1 de abr de 2013

O sequestro da Petrobras

http://www.teslaconcursos.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/10/abertura_petrobras.jpg 
É preciso evitar que a agenda da crise paralise e ensombreça o Brasil.
Quem adverte são economistas simpáticos ao governo, preocupados com a prostração em que se encontra o debate do desenvolvimento.
Seriam eles os últimos a subestimar o teor sistêmico da desordem internacional, cuja implosão, na verdade, previram e advertiram.
Mais que isso.
Atuam para mitigar seus efeitos no país. São ouvidos e consultados pelo governo na implantação de contrapesos estratégicos.
Baixar as taxa de juros, reduzir o superávit primário e corrigir o câmbio, por exemplo. No limite, se necessário, adequar a meta de inflação.
O fundamental é assegurar a travessia do colapso mundial sem trazer a crise para dentro do Brasil, como anseia o conservadorismo.
A agenda mercadista mal disfarça esse propósito.
Com os meios generosos a sua disposição, difunde a fatalidade cinza em cada esquina.
A ênfase sobressaltada atende a interesses de bolso, ideologia e palanque.
É um bloco respeitável. Exacerbado pelo poder desigual de vocalização que o monopólio midiático lhe confere.
Tome-se o Brasil das manchetes, que não raro agridem o próprio texto. Tome-se a negligência diante das decisões estratégicas anunciadas na reunião dos BRICS, em Durban.
As cinco maiores economias emergentes criaram nada menos que um ensaio de FMI keynesiano; e um Banco Mundial de investimento, fora da hegemonia dos EUA. As manchetes preferiram espetar em Dilma a 'negligência com a inflação'.
Tome-se, ainda, o silencioso, mas expressivo processo de reindustrialização dos EUA, que está trazendo de volta a manufatura de alta tecnologia.
Enfim, a crise continua, mas o mundo se move.
A prostração inoculada diuturnamente pelo noticiário econômico recusa ao Brasil a capacidade de dizer: ‘eppur si muove’.
É um objetivo político, não um recorte isento.
A escolha menospreza singularidades locais que podem subverter a dinâmica da crise entre nós, dizem os economistas.
Eles dispensam os exemplos mais notórios desses trunfos - o mercado de massa expandido nos últimos 11 anos e os níveis recordes de emprego.
Preferem se fixar em uma alavanca quase épica que foge ao estereótipo de um debate vicioso e datado sobre o desequilíbrio entre oferta e demanda, entre inflação e juros.
O passo seguinte do desenvolvimento brasileiro, dizem eles, está no impulso industrializante contido no pré-sal.
A paralisia da industrialização brasileira é real e afeta todo o tecido econômico.
Asfixiada pelo câmbio valorizado e pela concorrência chinesa, a indústria brasileira de transformação perdeu elos importante, em diferentes cadeias de fornecimento de insumos e implementos.
Não é um fenômeno recente, mas é progressivo.
O PIB cresceu em média 2,8% entre 1980 e 2010; a indústria da transformação cresceu apenas 1,6%, em média. Sua fatia nas exportações recuou de 53%, entre 2001-2005, para 47%, entre 2006-2010 .
O mais preocupante é o recheio disso.
Linhas e fábricas inteiras foram fechadas. Clientes passaram a se abastecer no exterior. Fornecedores se transformaram em importadores. Apenas carimbam seu logotipo ao lado do fabricante estrangeiro. Empregos industriais foram eliminados; o padrão salarial do país foi afetado, para pior.
É possível interromper essa sangria, com redução de juros, incentivos, desonerações, protecionismo e ajuste do câmbio, como tem sido feito pelo governo.
Mas é difícil, muito, reverter buracos consolidados.
O dinamismo que se perdeu teria que ser substituído por um gigantesco esforço de inovação e redesenho fabril, a um custo que um país em desenvolvimento dificilmente poderia arcar.
Exceto se tivesse em seu horizonte a exploração soberana, e o refino, das maiores jazidas de petróleo descobertas no século 21.
É esse bilhete premiado que o pré-sal representa para o Brasil.
São cerca de 50 bilhões de barris de petróleo, guardados a 300 km da costa e cerca de seis mil metros abaixo da superfície d’água.
O país tem tecnologia para tirá-lo de lá. Na verdade, a Petrobras detém a ponta dessa tecnologia no mundo.
Esse trunfo avaliza a possibilidade da reindustrialização, como resposta brasileira à crise.
A agenda enfatizada pelos economistas é o oposto do que alardeia o conservadorismo.
Seu empenho, neste momento, é sequestrar a Petrobras para o palanque da campanha sombria: o ‘Brasil que não dá certo’.
Os números retrucam.
O pré-sal já produz 300 mil barris/dia. Em quatro anos, a Petrobras estará extraindo 1 milhão de barris/dia da Bacia de Campos.
Até 2017, a estatal vai investir US$ 237 bilhões; 62% em exploração e produção.
Dentro de quatro anos, os poços do pré-sal estarão produzindo um milhão de barris/dia. Em 2020, serão 2,1 milhões de barris/dia.
Praticamente dobrando da produção atual.
O pré-sal mudou o tamanho geopolítico do Brasil.
Não existe automatismo econômico que leve ao desenvolvimento: os efeitos virtuosos desse salto no conjunto da economia brasileira exigiam um lacre de segurança.
Ele foi fixado em lei, no governo Lula.
O marco regulador do pré-sal - aprovado com a oposição de quem agora agita a bandeira da defesa da Petrobras - institui o regime de partilha e transfere o comando de todo o processo tecnológico, logístico, industrial, comercial e financeiro da exploração à estatal.
Todos os contratados assinados nesse âmbito passam a incluir cláusula obrigatória de conteúdo nacional nas compras – da ordem de 60% , pelo menos.
Esse é o ponto de mutação da riqueza do fundo do mar em prosperidade na terra.
Toda uma cadeia de equipamentos, máquinas, logística, tecnologia e serviços diretamente ligados, e também externos, ao ciclo do petróleo será alavancada nos próximos anos.
O conjunto pode fazer do Brasil um grande exportador industrial nessa área.
É sobre isso que os economistas falam quando demonstram impaciência com o círculo vicioso de fatalismo embutido na pauta conservadora da crise.
O mais difícil foi feito.
O novo marco regulador transfere à Petrobras a responsabilidade soberana de harmonizar duas variáveis básicas: o ritmo da extração e do refino; e a capacidade brasileira de atender à demanda por plataformas, máquinas, barcos, sondas etc.
Se a exploração corresse livre, como gostariam a república dos acionistas e as multinacionais, o fôlego da indústria local seria atropelado.
Todo o efeito multiplicador vazaria na forma de importações e geração de empregos lá fora.
Não são apenas negócios, portanto.
Cerca de 300 mil jovens brasileiros serão treinados nos próximos anos pelo Promimp, o Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural.
Sem o novo marco regulador, que sofreu um cerco beligerante do conservadorismo, eles seriam desnecessários.
A arquitetura da soberania pressupõe, ainda, forte expansão da rede brasileira de refinarias, estagnada desde 1980.
Cinco plantas estão sendo construídas, simultaneamente.
Tudo isso causa erupções cutâneas na pátria dos dividendos, que prefere embolsar lucros rápidos, com o embarque predatório de óleo bruto.
O parque tecnológico de ponta que está nascendo na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro, com laboratórios de todo o mundo, é um desperdício do ponto de vista dessa lógica.
Ele é uma espécie de berçário da reindustrialização que se preconiza.
Dali sairão inovações e tecnologias que vão irradiar saltos de eficiência e produtividade em toda a rede de fornecedores nacionais do pré-sal.
É desse amplo arcabouço de medidas e salvaguardas que poderão jorrar os recursos do fundo soberano para erradicar as grandes iniquidades que ainda afligem a população brasileira.
Tudo isso é sabido. Mas passa hoje por um moedor de memória e esperanças, destinado a triturar a reputação da estatal, que detém o comando sobre esse processo.
Desqualificá-la é um requisito para reverter a blindagem em torno de uma riqueza, da qual as petroleiras internacionais e o privatismo de bico longo ainda não desistiram.
A Petrobras passa por ajustes compreensíveis depois do gigantesco estirão desencadeado pelas descobertas do pré-sal.
Uma crise planetária atravessou o seu caminho e o do seu faturamento, bem como o de todas as grandes corporações do planeta. Após o colapso de 2008, a cotação do barril de petróleo recuou de US$150 para US$ 35.
Ainda assim, seu lucro em 2012 foi de R$ 21,18 bilhões.
Ficou em R$ 8 bilhões, ao final do governo do PSDB.
A narrativa que ensombrece o país capturou a Petrobras para a pauta da crise sem fim.
Cabe ao governo, em primeiro lugar, pôr ordem no seu próprio salão.
E trazê-la de volta para a agenda do desenvolvimento.
Saul Leblon
No Carta Maior
Leia Mais ►

Jango, o subversivo, e a traição militar


http://img80.imageshack.us/img80/9370/goulartba0.jpg 

Depois de passar três anos estudando a vida de João Goulart e de ter lido mais de dez mil páginas de documentos sobre a sua ascensão, queda e morte no exílio, cheguei a uma conclusão devastadora: Jango era um subversivo. Sim, os militares que o derrubaram, a serviço de civis conservadores e dos interesses dos Estados Unidos, traindoa a pátria, tinham razão: Jango era um perigoso subversivo.
A primeira subversão aconteceu quando ainda ele era ministro do Trabalho de Getúlio Vargas e convenceu o presidente a dar um aumento de 100% no salário mínimo. Pressionado por um manifesto de coronéis dotados de idealismo cívico e materialismo patronal, Getúlio demitiu Jango. Mas deu o aumento.
Nada mais subversivo do que um aumento desses em favor da ralé. Instalado no poder, Jango desandou a praticar ou a propor atos subversivos.
Um deles, dos mais perigosos e lesivos aos cofres dos patrões gananancios, continua a melhorar os nossos fins de ano: em julho de 1962, o fazendeiro subversivo – guindado ao Planalto graças à loucura bem rasteira de Jânio Quadros – fez aprovar o décimo-terceiro salário.
Num país em que parlamentares ganhavam até poucos dias 15 salários por ano e continuam a inventar subterfúgios para mamar, Jango criou um décimo-terceiro salário para todo mundo. Não é coisa de comunista? Não se deve ter ódio de um homem que defende cem por cento de aumento no salário mínimo e concebe um décimo-terceiro salário para os trabalhadores? Ô horror!
A veia subversiva de Jango acentuou-se com o passar do tempo.
Numa nação de altíssima concentração de terras e de uma massa de miseráveis parasitada por uma elite estúpida, voraz e impiedosa, decidiu fazer uma reforma agrária. Aí foi demais! As forças “sensatas”, “produtivas” e “ordeiras” da nação trataram de armar-se contra tamanho despautério. De quebra, Jango resolveu que era também necessária uma reforma urbana, fazendo com que imóveis fechados pudessem ser habitados.
Não satisfeito, queria também defender a população da alta dos preços. Num dos seus arroubos subversivos, achou interessante estender a legislação trabalhista ao mundo rural que continuava a viver na Idade Média.
A tendência subversiva de Jango era tamanha que ele, feito um louco vermelho, influenciado por doidos subversivos como Darci Ribeiro, pretendeu que os pobres também deveriam chegar às universidades. Uma loucura.
Por fim, atolado na subversão, começou a achar natural que subalternos de certos setores das forças armadas pudessem casar-se. O subversivo Jango chegou ao ponto de semear a indisciplina nos meios militares considerando normal que detentores de postos inferiores pudessem “contrair” matrimônio.
Melhor nem falar na questão de votar e ser votado.
Agora entendo melhor os golpistas de 1964 que atuaram patrioticamente em favor dos Estados Unidos da América. Era preciso agir, derrubar o homem, afastá-lo do Brasil, impedi-lo de voltar, fazer tudo o que os EUA pedissem. Com ele no poder, o Brasil corria um risco terrível de ficar melhor.
Olhando para trás, penso que se pode perdoar Jango por quase tudo, menos pelo décimo-terceiro salário. Que ideia altamente subversiva! Obrigar os pobres patrões a darem mais uma lasquinha dos seus modestos ganhos aos trabalhadores. Essa, com certeza, foi uma das ações mais subversivas de Jango. Só ela já justificaria o golpe. Depois, viriam a reforma a agrária, a lei da remessa de lucros para o estrangeiro e outras reformas de base.
Nunca a traição à pátria foi tão justificada.
Juremir Machado da Silva
Leia Mais ►

Dilma de fôlego próprio

As mais recentes pesquisas de intenções de voto do mês de março mostram que a candidatura da presidenta Dilma Rousseff ganhou identidade própria e que, já agora, apenas uma fatia menor do eleitorado ainda pensa em Lula como alternativa a ela. Segundo o Ibope, ela é citada espontaneamente por 35% dos eleitores. Lula baixou de 19% para 12%.
Entre novembro de 2012 e agora, Dilma subiu 9 pontos porcentuais. Somados os números da atual presidenta e do ex-presidente, o potencial de votos na petista alcança 47%. Dos 7 pontos a menos de Lula, 6 escoaram para ela.
Pesquisa de intenção de voto Ibope
Pesquisa de intenção de voto Ibope
Nunca antes um candidato à reeleição tão distanciado da disputa atingiu nível tão elevado de intenções de voto em pesquisa espontânea. Nesse processo de escolha, não são apresentados ao pesquisado os nomes dos candidatos. Em março de 2006, seis meses antes da reeleição, Lula tinha 27%. Em julho de 1998, três meses antes da disputa pela reeleição, Fernando Henrique tinha 25%.
Isso indica que, salvo pesados temporais e fortes trovoadas, em 2014 Dilma será uma candidata forte, por si só, e com a vantagem adicional de ter um cabo eleitoral poderosíssimo como Lula. Com isso poderá até mesmo, como se especula, fechar a eleição no primeiro turno.
Considerando os antecedentes da candidata, o fato é surpreendente. Ainda mais se for levado em conta o tiroteio diário que sofre da mídia conservadora. Não se pode negar que isso dá a ela a possibilidade de adiar o momento de enfrentar a questão secundária, o novo marco regulatório.
Mas falta alguma prova mais consistente de que, por isso, Dilma deixe o ministro Paulo Bernardo sentado sobre um problema que transcende situações políticas pessoais.
Em dois anos de governo, Dilma Rousseff ganhou identidade, mas nesse período ela pagou por ter cão e por não ter cão. A sisuda desconhecida foi comparada a um “poste” quando foi lançada candidata à Presidência. Acusada posteriormente de não saber fazer política, foi, enfim, condenada por supostamente fazer política com olho na eleição de 2014.
Essa condenação ficou clara na troca de ministros que ela fez recentemente. O objetivo foi fortalecer a coalizão governista. Quando a presidenta montou o governo, após tomar posse, o que ela fazia senão isso? Trocar ministros é tão normal quanto trocar o óleo do carro. A consequência natural de uma coisa e de outra é tentar melhorar o desempenho.
Pré-candidato à Presidência, o senador tucano Aécio Neves sentiu o golpe e disse que o objetivo dela era ganhar mais tempo na propaganda eleitoral em 2014. Desde sempre foi assim. Em 2010, a petista, além do apoio do PMDB do vice, Michel Temer, montou uma aliança com mais oito partidos. Com isso teve um tempo de propaganda de quase dez minutos e meio. O tucano José Serra contou com cinco partidos aliados e com mais de sete minutos de propaganda.
Estabilizado esse cenário, até 2014 a oposição busca a saída com a construção de um mutirão de candidatos para tentar levar a eleição para o segundo turno.
Há quatro possíveis atores influentes nesse cenário. Marina Silva, se construir o partido que lançou, e Eduardo Campos, se assumir a candidatura projetada. Os outros dois são tucanos. Um deles, Aécio Neves, é pré-candidato certo. O outro, José Serra, é uma incógnita. Tem ainda 2% das intenções de voto (14% deles no Sudeste) e pode ser eleitor influente em São Paulo. Mas apoiaria quem? Aécio ou Eduardo?

Andante mosso

Tropa de elite
Durante a recepção dos tucanos ao mineiro Aécio Neves, em São Paulo, Fernando Henrique falou: “O PSDB precisa de um banho de povo. Precisamos é de povo”. Pesquisa de intenções de voto comprova essa exortação sincera do ex-presidente, agora candidato à imortalidade acadêmica. Ele disse mais:  “É preciso ter o sentimento das ruas”.
Fonte: números da pesquisa Ibope (14 e 18 de março)
Fonte: números da pesquisa Ibope (14 e 18 de março)
Os porcentuais de votos de atores políticos alinhados contra Dilma, incluindo os da improvável candidatura do ministro Joaquim Barbosa (tabela), indicam o contrário: a sustentação deles concentra-se essencialmente nos setores da elite. Agora é tarde.
Minas em 2014
Se a candidatura a presidente do tucano Aécio Neves vingar, nascerá apoiada por vasto número de mineiros. Para a maioria dos eleitores de MG, o segundo maior colégio eleitoral do País, ele é, com vícios e virtudes, um ícone do estado.
Com a “proclamação de independência” de Eduardo Campos, porém, acaba a chance do prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, do PSB, se deslocar para disputar o governo estadual e, como previsto, dar sustentação oficiosa a Aécio.
Pelo menos na capital do estado, a suposta candidatura de Campos tira a escada e deixa Aécio com a brocha na mão.
Ontem e hoje
A disputa entre petistas e tucanos divide o País em paulistas e brasileiros. Essa história vem de longe.
Mistérios da Justiça
Após 16 anos de tramitação na Justiça do Trabalho, pode chegar ao fim a disputa pela posse de uma fazenda na cidade de Limeira, interior de São Paulo, que impede mais de uma centena de trabalhadores rurais de receber indenizações trabalhistas.
O direito desses trabalhadores já estava garantido pelo Tribunal Superior do Trabalho, mas ninguém via a cor do dinheiro: 5 milhões de reais com juros e correção. Uma liminar emperrava o caso e favorecia Daniel Ragazzo D’Aloia, filho de um dos donos da Agropecuária Ragazzo, que deve o dinheiro aos trabalhadores. A decisão simplesmente beneficiava o herdeiro do devedor.
No caminho de Gurgel
Nomeado pelo presidente da República, o procurador-geral é o chefe do Ministério Público da União.Mas não há lista que vincule a escolha do procurador pelo presidente.
Assim, pode ser nomeado pelo presidente qualquer membro do Ministério Público da União, formado pelo Ministério Público Federal, Ministério Público do Trabalho, Ministério Público Militar e Ministério Público do Distrito Federal. Este ano, pela primeira vez, os ministérios públicos do Trabalho e Militar se interessaram em disputar a vaga da Procuradoria-Geral da República, hoje ocupada por Roberto Gurgel. Já enviaram suas listas para a presidência.
Salvador. Tourinho se vai, depois de livrar Cachoeira. Foto: Gláucio Dettmar/ Agência CNJ
Salvador. Tourinho se vai, depois de livrar Cachoeira.
Foto: Gláucio Dettmar/ Agência CNJ
Chifradas
Termina dia 17 o mandato do desembargador Tourinho Neto, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília, no Conselho Nacional de Justiça. Tourinho, recentemente, marcou sua presença na Justiça ao conceder o habeas corpus que livrou Carlinhos Cachoeira da cadeia. Ele atua no CNJ indicado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Foi escolhido a dedo por ser adversário radical da então corregedora nacional de Justiça Eliana Calmon.
Calmon hoje é vice-presidente do STJ, certamente um aliado na vaga de Tourinho.
Coalizão: Em colisão
O mais recente número da prestigiosa revista Inteligência, de circulação trimestral restrita, entrevista o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos. Santos tem um brilho intelectual diferente, frequentemente na contramão do consenso banal. É o caso da suposta força da coalizão partidária de Dilma:
• “O governo está muito bem avaliado (…), em tese deveria se refletir na arena parlamentar. Mas não é assim. As classes C e D têm uma representação majoritária na sociedade (…), mas são minoritárias na representação parlamentar de seus interesses (…), na preservação das atuais políticas sociais.”
• “A estratégia político-parlamentar que Dilma vem seguindo é a da coalizão de segurança máxima (…). Aqui está o nó da política parlamentar do governo: essa estratégia não está funcionando a contento…”
• “São muitos os interesses dos aliados que (…) nem sempre são compatíveis entre si, tornando a sua coordenação extraordinariamente complexa.”
Esse é o hiato, segundo ele, entre o apoio que Dilma deveria ter e aquele que de fato tem no Congresso. Certas derrotas comprovam isso.
Maurício Dias
No CartaCapital
Leia Mais ►

Em 1964, havia o Ipes e o Ibad. Hoje, o Millenium

Não é mera coincidência a preferência dos integrantes do Instituto Millenium pela subordinação do Brasil aos grandes centros financeiros internacionais e sua ojeriza diante das relações harmônicas entre governos latino-americanos.
O economista Cristiano Costa foi recebido em fevereiro pelo pessoal do grupo A Tarde, em Salvador. A companhia de comunicação, que tem provedor e portal na internet, agência de notícias, jornal impresso, emissora de FM, gráfica, reuniu seus profissionais para servirem-se de uma palestra da série ‘Millenium nas Redações’.
Blogueiro e professor de uma universidade capixaba chamada Fucape Business School, Costa é também colaborador cativo do Instituto Millenium, articulador desses eventos destinados a “aprimorar a qualidade da imprensa no Brasil”.
A base de sua explanação são seus artigos reproduzidos no site do instituto, em que critica duramente a política econômica do governo e ataca sem rodeios o ministro da Fazenda, Guido Mantega.
Em um deles, cita o programa ‘Minha Casa, Minha Vida’ como um dos responsáveis por inflacionar o setor imobiliário. Isso num ambiente em que até os preços de imóveis de alto padrão dispararam.
As pessoas estão mais seguras no emprego e foram comprar, a queda dos juros levou mais gente a ter acesso a crédito, ou mais gente a tirar dinheiro de aplicações financeiras para investir em imóveis. Há muitos fatores em jogo, mas lá vai o programa federal destinado a famílias de baixa renda pagar o pato da especulação.
Outras redações de jornais e revistas foram brindadas pelo Millenium com palestras sobre assuntos variados, da reforma do Judiciário à assustadora “crise econômica”.
O currículo dos palestrantes, colaboradores do instituto, explica o objetivo real das palestras: consolidar no meio jornalístico o papel oposicionista da mídia brasileira.
Há algum tempo os ambientes de redação eram conhecidos por ter profissionais críticos, independentes, e o direcionamento da informação era resultado da sintonia dos editores com os donos dos veículos.
Não era incomum a conclusão do jornal ou da revista acabar em atrito entre repórter e superiores. Agora, os donos dos veículos preferem formar “focas” que já cheguem às redações comprometidos com suas crenças.
Essas crenças, recheadas de interesses políticos e econômicos, vêm sendo difundidas de maneira afinada pelos meios de comunicação reunidos no Millenium. Resultado concreto desse trabalho pôde ser visto neste início de ano.
Três assuntos, alardeados como ameaças ao país, ocuparam as manchetes dos grandes jornais e foram amplificados pelo rádio e pela TV: apagão, inflação e crise na Petrobras.
Além do noticiário parcial, analistas emitiam previsões catastróficas. Como elas não se confirmavam, o assunto era esquecido e logo substituído por outro.
No dia 8 de janeiro, o jornal O Estado de S. Paulo estampou na capa: “Governo já vê risco de racionamento de energia”. Um dia antes a colunista da Folha de S. Paulo Eliane Cantanhêde chamava uma reunião ordinária, agendada desde dezembro, de “reunião de emergência” do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico convocada às pressas por Dilma para tratar do risco de racionamento.
Diante da constatação de que a reunião nada tinha de extraordinária, a Folha publicou uma acanhada correção. Como de costume, o tema foi sendo lentamente deixado de lado. O risco do “racionamento” desapareceu.
Pularam para o “descontrole” da política econômica e a ameaça de um novo surto inflacionário. “Especialistas” tentavam, a partir dos índices de janeiro, projetar uma inflação futura capaz de desestabilizar a economia.
Aproveitavam para crucificar o ministro Mantega, artífice de uma política que contraria interesses dos rentistas nacionais e internacionais: a redução dos juros bancários está na raiz da gritaria.
Não satisfeitos, colocaram a Petrobras na roda, responsabilizando a “incapacidade administrativa” dos dirigentes da empresa pela redução dos dividendos pagos aos acionistas.
Sem considerar que, dentro da estratégia atual de ação da Petrobras, os recursos de parte dos dividendos retidos passaram a contribuir para o desenvolvimento do país na forma de novos investimentos.
Variações de uma nota só
Aparentemente isoladas, essas versões jornalísticas são, na verdade, articuladas a partir de ideias comuns que permeiam as pautas dos principais veículos.
No site do Instituto Millenium elas estão organizadas e publicadas de maneira clara. O Millenium diz ter como valores “liberdade individual, propriedade privada, meritocracia, Estado de direito, economia de mercado, democracia representativa, responsabilidade individual, eficiência e transparência”.
Faz lembrar a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, que chegou a dizer que só o indivíduo existe, a sociedade é ficção.
Fundado em 2005, o Millenium foi oficialmente lançado em abril de 2006 com o apoio de grandes empresas e entidades patronais lideradas pela Editora Abril e pelo grupo Gerdau.
Trata-se de uma liderança significativa, pois reúne uma empresa propagadora de ideias e valores e outra produtora de aços, base de grande parte da economia material do país.
A elas juntam-se a locadora de veículos Localiza, a petroleira norueguesa Statoil, a companhia de papel Suzano, o Grupo Estado e a RBS, conglomerado de mídia que opera no sul do Brasil. A Rede Globo, como pessoa jurídica, não aparece na lista, mas um dos seus donos, João Roberto Marinho, colabora.
Essa integração entre empresas de mídia e empresários faz do Millenium uma organização capaz de formular e difundir programas de ação política em larga escala, com maior capacidade de convencimento do que muitos partidos políticos. Com a oposição partidária ao governo enfraquecida, ocupa esse espaço com desenvoltura.
Apesar do apego declarado à democracia, alguns dos colaboradores não escondem o desejo de combater o governo de qualquer forma.
É o que está explícito na fala de outro de seus colaboradores, o articulista Arnaldo Jabor, quando num dos eventos promovidos pelo instituto disse: “A questão é: como impedir politicamente o pensamento de uma velha esquerda que não deveria mais existir no mundo?”
Essa articulação faz lembrar a de organismos privados como o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), fundado em 1959, e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), nascido em 1961. Ambos uniram empresários e mídia conservadora na formulação e divulgação de ideias que impulsionaram o golpe de 1964.
“Ipes e Ibad não eram apenas instituições que organizaram uma grande conspiração para depor um governo legítimo. Elaboraram um projeto de classe. O golpe foi seguido por uma série de reformas no Estado para favorecer o grande capital”, lembra o pesquisador Damian Bezerra de Melo, da Universidade Federal Fluminense (UFF).
No cenário atual, de decadência do modelo neoliberal e de consolidação de políticas desenvolvimentistas no Brasil, o Millenium seria um instrumento ideológico para dar combate a esse processo transformador.
“Nos anos 1990 ocorreu a disseminação da ideologia do pensamento único, de que o capitalismo triunfou, o socialismo deixou de existir como projeto político”, afirma a historiadora Carla Luciana da Silva, da Universidade do Oeste do Paraná. “Quando surgem experiências concretas que podem desafiar essas ideias, aparece em sua defesa uma organização como o Millenium para manter vivo o ideal do pensamento único.”
A difusão dessas ideias não é feita por meio de manifestos ou programas partidários, observa a pesquisadora. “É muito difícil pegar uma revista como a Veja ou um jornal como a Folha de S. Paulo e conseguir visualizar os sujeitos que estão produzindo as ideias defendidas ali. Cria-se uma imagem do tipo ‘a’ Folha, ‘a’ Veja, como se fossem sujeitos com vida própria. É uma forma de não deixar claro em nome de que projeto falam, como se falassem em nome de todos.”
Contra as versões, fatos
Conhecendo as ações do instituto e seus personagens fica mais fácil compreender como certos assuntos tornam-se destaque de uma hora para outra. A presença nos quadros do instituto de jornalistas e “especialistas” com acesso fácil aos grandes meios de comunicação leva suas “notícias” rapidamente ao centro do debate nacional.
E fica difícil contra-argumentar com colaboradores do Millenium, não pela qualidade de seus argumentos, mas pela força de persuasão dos veículos pelos quais difundem suas ideias.
Como retrucar, com igual alcance, comentários de Carlos Alberto Sardenberg, na CBN, de Ricardo Amorim, na IstoÉ, na rádio Eldorado e no programa Manhattan Connection, da GloboNews, de José Nêumanne Pinto, no Estadão e no Jornal do SBT, de Ali Kamel, diretor de jornalismo da TV Globo, entre tantos outros?
Não é mera coincidência a preferência dos integrantes do Millenium pela subordinação do Brasil aos grandes centros financeiros internacionais e sua ojeriza diante das relações harmônicas entre governos latino-americanos.
Trata-se de uma tentativa de ressuscitar um projeto político implementado durante a ditadura que só passou a ser confrontado, ainda que parcialmente, a partir de 2003, com a posse do governo Lula.
Mas parece não haver espaço para uma hipótese golpista, apesar do já citado dilema de Jabor. Para a professora Tânia Almeida, da Unisinos de São Leopoldo (RS) e diretora de relações públicas da Secretaria de Comunicação do Rio Grande do Sul, um dos ganhos da crise política de 2005, com a questão do chamado “mensalão”, foi ter forçado análises e estudos em busca de explicações de como o então presidente Lula conseguiu suportar tanta notícia negativa e manter elevados índices de aprovação.
“Não era só carisma. Desde 2003, havia uma gestão de governo em funcionamento. Não existia somente aquilo de que os jornais e revistas tratavam, não era só escândalo. Outra proposta política estava acontecendo”, observa Tânia. Para a professora, os avanços sociais alcançados não permitem crer em crise que leve a uma ruptura institucional.
“O Millenium é um agente articulador, social, político, que pode fomentar e aquecer debates, mas não teria potencial para causar uma crise nos moldes de 1964. O poder de influência da mídia ficou relativizado desde 2006 em função dessa política que chega lá na ponta e inclui quem estava fora.”
Damian Melo, da UFF, tem visão semelhante, mas com um pé atrás: “O Millenium não possui hoje estratégia golpista. Quer emplacar seu projeto, e isso pode ser pela via eleitoral mesmo. Muito embora nossa experiência nos diga que é melhor ficarmos atentos”.
Colaborou Rodrigo Gomes
Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial). Twitter: @lalolealfilho.
Leia Mais ►

A rede e a liberdade de criação

 
Os dois filósofos suecos Alexander Bard e Jan Söderqvist já haviam detectado que em uma rede distribuída como a internet, "todo ator individual decide sobre si mesmo, mas carece da capacidade e da oportunidade para decidir sobre qualquer dos demais atores".
Essa tese foi testada pelo poderoso governo norte-americano quando, em dezembro de 2010, agiu de modo contundente sobre os provedores para retirar o site do Wikileaks da rede. Em menos de dois dias, foram criados mais de 800 "sites espelhos" nos cinco continentes, que replicavam exatamente o conteúdo do site bloqueado.
Se a liberdade de expressão e de opinião distribuídas pelas plataformas da rede incomodam sobremaneira os setores que definem as razões de Estado como princípio superior, a liberdade de criação de novas tecnologias, aplicações ou formatos têm preocupado e colocado em risco os velhos modelos de negócios de grandes corporações erguidas no mundo industrial.
Assim, a natureza aberta da internet torna-se alvo de parte da indústria de intermediação cultural e de grandes corporações de telecomunicações.
Em 1989, Tim Berners-Lee desenvolveu o modo gráfico da internet. Até 1999, Shawn Fanning e Sean Parker não haviam criado o Napster, considerado um dos precursores das redes P2P, que mudaram o modo dos jovens acessarem arquivos digitais em todo o mundo. Foi em abril de 2001 que Bram Cohen lançou o protocolo BitTorrent; Janus Friis e Niklas Zennström desenvolveram o Skype, em 2003. Hurley, Chen e Karim criaram o YouTube em fevereiro de 2005. Jack Dorsey deu vida ao microblogging Twitter em 2006.
Nenhum desses criadores teve que pedir autorização para governos ou corporações para desenvolver e distribuir na rede suas invenções e plataformas tecnológicas.
A internet, até o momento, é uma rede aberta, não proprietária e desenvolvida colaborativamente, a partir dos esforços de empresas, universidades, técnicas e técnicos de órgãos públicos e da comunidade hacker. Para acessá-la, não precisamos recorrer a centros obrigatórios, tal como ocorria na rede de computadores francesa chamada Minitel. São os protocolos da internet que asseguram esse fantástico arranjo comunicacional.
Entretanto, quem controla a infraestrutura de conexão pode controlar o fluxo de informações. Dito de outro modo: os donos dos cabos e fibras ópticas por onde passam os fluxos de informação podem filtrar e bloquear os pacotes de dados.
Se o dono da infraestrutura de cabos e fibras ópticas não for neutro em relação aos conteúdos e aplicativos que nela trafegam, estaremos subordinando a liberdade de criação aos seus interesses, sejam econômicos ou políticos.
Na internet, não pedimos autorização para nenhuma corporação ou Estado para criarmos e lançarmos um novo aplicativo ou plataforma. A liberdade tem sido a maior força e fonte de inventividade e criatividade. Emprestando os termos do jurista Lawrence Lessig, perderemos diversidade e intensidade criativa se substituirmos a lógica da liberdade pela lógica da permissão.
A possibilidade de criar livremente um novo aplicativo, uma nova tecnologia ou um novo protocolo será gravemente afetada e comprometida com a quebra da neutralidade da rede.
Hoje, em todo o mundo, há um grande embate entre as operadoras de telecomunicação e os defensores da liberdade e diversidade culturais. O oligopólio da telecom pressiona os Estados nacionais e suas agências reguladoras para aprovarem legislações que assegurem a possibilidade deles filtrarem, bloquearem e pedagiarem o fluxo de informações no ciberespaço. Isso implicará na permissão para que se tornem "gatekeepers" da criatividade. Precisamos defender a liberdade de criação tecnológica.
Sérgio Amadeu da Silveira, doutor em ciência política, professor da Universidade Federal do ABC e membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil
No Grupo Beatrice
Leia Mais ►

Grande mídia e construção de um "imaginário" juvenil

http://media.tumblr.com/tumblr_ls1ypfuCwM1qe75q0o1_500.jpg
O que a "rádio rock" UOL 89 FM, o apresentador Luciano Huck e o programa humorístico CQC (TV Bandeirantes) têm em comum? São fenômenos da grande mídia monopolista que, no Brasil, buscam desenvolver um "imaginário" juvenil de verniz "rebelde", "arrojado" e "consciente", mas altamente conservador.
A grande mídia e seus barões não vivem somente de jornalistas políticos, e eles são considerados muito "acadêmicos" para exercer sua influência no grande público, seja entre jovens ou entre pobres. Afinal, uma figura como Merval Pereira, com a aparência de um antigo barão do começo do século XX, ou de Miriam Leitão, com seu jeitão de anciã, não iriam atrair de forma alguma esses públicos.
A grande mídia precisa desenvolver outros setores para exercer sua dominação com mais eficiência. E, além do mais, mesmo com as vitórias que um Ali Kamel e uma Folha de São Paulo conseguem ter na Justiça, em processos violentos contra blogueiros influentes, a grande mídia têm o preço de se desgastar diante da opinião pública, já que acaba expondo sua truculência jurídica de uma maneira ou de outra.
A decisão da Folha de São Paulo em criar um programa numa emissora de TV educativa não é um acaso de uma natural vocação multimidiática, mas uma forma de compensar o desgaste de reputação devido à pressão da blogosfera, que é combatida através dos citados processos judiciais contra gente influente como Paulo Henrique Amorim, Rodrigo Vianna e Luiz Carlos Azenha.
Do mesmo modo, a Folha de São Paulo cria um polo de influência sobre o público juvenil não só de São Paulo, mas do Brasil, através da participação acionária da rádio 89 FM, agora UOL 89 FM, que sempre tratou a cultura rock de maneira estereotipada, bem ao gosto dos reacionários associados a interesses das classes dominantes.
Processo Hipnótico
Imagine o reboliço que se deu quando a 89 FM anunciou sua volta como "rádio rock", com a "ajuda" de Otávio Frias Filho? O rótulo "rock" é capaz de exercer um processo hipnótico em parte da juventude brasileira, capaz de se escravizar a qualquer veículo de mídia que usasse a palavra "rock" como bandeira de causa.
A situação é tão grave quanto Luciano Huck determinar, sozinho, o padrão de comportamento e de consciência social que deve exercer os jovens brasileiros, assim como a forma com que programas como CQC e Zorra Total trabalham o humor e a sátira política, onde preconceitos sociais e valores ideológicos conservadores se dissolvem dentro de piadas cínicas e supostamente engraçadas.
O CQC, pelo seu humor "arrojado", que revelou o "talento" de Rafinha Bastos - um bully humorístico, machista e falsamente nerd - , tenta desnortear com suas piadas o senso crítico da política e do mundo das celebridades, da maneira que o público acabe, por fim, cortejando ídolos popularescos, mulheres popozudas e políticos neoliberais.
Algo semelhante é visto na UOL 89 FM, onde um astral por demais "engraçado" para os parâmetros de uma rádio de rock é trabalhado para criar no jovem brasileiro uma consciência social restrita a medidas banais de cidadania toleradas pelo poder midiático e um niilismo político que carrega no cinismo e na arrogância, ao mesmo tempo que cria uma mentalidade golpista contra a corrupção político-partidária.
Desenvolve-se, assim, um inconsciente coletivo nos jovens brasileiros que, na aparência, não elimina o caráter de rebeldia ou de engajamento. Os jovens até reforçam a aparência rebelde ou arrojada, com um vestuário o mais informal possível ou, em certos casos, com algumas "excentricidades", além de uma linguagem que abusa da coloquialidade e chega ao nível de palavrões e agressividade verbal.
Geralmente o conservadorismo ideológico não é muito definido através desses jovens. Há quem acredite, mesmo na blogosfera esquerdista, que são poucos os jovens reacionários. Talvez até sejam, mas o poder aglutinador que eles exercem nas redes sociais, com sua "irreverência", é capaz de atrair amigos e simpatizantes a defender causas reacionárias ou abordagens retrógradas de certos fenômenos na vida.
São jovens que, na forma, procuram dar a falsa impressão de que são "progressistas". Dizem "abominar" o imperialismo econômico e figuras como George W. Bush e José Serra, mas seu discurso soa bastante forçado e oportunista. Dizem gostar de Che Guevara, mas isso é muito fácil para quem é morto e não oferece mais perigo para a sociedade reacionária.
No entanto, acabam sentindo simpatia também de Yoani Sanchez, o contraponto ultraconservador do castrismo cubano do qual Che, de origem argentina, fez parte. Contraditórios, esses jovens precisam de ícones juvenis antagônicos entre si, mas que dão sempre um aparato de "coisa moderna" entre eles, protegidos pela "questão de idade" cantada por Renato Russo na música "A Dança" da Legião Urbana.
Até no "funk carioca" essas contradições aparecem, num simulacro de consciência social que não questiona a hegemonia midiática. E, no caso do "rock da 89 FM", foi simbolizado pelo Charlie Brown Jr. do falecido Chorão, cuja "consciência social" não apresentava um discurso claro e, sob o pretexto de obter visibilidade, se apresentava confortavelmente nos palcos de Xuxa, Luciano Huck e Fausto Silva.
Portanto, o desenvolvimento desse inconsciente juvenil, que no fundo só abomina direitistas como José Serra mais por verem nele um "palhaço" do que uma figura reacionária, também rejeita causas como a regulação da mídia, vista por eles como um "processo ditatorial estatista-partidário".
São jovens rebeldes na forma, conservadores no conteúdo, futuristas na aparência mas na essência são medievais. Eles serão os Reinaldo Azevedo, Miriam Leitão e Ali Kamel do futuro, com suas ameaças ao interesse público, defendendo os interesses das elites dominantes. Hoje eles convencem com sua pouca idade e retórica rebelde, mas, "passando dessa fase", se tornarão abertamente conservadores.
Alexandre Figueiredo
No Mingau de Aço
Leia Mais ►

1964, a atualização grotesca dos nossos liberais

Resta à grande imprensa sufocar quem denuncia seu modus operandi e esboçar cenários eleitorais contando com quadros sem qualquer organicidade fora de suas bases, como Eduardo Campos,  Aécio Neves ou Marina Silva
1964: a atualização grotesca dos nossos liberais. Se estudasse a mídia brasileira como um caso sobre serial killers, o investigador diria que existe um padrão clássico de ação: primeiro vem a tentativa de imputar aos governos progressistas toda sorte de corrupção e desmando; depois a tentativa de calar a voz dos que se opõem à sua narrativa; e, finalmente, vem a excitação dos segmentos raivosos da classe média ao sabor de insanáveis pavores arcaicos que povoam o imaginário desta fração de classe, apresentando políticas inclusivas como uma ameaça fatal a seus supostos privilégios.
Ao invocar o golpe de Estado de 1964, os editorialistas receitavam o antídoto contra a guinada da subversão como pretexto para barrar o avanço social e impedir a tomada de consciência política que começava a esboçar uma linha de resistência anti-imperialista com uma nitidez nunca havida antes em nosso passado.
O resultado de duas décadas de oligarquia empresarial-militar, inaugurada com o golpe, exibiu um saldo sinistro com o que, à época, se convencionou denunciar como a pior crise econômica, política, social e moral da nossa história. O Brasil, urdido neste novo pacto, foi, por excelência, o“antipaís”. Subordinados, da forma mais completa possível, toda nossa economia e o aparelho estatal foram orientados e redimensionados de maneira a afastar, abafar ou reprimir qualquer obstáculo a essa subordinação. É dessa lógica que emergiu um regime que tinha como metodologia a censura e o terrorismo de Estado, ambos sob a bênção de nossas melhores consciências liberais e seus impérios jornalísticos.
Tempos passados? Sem dúvida, mas não nos iludamos: se mudou a conjuntura, alguns objetivos continuam na agenda da direita e de seus intelectuais orgânicos, como vimos nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso.
Sempre é bom recordar que há 28 anos, apesar do deslocamento político, a hegemonia do processo de transição encontrava-se com a mesma burguesia brasileira condutora do golpe. Se não era mais possível a acumulação capitalista se realizar através de uma economia planejada, centralizada e estatizante, os corifeus dessa mesma classe erigem globalização, flexibilização, desregulamentação e livre concorrência como dogmas, mas o objetivo permanece: a modernização acompanhada da internacionalização da economia e da limitação, com a judicialização da política, da democracia ao grupo organicamente ligado a interesses financistas. Para isto, existe o Instituto Millenium e seus jornalistas, acadêmicos e juristas amestrados.
Em 2013, é visível que o espartilho autoritário não consegue mais conter a pujança do corpo social. Há dez anos, há diálogo entre quem governa e os movimentos sociais que expressam anseios de liberdade, de participação e de melhoria substancial das condições de vida de grande parte da população. O que assistimos é uma ruptura com os pilares de sustentação do regime militar e dos três governos que lhe sucederam.
O que resta à grande imprensa? Sufocar financeiramente quem denuncia seu modus operandi, esboçar cenários eleitorais contando com quadros partidários sem qualquer organicidade fora de suas bases regionais, como é o caso do governador de Pernambuco,Eduardo Campos, do senador mineiro Aécio Neves ou da eterna linha auxiliar, Marina Silva, a neoconservadora do ecossistema político.
O desespero acentua o efeito combinado de avanço tecnológico com furor reacionário,criando campo propício à proliferação de articulistas raivosos e humoristas de boteco. A extensão do grotesco é tão acentuada que seus “bons propósitos” não enganam a mais ninguém. Estão todos na ordem do riso. E da exclusão social.
Gilson Caroni Filho
Leia Mais ►

Um dia sem os mexicanos

umdiasemmexicanos180 
Em 2004, uma comédia de Sérgio Arau ganhou repercussão internacional, destilando sarcasmo e crítica social em relação ao modo como a população de origem latina é tratada nos Estados Unidos. No filme “Um dia sem os mexicanos”, a Califórnia acorda com uma grande surpresa: da noite para o dia, um terço de sua população simplesmente sumiu. Todos os 14 milhões de desaparecidos têm em um elemento em comum: todos são de origem hispânica. São policiais, médicos, enfermeiros, operários e babás que trabalhavam para o bem-estar da população branca. As hipóteses mais absurdas são levantadas para tentar explicar o fantástico desaparecimento de toda essa gente que, até então, era tratada como coberta por um manto de invisibilidade.
2013, quase dez anos depois, um acontecimento fantástico similar ocorre no Brasil: em um determinado dia de abril todos os jornalistas da chamada mídia alternativa e de outras mídias não tradicionais saem do ar. Os “mexicanos midiáticos” daqui simplesmente desaparecem. Sites, blogs, contas no Twitter e no Facebook somem. Caros Amigos, Carta Maior, Viomundo, blog do Rodrigo Vianna, Carta Capital, Blog da Cidadania, Blog do Nassif, Paulo Henrique Amorim e muitos outros silenciam. Não há nenhuma notícia a respeito do que aconteceu.
Neste dia, a população se depara com estranhas notícias na imprensa, da manhã à noite, sem qualquer tipo de contestação:
A mídia fala da fortuna de Lula e seu filho, que teria comprado até um prédio da agronomia da USP, para andar de skate lá dentro. O novo papa é apresentado como um gigante, perto das nanicas Dilma e Cristina Kirchnner. Ele é a favor dos pobres, e não fica dando bolsa e fazendo proselitismo com as pessoas. Colunistas reclamam: já viram que agora todo mundo tem de ser a favor de quem é pobre e defensor de gay? E quem não quer saber disso, para viver, como é que faz? O que esse pobrerio todo está indo fazer em Paris? Não sabe comprar perfume, vai fazer o que em loja de perfume, no Marais? Meu deus, a pessoa não pode mais, hoje em dia, ser uma pessoa normal, no Brasil? Tem de defender cotas, tem de aceitar os gays, tem de aceitar o barulho por conta de qualquer coisa? Arnaldo Jabor brada: Chega disso, gente!
Nas redes sociais, na internet de modo geral e nas bancas de revista desapareceram as poucas vozes que tentavam garantir alguma ordem na mixórdia de crenças contraditórias e de versões delirantes que abundam na mídia da meia dúzia de famílias que mandam na comunicação do Brasil, a não conhecida mundialmente mídia familiar brasileira.
Se o governo federal não levou o tema da democratização da comunicação a sério, os donos das grandes empresas de comunicação fizeram exatamente o contrário. Estão radiantes neste dia sem os “mexicanos”. Poderão respirar e descansar um pouco. Ao menos por um dia, não precisarão ler o Azenha ou o Paulo Henrique Amorim que, em seu blog mordaz e de textos curtíssimos, enuncia uma possibilidade de relação entre pesos e contrapesos característica de qualquer democracia, pelo menos conceitualmente falando. Aquela senhora militante tucana, que chama os apoiadores do governo de massa não-cheirosa também sorri. Aquela senhora sabe bem quem é Saul Leblon, pelo menos em suas opiniões, diárias, de ataque à orgia antirrealista que tomou conta da mídia familiar brasileira.
O que aconteceu, afinal? Para onde foi todo mundo? Algumas hipóteses são levantadas. O governo passou a sufocar os veículos dos “mexicanos”, por meio da não renovação de contratos de publicidade de órgãos públicos, e desistiu de levar adiante o debate sobre a regulamentação da comunicação. Critérios de mercado, alega. A explicação não convence muito, embora forneça uma pista sobre o desaparecimento em massa dos “mexicanos”. Serviços públicos, e a comunicação é um serviço de natureza pública, não são equiparáveis aos bens expostos à compra e venda nas ruas comerciais. O governo diz que os critérios para os anúncios são comerciais. É como se 1. antes não tivesse sido e 2. a mídia familiar brasileira atendesse a critérios comerciais, na sua existência. Mas o argumento é falacioso por razões de fundo: bens públicos não são redutíveis a relações puramente comutativas. Por isso há regulação, por exemplo, no setor energético, de telefonia, de estradas, de saúde, etc. O fato mesmo de não haver regulação na comunicação, no Brasil, denota o caráter monopólico do bem em questão.
O episódio da demissão da redação da Revista Caros Amigos, um dos únicos veículos de oposição ao governo Fernando Henrique Cardoso, por esqualidez financeira, foi um sinal. A natureza do acontecimento fantástico de desaparecimento de sites, blogs, tuiteiros e que tais começa, aos poucos, a se revelar. Para os editores e donos da mídia familiar brasileira, a explicação é simples, eles não precisam ficar mais testando hipóteses. Sabem bem por que razão a Caros Amigos, a Carta Maior, o Viomundo, o Nassif, o Rodrigo Vianna, a revista Fórum e muitos outros devem ser silenciados: a relação é de força e é política, antes e muito além de qualquer relação comercial de competitividade. Trata-se de evitar a relação republicana e democrática elementar de um sistema de pesos e contrapesos na comunicação.
O que fazer agora? – perguntam-se alguns, atônitos e impotentes. Não dá para ficar batendo palmas pela explosão do consumo de geladeiras e automóveis, enquanto não se leva a sério políticas de médio prazo que forneçam lastro cultural e educacional para o amplo conjunto da população. Não é preciso inteligência para ver que há espetáculo, notícias vexatórias e mentirosas, manipulação, caras e bocas que transformam jornalistas em atores de novela. As pessoas capazes do mínimo de reflexão sabem que a mídia familiar brasileira é militante de interesses particulares. Para essa mídia, é um estorvo ter de aguentar diariamente os “mexicanos” gritando, lutando para conseguir denunciarem o horror midiático, que é real.
Tirem do ar todos os “mexicanos”, então. Eles não fazem muita falta. E, quando for preciso, eles acabarão aparecendo e farão o trabalho duro. De graça.
Marco Aurélio Weissheimer
No RSUrgente
Leia Mais ►

Dez notas sobre “O dia que durou 21 anos”


1. O filme de Camilo Tavares O dia que durou 21 anos põe fim à dúvida sobre a participação da CIA e do governo americano no golpe de 1964. A documentação, em texto e em áudio, é farta, e não permite mais contestação. O golpe foi planejado e articulado na Embaixada norte-americana, com bênção do católico democrata John Kennedy. E executado sob o governo Lyndon Johnson de acordo com o previsto.
2. Reforço o catolicismo de Kennedy porque a adesão de Castelo Branco à religião parece ter sido um forte argumento usado pelo embaixador Lincoln Gordon para convencer o governo dos Estados Unidos de que o chefe militar do Segundo Exército (São Paulo) era a pessoa certa para dirigir o país após a deposição de João Goulart.
3. O filme não fala, mas a movimentação de Olímpio Mourão Filho na noite do dia 31 de março, contrariando a vontade de Castelo Branco, no dia em que os EUA decidem mandar sua frota para a costa brasileira, mas antes de ela chegar, indicam já em 1964 uma divisão entre a direita e a extrema-direita, cujo líder era Costa e Silva, chefe do Primeiro Exército, sediado no Rio. Mourão parece tentar, ao liderar o golpe, reforçar a posição de Costa e Silva, que chegaria à Presidência em 1967.
4. Essa precipitação de Mourão é a única linha não traçada no plano de contingência dos EUA para o país. Mas a rapidez com que os norte-americanos reconhecem o novo governo, antes que Jango conseguisse cruzar a fronteira do Uruguai, é suficiente para dizer que os Estados Unidos sabiam de tudo o que estava acontecendo – até mais do que Costa e Silva, que recebeu Mourão Filho no Rio de cuecas, segundo a filha do general que comandou as tropas a partir de Minas Gerais.
5. Não havia no Exército forças leais o suficiente para João Goulart tentar resistir, embora na Força Aérea a situação não fosse tão precária, sugere o filme. Jango erra não só antes, ao não articular a defesa militar de seu mandato, quanto depois, ao fazer um périplo de avião pelo país sem tentar ao menos levantar a população que o apoiava.
6. O filme aceita a tese proposta por um dos entrevistados (o historiador James Green) de que a repressão ultrapassou o previsto por Lincoln Gordon (o embaixador golpista) e Lyndon Johnson (o presidente que decide fazer os tanques brasileiros se movimentarem), ganhando um sentido não planejado e não desejado pelo governo dos Estados Unidos. Por que acho a interpretação equivocada? Por que todos os documentos já abertos indicam que os Estados Unidos continuaram organizando golpes na América do Sul (Bolívia em 1964, 1967, 1971, 1978 e 1980; Peru em 1968; Uruguai e Chile em 1973; Argentina em 1977) sem que a repressão deixasse de ser violenta, pelo contrário.
7. O dia que durou 21 anos trata muito pouco da relação da primeira ditadura (1964 até o fim do governo Médici, 1974) com a segunda (Geisel e Figueiredo, de 1974 a 1985). No primeiro período, governaram os generais da linha de frente golpista; na segunda, os “administradores” da ditadura. De Geisel, praticamente só restam imagens.
8. Ao recuperar o papel do Ibad (Instituto Brasileiro de Ação de Democrática) e do Ipes (Instituto de Pesquisa em Estudos Sociais), O dia que durou 21 anos mostra como a atuação da CIA é mediada por instituições locais, revestidas de “ação democrática”, por meio de veículos de grande circulação (Manchete, Cruzeiro, por exemplo).
9. As cenas mais evidentes da pressão norte-americana contra Jango são as que mostram o presidente brasileiro visitando a base militar de Nebraska, sugestão do embaixador golpista Lincoln Gordon – originalmente, um brasilianista selecionado por Kennedy para comandar a imensa máquina burocrática do governo norte-americano no Brasil.
10. A visita tinha o objetivo de exibir a musculatura militar dos EUA ao presidente brasileiro, uma espécie de aviso sobre o que ele teria de enfrentar caso continuasse a contrariar a política de Washington. Jango sente o golpe e os closes em seu rosto, nas imagens de arquivo, são suficientes para perceber que ele entendeu o recado e que não tinha um plano alternativo ou jogo de cintura suficiente para enfrentá-lo.
Haroldo Ceravolo Sereza
No RevistaSamuel

PS: Em 14 de maio de 2011, este blog publicou O Dia que Durou 21 anos na íntegra.
Leia Mais ►

O Calvário de Aécio

Leia Mais ►

Charge online - Bessinha - # 1745

Leia Mais ►

Entrevista com Richard Dawkins

Se não acreditamos em Thor, por que crer no Deus cristão?

Para biólogo conhecido por teoria do 'gene egoísta', não se deve respeitar crenças que vão contra consensos na comunidade científica
Ronaldo Ribeiro 
Colaboração para a fAlha, na Filadélfia (EUA)
Fila dando volta no quarteirão. Parecia estreia de um filme de Hollywood.
Tudo para ver a palestra de Richard Dawkins, 72, talvez o ateu mais famoso do mundo, biólogo, tipo raro de intelectual híbrido que se comunica bem com o grande público e com os eruditos dos centros de pesquisa de ponta.
Dawkins alcançou notoriedade tanto nos círculos acadêmicos dos departamentos de biologia quanto no delicado debate público sobre o papel das religiões no mundo contemporâneo.
Após a publicação do livro "O Gene Egoísta", Dawkins ganhou evidência na academia ao deslocar o foco dos estudos em biologia evolutiva dos grupos e organismos para o estudo dos genes.
Segundo o biólogo, quanto mais parecidas duas espécies, maior a tendência de se comportarem de forma cooperativa -o que explicaria em parte tendências altruístas entre seres geneticamente semelhantes.
Ironicamente, tais pendores altruístas viriam do chamado "egoísmo dos genes", uma tendência biológica das espécies de quererem espalhar seus genes.
Dawkins atingiu o grande público ao atacar a noção de um criador do cosmos onisciente e onipotente.
No livro "O Relojoeiro Cego", Dawkins argumenta que a suposta perfeição da natureza e o aparente design que se observa no mundo podem ser explicados, ainda que parcialmente, por meio da biologia evolutiva.
Com "Deus, um Delírio", o cientista britânico nascido em Nairobi (Quênia) se tornou best-seller, ao ampliar suas críticas às religiões em geral e defender que não há necessidade de se conhecer o pensamento religioso ou ter qualquer conexão com entidades divinas para se viver uma vida moralmente digna e eticamente responsável.
Mais recentemente, o cientista tem-se dedicado a viajar o mundo para debater com autoridades religiosas. Boa parte do material gravado abastece os diversos documentários dos quais o cientista participou.
Figura polêmica, Dawkins tem provocado a admiração da comunidade leiga ao pregar o entusiasmo pelo pensamento livre e não dogmático; e também a ira de muitos líderes religiosos por sua crítica impiedosa ao criacionismo -tese que rejeita a evolução das espécies- e, ao mesmo tempo, sua apologia do ateísmo.
Apesar do pensamento sofisticado, agudo e ferino, Dawkins pareceu bastante áfavel, brincalhão e interessado nas ideias alheias.
Foi no dia seguinte à palestra de Dawkins para mais de 1.500 pessoas numa pequena sala sala da Universidade da Pensilvânia, no mês passado, que esse pop star do ateísmo no mundo concedeu a entrevista a seguir.
Deus existe?
Richard Dawkins - Nós não sabemos se fadas existem. Nós não levamos a sério a existência do deus nórdico Thor, ou de Zeus, ou de Dionísio ou de Shiva.
Até que tenhamos sérias evidências de que algum deles existiu ou exista, não perdemos tempo com isso. Por que deveria ser diferente com o Deus cristão ou com o judeu ou com o muçulmano?
Mesmo que alguém concorde com o que o sr. acaba de dizer, há milhares de fiéis pelo mundo. É possível explicar essa enorme propensão à fé?
Há experimentos em psicologia infantil que demonstram que crianças, quando indagadas sobre a existência de uma pedra pontiaguda em um ambiente, preferem a explicação que tenha causa e consequência claras.
Em outras palavras, preferem acreditar que a pedra é pontiaguda para que os animais daquele ambiente possam usá-la para se coçarem.
Não aceitam que a pedra pontiaguda se formou a partir de processos geológicos e da erosão através do vento e da água. Talvez muitos dos fiéis de hoje ainda retenham esta atitude infantil ao pensarem sobre o mundo.
Um outra hipótese é que a propensão à fé seja simplesmente um resquício do medo de se ficar só em um ambiente hostil. Nossos ancestrais viviam sob constante ameaça de serem atacados e mortos por animais selvagens.
Pode ser que nossa necessidade de criar fantasmas e divindades que vão nos punir esteja conectada com esse traço evolutivo presente em nossos primórdios.
O sr. diz que há uma tendência ao silêncio em relação às doutrinas religiosas dos outros, que as pessoas evitam debater sobre suas próprias crenças, e que esse fato é nocivo à sociedade. Não seria necessário simplesmente respeitar as diferentes crenças das pessoas?
Não devemos respeitar crenças que influenciam a vida de crianças e que vão contra conhecimento dado como consenso na comunidade científica.
Uma coisa é uma pessoa dizer que acredita em Papai Noel e manter esta crença dentro de sua família -ainda que eu considere uma pena para os filhos.
Quando algumas pessoas, contudo, começam a ensinar que a Terra tem apenas cerca de 10 mil anos, aí eu acho um absurdo e quero lutar contra isso.
Um novo papa acaba de ser eleito. Ele é argentino. É possível dizer que isso representa um avanço em termos políticos da fé no mundo em desenvolvimento?
Se pensarmos que haverá uma menor centralização política daqueles que determinam o futuro da Igreja Católica, sim, sem dúvida.
No Brasil, a Igreja Católica tem perdido fiéis para outras tradições protestantes. Alguns atribuem tal fenômeno à dinâmica dos rituais católicos, ainda bastante hierarquizados e tradicionais, se comparados às religiões protestantes.
Não conheço bem o contexto brasileiro, mas é possível imaginar que a não participação ativa dos fiéis nas missas católicas é um dos fatores que provavelmente têm contribuído para tal queda.
Explicando melhor, os rituais protestantes nos EUA são como shows, os participantes dançam, cantam, tocam instrumentos.
Suponho que no Brasil as missas ainda tenham um formato bastante tradicional e que provavelmente tenham pouco apelo social para conquistar seguidores jovens.
Em sua obra, o sr. dá ênfase à possibilidade de qualquer um rejeitar crenças religiosas ou vivências espirituais e ainda assim ter uma vida plena e ética. Sem as religiões, onde é que encontraríamos códigos morais?
Suspeito que não encontramos regras morais nos ensinamentos religiosos. Se fosse esse o caso, nossa conduta moral não se alteraria praticamente a cada década. Seria estanque.
Pense que até bem recentemente nós considerávamos a escravidão como algo normal e que também as mulheres não deveriam participar dos processos democráticos.
E quanto ao que não conseguimos explicar? Não vem daí uma das "necessidades" da religião e da crença no "sobrenatural"?
Essa talvez seja uma das explicações que mais me aborrecem para se crer em uma deidade.
Eu gostaria que as pessoas não fossem preguiçosas, covardes e derrotistas o suficiente para dizer: "Eu não consigo explicar, portanto isso deve ser algo sobrenatural". A resposta mais correta e corajosa seria a seguinte: "Eu não sei ainda, mas estou trabalhando para saber".
Acabam de ser divulgados os primeiros resultados das pesquisas sobre índices de felicidade idealizados pelo governo do primeiro-ministro britânico, David Cameron. O sr. já investigou a relação entre religiosidade e felicidade?
Não vi os resultados ainda. Quanto à relação entre religiosidade e felicidade, ainda que eu não tenha estudado o assunto, é possível prever que tal correlação é mais um mito do que um fato.
Os países que apresentam melhores índices de desenvolvimento humano e, em tese, uma melhor condição para a existência da felicidade, são países com o maior número de ateus do mundo.
Seus cidadãos encontram bem-estar, alegria e consolo nas possibilidades sociais, culturais e intelectuais concretamente disponíveis em seus países, não em entes divinos.
No Blog Sujo
Leia Mais ►

Azenha anuncia livro sobre atuação política da Globo nas eleições presidenciais

 
Ex-correspondente da Globo em Nova York, o jornalista Luiz Carlos Azenha afirma que a emissora dos Marinho tentou eleger o tucano Geraldo Alckmin nas eleições de 2006 contra Lula. Em seu blog, Viomundo, ele anuncia que lançará livro sobre a atuação política das Organizações Globo com colaboração de Rodrigo Vianna, Marco Aurelio Mello e outras testemunhas — identificadas ou não — narrando os bastidores da cobertura da eleição presidencial de 2006 na Globo. “Descreverei detalhadamente, em breve, como O Globo e associados tentaram praticar comigo o tradicional assassinato de caráter da mídia corporativa brasileira”, alerta.
Condenado a pagar R$ 30 mil a Ali Kamel por suposta “campanha difamatória”, Azenha fala que “o objetivo da emissora, ainda que por vias tortas, é intimidar e calar aqueles que são capazes de desvendar o que se passa nos bastidores dela, justamente por terem fontes e conhecimento das engrenagens globais”.
O jornalista comenta da desvantagem da mídia alternativa em disputas judiciais contra a emissora que concentra pelo menos 50% de todas as verbas publicitárias do Brasil, com o equivalente poder político, midiático e lobístico. “Hoje, através da judicialização de debate político, de um confronto que leva para a Justiça uma disputa entre desiguais, estamos fadados ao sufoco lento e gradual. Perdi. Ali Kamel e a Globo venceram. Calaram, pelo bolso, o Viomundo”, escreve Luis Carlos Azenha.
No Sul21
Leia Mais ►

Subastarán carta “suicida” de Marilyn Monroe

cartas-de-marilyn-monroe-619x348 
El próximo mes de mayo saldrá a subasta por internet un carta desesperada escrita por Marilyn Monroe a su mentor Lee Strasberg, en la que queda al descubierto la terrible inseguridad y los impulsos suicidas del mito erótico de los años 50.
“Mi voluntad es débil, no soporto nada. Suena alocado, pero creo que me estoy volviendo loca”, expresa Monroe. “Me paro frente a una cámara y mi concentración y todo lo que trato de aprender me abandona. Entonces siento que no pertenezco en absoluto al género humano”, confiesa la legendaria actriz en la carta.
Se cree que por la misiva, dos folios escritos a mano por Monroe con el membrete del hotel Bel Air de Los Angeles, se podrían pagar entre 30.000 y 50.000 dólares. La subasta, organizada por la casa Douglas Elliman’s de Nueva York, tendrá lugar el 30 de mayo .
La carta de Marilyn, cuya muerte del 5 de agosto de 1962 a los 36 años de edad, sigue siendo un misterio, será subastada entre unas 250 misivas y documentos históricos que un coleccionista estadounidense anónimo ofrece en venta.
No CubaDebate
Leia Mais ►

Top 10 Android Games

http://androidheadlines.com/wp-content/uploads/2012/12/Top-10-Android-Games-Monthly.jpg 
Os dispositivos que utilizam o sistema Android tem se tornado bastante populares pelo mundo inteiro. Seja pelo seu preço mais acessível – se comparado com dispositivos da Apple, que utilizam o iOS – ou mesmo por opção, o sistema operacional tem agradado cada vez mais os consumidores.
Como consequência, estes consumidores estão sempre em busca de aplicativos para deixar o dispositivo mais agradável ao seu gosto. Os jogos, claro, não poderiam estar fora da lista de buscas feitas pelo usuário. Aqui fica a lista dos jogos mais procurados para Android em 2012.
Temple Run – Neste jogo, o objetivo é correr o máximo que puder de macacos demônios, depois que você roubou o ídolo sagrado dos mesmos.
Jetpack Joyride – Capture moedas enquanto foge de bombas e de outros obstáculos perigosos em uma usina elétrica
Real Football 2012 – Nova versão da série produzida pela Game loft. Jogue com seu time do coração ou crie um novo time.
SpeedX 3D - Corra por um túnel 3D, desviando de obstáculos durante o percurso.
Minecraft: Pocket Edition – Versão demo do famoso Minecraft para Android
Tiger Arcade – Jogue os famosos jogos de luta – como Mortal Kombat, The King of Fighters e Street Fighter – diretamente no seu Android
City Bloxx – Empilhe o máximo de blocos que puder para levantar – e equilibrar – prédios
Keep in Mind – Jogo similar ao clássico brinquedo Genius, onde o jogador deverá memorizar as sequencias de Temple Run luzes.
Angry Birds Space – O classic Angry Birds está de volta, agora no espaço. Outra versão recém-lançada e que já está entre os melhores jogos para android é o Angry Birds Star Wars.
The Sims Freeplay – Crie um novo estilo de vida para você com a versão para Android do clássico The Sims.
Leia Mais ►

Entrevistas históricas: Oriana Fallaci entrevista dom Helder Câmara

Houve bispos que silenciaram durante as ditaduras na América do Sul. Será que o papa Francisco, o bispo Bergoglio, não foi, no mínimo, omisso diante das barbaridades cometidas na Argentina? Mas houve um bispo que, mesmo ameaçado de morte, teve o valor de denunciar as torturas praticadas no Brasil mundo afora. Dom Helder Câmara (1909-1999), arcebispo de Olinda e Recife, jamais se calou. Nessa entrevista à jornalista italiana Oriana Fallaci, o “bispo vermelho” fala do que se passava nos porões sombrios do regime militar, este que alguns hoje parecem querer reabilitar como “ditabranda”. E se assume socialista, embora crítico das ditaduras que via nos regimes comunistas da época. “Meu socialismo é especial, é um socialismo que respeita a pessoa humana e remonta aos Evangelhos”, diz.

Oriana Fallaci (1929-2006) foi uma das mais célebres entrevistadoras da história do jornalismo. Durante sua longa carreira, esteve tête-à-tête com uma infinidade de personalidades, de Henry Kissinger a Muhammad Ali, de Yasser Arafat a Golda Meir, de Indira Gandhi a Deng Xiaoping. Estava no auge, em 1970, quando entrevistou Dom Helder Câmara, e não esconde sua admiração por ele no decorrer do encontro. Publicada no L’Europeo, a entrevista seria depois republicada em dezenas de países. Curioso: o esquerdista Dom Helder teve um passado fascista na juventude, sobre o qual conversa abertamente com Fallaci. A jornalista, ao contrário, foi esquerdista até a idade madura, mas nos últimos anos de vida deu uma guinada à direita e publicou textos anti-muçulmanos. Ironias do destino.

Todo jovem brasileiro deveria ler esta entrevista para saber o que foi a ditadura militar e para entender que existem padres e padres. E todo jovem jornalista deveria lê-la porque vale por dez aulas de técnica de entrevista. Esta versão do texto é do livro A Arte da Entrevista (editora Boitempo), com organização de Fábio Altman.
***
“Sempre fui a favor do pluralismo da Igreja, mas, quando vejo aqueles que representam a parte pútrida dela, me dá vontade de dizer o que o papa João disse a certos indivíduos: ‘Caro padre, você não percebe que está realmente podre? O espírito de Deus nunca chegou até você, não é?’” (Dom Helder Câmara)
Por Oriana Fallaci
Sua igreja é uma igreja bem pobre na cidade do Recife, no Norte do Brasil, onde a única coisa bonita é o mar e, estando junto ao Equador, sempre faz calor. Naquele ano não choveu, e a seca matou a vegetação, as crianças, as esperanças. Não matou mais nada porque não havia mais nada no Recife além de dúzias e dúzias de igrejas barrocas, que o tempo cobriu com uma pátina negra de sujeira, que ninguém pensa em tirar. No entanto, sua igreja é limpa, branca como sua boa consciência. Ali a única sujeira é a inscrição em tinta vermelho-sangue, que ele tenta lavar mas que continua aparecendo, em letras bem legíveis. Diz o seguinte: “Morte ao bispo vermelho”. Fora escrita ali pouco antes pelos seus perseguidores, que atiraram contra ele e jogaram granadas de mão. Desde então a pequena praça diante da igreja está quase sempre deserta, pois muitas pessoas têm medo de aproximar-se dela. Se você perguntar a um policial: “Por favor, onde está a Igreja das Fronteiras?”, ele olhará para você desconfiado e tomará nota da chapa do seu táxi.
Foi o que aconteceu comigo. O motorista do táxi estava paralisado de medo. A casa era contígua à igreja e quase não parecia o lar de um bispo. Usando roupas de tecidos finos, cobertos de jóias, servidos por criados submissos, os arcebispos normalmente vivem em palácios com entradas situadas em ruas elegantes. A sua residência, porém, podia ser alcançada por uma rua perpendicular à pequena praça, a rua das Fronteiras, e era cercada pelo muro baixo contra o qual os homens haviam atirado. Nesse muro baixo mal se notava a pequena porta com sua pintura esmalte verde e uma campainha sem nome. Quando você a tocava, algumas galinhas pulavam, um galo cacarejava, e no meio desse barulho todo ouvia-se um voz doce: “Estou indo, estou indo!” Então a porta se abria, devagar no início e depois em toda a sua amplitude, mas ainda de modo hesitante, e ali estava ele, um homem pequeno de batina preta. Sobre a batina, chamava a atenção uma cruz de madeira suspensa por uma corrente de aço. O homenzinho era pálido, careca, com um rosto enrugado, uma boca crispada, um nariz pequeno como uma castanha cozida e os olhos cansados de alguém que não dormiu muito. Ele tinha o olhar inócuo e a humildade de um vigário de paróquia. Ele não era, e não é, um vigário de paróquia, e nem mesmo um homem pequeno. Ele é o homem mais importante que você pode encontrar no Brasil, ou melhor, em toda a América Latina. E talvez o mais inteligente, o mais corajoso.
Ele é dom Helder Câmara, o arcebispo que desafia o governo e denuncia as injustiças, os abusos e as infâmias sobre os quais os outros silenciam, o homem que tem a coragem de pregar o socialismo e dizer não à violência. Mais de uma vez ele foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz. Muitos dizem que ele é santo, se é que essa palavra significa alguma coisa. Eu também digo que ele é santo. O governo brasileiro não pensa assim. O governo brasileiro está sendo talvez o mais fascista e mais sinistro da América Latina. Sua polícia tortura de uma forma inimaginável aqueles que se opõem a ele exigindo liberdade. Usam o pau-de-arara, que consiste em um poleiro similar àquele que as araras usam para se balançar. De ferro ou madeira, ele é inserido entre os joelhos e os cotovelos da vítima nua, e então é suspenso a meia altura entre o solo e o teto. Ali a vítima fica pendurada durante o interrogatório, e como seus pés e pulsos estão amarrados por cordas, a circulação de sangue pára e o corpo incha como se fosse explodir, como se seu peso aumentasse dez vezes. E então, para aqueles opositores que exigem liberdade, existe o “método hidráulico” que consiste em um tubo flexível; esse tubo é introduzido no nariz da vítima e é vertida água através dele enquanto se mantém sua boca fechada. Assim a vítima sente que está se afogando, e de fato é um afogamento parcial – interrompido pouco antes do momento da morte. E então, para aqueles opositores que exigem liberdade, há choques elétricos que são aplicados nos ouvidos, nos genitais, no ânus e na língua. Geralmente a carga é de 110 volts, mas pode subir a 230, produzindo ataques epiléticos, convulsões violentas, queimaduras de terceiro grau e às vezes a morte, o que ocorreu em muitos casos, inclusive no de um jornalista que recebeu a carga de 230 volts no ânus. Ele morreu imediatamente. Essas torturas são aplicadas em todos aqueles que caem nas mãos do DOPS, a Divisão de Ordem Política e Social, a polícia política brasileira. São aplicadas nos liberais e nos comunistas, nas freiras e sacerdotes, guerrilheiros e estudantes, e até em cidadãos estrangeiros. As prisões no Brasil estão cheias, e têm estado assim por muitos anos. Você sabe quando entra mas nunca sabe quando sai. Se sair vivo, em 80% dos casos você sai mutilado – com uma espinha quebrada, pernas paralisadas, testículos arrebentados, olhos e ouvidos que não funcionam mais. A literatura sobre essa infâmia é infinita. Você pode encontrá-la nos folhetos mimeografados, publicados por organizações da resistência, nos jornais americanos e europeus, nos despachos das embaixadas. Mesmo que o mundo às vezes se esqueça, porque o Brasil está longe, porque o Brasil é um país de lazer, com muito mar, muita música, samba, café; porque não é conveniente perturbar as relações comerciais entre os países democráticos e as ditaduras, mesmo quando a tragédia é de conhecimento público. Mas cuidado ao falar sobre isso no Brasil, cuidado ao fazer alusões sobre isso ou denunciá-lo. A maioria das pessoas fica em silêncio.
Helder Câmara é o único que ousa levantar a voz, em conjunto a um pequeno grupo de prelados que não se esqueceram dos Evangelhos. Mas ele paga por isso – Deus, e como ele paga! Quando ele descreveu, em Paris, as torturas aplicadas aos prisioneiros políticos nas prisões de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife, eles o chamaram de “traidor”, “difamador”, “demagogo”. Quando ele fez essas acusações a partir da pequena casa na rua das Fronteiras, eles atiraram de volta com suas metralhadoras e escreveram no muro “Morte ao Bispo Vermelho”. E assim, essas infames autoridades brasileiras o consideram uma ameaça pública, e vigiam cada gesto seu, cada encontro seu com alguém. Mas o povo o adora. Consideram-no um pai que nunca os rejeita, e está sempre disponivel para recebê-los a qualquer hora do dia ou da noite. Quando não está em casa, é porque foi visitar algum oprimido na prisão, algum casebre, algum vilarejo onde as pessoas morrem de fome e de sede antes de alcançar a idade de 40 anos, quando a morte é uma libertação misericordiosa. Quando não está no Recife, ele está viajando pelo mundo para divulgar sua mensagem e sua indignação, ora em Berlim, ora em Kioto, ora em Detroit, ou no Vaticano – com seus braços finos erguidos para o céu e seus dedos em forma de garras tentando alcançar a Deus. Apesar de não-violento, ele é um homem que escolheu a luta a qualquer custo. E as fortalezas que ele ataca são as da vergonha, do privilégio, da ditadura. Ele não poupa ninguém: nem católicos, nem marxistas, nem os impérios capitalistas ou comunistas, e muito menos os fascistas que ele abomina com a ira de um Cristo determinado a expulsar os fariseus do templo.
Dom Helder Câmara nasceu em Fortaleza, no nordeste brasileiro, em 1909. Seu pai era um comerciante diletante do jornalismo e da crítica teatral, e sua mãe era professora primária; uma origem pequeno-burguesa. Ele nunca conheceu a riqueza – cinco crianças de sua família morreram em intervalos de poucos meses, de disenteria e falta de tratamento. Ele ingressou no seminário bem cedo, menino ainda. Sua vocação aflorou com a idade de 8 anos, diz ele – misteriosa e insistentemente. Desde então ele nunca concebeu qualquer outro compromisso para si mesmo que não fosse o de ser padre. Recebeu os votos aos 22 anos de idade, quando se tornou um fascista. “Em cada um de nós dorme um fascista e às vezes ele nunca desperta; mas às vezes ele desperta, sim.” Ele diz isso sem vergonha de dizê-lo, mas culpando-se pelo fato, e sua única justificativa é explicar que fora seu bispo que lhe pedira que se tornasse um fascista. Um daqueles bispos vestidos com tecidos finos, coberto de jóias, servido por criados submissos e vivendo em palácios com entradas em ruas elegantes. Um daqueles cujo lema é Deus-Pátria-Família. Oh, sim, dom Helder conhece bem os fascistas, se conhece. Ele os conheceu bem antes de chegar à sua pequena igreja no Recife, em sua pequena casa onde as galinhas ciscam no quintal e onde ele dorme só quatro horas das 24 do dia, porque à noite eles o acordam telefonando o tempo todo para insultá-lo e assustá-lo: “Estamos indo aí para pegá-lo e matá-lo, seu comunista sujo”. “Encomende sua alma a Deus porque você não viverá para ver o sol nascer, seu filho da puta.” Mas ele diz que não se importa, quatro horas de sono por noite são suficientes para ele.
Eu o entrevistei lá, durante três dias seguidos. Falamos em francês, uma língua que ele conhece bem, e muitas vezes ele me pareceu mais um líder político do que um sacerdote. Ele tem a voz apaixonada de um líder, os olhos brilhantes, a segurança de alguém que sabe que as pessoas acreditam nele. A cada meia hora ele se levantava para pegar um café para mim, aproveitando a ocasião para espiar a rua e verificar se havia alguém querendo pintar o muro novamente ou jogar uma bomba. Eu o seguia com o olhar e pensava em Camilo Torres, o jovem padre que largara a batina para empunhar uma arma e morrera em seu primeiro combate, com uma bala no meio da testa. Pensei no padre Tito de Alencar, o jovem dominicano que o DOPS torturara em São Paulo, com toda a crueldade da Inquisição. Abra a boca e nós lhe daremos a hóstia consagrada antes de matá-lo. Então, em vez da hóstia, eles lhe deram uma carga elétrica de 220 volts na língua. Pensei em todos os padres e freiras que enchem as prisões da América Latina e morrem sofrendo, enquanto os bispos vestidos com tecidos finos, cobertos de joias e servidos por criados submissos colaboram com os generais no poder e protegem os carrascos. No Brasil, no Chile, no Uruguai, no Paraguai, na Venezuela, na Guatemala. E cheguei à conclusão: “Eles não lhe darão o Prêmio Nobel da Paz, dom Helder. Nunca o darão ao senhor, porque o senhor os incomoda muito”. E de fato eles não o deram a ele. Em 1971 o deram a Willy Brandt e, em 1973, quando seu nome foi novamente cogitado, eles o entregaram a Henry Kissinger e Le Duc Tho. E, graças a Deus, Le Duc Tho o recusou. Kissinger não. Como nós todos sabemos.
(A jovem Oriana Fallaci com seu enorme gravador)
Fallaci – Há um boato, dom Helder, de que Paulo VI o chama de “meu arcebispo vermelho”. E, de fato, dificilmente o senhor seria um homem conveniente para o Vaticano. O senhor deve assustar muita gente lá dentro. Vamos falar um pouco sobre isso?
D. Helder – Olhe, o papa sabe muito bem o que eu digo e o que eu faço. Quando denuncio as torturas no Brasil, o papa fica sabendo. Quando eu luto pelos prisioneiros políticos e pelos pobres, o papa fica sabendo. Quando eu viajo ao exterior para exigir justiça, o papa fica sabendo. Ele já conheceu minhas opiniões porque nós nos conhecemos há algum tempo, desde 1950 para ser exato, quando ele era secretário de Estado do Vaticano para Assuntos Ordinários. Não escondo nada dele, nunca escondi. E se o papa achasse errado fazer o que faço, se ele me pedisse para parar, eu pararia. Eu sou servo da Igreja e conheço o valor do sacrifício. Mas o papa não me diz nada disso, e se ele me chama de “arcebispo vermelho” ele o faz brincando, afetuosamente, com certeza não do modo como o fazem aqui no Brasil onde qualquer um que não seja um reacionário é chamado de comunista ou a serviço dos comunistas. A acusação não me atinge. Se eu fosse um agitador, um comunista, eu não poderia ir aos Estados Unidos e receber o título de doutor honoris causa das universidades americanas. Entretanto, ao dizer isso, quero deixar claro que através de minhas idéias e discursos eu não empenho a autoridade do papa – o que eu digo e faço é de minha exclusiva responsabilidade pessoal. O que não me torna um herói – não sou o único a falar. As torturas no Brasil, por exemplo, foram denunciadas, primeiro e principalmente, pela comissão papal que, esta sim, empenhou a autoridade do papa. O próprio papa então foi condenado, e sua condenação é muito mais eloqüente que a de um sacerdote que não teme ninguém no Vaticano.
Fallaci – Um pobre sacerdote que é um príncipe da Igreja, um dos homens mais admirados e respeitados do mundo. Um pobre sacerdote a quem cogitam em dar o Prêmio Nobel da Paz. Um pobre sacerdote que quando fala das torturas enche todo o Palais des Sports de Paris e desperta a consciência de milhões de pessoas em todos os países. Vamos falar disso, dom Helder?
D. Helder – Bem, as coisas eram assim mesmo. Estive em Paris e eles me pediram para dizer-lhes o que estava acontecendo. Eu disse, tudo bem, é dever do sacerdote também informar as pessoas, especialmente em relação a um país como o Brasil onde a imprensa é controlada ou subserviente ao governo. Comecei lembrando aos franceses que eu falava de um crime bem familiar a eles mesmos, e do qual foram culpados durante a guerra da Argélia, ou seja, a tortura. Acrescentei que essas infâmias também aconteciam devido à nossa fraqueza, como cristãos, acostumados demais a nos inclinarmos diante do poder e de suas instituições, ou então nos calarmos. Expliquei que não estava lhes contando nenhuma novidade, porque não era mais segredo que sofrimentos desumanos como os da Idade Média são aplicados aos prisioneiros políticos no Brasil – em todos os lugares já havia sido publicada uma documentação irrefutável. Então eu descrevi os métodos de tortura – dos choques elétricos aos paus-de-arara. E relatei incidentes que eu mesmo confirmara. Por exemplo, o caso de um estudante a quem fizeram coisas tão horríveis que ele se jogou da janela de uma delegacia. Seu nome era Luís de Medeiros. E a história continua desse modo. Assim que eu soube que Luís estava no hospital, corri até lá com um de meus informantes. E pude vê-lo. Fora a sua tentativa de suicídio, ele estava numa condição assustadora. Entre outras coisas eles haviam lhe arrancado quatro unhas e esmagado seus testículos. O médico que cuidava dele confirmou isso e disse: “Vá e diga ao governador, ele é médico, diga-lhe para vir aqui e examinar os corpos dos torturados”. Era o que eu procurava; ter finalmente em minhas mãos uma testemunha direta. Fiz a denúncia. E depois passei a denúncia a todos os vigários, aos bispos e à conferência dos bispos.
Fallaci – Alguns bispos não acreditaram, dom Helder, e se colocaram ao lado dos que negam a tortura. Como o senhor julga esses homens?
D. Helder – Como a senhora quer que eu os julgue? Esperando que Deus os ilumine, faça-os lembrar de suas responsabilidades. Sempre fui a favor do pluralismo da Igreja, mas, quando vejo aqueles que representam a parte pútrida dela, me dá vontade de dizer o que o papa João disse a certos indivíduos: “Caro padre, você não percebe que está realmente podre? O espírito de Deus nunca chegou até você, não é?” Bom Deus, era até legítimo, no começo, ou quase, ter dúvidas sobre as torturas. Não havia provas. Mas duvidá-lo hoje é grotesco. Foram publicados exemplos no relatório da Associação Mundial de Juristas – com nomes, sobrenomes, datas. E mais, quantos padres estão na prisão? Não são a maioria, porque é mais conveniente prender um leigo que um padre, torturar um leigo e não um padre, mas ainda há muitos e eles são testemunhas valiosas, se você conseguir chegar até eles. Eu digo “se”, porque hoje no Brasil, quando você é preso, fica impossível comunicar isso a alguém, entrar em contato com um parente ou um advogado. Mas isso até que não é o pior – o pior mesmo é o silêncio da imprensa e dos cidadãos. Nem um, nem outro ousa tocar no assunto, e assim parece que as pessoas estão de acordo com o regime, que as vítimas estão contando mentiras ou exagerando. Posso somente esperar que o escândalo surgido na imprensa mundial e a intervenção da Igreja possam ajudar a melhorar as coisas.
Fallaci – O que aconteceu ao senhor, dom Helder, depois das suas declarações em Paris?
D. Helder – Denunciar a torturas no Brasil é considerado pelo governo um crime contra a pátria. E nesse aspecto também há uma certa divergência de pontos de vista entre eu e o governo. De fato, eu considero um crime contra a pátria não denunciá-las. Então eu deixei Paris pensando, bem, vamos ver o que acontecerá com você, dom Helder, quando voltar ao Brasil. Não aconteceu nada. Passei tranqüilamente pela polícia, pela alfândega, e fui para casa. É verdade, houve ataques na imprensa, ataques curiosos, estranhos. Mas eu não me importei com eles pois raramente leio os jornais, para não ficar amargurado. Além disso, é inútil tentar intimidar-me, no meu coração não há dúvidas, e o que existir no meu coração irá diretamente aos meus lábios. Eu digo ao meu rebanho, em minhas visitas pastorais, em meu sermões, as mesmas coisas que estou dizendo a você. Eles também não podem me afastar, pois no meu trabalho não reconheço nenhuma outra autoridade além do papa. É claro, estou proibido de falar no rádio, na televisão, e como não sou ingênuo eu sei, mais cedo ou mais tarde eles vão me privar de meus direitos civis. Porém estes não valem nada aqui no Brasil atualmente. Ninguém pode votar, não há eleições. Mas no geral eu gozo de uma certa liberdade, eles só me incomodam com ameaças.
Fallaci – Que tipo de ameaças?
D. Helder – Ameaças de morte, não? Rajadas de metralhadoras, bombas, telefonemas e calúnias endereçadas ao Vaticano. A senhora deve saber que aqui no Brasil há um movimento de extrema direita chamado “Tradição, Fámilia e Propriedade”. Começaram a usá-lo para perturbar-me algum tempo atrás. Abordavam as pessoas que iam à igreja e perguntavam-lhes: “Você é a favor ou contra o comunismo?” As pessoas diziam que eram contra, naturalmente, e então eles recolhiam assinaturas e enviavam-nas ao papa, pedindo-lhe que expulsasse esse comunista dom Helder. O papa nunca lhes deu qualquer importância, e eu também não. Mais tarde surgiu um movimento clandestino, uma espécie de Ku Klux Klan brasileira, o assim chamado Comando de Caça aos Comunistas, ou CCC. Esse CCC passou a ter um interesse especial nas casas em que moravam comunistas suspeitos, e começaram a atirar com metralhadoras contra elas, ou a jogar granadas de mão e escrever insultos nos muros. E eles demonstraram seu respeito a mim várias vezes desse modo: por duas vezes arrebentaram o muro da casa com tiros de metralhadora e fizeram uma bagunça nos muros da igreja, uma vez até no palácio do arcebispo e no Instituto Católico, e outra vez numa igreja próxima onde eu costumo ir. Sempre deixando a assinatura CCC. Mas nunca me feriram. Por outro lado, atiraram num estudante, conhecido meu, na espinha, e agora ele está paralisado para sempre. Um colaborador meu de 27 anos de idade, Henrique Pereira Neto, professor da sociologia na Universidade do Recife, que pregava os Evangelhos nas favelas, foi encontrado enforcado numa árvore com o corpo crivado de balas, coisas assim não nos surpreendem mais aqui no Recife.
Fallaci – Não surpreendem mais?
D. Helder – Não, como as ameaças ao telefone. Já me acostumei com elas agora. Eles me ligam à noite, em intervalos de meia em meia hora, e dizem: “Você é um agitador, um comunista, prepare-se para morrer, estamos indo aí, e vamos lhe mostrar como é o inferno”. Que idiotas. Eu nem mesmo respondo. Eu sorrio e desligo. Mas por que atender ao telefone? É o que a senhora perguntaria, não é? Por que eu tenho o dever de atender ao telefone. Poderia ser alguém doente que precisasse de mim, que estivesse pedindo ajuda. Afinal, sou padre ou não? Durante os jogos da Copa do Mundo de futebol eles se acalmaram um pouco, pois só pensavam nisso. Mas depois começaram de novo, e na noite passada eles também não me deixaram rezar e nem mesmo dormir. A cada meia hora, trim-triim! “Alô, estamos indo até aí para te matar.” Idiotas! Eles ainda não entenderam que não adianta me matar: há muitos outros padres como eu por aí.
Fallaci – Infelizmente não, dom Helder. Pelo contrário, há muito poucos. Mas vamos voltar àquele seu apelido de “arcebispo vermelho”. Quais são suas idéias políticas hoje? O senhor é um socialista, como as pessoas dizem, ou não?
D. Helder – É claro que sou! Deus criou o homem à sua própria imagem e semelhança, porque ele foi seu co-criador e não porque ele era um escravo. Como podemos permitir que a maioria dos homens seja explorada e viva como escravo? Eu não vejo quaisquer soluções no capitalismo. Mas também não as vejo nos exemplos socialistas que nos são oferecidos hoje, porque eles estão baseados em ditaduras, e você não chega ao socialismo com ditaduras. Nós já temos uma ditadura – é essa minha idéia fixa. Sim, a experiência marxista é surpreendente – admito que a União Soviética teve um grande sucesso na mudança de suas próprias estruturas, admito que a China Vermelha fez isso de uma maneira ainda mais extraordinária. Mas quando eu leio sobre o que ocorreu na União Soviética, na China vermelha, os expurgos, os informantes, as prisões, o medo, eu vejo um paralelo muito grande com as ditaduras de direita e o fascismo! Quando eu observo a frieza com que a União Soviética se comporta em relação aos países subdesenvolvidos, a América Latina, por exemplo, eu a acho tão parecida com a frieza dos Estados Unidos! Eu tentaria ver algum exemplo de meu socialismo em certos países fora de órbita russa ou chinesa –talvez na Tanzânia, ou na Tchecoslováquia antes da invasão. Mas nem mesmo lá. Meu socialismo é especial, é um socialismo que respeita a pessoa humana e remonta aos Evangelhos. Meu socialismo é a justiça.
Fallaci – Dom Helder, não há palavra tão explorada como a palavra “justiça”. Não há palavra mais utópica que “justiça”. O que o senhor quer dizer com justiça?
D. Helder – Justiça não quer dizer atribuir a todos uma mesma quantidade de bens de um modo idêntico. Isso seria horrível. Seria como se todo o mundo tivesse o mesmo rosto e o mesmo corpo, a mesma voz e o mesmo cérebro. Eu acredito no direito que todos têm de ter rostos diferentes, corpos diferentes, vozes e cérebros diferentes. Deus pode correr o risco de ser considerado injusto. Mas ele não é injusto e quer que não haja privilegiados nem oprimidos, ele quer que cada um tenha o essencial para viver – enquanto permanece sendo diferente. Então o que quero dizer com justiça? Quero dizer uma melhor distribuição de bens, em escala nacional e internacional. Há um colonialismo interno e externo. Para demonstrar o último, tudo o que você tem a fazer é lembrar que 80% dos recursos desse planeta estão nas mãos de 20% dos países, nas mãos dos superpoderes ou das nações que servem aos superpoderes. Só para dar dois pequenos exemplos: nos últimos 15 anos os Estados Unidos ganharam bem uns 11 bilhões de dólares na América Latina – essa cifra é fornecida pelo escritório de estatística da Universidade de Detroit. Ou dizer simplesmente que para um trator canadense a Jamaica tem que pagar o equivalente a 32 toneladas de açúcar… Por outro lado, para demostrar o colonialismo interno, tudo o que você tem que fazer é pensar no Brasil. No Norte do Brasil existem áreas que, sendo generosos, poderemos chamar de subsenvolvidas. Outras ainda lembram a pré-história: as pessoas lá vivem como no tempo das cavernas e ficam felizes em comer o que encontram no lixo. E que eu posso dizer a essas pessoas? Que elas têm que sofrer para chegar ao paraíso? A eternidade começa aqui, na terra, não no paraíso.
Fallaci – Dom Helder, o senhor leu Marx?
D. Helder – É claro. Não concordo com suas conclusões mas eu concordo com a sua análise da sociedade capitalista. O que não dá a ninguém o direito de rotular-me de marxista honorário. O fato é que Marx deveria ser interpretado à luz de uma realidade que mudou, que está mudando. Eu sempre digo aos jovens que é um erro assimilar Marx ao pé da letra; ele deveria ser utilizado sem que as pessoas esqueçam que a análise é de um século atrás. Hoje, por exemplo, Marx nunca diria que a religião é uma alienação, ou uma força alienante. A religião obteve essa qualificação, mas ela não é mais válida. Veja o que ocorre com os padres na América Latina, e em todos os outros lugares. Além disso, muitos comunistas o sabem. Pessoas como o francês Garaudy o sabem, e não importa se pessoas como ele são expulsas do Partido Comunistas – elas existem e elas pensam, elas encarnam o que Marx diria em nossa época. O que eu posso dizer? Os homens de esquerda são frequentemente os mais inteligentes e generosos, mas eles vivem num mal-entendido composto de ingenuidade e cegueira. Eles não conseguem entender que hoje existem cinco gigantes no mundo: os dois gigantes capitalistas, os dois gigantes comunistas e um quinto gigante que tem pés de barro, o assim chamado mundo subdesenvolvido. O primeiro gigante capitalista, nem se precisa enfatizar, é chamado de Estados Unidos. O segundo é chamado de Mercado Comum Europeu, e também se comporta de acordo com todas as regras do imperialismo. O primeiro gigante comunista é chamado de União Soviética, o segundo é chamado de China vermelha, e só os imbecis se iludem ao achar que os dois impérios capitalistas são separados dos dois comunistas pelas suas ideologias. Eles dividiram o mundo em Yalta e continuam dividindo-o enquanto sonham com uma segunda Conferência de Yalta. Então, para o quinto gigante de pés de barro, para nós, onde está a esperança? Eu não a vejo nos capitalistas americanos ou europeus ou nos comunistas russos ou chineses.
Fallaci – Dom Helder, eu tenho que lhe fazer uma pergunta embaraçosa. Houve um período em sua vida em que o senhor adotou o fascismo. Como isso foi possível? E como mais tarde o senhor fez uma escolha tão diferente? Desculpe-me pela lembrança tão ruim.
D. Helder – Você tem todo o direito de lembrar-me desse episódio ruim e eu não me envergonho de responder. Em cada um de nós dorme um fascista e às vezes ele nunca desperta. Às vezes, porém, ele desperta sim. Em mim ele despertou quando eu era jovem. Eu tinha 22 anos de idade, sonhava em mudar o mundo, eu via o mundo divertido em direita e esquerda, fascismo e comunismo. No Brasil o fascismo era chamado de Ação Integralista. Os integralistas usavam camisas verdes em vez das pretas dos italianos de Mussolini. Seu lema era Deus-Pátria-Família – um lema que soava bem para mim. Como eu julgo agora? Foi minha simplicidade juvenil, minha boa fé, minha falta de informação – não havia muitos livros para ler, nem homens sãos a quem eu pudesse ouvir. Mas também pelo fato de meu superior, o bispo do Ceará, ter sido favorável a eles e ter me pedido para trabalhar com os integralistas. A senhora sabe que eu trabalhei com eles até os 27 anos de idade? Comecei a suspeitar que esse não era o caminho certo só quando cheguei ao Rio de Janeiro, onde o cardeal Leme, que não gostava do bispo do Ceará, ordenou-me que abandonasse o movimento. Não me incomodo de lhe contar isso, porque acho que qualquer experiência, qualquer erro enriquece e ensina as pessoas – se não por isso, pelo menos ajuda a entender os outros. Mas a senhora quer saber como cheguei às minhas escolhas de hoje? A resposta é simples: quando um homem trabalha em contato com o sofrimento, ele sempre acaba se emprenhando com esse movimento. Muitos reacionários são o que são porque não conhecem a pobreza e a humilhação. Quando eu me engajei? Quem sabe? Posso só dizer que as germinações já existiam em 1952 quando fui nomeado bispo. Em 1955, o ano do Congresso Eucarístico Internacional, já era uma germinação avançada. Dei a luz às minhas novas idéias num dia de 1960, na Igreja da Candelária, na Festa de São Vicente de Paula. Subi ao púlpido e comecei a falar da caridade compreendida como justiça e não como beneficência.
Fallaci – Dom Helder, alguns entendem que devem alcançar essa justiça pela violência. O que o senhor pensa da violência como instrumento de luta?
D. Helder – Eu a respeito, mas aqui há algo que precisa ser declarado. Quando falamos de violência não devemos esquecer que a violência número um, a violência que é a mãe de todas as violências nasce dos ressentimentos. É chamada de injustiça. Assim os jovens que tentam reagir à opressão da violência número um, com uma violência número dois, chamada de violência existente, provocam a violência número três, chamada de violência fascista. É um espiral. Eu como padre não posso e não devo aceitar qualquer uma dessas três violências, mas eu entendo a violência número dois – precisamente porque eu sei que se chega a ela através da provocação. Detesto aqueles que permanecem passivos, que ficam quietos, e amo aqueles que lutam, que se envolvem. No Brasil, os jovens que reagem à violência com violência são idealistas, a quem eu admiro. Infelizmente sua violência leva a coisa alguma, e, devo acrescentar, quando você começa a brincar com armas os opressores vão simplesmente esmagá-lo. Pensar em enfrentá-los no seu nível é pura loucura.
Fallaci – Em outras palavras, dom Helder, o senhor está me dizendo que a revolta armada é impossível na América Latina?
D. Helder – Legítima e impossível. Legítima porque foi provocada, impossível porque será esmagada. A idéia de que a guerra de guerrilhas seria a única solução para a América Latina desenvolveu-se depois da vitória de Fidel Castro. Mas no começo Fidel Castro não tinha os Estados Unidos contra ele! Os Estados Unidos foram pegos de surpresa por Cuba, e depois de Cuba eles organizaram uma milícia antiguerrilha em todos os países da América Latina, para evitar o surgimento de outras Cubas. Assim, hoje na América Latina todos os militares no poder são auxiliados pelo Pentágono, na repressão a qualquer um que tente fazer uma revolução. Além de escolas especiais de guerra onde os soldados são treinados sob as piores condições, na selva, no meio das cobras, lá também eles aprendem propaganda política. Isto é, enquanto seus corpos aprendem a matar, suas mentes são convencidas de que o mundo está dividido em duas partes: por um lado o capitalismo com seus valores, e por outro o comunismo com seus antivalores. Essas forças especiais, em suma, são tão bem preparadas que qualquer um que tente enfrentá-las inevitalvemente acaba perdendo.
(a bela Oriana com o não menos belo Paul Newman em 1963)
Fallaci – E Camilo Torres?
D. Helder – É a mesma coisa. Camilo foi um padre sincero, mas num certo ponto, sendo um sacerdote e um cristão, ele perdeu qualquer ilusão de que a Igreja tomasse conhecimento de seus belos textos. E ele achava que o Partido Comunista era o único capaz de fazer alguma coisa. Então os comunistas o pegaram e o enviaram imediatamente à luta, onde o perigo era maior. Eles tinham um plano em mente: Camilo seria morto e a Colômbia pegaria fogo. Camilo foi morto, mas a Colômbia não pegou fogo. Nem os jovens e nem os trabalhadores se mexeram. E então voltamos àquela minha constatação de antes.
Fallaci – Dom Helder, o senhor também aplicaria essa constatação aos jovens que estão fazendo guerra de guerrilhas nas cidades brasileiras?
D. Helder – É claro. Oh, eu respeito muito os jovens brasileiros de quem a senhora está falando! Eu os amo porque eles são conscientes, maduros, porque eles não agem com ódio e pensam somente em libertar seus país, às vezes às custas de suas próprias vidas. Eles nem têm tempo de preparar as massas, eles são impacientes e pagam com suas próprias vidas. Eu não gostaria de desencorajar esses jovens, mas tenho de fazê-lo. Será que vale a pensa sacrificar suas vidas por nada? Ou quase nada? Considere, antes de mais nada, os assaltos a bancos que eles realizam só para conseguir o dinheiro necessário para comprar armas. As armas têm um preço muito elevado, trazê-las às cidades é um empreendimento maluco – o risco, o sacrifício, será que não é desproporcional? Agora considere o seqüestro de diplomatas, que eles realizam para libertar seus camaradas da prisão. Todas as vezes que um embaixador é libertado pelos guerrilheiros em troca de seus colegas presos, a polícia envia uma diligência e as celas vazias ficam cheias novamente, e assim como as câmaras de tortura. Eles saem de um lado e entram pelo outro – qual é o sentido disso? O sentido de fazer um intercâmbio, de acrescentar mais aleijados aos aleijados, mais mortes aos mortos? O sentido de aumentar a espiral de violência, de facilitar a ditadura fascista? Como a senhora vê, minha oposição não é baseada em motivos religiosos mas sim táticos. Não provêm de nenhum idealismo, eles provêm de um extremo realismo político, um realismo que se aplica a qualquer outro país: Estados Unidos, Itália, França, Espanha, Rússia. Se em qualquer um desses países os jovens saíssem às ruas e fizessem uma revolução, eles seriam aniquilados num instante. Nos Estados Unidos, por exemplo, o Pentágono acabaria tomando todo o poder. Não precisamos ser impacientes!
(Dom Helder com Abdias do Nascimento)
Fallaci – Até mesmo Jesus Cristo foi impaciente, dom Helder. E ele não defendeu um monte de argumentos táticos quando desafiou as autoridades constituídas. Na história do mundo aqueles que venceram foram sempre aqueles que desafiaram o impossível. E os jovens…
D. Helder – Se você soubesse como eu entendo os jovens! Eu também era impaciente quando jovem – no seminário eu era tão rebelde que não permitiram que eu me tornasse um Filho de Maria (organização pia). Eu falava nas horas devotadas ao silêncio, eu escrevia poesia mesmo sendo proibido, eu discutia com meus superiores. E as novas gerações de hoje enchem-me de admiração porque eles são cem vezes mais desobedientes do que eu era, cem vezes mais corajosos. Nos Estados Unidos, na Europa, em todos os lugares. Não sei nada sobre os jovens russos, mas tenho certeza de que eles também estão tentando algo. Sim, eu sei que para os jovens de hoje é tudo mais fácil porque eles têm mais informações, mais comunicações, eles têm a estrada que a minha geração pavimentou para eles. Mas eles a usam tão bem, essa estrada! Eles têm uma sede tão grande de justiça, de revolta, têm tanto senso de responsabilidade! Estão cobrando seus pais, seus professores, seus pastores, eles mesmos. Viram as costas à religião porque perceberam que a religião os traiu. E eles são sinceros quando encontram sinceridade, sensibilidade. Há algum tempo atrás alguns jovens marxistas vieram me ver, e com uma certa arrogância disseram que haviam decidido aceitar-me. “Ouçam, ouçam”, eu disse a eles, “suponham que eu não os aceite.” Isso nos levou a uma discussão dura e acalorada, mas que terminou num abraço. Eu não só amo os jovens de hoje, eu também os invejo, pois eles têm a sorte de viver a sua juventude em conjunto com a juventude do mundo. Mas ninguém pode me impedir de ser velho e, portanto, sábio – e não impaciente.
Fallaci – É claro que não. Então me deixe perguntar-lhe, dom Helder. Quais as soluções encontradas pela sua sabedoria para eliminar a injustiça?
D. Helder – Qualquer um que tenha a solução em seu bolso é um tolo presunçoso. Eu não tenho soluções. Eu só tenho opiniões, sugestões que podem ser resumidas em duas palavras: violência pacífica. Isso significa não à violência escolhida pelos jovens com armas nas mãos, mas a violência, se você quiser, que já foi pregada por Ghandi ou Martin Luther King. A violência de Cristo. Eu a chamo de violência porque não se contenta com pequenas reformas, revisões, mas insiste numa revolução completa das estruturas atuais –uma sociedade toda refeita, de cima a baixo, numa base socialista e sem derramamento de sangue. Não é suficiente lutar pelos pobres, morrer pelos pobres – temos que dar aos pobres uma consciência de seus direitos e de sua pobreza. As massas têm que perceber a urgência de libertarem-se sozinhas, e não serem libertadas por alguns poucos idealistas que enfrentam a tortura como os cristãos enfrentavam os leões no Coliseu. Ser comido pelos leões não é muito bom quando as massas ficam ali, sentadas, para assistir ao espetáculo. Mas como poderemos fazê-las se levantar e ficar de pé sobre as próprias pernas? Você responde – esse é um jogo de espelhos! Bem, eu posso ser uma utopista e um ingênuo, mas eu digo que é possível conscientizar as massas, e talvez seja até possível abrir um diálogo com os opressores. Não há nenhum homem completamente mau, até mesmo no mais infame dos seres humanos você encontra elementos válidos – e se conseguíssemos de alguma forma conversar com os militares mais inteligentes? E se conseguíssemos de fato induzi-los a rever sua filosofia política? Tendo sido um intregralista, um fascista, eu conheço o mecanismo de suas mentes – pode até ser que consigamos convencê-los de que esse mecanismo está errado, que torturar e matar não mata as idéias, que a ordem não é mantida com o terror, que o progresso só é alcançado pela dignidade, que os países subdesenvolvidos não estão se defendendo ao se colocarem a serviço dos impérios capitalistas, que esses impérios estão lado a lado com os impérios comunistas. Precisamos tentar.
Fallaci – O senhor tentou, dom Helder?
D. Helder – Eu tentarei. Estou tentando agora, conversando com a senhora nessa entrevista. Eles terão que entender também que o mundo está caminhando, que os ventos de revoltas não estão soprando somente no Brasil ou na América Latina, mas também em todo o planeta. Bom Deus, eles sopraram até na Igreja Católica! Sobre o problema da justiça, a Igreja já chegou a certas conclusões, que foram colocadas no papel e assinadas. É verdade que muitos padres estão falando sobre o celibato, mas há mais ainda falando sobre a fome e a liberdade. E então, a senhora sabe, devemos considerar a conseqüências da discussão sobre o celibato; há uma relação entre as várias revoltas, você não pode exigir mudanças das estruturas externas se não tem a coragem de mudar as internas. Os grandes problemas humanos não são monopólio de padres que vivem na América Latina de dom Helder. Eles são enfrentados por padres da Europa, dos Estados Unidos, do Canadá, de todos os lugares.
Fallaci – Eles são grupos isolados, dom Helder. No topo da pirâmide ainda existem aqueles que defendem as velhas estruturas e as autoridades estabelecidas.
D. Helder – Não posso dizer que você está errada. Há uma enorme diferença entre as conclusões assinadas no papel e as realidades vivas. A Igreja tem estado sempre preocupada demais com o problema de manter a ordem, de evitar o caos, e isso a manteve distante de perceber que sua ordem era muitas vezes uma desordem. Freqüentemente eu imagino, sem desculpar a Igreja, como é possível que gente séria e virtuosa tenha aceitado e continue aceitando tantas injustiças. Durante três séculos no Brasil a Igreja achou normal que os negros fossem mantidos como escravos! A verdade é que a Igreja Católica pertence ao mecanismo do poder. A Igreja tem dinheiro, por isso investe seu dinheiro, afunda até o pescoço nos empreendimentos comerciais, e se liga àqueles que detêm as riquezas. Ela acha que assim protege seu prestígio, mas se quisermos sustentar o papel que outorgamos a nós mesmos teremos que parar de pensar em termos de prestígio. E também não devemos lavar as mãos como Pôncio Pilatos; precisamos nos redimir do pecado da omissão e pagar nossas dívidas, readquirindo o respeito dos jovens, sua simpatia e talvez seu amor. Fora com esse dinheiro e com a pregação da religião em termos da paciência, obediência, sofrimento, beneficência. Chega de beneficência, sanduíches e biscoitos. Você não defende a dignidade do homem dando-lhe sanduíches e biscoitos, mas ensinando-lhe a dizer: “Eu tenho direito a um hambúrguer!” Nós padres somos responsáveis pelo fatalismo com o qual os pobres têm sempre se resignado à pobreza, as nações subdesenvolvidas ao subdesenvolvimento. E prosseguindo desse modo nós provamos que os marxistas estão certos quando dizem que as religiões são uma força alienada e alienante, são o ópio do povo!
Fallaci – Meu Deus, dom Helder! Será que Paulo VI sabe que o senhor diz essas coisas também?
D. Helder – Ele sabe, ele sabe. E ele não desaprova. É que ele não pode falar como eu falo. Ele tem um certo tipo de gente à sua volta, pobre homem!
Fallaci – Ouça, dom Helder, o senhor acha mesmo que hoje em dia a Igreja pode representar um papel importante na busca e na aplicação da justiça?
D. Helder – Oh, não. Vamos tirar essa idéia da cabeça, de que depois de causar tanto tumulto a Igreja possa se permitir a representar tal papel. Temos o dever de prestar esse serviço sim, mas sem ostentação. Sem esquecer que a culpa mais séria pertence a nós, cristãos. No ano passado eu participei, durante uma semana em Berlim, de uma mesa redonda de cristãos, budistas, hindus, marxistas. Ali foram discutidos os grandes problemas do mundo, foi examinado o que fizemos, e chegou-se à conclusão de que as religiões têm um grande débito para com a humanidade, mas que os cristões, ou melhor, os católicos, têm o débito maior. Como a senhora explica que esse punhado de países que têm em suas mãos 80% dos recursos do mundo são países cristãos e muitas vezes católicos? Então eu concluo: se existe uma esperança ela reside no esforço conjunto de todas as religiões, não só na Igreja Católica ou nas religiões cristãs. Atualmente não há uma religião isolada que tenha muitas possibilidades. A paz só poderá ser alcançada graças àqueles a quem o papa João chamou de homens de boa vontade.
Fallaci – Há uma miséria sem nenhum poder, dom Helder.
D. Helder – São as minorias que contam. Foram sempre as minorias que mudaram o mundo, rebelando-se, lutando, e despertando as massas. Alguns padres aqui, alguma guerrilha ali, algum bispo aqui, algum jornalista ali. Não estou tentando adular a senhora, mas devo dizer-lhe que sou uma das poucas pessoas que gostam de jornalistas. Quem, senão os jornalistas, relatam as injustiças e informam milhões e milhões de pessoas? Não corte esse comentário da entrevista; no mundo moderno os jornalistas são um fenômeno importante. Houve um tempo em que vocês vinham ao Brasil só para falar sobre nossas borboletas, nossos papagaios, nosso carnaval, em resumo, nosso folclore. Agora, em vez disso vocês vêm para cá e levantam as questões ligadas à nossa pobreza, às nossas torturas. Nem todos vocês, é claro – há também os inconseqüentes que nem se importam se morremos de fome ou de choques elétricos. Nem sempre com sucesso, é claro – sua sede de verdade pára onde começam os interesses da empresa a que vocês servem. Mas Deus é bom, e às vezes ele providencia para que seus chefes não sejam muito inteligentes. Assim, com a bênção de Deus, as notícias sempre passam, e uma vez impressas eles repercutem com a velocidade de um foguete dirigido à lua, e se espalham como um rio que transborda invadindo as margens. O público não é estúpido, mesmo sendo silencioso. Tem olhos e ouvidos, mesmo se não tiver boca. E sempre chega o dia em que ele lembra o que leu. Estou só esperando que ele leia essa verdade definitiva: não devemos dizer que o rico é rico porque trabalhou mais ou é mais inteligente, não devemos dizer que o pobre é pobre porque é estúpido ou preguiçoso. Quando falta a esperança e só se herda pobreza, não adianta nada trabalhar ou ser inteligente.
(Dom Helder com o presidente João Goulart)
Fallaci – Dom Helder, se o senhor não fosse um padre…
D. Helder – Você nem precisa perguntar – não posso nem imaginar ser alguma outra coisa além de padre. Veja, eu considero a falta de imaginação um crime, e mesmo assim, eu não consigo imaginar-me sendo outra coisa senão um padre. Para mim ser um padre não é só uma escolha, é um modo de vida. É o que a água é para o peixe, o céu para o pássaro. Eu realmente acredito em Cristo. Para mim Cristo não é uma idéia abstrata – ele é um amigo pessoal. Ser um padre nunca me desapontou, nem me provocou arrependimentos. Celibato, castidade, a ausência de uma família do modo como vocês leigos a entendem, tudo isso nunca foi um peso para mim. Se eu perdi certas alegrias, tive e tenho outras muito mais sublimes. Se você soubesse o que eu sinto quanto celebro a missa, como me torno uno com ela! Para mim a missa é verdadeiramente o Calvário e a Ressurreição, é uma grande alegria! Veja, há aqueles que nasceram para cantar, aqueles que nasceram para ser padres –eu comecei a dizer isso com a idade de 8 anos e com certeza não porque meus pais puseram essa idéia em minha cabeça. Meu pai era maçom e minha mãe ia à igreja uma vez por ano. Eu me lembro até que um dia meu pai ficou assustado e disse: “Meu filho, você está sempre dizendo que quer ser padre. Mas você sabe o que isso significa? Um padre é alguém que não pertence a si mesmo, ele pertence a Deus e aos homens, ele é alguém que deve somente dar amor, fé e caridade…”. E eu disse: “Eu sei. É por isso que eu quero ser um padre”.
Fallaci – Mas não um monge. Seu telefone toca muito, e esse muro arrebentado pelas metralhadoras não seria próprio de um monastério.
D. Helder – A senhora está errada! Eu carrego um monastério dentro de mim. Talvez não exista muito misticismo em mim, e mesmo em meus encontros diretos com Cristo, sou tão impertinente quanto Cristo desejaria que eu fosse. Mas sempre chega o momento em que eu me isolo, à maneira de um monge. Às 2 horas da manhã eu sempre acordo, me levanto, me visto, e recolho os pedacinhos espalhados durante o dia; um braço aqui, uma perna ali, a cabeça, sabe-se lá onde. Costuro-me todo novamente; sozinho começo a pensar ou escrever, ou rezar, ou então me preparo para a missa. Durante o dia sou um homem frugal. Como pouco, detesto anéis e crucifixos valiosos, como você pode ver. Rejubilo-me com dádivas que estão bem à mão: o sol, a água, as pessoas, a vida. A vida é bela, e muitas vezes fico imaginando porque, para sustentar a vida, é preciso matar outra vida – no caso um homem ou um tomate. Sim, eu sei que enquanto mastigo o tomate eu o faço tornar-se dom Helder e assim o idealizo, torno-o imortal. Mas o fato permanece: estou destruindo o tomate –por quê? É um mistério que eu não consigo assimilar, e assim eu o coloco de lado dizendo, não importa, um homem é mais importante do que um tomate.
Fallaci – E quando o senhor não está pensando no tomate, dom Helder, não lhe acontece de ser um pouco menos monge e um pouco menos padre? Em resumo, zangar-se com homens que valem menos do que um tomate e sonhar com a possibilidade de ao menos golpeá-los com seus punhos?
D. Helder – Se isso chegasse a acontecer eu seria um padre com uma espingarda no ombro. E eu respeito muito os padres com espingardas nos ombros; eu nunca disse que usar armas contra um opressor é imoral ou anticristão. Mas não é minha escolha, não é minha estrada, não é meu jeito de aplicar os Evangelhos. Então quando eu me zango, e eu sinto isso quando as palavras não saem mais da minha boca, eu paro e digo: “Acalme-se dom Helder!” Sim, eu compreendo, você não é capaz de ligar o que eu acabo de dizer com o que eu disse antes: por um lado o monastério, pelo outro a política. Mas o que você chama de política, para mim é religião. Cristo não jogou o jogo dos opressores, ele não cedeu àqueles que lhe disseram que, se você defender os jovens que seqüestram embaixadores, se você defender os jovens que assaltam bancos para comprar armas, você está cometendo um crime contra a pátria e o Estado. E Igreja quer que eu me ocupe com a libertação da alma, mas como eu posso libertar uma alma se eu não consigo libertar o corpo que contém essa alma? Eu quero enviar homens para o céu, não cachorrinhos. Muito menos cachorrinhos com estômagos vazios e testículos destruídos.
Fallaci – Obrigada, dom Helder. Parece-me que isso diz tudo, dom Helder. Mas e agora, o que acontecerá com o senhor?
D. Helder – Bah! Eu não me escondo, eu não me defendo, e não seria preciso ter muita coragem para me eliminar. Mas estou convencido de que eles não me matarão se Deus não o quiser. Se, pelo contrário, Deus quiser, porque ele acha que está certo, eu o aceito como sua graça –quem sabe, minha morte pode até ajudar. Eu já perdi quase todo o meu cabelo, o pouco que restou ficou branco, e não tenho mais muitos anos de vida. Por isso suas ameaças não me assustam. Em resumo, será um pouco difícil para eles, desse modo, fazer com que eu me cale. O único juiz que eu aceito é Deus.
No Socialista Morena
Leia Mais ►