4 de jun de 2013

Daniel Dantas é um dos investigados do Inquérito 2474

O empresário Daniel Dantas é um dos investigados pelo Inquérito de número 2474 que foi mantido em segredo pelo seu relator, Joaquim Barbosa, no Supremo Tribunal Federal (STF), paralelamente à Ação Penal que condenou 38 réus do caso chamado de “Mensalão”, de número 470. Em decisão monocrática datada de 14 de abril de 2011, em que os advogados de Dantas pedem vistas aos autos do inquérito secreto, Barbosa despacha favoravelmente, alegando que Dantas é parte do processo.
No mesmo documento, Barbosa informa que recebeu uma petição de Dantas para que seja instaurada uma “investigação criminal a fim de apurar a responsabilidade pelo vazamento do relatório do inquérito [2474]”, pedido pelo empresário, e dá um prazo de cinco dias para a Procuradoria-Geral da República se manifeste sobre esse pedido.
O documento foi encontrado pelo internauta Stanley Burburinho em pesquisa ao site do Supremo Tribunal Federal (STF), que acusa mais cinco decisões monocráticas de Barbosa (isto é, somente da sua responsabilidade) relativas ao Inquérito 2474.

No site do STF, existe apenas o despacho da decisão monocrática de Barbosa sobre a Petição Avulsa 21.350/2011, mas o documento do ministro é esclarecedor de que Daniel Dantas é parte envolvida no Inquérito secreto. E também informa que, naquela data (14 de abril de 2011), os volumes principais do inquérito secreto estavam com o Procurador-Geral da República. No Supremo, encontravam-se apenas os apensos, que foram liberados para as vistas do advogado do empresário.
Abaixo, a íntegra da decisão do ministro Joaquim Barbosa sobre a petição de Daniel Dantas:
“Despacho (Referente à Petição Avulsa 21.350/2011: Trata-se de pedido de vistas dos autos desse inquérito ([2474], formulado pelo Senhor Daniel Valente Dantas.
Os volumes principais estão sob análise do Procurador-Geral da República, para manifestação sobre as últimas diligências realizadas e o relatório apresentado pela Polícia Federal.
Por se encontrarem na secretaria deste Tribunal apenas os apensos do presente inquérito, e por haver menção ao nome do peticionário,  defiro o pedido de vistas a todos os documentos atualmente localizados neste Supremo Tribunal Federal.
Encaminhe-se a petição à Procuradoria-Geral da República para que se manifeste, no prazo de 5 dias, sobre o pedido de ‘instauração de investigação criminal a fim de apurar a responsabilidade pelo vazamento do relatório do inquérito’, formulado pelo peticionário. Publique-se e Intime-se.
Relator”
Maria Inês Nassif
No Jornal GGN
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“Falta vontade política para solucionar a questão indígena em Mato Grosso do Sul”

MPF vê permanente omissão do governo federal como causa para gravidade do conflito fundiário no estado
“Falta vontade política para solucionar a questão indígena em Mato Grosso Sul”O Ministério Público Federal (MPF) se pronunciou na manhã de hoje (4) sobre a tensão entre índios e fazendeiros em Mato Grosso do Sul. A instituição, responsável constitucionalmente pela defesa dos interesses das comunidades indígenas, emitiu nota em que considera a demarcação de terras um problema político.
Para o procurador da República Emerson Kalif Siqueira, “falta vontade política para solucionar a questão indígena”.  Segundo ele, muitas são as alternativas para minimizar os efeitos do conflito fundiário no estado, inclusive reparação por titulação errônea de terras, mas a omissão da União em enfrentar a temática só tem agravado a tensão no campo.
A nota destaca ainda o despreparo da polícia em enfrentar conflitos fundiários, os cartuchos de armas letais privativas das forças de segurança coletados no local do conflito, e apresenta as medidas que poderiam ser adotadas pela União para resolver os conflitos fundiários em Mato Grosso do Sul.
Confira a íntegra da nota do MPF/MS:
O Ministério Público Federal (MPF) em Mato Grosso do Sul vem a público esclarecer a questão indígena no estado e ressaltar a vontade de pacificar os conflitos fundiários de modo a evitar que novos casos de violência tragam mais insegurança às comunidades indígenas e à toda sociedade sul-mato-grossense. 
Falta de vontade política
Os conflitos fundiários em Mato Grosso do Sul são históricos e resultam de uma série de ações e omissões do Estado brasileiro. Para se entender a tensão do campo, é preciso antes analisar a história de ocupação do estado, que resultou no esbulho de comunidades indígenas de seus territórios tradicionais e na concessão de títulos públicos a particulares.
Com o final da Guerra do Paraguai (final do século XIX), houve a anexação de áreas que não integravam o território brasileiro. Para garantir a soberania do país na região, a União fomentou a vinda de colonos para o então estado de Mato Grosso, propagando a riqueza do solo e a certeza de um pedaço de terra aos colonizadores.
Essas terras, ocupadas por comunidades indígenas, foram tituladas em sua grande maioria pelo Estado de Mato Grosso e, em alguns casos, pela União a particulares, via de regra de modo oneroso, e os índios que moravam nessas áreas foram confinados em reservas indígenas, criadas no século XX, sem respeitar as diferenças étnicas e grupais.
As reservas constituem, atualmente, o único espaço de terra de que os índios dispõem para viver, cultivar, preservar os recursos garantidores de seu bem estar e de sua reprodução física e cultural.
Se, de um lado, os índios lutam pelo reconhecimento e retorno ao território tradicional de que foram expulsos, por outro, proprietários de terra que possuem títulos de boa-fé, outorgados pelo estado brasileiro, não querem perder o valor da “terra nua” ao terem suas áreas identificadas como tradicionais. 
Diante desse contexto, o Ministério Público Federal encaminhou, em 2010, ofício à Secretaria do Patrimônio da União em Mato Grosso do Sul reconhecendo as dificuldades administrativas e judiciais para a efetivação da demarcação de terras indígenas.
Para o MPF, a solução para o conflito seria a reparação do dano causado aos fazendeiros pela titulação errônea de terras indígenas. “Por mais que a sugestão possa vir a beneficiar os produtores rurais, objetiva tornar mais célere as demarcações de terras indígenas em Mato Grosso do Sul, permitindo o retorno dos índios às suas terras tradicionais e, em consequência, a manutenção de sua cultura, usos, costumes e tradições”, enfatiza o documento, ao mesmo tempo em que diferencia que a medida reparadora apontada não constitui violação ao § 6º, do artigo 231, mas sim a efetiva aplicação do § 6º, do artigo 37, ambos da Constituição Federal, por vislumbrar a prática de ato ilícito (civil) por agentes do estado.
Contudo, até agora, a União não se pronunciou sobre a proposta e insiste em desqualificar estudos demarcatórios, aumentando a insegurança no campo.
Para o procurador da República Emerson Kalif Siqueira, “falta vontade política para solucionar a questão indígena no estado. São muitas as propostas para minimizar a tensão fundiária, mas a postura da União - de apenas receber um lado do conflito e de ignorar que grande parte da situação decorre principalmente da titulação errônea de terras, a cargo da administração pública como um todo -,  só tem agravado a situação, chegando ao ponto de batalhas judiciais perdurarem durante anos e de casos de violência se tornarem frequentes no estado”.
Algumas disputas judiciais entre os indígenas e os proprietários de terras já chegam aos 30 anos, sem solução à vista. 
Questão indígena não é caso de polícia
Além da omissão do Estado, o trato da questão indígena pelo judiciário também demostra despreparo na condução dos conflitos.
“Não se trata a questão indígena como caso de polícia. Se forem necessárias horas ou dias de conversa e negociação, que se explique, enfatize, converse, negocie. O que não se pode é deixar que a inapetência da polícia – que não tem experiência em conflitos rurais - transforme populações tradicionais em alvo de violência”, destaca o procurador. 
No caso da Fazenda Buriti, ressalta-se que a ação policial para reintegração da fazenda foi realizada horas depois da audiência de conciliação na Justiça Federal, em 30 de maio. Na ata da reunião, o juiz deixou clara a responsabilidade da polícia na condução da operação. “Cabe à autoridade policial tomar as cautelas devidas resguardando-se, na medida do possível, e sempre preservando a integridade física e psíquica de todas as partes envolvidas”. 
Em sentido reverso, decisões judiciais que determinaram em outras unidades da federação a desintrusão de não-índios de terras indígenas têm o seu cumprimento alongado no tempo, existindo situações em que a demora já ultrapassa anos.
Contudo, não houve comunicação prévia dos órgãos de assistência aos índios, o que “poderia proporcionar uma melhor condução da negociação, atendendo à recomendação feita pelo juiz de preservar a integridade dos envolvidos. Não se pretende e nem se cogita em ignorar a ordem judicial – um dos pilares do estado democrático de direito é exatamente o cumprimento às determinações emanadas do Poder Judiciário - mas é preciso repensar sua execução, de modo a preservar princípios basilares da Constituição Federal, em especial a dignidade da pessoa humana", ressalta Emerson Kalif.
Excesso na atividade policial
Quanto à reintegração de posse da Fazenda Buriti, o Ministério Público Federal, com a instauração de procedimento preparatório, tem adotado todas as providências para apurar a morte do índio terena Oziel Gabriel e eventual excesso na atividade policial.
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Indígena ferido na ação policial em Sidrolândia (MS)
No último sábado (1/06) foi realizada, também a pedido do MPF, nova análise do corpo de Oziel para identificar as causas da morte do indígena. Médicos legistas – um perito criminal federal e outro encaminhado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República – fizeram necropsia e o laudo, quando liberado, será oportunamente divulgado.
Na operação, comandada pela Polícia Federal, 18 indígenas foram presos – 3 adolescentes, 1 mulher, 3 idosos e 11 homens – por resistência ao cumprimento de ordem judicial. Os índios foram ouvidos, fizeram exame de corpo de delito e, na madrugada de sexta (31/05), foram liberados.
Quanto ao uso ou não de armas letais, o MPF recebeu dos indígenas cápsulas de balas. Cartuchos de munição “.40”, “.45 auto” e “9mm” foram encontrados pelos índios logo após a operação de reintegração da Fazenda Buriti.
O material foi entregue ao Ministério Público Federal (MPF) para análise. A munição é de armas de uso restrito da polícia e demonstra que a ação realizada contou com armamento letal, ao contrário do que foi divulgado pelo governo estadual.
Dezenas de índios estão feridos – a maioria por balas de borracha – e devem passar por exames de corpo de delito. Nos próximos dias, o MPF deve colher depoimentos dos índios e de testemunhas da reocupação para subsidiar investigação criminal.
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Indígena ferido na ação policial em Sidrolândia (MS)
Além do aspecto criminal, o procedimento preparatório também objetiva seja repensada e regulamentada a forma de cumprimento das ordens de reintegração de posse com a utilização de força policial, inclusive com o estabelecimento de fases obrigatórias antecedentes ao emprego de força, tudo devidamente registrado, bem como a existência de unidade específica no âmbito da Polícia Federal para situações desse tipo.
Terra Indígena Buriti
A Terra Indígena Buriti está localizada entre os municípios de Sidrolândia e Dois Irmãos do Buriti, em Mato Grosso do Sul.  A área revindicada pelos terena já passou pelos estudos antropológicos, sendo que o relatório de identificação da área foi aprovado em 2001 pela presidência da Funai. O Ministério da Justiça declarou em 2010 a terra Indígena Buriti como de posse permanente dos índios. 
Segundo dados da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), os 4500 índios de nove aldeias da TI Buriti vivem em atuais dois mil hectares. A área reconhecida pela justiça corresponde a 17.200 hectares, considerada por perícia judicial antropológica e histórico-arqueológica como terra de ocupação tradicional indígena.
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Estão de má vontade com o Brasil

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O Deutsche Bank, umas das maiores instituições financeiras do mundo, vê exagero nos comentários negativos sobre a economia brasileira e sinaliza confiança no país.
Em nota publicada ontem, o banco alemão constata que os comentários sobre o Brasil “se tornaram muito negativos nos últimos 18 meses” e que o México “é o novo queridinho” dos mercados.
“Isso está indo longe demais”, avalia o Deutsche. Observa que o Brasil teve dois anos consecutivos de crescimento modesto (2,7% em 2011 e 0,9% em 2012), mas que tampouco houve muitos emergentes, e menos ainda economias desenvolvidas, com desempenho melhor.
Enquanto o Bradesco já projeta alta do PIB somente entre 2% e 2,4% este ano, o banco alemão continua a achar que a economia brasileira pode crescer entre 3% e 3,5% .
Estima que as perspectivas de crescimento no médio prazo vão depender muito da rapidez com que o governo será capaz de melhorar as condições para as concessões, para investimentos privados na infraestrutura, e também do progresso em seus próprios planos de investimentos.
O Deutsche diz acreditar que o governo brasileiro irá “cedo ou tarde” oferecer condições mais favoráveis para o setor privado, especialmente se o crescimento real do PIB continuar por volta de 3%.
Diz ser por isso que continua a acreditar que, no momento, o crescimento potencial no médio prazo da economia brasileira fica entre 3% e 3,25%, mas não abaixo disso. E que, se as concessões forem aceleradas, o potencial de expansão econômica pode subir para 3,75%.
No Valor Econômico
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O que o BC põe em risco


A atitude do Banco Central em se politizar e querer, com a alta dos juros, atender a mídia catastrofista, infelizmente, é algo muito comum, aqui e lá fora.
Tanto que o Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman escreveu, outro dia: as taxas de juros mais altas são sempre uma solução; o que muda é apenas o problema que elas devem solucionar”.
Os números divulgados hoje pelo IBGE – mais do que os de baixo crescimento do PIB, revelados semana passada – mostram que a decisão do Banco Central traz o perigo de matar, no nascedouro, a recuperação do ritmo de crescimento econômico.
Para além do dado geral, que aponta uma expansão no mês de 1,8% na produção industrial – e dos 8,4% anuais registrados -, algo que deve ser relativizado pela baixa base de comparação em que se baseia, o desdobramento do índice tem informações muito auspiciosas.
O setor de bens de capital, que em grande medida responde às expectativas de expansão ou contração da economia, cresceu 3,2%, o que representa uma elevação em 24% do registrado há um ano. Dentro dele, o mais significativo, o setor de máquinas e equipamentos, expandiu-se 7,9%, o que faz acumular uma alta de 19,3% desde janeiro.
É o que registra a matéria publicada hoje no Valor: “O crédito farto e barato ofertado pelo governo para a compra de máquinas e equipamentos fez crescer a demanda por linhas de financiamento no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). De acordo com o diretor financeiro do banco, Maurício Borges, as liberações para a linha Finame/BNDES, de capital de giro para compra de máquinas e equipamentos, cresceram “aproximadamente 50%, ou até mais”, de janeiro a maio deste ano, em comparação com igual período do ano passado.”
Os únicos resultados negativos estão no consumo. “O segmento de bens de consumo semi e não duráveis, com redução de 1,6%, assinalou o único resultado negativo no índice acumulado no ano”, diz a análise do IBGE.
Então, isto posto, a alta da taxa de juros, que desestimula investimento e consumo, vai contra ou a favor dessa incipiente recuperação?
Mesmo antes desta elevação da Taxa Selic, já se registrava a migração de capital da economia real.
Numa matéria em que O Globo proclama “O fim de uma era” de consumo, um estudo da Austin Ratings diz que o dinheiro, ao invés de se ” direcionar (…) ao crédito de pessoas e empresas, (…) está sendo girado em aplicações de curto prazo entre os próprios bancos e o Banco Central.”
- Diferentemente do que desejava o governo, o dinheiro adicional que tem entrado no sistema bancário não tem ido para a economia real, na forma de mais investimentos para empresas ou renda ao consumo, mas está girando no mercado aberto, diz Luis Miguel Santacreu, analista de bancos da Austin.
Então, onde estão os fundamentos de ciência econômica da decisão do BC?
Quem quiser descobrir, leia o artigo publicado pelo competente Luís Nassif, em seu blog, do qual tiro as duas conclusões:
1 - a mídia torce para que, com parte da rentabilidade recuperada, as verbas publicitárias voltem aos níveis pré-queda de juros, objetivo final de sua campanha para a “volta da racionalidade do BC;
2 - No mercado financeiro, mais informado e mais cético, atribuía-se a mudança de postura do BC – aumentando a Selic em 0,5 ponto – ao fato do governo ter “piscado” (termo que se usa para quando o governo vacila) depois que o candidato Aécio Neves inaugurou o horário gratuito com o tema da volta da inflação.
Fernando Brito
No Tijolaço
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O que acontece em Istambul?

Para meus amigos que moram fora da Turquia:
Escrevo para que você saiba o que aconteceu em Istambul nos últimos cinco dias. Eu, pessoalmente, tenho que escrever isso, porque grande parte da mídia está sob controle do governo e o boca a boca e a internet são as únicas maneiras possíveis para nos explicar e pedir apoio.
Quatro dias atrás, um grupo de pessoas, a maioria sem representar nenhuma organização ou ideologia específica, se reuniu no parque Gezi, em Istambul. Entre eles, havia muitos dos meus amigos e alunos. A razão era simples: protestar contra a iminente demolição do parque por causa da construção de mais um shopping no centro da cidade. Existem inúmeros shoppings centers em Istambul, pelo menos um em cada bairro! A demolição das árvores deveria começar no início da manhã de quinta-feira. As pessoas foram para o parque com seus cobertores, livros e crianças. Fincaram suas tendas e passaram a noite sob as árvores. No início da manhã, quando os tratores começaram a derrubar as árvores centenárias, eles se levantaram para interromper a operação.
Eles não fizeram nada que não fosse apenas ficar em pé na frente das máquinas.
Nenhum jornal, nenhum canal de televisão estava lá para relatar o protesto. Foi um verdadeiro apagão midiático.
Mas a polícia chegou com spray de pimenta e seus veículos de canhões de água. Multidões foram perseguidas dentro e fora do parque.
À noite, o número de manifestantes se multiplicou. Assim como o número de forças policiais ao redor do parque. Enquanto isso, o governo local de Istambul fechou todos os caminhos que levam à praça Taksim, onde o Gezi Park está localizado. O metrô foi fechado, as balsas foram canceladas, estradas foram bloqueadas.
No entanto, mais e mais pessoas fizeram o seu caminho até o centro da cidade a pé.
Eles vieram de toda Istambul. Eram pessoas de todas as origens, diferentes ideologias, diferentes religiões. Todos se reuniram para impedir a demolição de algo maior do que o parque: o direito de viver como cidadãos honrados deste país.
Eles se reuniram e marcharam. A polícia perseguiu-os com spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo e dirigiu seus tanques sobre as pessoas que antes até ofereciam comida a alguns policiais. Dois jovens foram atropelados pelos panzers e foram mortos. Outra jovem, minha amiga, foi atingida na cabeça por uma das bombas de gás lacrimogêneo. A polícia atirava diretamente contra a multidão. Após uma cirurgia de três horas ela ainda está na Unidade de Terapia Intensiva e em estado muito crítico. Enquanto escrevo isto, ainda não temos notícias se ela sobreviverá. Este blog é dedicado a ela.
Estas pessoas são minhas amigas. São meus alunos, meus parentes. Eles não têm uma "agenda escondida", como o estado gosta de justificar. Sua agenda está lá fora. É muito claro. O país inteiro está sendo vendido pelo governo para grandes corporações, que estão construindo shoppings, condomínios de luxo, estradas, barragens e usinas nucleares. O governo está procurando (e criando quando necessário) qualquer desculpa para atacar a Síria, contra a vontade de seu povo.
Acima de tudo isso, o controle governamental sobre a vida pessoal de seu povo vem se tornando insuportável. O Estado impôs novas leis sob sua agenda conservadora, como uma nova regulamentação sobre o aborto, parto por cesariana, venda e uso de álcool e até mesmo a cor do batom usado pelas aeromoças.
As pessoas que estão marchando para o centro de Istambul estão exigindo seu direito de viver livremente e receber justiça, proteção e respeito do Estado. Eles exigem estar envolvidos nos processos de tomada de decisão sobre a cidade em que vivem.
Ao contrário, o que receberam foi uma força excessiva e enormes quantidades de gás lacrimogêneo disparado em linha reta em seus rostos. Três pessoas perderam seus olhos.
No entanto, eles ainda marcham. Novas centenas de milhares se juntam aos protestos. Mais de 2 mil cruzaram a Ponte do Bósforo a pé para apoiar o povo de Taksim.
Nenhum jornal ou canal de TV estava lá para relatar os acontecimentos. Eles estavam ocupados com a transmissão de notícias sobre a miss Turquia e "o gato mais estranho do mundo".
A polícia continuou perseguindo as pessoas e pulverizando spray de pimenta. A tal ponto que alguns cães e gatos vadios foram envenenados e mortos.
Escolas, hospitais e até hotéis 5 estrelas em todo Praça Taksim abriram suas portas para os feridos. Os médicos encheram as salas de aula e quartos de hotel para prestar os primeiros socorros. Alguns policiais se recusaram a pulverizar pessoas inocentes com gás lacrimogêneo e abandonaram seus empregos. Ao redor da praça, colocaram aparelhos para evitar conexão com a internet, redes 3G foram bloqueados. Moradores e empresas da região, ofereceram suas redes sem fio gratuitas para as pessoas nas ruas. Restaurantes ofereceram água e comida de graça.
Pessoas em Ankara e Izmir se reuniram nas ruas para apoiar a resistência em Istambul.
A grande mídia continuou mostrando a senhorita Turquia e "o gato mais estranha do mundo".
Estou escresavendo esta carta para que você saiba o que está acontecendo em Istambul. Os meios de comunicação não lhe dirão nada do que realmente acontece. Não no meu país, pelo menos. Por favor, poste na internet, o quanto possível, os artigos que descrevem a nossa situação, espalhem as nossas palavras.
Quando eu estava postando artigos que explicam o que está acontecendo em Istambul em minha página do Facebook, na noite passada, alguém me perguntou o seguinte:
"O que você está esperando ganhar reclamando sobre o nosso país aos estrangeiros?
Este post é a minha resposta para ela.
Por "reclamar" de meu país, espero ganhar:
Liberdade de expressão e discurso,
Respeito pelos direitos humanos,
O controle sobre as decisões que tomamos em relação ao nosso corpo,
O direito de me reunir legalmente em qualquer parte da cidade sem ser considerado um terrorista.
Mas acima de tudo por espalhar a palavra a vocês, meus amigos que vivem em outras partes do mundo, eu estou esperando obter o seu conhecimento, apoio e ajuda!
Por favor, espalhe a palavra deste blog.
Obrigado!
İnsanlik Hali
Jurandir Paulo
No Advivo

Veja também: Esta é a Turquia de hoje e Revolução na Turquia
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A entrevista de Lula aos peruanos

O diagnótico sobre a mídia é perfeito, mas faltou ação.
Lula
Lula
Vai ficando engraçado.
Para você saber o que Lula ou Dilma realmente pensam, você tem que ler entrevistas de jornais estrangeiros.
Por razões mais que justificadas, nenhum dos dois confia nas boas intenções da grande mídia nacional.
Agora vemos Lula falar sobre a mídia a um jornal peruano que, ele sabe, não irá distorcer suas palavras ou editá-las tendenciosamente.
Algumas coisas na entrevista de Lula chamam a atenção. Primeiro, a admissão de seu problema com a mídia.
Espirituosamente, como de hábito, Lula diz que quando é atacado pela mídia dizem que é uma crítica, e quando ele critica dizem que é um ataque.
O talento de Lula como frasista, amplamente traduzido em votos e aprovação pela voz rouca das ruas, é subestimado pelos doutores gramaticais que povoam o ambiente jornalístico e político nacional.
Na entrevista, Lula afirma também, com uma ponta de orgulho, que nunca deixou de colocar publicidade em veículos que o atacavam.
Bem, aí a questão é um pouco mais complexa.
Lula perdeu a oportunidade, em seus oito anos de presidência, de corrigir uma aberração provocada por uma invenção abjeta de Roberto Marinho, os infames BVs (bônus por volume).
Os BVs são uma propina legalizada pela qual a Globo mantém agrilhoadas as agências de publicidade. Muitas delas simplesmente dependem do BV, aliás pago antecipadamente, para não quebrar. Isso quer dizer que as agências vão veicular seus anúncios na Globo, para receber a comissão, ou propina, salvadora.
É um artifício tão abjeto quanto a reserva de mercado de que gozam as empresas jornalísticas, livres da competição capitalista que tanto reclamam para os outros.
Você pode e deve perguntar: mas e os anunciantes, por que ficam calados com o BV? Afinal, é o dinheiro deles que está sendo usado para que a Globo libere o BV para as agências.
Este é um ponto que tende a ser mais e mais debatido. Nos dias em que a Globo tinha audiências de 60%, 70%, 80%, nenhum anunciante ousava correr o risco de entrar na lista negra da emissora.
Isso muda, naturalmente, quando as audiências, sob o impacto da internet, vão se reduzindo brutalmente.
O anunciante temia ficar de fora do Fantástico com 60% de audiência. Mas e do Fantástico com menos de 20%, e caindo, e caindo, e caindo?
O mercado vai fazer com o BV o que a administração de Lula poderia ter feito ao longo de oito anos. Enterrá-lo, em nome da moralidade e da concorrência justa.
Mas Lula não fez o que deveria fazer, em parte por seu caráter conciliador. Em vez disso, preocupou-se em comparecer ao enterro de Roberto Marinho, decretar luto nacional e elogiá-lo numa nota pública.
A omissão de Lula, na questão da publicidade oficial, resultou em 6 bilhões de reais anunciados com dinheiro do contribuinte na Globo em dez anos – inercialmente e absurdamente.
O espírito conciliador, se vê bem nesse caso, é o mais superestimado dos defeitos, porque inibe transformações vitais.
E então chegamos à parte mais importante da entrevista. Com toda razão, Lula lembra que tevê é concessão pública. Deveria ser usada para elevar culturalmente os brasileiros, e não para promover o poder e a fortuna da família Marinho.
Também não poderia ser usada como ‘partido político’, como afirmou Lula.
Perfeito.
Mas o que ele fez como presidente para evitar isso?
A conciliação cobrou também aí um preço alto – pago pela sociedade, aliás.
Paulo Nogueira
No DCM
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Estudo: 55% dos municípios brasileiros não conseguem atrair médicos

Ministério da Saúde informa que no Sul do país 74% das cidades não conseguiram atrair nenhum profissional este ano, índice que é de 66% no Norte e 64% no Centro-oeste
Falta estrutura para médicos no interior do Brasil
Médico atende comunidade indígena no MS
A maioria dos municípios brasileiros não consegue atrair médicos, mostra estudo divulgado nesta segunda-feira (3) pelo Ministério da Saúde. O balanço publicado em Salvador indica que 55% das prefeituras que requisitaram este ano profissionais pelo Programa de Valorização da Atenção Básica (Provab) não foram atendidas porque não houve interesse pelas vagas. Dos 2.867 municípios que pediram profissionais pelo Provab, 1.581 municípios não atraíram nenhum, mesmo com uma remuneração de R$ 8 mil por uma jornada semanal de 32 horas, com mais oito horas dedicadas a pesquisa.
A divulgação é feita em um momento em que o governo avalia a possibilidade de trazer médicos de Portugal e Espanha, países em crise econômica, para atender à carência em regiões periféricas. Estes profissionais podem contar com facilidades na revalidação de diploma. Inicialmente, cogitava-se também trazer médicos cubanos, mas, neste caso, sem revalidação direta do diploma.
Segundo o Ministério da Saúde, apenas 29% da demanda nacional por 13 mil médicos foi atendida: 3.800 participantes foram para 1.307 municípios brasileiros. Por regiões, o Sul foi o que teve o maior problema, com atendimento de apenas 26% da demanda – 418 municípios, de um total de 567, ficaram sem atendimento. No Norte, 66% das prefeituras (168 de 245) não conseguiram atrair médicos. No Centro-oeste, o índice foi de 64% (163 de 265), e no Sudeste ficou em 54% (399 de 747).
A região que mais conseguiu atrair profissionais foi o Nordeste, com 41% dos municípios atendidos. Mas, das 1.091 cidades que solicitaram médicos pelo Provab, o maior número no geral, 457 não conseguiram nenhum profissional. No geral, de 6.129 médicos solicitados, 2.184 foram para 634 cidades.
médicos
Médicos do Correio Aéreo Nacional chegam de barco para
atender à população de Marechal Thaumaturgo, no Acre
Foto: Antonio Milena ABR
O ministério diz que o Nordeste é a região com a maior carência. Na Bahia, 49% dos municípios não atraíram sequer um médico pelo Provab: dos 305 que pediram médicos, 156 não receberam nenhum. Em Alagoas, 49% das prefeituras não conseguiram contratar profissionais, índice de 27% em Pernambuco e de 35% em Sergipe.
“Mesmo com o crescimento do Provab – aumentamos em 10 vezes o número de médicos na comparação com 2012 –, a gente ainda precisa responder à necessidade apresentada pelos municípios. O aporte de estrangeiros é uma delas. Temos várias experiências mundiais que apontam para esse sentido, não podemos fechar os olhos para profissionais com formação de qualidade, reconhecida no seu país, e que, a curto prazo, poderiam contribuir para o acesso na saúde no Brasil”, disse o diretor de programas da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Felipe Proenço.
Desde que começou a defender a atração de médicos estrangeiros, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, sofreu críticas de entidades de classe, que dizem enxergar um risco na possibilidade de revalidação automática ou facilitada do diploma. Mas, na visão dele, estes profissionais poderiam suprir a carência de profissionais em regiões mais afastadas do país e mesmo na periferia das grandes cidades. “Os hospitais têm muitas dificuldade de contratar o médico, não porque o médico não quer ir para lá, mas porque há muita oferta de emprego em outras regiões no centro da cidade que possa interessar mais ao profissional.”
Na visão do Conselho Federal de Medicina (CFM), a contratação de médicos é uma questão regulada pelo mercado: profissionais se sentem atraídos por boas condições de trabalho, o que envolve estrutura e salário. Mas, para o governo, o quadro atual dificulta garantir o preceito da Constituição que garante a universalização do atendimento de saúde.
"Como seria a alternativa para isso? Ter um sistema nacional de saúde com médicos contratados nacionalmente e postos para trabalhar, igual ao serviço militar. Esse serviço social obrigatório não vingou e nem vai vingar num país como esse. Qual a oportunidade agora? Que com o intermédio e outros mecanismos você possa ter a melhora da qualidade de vida nessas cidades", diz Davi Braga Júnior, especialista em clínica médica e planejamento estratégico para ações de governo, em entrevista à Rádio Brasil Atual.
Para o conselheiro consultivo do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) Heleno Rodrigues Correa Filho, professor associado da pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os médicos estrangeiros são bem-vindos, desde que sejam seguidas as regras, que preveem que o profissional revalide o diploma para atender às exigências do sistema nacional de saúde e fale português.
Ele admite que de um lado pesa a resistência dos conselhos de classe, interessados em manter uma reserva de mercado, mas considera que o governo se equivocou ao lançar a ideia sem antes consultar sindicatos e profissionais do setor. “Quando se tem uma medida cosmética como essa, é possível mudar a força do trabalho médico, mas não a natureza do serviço prestado pelo sistema. Pode-se criar um mercado de trabalho paralelo para médicos do exterior, que poderão ser colocados sem supervisão e sem política no interior do país, o que é muito ruim. Há outros aspectos negativos que podem ser colocados, entre eles a falta da perspectiva do que é ou do que deveria ser o SUS na formação do médico.”
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“Bolsa Família inicia reparação histórica”, diz Walquíria Leão Rego

Dos rincões miseráveis do Brasil emergiram as vozes de mais de uma centena de mulheres que foram ouvidas por uma pesquisadora paulista preocupada em compreender os impactos do programa Bolsa Família na vida dos 5,4 milhões de beneficiários.  Ainda alvo de críticas por vários setores, o programa de transferência de renda é considerado pela socióloga Walquíria Leão Rego como um começo de reparação social do estado brasileiro para com os mais pobres. “Estas pessoas saíram da miséria absoluta, os índices de mortalidade infantil ficaram mais baixos e isto tem impacto fundamental para um país que se diz minimamente democrático. Conviver com a miséria como o Brasil conviveu por tantos séculos, mesmo depois do fim do regime militar, deveria ser um processo que mexe com todos os brasileiros”, falou em entrevista ao Sul21.
Professora do programa de pós-graduação em Sociologia da Unicamp, Walquíria Leão Rego fez a pesquisa por conta própria, sem apoio financeiro da Unicamp ou do governo federal. Financiou as viagens do próprio bolso, agendando as excursões em seus períodos de férias. A seu lado, em parte da pesquisa, esteve o filósofo italiano Alessandro Pinzani, que leciona na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).  “A qualidade de vida destas pessoas melhorou e elas não estão mais adoecendo. Esta afirmação é algo constatada não só na minha pesquisa, que não é quantitativa, mas pelo IPEA (Instituto de Pequisa Econômica e Aplicada), IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), ONU (Organização das Nações Unidas), PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), todos constatam a mesma coisa”, afirma.
Concebida com a finalidade de averiguar se, como e em que medida a nova renda e sua regularidade afetam a vida cotidiana das famílias e, em particular, das mulheres, a pesquisa completa estará disponível no livro Vozes do Bolsa Família, a ser lançado pela Editora Unesp no dia 11 de junho. “A remuneração proporciona uma liberdade pessoal. Esta é uma das importantes funções do beneficio ser em dinheiro. É diferente se fosse uma cesta básica, onde já é determinado o que a pessoa irá fazer com o recurso e o que ela irá comer”, explica a socióloga.
Na visão da professora, os ataques ao programa federal criado pelo governo Lula são feitas por setores específicos da sociedade e com base em conceitos preconceituosos. Ela não acredita em uso político do seu livro. “Este recente episódio do boato que o programa iria acabar e que levou centenas de pessoas aos bancos em poucas horas, mostra bem para os críticos o tamanho da necessidade do Bolsa Família. Por isso, acho pouco provável que alguém queira brincar com isso”, fala.
A socióloga Walquíria Leão Rego, autora de Vozes do Bolsa Família
Foto: Unicamp
Sul21 – O Bolsa Família completa 10 anos em 2013, alcançando perto de 5,4 milhões de pessoas e é reconhecido internacionalmente como o maior programa de combate à pobreza. Qual é o impacto real deste programa no desenvolvimento do país, porque ao mesmo tempo, ele segue sendo alvo de críticas?
Walquíria Leão Rego – Criticado por quem? Temos que nos perguntar a quem interessa falar mal deste programa. O principal impacto é perceptível. Uma parte significativa da população da chamada ‘extrema pobreza’ deixou de estar nesta condição. Isto não é pouco. É algo muito importante. Estas pessoas saíram da miséria absoluta, os índices de mortalidade infantil ficaram mais baixos e isto tem impacto fundamental para um país que se diz minimamente democrático. Conviver com a miséria como o Brasil conviveu por tantos séculos, mesmo depois do fim do regime militar isto fez parte do país por muitos anos, deveria ser um processo que mexe com todos os brasileiros. A imprensa, a academia e a sociedade em geral deveriam ser tocadas com isso. O impacto é muito grande para as pessoas que passaram a ter um rendimento regular, apesar de pequeno. É um dinheiro que eles podem contar todos os meses. Eles aprendem a conviver com esse recurso e buscam querer viver melhor.  Este programa é o começo de uma reparação por parte do estado brasileiro.
“Este argumento de que eles não saberiam administrar [o dinheiro]
é preconceito com os pobres”
Foto: Roberto Setton
Sul21 – Os usuários conseguem administrar a liberdade de ter uma fonte fixa de renda, o que para muitos deve ser algo inédito?
Walquíria Leão Rego - Administram muito bem. Este argumento de que eles não saberiam administrar é preconceito com os pobres. Quem está endividada é a classe média e os ricos, não os pobres. Quando falo em pobres, me refiro aos cadastrados no Bolsa Família, porque existem pobres que estão na categoria de pobres e não estão vivendo na extrema pobreza. Eles administram muito bem os recursos e em dez anos aprenderam a gerir as finanças como qualquer outra pessoa aprende. A qualidade de vida destas pessoas melhorou e elas não estão mais adoecendo. Esta afirmação é algo constatado não só na minha pesquisa, que não é quantitativa, mas pelo IPEA (Instituto de Pequisa Econômica e Aplicada), IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), ONU (Organização das Nações Unidas), PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), todos constatam a mesma coisa. Isto deveria estar nas manchetes dos jornais do país. Demonstrar que este programa, mesmo oferecendo um auxílio pequeno, está tornando as pessoas cidadãos de fato. Este programa garante o direito mais elementar: a vida.
Estudam no ensino público, fazem intercâmbio no exterior com auxílio público e voltam para abrir um consultório na Avenida Paulista e cobrar até R$ 1,5 mil por uma consulta. Isto é o horizonte típico da classe média brasileira que faz medicina.
Sul21 – Dados oficiais revelam que 70% dos beneficiários adultos são trabalhadores e os estudantes que participam do programa possuem média de aprovação quase 5% maior que a média nacional. Além de ter um índice menor de abandono dos estudos.
Walquiria Leão Rego – Isto acontece pela exigência do vínculo das crianças na escola para receber o benefício, o que é muito interessante, porque mostra o quanto estas crianças estavam abandonadas pelo estado. Porém, também é necessário discutir a qualidade da escola brasileira. A escola pública no Brasil precisa de muito investimento ainda. As crianças que eu estudei vivem em cidades do interior, algumas em zona rural e em periferias de grandes cidades. (Recife, Vale do Jequitinhonha, etc ). O benefício também implica o controle da saúde das crianças, mas ainda faltam médicos no Brasil nos postos de saúde destas regiões. O governo federal estuda trazer para o Brasil os médicos cubanos, espanhóis e portugueses, porque os nossos não costumam ir para estes lugares. Isto acontece pela falta de compromisso de certas pessoas com o seu país. Os paulistas, por exemplo, querem fazer medicina na melhor universidade, que é USP (Universidade de São Paulo) ou a Unicamp, para se formar em uma universidade pública. Estudam no ensino público, fazem intercâmbio no exterior com auxílio público e voltam para abrir um consultório na Avenida Paulista e cobrar até R$ 1,5 mil por uma consulta. Isto é o horizonte típico da classe média brasileira que faz medicina. O compromisso com o povo eles não querem saber. Não adianta oferecer o salário e o benefício que for para estas pessoas porque elas não vão para as regiões de periferia e interior. As crianças que são beneficiadas com o Bolsa Família são abandonadas como cidadãos. O estado tenta resolver e a classe média vai para as ruas fazer protesto contra os médicos estrangeiros.
“Existe uma ignorância de algumas pessoas sobre a realidade
do seu próprio país. Não sabem a geografia do seu país,
que dirá a geografia econômica ou informações sociológicas”
Foto: Divulgação
Sul21 – Recentemente foi divulgado que 1,6 milhão de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família deixaram espontaneamente o programa. Isto contraria a tese de que elas se tornam dependentes do programa?
Walquíria Leão Rego – Isto sempre foi uma tese preconceituosa. Toda tese preconceituosa é desmentida em pouco tempo. O preconceito é algo estreito. Isto foi desmentido porque este dado revela que as pessoas querem melhorar de vida e, em algumas regiões não há emprego. Aliás, não há nem o que vestir ou que comer. Quem irá oferecer emprego para alguém que vive no sertão? Existe uma ignorância de algumas pessoas sobre a realidade do seu próprio país. Não sabem a geografia do seu país, que dirá a geografia econômica ou informações sociológicas. Então, há muito preconceito e estereótipo por trás destas teses.
Sul21 – A senhora desenvolveu a pesquisa por conta própria, sem apoio financeiro da Unicamp ou do governo federal. Financiou as viagens do próprio bolso, agendando as excursões em seus períodos de férias. Como alcançou a publicação do livro?
Walquíria Leão Rego – Consegui a publicação por meio da editora Unesp (Universidade Estadual Paulista), que é uma editora universitária. As outras editoras não se interessaram pelo meu material. Percebi que teria que ser pela editora universitária e creio que este é o papel mesmo. As editoras comerciais só estão interessadas em lucro. As publicações são aquelas que irão vender. Mas, mesmo contando com editora universitária não é fácil publicar estudos como este no Brasil.
A remuneração proporciona uma liberdade pessoal para as pessoas. Esta é uma das importantes funções do beneficio ser em dinheiro.
Sul21 – Na sua pesquisa, que resultou no livro Vozes do Bolsa Família, foram ouvidas 150 mulheres cadastradas no programa. O que é possível dizer desta experiência de dar autonomia para as mulheres na gestão dos recursos do Bolsa Família?
Walquiria Leão Rego – Nós ouvimos muito mais pessoas, mas selecionamos uma amostragem de 150 mulheres para poder fazer um recorte. O livro é um experimento interpretativo, sociológico e com contribuição para o meio intelectual. Não terá grande reflexo na sociedade que, sinceramente, sei que não irá se interessar em ler meu livro. O que é uma pena, porque pode ser uma oportunidade de a sociedade experimentar conhecimento sobre seu próprio país. O estudo desfaz uma série de estereótipos de que os pobres só querem depender do estado e não querem trabalhar. Quem ler este livro conseguirá aprender alguma coisa. É a minha esperança. Agora, o conceito de autonomia é muito complexo. Tem implicações morais e políticas. O que podemos dizer é que, o fato destas mulheres tão destituídas em suas vidas e em estado de extrema pobreza, passarem a ser titulares de cartões de recursos transferidos pelo estado traz certa autonomia. A remuneração proporciona uma liberdade pessoal para as pessoas. Esta é uma das importantes funções do beneficio ser em dinheiro. É diferente se fosse uma cesta básica, onde já é determinado o que a pessoa irá fazer com o recurso e o que ela irá comer. Fica imposto a quantidade de comida e o tipo de alimento que ela irá comer. O dinheiro dá liberdade de escolha, com isso elas aprendem a administrar os recursos. É um exercício de cidadania muito maior do que as classes mais abastadas pensam sobre a capacidade dos pobres.
“O estado decretou há muitos anos a morte civil destas pessoas.
Agora, com o Bolsa Família, é que se começou a fazer algo”
Foto: Divulgação
Sul21 – Os homens ficaram ou tendem a ficar para trás neste processo de desenvolvimento que foca nas mulheres, a curto, médio ou longo prazo?
Walquíria Leão Rego – Homens também são pobres, analfabetos ou com mínima escolaridade. O desemprego é geral, não está relacionado com o gênero em determinadas regiões do país. Por séculos o estado abandonou parte do país. É preciso ter esta consciência. Agora, com o Bolsa Família, é que se começou a fazer alguma coisa pelo abandono desta parte da população. O estado decretou há muitos anos a morte civil destas pessoas. Elas não têm voz, a sociedade não as escuta. As pessoas não querem pensar sobre isso ou mesmo esquecem de pensar porque isso as incomoda muito e passa a crescer o preconceito. Os brasileiros conviveram por várias gerações sabendo da existência da pobreza e defendem que a culpa é dos próprios pobres que “não querem trabalhar” ou “são vagabundos”. Se não tivesse existido um programa como o Bolsa Família, pessoas seguiriam morrendo no Brasil, África e em tantas outras nações onde ele foi criado.
No que se refere ao programa Bolsa Família, por exemplo, creio que seja necessário aumentar o valor do benefício. É preciso ter mais oportunidade de acesso ao ensino. A imprensa precisa ser melhor. É uma imprensa muito controlada pelos seus patrões.
Sul21 – Como garantir o desenvolvimento do país após o desligamento do Bolsa Família?
Walquíria Leão Rego – Tem que se avançar muito mais no país em termos de desenvolvimento. No que se refere ao programa Bolsa Família, por exemplo, creio que seja necessário aumentar o valor do benefício. É preciso ter mais oportunidade de acesso ao ensino. A imprensa precisa ser melhor. É necessário que aconteça um conjunto de políticas públicas, inclusive específicas para a realidade destas regiões mais pobres. A educação é feita na escola, com a alfabetização, mas outras formas de formação para estes cidadãos são necessárias. Uma pessoa do sertão aprende a ler, mas segue vendo apenas televisão. Isto não resolve muito. Nós temos que discutir o que é educar. Não é só escola. É ter uma mídia democrática que produza conteúdos que elevem as pessoas. A televisão hoje indignifica as pessoas. Estamos ainda iniciando um novo processo de formação e transformação no Brasil. Eu citei apenas alguns exemplos aqui, mas temos muito que avançar.
O que foi feito no último ano do governo Fernando Henrique Cardoso não tinha a mesma dimensão distributiva e a amplitude do Bolsa Família criado no governo Lula.
Sul21  – Por ser um dos poucos estudos acadêmicos sobre um dos programas mais importantes para a gestão do PT, e do próprio PSDB, que alega a paternidade do embrião do programa, a senhora imagina que seu livro terá uso político?
 Walquíria Leão Rego – Não temo. Este recente episódio do boato que o programa iria acabar e que levou centenas de pessoas aos bancos em poucas horas, mostra bem para os críticos o tamanho da necessidade do Bolsa Família. Eu creio que essa reação das pessoas mostrou a importância que o programa tem na vida delas. Isso mostra o significado dessa bolsa para a população. Por isso, acho pouco provável que alguém queira brincar com isso. Além do que, o programa de fato tomou a dimensão que tomou e se tornou o maior programa do mundo não foi com o PSDB. O programa deles (PSDB) era outra coisa. O que foi feito no último ano do governo Fernando Henrique Cardoso não tinha a mesma dimensão distributiva e a amplitude do Bolsa Família criado no governo Lula. A transformação social do país por meio deste programa começou, sem dúvida, no governo Lula e agora tem continuidade com o governo Dilma, isso não tem como negar. Se um jornalista quiser fazer investigação sobre isso, é só perguntar para as pessoas nas ruas do Brasil. Isso é um dado de realidade, não tem como mentir ou falsificar a história.
Tuíte da Ministra Maria do Rosário, negando o fim do Bolsa Família
Foto: Reprodução / Twitter
Sul21 – A senhora acredita que a imprensa tem interesse em dar voz aos críticos deste programa de forma sistemática?
Walquíria Leão Rego – De fato, isto é algo recorrente. A desqualificação do governo, das pessoas, do programa, e ao mesmo tempo a não-informação sobre o êxito desta iniciativa. Isso é o que mais me assusta, como eles (a mídia) se sentem no direito de não informar o país sobre o que está acontecendo no país? Você não vê isso em outros lugares do mundo. É uma imprensa muito controlada pelos seus patrões, talvez uma das mais controladas do mundo.
Sul21 – A senhora vê com esperança o avanço da democratização da mídia no país?
Walquíria Leão Rego - A própria imprensa hegemônica não quer discutir a democratização, e colocou na cabeça de seus jornalistas — e de alguns intelectuais que ela já produziu — que eles devem escrever que discutir e regulamentar a imprensa é abdicar da liberdade de expressão. Então eles usam essa questão para não discutir que quem não pratica essa liberdade de expressão são eles. Eles recusam o debate e usurpam o direito democrático à informação. As pessoas, de modo geral, não sabem o que está acontecendo. Alguma vez a grande imprensa fez alguma matéria séria sobre o Bolsa Família? Nunca. Pelo contrário, ela difama, mente e distorce. Isso não é jornalismo.
Rachel Duarte
No Sul21
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A herança de FHC

 
Enquanto não surgir coisa mais avançada, as pesquisas de opinião continuarão a ser a melhor maneira de saber o que pensa a população a respeito das questões coletivas.
Sem elas, ficamos com o que acha cada individuo ou dizem os grupos mais organizados e loquazes. Os sentimentos e atitudes da maioria permanecem ignorados. É como se não existissem.
Mas as pesquisas estão aí, permitindo que compreendamos os juízos e as expectativas dos que não se expressam, não mandam cartas ou postam comentários na internet. Há outras formas de fazê-lo, mas nenhuma mais confiável.
Realizá-las não é extravagância ou privilégio. Sequer custam tanto que um partido político poderoso, como, por exemplo, o PSDB, não possa encomendar as suas. Ou que um jornal fique pobre se tiver que contratar alguma.
Por que, então, as oposições brasileiras as usam tão parcimoniosamente? Por que, se é simples conhecê-la, os partidos e a mídia oposicionista desconsideram a opinião pública?
Tome-se a velha ideia de que as três derrotas sucessivas dos tucanos para o PT teriam sido causadas pela insuficiente defesa da “herança de Fernando Henrique”. Sabe-se lá o porquê, é uma hipótese que volta e meia reaparece, como se fosse uma espécie de verdade profunda e houvesse evidências que a sustentassem.
Nas últimas semanas, ela retornou ao primeiríssimo plano. Em seu discurso inaugural como presidente nacional do PSDB, o senador Aécio Neves (MG) disse que seu partido se equivocou ao não valorizar o “legado” das duas administrações de FHC. Em suas palavras: “Erramos por não ter defendido, juntos, todo o partido, com vigor e convicção, a grande obra realizada pelo PSDB”.
Salvo uma ou outra manifestação de cautela, a mídia conservadora aplaudiu o pronunciamento. Os “grandes jornais” gostaram de Aécio ter assumido uma tese com a qual sempre concordaram. Faltava-lhes um paladino e o mineiro se ofereceu para o posto.
E as pessoas comuns, o que pensam desse “legado”?
Em pesquisa recente de âmbito nacional, a Vox Populi tratou do assunto. Ao invés de subscrever (ou atacar) a tese, apenas identificou o que a população pensa a respeito.
Os entrevistados foram solicitados a avaliar quinze áreas de atuação do governo Dilma. Depois, a comparar o desempenho de cada uma nos governos dela e de Lula com o que apresentavam quando Fernando Henrique era presidente.
As avaliações de todas as políticas nos governos petistas são superiores. Em nenhuma se poderia dizer que, para a população, as coisas estavam melhores no período tucano.
Consideremos algumas: na geração de empregos, 7% dos entrevistados disseram que FHC atuou melhor, enquanto 75% responderam que Lula e Dilma o superaram; na habitação, 3% para FHC e 75% para Lula e Dilma; nos programas para erradicar a pobreza, 4% ficaram com FHC e 73% com os petistas; na educação, FHC foi defendido por 5% e Lula e Dilma por 63%; na política econômica, em geral, FHC foi avaliado como melhor por 8% e os petistas por 71% dos entrevistados.
No controle da inflação, FHC teve seu melhor resultado: 10% acharam que foi melhor que os sucessores, mas 65% responderam que Lula e Dilma é que agiram ou agem melhor.
Na saúde e na segurança, os petistas tiveram as menores taxas de aprovação, mas mantiveram-se bem à frente do tucano: na primeira, Lula e Dilma foram considerados melhores por 46% dos entrevistados; na segurança, por 45%. FHC, por sua vez, por 7% e 6%.
No combate à corrupção, FHC teria atuado melhor que seus sucessores para 8%, enquanto 48% dos entrevistados afirmaram que Lula e Dilma foram-lhe superiores.
Os políticos (e as empresas jornalísticas) são livres para crer no que quiserem. Enéas Carneiro era a favor da bomba atômica. Levi Fidelix é obcecado pela ideia de espalhar aerotrens pelo Brasil. Os partidos de extrema esquerda lutam pelo comunismo. Há quem queira recriar a velha Arena da ditadura.
Ancorar uma campanha presidencial na “defesa do legado de FHC” é um suicídio político, que nem Serra, nem Alckmin quiseram praticar. Não foi por não fazê-la que perderam. Seu problema nunca foi estar distantes demais dos anos FHC, mas de menos.
Resta ver como se comportará, na prática, Aécio. E o que dirão seus apoiadores, quando perceberam que também ele procurará fazer o possível para se afastar do tal “legado”.
Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
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Gráfico petralha desmente Miriam Leitão ao vivo

Depois dizem que é perseguição do PHA. Miriam explicou que IGP-M sempre sobe quando dólar sobe. Mas algum petista deve ter boicotado e mostrado ao contrário. Ou foi algum beneficiário do bolsa família? Ou quem sabe uma doméstica? O problema é que às vezes o apocalipse dá errado...
Ontem a Folha comparou o crescimento vigoroso do México (previsão do PIB: até 3,1 %) com o fracasso do Brasil (previsão do PIB: até 3%). A diferença entre o fracasso e o vigor está, meu caro, na dizima periódica (ATENÇÃO: Eu não disse "dízima", com acento, eu disse "dizima": de quem dizima a verdade periodicamente).
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Produção industrial cresce 1,8% em abril

Em abril de 2013, já descontadas as influências sazonais, a produção industrial avançou 1,8% frente ao mês imediatamente anterior, segundo resultado positivo consecutivo nesse tipo de comparação, acumulando ganho de 2,7% nesse período. Na série sem ajuste sazonal, no confronto com igual mês do ano anterior, a indústria cresceu 8,4% em abril de 2013, taxa mais elevada nesse tipo de comparação desde agosto de 2010 (8,6%). Com isso, no índice para o fechamento do primeiro quadrimestre de 2013 (acumulado no ano), o setor industrial teve expansão de 1,6%, revertendo a queda de 1,1% assinalada nos quatro últimos meses do ano passado, ambas as comparações contra iguais períodos do ano anterior. A taxa anualizada, indicador acumulado em 12 meses, ao recuar 1,1% em abril de 2013, mostrou redução no ritmo de queda frente às marcas registradas em janeiro (-2,0%), fevereiro (-1,9%) e março (-2,0%). A publicação completa pode ser acessada pelo link
www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/industria/pimpfbr/default.shtm.
17 dos 27 ramos investigados tiveram aumento na produção
A expansão de 1,8% da atividade industrial em abril teve perfil generalizado de crescimento, alcançando todas as categorias de uso e 17 dos 27 ramos pesquisados. Entre as atividades, as principais influências positivas foram assinaladas por veículos automotores (8,2%), máquinas e equipamentos (7,9%) e alimentos (4,8%). O primeiro setor avançou 15,6% nos dois últimos meses de expansão; o segundo acumulou ganho de 19,3% entre janeiro e abril; e o terceiro eliminou a perda de 4,5% verificada entre fevereiro e março. Outras contribuições positivas relevantes vieram de edição, impressão e reprodução de gravações (4,6%), perfumaria, sabões, detergentes e produtos de limpeza (9,0%), celulose, papel e produtos de papel (1,8%) e outros produtos químicos (1,0%). Entre as nove atividades que reduziram a produção, os desempenhos de maior importância foram registrados por bebidas (-5,9%) e material eletrônico, aparelhos e equipamentos de comunicações (-6,5%), que reverteram as taxas positivas do mês anterior: 1,5% e 0,6%, respectivamente.
Entre as categorias de uso, bens de capital, ao crescer 3,2%, assinalou o avanço mais acentuado em abril, quarto resultado positivo consecutivo, acumulando expansão de 15,5% no período. Os segmentos de bens de consumo duráveis (1,1%) e de bens de consumo semi e não duráveis (0,9%) também registraram taxas positivas, com o primeiro acumulando ganho de 6,7% em dois meses consecutivos de crescimento, e o segundo eliminando parte da queda de 2,6% observada entre fevereiro e março. O setor produtor de bens intermediários, com variação de 0,4%, mostrou o avanço mais moderado nesse mês, mas também apontou a segunda taxa positiva consecutiva, acumulando expansão de 0,8% nesse período.
Média móvel trimestral varia 0,1%
Ainda na série com ajuste sazonal, o índice de média móvel trimestral variou 0,1% em abril frente ao mês anterior, após apontar taxas positivas em janeiro (0,5%), fevereiro (0,1%) e março (0,3%). Entre as categorias de uso, bens de capital, ao avançar 1,9%, assinalou o único resultado positivo nesse mês e prosseguiu com a trajetória ascendente iniciada em dezembro último. O segmento de bens intermediários (0,0%) repetiu o patamar do mês anterior e manteve o comportamento de estabilidade presente desde dezembro. Os setores produtores de bens de consumo semi e não duráveis (-0,6%) e de bens de consumo duráveis (-0,5%) assinalaram as taxas negativas, mantendo trajetórias descendentes desde janeiro.
Indústria avança 8,4% na comparação com abril de 2012
Na comparação com abril de 2012, o setor industrial avançou 8,4%, com perfil disseminado de resultados positivos, já que todas as categorias de uso, 23 das 27 atividades, 58 dos 76 subsetores e 63,4% dos produtos pesquisados apontaram expansão na produção, sendo que abril de 2013 (22 dias) teve dois dias úteis a mais que igual mês do ano anterior (20). O ramo de veículos automotores (23,9%) exerceu a maior influência positiva, impulsionado pelo crescimento na produção de aproximadamente 80% dos produtos investigados. Outras contribuições relevantes vieram de máquinas e equipamentos (18,1%), refino de petróleo e produção de álcool (11,7%), alimentos (7,7%), máquinas, aparelhos e materiais elétricos (18,9%), borracha e plástico (13,3%), outros equipamentos de transportes (16,1%), outros produtos químicos (4,2%), máquinas para escritório e equipamentos de informática (19,5%) e equipamentos de instrumentação médico-hospitalar, ópticos e outros (23,7%). Entre as quatro atividades que reduziram a produção, os principais impactos foram em indústrias extrativas (-8,3%), edição, impressão e reprodução de gravações (-5,8%) e metalurgia básica (-2,1%).
Nos índices por categorias de uso, ainda no confronto com abril de 2012, bens de capital (24,4%) e bens de consumo duráveis (14,9%) assinalaram expansões, influenciados pelo incremento na produção e pela baixa base de comparação, já que, em abril de 2012, houve quedas de 7,4% e de 5,5%, respectivamente. A produção de bens de consumo semi e não duráveis (5,2%) e de bens intermediários (5,0%) também mostraram taxas positivas nesse mês, mas que ficaram abaixo da média da indústria (8,4%) nesse tipo de confronto.
O setor de bens de capital, ao crescer 24,4%, assinalou o quarto resultado positivo consecutivo e o mais elevado desde agosto de 2010 (26,5%) nesse tipo de confronto. O segmento foi influenciado pelo crescimento em todos os seus grupamentos, com destaque para o avanço de 34,0% em equipamentos de transporte. Os demais resultados positivos foram registrados por bens de capital para uso misto (15,2%), para fins industriais (20,7%), para energia elétrica (18,0%), agrícola (28,7%) e para construção (18,4%).
O segmento de bens de consumo duráveis (14,9%) apontou a taxa mais elevada desde fevereiro de 2011 (17,6%), impulsionado pela maior fabricação de automóveis (17,6%) e pelos avanços em artigos do mobiliário (20,7%), motocicletas (13,7%), eletrodomésticos da linha branca (5,8%) e da linha marrom (13,6%) e de outros eletrodomésticos (20,8%). Nessa categoria, o principal impacto negativo foi na produção de telefones celulares (-3,7%).
O segmento de bens de consumo semi e não duráveis, ao crescer 5,2% no índice mensal, reverteu dois meses de taxas negativas consecutivas e apontou o crescimento mais intenso desde setembro de 2010 (6,2%). Este desempenho foi influenciado pelos resultados positivos em todos os grupamentos, com destaque para carburantes (16,1%), semiduráveis (16,3%) e alimentos e bebidas elaborados para consumo doméstico (3,6%).
O setor de bens intermediários (5,0%), que também interrompeu dois meses de taxas negativas no confronto com igual mês do ano anterior, assinalou a expansão mais elevada desde novembro de 2010 (5,7%). Os impactos positivos vieram dos produtos associados às atividades de refino de petróleo e produção de álcool (9,5%), borracha e plástico (13,6%), alimentos (9,2%), veículos automotores (10,0%), outros produtos químicos (3,8%), minerais não-metálicos (3,6%), produtos têxteis (5,5%) e celulose, papel e produtos de papel (1,3%), enquanto as influências negativas foram em indústrias extrativas (-8,3%), metalurgia básica (-2,1%) e produtos de metal (-0,7%). Vale citar também os resultados positivos vindos dos grupamentos de insumos para construção civil (9,7%), que interrompeu dois meses seguidos de índices negativos e apontou o crescimento mais intenso desde fevereiro de 2011 (12,2%), e de embalagens (3,7%), que assinalou a quarta taxa positiva consecutiva nesse tipo de comparação.
Índice acumulado em 2013 cresce 1,6%
No índice acumulado para o primeiro quadrimestre de 2013, frente a igual período do ano anterior, o setor industrial cresceu 1,6%, com 13 dos 27 ramos investigados apontando expansão na produção. O ramo de veículos automotores (15,2%) exerceu a maior influência positiva, impulsionado pelo crescimento na produção de aproximadamente 75% dos produtos investigados. Houve influência da baixa base de comparação, já que esse setor recuou 18,5% no índice acumulado dos quatro primeiros meses de 2012, em virtude da concessão de férias coletivas em várias empresas do setor. Outras contribuições positivas vieram de refino de petróleo e produção de álcool (8,4%), outros equipamentos de transporte (8,6%), máquinas, aparelhos e materiais elétricos (8,4%), máquinas e equipamentos (2,7%) e borracha e plástico (5,2%). Entre as 13 atividades que reduziram a produção, os principais impactos foram em indústrias extrativas (-6,5%), edição, impressão e reprodução de gravações (-9,1%) e metalurgia básica (-5,7%).
Entre as categorias de uso, o perfil dos resultados para o primeiro quadrimestre de 2013 mostrou maior dinamismo para bens de capital (13,4%), impulsionado especialmente pela maior fabricação de equipamentos de transporte (27,4%). O setor produtor de bens de consumo duráveis (4,5%) também apontou taxa positiva nos quatro primeiros meses do ano, influenciado pela maior produção de automóveis (8,7%). Essas duas categorias de uso, além do aumento no ritmo da atividade industrial ao longo desse ano, também foram influenciadas pela baixa base de comparação, uma vez que, no período janeiro-abril de 2012, registraram quedas de 11,9% e de 10,1%, respectivamente. A produção de bens intermediários (0,4%) apontou avanço menos acentuado que o da média da indústria (1,6%), enquanto o segmento de bens de consumo semi e não duráveis, com redução de 1,6%, assinalou o único resultado negativo no índice acumulado no ano.
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A ressurreição de Marx

Na busca de respostas para a crise econômica mundial, as vendas de O Capital disparam.
marx

O artigo abaixo foi publicado originalmente na revista americana Foreign Policy. O autor, Leo Panitch, é historiador e economista renomado. Nascido no Canadá, Panitch colabora com jornais e revistas de todo o mundo, e leciona Ciência Política na Universidade de Toronto.
A crise econômica gerou um ressurgimento do interesse em Karl Marx. As vendas mundiais de O Capital dispararam (uma editora alemã vendeu milhares de cópias em 2008, contra 100 do ano anterior), o que dá a medida de uma crise ampla que colocou o capitalismo global – e seus sacerdotes – em uma confusão ideológica.
No entanto, mesmo que a fé em ortodoxias neoliberais tenha implodido, por que ressuscitar Marx? Para começar, Marx estava muito à frente de seu tempo ao prever a bem sucedida globalização do capitalismo das últimas décadas. Ele previu com precisão muitos dos fatores decisivos que dariam origem à crise econômica atual: o que ele chamou de “contradições” inerentes a um mundo composto de mercados competitivos, produção de mercadorias e especulação financeira.
Ao escrever suas obras mais famosas numa era em que as revoluções francesa e americana tinham menos de 100 anos de idade, Marx teve premonições do que aconteceria com a AIG e o Bear Stearns um século e meio mais tarde. Ele era particularmente consciente do que chamou de “o papel mais revolucionário” desempenhado na história humana pela burguesia – os precursores dos atuais banqueiros de Wall Street e dos executivos de empresas. Como disse Marx no Manifesto Comunista: “A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção e, assim, as relações de produção, e com eles as relações da sociedade… Em outras palavras, criando um mundo à sua própria imagem”.
Mas Marx não era a favor do reforço da globalização capitalista em seu tempo ou no nosso. Em vez disso, ele entendeu que “a necessidade de um mercado em constante expansão para os seus produtos persegue a burguesia por toda a superfície do globo”, prevendo que o desenvolvimento do capitalismo, inevitavelmente, “abriria caminho para crises mais extensas e exaustivas”. Marx identificou como uma especulação desastrosa poderia desencadear e agravar crises em toda a economia. E ele descartou as ilusões políticas daqueles que argumentam que as crises poderiam ser permanentemente combatidas através de reformas.
Como todo revolucionário, Marx queria ver a antiga ordem derrubada em sua vida. Mas o capitalismo tinha muito fôlego, e ele só podia vislumbrar, porém perceptivelmente, os erros que as futuras gerações cometeriam. Aqueles que reencontram Marx vão descobrir que muito do que ele disse é relevante hoje, pelo menos para quem quer “recuperar o espírito da revolução”, não apenas “colocar o seu fantasma para andar novamente”.
Se estivesse observando a atual crise, Marx certamente iria apontar as falhas inerentes ao capitalismo que levaram à crise atual. Ele veria como os desenvolvimentos modernos em finanças, como securitização e derivativos, têm aumentado os riscos de integração econômica global. Sem essas inovações, a acumulação de capital ao longo das décadas anteriores teria sido significativamente menor. E assim teria sido se as finanças não houvessem penetrado profundamente na sociedade. O resultado é que a demanda do consumidor (e, portanto, a prosperidade) nos últimos anos tem dependido cada vez mais de cartões de crédito e dívida hipotecária, ao mesmo tempo em que o enfraquecimento do poder de sindicatos e os cortes em bem-estar social têm deixado as pessoas mais vulneráveis ​​aos choques do mercado.
Essa alavancada financeira contribuiu para o crescimento econômico global nas últimas décadas. Mas também produziu uma série de inevitáveis ​​bolhas financeiras, sendo a mais perigosa a do setor imobiliário dos EUA. O estouro dessa bolha teve um impacto tão profundo em todo o mundo por sustentar tanto a demanda do consumidor americano quanto a dos mercados financeiros internacionais. Marx certamente apontaria essa crise como um exemplo perfeito de como o capitalismo parece “o feiticeiro que já não é capaz de controlar os poderes do inferno que invocou para fazer seus feitiços”.
Apesar da nossa situação atual, Marx não acreditaria que uma catástrofe econômica traz em si a mudança. Ele sabia muito bem que o capitalismo, por sua natureza, gera e promove o isolamento social. Tal sistema, ele escreveu, “não deixa outro vínculo entre homem e homem além do frio interesse, do insensível ‘pagamento em dinheiro’.” Na verdade, o capitalismo deixa sociedades atoladas “na água gelada do cálculo egoísta”. O isolamento social resultante cria a passividade em face de crises pessoais, de demissões nas empresas a execuções hipotecárias. Esse isolamento também impede as comunidades de cidadãos ativos e informados de agir em busca de alternativas radicais ao capitalismo.
Marx iria perguntar em primeiro lugar como superar essa passividade social. Ele achava que os sindicatos e partidos operários de seu tempo eram um passo adiante. Assim, em O Capital, ele escreveu que o “fim imediato” era “a organização dos proletários em classe”, cuja “primeira tarefa” seria “vencer a batalha pela democracia.” Hoje, ele gostaria de incentivar a formação de novas identidades coletivas, associações e instituições em que as pessoas pudessem resistir ao status quo capitalista e começassem a decidir a melhor forma de satisfazer as suas necessidades.
Não surgiu uma visão ambiciosa de mudança a partir da crise até agora, e é esse vazio que Marx iria considerar o mais preocupante de todos. Nos Estados Unidos, algumas propostas recentes foram ridicularizadas como “socialistas”, mas só parecem radicais porque vão além do que a esquerda do Partido Democrata tem defendido. Dean Baker, co-diretor do Centro de Pesquisa Econômica e Política, por exemplo, pediu um limite de 2 milhões de dólares em certos salários de Wall Street e a criação de um imposto sobre transações financeiras. Marx veria essa proposta como um exemplo perfeito de como pensar dentro da caixa, porque ela endossa explicitamente (mesmo ao limitar) aquilo que é identificado como o problema: uma cultura de risco dissociada de consequência. Marx não seria menos irônico para com aqueles que pensam que as nacionalizações de bancos – como as que ocorreram na Suécia e no Japão durante suas crises financeiras na década de 1990 – equivalem a uma verdadeira mudança.
Ironicamente, uma das propostas mais radicais vem de um economista da Escola de Economia de Londres, Willem Buiter, um ex-membro do Comitê de Política Monetária do Banco da Inglaterra e certamente não-marxista. Para Buiter, todo o setor financeiro deveria se transformar em utilidade pública. Como os bancos no mundo contemporâneo não podem existir sem o seguro de depósito público, não há nenhuma razão, ele argumenta, para que eles sejam uma propriedade privada, com fins lucrativos. Em vez disso, devem ser de propriedade pública e executar serviços públicos.
“Da financeirização da economia para a socialização das finanças”, escreveu Buiter. Isso é “um pequeno passo para os advogados, um grande passo para a humanidade”. Obviamente, você não precisa ser marxista para ter aspirações radicais. Você, no entanto, tem que ser uma espécie de marxista para reconhecer que, mesmo em um momento como o atual, quando a classe capitalista está em seus calcanhares, desmoralizada e confusa, a mudança radical provavelmente não vai começar com “um pequeno passo para os advogados “(presumivelmente depois de conseguir que todos os donos de ações sentem-se numa sala para assinar um documento). Marx diria que, sem o desenvolvimento das forças populares através de novos movimentos e partidos, a socialização das finanças vai cair em terreno infértil. Durante a crise econômica da década de 1970, as forças radicais dentro de muitos partidos democráticos da Europa apresentaram sugestões semelhantes, mas não foram capazes de conseguir que os líderes desses partidos não fizessem propostas tidas como antiquadas.
A irracionalidade da lógica básica dos mercados capitalistas – tão habilmente analisados ​​por Marx – é mais uma vez evidente. Tentando apenas se manter à tona, cada fábrica e empresa demite trabalhadores e tenta pagar menos para os que ficam. Como Marx sabia, esse comportamento microrracional tem os piores resultados macroeconômicos. Nós agora podemos ver o que acontece ao ignorar Marx e confiar na “mão invisível” de Adam Smith.
A crise financeira de hoje também expõe as irracionalidades em áreas além das finanças. Um exemplo é a proposta do presidente dos EUA, Barack Obama, de comercializar créditos de carbono como uma solução para a crise climática. Segundo essa ideia, supostamente progressista, as empresas que cumprem as normas de emissões vendem créditos para as que não cumprem as suas metas. O Protocolo de Kyoto tem sistema semelhante para os estados. Fatalmente, ambos os planos dependem dos mesmos mercados voláteis de derivados que são inerentemente vulneráveis a falhas de manipulação e de crédito. Marx insistia que, para encontrar soluções para os problemas globais como as alterações climáticas, é preciso romper com a lógica do mercado capitalista, em vez de criar instituições estatais para reforçá-las. Da mesma forma, ele procuraria a solidariedade econômica internacional, em vez da competição entre os Estados. Como disse no Manifesto, “a ação conjunta dos principais países, pelo menos, é a primeira condição para a emancipação do proletariado”.
No entanto, o trabalho de construção de novas instituições e movimentos para a mudança deve começar em casa. Embora ele tenha feito a convocação “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”, Marx ainda insistia que os trabalhadores de cada país deveriam “antes de tudo resolver as coisas com a sua própria burguesia.” Ele também insistia que o caminho para a mudança radical é levar as pessoas a pensar de forma ambiciosa novamente.
Qual a probabilidade de que isso aconteça? Mesmo em um momento em que a crise financeira está sangrando boa parte das pessoas do mundo, quando a ansiedade coletiva abala todas as idades e quando, como sempre, as privações e os encargos estão caindo mais pesadamente sobre os trabalhadores, o prognóstico é incerto. Se estivesse vivo hoje, Marx não se preocuparia em identificar exatamente quando ou como a crise atual terminará. Ao contrário, ele talvez notasse que essas crises são parte da dinâmica do capitalismo. Políticos reformistas que pensam que podem lidar com as desigualdades de classe inerentes à sociedade capitalista são os românticos reais dos nossos dias, eles próprios agarrados a uma visão ingênua utópica do que o mundo poderia ser. Se a crise atual demonstra alguma coisa, é que Marx foi o maior realista.

No DCM
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“Eu não vendo PIB”

 
Darcy Ribeiro contava uma história sobre um debate entre líderes do Japão, no pós-guerra, quando tratavam de reconstruir o país. Um deles perguntou aos presentes:
- Nós temos petróleo?
- Não, responderam todos.
- Temos ferro, ouro, minérios?
- Não.
- Temos, ao menos, muita terra agricultável?
- Claro que não!
Então, o que nós temos em grande quantidade, para fazer esse país ser grande sem uma expansão colonial, que não é mais possível depois da guerra?
- ????
- Japoneses, nós temos milhões, dezenas de milhões de japoneses!
E a história me veio à mente quando, outro dia, ouvi um relato sobre um jantar de empresários, onde estava presente o egípcio Tarek Farahat, que se tornou notícia por conduzir a multinacional Procter & Gamble a seu melhor desempenho na história brasileira, competindo com a gigante americana Unilever na área de produtos de limpeza, beleza e higiene pessoal.
Em meio ao chororô habitual com as dificuldades da economia, recheado com citações dos “analistas” econômicos, o egípcio – que já foi promovido à vice-presidente da multi para a América Latina – saiu-se com esta:
- Eu não vendo PIB!
E diante da perplexidade dos circunstantes, completou:
- Eu vendo gilete, sabonete, sabão para roupas, creme de barbear, desodorante… E isso está vendendo muito bem!
Farahat elevou a empresa adaptando os produtos às possibilidades e desejos de consumo da imensa massa de brasileiros que, nos últimos anos, tornou-se consumidora. Investiu em vendas e fez a empresa crescer. A P & G construiu duas fábricas e dois centros de distribuição,  dobrou o número de funcionários e já está contratando para uma terceira planta industrial, em Seropédica, próximo ao Rio.
As receitas da empresa no Brasil cresceram 32% em 2011 e 20% em 2012, em dólar, contra um crescimento global de 3% em valor e 2% em volume. Isso, quando nossa imprensa alardeava dois anos de “pibinho”. E anuncia que irá lançar nada menos que 200 produtos ou versões de produtos este ano.
O egípcio realmente parecia estar falando grego para nossa “inteligência” econômica, que prefere, mesmo quando o Governo reduz impostos e estimula o consumo, culpar o Estado por sua incompetência empresarial.
Impostos e encargos são pesados, sim, e muito, mais para os pequenos e os que têm de enfrentar a concorrência dos importados, com o dólar subvalorizado.
Veja como falam do “custo” do trabalhador e de seus direitos e compare com o valor que salários e encargos representam em seu faturamento, como a desoneração da folha trabalhista que está em curso mostrou: entre 1 e 2% do total, na grande maioria dos setores!
Os grandes investidores do mundo não estão nem aí para Miriam Leitão e seus colegas de catastrofismo econômico. Sabem que o Brasil e o povo brasileiro são uma imensa força econômica que, quando se livra da exclusão social, representa um dos maiores potenciais do mundo.
Somos o destino de mais de 40% do investimento estrangeiro na América Latina e o ritmo das inversões de capital no Brasil segue alto faz tempo. Não que as multis sejam “boazinhas”, porque, dos lucros, remetem às matrizes mais do que reinvestem aqui (55% a 45%, segundo a Cepal).
Tirar o Estado da economia não é apenas entregar nossas riquezas ao capital estrangeiro: é condenar o Brasil ao atraso, onde uma elite cercada de grades e muros teria a ilusão de estar numa ilha paradisíaca, enquanto arde a sua volta o inferno da miséria e da exclusão.
Fernando Brito
No Tijolaço
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