2 de jun de 2013

Juez ordena a Google entregar datos privados de usuarios

Una juez federal de EE.UU. dictaminó que Google deberá cumplir con las demandas del FBI de entregar al servicio secreto datos confidenciales de los usuarios sin ninguna orden judicial, comunica AP.
El gigante de Internet intentaba demostrar ante la Corte Federal del Distrito Norte de California la inconstitucionalidad de las llamadas Cartas de Seguridad Nacional (NSL, por sus siglas en inglés) que envían las agencias federales como el FBI a empresas privadas. De esta manera el Gobierno puede acceder a los datos de transacciones, números de teléfono, direcciones de correo electrónico e historiales de búsqueda, entre otras informaciones confidenciales de los clientes, sin tener que esperar una orden judicial.
Sin embargo, la jueza Susan Illston ha dictaminado que Google debe cumplir con al menos 17 de las 19 cartas cuestionadas. Esta decisión puede ser recurrida ante la Corte de Apelaciones.
De acuerdo con los datos públicos más recientes, en 2011 el FBI emitió 6.511 cartas de este tipo requiriendo información sobre 7.201 personas. En total, desde el año 2000, el Gobierno de EE.UU. envió hasta 300.000 cartas.
Esta táctica ha sido criticada por activistas de defensa de los derechos civiles que la califican como una violación de la privacidad, abusando del uso del concepto de ‘seguridad nacional’ como pretexto.
No SiCBI
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FHC - Um vagabundo a serviço de quem?

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O “Mau Dia Brasil” e os seus maus conceitos

O que sai da boca deles é o que pensam os Marinho. Mas é preciso se esforçar tanto?
Eu fico a lamentar e jamais surpreso quando tenho o desprazer de assistir ao jornal “global” e matutino conhecido como “Bom Dia Brasil”, que deveria se chamar “Mau Dia Brasil”. Os jornalistas Chico Pinheiro, Renata Vasconcellos, Miriam Leitão, Renato Machado, Carla Vilhena, Alexandre Garcia e Zileide Silva se dedicam a praticar a postura oposicionista de seus patrões Marinho contra o Governo Federal administrado pelos trabalhistas, bem como se esmeram para fazer caras e bocas, que talvez nem atores profissionais e consagrados conseguissem performances tão “perfeitas” na arte de representar.
Esses jornalistas, uns por ideologia, como o direitista Alexandre Garcia, e outros simplesmente para garantir o emprego e o status social conquistado, a exemplo dos restantes já citados, vivem em um mundo à parte e coberto por uma redoma de cristal. Seu eu estiver enganado, não tenho como não fazer tais afirmativas, pois, acredito, é o que eles passam para o telespectador mais atento e por isso mais difícil de ter a cabeça feita pelos jornais de mercado, que, indubitavelmente, são os porta-vozes da direita escravagista brasileira, assim como dos banqueiros e dos trustes e governos internacionais.
A luta desses jornais e jornalistas de direita contra o desenvolvimento, a soberania do Brasil e as conquistas do povo brasileiro são de uma mesquinhez e perversidade, que não lhes permitem se orientar sobre os fatos e os momentos históricos pelos quais o Brasil e seu povo estão a vivenciar há quase 11 anos, o que, sobremaneira, é confirmado pelos números e índices econômicos gigantescos, além da sensação de bem-estar social e da crença em dias melhores por parte da população. Realidades inegáveis, até mesmo para os jornalistas que, diuturnamente, mostram, nos meios de comunicação, um Brasil derrotado, negativo, fracassado, incompetente e que não tem condições de ser o senhor de seu destino.
São pessoas que elaboram ou editam um jornalismo, sobretudo, direcionado para a classe média tradicional e, inegavelmente, para os ricos, que, intolerantes, preconceituosos e dominados que são pelos seus DNA colonizados e complexados, não aceitam que o Brasil se torne, definitivamente, um País desenvolvido e proprietário de seus interesses políticos, geográficos e econômicos. É a história a ser escrita pelo povo brasileiro e a tentativa de as “elites” alienígenas e por isto entreguistas de reescrevê-la conforme os meios que lhes são intrínsecos às suas verves: a mentira, a manipulação, a confusão e, se necessário for, o conflito a ter como essência a violência pura e simples, a exemplo do golpe civil-militar de 1964.
O “Mau Dia Brasil” é um jornal televisivo, que reflete e exemplifica toda a imprensa burguesa em geral. A imprensa racista, sectária, classista e irreversivelmente golpista. A imprensa de mercado, corporativa, que se preocupa somente e antes de tudo com os seus negócios privados. Por isto e por causa disto, temos um jornalismo que não condiz com a realidade que vivemos e muito menos retrata a competência e o dinamismo laboral do trabalhador brasileiro. É uma imprensa que confunde propositalmente o público com o privado, a opinião pública com a publicada, pois a sua verdade é a má-fé intelectual.
A imprensa de rapina e que aposta na divisão do País e na adesão da população aos seus interesses. Só que tal sistema midiático não tem programa de governo e projeto para o País. Não tem compromisso histórico com o nosso desenvolvimento, pois alienígena e totalmente voltado à edificação de uma sociedade individualista, sovina, consumista e, consequentemente, violenta. Vivemos a ditadura da imprensa, das mídias, último bastião das classes abastadas e das grandes corporações a ser superado para que o povo brasileiro possa, enfim, ter, de fato, uma democracia popular e não somente representativa, que inclua e acolha a todos, sem preconceitos de cor, classe e credo, e, por seu turno, transforme o Brasil em um País realmente desenvolvido e democrático. O “Mau Dia Brasil” tem de rever seus maus conceitos. É isso aí.
Davis Sena Filho
No Palavra Livre
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Fotógrafo brasileiro cobriu secretamente morte de Neruda

A convite de Manuel Araya - dublê de chofer e segurança de Pablo Neruda, de 1972 até o dia da morte do poeta, ocorrida em 23 de setembro de 1973 - participei como documentarista e repórter credenciado da exumação dos despojos do Prêmio Nobel chileno, em Isla Negra, Chile, no início de abril passado. Com o título “Crônica de um assassinato presumido”, minha tentativa de iluminar os bastidores históricos e políticos dessa exumação é narrada nas páginas 108-113 da edição de nº 70 (maio 2013) da revista Brasileiros, que acaba de chegar às bancas.
 
Faltava apenas um dia para a remessa da matéria para São Paulo, quando, guiado no Chile por teimoso instinto farejador (dizem que é “mão de anjo”), deparei-me no Google com uma foto incomum de Neruda, batida no interior do apartamento da mal afamada Clínica Santa María, de Santiago do Chile. Prova de raro respeito por direitos autorais na internet, uma página da mais recôndita província de Maule, atribuía o crédito da foto a “Evandro Teixeira”; um nome de óbvia sonância e escrita portuguesa.
Telefonema do Pacífico para o sertão da Bahia
Confesso que Teixeira não reverberou imediatamente em minha lembrança, e decidi colocar-me em seu encalço, na internet e por outros meios. Nessa busca – e há que saber buscar no Google, com palavras-chave fora do padrão – cairam em minhas mãos cinco fotos diferentes do corpo de Pablo Neruda, batidas na referida clínica, e todas de Evandro Teixeira.
Alertei minha colega Candida Tedesco, coordenadora editorial da Brasileiros, em São Paulo, ao achado e, durante alguns dias, tentei encontrar Evandro Teixeira no Brasil: primeiro através do e-mail, mas também pelo celular; contatos amealhados ao ritmo de conta-gotas em vários endereços brasileiros. No final do terceiro dia, ligando de Concepción, às margens do Pacífico, eu o localizei em Canudos, interior da Bahia, locação de uma de suas mais famosas fotos antigas: “Sertão de Canudos”. A qualidade da ligação não estava boa, mas Evandro já havia lido meu e-mail e prometeu retornar três dias depois, de volta ao Rio de Janeiro.
 
Baiano de Irajuba, em 1957, Teixeira iniciara sua carreira como repórter fotográfico de O Diário da Noite e O Jornal (Diários Associados), no Rio de Janeiro. Em 1963, mudara-se para o Jornal do Brasil, para o qual, viajando aos quatro cantos do mundo, ao longo de 47 anos tornara-se um dos mais respeitados fotojornalistas internacionais. Tinha recebido vários prêmios e publicado seu livro Fotojornalismo (1983), que integra o acervo da Biblioteca do Centro de Artes Georges Pompidou, em Paris.
A partir do golpe militar de 1964, Teixeira documentara a repressão da ditadura no Brasil, consagrando-se como autor de fotos históricas, como a Passeata dos Cem Mil (1968) e a resistência de trabalhadores, estudantes e artistas contra os militares. Personagem de variadas exposições individuais nas principais capitais do mundo e em várias cidades do Brasil, Teixeira, na altura de seus 70 anos de idade, ainda é um dos grandes nomes da fotografia brasileira e mundial.
A cobertura de Evandro Teixeira do golpe de Pinochet no Chile
Em meu e-mail, eu lhe pedia uma entrevista gravada em vídeo para um documentário sobre e com Manuel Araya, inciado durante a exumação de Neruda em Isla Negra, e também algumas palavras para a reportagem recém-concluída para a Brasileiros, na qual eu obviamente pretendia incluir a estória de Teixeira e suas misteriosas fotos. O pessoal da revista reagiu extasiado à ideia, embora o retorno anunciado pelo fotógrafo ameaçasse estourar o prazo para o fechamento editorial da revista.
 
Fruto da minha pesquisa na internet sobre Teixeira, foi uma entrevista do fotógrafo concedida em 2012 a Paulo César Boni, da UEL-Universidade de Londrina, intitulada “A fotografia a serviço da luta contra a ditadura militar no Brasil”. Nela, pela primeira vez, narrava como conseguira aproximar-se de Pablo Neruda em setembro de 1973, como enviado especial do JB para cobrir o golpe de Pinochet no Chile.
Certa noite, conta o fotógrafo, poucos dias após o golpe de 11 de setembro de 1973, fora jantar no terraço do Hotel Carrera, onde estava hospedado - o mesmo hotel, de onde o cinegrafista alemão, Peter Hellmich, filmara oculta e magistralmente o bombardeio do Palácio da Moneda.
 
No restaurante fora-lhe apresentada uma senhora, por coincidência, esposa de um adido militar do Chile no Brasil. A senhora passava suas horas no hotel, enquanto o marido participava do golpe. “Mas ela era paulista, gente nossa”, comenta Teixeira, irônico. Ele precisava de fotos de gente importante e mencionou Pablo Neruda. Então, como se fosse enviada pela providência divina, a brasileira lhe confidenciou um segredo: ninguém conseguiria falar com Neruda, porque estava confinado em Isla Negra, mas como estava mal de saúde, seria trazido para o Hospital “São José”, em Santiago.
O nome estava errado, não se sabe se por engano da informante, ou por esquecimento de Teixeira. Fato é que a “gente [ou agente?] nossa” era bem relacionada, e deu seu cartão de visitas ao fotógrafio. como senha para o contato com o diretor da Clínica Santa Maria.
Teixeira fora à clínica, cujo diretor o recebera, confirmando que Neruda dera entrada, acompanhado de sua esposa, Matilde Urrutía. Com um truque, Teixeira apresentara-se como “amigo” de Neruda, pois o tinha fotografado no Brasil, ao lado de Jorge Amado e coisa e tal. “O médico respondeu que não confiava muito em nós, jornalistas, não”, lembra-se Teixeira, que exagerara na dose, já afirmando ser também amigo de Matilde, ao que o médico cedera e, abrindo uma portinhola, permitira que Teixeira visse a esposa de Neruda, que saudou, desejando melhoras ao poeta.
 
“Já ia por a mão na câmera, mas o médico não permitiu”, conta, mas não conta se também conseguira ver Neruda. Em seguida fora mandado embora pelo diretor, que lhe prometera enviar ao hotel o boletim médico do poeta, que seria emitido às 22h00. Teixeira não menciona a data, mas só podia ser o fatídico domingo, 23 de setembro de 1973. Contudo, o relógio marcara 22h e o médico não havia enviado o boletim. Quando Teixeira lhe ligara, cobrando o boletim, o médico o surpreendera com a notícia súbita morte de Neruda.
Mal bateram 6h da manhã do dia seguinte, suspenso o toque de recolher, Teixeira retornara à clínica, escondendo sua máquina Leica debaixo da camisa. Sua visita não fora anunciada e, corajosamente, o brasileiro infiltrara-se na clínica através de uma porta dos fundos. Quando alcançara o corredor do dia anterior, viu “Pablo Neruda jogado numa sala qualquer, e a Matilde ao seu lado” – e começou a fotografar. Em seguida, dirigira-se a Matilde, jogando verde, de que era o fotógrafo de Jorge Amado, e a esposa do poeta colhera maduro, deixando-o fotografar.
Com o truque inusitado, Teixeira passara o dia 24, todo, fotografando, inclusive durante a preparação do corpo de Neruda. “Começaram a arrumar o corpo, passar formol, aquelas coisas, todas - e eu fotografando. Terminaram o preparo e colocaram o corpo num caixão - e eu fotografando. Dali ele foi levado para sua casa, que ficava no alto de uma colina, e eu fotografando tudo”. Depois, ainda com a permissão de Matilde Urrutía, acompanhou a condução do corpo até a “Chascona”, toda destruída, onde ocorreu o velório. No dia seguinte, Teixeira acompanhou Neruda até seu primeiro túmulo no Cemitério Geral de Santiago, acompanhado de milhares de pessoas, como primeira manifestação de resistência pacífica à ditadura.
 
Fotografias desmentem atestato de óbito de Neruda
Durante alguns dias, a revista Brasileiros e eu, à distância, tentamos negociar com Teixeira a cessão, obviamente paga, das fotos, mas com resolução mais adequada para a impressão. O fotógrafo, ao que tudo indica, não cedeu ao pedido da revista e, com excessão da foto do velório de Neruda, Brasileiros teve que abrir mão dos importantes documentos históricos.
Por que as poucas fotos conhecidas de Evandro Teixeira são importantes?
Evandro afirmou que passou o dia 24/09/1973 fotografando sem parar, na clínica citada. Devem ser muitas fotos e jamais foram divulgadas. As que seguem em anexo, junto com a entrevista que fiz por escrito com Teixeira, são apenas alguns instantâneos da morte de Neruda.
O que chama atenção nestas fotos é o seguinte: o atestado de óbito emitido pela Clínica Santa María em 24/09/1973, afirma que a causa mortis de Neruda teria sido uma "caquexia" (= estado degenerativo geral, definhamento) que o teria reduzido a "40 Kg de peso". Não é o que afirma o motorista Manuel Araya, que o deixara poucas horas antes da sua morte, afirmando teimosamente que Neruda pesava "mais de 100 kg", e embora Evandro Teixeira o tenha fotografado de perfil e enfaixado, as fotos não reproduzem um Neruda definhado. Este detalhe poderia interessar o juiz Mario Carroza, em Santiago do Chile.
*
Breve entrevista minha com Teixeira, 28/04/2013
(sem correção de seus erros de digitação):
"Frederico. seguem as respostas:
1) Apesar da resistência do médico, não conseguiu bater nenhuma foto de Neruda ainda vivo?
Este acontecimento é um dos mais importantes que fazem parte de todas as coberturas que presenciei. Estava no Chile, em 1973, logo após o golpe militar.
Os jornais brasileiros estavam proibidos, pela censura, de darem manchete sobre à queda de Allende. Entretanto, estando em Santiago, só pensava em encontrar o Neruda. Pois, eu havia acompanhado seu encontro com Jorge Amado, na Bahia. E o Neruda, diante daquele cenário, representava todo o impacto do Pinochet. Mas investigando a tentando localizá=lo, soube de sua doença. Foi então, que fui através do hospital, que havia me sido indicado, e me apresentei ao diretor usando o nome de uma conhecida de uma senhora, casada com um militar chileno. A tentativa foi negada, mas consegui receber os boletins médicos. E, infelizmente, recebi a noticia de que estava morto. Em uma nova tentativa, entrei por uma porta, que estavba sem vigilância, e, por sorte, vi o corpo do Neruda com sua esposa, Matilda. Foi um choque, mas sabia da importancia daquele momento.
2) Lembra-se das pessoas que estavam com Neruda e de algum comentário na clínica sobre a causa mortis? Alguma dúvida?
Era um grande risco e sabia que a qualquer momento, poderiam me pegar e tudo estava perdido. Com isso, eu nao podia chamar muita atenção. Me apresentei como fotografo que havia acompanhado o encontro dele com o Jorge Amado. Neste momento, ganhei a permissão da Sra. Matiilda de acompanhar o cortejo até o funeral.
3) Você chegou poucas horas depois do desaparecimento do chofer Manuel Araya, enviado pelo médico atendente ou Matilde Urrutia a uma farmácia: ela chegou a comentar isso com você?
Não.
4) A clínica informou que Neruda pesava pouco mais de 40 Kg, de tão definhado (a tal caquexia), mas em suas fotos, apesar de perfil, vê-se Neruda rechonchudo como era: em que estado você o encontrou?
Acompanhei o momento em que seu corpo foi arrumado. Mas como disse, era uma tensão muito grande. Além da emoição que tomava conta de mim.
5) Sabendo que suas fotos são as únicas no mundo daqueles momentos, nunca lhe ocorreu entrar em contato com o juiz Mario Carroza, e oferecer-lhe as fotos como material de investigação?
Minhas fotos, independente do tema, estarão sempre à disposição como um material importante de um registro de um momento. Este acervo chegou a fazer parte de um livro e foi conhecido pelo mundo. Esse é o meu papel.
6) O que sentiu e pensou estes anos, todos, sobre a morte de Neruda?
Pensei o que penso ate hoje. Foi um dos momentos mais marcanbrtes da minha profissão e da minha vida. Eu chorava e fotografava ao mesmo tempo..."
* * *
Frederico Füllgraf, estudou na FUB-Universidade Livre de Berlim e na DFFB-Academia Alemã de Cinema e Televisão, também em Berlim, até seu mestrado (MA) em Comunicação Social. É escritor (A bomba ´pacífica´- o Brasil e outros cenários da corrida nuclear, Brasiliense, 1988), roteirista e diretor de cinema. É colunista da revista eletrônica Speculum, de arte e cultura, e das revistas impressas Caros Amigos, Idéias e ETC (Travessa dos Editores). Frederico reside em Curitiba). E-mail: f.fuellgraf@gmail.com
Do Portal Cronópolis
No Jader Resende
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Papa recebe Mujica e diz que uruguaio é um "homem sábio"

O presidente uruguaio, José Mujica, foi recebido neste sábado com um abraço pelo papa Francisco,
no primeiro encontro desde que o argentino foi eleito papa, em 13 de março
O papa Francisco recebeu neste sábado em audiência privada no Palácio Apostólico do Vaticano o presidente do Uruguai, José Mujica, e disse que o governante era um "homem sábio".
Segundo informou o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, a audiência entre o pontífice argentino e o presidente durou cerca de 45 minutos e, após ela, Francisco disse estar "muito contente por ter se reunido com um homem sábio".
Mujica, 78 anos, foi recebido pelo papa argentino com um abraço e, antes de começar a reunião, ambos lembraram um "amigo em comum" já falecido, o escritor e teólogo uruguaio Alberto Methol Ferré. Sobre o escritor uruguaio, Mujica disse que o autor "nos abriu a mente", enquanto o papa afirmou que o intelectual "nos ajudou a pensar".
Em um dos encontros privados mais longos que Francisco manteve com um líder político, papa e Mujica mostraram grande sintonia e cordialidade.
O presidente do Uruguai deu ao papa uma estatueta em estilo gaúcho Foto: EFE
O presidente do Uruguai deu ao papa uma
estatueta em estilo gaúcho  
Foto: EFE
A audiência começou como estava previsto, às 11h locais (6h de Brasília). O presidente do Uruguai deu ao papa uma estatueta em estilo gaúcho e um livro do próprio Alberto Methol Ferré e de Alver Metalli, A América Latina no século XXI.
Por sua parte, o papa entregou ao líder uruguaio uma cópia do documento com as conclusões da Assembleia de Bispos Latino-Americanos, realizada em Aparecida, no Brasil. "Pode olhar o índice e ver os temas que te interessam", disse Francisco a Mujica, de quem se despediu com um "muito obrigado por ter vindo" e mais um abraço.
Em comunicado divulgado após o encontro, a Santa Sé disse que o presidente do Uruguai também se reuniu neste sábado com os secretários de Estado e para as Relações com os Estados do Vaticano, Tarcisio Bertone e Dominique Mamberti, respectivamente.
"Os cordiais colóquios permitiram uma troca de informações e de reflexões sobre a situação política do país e seu papel na região. Em tal perspectiva, se debateram temas de interesse comum, como o desenvolvimento integral da pessoa, o respeito dos Direitos Humanos, a Justiça e a paz social", afirmou a nota.
"Na conversa não faltou a constatação da contribuição feita pela Igreja Católica no debate público sobre essas questões, assim como na paz internacional, como também seu serviço a toda a sociedade, especialmente no âmbito assistencial e educativo", concluiu.
Este é o primeiro encontro entre o presidente do Uruguai e o argentino Jorge Mario Bergoglio desde que este foi eleito papa em 13 de março, pois Mujica não pôde comparecer à cerimônia de início do pontificado celebrada seis dias depois na Praça de São Pedro do Vaticano.


Mujica não foi à 1ª missa de Francisco porque 'o Uruguai é um Estado laico'

A senadora Lucía Topolansky justificou a ausência do marido e presidente na primeira missa do novo Papa: 'não somos crentes'
O governo do Uruguai enviou o vice-presidente, que é católico, para representar o país na celebração no Vaticano Foto: AP
O governo do Uruguai enviou o vice-presidente, que é católico, para representar o país na celebração no Vaticano  
Foto: AP
No Terra
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A morte das revistas semanais de informação

O melancólico final da Newsweek.
Uma das últimas edições impressas da Newsweek, no final do ano passado
Uma das últimas edições impressas da Newsweek, no final do ano passado
Nada mostra tão bem o declínio das revistas semanais quanto a agonia da Newsweek, que durante décadas foi a influente e admirada número dois do mundo, com uma circulação de 3 milhões de exemplares.
Na redação da Veja, nos anos 1980, a Newsweek e a líder Time eram acompanhadas com rigor e com devoção pelos jornalistas, incluído eu em meu começo de carreira.
Nesta semana, soube-se que, mais uma vez, ela está à venda. Só que ninguém quer comprar os restos mortais.
A Newsweek foi virando pó com a ascensão da internet. Foi perdendo leitores, anunciantes, repercussão e, finalmente, razão de ser.
Já nos estertores, passou do grupo que controla o Washington Post para as mãos da editora Tina Brown, que comandava então o site Daily Beast. As duas marcas ficaram sob a órbita de Tina.
No final do ano passado, a edição impressa deixou de circular. Se não fosse o aviso, ninguém teria notado, tão irrelevante já tinha ficado a revista na Era Digital.
Agora, o site foi posto à venda. A empresa quer se dedicar à marca Daily Beast.
É difícil imaginar que apareça candidato. No New York Times, alguém notou, melancolicamente, que não é uma revista à venda, com jornalistas: é apenas uma marca.
E uma marca de um passado longínquo. O caso da Newsweek não mostra apenas quanto a internet destruiu a indústria tradicional de mídia. (Há pouco tempo, a Time Warner tentou se desfazer de sua divisão de revistas, mas não encontrou quem quisesse comprar.)
A agonia da Newsweek revela, também, um fato duro para as companhias jornalísticas: as grandes marcas do papel não transferem seu prestígio para a internet. Não surpreende que a empresa prefira se concentrar no Daily Beast e não na Newsweek.
No Brasil, o quadro é o mesmo, com o natural atraso de alguns anos que caracteriza a mídia nacional em relação à americana e à europeia.
A principal revista brasileira, a Veja, é uma sombra do que foi. Os esforços extraordinários para manter a circulação em 1 milhão – a mesma em vinte anos – não têm impedido uma queda calculada em 4% ao ano.
Tenho para mim que o fim iminente e inevitável das revistas semanais de informação amargurou enormemente Roberto Civita em seus últimos anos.
Tenho para mim, também, que parte dos excessos da revista se deveu a uma desesperada tentativa de manter a relevância a qualquer preço.
O fato é que a internet vai transformando rapidamente as demais mídias em defuntos.
A próxima parada, liquidados jornais e revistas, é a televisão.
O futuro da tevê está na Netflix, no YouTube e na Amazon, que vai produzir conteúdo em vídeo. Marcas tradicionais – a Globo no Brasil – vão enfrentar um processo parecido com o que vitimou a Newsweek e tantos outros títulos nobres da Era do Papel.
A Globo só consegue manter a receita publicitária – sem a qual não é nada – graças ao expediente do BV, o Bônus por Volume, que acorrenta a ela as agências de publicidade.
Mas o grilhão só se explica com audiências monstruosas. Porque é o terror de perder essas audiências – com um boicote da Globo — que faz os anunciantes aceitarem uma coisa tão ruim para eles.
Sem grandes audiências, a amarra se vai. Os anunciantes se despedirão da Globo (e do BV abominado) e vão buscar seus consumidores onde eles estão: na internet. Não no Faustão, não no Fantástico, não nas novelas.
A internet vai fazer com a Globo o que governo nenhum conseguiu fazer: acabar com o monopólio. Pela via da desaparição de espectadores.
Paulo Nogueira
No DCM
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Gurgel mostra sua fé

O procurador-geral não se apega à lei, e sim às suas convicções políticas 
Roberto Gurgel, o mais controvertido dos procuradores na história da República, tomou e toma decisões que marcaram e marcarão de forma melancólica o desfecho do mandato dele na Procuradoria-Geral em agosto.
Uma dessas decisões, a mais recente, é o fato de Gurgel ter mandado para as profundezas do arquivamento a ação que envolve os senadores Randolfe Rodrigues (PSOL) e João Capiberibe (PSB).  Ambos, em tese, da base governista. Na prática, não.
Gurgel, ao contrário de Geraldo Brindeiro, que engavetava tudo que o governo FHC queria engavetado, tem ido muito além do engavetar ou desengavetar. Ele deu clara noção de sua orientação política.
Há outras diferenças. Fiquemos, por enquanto, no fato de que o procurador-geral ora desengaveta, ora engaveta. Engavetou, por exemplo, o caso citado acima.
O episódio ocorreu em 1999, quando Randolfe era deputado estadual e Capiberibe, governador do estado. Nesse período, conforme denúncia feita por Fran Soares Junior (PP), Randolfe teria recebido dinheiro além do salário regulamentar para votar projetos de interesse do governador. Há conversas gravadas, periciadas, entre Capiberibe e o deputado João Brandão, com menção clara sobre isso.
Randolfe, a única flor do PSOL no Jardim do Senado, nega tudo. E justifica alguns recibos que assinou. Não justifica todos ou tudo. Há recibos, assinados por Randolfe, reconhecidos como legais por análise feita pelo perito Ricardo Molina. Há também gravações em áudio, periciadas, que reforçam a denúncia.
Se fosse possível admitir dúvidas em favor de Randolfe, seria impossível engolir o arrazoado de Gurgel que conduziu a representação para o arquivo sob a alegação de que os fatos narrados na representação “são inverídicos”.
Eis algumas razões em contrário:
– Não houve montagem dos áudios.
– O procurador-geral faz “exercício argumentativo” para deduzir que “a representação noticiou fatos inverídicos”.  Também faz descaso das provas apresentadas, indiferente ao fato de que só a perícia pode averiguar a veracidade da prova técnica.
– Gurgel foi além de sua competência. O Ministério Público analisa as questões de direito. As de fato competem exclusivamente a peritos.
– A acusação diz que não apresentou todos os recibos assinados por Randolfe, porque teriam sido recolhidos pela Polícia Federal. Gurgel poderia averiguar. Oficiaria à PF sobre os recibos e, se existissem, os submeteria a exame pericial.
Gurgel navega orientado por bússola política e com a frieza de um frade de pedra. É possível perceber a linha que norteia as decisões que toma. Não é uma linha reta. Bem avaliada, nota-se, porém, como é definida. Por isso é possível supor que, só aparentemente, a decisão beneficia Randolfe e Capiberibe. O arquivamento, falho e apressado, mantém sobre os dois um incômodo ponto de interrogação.
Gurgel não é profissional descuidado. Ele sempre sabe o que faz.
Andante Mosso
Iluminações ILogo, logo, o ministro Luís Roberto Barroso vai virar referência de bom senso no Supremo Tribunal Federal.
Exemplo disso é a reflexão dele sobre os votos longos:
“Os advogados têm exatos e rígidos 15 minutos para a sustentação oral, independentemente do grau de complexidade. O sistema considera, portanto, que esse é um prazo razoável”.
Critério análogo deveria inspirar os ministros do Supremo.
Iluminações IISobre isso, Barroso observa:
“A leitura de votos extremamente longos, ainda quando possa trazer grande proveito intelectual para quem os ouve, gera um problema de disfuncionalidade. A leitura em sessão poderia resumir-se a 20 minutos, 30, excepcionalmente”.
Ele propõe um compacto dos melhores momentos.
É uma boa ideia.
Porém, no plenário do STF, como no futebol sem gols ou grandes jogadas, às vezes não há muitos momentos de “proveito intelectual”.
O nome do gato
Persiste, no Senado, a demora na instalação da CPI dos erros médicos.
A proposta, do senador Magno Malta, foi aprovada há mais de dois meses, mas a instalação da CPI tem sofrido sucessivos adiamentos.
Será por força do ativo lobby dos planos de saúde e dos hospitais privados?
Para o Conselho Federal de Medicina, a CPI deve ser chamada de “Direito Humano à Saúde”, e não dos erros médicos.
O nome do gato não importa. Importante é que ele cace o rato.
Bandalheira fardada
Foi concluída a investigação do Ministério Público Militar sobre as fraudes em licitações feitas pelo Exército na execução de obras para o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, o Dnit, do Ministério dos Transportes.
O primeiro denunciado é o general de divisão R/1 Rubens Brochado, que chefiou o Instituto Militar de Engenharia (IME), órgão executor das obras.
Calculam-se em 11 milhões de reais os recursos desviados.Na fila de suspeitos há mais três generais que, entre 2004 e 2009, chefiaram o IME. Entre eles, Enzo Peri, atual comandante do Exército.
Em nome do pai  I
O Tribunal Regional Federal (TRF), no Rio, deve fechar os nomes da lista tríplice a ser enviada, nos próximos dias, à Presidência para Dilma escolher o novo juiz daquele tribunal.
Há uma especulação desarvorada porque na lista sêxtupla, da qual sairá a tríplice, consta o nome de Letícia de Farias Mello, filha do polêmico Marco Aurélio Mello, ministro do STF. Como foram escolhidos os outros cinco concorrentes?
Em nome do pai IIO nome de Letícia gera fantasia, pelo fato de ela ser filha de quem é, em um processo no qual o mérito não é determinante.
Mas, sem dúvida, isso deve ter pesado.
Não há informações, no entanto, de pressões feitas pelo pai em favor da filha. Se houve, os pressionados se acovardaram e ficaram calados.
Em caso recente, o pai valeu-se do poder que tem para beneficiar a filha. Houve reações e a pressão não deu certo.
O sistema de escolha favorece naturalmente os sobrenomes assinalados.
Plano de açãoA agenda político-econômica de Aécio Neves e de Eduardo Campos, dois postulantes à Presidência, já está montada. É curta e grossa: rachar a base governista e torcer pelo fracasso da economia.
Maurício Dias
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Sinceridad

Tras la comida, David tiene que confesar una noticia a sus padres. Lo que todavía no sabe es el impacto que va a causar sobre ellos.
No Sátiro
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Europa unida contra a troika

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O Índio da Mídia

A manchete do Estadão (23/11/68) usou o verbo trucidar e as palavras chacina e ferocidade quando noticiou que nove corpos de membros da Expedição Calleri foram localizados, em 1968, no território dos Waimiri-Atroari. Embora ninguém soubesse ainda o que havia efetivamente ocorrido, o repórter, antes mesmo de se deslocar até a área, se apressou em afirmar que os índios eram os autores da carnificina. Para isso, exibiu antecedentes históricos sem mencionar qualquer referência documental:
"Calcula-se que mais de 1500 brancos foram massacrados pelos Waimiri-Atroari de umas décadas para cá".
Quem calculou? O sujeito é indeterminado. Quantas décadas? O período é impreciso. De onde tirou os dados? Sabe Deus. O certo é que, sem citar fontes, traça o perfil dos Waimiri de forma sádica e preconceituosa: "Os silvícolas costumam picar suas vítimas em pedacinhos e queimá-las até virarem cinzas". Olhando agora, a gente duvida que alguém tenha tido a coragem de publicar tal bobagem, digerida por milhares de leitores, muitos dos quais acabaram acreditando na potoca. O relato virou "verdade", se fez carne e habitou entre nós.
Afinal, quem matou os nove membros da Expedição, entre eles o padre Calleri? Quando suspeita que a ação é cometida por índios, a grande imprensa, em voz uníssona, apresenta-os como os sujeitos da ação e qualifica-os como feras, reforçando preconceitos. A Expedição visava atrair os "silvícolas" para afastá-los de seu território, que seria rasgado pela estrada Br-174. Apesar disso, para a mídia, os índios agiram não em legítima defesa da terra invadida, mas por causa de sua "natureza bestial".
No entanto, quando ocorre o contrário, o sujeito da oração não é quem disparou o tiro assassino, continua sendo o índio, como registrou O Globo em manchete na última sexta-feira: "Índio morre em confronto com policiais". Ou seja, ninguém matou, ele é que morreu. Não há responsáveis.

Quem matou?

Na regra do jornalismo é preciso responder, entre outras perguntas, o "quem", já no primeiro parágrafo, no lide. Quem matou o terena Oziel Gabriel, em Sidrolândia (MS), na fazenda que desde 2010 foi declarada Terra Indígena? Quem disparou os tiros que feriram muitos índios, entre eles, mulheres, idosos e crianças? Por que? Nenhuma análise foi feita pela mídia sobre as razões do conflito, nem sobre quantos índios foram assassinados, sequer quantos índios "morreram" nas "últimas décadas".
Um juiz federal deu a reintegração de posse ao ex-deputado Ricardo Bacha que jura, fazendo figa, que a terra é dele. Dez equipes da Policia Federal e cem homens da Tropa de Elite da PM, armados, cercaram os índios, jogaram bombas e dispararam tiros. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo diz que "se a investigação comprovar irregularidade ou abuso, os responsáveis serão devidamente punidos?". Deixa ver se entendi bem: quer dizer que existe, então, "assassinato regular" e "assassinato irregular"? "Morte com abuso" e "morte sem abuso"?
- "Até o momento não se pode dizer de onde partiu o tiro. Não prejulgaremos" - disse Cardozo, que não faz prejulgamento quando se trata de saber quem matou índios, mas não hesita em prejulgar inofensivos facebookeiros quando denuncia "ativistas que estariam incentivando a violência nas redes sociais".
O ministro não sabe, mas eu sei de onde partiu o tiro. Se ele quiser, posso testemunhar e dar os nomes aos bois e às vacas. O primeiro tiro foi disparado por um canhão em abril de 1.500 e de lá para cá, "nos últimos séculos", metralhadoras de repetição não cessaram de cuspir fogo, disparadas por bandeirantes ao longo de todo o período colonial, por bugreiros no Império e na República e agora pelo agronegócio ávido em abocanhar as terras indígenas.
O que ocorreu aqui foi "a maior catástrofe demográfica da história da humanidade", segundo demógrafos da Escola de Berkeley, que refinaram seus métodos de análise. Nunca uma região foi esvaziada tão violenta, drástica e rapidamente como o continente americano. Mas o processo não terminou no período colonial. Persiste ainda hoje. O colonialismo, como estrutura de dominação é historicamente datado, mas a colonialidade - para citar termo consagrado por Anibal Quijano - é mais profunda e duradoura. Continua entranhada na cabeça das pessoas, orientando comportamentos.
O que tem na cabeça de um ministro, de um juiz, de um jornalista, de um governador, de um policial, de um bispo e até de um fazendeiro, enfim, qual imagem têm do índio esses agentes que algumas vezes são obrigados a lidar com culturas dotadas de lógicas e de línguas tão diferentes? Que conhecimentos possuem eles sobre esses povos?

Bomba na maloca

Essas e outras perguntas foram respondidas pela jornalista e pesquisadora amazonense Verenilde Santos Pereira, que defendeu na última sexta-feira, 31 de maio, sua tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) sobre a cobertura jornalística no "massacre" da Expedição Calleri. Ela conhece os jornais por dentro, trabalhou como repórter em vários deles, inclusive no "Porantim", o jornal mensal do Conselho Indigenista Missionário (CIMI).
Em sua pesquisa, a agora doutora Verenilde fuçou arquivos, recuperou as matérias jornalísticas publicadas por jornais de Manaus e outros de circulação nacional para analisá-las e refletir sobre a singularidade jornalística na cobertura feita sobre a Expedição Calleri. Seu objetivo era descobrir o que foi silenciado para a afirmação de tal singularidade.
Aprendemos, nas escolas de jornalismo, que na construção de uma narrativa é preciso sempre ouvir o "outro lado". Acontece que as matérias analisadas pela doutoranda foram compostas, paradoxalmente, com o silêncio dos índios, os principais protagonistas do episódio. A voz foi dada sempre só a um lado, especialmente às autoridades, que viam nos índios um obstáculo para a abertura da estrada Br-174.
Verenilde mostra como o então governador do Amazonas Danilo Areosa e o governador de Roraima Fernando Ramos Pereira concordaram, em repetidas declarações, que "uma minoria de índios não pode atravancar o progresso". Até o bispo Dom João de Souza Lima, na celebração dos rituais fúnebres dos mortos na Expedição Calleri, fez um sermão condenando os índios que"por serem ignorantes não compreenderam o gesto de amor do padre Calleri e trucidaram os membros da expedição".
A fala contra os índios foi articulada até mesmo pelo presidente da Funai, na época o jornalista Queiroz Campos, que devia combater os preconceitos e contribuir para que a população brasileira conhecesse um pouco mais as culturas indígenas. Ele declarou à Folha de São Paulo que "os índios são altamente ferozes, perigosos e costumam estraçalhar e queimar vivos os inimigos vencidos".
Diante desse coro afinado de vozes, quem aloprou foi o coronel Jorge Teixeira, que emprestou seu nome a logradouros públicos em Manaus, de onde foi prefeito nomeado, e em Rondônia, de onde foi governador. Na época, ele era comandante do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS) e falando daquele lugar o nosso Eichmann caboco apresentou a solução final:
- "Nós poderíamos resolver tudo com algumas bombas jogadas sobre as malocas à noite".

A fala dos índios

A truculência e ignorância das autoridades, a subtração da informação, o emudecimento dos índios pela mídia levaram Verenilde a recuperar depoimentos e desenhos dos Waimiri-Atroari recolhidos por Egydio Schwade e Dorothy Muller, professores da Escola Waimiri, e pelo antropólogo Stephen Baines. Um artigo de Egydio publicado recentemente no Porantim relata o massacre dos índios na ditadura militar e registra o que foi subtraído do noticiário da mídia. A proposta do coronel Teixeirão foi acatada.
Os Kiña - autodenominação dos Waimiri-Atroari - realizaram em setembro de 1974 uma festa na aldeia Kramna Mudi, no baixo rio Alalaú. Por volta de meio dia, um avião se aproxima. O pessoal sai da maloca pra ver: as crianças se concentram no pátio central. O avião derramou um pó mortal e matou 33 índios, deixando apenas um único sobrevivente, que relatou o fato dando o nome de cada um dos 33 parentes mortos, que não tinham qualquer sinal de violência no corpo.
Depoimentos de vários índios, entre os quais Damxiri, Panaxi e Yaba narram os massacres sofridos pelos Waimiri-Atroari. Verenilde, que os valoriza, usa o quadro teórico de Hannah Arendt, para quem "todas as dores podem ser suportadas se forem postas em uma história ou quando se conta uma história sobre elas". Não se trata de mera descrição dos fatos, mas de um modo de pensá-los. Uma forma de estabelecer vínculo com o mundo é contar uma história dele, ai os fatos adquirem significado. É dessa forma que o pensamento narracional se afirma.
A tese analisa o comportamento da mídia na cobertura sobre a Expedição Calleri, usando a noção de "banalidade do mal" formulada por Hannah Arendt a partir do julgamento de Adolf Eichmann, oficial da Gestapo que exterminou judeus. A banalidade do mal se apoia na incapacidade de se colocar na pele do outro e a partir daí tentar compreender o "ponto de vista" do outro. Tal incapacidade leva a uma excessiva superficialidade e à derrota do pensamento ao tentar narrar o outro. É o que acontece com a mídia. A imagem do índio criada pela mídia é fruto da banalidade do mal.
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P.S. - Verenilde Santos Pereira: Singularidade Jornalistica e violência: o "massacre" da Expedição Calleri. Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade de Brasilia (UnB). 31 de maio de 2013. Banca: Dra.Rita Laura Segato (orientadora), Wenderson Flor, Sérgio Dayrell Porto, Luiz Martins e José R.Bessa.
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José Ribamar Bessa Freire: Doutor em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2003). É professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio), onde orienta pesquisas de mestrado e doutorado, e professor da UERJ, onde coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas da Faculdade de Educação. Ministra cursos de formação de professores indígenas em diferentes regiões do Brasil, assessorando a produção de material didático. Assina coluna no Diário do Amazonas e mantém o blog Taqui Pra Ti . Colabora com esta nosssa Agência Assaz Atroz.
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A década do Kirchnerismo

O kirchnerismo completou dez anos à frente do governo da Argentina com um saldo bastante positivo de avanços e reformas, contradizendo seus críticos mais ferrenhos, apressados em classificar as administrações de Néstor Kirchner (2003-2007) e Cristina Kirchner (a partir de 2007) como a "década perdida".
O saldo desses dez anos de governos progressistas mostra o quanto são distorcidas as análises feitas pela mídia e pela oposição. Entre 2003 e 2012, a Argentina experimentou uma forte guinada rumo à democratização e foi o quarto país da América Latina que mais cresceu economicamente, expandindo-se a uma taxa anual de 5,8%, atrás apenas de Panamá, Peru e Uruguai. O desemprego foi drasticamente reduzido de 17,3% para 7,9%, enquanto a pobreza caiu de 54% para 21% -- dados de especial significado, ainda mais em meio ao contexto de desemprego que assola o mundo pós-crise econômica internacional.
Essa retomada do crescimento econômico e social não significa que ainda não haja muitas questões a serem enfrentadas. Aliás, não poderia ser diferente dada a dimensão dos problemas que antecederam a eleição de Néstor Kirchner. A hiperinflação do governo Raúl Alfonsín e a nefasta política de paridade com o dólar, a estagnação vivida sob o governo de Carlos Menem, o descontentamento popular motivado pela grave crise financeira que levou Fernando de La Rúa à renúncia, no final de 2001, criaram profunda tensão social e política.
Mesmo diante deste cenário e de um Estado falido, graças à política de privatizações de Menem, sem condições de oferecer garantias aos seus credores, Néstor Kirchner assumiu e conseguiu renegociar a quase totalidade da dívida, pré-condição para que o país pudesse tomar as próprias rédeas e fazer as reformas necessárias com vistas à estabilidade econômica e social.
É verdade que a inflação se manteve acima dos 10% anuais desde 2007, com anos em que chegou a níveis mais altos, como em 2012, com 22,8%, mas, aos poucos, a nação vem trilhando o caminho de um projeto de desenvolvimento voltado à promoção do bem-estar e da melhoria de vida. A dívida pública baixou de 139,3% do PIB para 45,2% do PIB entre 2003 e 2012. Em investimento estrangeiro direto, a Argentina passou de US$ 1,652 bilhão para US$ 12,551 bilhões. Os investimentos em Educação e Ciência subiram e o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) melhorou de 0,86 para 0,81.
Assim como os governos do ex-presidente Lula e da presidenta, Dilma Rousseff, no Brasil, os do casal Kirchner representam para a Argentina a superação da submissão à cartilha neoliberal, que por tanto tempo impediu a nação de se desenvolver e de promover a inclusão de seus cidadãos. Não à toa encontraram na grande mídia e nas classes dominantes do país constante e impiedosa oposição.
Além de buscar o reequilíbrio econômico e social, os governos dos Kirchner lançaram mão de iniciativas importantíssimas para aprofundar o processo de redemocratização do país. A contundente política de apuração da verdade e revisão das leis que garantiam impunidade aos assassinos e torturadores da ditadura militar, possibilitando não apenas a reabertura de processos, mas também a condenação e a punição dos responsáveis é dos exemplos mais emblemáticos das conquistas deste período.
A nacionalização da empresa de energia YPF, privatizada nos anos 1990, a aprovação Lei de Meios pelo Congresso, em 2009, considerada uma das legislações de Comunicação mais modernas do mundo, e do matrimônio igualitário, em 2010, além da iniciativa pela democratização do Judiciário, que permitirá a eleição de uma parte dos juízes da instância superior do Judiciário pelo voto popular, igualmente aprovada pelo Congresso, também são avanços irrefutáveis do kirchnerismo e do povo argentino.
O apoio da população às mudanças, ratificado todas as vezes em que os argentinos foram chamados às urnas, inclusive na eleição da presidenta Cristina Kirchner em 2011, deixa claro que a Argentina segue trajetória sem volta e dificilmente aceitará retrocessos. O desafio agora é seguir adiante e consolidar as transformações em curso, para que a esta década ganha se sigam outras de mais progresso econômico e social, capazes de pavimentar um caminho seguro para o futuro.
José Dirceu
No 247
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Falta um Ministro na Justiça

Ilustração:  Justiceira de Esquerda
Vocação pública é algo raro, mesmo entre homens públicos. Trata-se do sentimento de servir ao público, de modificar a realidade, de assumir para si a responsabilidade pela solução de problemas que afetem o público, a comunidade, especialmente os mais vulneráveis.
O grande homem público busca a solução de problemas, mesmo que não estejam sob sua responsabilidade.
***
Por todos esses prismas, falta ao Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo as condições mínimas de vocação pública. Povo, para ele, parece apenas uma entidade vaga, um mote para discursos verborrágicos, a desculpa para o momento de brilho retórico. Não um conjunto de cidadãos com interesses difusos, com vulnerabilidades que só podem ser atendidas pelo poder público.
***
Nos últimos anos, impulsionado pela Internet, o fenômeno das pirâmides tornou-se uma praga nacional. Montaram-se quadrilhas de estelionatários, distribuídas por todo o país, valendo-se das facilidades das redes sociais.
Cria-se uma fumaça qualquer, monta-se o marketing virtual, juntam-se os estelionatários e armam o golpe até que a corrente estoure. Aí saltam para uma nova corrente, usando as mesmas práticas.
***
No ano passado, ganhou corpo a corrente chamada da TelexFree. Trata-se de um estelionato claro, nítido, no qual o produto vendido são anúncios em sites de anúncios. Ou seja, o sujeito paga uma luva para entrar no grupo. Seu trabalho é publicar anúncios online. E vender o plano (ou seja, o direito de publicar anúncios online) para outros incautos.
A única fonte de faturamento é a venda do plano para terceiros. Os primeiros que entram são bancados pelos que entram depois – um caso clássico de pirâmide.
No final do ano, a TelexFree gabava-se de ter captado 700 mil vendedores. No primeiro trimestre deste ano, chegou a um milhão.
***
O caso bateu no Ministério da Justiça. Para não ter que perder tempo com esses milhares de anônimos, o Ministro encaminhou para a Secretaria de Assuntos Econômicos (SAE) do Ministério da Fazenda atestar se era pirâmide ou não.
Depois de três meses, pressionado pelas redes, a SAE concluiu que se tinha cheiro de pirâmide, gosto de pirâmide, miava feito pirâmide.... era pirâmide. O parecer da SAE caracterizou claramente um estelionato gigante, porque afetando – em apenas um dos golpes – quase um milhão de pessoas.
O caso voltou para o Ministério da Justiça. E nada foi feito.
***
O espaço para esse estelionato reside na falta de definições mais precisas sobre a quem compete combate-lo. A Polícia Federal diz que cabe às polícias civis; o Ministério Público Federal diz que é crime estadual; o estadual diz que, por abranger todo o país e significar a remessa de recursos para o exterior, é crime federa. Aos Procons, resta registrar os danos e nada poder fazer.
Caberia ao Ministério da Justiça juntar todos os órgãos e definir a estratégia de combate a esse golpe. Mas até agora não rendeu Jornal Nacional nem manchete nos jornais do Rio e São Paulo. Com a inação de José Eduardo, outros grupos de pirâmides surgiram, a própria TelexFree retomou suas vendas. E, a cada dia que passa, milhares de novas vítimas se juntarão às atuais.
Definitivamente, falta um Ministro na Justiça com um pingo de responsabilidade pública.
Luis Nassif
No Advivo
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É preciso estar atento e forte

http://4.bp.blogspot.com/-csYCZWbQR68/Tx8M0x01qGI/AAAAAAAADQw/kvAmcmR3ybo/s1600/sem+nome.png 
Lendo o artigo do Prof. Wanderley Guilherme dos Santos no "O Cafezinho" http://bit.ly/10NVtPj ou aqui, temo que tenha que constatar não haver nada de revolucionário no governo Dilma. Pelo menos não até agora, e que seja originariamente seu. Se avanços e revoluções se fazem notar é por pura força da inércia, resultado do espetacular embalo oriundo do governo Lula após 8 anos de “pé no acelerador”. Ali, a revolução!
Diferentemente do artigo do prof. Wanderley, o que se revela com o passar do tempo é um retrocesso do atual governo em relação a políticas caras ao PT e ao povo, tais como o tratamento com a mídia, a questão do petróleo, a política de juros, a reforma agrária, dentre outros.
Pode soar conspiratório, mas pense comigo: e se a solução da oposição não estiver nas eleições? (o que, aliás, já sabemos TODOS, não será possível que ganhem no voto). E se a solução para os ideais da oposição for simplesmente ir se infiltrando no governo, ampliando a base aliada, ocupando ministérios, ir comendo pelas beiradas, impondo a pauta da direita e, aos poucos, ficar do jeito que o PIG - ou o diabo, tanto faz - gosta? Um governo possuído, feito um médium incorporado: o corpo e o vestido vermelho da Dilma estão lá, mas a alma é do Ali Kamel! Por que diabos, enfim, ACM neto iria pousar no PDT, aquele de onde veio Dilma?! Um triller, não é?
Enquanto isso, grande parte da chamada “militância nas redes sociais" age feito um cartório, simplesmente carimbando de acertada toda e qualquer atitude do governo, por mais descabida que possa parecer, sem exercer um mínimo de crítica. A militância, na verdade, deveria estar atenta e forte para exigir eventuais correções de rumo, como deixou claro Maurício Caleiro, em imperdível post no Cinema & Outras Artes http://migre.me/eNyyj ou aqui.
Com exceção dos “fanáticos da seita” muita gente já está “atenta e forte”, mas muita gente ainda não entendeu o enredo desse samba, confundindo, talvez inocentemente, o alerta à militância com terceiras e ocultas intenções de partidos emergentes por trás dessa visão crítica. Muitos acabam perguntando: "sim, mas e 2014?" Ora, não tem pra onde correr. É Dilma de novo e quanto a isso não se discute. E nem é esse o ponto! (pelo menos, não até aqui…) Não se trata de mudar de partido nem de candidato e sim de postura. Parar de só justificar o governo e passar a exercer o direito à crítica ao governo, coisa que os chamados “fanáticos da seita” nem sequer permitem que se sonhe.
No texto do Caleiro, que mencionei acima, existe a remissão ao post do Matheus Machado http://bit.ly/136JCis que começa assim: “Conta uma anedota da política norte-americana que o ex-presidente Franklin Delano Roosevelt certa vez recebeu o sindicalista e ativista negro A. Philip Randolph, ouviu a todas as suas demandas e, por fim, respondeu: ‘eu concordo com tudo que você disse. Agora, obrigue-me a fazê-lo.’”
É isso! É possível (e provável) que Dilma concorde com todas as criticas, mas a militância, o PT, o povo enfim, têm que "obrigá-la"! É o que se vê do final da anedota americana, segundo o mesmo Matheus. O resultado do encontro teria sido uma longa campanha por direitos civis, que culminaria com a organização de uma marcha que, segundo os organizadores, colocaria cem mil negros nas ruas de Washington em 1941. Esse é o recado, principalmente à militância: nós somos povo, estamos com Lula e todos os ideais de liberdade, solidariedade, crescimento e bem-estar para todos, mas estamos atentos e fortes para apontar falhas no processo e exigir correção de rumo, quando necessário. Ignorando eventuais diversionismos, é disso que se trata: a revolução no governo Dilma ainda poderá acontecer, mas não dependerá somente dela.
T.G Meirelles
No O Broguero
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O que o turista alemão baleado na Rocinha estava fazendo lá?

Pobres não são bichos exóticos e favelas não são cenários do Projac.
Linda vista
Linda vista, my dear
Um turista alemão, Frank Daniel Baijaim, de 25 anos, foi baleado na Rocinha, na Zona Sul do Rio. Está em estado grave. Um amigo dele contou à polícia que, na sexta, os dois foram conhecer o Cristo Redentor e, em seguida, resolveram dar um pulo na favela. Um homem armado os teria visto num beco. Os dois se assustaram, saíram correndo e, na fuga, Baijaim tomou o tiro que entrou pelo braço e provocou lesões no tórax e no fígado.
O que aconteceu com Baijaim é um horror. Mas cabe a pergunta: o que diabos a dupla foi fazer na Rocinha?
Ali está instalada a maior UPP do Rio: são, oficialmente, 700 policiais e cem câmeras de monitoramento. Os casebres espetados no morro são uma visão impressionante. Volta e meia, alguém diz que ela é urbanizada, seja lá o que isso quer dizer. Ainda há traficantes, bandidos (e – obviamente – milhares de cidadãos honestos).
O que turistas acham que vão encontrar na Rocinha? Ainda que eles tivessem saído ilesos: qual a possível atração que pode existir na pobreza?
Existem dezenas de agências de turismo especializadas em fazer tours por “comunidades carentes” do Rio. As pessoas se aboletam num jipe e fazem seu safari. Ao invés de elefantes e girafas, fotografam gente subindo e descendo as vielas, os bares, ouvem uma batucada, tomam uma cachaça etc. Descem do jipe com um guia que, em tese, garante sua segurança. Para que o esquema dê certo, é preciso fazer um acerto com quem manda na região.
É tudo para inglês ver. Ao voltar para casa, o sujeito tem uma história para contar sobre como sobreviveu num dos lugares mais perigosos do mundo. Ou acha que, sei lá, fez antropologia e conheceu o “Brasil real”. Mas outra coisa é ir por conta própria, como os alemães.
Essa exploração não é exclusividade do Brasil. Nosso colunista Jota Pinto Fernandes contou sobre sua viagem a Cartagena, a espetacular cidade colonial que serviu de cenário para O amor nos tempos do cólera, de Garcia Márquez. No passeio para as vizinhas Islas del Rosario, no Caribe, os barqueiros param próximos a um píer, de onde meninos magros dos barracos saltam. Eles nadam até perto da embarcação e gritam: “Amigo, amigo! Dinheiro, amigo! Money!” Os turistas, rindo, arremessam moedas e notas na água. Quando os garotos não conseguem apanhá-las, eles, bons mergulhadores, um tanto desesperados, vão em busca delas no fundo. A África do Sul tem tours para as favelas do Soweto, em Johannesburgo, que tiveram um papel fundamental na luta contra o apartheid.
A miséria não tem glamour. As pessoas não estão ali porque gostam e acham bonito. A imensa maioria preferiria estar no conforto de uma casa como a sua. A Globo tenta transformar favelas e pobres num cenário do Projac, mas você precisa ser muito ingênuo ou burro para achar que aquilo é verdade. Gente como Regina Casé presta um imenso desserviço ao mistificar o morro em seu programa Esquenta.
É bom saber que os dois alemães estão vivos. Mas favelados não são bichos exóticos e favelas não são pontos turísticos. Os turistas estarão mais felizes quando elas não existirem mais – além, obviamente, das milhares de pessoas que vivem lá.
Kiko Nogueira
No DCM
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Manchetes Píbicas

 
"PIB do Brasil cresce 0,6% no trimestre".

"PIB anualizado dos Estados Unidos cresce 2,4%".

(Jornalão tupiniquim, ao noticiar os índices de crescimento do PIB trimestral do Brasil e dos EUA - índices rigorosamente iguais).
No Dodó Macedo
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Touradas

A alma ibérica se divide em duas, uma mais caliente e a outra menos. Portugal é uma Espanha ponderada. A divisão está evidente na tourada, essa metáfora para todas as dicotomias humanas. Na Espanha matam o touro, em Portugal apenas o irritam. Ainda não se chegou a um acordo sobre o quê, exatamente, toureiro e touro simbolizam.
A metáfora não é clara. Razão x instinto? Cultura x natureza? Civilização x força bruta? Ou — como li em algum lugar — tudo não passa de um ritual de sedução, com o Homem subjugando a Mulher, a Besta Primeva e todos os seus terrores, numa espécie de tango sangrento em que não falta uma penetração no fim?
Ou o toureiro gracioso é a mulher estilizada e o touro resfolgante uma paródia de homem? Enfim, seja o que for que se decide numa arena de touros, os espanhóis terminam o ritual, os portugueses deixam pra lá.
Na Argentina, os líderes militares da época da repressão foram processados e as atrocidades cometidas pela ditadura punidas, ou pelo menos amplamente discutidas. No Chile, aos poucos a história ainda mal contada do governo Pinochet se incorpora à história oficial do país — para ser reconhecida e expiada, para que reconciliação não signifique absolvição e para que nunca mais se repita.
No Brasil, a repressão foi menos assassina do que na Argentina e no Chile — se é que se pode falar em graduações de barbaridade — e ninguém ainda teve que dar muitas explicações. No caso, a simpática irresolução portuguesa desserve a História. Pois, se o touro continua vivo, o que há para expiar? Aqui, até agora, venceu o deixa-pra-lá-ismo.
Já que temos que ser ibéricos, o que é melhor, ser português ou espanhol? Os espanhóis parecem viver mais perto do coração selvagem da vida. Os portugueses preferem menos drama e menos sangue.
Voltando ao touro: uma tourada espanhola sempre acaba com o animal morto, com uma resolução. Uma tourada portuguesa pode ser um espetáculo emocionante, mas o touro sobrevive e nada se resolve. E ainda se discute se convém irritar o touro.
Luís Fernando Veríssimo
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Revista Época expõe a tragédia da classe média

 

O drama de quem ganha 8 mil reais por mês

Não tá fácil pra ninguém. Não tá fácil aguentar este tipo de matéria, digo. Época chora as pitangas da classe B. Vamos a um trecho, com meus comentários insensíveis e trogloditas.
"O mineiro Alan dos Santos Alencar, de 43 anos, responsável pela área de tecnologia de uma revenda da Volvo e professor universitário, teve de promover um ajuste dramático em suas contas para não ficar no vermelho (vamos logo aos dramas!). Depois de analisar em detalhes as despesas com sua mulher, Diane, de 42 anos, e a filha Laura, de 15 anos, ele se deu conta de que os gastos com restaurantes, cinemas e saídas à noite estavam pesados demais (sim, a vida é uma merda!).
Com uma renda familiar de R$ 8 mil, teve de adotar um remédio amargo, mas inevitável: cortar gastos (de cortar o coração!). As idas semanais a restaurantes foram substituídas por refeições em praças de alimentação de shoppings (cruzes...vai encontrar a classe C?). O cinema foi trocado por um serviço que oferece filmes e séries de TV pela internet (assista ao girls, é maneiro).
A viagem de férias da família ao exterior ficou para depois (complicado, não?). Agora, Alencar diz que, antes de fazer qualquer compra expressiva, ele e Diane avaliam se o gasto é prioritário – e como impactará as contas e os projetos familiares no longo prazo (isso é triste, viu. Planejar é realmente triste).
Sua filha passou a ter uma mesada de R$ 500 para cobrir suas despesas do dia a dia (de mesada? Dá pra nada!). “É uma maneira de ela aprender a administrar o próprio dinheiro – e de a gente controlar melhor os gastos”, afirma. “Descobri que ter uma adolescente em casa muda muito as contas de uma família.” (pois é... daqui a pouco ela cresce).
Weden Alves
No Blog Sujo
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Terrorismo barato - Revista Época instiga a revolta da classe média

 
Depois de atirar alimentos em Dilma no lobby do tomate, revista de João Roberto Marinho ataca a “inflação de serviços”, que reverteria a conta dos erros do governo para o público A/B; “O desenvolvimento nos últimos dez anos não contemplou a classe média tradicional, que está espremida, nervosa”, aponta no texto o economista Waldir Quadros, professor da Universidade de Campinas (Unicamp).
Na semana em que o Banco Central elevou a taxa de juros ao patamar de 8% e, assim, esfriou os estímulos de crescimento do governo ao encarecer custo do dinheiro para combater inflação, a revista Época alarma a classe média.
A publicação de João Roberto Marinho diz que a massa A/B, formada por 21,5 milhões de pessoas, o equivalente a 11,2% da população brasileira, está pagando pelos erros do governo. “O desenvolvimento nos últimos dez anos não contemplou a classe média tradicional”, disse no texto o economista Waldir Quadros, professor da Universidade de Campinas (Unicamp). “A classe média está espremida, nervosa.”
Leia trechos:
A classe média tradicional ainda representa cerca de um quarto do consumo nacional, de acordo com a Nielsen, uma empresa de pesquisa e análise de mercado – uma fatia estimada em cerca de R$ 800 bilhões por ano, equivalente a 35 vezes o custo do Bolsa Família para o governo em 2013.
Ao contrário do que ocorre com as faixas de renda mais baixa, o responsável pela alta no custo de vida dessa faixa da população não é a inflação do tomate ou de outros alimentos. O que mexe com o bolso da classe A/B é um fenômeno chamado pelos economistas de “inflação de serviços.
Essa inflação dos serviços não se reflete plenamente nos principais indicadores de inflação do país. No IPCA, o índice oficial, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os serviços representam apenas 20% do total, embora alcancem 60% ou até 70% dos gastos familiares nas faixas de renda mais alta, segundo Renato Meirelles, diretor do Instituto Data Popular.
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Charge online - Bessinha - # 1805

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São Roberto Civita

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