12 de abr de 2013

Venezuela prende mercenários da Colômbia e de El Salvador com armas e explosivos – é a CIA?

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O Comando Regional (Core) 4 da Guarda Nacional da Venezuela, localizado na região ocidental do Estado de Lara, capturou na última quinta-feira (11 de abril), paramilitares colombianos com armas e explosivos. A captura ocorre às vésperas das eleições presidenciais que ocorrerão no próximo domingo (14).
Além dos terroristas colombianos, foram presos mercenários salvadorenhos, ambos com estreitos e reconhecidos vínculos com a política de desestabilização promovida pela CIA contra a revolução bolivariana. Também foram detidas cerca de 30 pessoas acusadas de sabotar as redes de transmissão de energia.
Setores do governo temem que a oposição – se for derrotada mais uma vez – abandone o caminho institucional, partindo para a desestabilização armada – com apoio de fora do país. Seria algo parecido com o que já ocorreu na Líbia e acontece agora na Síria. Só que bem na fronteira com o Brasil.
“Temos capturado vários militares colombianos com uniformes da Venezuela. Estamos desmontando um plano de violência da direita”, denunciou o presidente em exercício e candidato chavista, Nicolás Maduro. Conforme o presidente, após uma investigação exaustiva, foram vasculhadas várias casas e encontrados explosivos e armas.
Parte dos armamentos foi encontrada após inspeção no galpão da empresa Cargas da Venezuela, responsável por trazer ao país mercadoria procedente dos Estados Unidos. Somente neste galpão foram apreendidos 48 carregadores para pistolas Glock com capacidade para 32 cartuchos calibre 9 milímetros, um carregador tipo circular, chamado Caracol (calibre 9 mm) – com capacidade para 100 cartuchos, assim como um carregador circular para fuzis.
Material de guerra
“Este material de guerra e carregadores de Glock são utilizados por bandos que se dedicam ao terrorismo. Há evidências de uma relação direta com pessoas desestabilizadoras treinadas em El Salvador”, declarou o chefe da Gore 4, Octavio Chacon.
O ministro do Interior, Néstor Reverol, informou que o governo também “detectou” o ingresso de dois grupos de mercenários “vindos de El Salvador” e que a Venezuela fechará o cerco aos criminosos.
Após denúncia do governo venezuelano, o presidente de El Salvador, Maurício Funes, acionou uma ampla “investigação policial”, já que os mercenários salvadorenhos foram financiados pela CIA para tentar matar no ano 2000 o presidente cubano Fidel Castro, assim como tiveram envolvimento em atentados com bombas em hotéis da Ilha Caribenha.
As ações afetaram seriamente a economia cubana ao comprometer essa importante fonte de renda do país. Vale lembrar que o terrorista salvadorenho Francisco Abarca – procurado pela Interpol após ter colocado uma bomba na discoteca de um hotel de Havana – foi preso em julho de 2010 na Venezuela.
Para o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, que está acompanhando o processo eleitoral venezuelano, a tentativa frustrada de apelar à violência demonstra até onde chega o ódio da reação aos avanços da revolução bolivariana: “Isso é revelador de como, na América Latina, a banda pobre da direita não mede consequências e usa todos os métodos possíveis para manter seus privilégios de classe. Basta lembrar o que fizeram em Honduras e, mais recentemente, no Paraguai, onde produziram um conflito que não houve, mas assassinatos planejados”, denunciou Stédile.
Mídia privada esconde
O fato ganhou conotação de denúncia nos jornais públicos venezuelanos, “Correio del Orinoco” e “Ciudad Caracas”, enquanto os grandes conglomerados de comunicação da direita tentaram dar uma conotação de crime comum, abrindo destaque para críticas às “provocações” da Coreia do Norte.
Como já alertava o presidente Hugo Chávez em relação à política belicista do império estadunidense, é importante continuar reforçando a capacidade de reação dos nossos países e povos. “O império não respeita os débeis. Os povos decididos a ser livres precisam estar bem armados”, sublinhou Chávez, frisando que os norte-coreanos precisam ter capacidade de reação, até para persuadirem os que já fizeram uso do seu poder atômico contra civis e para não virarem um novo Iraque ou uma nova Líbia.
Leonardo Severo
No ComunicaSul é um coletivo de jornalistas brasileiros, especializado em coberturas especiais na América Latina; gera conteúdo exclusivo para a blogosfera, furando a hegemonia da velha mídia (no Brasil, por exemplo,jornais deram pouco ou nenhum destaque à prisão dos paramilitares estrangeiros na Venezuela).
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Gobierno neutralizó planes desestabilizadores que afectarían elecciones presidenciales

El vicepresidente de la República, Jorge Arreaza, informó este viernes que el Gobierno Bolivariano logró neutralizar algunos planes desestabilizadores que factores de la derecha pretendían accionar durante las elecciones presidenciales del próximo domingo 14 de abril
"Gracias a la activación de la Fuerza Armada Nacional Bolivariana (FANB) y de los organismos de seguridad del Estado hemos desmontado un plan que trataría de afectar el proceso electoral o post electoral", dijo el vicepresidente ejecutivo en rueda de prensa transmitida por Venezolana de Televisión.
Entre esos planes "algunos ciudadanos salvadoreños quisieron, pero no pudieron, intervenir para desestabilizar la paz de la República en las últimas horas".
"También fuimos testigos de cómo un grupo de estudiantes irrumpió en las instalaciones de la Base Aérea Generalísimo Francisco de Miranda (La Carlota, Caracas), dirigiéndose hacia la Comandancia General de la Aviación", precisó.
Añadió que el grupo de estudiantes, que fue detenido, también trató de ingresar a la Comandancia de la Guardia Nacional Bolivariana en el Paraíso, al suroeste de la ciudad capital, pero no lo lograron.
Entre otros elementos de dichos planes neutralizados, Arreaza indicó que fueron capturados dos ciudadanos, presuntamente de nacionalidad colombiana, con uniformes de tenientes de la FANB.
El Vicepresidente ratificó en nombre del Gobierno Bolivariano el compromiso con la paz y la democracia. "Esperamos que todo el país participe activamente, decididamente, este 14 de abril", expresó.
No AVN
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Juros: quem quer a alta, e por quê

Roberto Setúbal e Pedro Moreira Salles, cabeças das famílias que controlam o Itaú, esperam sorrir de novo: em 2012, lucros de “apenas” R$ 13,6 bilhões
Roberto Setúbal e Pedro Moreira Salles, cabeças das famílias que controlam o Itaú,
esperam sorrir de novo: em 2012, lucros de “apenas” R$ 13,6 bilhões
Para conter a inflação, há outros remédios. Mas oligarquia financeira pressiona – porque quer voltar a ganhar os mesmos rios de dinheiro de antes
Um assunto único domina as manchetes dos jornais brasileiros mais vendidos. Folha, Globo e Estado destacam, em frases quase idênticas que a inflação anualizada subiu (para 6,59%) e “estourou a meta” fixada pelo Banco Central (BC). Em consequência, não restaria, ao próprio banco, outra alternativa exceto iniciar uma nova rodada de elevação da taxa básica de juros (Selic), já na próxima semana. A presidente Dilma Roussef, que se manifestou contra a alta, há poucos dias, teria sido vencida. A Folha chega até a prever o montante e o ritmo do ascenso: a Selic, hoje em 7,5% ao ano, passaria a 8,5%, após “quatro aumentos de 0,25 ponto percentual, até dezembro”.
Noam Chomsky cunhou certa vez o termo “fabricação de consensos” – provavelmente sem cogitar que alguém tentasse praticá-la de modo tão caricatural quanto a mídia brasileira. Há três abusos claros nas manchetes de hoje: a) a inflação não está mais em alta, nem deve ser reduzida a qualquer custo; b) elevar os juros não é receita eficaz para fazê-lo; c) por trás do suposto “remédio” esconde-se a luta da oligarquia financeira para capturar uma parcela ainda maior da riqueza coletiva. Os jornais, é claro, escondem esta tentativa.
Veja, ponto por ponto, como se manipulam os fatos.
1. Para constatar que a inflação não está subindo, mas em queda, há dois meses, basta mirar o gráfico abaixo, publicado sem destaque pelo Estado. A taxa, medida por um dos índices do IBGE (o IPCA) foi de 0,47% em março, ante 0,6% em fevereiro e 0,86% em janeiro. O índice anualizado só aumentou porque os 0,47% de agora substituíram, no cômputo de doze meses, uma taxa excepcionalmente baixa, registrada em março de 2012 – 0,21%. Tudo indica que, já em abril, a inflação anual recuará, sem necessidade de qualquer intervenção, para os patamares previstos pela “meta” do BC.
130411-Juros
2. A mídia brasileira omite, mas há uma crítica internacional crescente à crença segundo deve-se perseguir a queda da inflação a qualquer custo. Pelo menos dois economistas premiados com o Nobel – Paul Krugman e Joseph Stiglitz – têm sugerido o contrário. Propõem que os Estados mantenham, nas próximas décadas, índices de inflação ligeiramente superiores aos atuais – como ocorreu, aliás, nos “anos gloriosos” do pós-II Guerra. Explicam que tal ambiente permitirá desvalorizar a riqueza financeira dos mais ricos, reduzir a dívida pública e, em consequência, promover políticas redistributivas. Estas, explica Stiglitz, estimulam a economia e a geração de empregos – porque a classe média e os pobres consomem uma parte expressiva de seus rendimentos, enquanto os super ricos entesouram quase tudo.
3. Ainda que a meta seja reduzir a inflação, elevar os juros é uma péssima forma de fazê-lo. Num post extremamente didático, publicado hoje, o jornalista Luís Nassif demonstra que o BC dispõe de instrumentos muito mais eficazes para segurar os preços. Tem total autonomia, por exemplo, para determinar uma redução dos prazos de financiamento ao consumidor. A mudança torna mais difícil adquirir bens, reduz o consumo e as pressões inflacionárias. Tome, por exemplo, uma geladeira de R$ 1.000, financiada em 24 meses, a uma taxa de 4% ao mês. Hoje, as prestações são de R$ 65,58. Com a redução do prazo para 18 meses, elas saltam para R$ 79,00. Já a alta da Selic eleva-as para… R$ 65,86. “Alguém deixaria de tomar financiamento por conta de um aumento de 28 centavos?”, pergunta Nassif.
4. Por fim, a questão central. Se a alta da taxa Selic é tão ineficaz, qual o motivo de tanta batalha em torno dela? É que os juros, embora não reduzam a inflação, são, por excelência, o meio pelo qual a oligarquia financeira extrai riqueza do conjunto da sociedade. Em 2012, o Estado brasileiro desviou, do total de impostos arrecadados, R$ 128 bilhões (ou 4,81% do PIB) para pagar juros – equivale a aproximadamente seis vezes o montante aplicado no Bolsa-Família. Mas, ao invés de beneficiar 13 milhões de famílias, os juros fluem, segundo cálculos do IPEA, para apenas 0,5% da população – a ínfima minoria que tem recursos para comprar títulos públicos ou seus derivados.
Ocorre que este setor havia se acostumado a ganhar muito mais, nos anos anteriores. Em 2011, foram R$ 151 bilhões; e no período FHC, a despesa com juros chegou a 9% do PIB. A redução da sangria foi alcançada precisamente graças à queda dos juros. A partir de julho de 2011, a presidente Dilma orientou o BC a retomar a trajetória de redução iniciada no governo Lula. As taxas, que são fixadas em reuniões do Conselho de Política Monetária (Copom) do banco, caíram de 12,5% ao ano para os 7,5% de hoje. Sucederam-se fatos extraordinários. Em 2012, por exemplo, os lucros de bancos como o Itaú e o Santander recuaram, ainda que muito levemente – depois de anos de recordes sucessivamente quebrados.
A oligarquia financeira jamais se conformou com a queda de juros. Não pode, evidentemente, expor suas razões. Mas tem muito poder, dinheiro e capacidade de “convencer” aliados importantes. Prepare seus olhos e ouvidos. Até a próxima reunião do Copom, você estará exposto a doses cavalares de propaganda ideológica – disfarçada na forma de “notícias” e previsões alarmentes dos “especialistas de mercado”. O governo e o Banco Central cederão? Esta é a pergunta que importa.
Antonio Martins
No Blog da Redação
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A diferença entre a atitude de Dirceu e a de Fux no famoso encontro

Dirceu agiu em autodefesa e Fux foi levado por uma vaidade desumana, e isso torna seu gesto moralmente inaceitável.
Quem no lugar de Dirceu não teria feito o que ele fez?
Quem no lugar de Dirceu não teria feito o que ele fez?
Chega-se à verdade por vários caminhos, e nem sempre eles são os mais bonitos.
Mas isso não tira a importância deles. Uma paisagem feia pode levar a um belo destino.
É o caso das revelações de José Dirceu sobre seu encontro com o ministro Luiz Fux. Elas permitiram aos brasileiros saber como funcionam as coisas na hora de escolher alguém para o Supremo, e este conhecimento será a base das pressões que levarão a mudanças.
Você pode dizer, e não sem razão: se ele topou o encontro é porque gostaria de saber como Fux se comportaria no julgamento de extraordinária relevância de que ele, Dirceu, seria réu.
Você diz isso, ou poderia dizer,  embora provavelmente fizesse o mesmo nas circunstâncias em que estava Dirceu.
Dentro do lamentável e nada transparente sistema de indicação para o Supremo que vigora no Brasil, não existe impedimento legal nenhum para isso.
E o risco de passar alguns anos na cadeia – sobretudo se você se julga inocente, e sabe que a mídia vai fazer de tudo para enjaulá-lo – pode levar você a fazer o que Dirceu fez.
A atitude de Dirceu  em receber Fux – a não ser que sejamos maciçamente hipócritas ou antipetistas radicais – é moralmente defensável.
Chama-se autodefesa.
A de Fux não. Ela é moralmente indefensável. É fruto de uma ambição desumana, de uma vaidade sem limites e de uma ética frouxa, vacilante, tíbia que não se pode aceitar num juiz do Supremo.
Fux tem que ser expurgado do STF. Enquanto ele permanecer lá, os brasileiros, com razão, estenderão ao todo os defeitos da parte.
Feita a limpeza urgente,  a sociedade tem que cobrar uma alteração imediata nos métodos de nomeação no Supremo.
Transparência, transparência e ainda transparência.
Isso já deveria estar no debate público quando se soube que a principal razão pela qual Lula indicou Joaquim Barbosa foi o fato de ele ser negro.
(Sem contar a forma como JB abordou Frei Betto para se insinuar entre os candidatos à vaga que Lula – ou para afirmar os negros ou por demagogia, cada qual fique com sua escolha – reservara não ao talento mas à cor da pele.)
Mas o urgente agora é tratar de Fux.
Ele não pode continuar onde está. Não é apenas o pastor Feliciano que está absurdamente agarrado a uma posição para a qual é uma extravagância intolerável.
Fux se tornou o Feliciano do Supremo.
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Decisão em Caracas

http://www.davidicke.com/images/stories/April20136/158_venezuela_face.jpg
Interessa-nos, sim, e muito, o resultado das eleições venezuelanas do próximo domingo. Sendo assim, convêm-nos examinar o quadro sem as lunetas da paixão ideológica. Se o opositor Capriles, por essa ou aquela razão, desmentir o favoritismo de Maduro, e ganhar o pleito, não terá como inverter o curso histórico do país.
Ainda que, nesse caso, seja possível uma guinada à direita, ela não ocorreria logo. A menos que se desse depois de sangrenta guerra civil. A Hitória, antiga e contemporânea, nos ensina que, havendo imperialismo, guerras civis surgem por todo lado. Uma guerra civil, no entanto, pode levar anos e desorganizar a economia. E pode, até mesmo, favorecer o lado aparentemente mais fraco.
O mais importante legado de Chávez não está em sua política distributiva, mas, sim, no que ela representou na alma do povo venezuelano. Os venezuelanos pobres são a imensa maioria do povo. Eles assumiram a consciência da dignidade como um bem coletivo, e não parecem dispostos a renunciar a esse sentimento.
O militar, sendo mestiço, soube falar com a emoção ameríndia. Ele disse aos indígenas, e aos mestiços como ele, que a Venezuela é um bem comum de seu povo, e não colônia estrangeira. Seu discurso sempre foi autêntico.
Seu opositor, Henrique Capriles Radonski, continua a ser visto como multimilionário, venezuelano de primeira geração, de origem européia – distante da visão universal do povo.
Em tática eleitoral conhecida, tenta agora linguagem menos agressiva, na tentativa de angariar votos entre aqueles chavistas que preferiam outro candidato em lugar de Maduro.
O sucessor de Chávez tem cometido erros primários, ao tentar, sem o mesmo carisma, a sintaxe emotiva do ex-presidente. Isso pode inspirar a cunha oposicionista e beneficia-la, mas de forma marginal.
Ao Brasil, como país, não interessa mudar a sua postura diante de Caracas, mesmo no caso em que a oposição vença. As nossas relações comerciais devem ser mantidas. Temos imenso saldo na balança comercial e os nossos empresários que, em natural pragmatismo, não participavam do coro dos meios de comunicação contra o chefe de Estado da Venezuela, não querem perder os bons negócios que se iniciaram ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso, e se ampliaram na administração de Lula e Dilma.
Se não nos interessa mudar a postura nas relações com a Venezuela, no caso de eventual vitória da direita, com Capriles, é natural que essa hipótese nos preocupe, tendo em vista os nossos interesses continentais.
Derrotada a esquerda, o governo de Caracas se alinhará aos Estados Unidos, e buscará, ali, as importações de que necessita, deslocando-nos do importante mercado.
Além disso, as organizações regionais de que participamos, como o Mercosul e a Unasul, serão erodidas, pela ação direta de Washington.
Capriles, o candidato oposicionista, como se sabe, não é judeu ortodoxo. Converteu-se ao catolicismo e foi ativo militante do ramo venezuelano da nossa famigerada TFP, em seus anos mais jovens. Há notícias de que pertence também à Opus dei.
Todas essas razões convocam a nossa atenção para o pleito de domingo.
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É intolerável ver Marin na abertura da Copa, diz filho de Herzog

 
Há fotos que mancham com um simples olhar. Uma delas mostra João Havelange junto ao ditador Jorge Rafael Videla e ao almirante Massera, os três vestindo solenes trajes listrados, na abertura da Copa do Mundo de 1978 disputada no estádio Monumental de Buenos Aires, a poucas quadras da ESMA, a maior prisão clandestina do regime onde morreram 5 mil prisioneiros, entre eles o pianista brasileiro Francisco Tenorio Cerqueira Júnior, sequestrado horas depois de tocar junto com Vinicius de Moraes em um teatro portenho.
Quando se observa com mais cuidado aquela foto do inverno de 78 se vê o chefe do campo de concentração da ESMA, Massera, e o “capo” da FIFA, João Havelange, um ex-nadador olímpico de porte atlético, como se fossem dois pavões reais arrogantes, com seus peitos inchados e o ar marcial.
As vidas de Havelange e Massera seguiram rumos paralelos. O brasileiro acumulou milhões dólares graças aos subornos cobrados de uma empresa de marketing desportivo, como provou a justiça suíça, e possivelmente ao envolvimento com o tráfico de armas, um negócio ao qual o genocida argentino também se dedicou.
Durante uma entrevista com Ivo Herzog, falamos sobre essa velha imagem em preto e branco que retrata o obsceno vínculo que os donos do futebol mantiveram com as ditaduras sul-americanas. Seu pai, Vladimir Herzog, foi assassinado pela ditadura em outubro de 1975, um ano depois de Havelange ter tomado as rédeas da FIFA, as quais não soltou até 1998.
Ivo Herzog traça paralelos entre aquele Havelange, que passeava entre repressores, e o atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin, ao qual imputa vínculos com o assassinato de “Vlado”, o editor da TV Cultura executado nas dependências do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (DOPS-SP).
O passado de Marin é equiparável ao de Havelange?
Pode ser pior. Creio que Havelange deveria ser investigado pela Comissão da Verdade criada pela presidenta Dilma (Rousseff), mas não conheço tanto sua história para falar muito dela. Mas posso, sim, falar dessa pessoa chamada Marín, a quem não posso chamar de senhor.
Essa foto do mundial de 78 é terrível porque é a imagem de um passado monstruoso que pode voltar a acontecer. Digo isso porque poderemos ter uma foto parecida se Marin seguir sendo o presidente do Comitê Organizador de nossa Copa do Mundo (COL) e for o anfitrião da cerimônia. Você imagina o que seria ter um homem da ditadura em nossa Copa da democracia?
Seria intolerável que Marin estivesse neste ato que será visto por milhões de pessoas em todo o mundo. Por isso lançamos o manifesto “Fora Marin” que vem tendo uma receptividade surpreendente.
A primeira coisa que queremos é que Marin vá embora do COL, que é uma entidade que recebe dinheiro e apoio do governo. Depois queremos que ele saia da CBF, mas isso é mais difícil porque é uma entidade privada que diz publicamente que não se interessa pelo passado de seu presidente. Eu diria ao senhor Joseph Blatter (titular da FIFA) que não se preste ao jogo de Marin.
Se Blatter pressionou para que Ricardo Teixeira saísse do COL no ano passado, por corrupção, agora teria que fazer o mesmo em relação a José María Marin pelo crime de lesa humanidade, propõe Ivo Herzog.
O abaixo-assinado de Herzog “Fora Marin”, recolheu 60 mil assinaturas em poucas semanas, conquistando o apoio de personalidades como Chico Buarque e o ex-atacante Romário que desde seu mandato na Câmara de Deputados propôs que o Congresso revise o passado político do chefe do futebol brasileiro.
O engenheiro naval Ivo Herzog nasceu há 46 anos no exílio londrino ao qual seu pai havia sido empurrado em função de uma longa militância comunista. Anos mais tarde, Vladimir Herzog decidiu deixar seu cargo na BBC e retornar a São Paulo onde assumiu como editor da TV Cultura.
Na metade da década de 70, o regime planejava uma transição lentíssima rumo à democracia e se disfarçava de “ditabranda” autorizando a existência de um poder legislativo composto por civis comandados desde os quarteis como José Maria Marin. O hoje chefe do futebol brasileiro chegou a ser governador de São Paulo, em recompensa por sua lealdade aos generais e sua proximidade com a polícia política, o DOPS, que assassinou Vladimir Herzog em outubro de 1975. O chefe do DOPS então era Sergio Paranhos Fleury, possivelmente o repressor mais famoso do Brasil e um dos pioneiros do que terminou sendo a Operação Condor. Em dezembro de 1973, o delegado participou em Buenos Aires, junto com repressores argentinos, do sequestro e posterior desaparição dos brasileiros exilados Joaquim Pires Cerveira e João Batista Rita, segundo denúncias apresentadas por familiares das vítimas.
Você diria que Marin foi cúmplice do assassinato de seu pai?
Creio que é possível usar a palavra “cúmplice”, sim. Em outubro de 1975, poucos dias antes de meu pai ser preso, Marin fez um chamado à repressão dos opositores. Foi uma convocação feita em um discurso público e, em 1976, quando já havia passado um ano do crime, fez outro discurso cheio de elogios a Fleury, chefe da repressão.
Vou citar textualmente uma parte do que ele disse: “Queremos dar nossas melhores felicitações a um homem que vem prestando relevantes serviços à comunidade...queremos dizer o orgulho que sentimos por contar com um comissário como Sergio Paranhos Fleury”. Isso quer dizer que sua identificação com a repressão era descarada e qualquer um pode encontrá-la se pesquisar jornais ou artigos legislativos, diz Herzog.
Ivo Herzog não tem muitas ilusões sobre o destino jurídico de Marin beneficiado pela Lei de Anistia promulgada pelo ditador João Batista Figueiredo, ao ver que a ditadura começava a enfraquecer e era preciso garantir a impunidade. Por outro lado, ele confia em Dilma Rousseff e na sua disposição política para que Marin não figure, daqui a 15 meses, na foto da festa inaugural da Copa do Mundo.
Presa e torturada ela também em São Paulo na década de 70, a então guerrilheira “Wanda” não deixou dúvidas sobre seu desprezo ao dirigente.
– É evidente que a presidenta evita encontros com Marin. Isso pode desgastá-lo.
“Dilma sabe o que Marin fez e minha família valoriza a atitude muito positiva que ela vem tendo em relação a ele. Ela tem o evitado o quanto pode e se mostra muito digna ao demonstrar sua distância em relação a uma figura desse peso. Hoje temos como presidenta uma pessoa que entende perfeitamente o que aconteceu durante a repressão e isso é algo que, indiscutivelmente, tem um peso político”.
Dilma olha para Marin com os mesmos olhos de desgosto com que observava Teixeira. Ela quer sua saída?
Nunca falei deste tem com a presidenta, mas qualquer um percebe que Marin não lhe agrada. Realmente não sei se ela está usando sua influência para retirá-lo do COL, mas é evidente que, para Marin, não é muito cômodo que todo mundo saiba que ele não tem um respaldo total da presidenta.
Dario Pignotti
Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
No CartaMaior
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Gerald Thomas é uma vergonha para a raça masculina

Ao botar a mão embaixo do vestido de Nicole Bahls à força, o covarde dramaturgo exemplificou o que existe de pior entre nós homens.
O colega da panicat nada fez contra o agressor, numa atitude igualmente ridícula
Nunca acompanhei o Pânico, quem dirá as notícias relativas a ele. Uma imagem postada no Facebook, porém, me chamou a atenção para o programa. Trata-se do dramaturgo carioca Gerald Thomas colocando a mão embaixo do vestido da panicat Nicole Bahls, contra a vontade dela, durante a gravação de uma entrevista. A foto vinha com um texto assinado pela blogueira Nádia Lapa, do site Cem HomensEla narra o episódio:
Era noite de lançamento de um livro dele e a Livraria da Travessa estava lotada. Repórteres, cinegrafistas, funcionários da loja, clientes. Pelas notícias, ninguém fez nada. Nas imagens dá para ver que o colega de trabalho de Nicole no Pânico continuou a entrevista como se nada tivesse acontecendo. Enquanto isso, Thomas enfiava a mão entre as pernas de Nicole e ela tentava se desvencilhar. (…)
Duas coisas me chamam a atenção nesse caso. A primeira é ninguém ter feito nada. Acharem normal. Acharem aceitável. (…) A segunda coisa que me incomoda é terem dito “mas por que ela não fez algo?”. É difícil encarar polícia, legista, imprensa, opinião pública. Além disso, o cara estava agredindo na frente de todos – e ninguém fez nada. Se fosse você a vítima, você não pensaria que a errada é você por não estar gostando, já que todo mundo está achando muito normal?
Fica até difícil saber de quem foi o maior papelão no episódio: de Gerald Thomas por agarrar Nicole Bahls à força ou dos homens que presenciaram a cena sem fazer nada. Entre eles seu colega de Pânico Wellington Muniz, o Ceará, que deveria ter sido o primeiro a dar uma chave de rim no agressor durante a investida dele. “Fiquei muito triste”, escreveu ela no Twitter, ao ser questionada sobre o assunto. “Obrigada de coração pelo carinho. Amanhã é outro dia. Vai passar.”
Há séculos os filósofos dizem que a perfeição é um conceito inatingível para o ser humano e que, por isso, devemos aprender a conviver com as nossos defeitos. Concordo. Existe um deles, porém, que é intragável: a covardia. Gerald Thomas foi covarde ao agarrar uma mulher indefesa (eu adoraria vê-lo fazendo isso com Ronda Rousey, a campeã do UFC) e também foram covardes os homens que assistiram sua atitude sem fazer nada.
Por isso digo que o episódio da Livraria da Travessa foi, sem dúvida, uma mancha para a nossa raça masculina. E deveríamos ter vergonha por ele ter acontecido. Eu tenho.
Seria interessante ver Gerald fazendo isso com Ronda Rousey, a campeã do UFC
Pedro Nogueira
No DCM
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Maioridade penal aos seis. Afinal, nessa idade, eles já se vestem sozinhos

Um dos maiores acertos de nosso sistema legal é que, pelo menos em teoria, protegemos os mais jovens – que ainda não completaram um ciclo de desenvolvimento mínimo, seja físico ou intelectual, a fim de poderem compreender as consequências de seus atos. Completar 18 anos não é uma coisa mágica, não significa que as pessoas já estão formadas e prontas para tudo ao apagarem as 18 velinhas. Mas é uma convenção baseada em alguns fundamentos biológicos e sociais. E, o importante, é que as pessoas se preparam para essa convenção e a sociedade se organiza para essa convenção.
Por necessidade individual e incapacidade coletiva de garantir que essa preparação ocorra de forma protegida, muita gente acaba empurrada para abraçar responsabilidades e emularem uma maturidade que elas não têm. Enfim, se tornam adultos sem ter base para isso.
Na prática, o Estado e a sociedade falham retumbantemente em garantir que o Estatuto da Criança e do Adolescente ou mesmo a Constituicão Federal sejam cumpridos. Entregamos muitos deles à sua própria sorte – sejam filhos de famílias pobres ou ricas. Porque encher o filho de brinquedos e fazer todas as suas vontades para compensar a ausência por conta de uma roda viva que vai nos tragando também é de uma infelicidade atroz.
O que fazer com um jovem que ceifa a vida de outro, afinal? Conheço a dor de perder alguém querido de forma estúpida pelas mãos de outro. O espírito de vingança, travestido de uma roupa bonita chamada Justiça, que foi incutido em mim pela sociedade desde pequeno, diz que essa pessoa tem que pagar. Para que aprenda e não faça novamente? Não. Para que sirva de exemplo aos demais? Não. Para retirá-lo do convívio social? Não. Para tentar diminuir a minha dor através da dor dele e da sua família? Não. Não há provas de que nada disso funcione, mas ele tem que pagar. Por que sempre foi assim, porque caso contrário o que fazer?
A Fundação Casa, do jeito que ela está, não reintegra, apenas destrói. A prisão, então, nem se fala. Também não acho que reduzir a maioridade penal para 16 anos vá resolver algo. Ele só vai aprender mais cedo a se profissionalizar no crime. E se jovens de 14 começarem a roubar e matar, podemos mudar a lei no futuro também. E daí se ousarem começar antes ainda, 12. E por que não dez, se fazem parte de quadrilhas? Aos oito já sabem empunhar uma arma. E, com seis, já se vestem sozinhos.
A resposta para isso não é fácil. Mas dói chegar à conclusão de que, se um jovem aperta um gatilho, fomos nós que levamos a arma até ele e a carregamos. Então, qual o quinhão de responsabilidade dele? E qual o nosso?
O certo é que ele irá levar isso a vida inteira – o que não é pouco – e nunca mais será o mesmo, para bem ou para mal. A sociedade está preparada para lidar com ele e outros jovens que cometem crimes, por conta própria ou influência de adultos?
Ou melhor, a sociedade quer realmente lidar com eles ou prefere jogá-los para baixo do tapete, escondendo os erros que, ao longo do tempo, ela mesma cometeu?
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Cabeças de papel

Quando o já centenário jornal O Estado de S.Paulo deixou suas antigas instalações da Rua Major Quedinho, no centro de São Paulo, em 1976, para ocupar o majestoso prédio que construíra na Avenida Engenheiro Caetano Álvares, 55, junto à Marginal do Rio Tietê, corria à boca pequena nas redações paulistanas uma profética maldade: o Estadão agora, dizia-se, tem mais engenheiros do que jornalistas. E como todo boato tem um fundo de verdade, como cantava o velho samba de João Roberto Kelly, o chiste de então não era de todo desprovido de boas doses de realidade. O novo prédio era (é) enorme, com 40 mil metros quadrados de área construída, uma massa de concreto a se destacar em uma região à época quase deserta – e bem fornido de legiões de engenheiros responsáveis pela montagem e manutenção dos equipamentos industriais, no comando das operações logísticas e com assento nos núcleos decisórios da empresa.
A mudança fora anunciada com a devida pompa na edição de 4 de janeiro de 1974, dia do aniversário do jornal, que no ano seguinte comemoraria seus primeiros 100 anos de existência. O texto da página 15, em oito colunas (sim, os jornais eram diagramados em oito colunas), vinculava a nova sede a “um jornal ainda mais completo, ligado mais diretamente às fontes de informação do mundo inteiro e impresso com os últimos recursos da técnica eletrônica, [que] chegará muito mais cedo às mãos dos seus leitores a partir do segundo semestre de 1975, quando O Estado de S.Paulo estará ocupando suas novas instalações na Marginal do Tietê”. O terço inferior da página era tomado por um calhau da Rádio Eldorado, do Grupo Estado.
Houve contratempos, porém. A mudança só se concretizou em 1976, meses depois do prazo previsto, e, a julgar pelo fino traço de Hilde Weber (1913-1994), chargista do jornal, deu-se de forma algo atabalhoada (ver abaixo). Afora os percalços naturais de uma transferência de pessoas, móveis, máquinas e equipamentos dessa magnitude, os investimentos destinados à construção da nova sede provocaram um tremendo rombo no caixa da empresa e passaram-se anos até que os prejuízos pudessem ser devidamente equacionados. Até a próxima crise.
O chamado “milagre econômico” brasileiro já estava pela tábua da beirada e a dívida do Grupo Estado mantinha-se consolidada em dólar, junto ao Banco de Boston. Há informações seguras de que, antes da maxidesvalorização cambial capitaneada pelo então ministro do Planejamento Antonio Delfim Netto, em dezembro de 1979, numa prosaica festa de casamento no Guarujá a fina flor dos Mesquita obteve antecipadamente a preciosa informação, e de posse dela conseguiu salvar a empresa de um desastre de proporções inimagináveis. Mas esta é uma outra história.
Notícias na tela
A digressão histórica vem a propósito da notícia de mais uma mudança importante no Estadão, dentre as tantas por que vem passando nos últimos anos, em especial aquelas provocadas a partir da popularização da internet e da revolução suscitada pelos novos padrões de conectividade e interatividade. A grandiosidade do espaço físico ocupado pela empresa agora conta pouco, e o que vale mais é a qualidade da inteligência embarcada nos empreendimentos editoriais.
A nova configuração do jornal, anunciada na sexta-feira (5/4), muito provavelmente melhorará os indicadores financeiros da empresa no curto e médio prazos, mesmo porque é resultado de “um grupo de trabalho multidisciplinar (...) que congregou todas as áreas da empresa, [e] trabalhou durante 6 meses na revisão detalhada de todo o processo produtivo”. Não se deve duvidar da capacidade da engenharia de cortes de despesas envolvida na operação – esse pessoal não dá ponto sem nó. Mas, de outra parte, pelo menos à primeira vista a mudança não traz nada além de uma guaribada no produto papel, nenhuma proposta inovadora no segmento do jornalismo digital, nada de onde se infira uma diretriz editorial que privilegie investimentos no conteúdo oferecido à audiência. Uma reforma, em suma, pensada com cabeça de papel.
Para ficar apenas no exemplo mais eloquente, dá-se fim a um suplemento da qualidade do “Sabático”, responsável pela melhor cobertura de livros da imprensa brasileira, para não colocar nada no lugar – nem no papel, nem na web. As incursões na área digital, nesse primeiro momento, ficaram restritas a um aplicativo que o jornal desenvolveu para ser embutido em aparelhos de televisão Samsung, que “possibilitará ao usuário ter acesso a notícias diretamente sobre o vídeo que estiver assistindo” (ver “Estado é primeiro jornal brasileiro nas TVs conectadas”). Grande coisa. Mais vale um gadget na mão do que uma proposta editorial voando.
Quatro grandes
Reestruturações de processos produtivos que implicam dispensa de mão de obra qualificada sempre correm o risco de dar com os burros n’água. É uma questão de tempo. Engenheiros são brilhantes no manejo de projetos e planilhas, sabem extinguir jornais – como o fizeram com o Jornal da Tarde – mas têm dificuldades em compreender os benefícios da saudável diversidade que já caracterizou as melhores redações do país.
Enxugar pessoal, reduzir o número de páginas e acabar com chamada “edição nacional” não traz novidade alguma – mesmo porque algo como 90% da circulação do Estadão se concentra na Grande São Paulo e nas regiões metropolitanas de Campinas, Baixada Santista e Vale do Paraíba, próximas à capital. E embora os novos tempos sejam propícios à homogeneização de corações e linguagens, à imagem e semelhança de seus mentores, nesta última reforma o Estado de S.Paulo pode estar jogando fora uma rara oportunidade radicalizar na diferenciação, de apostar na qualidade jornalística em átomos e em bits, e com isso demarcar no mercado jornalístico uma postura própria, distinta da concorrência. Mais investimento em jornalismo, não menos.
Entre os quatro mais importantes jornais do país, o Valor Econômico (sociedade dos grupos Folha e Globo) corre sozinho em seu nicho de mercado, e estreou recentemente o Valor PRO, um serviço de informações financeiras concorrente direto do Broadcast, da Agência Estado; a Folha de S.Paulo conta um bem posicionado jornal local – o Agora, em São Paulo – e o UOL, o maior portal de internet do país, em conteúdo e serviços; e o diário O Globo está alicerçado no mais poderoso grupo multimídia do Brasil.
E o Estado de S.Paulo tem o quê, depois da perda do Jornal da Tarde, do fim dos negócios de listas telefônicas e classificados (a mina de ouro na era pré-digital) e das operações erráticas na área de rádio? Tem um monte de acionistas. E está desperdiçando o melhor de sua tradição centenária: a excelência do conteúdo.
Luiz Egypto
No Observatório da Imprensa
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Blogueiros criam fundo e sugerem Lúcio Flávio como beneficiário

Aberta a conta do fundo dos blogueiros

Banco do Brasil, agência 4300-1, conta corrente número 50.530-7.

Esta é a conta especial para arrecadar recursos para o fundo de apoio aos blogueiros vítimas de processos judiciais e perseguições políticas. Conforme o aprovado na reunião de terça-feira passada (2) (leia abaixo), na sede do Centro de Estudos Barão de Itararé, este fundo será o pronto-socorro da blogosfera não corporativa. O dinheiro arrecadado será utilizado para cobrir custas de processos e advogados – e não para saldar multas e indenizações anteriores. A definição do apoio caberá à Comissão Nacional dos Blogueiros, eleita em junho passado, no III Blogprog em Salvador, e composta por representantes de 15 estados e mais nove integrantes nacionais. Blogueiros com mais estrutura, que já contam com assistência jurídica, abriram mão do uso do fundo para favorecer os ativistas digitais com maiores dificuldades financeiras.
Para ajudar nas futuras batalhas judiciais, nos últimos dias o Barão de Itararé também promoveu várias reuniões com advogados de renome e entidades de direitos humanos. Todos se comprometeram a ajudar na defesa do blogosfera e da liberdade de expressão, inclusive dando assistência nos processos locais e acompanhando os processos quando eles cheguem às instâncias nacionais. O Barão de Itararé ainda firmou uma parceria com a ONG Artigo 19, especializada na luta pela liberdade expressão, para elaborar o “Mapa da violência contra os blogueiros e ativistas digitais”. O questionário será postado em vários sítios e blogs na próxima semana. Durante um mês, as vítimas de ameaças, violências e processos judiciais deverão preencher o questionário. Na sequência, para garantir maior segurança nas informações, os dados serão checados. A pesquisa resultará num relatório que será encaminhado a ONU e outros organismos internacionais e nacionais.


 
Reunidos na sede do Centro de Estudos de Mídia Barão de Itararé, em São Paulo, blogueiros, ativistas, militantes de partidos políticos, movimentos sociais e advogados decidiram, por consenso, criar um fundo para socorrer financeiramente colegas que sejam alvo de processos judiciais, ameaças ou violência em todo o Brasil.
O fundo de emergência será inicialmente organizado pelo Conselho Nacional da blogosfera, formado por 26 ativistas de todo o Brasil no mais recente encontro da entidade, em Salvador, na Bahia. Uma conta bancária receberá as contribuições de internautas, por enquanto em nome do Barão de Itararé. Decidiu-se também que a entidade terá um corpo jurídico exclusivamente devotado à defesa de blogueiros.
Segundo Altamiro Borges, presidente do Centro, a judicialização do debate político e a ameaça a poderes nunca antes questionados multiplicou o número de ações, que incluem ameaças, agressões e assassinatos.
“Os coronéis acostumados a mandar sem contestação ou crítica, seja em nível nacional, estadual ou local, encontram na Justiça frequentemente o caminho para calar ou intimidar a blogosfera”, afirmou Altamiro. “Com isso, escapam do debate das questões políticas de fundo, como a da democratização da mídia, para um terreno no qual dispõem de maiores recursos”, aduziu.
Presentes, os blogueiros Paulo Henrique Amorim, Rodrigo Vianna e Lino Bocchini — além deste que vos escreve –, que enfrentam na Justiça ações movidas por grandes corporações da mídia, declararam que não pretendem recorrer ao fundo, nem agora nem no futuro. Conceição Lemes, editora-chefe do Viomundo, explicou: “Há gente que nem dispõe de advogado e que, por falta de recursos, se cala diante de autoridades em várias partes do Brasil. Não é o nosso caso”.
Eduardo Guimarães deixou claro: “É importante que o fundo de apoio a blogueiros tenha critérios claros e pré-estabelecidos para aqueles que serão beneficiados em caso de necessidade. Sugiro que os que se interessarem por tal apoio façam uma contribuição mensal — pequena, talvez simbólica –, de forma que integre o esforço que está sendo empreendido e, assim, faça jus ao eventual apoio do qual poderá vir a precisar. Dessa maneira, não haverá questionamento sobre quem vier ou não a ser apoiado”.
Embora as decisões futuras ainda dependam do Conselho Nacional, vários oradores lembraram como absolutamente prioritário o caso do jornalista/blogueiro Lúcio Flávio Pinto, do Pará. Editor do Jornal Pessoal, Lúcio Flávio foi condenado pelo Superior Tribunal de Justiça a indenizar Cecílio do Rego Almeida, a quem acusou de ser grileiro de terras.
A versão mais recente do Jornal Pessoal critica o PT pela homenagem póstuma a Cecílio, proposta pelo deputado federal André Vargas, do Paraná, com apoio de José Mentor (PT-SP), conforme noticiou aqui o Viomundo.
Na edição, porém, Lúcio Flávio comemora:
“Pará recupera terras
Graças à justiça federal, o Pará vai ter de volta ao seu patrimônio quase cinco milhões de hectares de terras de que o grileiro Cecílio do Rego Almeida tentou se apossar. Os sucessores do empresário perderam o prazo do recurso e a sentença condenatória transitou em julgado.”
Através de coleta realizada via internet, Lúcio Flávio arrecadou os R$ 25.116,75 que depositou em juízo para indenizar Cecílio, depois que desistiu de recorrer no STJ. Antes, havia se perguntado: “O grileiro vencerá?”.
Apoiadores de Lúcio Flávio mantém o blog Todos com Lúcio Flávio Pinto, aqui.
Segundo o site, Lúcio Flávio também foi alvo de 15 processos judiciais, penais e cíveis movidos por uma das familias mais ricas do Pará, que controla as Organizações Maiorana, detentora entre outros negócios da concessão local da Rede Globo de Televisão.
Ao lamentar que seus recursos não tenham sido acolhidos pela Justiça, Lúcio Flávio afirmou então: “Os tribunais se transformaram em instâncias finais. Não examinam nada, não existe mais o devido processo legal. E isso não acontece só comigo. São milhares de pessoas em todo o Brasil, todos os dias, que não têm direito ao devido processo legal. Em 95% dos casos julgados no país rejeitam-se os recursos. Não tem jeito”.
Reconhecido com o Prêmio Especial Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos em 2012, Lúcio Flávio edita o Jornal Pessoal há 25 anos, é uma das vozes mais respeitadas em questões relativas à Amazônia e se tornou símbolo da resistência da palavra contra o poder.
“A persistência de Lúcio Flávio nos anima a todos”, declarou ontem a blogueira Conceição Oliveira.
Os presentes também decidiram dar apoio aos atos previstos contra as Organizações Globo no dia 26 de abril, quando a emissora comemora 48 anos de idade. Os atos serão organizados pela Frentex — Frente Paulista pelo Direito à Comunicação e Liberdade de Expressão — e  o FNDC — o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação.
As duas entidades acreditam que a Globo simboliza a concentração midiática e a falta de diversidade que se dedicam a combater. Manifestações similares aconteceram em anos anteriores. Em 2007, por exemplo, o ativista Bráulio Ribeiro, do Intervozes, declarou:
‘Todos sabem que, nesses 42 anos, a Globo tem atuado quase como um partido político, defendendo teses, candidatos e projetos que lhe interessam no Congresso. E faz tudo isso usando um bem público, que é o espectro radioelétrico. Mas, assim como qualquer emissora de rádio ou televisão, a Globo é uma concessionária de um bem público. Portanto, o interesse público é que deveria reger o uso desse bem’, explica Ribeiro.
Desde então, pouco mudou, como ficou claro em episódios como o da bolinha de papel nas eleições presidenciais de 2010 e nos 18 minutos dedicados pelo Jornal Nacional a uma “retrospectiva” do mensalão, na semana que antecedeu o segundo turno das eleições municipais de São Paulo, em 2012. Nos dois casos, coincidentemente, o candidato tucano José Serra enfrentou adversários do PT.
Durante o encontro, Altamiro Borges anunciou que está praticamente pronto um levantamento nacional sobre os processos, ameaças, perseguições e assassinatos cometidos contra blogueiros, que será encaminhado junto com uma carta-denúncia à Organização dos Estados Americanos e às Nações Unidas.
O mapa dará origem a um blog dos ameaçados, que será linkado nos principais endereços da blogosfera de esquerda do Brasil.
Os blogueiros presentes também prometerem apoio ao Projeto de Iniciativa Popular de um novo marco regulatório das comunicações organizado pela campanha Para Expressar a Liberdade, que será apresentado ao Congresso nos moldes do projeto que acabou dando origem à Lei da Ficha Limpa. O objetivo é recolher pelo menos um milhão de assinaturas. A coleta começa no dia do aniversário da Globo mas deverá ganhar força ainda maior no Primeiro de Maio, quando a Central Única dos Trabalhadores (CUT) dedicará as comemorações do Dia do Trabalho a defender “o direito de todos à palavra”.
PS do Viomundo: Durante o evento, Paulo Henrique Amorim lembrou o mote do mais recente encontro de blogueiros, o “Nada além da Constituição”, ou seja, tudo o que se pretende é que a Constituição de 1988 seja cumprida ao pé da letra.
PS do Viomundo2: Nossos agradecimentos ao senador Roberto Requião e aos deputados Paulo Pimenta e José Genoino, que manifestaram publicamente sua defesa deste blog e da blogosfera no caso das ações judiciais.
Luiz Carlos Azenha
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Carrocinha de pipoca

Eu sei que a coisa é séria. Se o Kim Jong-Un disparar mesmo os foguetes que está ameaçando disparar contra bases americanas na Ásia, teremos uma guerra nuclear com dimensões e consequências imprevisíveis. Mas lendo sobre o perigo iminente não pude deixar de pensar na história do homem que foi atropelado por uma carrocinha de pipoca.
Era um homem cauteloso, que olhava para os dois lados antes de atravessar a rua e só atravessava no sinal, e que dificilmente um carro pegaria. Mas que um dia não viu que vinha uma carrocinha de pipoca, e paft. Já no ambulatório do hospital, onde lhe deram uns pontos no braço, o homem disse que tinha sido atropelado por um motoboy.
Em casa, contou que tinha sido atropelado por um carro e só por sorte escapara da morte. Naquela noite, para os amigos que souberam do acidente e foram visitá-lo, especificou: tinha sido atropelado por um BMW.
No dia seguinte disse aos colegas de trabalho que tinha sido atropelado por um caminhão e não sofrera mais do que um corte no braço, por milagre. E quando um dos colegas de trabalho comentou que tinha visto o acidente e vira o homem ser atropelado por uma carrocinha de pipoca, gritou: “Calúnia!”
Por que me lembrei do homem que tinha vergonha de ter sido atropelado por uma carrocinha de pipoca?
Desde o fim da Guerra Fria a possibilidade de um confronto nuclear entre duas potências, os Estados Unidos e a Rússia, diminuiu, mas os estoques de armas nucleares continuaram e sua proliferação também. Israel se segura para não usar seus foguetes para destruir as bombas nucleares que o Irã está ou não está construindo, Índia e Paquistão vivem comparando seus respectivos arsenais nucleares como guris comparando seus pipis, a França e a Inglaterra têm a bomba...
Enfim, ainda se vive num frágil equilíbrio de terror possível, exigindo de todos os nucleares um cuidado extremo, um cuidado de atravessar a rua sem serem atropelados pelo imprevisto. E aí aparece o Kim Jong-Un empurrando uma carrocinha de pipoca em alta velocidade...
* * *
Margaret Thatcher, aquela que encantou tantos com sua sentença de que sociedade não existe, lutou duas grandes guerras: uma contra o sindicato dos mineiros ingleses e outra contra os argentinos para que as Ilhas Malvinas continuassem Falklands. Esta última teve mais mortos, mas foi mais fácil.
Sua vitória sobre os mineiros arrasou com os sindicatos e lhe deu forças para arrasar com o sistema de bem-estar social da Inglaterra, e sua vitória sobre os generais de opereta da Argentina lhe rendeu glória e votos. No seu prontuário, além dos mortos para conservar um cisco do império no Atlântico Sul, estão presos irlandeses em greve de fome, que ela deixou morrer, e todas as vítimas do neoliberalismo triunfante.
Luis Fernando Veríssimo
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Jon Lee Anderson: não, Thatcher não era uma “campeã da liberdade”, Obama

(tem gente que prefere Thatcher e Pinochet…)
(…a Allende e Neruda. Fazer o quê?)
O jornalista norte-americano Jon Lee Anderson, autor da biografia de Che Guevara, publicou este ótimo texto no blog da prestigiada revista The New Yorker. Tomei a liberdade de traduzi-lo para que vocês o vejam colocar a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, morta na segunda-feira 8 de abril, em seu devido lugar na história da democracia, muito além dos elogios que tratam de canonizá-la post mortem. Leiam.
***

Neruda, Pinochet e Thatcher: encontrando justiça nos restos mortais exumados de um poeta

Por Jon Lee Anderson
É curioso, historicamente falando, que Margaret Thatcher tenha morrido no mesmo dia em que os peritos criminais no Chile exumaram os restos do grande poeta chileno Pablo Neruda. Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1971 e autor do épico Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada, Neruda morreu com 69 anos (supostamente de um câncer de próstata), apenas doze dias depois do violento gope de Estado de 11 de setembro de 1973, organizado pelo comandante do exército, Augusto Pinochet, contra o presidente socialista eleito, Salvador Allende. Os aviões de combate bombardeavam o Palácio Presidencial e Allende resistia com valentia, mas cometeria o suicídio, com um fuzil que lhe havia sido presenteado pelo presidente de Cuba, Fidel Castro, quando os capangas de Pinochet tomaram o prédio. Neruda era muito amigo e apoiador de Allende; estava doente, mas planejava sair do país rumo ao México, onde havia sido convidado a se exilar. Enquanto jazia no leito de morte em uma clínica, sua casa foi destroçada pelos militares.
Em seu funeral, uma enorme multidão marchou pelas ruas de Santiago – uma cidade sombria e praticamente vazia, exceto pelos veículos militares. Diante de sua tumba, em um dos poucos atos conhecidos contra o golpe de Estado nos dias que se sucederam, os assistentes cantaram a Internacional e saudaram Neruda e também Allende. Ao mesmo tempo, os homens do regime rodeavam a cidade, queimando livros de autores proscritos e caçando aqueles que pudessem achar, para torturar ou matar.
Um par de anos atrás, o ex-motorista de Neruda expressou a suspeita de que Neruda havia sido envenenado, dizendo ter ouvido do poeta que os médicos lhe deram uma injeção e que, imediatamente depois, seu estado piorou drasticamente. Há outras pequenas evidências que reforçam sua teoria, mas nada conclusivo. Agora, é possível que a criminalística proporcione a resposta a uma incômoda pergunta histórica.
Por que trazer Maggie Thatcher a isso? Segunda-feira, em nota oficial, o presidente Barack Obama disse que Thatcher foi “uma das grandes campeãs da independência e da liberdade”. Na verdade, ela não foi. Thatcher foi uma feroz combatente da Guerra Fria e, no que diz respeito ao Chile, nunca mostrou a devida compaixão pelas pessoas que Pinochet matou em nome do anti-comunismo. Preferia falar do tão alardeado “milagre econômico chileno”.
E matar foi o que ele fez. Os soldados de Pinochet reuniram milhares de suspeitos no estádio nacional do país e, ali mesmo, os levaram aos vestiários, corredores e arquibancadas para torturá-los e assassiná-los a tiros. Centenas morreram nesta situação. Um deles foi o reverenciado cantor chileno Victor Jara, que foi massacrado, suas mãos e costelas quebradas e em seguida metralhado, seu corpo jogado fora como lixo num beco da capital –junto com muitos outros. A matança continuou inclusive depois que Pinochet e seus militares tiveram o firme controle do poder; só que era feito em segredo, nos quartéis militares, em edifícios da polícia e no interior do país. Críticos e opositores do novo regime também foram assassinados em outros países. Em 1976, a agência de inteligência de Pinochet planejou e executou um atentado com carro-bomba em Washington que acabou com a vida do ex-embaixador chileno nos Estados Unidos na gestão Allende, Orlando Letelier, assim como de seu auxiliar norte-americano Ronni Moffitt. A Grã-Bretanha qualificou a matança de Pinochet como inadequada e implementou sanções ao regime, negando-lhe prover armamentos – isso até que Margaret Thatcher se tornou primeira-ministra.
Em 1980, um ano depois que Thatcher tomou posse, acabou o embargo de armas a Pinochet; logo ele estava comprando armamentos do Reino Unido. Em 1982, durante a Guerra das Malvinas, Pinochet ajudou o governo de Thatcher com informações de inteligência sobre a Argentina. A partir daí, a relação se tornou absolutamente confortável, tanto que Pinochet e seus familiares começaram a fazer uma peregrinação particular anual a Londres. Durante estas visitas, eles e os Thatcher comiam juntos e bebericavam uísque. Em 1998, quando eu estava escrevendo um perfil de Pinochet para The New Yorker, Lucía, a filha de Pinochet, descreveu a senhora Thatcher com reverência, mas confidenciou que o comportamento do marido da Primeira-Ministra, Dennis Thatcher, era um tanto embaraçoso e que ele costumava ficar bêbado nos encontros. A última vez que me encontrei com o próprio Pinochet em Londres, em outubro de 1998, ele me disse que ia telefonar a “La Señora” Thatcher com a esperança de que tivesse tempo de encontrá-lo para o chá. Duas semanas depois, Pinochet, ainda em Londres, foi preso por ordem do juiz espanhol Baltasar Garzón. Durante a prolongada quase-detenção de Pinochet, em uma casa confortável no subúrbio londrino de Virginia Water, Thatcher mostrou sua solidariedade ao visitá-lo. Ali, diante das câmeras de televisão, expressou a dívida da Grã-Bretanha com seu regime: “Sei o quanto devemos ao senhor” por “sua ajuda durante a campanha das Malvinas”. Também disse: “Foi você quem levou a democracia ao Chile”.
(imagens do encontro)
Isso, naturalmente, é uma deturpação de proporções tão gargantuescas que não pode ser menosprezada como excesso de zelo de um amigo leal.
Pinochet morreu em 2006 sob prisão domiciliar e enfrentando mais de 300 processos criminais por violação de direitos humanos, evasão fiscal e malversação de fundos. Naquela época, suspeitava-se que tinha mais de 28 milhões de dólares escondidos em contas secretas em vários países, sem nenhum sinal de que haviam sido obtidos legalmente. No final, a única defesa de Pinochet foi uma humilhante alegação de demência –de que não era capaz de se lembrar de seus crimes. O derradeiro ataque cardíaco veio antes de que pudesse ser condenado.
Durante os anos do que poderia se chamar de retorno do Chile à democracia – quando Pinochet foi forçado a deixar a presidência após um plebiscito sobre seu mandato, que perdeu – pouco se fez para exorcizar de fato os demônios do país, e muito menos julgá-los. Pinochet  conservou o comando das forças armadas e quando se retirou, em 1998, tornou-se senador vitalício, o que lhe dava imunidade a processos judiciais. Até sua prisão na Grã-Bretanha, os presidentes que governaram o Chile “democrático” continuavam a caminhar na ponta dos pés ao redor do fato de que o ex-torturador em chefe do país seguia ditando os termos do debate nacional sobre seu passado recente. No entanto, 16 meses após o retorno à casa, Pinochet perdeu a imunidade parlamentar, foi indiciado criminalmente por alguns dos crimes da era golpista, e permaneceu boa parte do resto de sua vida em prisão domiciliar. Mas foi Michelle Bachelet, presidenta do Chile de 2006 a 2010 – a filha de um general que se opôs ao golpe e foi torturado até que morreu de um ataque do coração na prisão –, quem acabou com a tradição de deferência.
Num país onde, por décadas, a história foi enterrada, é justo que os chilenos desenterrem Neruda para averiguar o que aconteceu com ele. Em certo sentido, Neruda foi o Lorca chileno, o poeta espanhol assassinado nas primeiras semanas do golpe de estado fascista de Francisco Franco na Espanha em 1936, e cujo sangue tem sido uma mancha na consciência do país desde então.
O Chile tem agora a chance de fazer a coisa certa por seu poeta. A casa de praia de Neruda na Isla Negra, a alguns quilômetros de Santiago pela costa, é uma encantadora, modesta residência numa praia rochosa, com janelas que se abrem para o mar e decorada com a lírica coleção de carrancas de velhos barcos do poeta. Ele e sua viúva, Matilde Urrutia, foram sepultados ali, e foi lá que os peritos foram buscar a verdade sobre o que ocorreu. Mesmo que Neruda tenha morrido de câncer, como se disse na época, sua exumação é uma oportunidade para reforçar a mensagem aos autoritários de toda parte que as palavras de um poeta sempre durarão mais que as suas, e ainda mais que a adulação cega de seus poderosos amigos.
No Socialista Morena
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