaram três dias de pressão da bancada evangélica para, finalmente, Alexandre Padilha demitir Dirceu Greco, diretor do Departamento de AIDS do Ministério da Saúde.
Três dias.
Greco caiu porque aprovou a veiculação de uma peça de combate ao preconceito com o slogan "Eu sou feliz sendo prostituta", para o Dia das Prostitutas, 2 de junho. Mas em um país supostamente laico e onde a prostituição não é crime, o exército de crentes e carolas que hoje manda nas grandes decisões nacionais se insurgiu contra a campanha, acionou seus lobistas de plantão e, outra vez, colocou o governo de joelhos.
Chegamos a um ponto em que nem um governo de origem (cada vez mais distante) progressista consegue empunhar essa bandeira essencial das liberdades individuais a partir de ações do Estado. No mar de insensatez em que navegamos, uma prostituta não pode se sentir feliz porque, simplesmente, há um consenso moral medieval estabelecido pela religião e por uma cultura machista predominantemente hipócrita.
Em março, o ministro Padilha já havia suspendido a distribuição do "kit gay", alcunha preconceituosa para revistas de histórias em quadrinhos elaboradas pelo Departamento de AIDS, com foco em adolescentes. O material havia sido elaborado em parceria com o Ministério da Educação, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).
Caiu por pressão da bancada evangélica.
Agora, calaram as putas, condenadas a serem tristes por decreto.
Feliz mesmo é Feliciano, que logo se apressou a cumprimentar o ministro, no Twitter, por mais essa vitória da moral e dos bons costumes."
Leandro Fortes
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Diretores da Saúde se demitem após suspensão de campanha polêmica

Greco e Barbosa atribuem o desfecho a uma onda conservadora no governo
Numa reação à exoneração do infectologista Dirceu Greco da direção do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, os diretores adjuntos do órgão, Eduardo Barbosa e Rui Burgo, pediram demissão nesta quarta-feira (5). A crise no programa, que durante anos foi considerado como referência internacional, foi deflagrada na terça-feira, 4, com a suspensão, determinada pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, de uma campanha para combater o preconceito às profissionais do sexo.
Greco e Barbosa atribuem o desfecho a uma onda conservadora no governo. "Fui destituído e rapidamente exonerado pelo secretário de Vigilância em Saúde por ordem do ministro da Saúde, por discordâncias do ministério com a condução da política de direitos humanos (...), que não coadunava com a política conservadora do atual governo", afirmou Greco, num e-mail de despedida, divulgado logo depois da sua demissão.
A campanha, lançada no fim de semana pelo departamento nas redes sociais, trazia peças com mensagens de prevenção. Numa das peças como o jornal O Estado de S.Paulo revelou, uma profissional do sexo afirma: "Eu sou feliz sendo prostituta." Embora elogiada por médicos especialistas no combate à aids e por integrantes de organizações não governamentais, a iniciativa provocou polêmica. No Congresso, o ministro foi cobrado.
Cotado para disputar as eleições para o governo do Estado de São Paulo, Padilha recuou. Mandou tirar a peça da página na manhã de terça-feira, dia em que o jornal publicou a reportagem. Na noite do mesmo dia, exonerou Greco e determinou a retirada de todo material, para "avaliação".
Padilha afirmou que as peças estavam em teste, não haviam sido aprovadas pela Assessoria de Comunicação Social e não atendiam os objetivos de prevenção. Esta é a terceira vez que o ministro determina a retirada de material com potencial de polêmica. Em março deste ano, ele determinou a suspensão da distribuição de um kit educativo. No ano passado, a campanha de carnaval, com foco em jovens gays, também teve sua veiculação suspensa. A justificativa dada na época era a de que o material era de divulgação restrita.
A crise despertou a atenção da imprensa internacional e provocou uma reação imediata de ativistas. No twitter, Padilha teve de responder a uma série de manifestações contrárias. "O movimento está articulado. Vamos divulgar uma carta, as paradas gays vão mostrar a indignação, mostrar toda insatisfação contra esse retrocesso", afirmou o coordenador de projetos do Movimento Gay de Minas, Oswaldo Braga.
Leila Barreto, da Rede Brasileira de Prostitutas, disse temer pelo futuro do programa. "Nos últimos anos, houve um estrangulamento das atividades das ONGs. Nós resistimos, buscando financiamento internacional. Não paramos, fomos para as esquinas por conta própria para fazer atividades de prevenção", conta. "Não vamos deixar que conquistas no combate à aids, que custaram vidas, esforços de toda uma população, retrocedam. Hoje o problema foi com as prostitutas. Amanhã, o desrespeito ao direitos humanos poderá mirar também em outros grupos."

“Estamos vivendo um processo conservador”

O médico infectologista Dirceu Greco, professor da UFMG
O médico infectologista Dirceu Greco, professor da UFMG
Exonerado do cargo de diretor do Departamento de DSTs, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, o médico infectologista Dirceu Greco, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), define como conservador o momento político do país.
“O departamento sempre foi vanguardista nas questões de direitos humanos. Mas nós estamos vivendo um processo conservador no país. Esse é provavelmente só mais um caso dentro de um processo”, diz Greco, lembrando dos projetos políticos de redução da maioridade penal e internação compulsória de usuários de drogas, entre outros.
O Ministério da Saúde não quis comentar a demissão de Greco e, através de nota, informou que as peças não foram aprovadas pela Assessoria de Comunicação Social, como é de praxe. A pasta informou ainda que os produtos foram desenvolvidos junto com o público-alvo (as prostitutas) e que as peças foram recolhidas.
Homenagem. Greco explica que a peça que exibia a fala “Eu sou feliz sendo prostituta” fazia parte de uma homenagem às profissionais, devido ao Dia Internacional das Prostitutas, comemorado no último 2 de junho, e não uma campanha educacional, como tem sido divulgado.
Para ele, a felicidade dita faz parte de um contexto de saúde mental. “A gente não diz que ser prostituta é ser feliz. Independente do que você faz, o processo de busca de felicidade é seu. E ele tem que ser exercido e respeitado”, defende.
Todas as falas exibidas nas peças são das prostitutas que ajudaram na elaboração do projeto. O médico acredita que quebrar tabus como a prostituição ou a homossexualidade são importantes para a redução de DSTs entre esses grupos.
Camila Bastos
No O Tempo
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Os verdadeiros motivos da fúria

A grande onda da mídia de mercado nestes dias tem sido criticar com extrema dureza a Presidenta argentina Cristina Kirchner. O Globo e outros dez jornais da América Latina publicaram durante vários dias uma série de reportagens sob o título Liberdade Ameaçada. Cristina e o já falecido Nestor Kirchner foram acusados de tudo que se possa imaginar em matéria de corrupção e de ações visando restringir a liberdade de imprensa.
Pelo que foi dado a conhecer, a Argentina está a beira do caos, mas o ódio maior da mídia de mercado sem dúvida é a lei dos meios de comunicação, discutida por mais de três anos pelos movimentos sociais, aprovada pelo Congresso e sancionada pela Presidenta atual. A reforma da Justiça também foi criticada com veemência.
Na verdade, como se trata de uma campanha sistemática com o visível intuito de desprestigiar o projeto de Cristina Kirchner e debilitar seus seguidores nas próximas eleições legislativas (as reportagens foram divulgadas também pelo jornal Clarin), as matérias deram pouco ou quase nenhum espaço para os defensores da presidenta.
Apesar das críticas diárias, que continuarão, outras matérias acusam os seguidores dos Kirchner de estarem preparando um projeto que permita a Cristina concorrer a um terceiro mandato. Nesse ponto, a mídia de mercado cai em contradição. Ao mesmo tempo em que revela um grande desgaste da imagem da presidenta, fica visível a preocupação por ela aspirar nova reeleição. Mas se Cristina está tão desgastada, qual o motivo do temor?
Na verdade, além da lei dos meios de comunicação e da reforma da Justiça, a mídia de mercado nunca se conformou com o fato do atual governo não seguir o receituário do capital financeiro internacional. Nesse sentido, tudo precisa ser feito em matéria de desgaste de Cristina.
O mesmo raciocínio vale para presidentes como Rafael Correa, do Equador, Evo Morales, da Bolívia e o mais recente, Nicolás Maduro, da Venezuela. Todos eles são duramente criticados diariamente nas publicações dos integrantes do chamado Grupo de Diários América (GDA), que na verdade se comportam muito mais como partidos políticos defensores de projetos favoráveis ao Estado mínimo do que órgãos de imprensa propriamente ditos.
Os meios de comunicação de mercado citados dificilmente informarão aos seus leitores, ouvintes e telespectadores sobre o fato de as políticas do governo da República Bolivariana da Venezuela terem reduzido o indicador de fome em 86% nos últimos 14 anos, exatamente desde a ascensão do Presidente Hugo Chávez.
Quem reconhece esse índice na Venezuela é a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). Vale ressaltar também que a mesma FAO estabelece como meta para 2015 que os governos dos países reduzam os índices de desnutrição à metade do que tinham em 1990. A Venezuela naquele ano apresentava o índice de 11% e mesmo em 2010 alcançou 2%, ou seja, menor até do que o estipulado pelo organismo da ONU.
Mas em matéria de Venezuela, o espaço da mídia de mercado fica por conta de Henrique Capriles Radonsky, que segue deslegitimando a eleição de Nicolás Maduro no pleito presidencial de 14 de abril último com a acusação, sem provas, de fraude. O candidato derrotado, por pouca margem (pouco mais de 1,5%), mas derrotado, conta com o apoio do governo estadunidense. Capriles andou circulando pelo exterior sendo recebido pelo Presidente colombiano Juan Manuel Santos.
Já os seguidores de Capriles, como a deputada Maria Corina Machado, estiveram recentemente no Chile. A parlamentar se entendeu muito bem com pinochetistas eméritos, entre os quais Hernán Felipe Errázuriz Correa, ex-Ministro do Exterior e também de Minas, além de presidente do Banco Central, durante o regime sanguinário chileno.
A divulgação do encontro entre correligionários foi noticiado pelo jornal El Mercurio, que integra o tal Grupo de Diários América e que antes do golpe contra o presidente Salvador Allende foi contemplado pela CIA com 1,5 milhão de dólares.
Outra importante informação também praticamente ignorada pela mídia de mercado brasileira foi a criação pela Unasur (União das Nações Sul Americanas) da primeira Escola Sul Americana de Defesa (Efuse) com o objetivo de formar militares dos 12 países integrantes da instituição. O ensino da Efuse será no contexto do pensamento estratégico essencialmente sul americano e promoverá intercâmbio de professores e alunos, civis e militares nos programas.
Mas os questionadores do comportamento partidário dos meios de comunicação de mercado são acusados de ferir a liberdade de expressão e de imprensa, quando acontece exatamente o contrário.
Por estas e muitas outras, as ferozes críticas a Cristina Kirchner, Rafael Correa, Evo Morales e Nicolás Maduro devem ser entendidas como campanhas contrárias a quem não segue o receituário do pensamento único, defensores do estado mínimo.
Mário Augusto Jakobskind
No Direto da Redação
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Charge online - Bessinha - # 1809

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A nova "guerra justa" aos índios

Quando os donos do poder mobilizam as forças armadas para atacar os mais vulneráveis, uma situação de terrorismo de Estado está em curso. É o que acontece hoje no Brasil
Índios mundurukus se reuniram com o ministro Gilberto Carvalho
para discutir a suspensão de empreendimentos energéticos na Amazônia
A crise da questão indígena nas últimas semanas ganhou ares dramáticos. Conflitos antigos estão pipocando por todas as partes do Brasil, do Sul à Amazônia. Seja onde se constrói Belo Monte, seja na futura usina São Luiz do Tapajós, seja em fazendas no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, no Paraná, no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, no Pará, na Bahia, ou madeireiros em Rondônia e no sul do Amazonas.
De repente todo o campo ganhou ares de fronteira, de velho oeste.
Protestos de indígenas são seguidos por pistolagem, e a polícia agindo para "dispersar" convulsões sociais - agora os ruralistas também estão pedindo o exército.
E as tristes mortes de Oziel Terena e Adenilson Kirixi Munduruku, com pífia resposta das autoridades que produziram essas mortes, a Polícia Federal, são apenas a parte mais exposta e visível desse grave problema que o governo tem mostrado não apenas incapacidade de resolver, mas uma capacidade de insuflar ainda mais, como tem sido as declarações dos ministros Gleisi Hoffman (Casa Civil) e José Eduardo Cardozo (Justiça), atacando a Funai e defendendo a PF, e o silêncio público da presidenta Dilma Rousseff.
Uma das razões pelas quais os conflitos se agravaram não é porque eles não existiam, mas porque agora os indígenas, e os aliados dos povos indígenas, decidiram responder e se manifestar. Contra eles, capitaneados pela bancada ruralista no Congresso e no governo federal, a violência explodiu. Tanto no campo, com mortes e repressão física, quanto na imprensa, com ataques racistas pela mídia e a inversão da lógica de quem é vítima.
As vítimas se tornam os agressores. "Índios invadem fazendas", aparece no noticiário. Mas não são as fazendas que invadiram estes mesmos territórios indígenas em conflitos?
No caso da Terra Indígena Buriti, onde ocorreu o conflito entre fazendeiros e Polícia Federal contra os indígenas, a resposta é clara, e está judicializada em dois tipos de ação.
Em uma das ações na Justiça, os fazendeiros, entre eles do ex-deputado estadual do PSDB Ricardo Bacha (que se considera "ambulante" na sua ficha), discute a portaria declaratória. Nela, o desembargador Luiz Stefanini, que votou contra os índios, teve suspeição alegada pela Funai, e negada pelo próprio tribunal.
A razão é que sua mulher é credora da Funai em outro conflito com indígenas Terena no estado, e seu sogro era uma liderança da associação de classe dos fazendeiros, a Famasul.
A suspeição foi negada com a alegação de que "ainda que o falecido sogro do excepto tenha sido filiado à aludida federação, nem por isso seria caso de acolher-se a exceção, simplesmente porque da premissa estabelecida pela excipiente não resulta a conclusão exposta" (sic), e que a Funai é que deve a esposa do desembargador, logo: "Ora, qual seria o interesse do juiz em julgar a causa em detrimento de sua devedora? Absolutamente nenhum!", decidiu o desembargador Nelton dos Santos.
Agressão desmedida da PF
A outra ação decorrente desse mesmo conflito é a reintegração de posse que visa a tirar os indígenas das áreas reocupadas dentro do limite declarado com base no argumento de que a decisão do Tribunal Federal diz que não é terra indígena e que por isso os indígenas não podem ficar lá. Acontece que, no momento que a decisão liminar que determinou a expulsão dos índios foi expedida, ocasionando a morte de Oziel, o que prevalecia era a área declarada pelo Ministro da Justiça em 2009 como TI Buriti, com 17200 hectares. A agressão desmedida da Polícia Federal apenas reforça o argumento de que as vítimas desse processo de expropriação, os índios, se tornaram vítimas da justiça e do governo. E os agressores viram falsas vítimas, passando a controlar o acesso as instituições em seu benefício.
No caso das demarcações, governo tem agido em movimentos coordenados pela elite rural anti-indígena, como foi a ida da ministra Gleisi Hoffmann ao Congresso. Nos últimos dias, os piores momentos da ditadura estão sendo lembrados, tanto por declarações do governo, capitaneadas pela ministra da Casa Civil - que vê a Embrapa, especializada em pesquisa agropecuária, como o órgão mais apto a pesquisas antropológicas – quanto por cartas de intelectuais e movimentos sociais denunciando essa violência.
Exemplo dessas manifestações é uma carta, assinada entre outros pelo jurista Dalmo Dallari, endereçada à presidenta Dilma Rousseff sobre a “desqualificação da Funai”:
"A decisão da Casa Civil da Presidência da República apresentada aos representantes do agronegócio e parlamentares do Mato Grosso do Sul, em reunião na semana passada em Brasília, de que a Embrapa, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Ministério do Desenvolvimento Agrário, “avaliarão e darão contribuições” aos estudos antropológicos realizados pela FUNAI, repete a ação do último governo militar ao instituir o famigerado “grupão” do MIRAD, capitaneado pelo general Venturini, para “disciplinar” a FUNAI e “avaliar” as demandas indígenas.
Quando os donos do poder mobilizam as forças armadas para atacar os mais vulneráveis, uma situação de terrorismo de Estado está em curso. É o que acontece hoje no Brasil com relação aos índios.
Utilizar as forças de repressão para atacar indígenas foi medida utilizada no passado, durante a ditadura, contra os ava-canoeiro, em Goiás, os waimiri-atroari, no Amazonas, os panara, no Mato Grosso, ou mesmo os kaingang, em São Paulo, logo antes do surgimento do Serviço de Proteção aos Índios, em 1910. Alguns desses crimes apareceram no relatório Figueiredo, que ficou desaparecido por 45 anos. Mas o relatório é anterior aos piores tempos da ditadura. E precisaria ser escrito um novo relatório sobre o que está acontecendo, hoje, em diferentes os cantos do país.
Se os ruralistas dão entrevistas, escrevem artigos, e aparecem por todos os lados sempre disponíveis, os índios ainda não têm chance de se expressar. A eles têm restado as redes sociais, pelas quais podem manifestar suas indignações. Expor, por exemplo, a crueldade de uma jornalista da TV Globo que invadiu um funeral para entregar uma intimação judicial a índios terenas durante o enterro de Oziel Terena. O que mais tem circulado nas redes sociais são manifestos que não encontram eco na mesma mídia que ataca os índios - mas que encontra meios de se fazer circular e provocar o debate.
As críticas se dirigem aos ruralistas, e junto deles, Gleisi e Dilma: "Como essa senhora consegue dormir sabendo que a parte mais desprotegida do povo brasileiro, os povos indígenas, está sendo assassinada a bala pela Polícia Federal em suas aldeias, as crianças indígenas são assassinadas por jagunços do agronegócio em suas terras invadidas por supostos fazendeiros?" perguntou no facebook o indigenista da Funai, Cláudio Romero, que trabalha há quase quatro décadas na fundação.
Kátia Abreu e Dilma
Durante o julgamento do caso da Raposa Serra do Sol, havia sido exposto que o juiz Carlos Alberto Menezes Direito poderia ter servido ao lobby de fazendeiros do sul do país para decidir contrariamente aos indígenas em Roraima. Para garantir a demarcação no Norte, Direito tentou legislar para impedir que os direitos de outros fossem garantidos. Tentou escolher na cara de quem a porta da Justiça iria se fechar.
Passou a soar uníssono entre ruralistas, governo e imprensa que as "regras não são claras" na Funai, como se todos fossem comentaristas de futebol tentando encontrar uma "a regra é clara".
Alegavam que a Funai não conseguia fazer uma "intermediação" com fazendeiros, e mais uma série de argumentos retóricos reproduzindo uma falsa vitimização da casa grande, cada vez mais poderosa com o avanço tecnológico na agricultura e a sede por commodities da China, e criminalizando quem está no pelourinho.
A desconstrução dos direitos indígenas segue a destruição dos direitos do meio ambiente, com o fim do Código Florestal e a sua substituição por um "novo" codex, a regular menos as florestas e mais as lavouras produtoras de commodities em grande escala.
O governo, em alguns momentos, tenta se colocar como "refém" dos poderosos ruralistas. Esse segmento, que construiu uma aliança com a bancada evangélica, saiu da "oposição" e veio para a "base aliada", sobretudo durante a campanha de Dilma.
E para ter uma chamada "governabilidade", o governo se aliou a esses setores. Até "ideologicamente", como tem repetido a senadora Kátia Abreu ao dizer que suas idéias são as mesmas de Dilma.
Essa aliança, além de tragédia no campo, tem também acirrado disputas internas no governo, entre esta ala reacionária e os setores mais progressistas, como os que defendem os indígenas e quilombolas, na Funai e INCRA, e o meio ambiente no Ibama.
Quando Dilma convocou uma reunião para decidir o futuro dos índios em meio à atual crise, não convidou representantes dos povos indígenas, e nem mesmo a Funai.
Dilma teria declarado querer que o índio tenha "autonomia econômica", algo que ressoa declarações da época da ditadura, como quando os militares tentaram impor aos xavantes o cultivo de arroz, que se revelou um desastre, econômico e social, ou impôs aos kayapo a extração predatória de madeira. Nas declarações que sucederam a reunião, não se falou de algo mais fundamental: a garantia dos direitos dos povos indígenas. Nem sequer apareceu termos como "etnodesenvolvimento" nas falas.
Esse movimento anti-indígena cada vez mais ganha áreas de uma "guerra justa".
Os índios são selvagenizados, desculturalizados, desterritorializados, desumanizados. Devem abrir caminho para a soja, a cana, o boi, e a energia hidrelétrica, sem opor resistência.
Caso contrário, toda violência contra eles é justificada e respaldada pelo Estado. Contra o índio, é tolerado partir para cima. Como nas "guerras justas" nos tempos a colonização utilizadas como justificativa para a escravização dos índios – escravização que ainda é o provável destino dos índios nas lavouras de cana no Mato Grosso do Sul, como acontecia no Brasil colônia.
Felipe Milanez
No CartaCapital
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O nó da regulação no festival de gambiarras

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A quinta edição comemorativa do aniversário de 15 anos da versão televisiva do Observatório da Imprensa, exibida na terça-feira(4/6), na TV Brasil, veiculou uma entrevista de Alberto Dines com Franklin Martins, que foi ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República durante do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Franklin Martins começou a trabalhar aos 15 anos no jornal Última Hora e, em 1967, entrou para o curso de Ciências Econômicas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Durante a ditadura militar militou no movimento estudantil. Foi preso, passou para a clandestinidade e integrou a luta armada. Exilou-se na França em 1977 e voltou ao Brasil com a anistia, dois anos depois. Na década de 1980 voltou-se para o jornalismo político e passou pelas principais Redações do país: O Globo, Jornal do Brasil, O Estado de S.Paulo, TV Globo, SBT, Época e Rádio Bandeirantes.
Em editorial, antes do debate no estúdio, Dines ressaltou o perfil de crítico de Franklin Martins: “Nosso convidado é um experimentado e brilhante jornalista que converteu-se num estudioso da mídia contemporânea por força da função de ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, mas também como decorrência de uma consciência crítica da qual raros são os profissionais que dela conseguem escapar. Jornalismo é um exercício constante de crítica e autocrítica”.
Na abertura do programa, Dines comentou que quando a presidente Dilma Rousseff se sente incomodada com a mídia usa um truque: convoca Franklin Martins ao Palácio do Planalto. “Ninguém sabe o que vocês falaram e logo depois a mídia arrefece o seu entusiasmo”, explicou Dines. O ex-ministro assegurou que esse truque não passa de folclore: “Se a presidente me convidasse todo dia em que ela se chateia demais, me convidaria todo dia para ir lá. A imprensa não larga do pé dela”, disse Franklin Martins.
Imprensa e poder
O ex-ministro contou que ele e a presidente construiram uma sólida amizade durante o segundo mandato do presidente Lula da Silva, quando Dilma ocupava o cargo de ministra-chefe da Casa Civil. Atualmente, os dois mantêm conversas frequentes que não giram apenas em torno de política, mas tratam também de literatura e outros temas. “Se ela resolve de vez em quando [cutucar] um pouco a imprensa, é um direito que ela tem”, avaliou o ex-ministro, em tom de brincadeira.
Dines comentou que esse folclore se propaga porque o ex-ministro encarna a possibilidade de “tirar do armário o fantasma do marco regulatório das comunicações no Brasil”. Para Franklin Martins, apenas os donos dos grandes grupos de comunicação ficam incomodados em discutir temas ligados à mídia – a sociedade, em geral, não se incomoda com essa questão. O Brasil precisa “desesperadamente” de um novo ordenamento jurídico para o setor de comunicação eletrônica, na opinião do ex-ministro.
“Nós estamos vivendo um momento no mundo de convergência das comunicações eletrônicas. Isso significa que o celular, a televisão portátil e o computador afunilam para a mesma coisa. Não haverá diferença entre celular, computador e televisão portátil dentro de muito pouco tempo. Isso significa que o conteúdo que é posto à disposição das pessoas – seja pela radiodifusão, seja pelas empresas de telecomunicação ou pelos Googles da vida – está afunilando. Se não houver um marco regulatório, isso significa que nós vamos ter um reforço ainda maior do processo de oligopolização da indústria de comunicação, que é algo vital para a sociedade”, defendeu Franklin Martins.
Legislação atrasada
O foco de atenção do ex-ministro é o espectro eletromagnético, que compreende a radiodifusão e boa parte da telefonia, sobretudo a móvel. “Isso é um bem público, escasso e finito, que tem que ser repartido. Por isso, é objeto de concessão pública”, explicou Franklin Martins. Todas as concessões públicas são reguladas pelo Estado em qualquer país. “No Brasil, nós vivemos um festival de gambiarras nessa área há muito tempo”, criticou o ex-ministro. O Código Geral de Telecomunicação do Brasil, que rege a radiodifusão e parte das telecomunicações, foi promulgado em 1962 e está claramente defasado. Há 50 anos, quando foi criado, havia apenas 2 milhões de aparelhos de televisão. Hoje, há transmissão ao vivo, redes, satélites, cadeia nacional e internet, para citar apenas algumas mudanças.
Esta discussão, na opinião de Franklin Martins, é indispensável para a sobrevivência dos grupos de comunicação, que correm o risco de ser “atropelados pela jamanta” – as empresas de telecomunicação e os grandes portais de busca. A situação vai afetar a produção de conteúdo e concentrar ainda mais o setor, mas não há interesse em discuti-la. “O problema é que no Brasil nós temos a tradição de que sempre que se fala em discussão de alguma coisa que afeta a imprensa, se reage como se isso fosse um atentado à liberdade de imprensa”, criticou Franklin Martins. Para ele, isso só ocorre porque o setor é altamente concentrado.
Nas últimas décadas, a ditatura militar contribuiu para a concentração da mídia brasileira e a imprensa se tornou uma indústria pesada, com altos custos de produção. Nos anos 1950, circulavam no Rio de Janeiro, então capital federal, mais de vinte jornais importantes. Atualmente, apenas dois grupos de comunicação atuam no estado, evidenciando um processo de concentração que aconteceu também na televisão e no rádio. Para Franklin Martins, as novas mídias promovem uma convergência e exigem uma regulação que seja capaz de lidar com o novo paradigma – mas, por outro lado, permitem um extraordinário barateamento dos custos de produção. Este fator permitiria a volta dos “tempos heroicos da imprensa”, quando os jornalistas e pequenos empresários tinham condições de lançar publicações e se manter no mercado.
O novelo das comunicações
Dines ressaltou que a expressão marco regulatório pode soar assombrosa para alguns setores, mas que fora do Brasil são adotadas medidas reguladoras que funcionam, como a arbitragem da concorrência promovida pela Federal Communications Commission (FCC), nos Estados Unidos. O órgão impede a propriedade cruzada e a concentração de um grupo de mídia em uma mesma região. Dines sugeriu que se medidas como esta fossem adotadas no Brasil não “assustariam” dos grupos de mídia e abririam as portas para a discussão. Para Franklin Martins, a questão precisa ser discutida, mesmo contra a vontade das empresas.
“Fantasmas existem para quem acredita em fantasmas, não para pessoas que botam o pé no chão, que são razoáveis, que olham o mundo de frente ou que não querem manipular a opinião pública, porque grande parte disso é algo deliberado por parte da imprensa tentando interditar uma discussão”, avaliou o ex-ministro. Para Franklin Martins, o debate sobre o marco regulatório acaba sendo um debate sobre a imprensa, a indústria de entretenimento e os direitos da população à informação e à pluralidade. “Isso não tem nada a ver com controle de conteúdo porque censura é um controle prévio de conteúdo. Isso momento algum [isso] foi proposto. Vem se criando uma grande confusão que interdita o debate. Só que isso não vai dar certo porque a convergência impõe mudanças e isso terá que ser discutido”, garantiu o ex-ministro.
Franklin Martins comentou que podem ser observados avanços na regulação. Há cerca de um ano, por exemplo, foi estabelecida uma legislação para a TV por assinatura. “Separou distribuição de produção – quem produz não pode distribuir, quem distribui não pode produzir – para impedir a concentração, a oligopolização. Estabeleceu cotas para a produção nacional, para a regional e para a independente. E isso tudo, diga-se de passagem, previsto na Constituição da nossa República. Todos esses dispositivos nunca foram regulados. O setor de radiodifusão é o único setor onde a Constituição federal diz especificamente que não pode haver oligopólio, mas nunca houve regulação do assunto”, disse.
Uma mídia mais plural
O ministro comentou que o único dispositivo que foi regulado é o que proibia a presença de capital estrangeiro na mídia brasileira. “Em 2002, a meu ver acertadamente, ampliou-se para 30%. É claro que isso se ampliou em razão de que havia algumas empresas, no caso a Editora Abril e as Organizações Globo, que viviam seriíssimos problemas de caixa no momento e isso foi muito bem-vindo. Mas só quando foi a favor das empresas de comunicação é que alguma coisa foi regulada. E a sociedade? E o cidadão? Ele não tem direito à pluralidade?”, questionou Franklin Martins.
A importância da imprensa comunitária também foi discutida na entrevista. “Jornalismo comunitário tem uma importância monumental no mundo todo. Jornal escrito, em princípio, é comunitário, é da cidade dele [leitor]. Rádio é comunitário. Televisão é que já é um pouco mais complicado. Quem souber se conectar com isso vai longe. Quem ficar choramingando porque o mundo está mudando e achincalhando quem quer ir para frente, vai ficar para trás”, apostou Franklin Martins. Para ele, atualmente, as TVs e rádios comunitárias são tratadas como se fossem uma excrecência, mesmo sendo parte importante no processo de comunicação.
Outro tema tratado no programa foi a concessão de canais de radiodifusão a parlamentares. Franklin Martins explicou que a Constituição não proíbe especificamente a presença de parlamentares no controle, mas diz claramente que quem goza de foro privilegiado, como deputados, senadores e juízes, não pode ser detentor de concessão pública. Alugar horário para venda de produtos ou para confissões religiosas é outra distorção no sistema de radiodifusão. “Isso virou um cipoal de gambiarras porque não existe um marco regulatório. Não tem nada de espantoso. Nos Estados Unidos tem, mas eles regulam mais pela via econômica, proibindo a propriedade cruzada”, sublinhou o ex-minstro. Já na Europa são estabelecidas algumas obrigações de conteúdo, como proibição de atos racistas e de incitação ao ódio.
Independente de quem?
O ex-ministro defendeu o debate em torno da propriedade cruzada. Nos anos 1980, os jornais O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo chegaram a tratar do assunto publicamente, mas a discussão não avançou. “A imprensa é algo que é cíclico, não está sempre ladeira abaixo ou sempre subindo a montanha. Eu acho que nós já vivemos momentos bem melhores na nossa imprensa sob o ponto de vista da qualidade e da pluralidade. Hoje em dia há um certo pensamento único”, criticou Franklin Martins.
Para ele, a mídia precisa se ater aos fatos para poder ser independente: “A imprensa não pode querer ir além das suas chinelas. A imprensa existe para fornecer informação de qualidade, e dependente dos fatos. Porque eu sempre digo: só existe uma imprensa independente, a que é dependente dos fatos. A que é independente só do governo, mas que é dependente da oposição; a que é independente do governo, mas é dependente dos grupos econômicos ou dos interesses dos acionistas, [esta] não é independente. É gogó, é discurso. Independência da imprensa é resultado de uma dependência visceral que é a dependência do fato”.
Atualmente está um curso uma significativa mudança no modelo de comunicação, na opinião de Franklin Martins. O padrão vigente, onde um núcleo ativo produtor de informação emite a mensagem para uma massa passiva consumidora, está com os dias contados. “Isto acabou. Hoje em dia, mal saiu a notícia você já tem um monte de gente na internet discutindo se aquilo é verdadeiro ou não é. Os erros da imprensa resistem por pouquíssimo tempo”, afirmou o ex-ministro. Casos de manipulação da imprensa são desmascarados rapidamente: “A internet é o cidadão entrando e atropelando as instituições que estão estabelecidas”.
Novos tempos para a imprensa
Se a imprensa reagir de forma positiva a esse novo cenário, de acordo com a previsão do jornalista, poderá aprender com os erros: “Nós seremos mais humildes. Nós somos muito arrogantes, de um modo geral. E dos donos de jornal, então, nem se fala”. Na opinião de Franklin Martins, a sociedade é benevolente com os erros da imprensa quando acredita que foram cometidos de boa-fé, no afã de entregar a notícia rapidamente. Por outro lado, quando percebe que está sendo manipulada, torna-se crítica ferrenho. “Existe um contrato básico que é o seguinte: eu vou lhe entregar informação honesta e de qualidade e vou lhe proporcionar um debate público plural. Mas, além disso, eu tenho que lhe surpreender. Quando que você se surpreende hoje em dia?”, questionou.
O ex-ministro assegurou que a imprensa incomoda muito mais o governo quando é verdadeira do que quando é mentirosa. “Quando ela é mentirosa, não afeta nada porque isso não resiste. Quando ela é verdadeira, obriga o governo a fazer mudanças, retificações, derruba pessoas”, explicou. Para o entrevistado, os principais órgãos de imprensa têm uma política conservadora. O ex-ministro lembrou como foi trabalhar nas Organizações Globo, mesmo tendo um perfil historicamente identificado com o pensamento de esquerda. De acordo com Franklin Martins, a direção do grupo percebeu que a empresa havia saído chamuscada do período da ditadura e decidiu adotar duas táticas para reformar a sua imagem: apegar-se aos fatos e contratar colaboradores com perfis diversos.
“Hoje em dia eu vejo no jornal: todo mundo fala igual, todos os colunistas falam igual. Isso serve para dar aos telespectadores, leitores e ouvintes uma dose diária de fel e ressentimento que a gente tem que entregar, mas isso também demonstra insegurança no debate de ideias. Por que não se pode debater ideias livremente, com posições diferentes?”, questionou.
A imprensa brasileira nos anos 1980 e 1990 vivia um período de ebulição, mas era obrigada a “baixar a bola” com frequência: “Alguém ia sair batendo no Antonio Carlos Magalhães assim? Embrulhou, mandou, bate? Não, porque Antonio Carlos Magalhães tinha poder. Se queria fazer uma matéria contra ele, tinha que matar a cobra e mostrar o pau. Hoje em dia vale qualquer coisa, desde que seja contra fulano ou beltrano. Se for contra certas pessoas da oposição, senta-se em cima. Se for um debate que estimula uma reflexão crítica sobre a imprensa, senta-se em cima. Sabe qual é o maior tabu da imprensa? A imprensa. E quando a imprensa não se aceita discutir ela será discutida pelos outros”.
Lilia Diniz é jornalista
No Observatório da Imprensa
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Danuza é emblema da crise estrutural da mídia

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Demissão da colunista de elite da Folha de S. Paulo vem acompanhada de dezenas de cortes no jornal da Barão de Limeira; Editora Abril pronta para iniciar processo de enxugamento de até 10% de seu pessoal; Estadão, onde o também demitido Nelson Motta acusou internautas de "relincharem", definha em praça pública; Valor, joint venture Folha-Globo, diminui redação; com monopólio no Rio, família Marinho preserva as Organizações Globo, mas não se sabe até quando; informação livre pela internet promove devastação nas estruturas arcaicas da mídia tradicional, na qual o patronato não acompanhou avanço tecnológico, menosprezou busca pela notícia e fez veículos trombarem editorialmente com a nova opinião pública
As torres de papel da mídia tradicional estão caindo. Uma a uma. A informação livre em circulação pela internet, mídia que todos os números e pesquisas apontam como a de maior e mais rápida ascensão entre o público brasileiro, fustiga os alicerces nada sólidos daquela que já foi chamada "grande imprensa". Os custos de operação, as dificuldades logísticas e a falta de visão de presente e futuro dos líderes de negócios dos jornais e revistas – obnubilada na fixação pelo passado - formam o conjunto responsável pela debacle. Um processo acelerado pela miopia ideológica da famílias detentoras aplicada às linhas editoriais de cada veículo, todas elas convergentes a um conservadorismo pulverizado em praticamente todas as seções jornalísticas – Política, Economia, Cidades, Esportes etc. Um atraso que quebra a sincronia das rotativas com a visão de mundo mais ampla e plural do leitor atual. Um fracasso contratado.
A demissão da colunista de elite Danuza Leão, da Folha, revelada nesta quinta-feira 6, é emblemática da situação de crise estrutural da mídia de papel. Em seus livros, Danuza sempre se apresentou como uma socialite cheia de bons conselhos a dar, mas, pouco a pouco, em seu espaço no diário da família Frias, foi empunhando a pá ideológica que cavuca o fosso sempre profundo que separa ricos de pobres, emergentes de quatrocentões. Foi perdendo, a cada golpe, atratividade de leitura, acumulando adversários entre os leitores, diminuindo, assim, pelas opiniões isoladas do resto do mundo, sua razão de estar ali, tratada a pão-de-ló por 12 anos. Não precisava, neste sentido, a colunista ter troçado dos leitores, reclamando da democratização das viagens pelo exterior, de modo a lamentavelmente ser possível encontrar o porteiro de seu próprio prédio em lazer em Paris (aqui)!
DESCOLAMENTO DO PÚBLICO 
Danuza, no entanto, não é a única a padecer neste momento. Entre jornalistas, comenta-se que ela apenas entrou no corte de cerca de 40 profissionais promovido pela Folha ao longo desta semana. Um "passaralho", como se diz na categoria profissional, que vai sendo baixando aos poucos, já há alguns meses, na redação do concorrente Estadão. Ali, um famoso colunista que rodou foi o crítico musical Nelson Motta. O mesmo fenômeno de descolamento em relação ao público ocorreu com ele.
Ao longo de sua história de quase 50 anos em torno da música e do entretenimento, Nelsinho, como é chamado, construiu uma imagem de simpatia. Bastou, porém, ter seu próprio espaço emoldurado num jornal conservador, para se deixar contaminar pelo entorno. Ao comentar os posts de leitores de 247, onde a expressão é livre e aberta, de modo a que cada posição seja conhecida e, nessa medida, respeitada e discutida, Nelsinho registrou que só ouvia "relinchos". Foi escorraçado nas mídias sociais (aqui). Sem escalas, trocou uma posição de queridinho por tantos para a de ridicularizado por muitos mais. Dançou.
HORA DA ABRIL 
Na maior editora de revistas da América Latina, a situação promete ser ainda mais dramática. Reconhecia-se entre a diretoria, meses antes da morte do presidente Roberto Civita, a necessidade de promover mudanças internas que produzissem uma economia de até R$ 100 milhões anuais em custos. Civita, ciente da imagem de superioridade que a Abril sempre prezou, barrou até o final as propostas de profundos cortes de pessoal que pousaram em sua mesa. Agora, porém, sob a direção de seu filho Giancarlo, o prognóstico entre os profissionais da empresa é que se inicie uma verdadeira Noite de São Bartolomeu, na qual até 10% dos mais de nove mil funcionários da organização poderão ser degolados. Com 52 revistas em seu portfolio atual, habitando um prédio com mordomias como piscina que lhe custa estimados US$ 1 milhão mês, a Abril só encontra lucro em uma ou outra operação, jamais em todas. É provável, assim, que títulos desapareçam. No carro-chefe Veja, cuja redação quintuplicou de tamanho nos últimos quinze anos, sem que o mesmo acréscimo tivesse se dado em seu conteúdo jornalístico, ao contrário - há cada vez menos notícia, cada vez mais editorialização -, as aparências devem ser mantidas. Isso, entretanto, ainda é incerto.
Na mídia especializada, como o jornal Valor Econômico, a crise estrutural também já se achega. Produzir a partir do zero, todos os dias, redigir, editar, diagramar, imprimir e distribuir um jornal custa muito caro, até mesmo para um veículo que, na prática, detém o monopólio da publicidade legal no País. Quando a coluna do lucro começa a ter números encolhidos, a alternativa empresarial é, salvo raríssimas exceções, enxugar a folha de pagamentos. É o que está acontecendo lá, onde vagas estão sendo congeladas e vínculos empregatícios formais vão sendo substituídos por mão de obra sazonal.
Barbeiragens empresariais se somam ao grave momento da mídia tradicional. Na Record que tirava quadros da Globo a preço de ouro e bateu a emissora dos Marinho na cara disputa pelas Olimpíadas de Londres, a conta chegou na forma de 400 demissões apenas esta semana.
INTERNET QUEBRA RECORDES 
Enquanto isso, a audiência na internet quebra recordes dia a dia, provocando uma saudável disseminação de informações por meio de jornais, revistas, tevês e blogs especialmente criados para este veículo de alta velocidade, farta concorrência e vasto acesso. Cria-se aqui um ambiente de briga de mãos limpas, honesta, onde os "sem rotativa" e os "sem antena" passam a ter iguais condições de disputar o interesse do leitor, a atenção das fontes, o respeito do mercado publicitário e, sobretudo, adquirem influência no circuito que nasce com bases populares e alcança os formadores de opinião.
Os tempos estão mudando. A mídia tradicional descobriu, na última hora, que o passado não mais é capaz de corrigir seus excessos corporativos, erros gerenciais e choques com uma nova e numerosa classe de leitores. Pagam pelo desastre comercial provocado pela soberba os profissionais que ajudaram a construir cada uma dessas máquinas. É o capitalismo em estado bruto mostrando sua velha e vincada face assustadora.
No 247
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A imprensa atravessando o samba

Em 1963, a Acadêmicos do Salgueiro adentrou a avenida Presidente Vargas para ganhar o carnaval e revolucionar o desfile das escolas. Seu samba-enredo narrava a história de uma escrava e, para espanto de todos, começava assim: “Apesar de não ter grande beleza”. Como? Onde já se viu um samba começar com “apesar”? Bem, tratava-se da famosa Chica da Silva que, mesmo sem dispor de excelência física, “encantou a mais alta nobreza”. O samba? Maravilhoso.
Os autores da ousadia, Anescarzinho e Noel Rosa de Oliveira, transgrediram criativamente a rotina das letras e utilizaram com perfeição um recurso estilístico. Lamentaram o que seria de lamentar – a ausência de perfeição estética da mulher – para melhor exaltar um grande feito: a conquista do coração do contratador João Francisco de Oliveira, “que a tomou para ser a sua companheira”.
Pois 50 depois, o jornal O Globo estampou em sua primeira página de domingo, 2/6/13, matéria sobre trabalho infantil que começava assim: “Apesar dos avanços no combate ao trabalho infantil desde os anos 90…” ao que se seguia informação sobre o possível número de crianças e adolescentes ainda trabalhando em atividades perigosas, e terminando com o registro de que “Para os especialistas, o país não deve cumprir a meta de erradicar esse tipo de trabalho até 2015”. A Organização Internacional do Trabalho acabava de publicar relatório sobre eliminação do trabalho infantil apontando que o programa bolsa família foi responsável por parte da significativa redução de 13,4% no contingente de trabalho infantil no Brasil, entre 2000 e 2010. Especificamente, segundo o IBGE, o número de crianças e adolescentes trabalhadores decresceu de 5,3 para 4,3 milhões, entre 2004 e 2009. Um milhão a menos em cinco anos. O jornal O Globo, ao contrário dos criativos compositores do Salgueiro, transformou uma comemoração em velório, apresentou pêsames aos resgatados de um desastre e exaltou um evento que, segundo especialistas, não acontecerá daqui a dois anos. Tudo em primeira página garrafal. Que jornalismo é esse?
Mais do que engajado partidariamente, trata-se de um jornalismo de péssima qualidade profissional, não bastasse o estilo chulamente cafajeste de seus colunistas. Os redatores são incompetentes ou corrompidos. Inúteis até para formar a opinião dos leitores de oposição ao atual governo, pois a que serve a disseminação da idéia de que, não importando o esforço da sociedade brasileira, ela não será capaz de superar seus problemas? Instilando desalento e baixa estima no segmento que o lê, o jornal busca a erosão das expectativas positivas sobre o futuro de bem sucedido projeto de transformação econômica e social, em curso desde 2003. Derrotismo de derrotados faz mal a seus seguidores.
E a confusa manipulação estatística na apresentação dos resultados da pesquisa do IBGE sobre desempenho industrial no primeiro trimestre de 2013, divulgados terça-feira, dia 4/6, reitera o padrão negativista do jornalão carioca, que leva seus profissionais a atingirem o orgasmo ao anunciar alguma catástrofe, mesmo quando o anunciado não o é. Em relação a abril de 2012, a indústria cresceu 8,4%, com indicadores positivos em 23 das 27 atividades, 58 dos 76 subsetores e 63,4% dos produtos pesquisados. Obscurecendo o disseminado impulso positivo da indústria, em texto ininteligível, o jornal ressaltou o hiato que resta recuperar em relação aos níveis de 2011 (O Globo, 5/6/13, p.19). Humor de hiena.
Já em início de campanha eleitoral, o momento é oportuno para balanços críticos do governo e de suas políticas – e aqui faremos alguns. Faltam jornais capazes de identificar, divulgar e analisar os problemas reais, pois contam com recursos materiais para percorrer estados e municípios, registrando negligências e omissões. Postular dogmaticamente que o feito poderia ser feito melhor, é a forma mais leviana de um jornalão confessar que, apesar do que foi ou venha a ser feito, continuará contra, atravessando, além do samba, a caminhada.
Wanderley Guilherme dos Santos
No Cafezinho
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Ruy & Roberto

 
No intervalo de uma semana morreram dois figurões da mídia impressa. Ruy Mesquita, 88 anos, diretor do mais-que-centenário O Estado de S. Paulo, e Roberto Civita, 76 anos, dono do Grupo Abril. Nos últimos tempos, os dois chamavam minha atenção por capitanearem inegáveis declínios.
O primeiro capitão participou da criação do Jornal da Tarde. Depois de circular por quarenta e seis anos, o JT virou arquivo em 31 de outubro de 2012. Nas suas primeiras décadas, o JT se notabilizou pelas inovações gráficas, criatividade nos textos e reportagens. Também foi o jornal de capas memoráveis.
Juntava elegância e modernidade. Era como se estivesse um pouquinho na frente do seu tempo. Mas em algum momento, quando muita gente já não prestava atenção nele, se tornou um diário insignificante. Como deliciosamente dizem os andinos: "Ni chicha, ni limonada." Nas bancas, ele parecia apenas mais um jornaleco a machucar quem conhecia sua história de glória.
Como apaixonada por jornais, sempre respeitei o Ruy Mesquita, porque ele havia investido na aventura Jornal da Tarde. Também recordo que Ruy falou grosso com a censura. Refrescando a memória: os governos militares meteram censores dentro das redações. Uma gente medíocre com tesouras nas mãos.
Já o Roberto Civita sempre me soou mais obscuro. O filho do Victor. Ao contrário do Ruy, ele foi mais empresário do que jornalista. Igual ao seu xará Roberto Marinho (1904-2003) que curtiu a vida como imperador da Globo e pretendeu passar à história como jornalista. Afinal, como sucede com os poetas, jornalista valorizado é jornalista morto.
Voltando no tempo. Em 11 de setembro (ops!) de 1968, a revista Veja (e Leia) foi lançada de forma espetacular. Eu era menina e recordo do panfleto de lançamento sendo jogado de avião (ou talvez de helicóptero) sobre as ruas do centro do Rio. Durante muito tempo, Veja foi sinônimo de Mino Carta e de gente brilhante. Mas ultimamente Roberto Civita fazia questão de associar sua importância à Veja.
Não duvido que ele tenha tido a ideia da revista semanal etc, etc. Ele teve lá seu valor. No entanto nunca li nenhuma matéria, ou notinha, ou o que seja que ele tenha escrito. Ainda acho que quem faz uma publicação – impressa ou digital – é o trabalhador que apura, escreve, revisa, diagrama, ilustra, fotografa, edita.
Mas se o Jornal da Tarde morreu, Veja está terminal. Ela não tem 10% da qualidade e relevância que velhos leitores saborearam, quando foi uma revista importantíssima. Até corajosa nos anos ásperos da ditadura. Seus jornalistas tinham áurea de inteligentes e de compromissados com a liberdade e a democracia.
Tudo isso é finito. O cenário da imprensa está melancólico. É clima de fim de festa, hora que sobram alguns bêbados e muita bagunça para ajeitar. Um tal de juntar caquinhos para quem sabe, um dia, colá-los. Há quem enxergue na crise, oportunidades. Que sei eu? O que sinto é que Roberto e Ruy viram suas criaturas morrerem antes deles.
Fernanda Pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.
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Congresso ignora Barbosa e promulga PEC que cria TRFs

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Proposta de Emenda à Constituição foi promulgada pelo presidente interino do Congresso, André Vargas (PT-PR), que cita "conquista" da população em termos de acesso à Justiça; parlamentares a favor da criação argumentam que os tribunais vão desafogar a Justiça Federal; já quem é contrário reclama que a iniciativa deveria ser do Judiciário e não do Legislativo; o presidente do STF, Joaquim Barbosa, chegou a dizer que a aprovação da proposta ocorreu de forma "sorrateira" e "à base de cochichos"
O Congresso Nacional promulgou nesta quinta-feira (6) a Proposta de Emenda à Constituição 544/02, do Senado, que cria mais quatro tribunais regionais federais (TRFs) por meio do desmembramento dos cinco já existentes. A criação dos novos tribunais é feita por meio de mudança no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). Esta é a 73ª emenda à Constituição.
De acordo com o texto, os novos TRFs terão sede nas capitais dos estados do Paraná, de Minas Gerais, da Bahia e do Amazonas. Defendidos por juízes e procuradores, os novos tribunais terão o objetivo de desafogar a Justiça Federal, principalmente o TRF da 1ª Região, antes responsável por 13 estados e pelo Distrito Federal.
Seis estados antes vinculados a esse tribunal - Minas Gerais, Bahia, Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima - passarão a fazer parte de outras três regiões. Juntos, esses seis estados respondem por quase 50% dos processos distribuídos.
Com a emenda constitucional, Minas Gerais terá um tribunal somente para o estado (7ª Região), assim como acontecerá com São Paulo (3ª Região) após a transferência do Mato Grosso do Sul para o TRF da 6ª Região, o qual também terá Paraná e Santa Catarina, ambos migrados da 4ª Região.
Sergipe sairá da 5ª Região e se juntará à Bahia no TRF da 8ª Região. O 9º tribunal abrangerá Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima.
Com essas mudanças, o TRF da 4ª Região atenderá apenas as causas do Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro e Espírito Santo continuam na 2ª Região.
Polêmica
Como presidente interino do Congresso, o vice-presidente da Câmara, André Vargas (PT-PR), disse que a emenda é uma conquista da população brasileira em termos de acesso mais facilitado à Justiça Federal. "O que está em jogo aqui é a prestação de um melhor serviço ao cidadão que demanda a justiça federal todos os dias", afirmou Vargas, agradecendo o esforço de todos os segmentos da sociedade que defenderam a criação dos novos tribunais.
Em relação a posicionamentos contrários à criação de novos tribunais, Vargas disse que houve tempo suficiente para que pudessem apresentar seus argumentos. "Mesmo 12 anos depois de a PEC ter sido apresentada, ainda há quem diga que não houve tempo suficiente para debatê-la", completou.
Uma das críticas era que a proposta seria inconstitucional por vício de origem. A PEC foi proposta pelo senador Arlindo Porto (PTB-MG). Um dos entendimentos é que a iniciativa desse tipo de proposta deveria vir do próprio poder Judiciário.
O presidente do Congresso, senador Renan Calheiros, que viajou ontem a Portugal, ainda não havia convocado a sessão para promulgar a emenda sob a alegação de que era preciso mais tempo para tirar todas as dúvidas sobre a possível inconstitucionalidade da matéria. Renan também alertava para um erro na tramitação da PEC, por conta de uma alteração feita no texto durante a votação na Câmara.
O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, é favorável a promulgação e considera que a criação dos tribunais foi amplamente debatida publicamente. "Eu acho que é dever do Congresso promulgar. Se a Casa aprovou, em dois turnos, no Senado, sendo aprovada, inclusive, na Comissão de Justiça, que examina a questão da admissibilidade, constitucionalidade - seguindo todo esse trâmite legal, regimental, jurídico".
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa, contrário à proposta, chegou a dizer que a aprovação dos quatro novos tribunais ocorreu de forma "sorrateira" e "à base de cochichos".
No 247
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Bashar Al Assad, com apoio de 70% dos sírios, está derrotando as gangues mercenárias, diz OTAN

Manifestantes acenam com bandeiras da Síria com efígie de Bashar al-Assad
Segundo dados da OTAN publicados pelo jornal estadunidense The World Tribune o presidente sírio, Bashar Al Assad, está vencendo a guerra contra a oposição apoiada por forças estrangeiras. E Assad já conta com o apoio de 70% dos sírios.
Passados já mais de dois anos de confronto na Síria, o apoio popular ao governo do presidente Bashar Al Assad aumentou consideravelmente. É a avaliação da OTAN, como informa The World Tribune. O governo de Bashar Al Assad é apoiado por maior porcentagem de cidadãos na Síria, que o governo Obama nos EUA.
A OTAN chegou a essa conclusão depois de analisar dados reunidos por ativistas e organizações financiadas pelo ocidente. Esses dados mostram que os cidadãos sírios mudaram de opinião nos últimos seis meses.
A principal mudança aconteceu entre a maioria sunita, que se entendia que, antes, apoiaria a revolta – diz The World Tribune.
A maioria dos sírios está alarmada ante a possibilidade de o país vir a ser controlado pela Al-Qaeda e prefere preservar o governo de Al-Assad. O jornal cita uma fonte ocidental que participou da pesquisa:
Os sunitas não “amam” Assad. Mas a grande maioria está cansada de uma guerra, pela qual os sírios culpam agentes externos, não Assad. As gangues de estrangeiros armadas pelo Qatar e pela Arábia Saudita são vistas como a pior coisa que poderia acontecer à Síria. A grande maioria dos sunitas já entende que terroristas fundamentalistas armados fazem muito mais mal à Síria, que o governo Assad.
Assad está conseguindo conter o ataque dos terroristas fundamentalistas armados pelo Qatar e pela Arábia Saudita, porque a maioria dos sírios coopera com o exército, contra as gangues mercenárias armadas por Qatar e Arábia Saudita, que o ocidente insiste em chamar de “rebeldes” – diz aquela fonte.
Tradução Vila Vudu
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