12 de mai de 2013

A guerrilha de Caparaó

Nem todos os militares se venderam para o Golpe Militar. Na verdade, foram os sargentos que, lutando contra os Generais, garantiram a posse de Jango em 1961. Centenas e centenas deles foram, logo após 1964, demitidos, perseguidos, presos e torturados. Alguns deles lutaram bravamente contra a ditadura.
A verdadeira luta de classes já ocorria dentro dessas instituições.
Caparaó seria a primeira guerrilha do Brasil, mas uma série de fatos transformou numa das mais frustrantes tentativas da nossa história.
Brasil, 2006, 77 min. - Direção: Flávio Frederico

No DocVerdade
Leia Mais ►

A homofobia está no cerne do código de ética das emissoras de rádio e tevê brasileiras

A disciplina de Ética e Legislação em Jornalismo, que estou ministrando neste semestre na UFC, tem revelado umas surpresas.
A última diz respeito ao código de ética, em vigor ainda, da ABERT (Associação Brasileira de Empresas de Radiodifusão e Televisão).  A ABERT congrega mais de 200 empresas de rádio e tevê.  Apresenta entre os parceiros o famigerado Instituto Millenium.
Em 1993, em Brasília, a entidade aprovou seu código de ética. Parece-me que excessivamente conservador e preconceituoso inclusive para o cenário do início dos anos 1990 - e inconcebível para o mundo de hoje.
Prevê o código de ética da ABERT em seu artigo 15, que “os filmes e programas livres para exibição em qualquer horário não explorarão o homossexualismo”.  Além disso, tratando a homossexualidade como “desvio do comportamento humano”, o código veta a temática para programas voltados a crianças e pré-adolescentes.
O artigo estabelece, também, que nos programas exibidos a partir das 20 h podem versar sobre qualquer tema ou problema individual ou social, “desde que os temas sensíveis ou adultos não sejam tratados de forma crua ou explícita nem apresentem favorável ou apologeticamente, qualquer forma de desvio sexual humano, o uso de drogas, a prostituição ou qualquer forma de criminalidade ou comportamento anti-social”.  Mais uma vez, a ABERT deixa claro que homossexualidade, “desvio sexual humano”, não pode ser apresentada de forma favorável ou apologética.
Aí você pode achar que estou interpretando erroneamente a referência a homossexualidade como “desvio sexual humano” na concepção da ABERT.  Mas o texto do código de ética não deixa dúvidas quando se refere aos programas que poderão ser exibidos a partir das 21h.  Eles poderão versar “sobre temas adultos ou sensíveis observadas as restrições ao uso da linguagem dos itens interiores e as restrições quanto à apologia do homossexualismo, da prostituição e do comportamento criminoso ou anti-social.”
A homofobia faz parte, oficialmente, dos padrões éticos das principais emissoras de rádio e tevê do país.
Não à toa, me parece, a presidenta Dilma Rousseff, há dois anos, se posicionou contra o que chamou de “propaganda de opção sexual”.  Parece que ela adotou e aplicou a ética da ABERT.
Do mesmo modo, não deveria nos surpreender a atitude do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), que no mesmo dia em que publicou decreto regulamentando a homofobia como crime, revogou o decreto.
A homofobia, no cerne da ética dos principais veículos de rádio e tevê do país, não poderia ser enfrentada impunemente pelos governos - seja um distrital, seja o federal.
Daniel Dantas
No NoMinuto.Com
Leia Mais ►

O falso debate sobre os médicos cubanos

O anúncio de que o governo Dilma deve trazer seis mil médicos cubanos para atuarem nas regiões Norte e Nordeste, feito pelo ministro Antonio Patriota (Relações Exteriores), tem causado fortes reações, tanto dos que apoiam a medida quanto dos que a rejeitam, num embate em que o peso das paixões ideológicas - sempre abrasivas quando envolvem Cuba – com frequência se sobrepõe à reflexão criteriosa.
Assim, no bojo da repercussão do anúncio de tais medidas, ao invés de um debate de facto sobre o atual quadro geoeconômico da medicina no país, assistiu-se, por um lado, a manifestações pobres em fatos mas ricas em preconceitos contra o regime cubano e de inverdades contra seu mundialmente reconhecido sistema de saúde; e, de outro, a um esforço para impugnar o protesto de associações de médicos como "virulenta reação" de uma "elite corporativista", numa demonstração de que a desqualificação, tática-mór do jornalismo neocon, faz escola no debate público brasileiro, inclusive entre contendores que se apresentam como progressistas.
Narrativa reduciomista
Tais discussões exemplificam um processo que vem ocorrendo com uma frequência preocupante no Brasil em relação ao debate de dilemas específicos da área social: ao invés de se refletir acerca de soluções efetivas, que levem em conta a concretude do problema em seus diversos aspectos e procurem atender, na medida do possível, as demandas de todos os atores sociais envolvidos, cria-se uma narrativa maniqueísta e fortemente idealizada que, ignorando a complexidade de nosso atual quadro social, tende, por alguns, a desqualificar a priori qualquer iniciativa que não se amolde ao figurino do capitalismo neoliberal vigente no último quarto de século; e, por outros, a opor uma elite insensível e malvada ao resto da população, acrescentando a crença ingênua de que o governo petista sempre ao lado desta se coloca, com medidas invariavelmente corretas. O dogmatismo se sobrepondo à razão.
A polêmica sobre a vinda dos médicos cubanos é exemplar nesse sentido. Ante os protestos suscitados pelo anúncio da medida, criou-se uma contra-narrativa que apela para uma generalização desmedida a qual tem tipificado os médicos – tanto as dezenas de milhares de profissionais anônimos que se recusam a ir trabalhar no Norte/Nordeste, quanto os que se declaram contrários à vinda dos cubanos – como uma elite preconceituosa e socialmente insensível, a qual a vinda redentora dos idealistas e generosos médicos cubanos viria vingar.
Na internet e nas redes sociais, os fanáticos e ingênuos de plantão, que se apresentam como pertencentes à esquerda, difundem essa falácia diuturnamente, fingindo desconhecer que a situação dos médicos brasileiros, em sua ampla maioria, é bem outra, submetidos a cursos universitários de qualidade duvidosa e a um sistema de saúde que, tanto em sua versão estatal quanto privatizada, os remunera mal e oferece péssimas condições de trabalho, além de virtualmente nenhum estímulo à necessária atualização em um campo do conhecimento que se renova constantemente, com novas descobertas científicas e novos métodos e processos de cura.
Problema crônico
O Norte e Nordeste brasileiro apresentam uma grande carência na área de saúde, com um déficit de médicos e demais profissionais, em relação ao Sul/Sudeste (que concentra 70% dos doutores), em dimensões ainda mais pronunciadas do que as históricas assimetrias sócio-econômicas entre tais regiões, as quais vêm sendo reduzidas em ritmo acelerado na última década. Enquanto o Distrito Federal apresenta uma média de 4,02 médicos por mil habitantes – seguida de 3,57 em São Paulo e 2,58 no Rio de Janeiro -, em alguns estados da Amazônia Legal há um médico para cerca de 1200 habitantes.
A dificuldade para atrair médicos para essas regiões é um problema antigo e que se tem mostrado infeso às tímidas medidas até agora tomadas para combatê-lo. Ela se origina já no estágio de formação do futuro profissional, visto que pesquisas demostram uma clara tendência do recém-formado em fixar-se em áreas próximas às quais cursou a faculdade. Se vontade política houvesse e a intenção fosse realmente trabalhar para resolver a questão , esse mal de origem poderia ser combatido pelo governo com relativa facilidade, com o MEC coibindo a concentração excessiva de cursos de Medicina no Sul/Sudeste e os oferecendo em maior número nas regiões carentes de profissionais, diretamente através das universidades federais ou de forma indireta, estimulando sua oferta através do ProUni. Atualmente, os cursos de medicina desovam anualmente 13 mil novos profissionais, dos quais menos de 3000 vai trabalhar nos estados com carência de profissionais de saúde.
Modelo híbrido
A essa questão formativa somam-se fatores estruturais, tais como a lógica mercantilista e classista que caracteriza o modelo de saúde brasileiro, mezzo público, mezzo privado; o atraso estrutural da economia do Norte/Nordeste, o qual acaba por gerar problemas eventualmente graves, que vão de falta de saneamento básico a maior dificuldade de acesso a educação e bens culturais; além dos efeitos do arraigado preconceito contra tais regiões no Sul e Sudeste, o qual tende a perpetuar uma visão anacrônica que amplifica aspectos negativos e subestima potencialidades.
Independentemente do mérito acerca da vinda dos médicos cubanos, o certo é que, por sua própria natureza transitória, ela não se apresenta como uma solução – ou sequer um encaminhamento de solução – para o caso, e sim como um mero paliativo, destinado a durar alguns meses e a gerar algum dividendo eleitoral, antes que a situação da saúde no Norte e Nordeste volte a apresentar os crônicos problemas de sempre, cuja solução o atual governo federal se comprometera a encaminhar à época das eleições, antes que o ministério da Saúde passasse a oscilar, esquizofrenicamente, entre o fortalecimento do SUS, a privatização do sistema ou a improvisação emergencial que ora ameaça se tornar a regra.
Ameaça aos direitos trabalhistas
Porém, em termos trabalhistas, o precedente que a vinda dos médicos cubanos abre é perigosíssimo. Se a moda pega, o governo – este ou os que virão, eventualmente ainda mais conservadores - pode vir a resolver importar contingentes de trabalhadores estrangeiros a cada crise setorial, o que representaria uma séria ameaça aos direitos trabalhistas, aos sindicatos, ao poder reivindicatório dos trabalhadores e ao recurso legal à greve como forma de pressão.
Assim, a repercussão do caso dos médicos cubanos evidencia o altamente contraditório apoio que tantos que se dizem de esquerda têm dado a uma medida que é, na essência, profundamente antissindical e contrária aos direitos trabalhistas - no caso, de uma classe que, embora goze de algum status e prestígio social, está muito longe, no Brasil, de receber o devido reconhecimento, seja em termos salariais ou de condições de trabalho. É certo que chegamos em um ponto da história política brasileira que muitos que se dizem de esquerda apoiam prvatizações e medidas antitrabalhistas, mas imaginemos qual seria a reação desses mesmos setores que hoje apoiam entusiasticamente a chegada dos médicos cubanos se, no futuro, um governo conservador acabar com uma mobilização de professores federais trazendo seus pares angolanos, moçambicanos ou portugueses. Ou se, ante a carência de engenheiros em determinadas regiões do país, o governo importar em massa profissionais de países capitalistas em crise.
Além disso, é preciso atentar para um paradoxo tão curioso quanto nocivo: o fato de que o governo brasileiro está, na prática, se valendo da situação anômala a qual foi submetida a economia cubana (graças em grande parte a um criminoso boicote ditado pelos EUA) – em que os salários dos trabalhadores são simbólicos, se comparados aos padrões internacionais, sendo complementados por cotas de alimentos e de roupas e pelo acesso a um sistema de educação e de saúde de bom nível – para suprir um problema geoeconômico de um país capitalista. Problema este agravado pelo misto de falta de vontade política e incompetência gerencial de um governo profundamente identificado com o consumismo capitalista, o qual tem estimulado ao máximo, no altar do desenvolvimentismo a todo custo, à revelia de ponderações écológicas, éticas ou sociológicas.
Com a palavra, o ministro
Ante a forte reação contrária que a proposta suscitou entre a comunidade médica e na mídia, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, fez divulgar nota afirmando que, para além da vinda dos médicos cubanos, o governo "continua analisando" medidas para a questão e formas de reverter a distribuição assimétrica de profissionais de saúde no Norte/Nordeste em relação às demais regiões do país.
Ora, o PT está no governo federal há mais de dez anos, não pode mais agir como um neófito em fase de reconhecimento do terreno. Teve tempo mais do que suficiente para analisar em detalhe um problema estrutural antigo como o da distribuição de médicos no território nacional, apresentar propostas e implementá-las. No entanto, além de não mover uma palha para reconfigurar o panorama do ensino de medicina no país, prefere, como tem feito em outras áreas, adotar a medida mais fácil e menos custosa - mesmo porque temporária e meramente profilática -, ao invés de buscar encaminhar um conjunto de decisões que vise solucionar efetivamente o problema, o que necessariamente exigiria mais investimento, mais tempo e mais supervisão, e não ofereceria as facilidades marqueteiras que a trupe de médicos em forma de anunciada panaceia proporciona.
Infelizmente, o adesismo cego tem feito com que blogueiros e colunistas simpáticos ao governo - e lenientes com a recusa deste em promover os avanços para os quais fora eleito - comprem acriticamente tais estratégias eleitorais e as corroborem, seja difundindo-as, seja procurando desqualificar os que as criticam, num processo inverso mas idêntico ao que acusam a mídia corporativa de fazer contra o governo.
Maurício Caleiro
No Cinema & Outras Artes
Leia Mais ►

Centroavantes

Os centroavantes são diferentes. Nenhuma outra posição num time de futebol se presta tanto a controvérsia como a do centroavante. Sua função especifica é fazer gols. Ou seja, nenhum outro jogador vive tão perto do cerne, da razão depurada e da glória final do futebol, que é a bola dentro do gol, como ele.
É o centroavante quem mais faz gols, e assim cumpre seu propósito sobre a Terra, mas também é quem mais perde gols, e assim trai o seu destino. Nenhum outro jogador - bem, talvez o goleiro, que também vive ali onde o futebol se define - transita como o centroavante entre a santificação e o abismo, às vezes de um instante para o outro.
De um goleiro não se discute onde deve ficar (é o único dos onze que tem seu lugar bem demarcado, com casinha e quintal) mas existe uma longa discussão sobre onde e como um centroavante joga melhor.
Ele deve ser uma “referência”, termo impreciso para quem fica lá na frente, de costas para o gol, levando botinadas no calcanhar, servindo de pivô como no basquete e garantindo uma certa simetria nos ataques, ou deve escapar da solidão da grande área, buscar o jogo e vir de trás e de frente para o gol?
Estou escrevendo tudo isto porque nesta semana vi jogar dois exemplos parecidos da espécie, o togolês Emmanuel Adebayor do Tottenham Hotspur, de Londres, e o Jô, do Atlético Mineiro.
São dois negros altos com habilidade incomum para jogadores com seus biótipos, e os dois são da estirpe dos que vem de trás, apesar da altura ideal para serem “referência”.
Adebayor atuou no empate do Tottenham com o Chelsea, Jô no chocolate mineiro que o Atlético deu no São Paulo, e foram os principais jogadores em campo. São dois que eu gostaria de ter no meu time.
Aliás, outra razão para estar escrevendo isto é que o Jô esteve no meu time, o Internacional. Ficou na reserva, entrou umas três ou quatro vezes - e não fez muita coisa.
Espera-se tanto dos centroavantes que é difícil dizer quando eles simplesmente não estão correspondendo à exigência imediata de fazer gols, numa fase ruim passageira, ou não têm o futebol desejado e nunca terão.
Vendo o Jô marcar seus gols contra o São Paulo, ficou a mágoa: ele precisava ter a sua temporada no abismo logo no Internacional?
Luis Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

Jefferson contradiz seu próprio advogado e afirma que Lula não sabia do mensalão

Leia Mais ►

Elio Gaspari joga a toalha

Brava gente, a brasileira

Atribui-se ao professor San Tiago Dantas (1911-1964) uma frase segundo a qual “a Índia tem uma grande elite e um povo de bosta, o Brasil tem um grande povo e uma elite de bosta”.
Nas últimas semanas divulgaram-se duas estatísticas que ilustram o qualificativo que ele deu ao seu povo.
A primeira, revelada pelo repórter Demétrio Weber: em uma década, o programa Bolsa Família beneficiou 50 milhões de brasileiros que vivem em 13,8 milhões de domicílios com renda inferior a R$ 140 mensais por pessoa. Nesse período, 1,69 milhão de famílias dispensaram espontaneamente o benefício de pelo menos R$ 31 mensais.
Isso aconteceu porque passaram a ganhar mais, porque diminuiu o número da familiares, ou sabe-se lá por qual motivo. O fato é que, de cada cem famílias amparadas, 12 foram à prefeitura a informaram que não precisavam mais do dinheiro.
A ideia segundo a qual pobre quer moleza deriva de uma má opinião que se tem dele. É a demofobia. Quando o andar de cima vai ao BNDES pegar dinheiro a juros camaradas, estimulará o progresso. Quando o de baixo vai ao varejão comprar forno de micro-ondas a juros de mercado, estimulará a inadimplência.
Há fraudes no Bolsa Família? Sem dúvida, mas 12% de devoluções voluntárias de cheques da Viúva é um índice capaz de lustrar qualquer sociedade. Isso numa terra onde se estima que a sonegação de impostos chegue a R$ 261 bilhões, ou 9% do PIB. O Bolsa Família custa R$ 21 bilhões, ou 0,49% do Produto Interno.
A segunda estatística foi revelada pela repórter Érica Fraga: um estudo dos pesquisadores Fábio Waltenberg e Márcia de Carvalho, da Universidade Federal Fluminense, mostrou que, num universo de 168 mil alunos que concluíram 13 cursos em 2008, as notas dos jovens beneficiados pela política de cotas ficaram, na média, 10% abaixo daquelas obtidas pelos não cotistas.
Ou seja, o não cotista terminou o curso com 6, e o outro, com 5,4. Atire a primeira pedra quem acha que seu filho fracassou porque foi aprovado com uma nota 10% inferior à da média da turma. Olhando-se para o desempenho de 2008 de todos os alunos de quatro cursos de Engenharia de grandes universidades públicas, encontra-se uma variação de 8% entre a primeira e a quarta.
Para uma política demonizada como um fator de diluição do mérito no ensino universitário, esse resultado comprova seu êxito. Sobretudo porque se dava de barato que muitos cotistas sequer conseguiriam se diplomar. Pior: abandonariam os cursos.
Outra pesquisa apurou que a evasão dos cotistas é inferior à dos não cotistas. Segundo o MEC, nos números do desempenho de 2011, não existe diferença estatística na evasão, e a distância do desempenho caiu para 3%. Nesse caso, um jovem diplomou-se com 6, e o outro, com 5,7, mas deixa pra lá.
As cotas estimulariam o ódio racial. Dez anos depois, ele continua onde sempre esteve. Assim como a Abolição da Escravatura levaria os negros ao ócio e ao vício, o Bolsa Família levaria os pobres à vadiagem e à dependência. Não aconteceu nem uma coisa nem outra.
Admita-se que a frase atribuída a San Tiago é apócrifa. Em 1985, Tancredo Neves morreu sem fazer seu memorável discurso de posse. Vale lembrá-lo: “Nosso progresso político deveu-se mais à força reivindicadora dos homens do povo do que à consciência das elites. Elas, quase sempre, foram empurradas”.
Elio Gaspari
Leia Mais ►

Resposta à injustiça

No direito de resposta, o direito é incerto e a resposta depende das circunstâncias e de quem a dá.
É assim em jornal e TV, em revista e rádio. E pelo mundo afora, com diferentes graus de gravidade.
No Brasil, os meios de comunicação não precisaram se preocupar com o assunto nem quando das leis de imprensa e suas indicações, precisas sempre para o devido cumprimento do direito de resposta. Na imprensa e nas emissoras, cada qual sempre agiu à sua própria maneira e segundo cada caso.
A exigência legal foi, em grande parte, a criadora da sua invalidade. Ao ser estabelecida, muito lá atrás, a obrigatoriedade de que ao pretenso atingido fossem dados o mesmo destaque, os mesmos espaço e lugar, com as mesmas características gráficas do texto respondido, estava sendo sugerida a desobediência. Imaginar manchetes e outros títulos fortes de primeira página, ou mesmo de páginas nobres, entregues a negações e ataques ao próprio órgão publicador (ou na modalidade das emissoras de TV e rádio), foi e é desconhecer o sentimento de poder, justificado pela realidade, dos então intitulados "Capitães da Imprensa". Ou "Donos do Quarto Poder".
Desde a supressão, pelo Supremo Tribunal Federal, da Lei de Imprensa transposta da ditadura para a democratização, inexistem as tais normas para cumprimento do direito de resposta. Ficou o direito, integrante dos princípios constitucionais. À maneira escolhida por quem o cumpre ou em conformidade com determinação judicial. Mas, nas decisões judiciais ─ pouco numerosas, se considerado o que poderiam ser ─ o usual são sentenças com transcrições quilométricas, capazes de evitar a discussão sobre a disparidade entre a exposição do texto original e a dada à resposta.
Na última quarta-feira, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou um projeto de regulamentação do direito de resposta, agora pendente de votação no plenário. O texto aprovado não é o apresentado pelo senador Roberto Requião, aprovado pela mesma CCJ há mais de um ano, mas, por força de recursos, retornado à votação. Com emendas, tomou a forma de substitutivo do relator Pedro Taques, ex-integrante do Ministério Público em Mato Grosso.
O texto aprovado não apenas retorna à obrigatoriedade de espaço, lugar e características iguais entre publicação inicial e resposta. O que, podemos estar convictos desde logo, só se dará quando as respostas forem a notinhas. O substitutivo de Pedro Taques vai além: permite que o órgão de comunicação entre com medida judicial suspensiva e obrigue a publicação da resposta a aguardar até a decisão final do processo. Pelo tempo que a conhecida rapidez do Judiciário brasileiro impuser.
Além de aspectos jurídicos e de direitos humanos, há razões práticas a demonstrarem que esse efeito suspensivo é apenas uma porta para injustiças horríveis. Imprensa e emissoras, quando o publicado é correto, não ficam tolhidas pela ocorrência de resposta. Podem reafirmar o publicado e, inclusive, fazer-lhe acréscimos, até em paralelo à resposta infundada. Podem mesmo responder de imediato ao teor da resposta ─ e isso se vê com frequência no "Painel do Leitor" da Folha.
O efeito suspensivo e o aguardo de decisão final vão se prestar a duas conveniências desprezíveis. Da parte de imprensa e emissoras, quem não possa sustentar o ataque ou a divulgação feita, entra com pedido suspensivo e vale-se de todos os recursos para protelar a decisão judicial, vinda só com o assunto já esfumaçado. Da parte de quem só pode fazer resposta com subterfúgios, poderá passar, enquanto a ação estiver em seus vagares no Judiciário, como vítima de injúria, difamação, calúnia ou interesses baixos.
Mas quem foi vítima de erro e injustiça, e vê sua resposta submetida ao efeito suspensivo de quem o injustiçou, vai sofrer sua desmoralização sem sequer prever por quanto tempo. Com todos os efeitos de tal situação.
O direito de resposta é um problema grave e complexo. Requer mais do que um pretenso tapa-buraco. 
Janio de Freitas
No fAlha
Leia Mais ►

Rede Globo é desmascarada no caso das adoções de Monte Santo-BA

Entrevista imperdível - Jornal GGN: Letícia Fernandes desmascara Rede Globo e desafia Fantástico e o jornalista José Raimundo a repetir quem é Traficante de Crianças: "Eu queria ver se ele era homem para falar na minha cara que eu era traficante de criança. Na hora ele virou um ratinho".
Mexeram com a mãe errada: "Devolvam minha filha Stephanie".

Leia Mais ►

Pelo menos neste caso a Folha não se vendeu ao STF como fez a Globo

Jornal decidiu bancar ele mesmo as despesas do enviado a Costa Rica para cobrir viagem de Joaquim Barbosa.
Otavio Frias Filho, dono da Folha, que recusou o convite aceito pelo Globo
Otavio Frias Filho, dono da Folha, que recusou o convite aceito pelo Globo
Na tentativa de atenuar a conduta antiética do Globo e de Joaquim Barbosa, alguns leitores comentaram, no Diário, que todos os jornais tinham feito a mesma coisa.
A mídia brasileira teria, em massa, embarcado na caravana da alegria  patrocinada pelo contribuinte mas oferecida pelo Supremo para que fossem feitas matérias positivas para JB na inútil, irrelevante, desprezível viagem que este fez para a Costa Rica.
A lógica, se entendi, era aquela de um romance de Agatha Christie em que um grupo enorme dá facadas numa pessoa. Um assassinato coletivo não teria um culpado. Quase que não haveria crime, na verdade.
Bem, longe do mundo de Agatha Christie, decidi verificar.
Pesquisei os textos da Folha sobre JB na Costa Rica. Não encontrei a informação de que o repórter da Folha teria viajado ‘a convite’ do STF.
Para o leitor fora do ramo: a Folha foi quem inovou, aspas, nesta prática. Viagens na chamada ‘boca livre’ – há muito tempo proibidas nas empresas jornalísticas mais sérias – ainda vigoram na Folha.
O que a Folha fez para tentar manter a compostura: passou o problema ao leitor. Ela avisa que o repórter X está viajando ‘a convite’ de uma empresa, de um país ou, se for o caso, do Supremo.
Cabe ao leitor, assim, decidir se o texto é corrupto ou íntegro.
No caso da Costa Rica, não havia este aviso – presente nos artigos da jornalista da Globo. Sim, a Globo conseguiu macaquear a Folha numa prática que pisoteia ao mesmo tempo a ética e o leitor.
Teria a Folha deixado de dar este recado, por alguma razão?
Fui tirar a dúvida na fonte.
Fiz essa pergunta, pelo Facebook, a Sérgio Dávila, editor executivo da Folha e antigo colega de Abril.
A resposta: “Recebemos e recusamos o convite.  Custeamos todas as despesas de nosso enviado.”
Dálila, editor executivo da Folha: “Recebemos e recusamos o convite"
Dávila, editor executivo da Folha: “Recebemos e recusamos o convite”
Que fique claro, então, que houve sim o terrível convite com o qual o contribuinte bancou uma operação autopromocional de Joaquim Barbosa.
O fato de a Folha, tão pronta a aceitar convites para se livrar de despesas editoriais indispensáveis ao bom jornalismo, ter recusado este do Supremo mostra o tamanho do abismo ético que havia na operação.
A Globo é assim no trato do dinheiro público: não tem cerimônia.
Em meus dias de Editora Globo, tive uma briga tenebrosa assim que cheguei porque recusei manter um esquema segundo o qual a revista Época elogiava um governador e, em troca, este fazia compras milionárias de livros da casa. (Tais compras renderam grandes bônus com os quais os diretores Juan Ocerin e Fred Kachar podiam renovar periodicamente seus BMWs e suas Porsches de novos ricos.)
Como a Globo se comporta é sabido, do BV aos vários financiamentos de mãe para filho concedidos por sucessivas administrações.
O fato novo, no episódio, é como Joaquim Barbosa lida com o dinheiro público.
Dizem que é um homem inteligente. Quer dizer, os que querem promovê-lo dizem. Pergunta: com este alegado QI ele não foi capaz de enxergar o absurdo ético de patrocinar uma viagem ridícula com o dinheiro público?
Ou dinheiro público, para ele, pode ser usado assim mesmo, com imenso desprendimento?
É um fato de extrema gravidade, uma vez que estamos falando do presidente do tribunal mais alto do Brasil.
Se ele não sabe que o convite é antiético, o que saberá?
Uma mídia efetivamente a serviço do Brasil iria investigar o assunto. Iria cobrar, em nome do povo, o STF no caso Costa Rica.
E traria informações novas: qual o Orçamento do Supremo para despesas como essas da viagem? Quem aprova as despesas? (Se é o próprio Supremo, amigos, temos um problema.) E por aí vai.
Isso se tivéssemos uma mídia a serviço do Brasil.
A nossa, lamentavelmente, está a serviço de si mesma
Paulo Nogueira
No DCM
Leia Mais ►