31 de mar de 2013

A Globo e a ditadura militar, segundo Walter Clark

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Roberto Marinho na foto da capa do livro promocional assinado por seu empregado Pedro Bial.
Ainda que não tivesse sido esse o objetivo de sua autobiografia, na qual relatou há 19 anos a incrível trajetória que o transformara no todo-poderoso senhor, por mais de uma década, da quarta rede comercial de televisão do mundo, Walter Clark acabou por oferecer no livro – O campeão de audiência, que teve o jornalista Gabriel Priolli como coautor, Editora Best Seller, 1991 – uma contribuição importante para a compreensão das relações muito especiais entre a TV Globo e o regime militar à sombra do qual floresceu. Além de rejeitar a conhecida imagem da emissora como uma espécie de porta-voz do “Brasil Grande” do ditador Médici, ele garantia nunca ter visto Roberto Marinho “se humilhar diante de quem quer que fosse, milico ou não, presidente da República ou não. Ao contrário, é uma altivez que fica sempre no limite da arrogância”.
Walter_Clark01_Capa_LivroClark referia-se à suposta independência do dono da Globo por “manter em torno de si homens de esquerda em cargos importantes” (citava Franklin de Oliveira, Evandro Carlos de Andrade e Henrique Caban), inclusive depois que o SNI ampliou a pressão contra os dois últimos, com acusações contidas numa fita de vídeo que o dono da Globo fora convocado a assistir em companhia de Clark e Armando Nogueira. Explicitamente, admitia apenas que o regime “incomodava” a Globo, que enfrentou “o mesmo gosto amargo da censura, das intimidações, das impossibilidades que todo mundo sentiu: imprensa, rádio, televisão, as artes, a universidade, a cultura”. Claramente na defensiva, o autor mostrava-se ressentido com os que o culpavam – na própria Globo e mais até do que Marinho – pela submissão ao regime militar. Mas ao passar das opiniões subjetivas aos fatos concretos, acabava por confirmar o que pretendia desmentir: a docilidade das tevês (em particular a sua), em parte resultante do caráter precário das concessões de canais pelo governo, tinha uma longa história e já o atropelara antes, na TV Rio.
Essa emissora, na qual também foi autoridade máxima (com o título nominal de “diretor comercial”), Clark submeteu-se, sem reação, ao assalto dos lacerdistas – liderados pelo empresário Abraham Medina, fazendo valer a condição de patrocinador de programas – no episódio da tomada do Forte de Copacabana, em 1964. Posteriormente, conseguiu o prodígio de entregar-se tanto ao governo estadual como ao federal, até mesmo depois do desafio do governador Carlos Lacerda ao presidente Castelo Branco. Clark confessou ter retirado do ar programas de Carlos Heitor Cony e Roberto Campos para satisfazer o coronel Gustavo Borges, chefe de Polícia do Rio, que o chantageava com a ameaça de mudar o horário da novela “O direito de nascer”, líder de audiência.
Da promiscuidade à cumplicidade
Não por acaso, a experiência da Globo acabaria por extremar a tendência à acomodação, a ponto de Clark contratar um ex-diretor da censura (“o Otati”) para “ler tudo que ia para o ar” e, pior ainda, uma “assessoria especial” para cortejar o poder, formada pelo general Paiva Chaves, pelo civil linha-dura Edgardo Manoel Erickson (“pelego dos milicos”, conforme disse) e mais “uns cinco ou seis funcionários”. O episódio que aparentemente o convenceu a ir tão longe chegava a ser cômico: um certo coronel Lourenço, do Dentel, tinha tirado a estação do ar em 1969, convocando Clark ao Ministério da Guerra, porque Ibrahim Sued, na esperança de agradar ao Planalto, divulgara uma intriga plantada pelo grupo do general Jaime Portela, então na conspiração do “governo paralelo” juntamente com dona Yolanda Costa e Silva. Ibrahim foi preso e Clark aprendeu a lição depois de levar um pito do coronel Athos, “homem de Sylvio Frota”.
Além da pretensa altivez de Marinho, impressionaram Clark a “integridade”, a “honestidade” e o “patriotismo” do general Garrastazu Médici, que depois de 1974 passara a frequentar seu gabinete na Globo para ver futebol aos domingos. Muita gente apanhava e morria nos cárceres da ditadura, mas para ele isso não podia, de forma alguma, ser coisa do ditador Médici: “Tenho a impressão de que ele não se envolveu com nenhum excesso, nenhuma violência do regime.”
De quem era, então, a responsabilidade? “Foi coisa dos caras da Segunda Seção do Exército, do SNI, do Cenimar, do Cisa, a turma da segurança. E era tudo na faixa de major, tenente-coronel.” Pronto a absolver os poderosos, frequentadores de seu gabinete (até mesmo o general Ednardo D’Ávila‚ chamado no livro de “figura agradável”), e a condenar apenas o guarda da esquina, obscuro, Clark comete o disparate de afirmar que “a censura e as pressões não eram feitas pelos generais”, mas por “gente como o Augusto”, beque do Vasco que virou agente do Dops. Mas se era assim, por que submeter-se a eles?
O autor recorreu ainda a outra desculpa para justificar o adesismo e o ufanismo tão escancarados na ocasião pela rede dos Marinho: “A Globo não fazia diferente dos outros.” E mais: “Se o Estadão não conseguia enfrentar o regime, se a Veja não conseguia, como é que a Globo, sendo uma concessão do Estado, conseguiria resistir à censura, às pressões?” O problema, para os críticos de Clark dentro da própria emissora, é que ela, como ele, parecia preferir aquela filosofia de que se o estupro é inevitável só resta relaxar e aproveitar. Daí os comerciais da Aerp (Clark alega que foram feitos para evitar uma “Voz do Brasil” na tevê, projeto de um certo coronel Aguiar), as coberturas patrióticas de eventos militares (Olimpíadas do Exército e o resto), as baboseiras ufanistas de Amaral Neto. “Era o preço que pagávamos para fazer outras coisas”, alegou. Não se deu ao trabalho de explicar que coisas eram essas. E ele mesmo admitiu na autobiografia que o apregoado Padrão Globo de Qualidade “acabou passando por vitrine de um regime com o qual os profissionais da TV Globo jamais concordaram”.
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Clark, numa capa da Veja em 1971.
A Globo devia ao regime, como ficou claro no relato de Clark, até mesmo a introdução da tevê em cores – imposta pelo ministro das Comunicações, coronel Higino Corsetti, sabe Deus para atender a que lobby multinacional. Mas a intimidade promíscua com o regime foi mais longe, a ponto de compartilhar com o SNI os serviços clandestinos do “despachante” encarregado de liberar contrabandos na Alfândega: para a empresa, equipamentos de tevê; e para os militares da espionagem oficial, sofisticados aparelhos de escuta ilegal. Graças a isso, Clark podia desfrutar estranhas sessões de lazer como a conversa com um tal general Antônio Marques, pressuroso em exibir foto tirada no escuro de um cinema (com equipamento infravermelho) e identificar o personagem em cena comprometedora como dom Ivo Lorsheiter, progressista odiado pela linha dura militar.
Para Armando, “uma questão de realismo”
O autor defendeu no livro tudo o que fez para “afagar o regime” (expressão dele) e investiu contra os que o acusavam de “puxar o saco dos militares” (também expressão dele). Para fazer autocensura, revelou, tinha importantes aliados internos, com destaque especial para o papel do diretor de Jornalismo, Armando Nogueira. Por “questão de realismo”, por exemplo, Armando e ele tomavam “muito cuidado” para não trombar “com o regime nem com Roberto Marinho”. Mas o leitor tropeça nas contradições da narrativa, entre elas a ambiguidade em relação ao ex-amigo J. B. (Boni) de Oliveira Sobrinho – acusado de fazer vista grossa quando Dias Gomes e outros enfiavam “coisas nos textos que certamente iam dar problemas”, mas também de cumplicidade com os militares para destruir o próprio Clark (“lá por 1976, Laís, a mulher do Boni, foi me denunciar para o pessoal do SNI, que ela conhecia, dizendo que eu era um toxicômano perigoso”).
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Amoral Nato, digo, Amaral Neto, o repórter… da ditadura.
Não é preciso inteligência privilegiada para perceber que o jogo de cumplicidade com o regime confundia-se com a luta interna pelo poder dentro da Globo, arbitrada por Marinho e envolvendo não apenas Clark e Boni, mas também o segundo escalão: Joe Wallach, que representava o Grupo Time Life, segundo ele mesmo; José Ulisses Alvarez Arce; e, em especial, o diretor de Jornalismo Armando Nogueira. Esse último é pintado no livro como incompetente, preguiçoso e traiçoeiro. Em meio à guerra, as reuniões do conselho de direção nas manhãs de segunda-feira tornaram-se um inferno, em generalizado clima de intriga e discórdia, com todo mundo brigando com todo mundo. O dinheiro farto que todos ganhavam, contou Clark, “era como veneno, especialmente nas mãos das mulheres”. Munidas de talões de cheque, elas estrelavam “um festival de nouveau-richismo, pretensão e falta de educação”. Acusado de consumir drogas, Clark defendeu-se ao encarar a prática como generalizada: “A cocaína era chique nas festas intelecto-sociais e seu consumo, bastante disseminado, mas resolveram me transformar em drogado.”
Quando Marinho decidiu tomar “o brinquedo de volta” – ou seja, recuperar o controle da Globo, que “tinha emprestado para uns garotos mais moços brincarem” – uma das mãos firmemente agarradas ao tapete de Clark, segundo o livro, foi a do ministro da Justiça, Armando Falcão, “tipo deletério, que adorava fazer intrigas, dizer que éramos todos comunistas, drogados, os piores elementos”. No relato aparece um Roberto Marinho bem mais coerente na conspícua (e promíscua) aliança com o regime do que o autor chega a reconhecer explicitamente – tanto que o episódio no qual Clark é afinal defenestrado mistura, de forma reveladora, a disputa pelo poder no regime militar com aquela que se processava na Globo, escancarando as relações perigosas entre o governo e a rede de tevê consolidada à sombra do autoritarismo.
O autor nega que o motivo de sua saída tenha sido, como se propalou na época, seu comportamento pessoal pouco ortodoxo (em razão de excessos alcoólicos) numa festinha com poderosos de Brasília. O livro atribuiu a demissão à queda de braço com o regime, que exigia o expurgo na Rede Globo da afiliada paranaense de Paulo Pimentel, político que rompera com o antigo protetor, ministro Ney Braga, e ainda era desafeto do chefe do SNI, general João Baptista Figueiredo, então a caminho da Presidência. Se assim foi, faltou a Clark reconhecer ter sido demitido na primeira vez em que de fato ousava contrariar os donos do poder. “Eu argumentava”, escreveu ele “que o governo tinha o poder concedente dos canais de rádio e tevê e, se quisesse atingir o Paulo [Pimentel], que cassasse a sua concessão e enfrentasse o desgaste político”. Mas Marinho, pragmático, pensava diferente, talvez sintonizado, naquele sombrio ano de 1977, com o clima incerto gerado por mais uma demonstração de força do regime, o Pacote de Abril.
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Amigos, amigos, negócios à parte: James Baldwin, Wallach, Clark e Boni (em pé);
Arce e Armando Nogueira (sentados).
Até veto de música no festival da canção
Clark nem sequer notou a semelhança desse episódio com tantos outros que marcaram a aliança promíscua da Globo com o poder – e nos quais ela se limitara a acatar a vontade do regime. Alguns de tais episódios, envolvendo a tevê e autoridades militares, desfilaram ao longo do livro O campeão de audiência: o ataque do general Muricy a um documentário da CBS (para ele, “subversivo”) sobre o Vietnã, comprado ironicamente pelo norte-americano Wallach, do Time Life; o Jornal Nacional, no terceiro dia de sua existência, proibido por um coronel (Manoel Tavares) do gabinete do general Lira Tavares (membro da Junta que tomara o poder) de noticiar o sequestro do embaixador dos EUA e a doença de Costa e Silva, os dois principais assuntos; o aviso do general Sizeno Sarmento de que as músicas “Caminhando” e “América, América” estavam proibidas de ganhar o Festival Internacional da Canção; a ordem do general Orlando Geisel para as patriotadas de Amaral Neto serem incluídas no horário nobre; a prisão do próprio Clark pelo Dops no dia do Ato 5, por ordem do coronel Luís França (em represália por ter ele discutido com o motorista do militar num incidente de trânsito).
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Marinho andava de braço dado
com o ditador Figueiredo.
Enfim, a especialidade da Globo era acomodar-se a cada situação. A acomodação prevaleceu ainda no dia da queda de Clark. Ele aceitou sem discutir o prêmio de consolação (US$2 milhões) oferecido por Marinho. E limitou-se a encomendar o texto da carta de demissão (“em alto estilo… literário”) ao amigo Otto Lara Resende, suficientemente versátil para também escrever em seguida a resposta na qual o dono da Globo agradeceu os serviços prestados pelo demissionário (quatro anos depois Otto aceitaria também a missão de fazer o prefácio do livro O campeão de audiência).
A demissão é uma espécie de anticlímax da autobiografia, na qual o autor assumiu compulsivamente a responsabilidade pelas iniciativas bem-sucedidas da Globo, declarou-se adepto de programas de qualidade (mas o salto de audiência veio com os popularescos de baixo nível, de Raul Longras, Chacrinha, Dercy Gonçalves etc., bem na linha da atual pornografia BBB) e atribuiu o mal feito a outros – como os que mantiveram elevado o faturamento e a liderança absoluta de audiência nos anos seguintes, enquanto o próprio Clark, que na Globo tinha o maior salário do mundo (clique aqui para ler a notícia no New York Times sobre a demissão do brasileiro com o maior salário do mundo) e frequentava presidentes e ministros, descia ao fundo do poço, de fracasso em fracasso (como diretor de duas tevês, logo demitido, e produtor de dois filmes nos quais sequer se reconheceu sua contribuição, mais um espetáculo teatral altamente deficitário).
“Em 14 anos, depois de minha saída, o que houve de realmente novo?”, perguntou o autor naquele ano de 1991, referindo-se à Globo. Pouca coisa, talvez. Hoje, com a perda crescente de audiência para os concorrentes e sem os privilégios garantidos nos 20 anos de ditadura militar, ela está condenada a conformar-se com as regras da democracia e da competição. E passa a valer para a Globo a amarga reflexão pessoal de Clark no livro: “Não se deve cultivar excessivamente o poder, pendurar-se emocionalmente nele, porque um belo dia o poder acaba e o dia seguinte é terrível.” 


Argemiro Ferreira em seu blog, texto publicado em 3/4/2010
No Limpinho&Cheiroso
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Vi o Mundo e a blogosfera sob ameaça

 
O sufoco por que passam os blogs não corporativos, fenômeno que vinha se intensificando nas últimas semanas com a condenação judicial, ainda que em primeira instância, de uma série de blogueiros – Cloaca News, Marco Aurélio de Mello, Rodrigo Vianna, os irmãos Mário e Lino Bocchini (da Falha de São Paulo) - tornou-se uma questão de primeira ordem a partir da repercussão de um post em tom de desabafo escrito por Luiz Carlos Azenha. Nele, o jornalista e editor do Viomundo declara-se em vias de fechar o blog por alegadamente não poder arcar com os custos de um processo judicial movido por Ali Kamel, diretor-geral de jornalismo da Globo, os quais só na primeira fase já teriam somado 30 mil reais.
Mais do que trincheiras de militância política, os chamados "blogs sujos" vêm se tornando, de forma cada vez mais intensa, polos de resistência e de diversificação de enfoques e análises em um país cujo setor comunicacional, fortemente concentrado, encontra-se assumidamente partidarizado – contexto que, por sua vez, no contexto do jornalismo brasileiro, gera um déficit de credibilidade que agrava ainda mais a crise estrutural da imprensa decretada pela popularização da internet.
Arena democrática
O Viomundo ocupa uma posição privilegiada nesse cenário. Em primeiro lugar porque, ao contrário do que logo se apressaram a proclamar membros de uma certa esquerda que parece sempre mais interessada em desagregar e instaurar a cizânia de modo a fazer valer suas posições, nunca foi um blog chapa-branca. Pelo contrário: as vigorosas reportagens de Conceição Lemes sobre a gestão federal da Saúde, o acompanhamento das greves nacionais e da questão sindical e a reprodução de textos selecionados de colaboradores – dentre os quais alguns dos posts mais críticos ao governo por este blog publicados – formam, hoje, somados a textos que apresentam uma visão mais simpática – mas não necessariamente menos crítica – do governo Dilma , um testemunho vivo dos erros e acertos da atual administração federal em seus mais de dois anos de vigência.
Um segundo ponto em que o Viomundo se destaca é pela qualidade de sua caixa de comentários, que acaba diversas vezes por se transformar, efetivamente, em um fórum de debates de bom nível, feito raro no atual estágio da blogosfera, que os demais blogs políticos de grande audiência, corporativos ou independentes, estão longe de repetir, com suas igrejinhas, trolls e agressividade grassante.
Luta é pela blogsfera
É evidente que não são só por essas qualidades que lutar pela sobrevivência do Viomundo é neste momento essencial. Descrevo-as como forma de esconjurar o fantasma de seu possível encerramento através do testemunho afetivo do que ele significa para mim. Mas ainda que se tratasse de um blog minúsculo, chapa-branca e sem comentaristas – ou com comentaristas a se digladiar agressivamente – a luta se faria igualmente necessária, por o que está em jogo aqui é a garantia de liberdade de expressão para além do universo capitalista das corporações midiáticas e a manutenção dessa experiência riquíssima de participação e debate politico que a blogosfera e as redes sociais têm propiciado no Brasil na última década.
Creio não ser preciso me alongar quanto a isso: é já dado histórico que, num passado recente, foram, em larga medida, essas novas modalidades comunicacionais que, entre tantos outros episódios, desvelaram a farsa midiática por trás de episódios como a publicação da ficha policial falsa da candidata Dilma Roussef na capa da Folha de S. Paulo; o aparelhamento político-partidário da revista Veja e sua transformação em máquina de factoides e destruição de reputações; a farsa envolvendo Lina Vieira, secretária da Receita Federal ligada ao clã chefiado por Agripino Maia (DEM/RN); a bolinha de papel que atingira o candidato José Serra (episódio em relação ao qual o próprio ex-presidente Lula, em seu histórico encontro com blogueiros, reconheceu a importância da atuação da blogosfera no restabelecimento da verdade que o Jornal Nacional estava a falsear).
Através dessa atuação a blogsfera política foi ganhando respeitabilidade, audiência, proliferando em novos blogs – e hoje, embora ainda esteja longe de oferecer em quantidade reportagens e matérias jornalísticas originais, vem superando, em termos de credibilidade e para um público maior e melhor qualificado, a mídia corporativa como fonte de análises politicas.
De arauto a grilo falante
O que parece essencial sublinhar, no esforço para contextualizar os fatores que levaram à atual crise da blogosfera, é como ela passou, ao longo de governo Dilma, de alinhada prioritária da administração federal petista à atual condição de "persona non grata" nas hostes palacianas. Um primeiro estranhamento se deu no período imediatamente posterior à eleição de Dilma, em que um esperado gesto de agradecimento da eleita para com os blogueiros que se dedicaram intensamente à sua campanha não veio (foi no intuito de preencher tal lacuna que se organizou o encontro de Lula - veja bem, de Lula, não de Dilma - com os blogueiros). Tal quadro agravou-se com a nomeação de Ana de Hollanda para o Ministério da Cultura e a adoção de uma política reacionária em relação a direitos autorais e novas tecnologias digitais, contrária à posição dos principais ativistas da causa no país, cuja mobilização pela eleição de Dilma, liderados por Marcelo Branco, fora intensa.
Mas a cereja do bolo na banana que Dilma deu à blogosfera foi sua aproximação entusiasmada para com a mesma mídia corporativa que a difamara de todas as formas durante a campanha eleitoral, incluindo uma visita ao programa Ana Maria Braga e a confraternização com a fina flor do tucanato na festa pelo aniversário Folha de S. Paulo.
Daí por diante a blogosfera, que, embora majoritariamente unida em torno da candidatura Dilma, nunca fora o monolito ideológico que seus adversários pintam, passou a apresentar divisões internas mais nítidas. Uma porcentagem de seus membros optou pela oposição sistemática ao novo governo e, embora prevalecesse a maioria a favor, esta dividiu-se entre os blogs de apoio irrestrito ao governo, outros de apoio crítico - entre os quais se insere a maior parte dos blogs sob judice - e ainda outros que professam imparcialidade jornalística. Seja como for, o apoio entusiasmado do período de disputa eleitoral com José Serra e a pior direita deu lugar, em larga medida, à produção de demandas políticas específicas e de conteúdo crítico em relação ao governo Dilma. A blogosfera se transformara em grilo falante, definiu alguém.
Mutações do poder
Nesse ínterim, o ministro Paulo Bernardo, que no início do governo frequentava risonhamente as redes sociais prometendo disseminar a banda larga e batendo altos papos com blogueiros, dá um block geral, enclausura-se no interior do ministério em companhia dos acólitos das teles e passa a qualificar os blogueiros de "vagabundos" enquanto trama um repasse milionário do Estado para as empresas particulares de telecomunicação, recordistas de queixas nos Procons, que, com a anuência do governo, vendem banda larga a preço de internet por satélite e velocidade de conexão discada.
É no contexto dessa dinâmica que se dá, lenta e paulatinamente, o confronto entre um governo cuja secretaria de Comunicação continua a irrigar generosamente os cofres da mídia corporativa – da mesma mídia corporativa que muitos dos blogueiros chama de PIG, como "homenagem" à forma implacável como tais veículos exercem uma oposição tão cerrada quanto desqualificadora em relação ao governo federal -, enquanto mantém a torneira fechada para os blogs e demais órgãos de imprensa alternativos.
Pragmatismo x ideologia
A lógica por trás da ação governamental é cristalina, e se amolda a perfeição ao seu projeto de expansão de hegemonia político-eleitoral à revelia das questões ideológicas, priorizando alianças o mais amplas possível (ainda que´politicamente esdrúxulas ou eticamente insustentáveis), o desenvolvimentismo a qualquer custo e a manutenção prioritária dos índices econômicos. Em relação a tal programa, parte considerável da blogosfera, com suas críticas pontuais, sua memória para com compromissos de campanha e, sobretudo, o pendor com que teima em insistir numa tomada de posição ideológica por parte do governo, transforma-se de aliado de primeira hora em incômodo porta-voz de escrúpulos que se quer superados. "Com a tentativa de dar um abafa no jornalismo independente, o governo Dilma manda um recado claro para bons entendedores: a politização do debate não está nos seus planos, muito menos aquela que daria ensejo a recortes de classe, ainda que somente uma tomada de consciência", assinalou um observador arguto.
O dado paradoxal – e revelador da importância jornalística da blogosfera e do quanto é falsa sua visão como um bloco monolítico chapa-branca – é que o leitor jamais se inteiraria da dinâmica de tal processo através das fontes jornalísticas convencionais. Seria preciso investigar o retrato do governo Dilma em blogs como os agora processados, ou, por exemplo, os de Altamiro Borges e Maria Frô, ou mesmo este humilde boteco, para se inteirar de tais percalços.
Problema é antigo
No atual contexto, um eventual recuo da blogosfera ante dificuldades econômicas impostas pelo custo de processos judiciais – algo que uma eventual combinação de litigância de má-fé e proximidade das eleições pode tornar explosivo – significaria um tremendo retrocesso, com graves consequências para o debate público no país e, em decorrência, para seu próprio avanço democrático. É importante notar que tal possibilidade não se trata de um fato novo: em um texto publicado no Observatório da Imprensa no já longínquo ano de 2009, logo após o fechamento do blog A Nova Corja em virtude dos custos físicos, psicológicos e financeiros dos processos judiciais que sofrera, :
A despeito do temor de alguns blogueiros de que alguma forma de representação coletiva venha a comprometer sua independência, torna-se cada vez mais urgente, devido à profusão de processos judiciários contra blogs e ao intervalo cada vez menor entre eles, a montagem de uma rede de proteção jurídica a curto ou médio prazo. Ela poderia ser erguida, por exemplo, com a participação de advogados voluntários, ligados ou não a ONGs e universidades, mas cientes da importância do papel da blogosfera independente e dispostos a contribuir com seu tempo e saber jurídico da mesma forma generosa e gratuita que tantos blogueiros se dedicam às atividades de pesquisa e redação.
Reação pungente
Esse tema foi intensamente debatido no I Encontro Nacional de Blogueiros, realizado em 2010) e, talvez com menos intensidade e menor sentido de urgência, nos encontros nacionais e regionais posteriores. Com a deflagração da atual crise da blogosfera, torna-se urgente a retomada de tal debate e a efetivação concreta de medidas reativas.
O caso Viomundo provocou uma grande reação na blogosfera e nas redes sociais, mobilizando corações e mentes para uma rápida reação. Uma reunião foi marcada para a próxima terça-feira, 02/04, as 17h, no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé (Rua Rego Freitas, 454 – 1o. Andar – conj. 13) visando a busca de soluções para o caso e o encaminhamento de debates visando resolver tal impasse. Todos os interessados são convidados. Confira aqui a convocatória e algumas sugestões de pauta.
Maurício Caleiro
No Cinema & Outras Artes
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Será que são só 99 os erros diários da Folha?

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Na manchete deste domingo, o jornal da família Frias não encontrou assunto melhor para sua manchete do que uma discussão estéril sobre se raios causam ou não apagões; internamente, o texto da ombudsman Suzana Singer revela que cada edição diária traz, em média, 99 erros de informação; talvez seja bem mais que isso...
No início deste ano, todos estão lembrados, a Folha anunciou que o Brasil enfrentaria um racionamento de energia semelhante ao do governo FHC, em 2001. Depois disso, quando os temores se mostraram infundados, a Folha passou a prever apagões em séria. Em seguida, apaguinhos. Por fim, com a volta das chuvas e o acionamento das térmicas, o tema foi esquecido.
No 247
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O poder à vista

O impasse decorrente da presença do deputado-pastor Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e de Minorias não é um caso político qualquer.
Tanto expõe uma situação atual até aqui mal observada, como indica uma situação futura bastante problemática no Congresso, em particular na Câmara.
O caso em torno do pastor Marco Feliciano agrava-se mais, com sua decisão de afrontar os opositores e entregar a relatoria de projetos, na Comissão, a evangélicos notoriamente contrários a tais propostas, referentes a assuntos como aborto e sexo profissional.
Mas o comando da Câmara e a maioria dos líderes partidários estão acovardados, diante da dupla ameaça de reação do grupo de deputados-pastores à saída forçada de Marco Feliciano.
Agora, tumultuariam a Câmara com ações deles próprios e com grandes mobilizações externas; depois, seriam campanhas acusatórias, nas eleições, aos autores de "perseguição religiosa" no Congresso.
Marco Feliciano está convidado para uma reunião, na terça-feira, com líderes das bancadas partidárias que tentariam demovê-lo da permanência como presidente daquela Comissão.
Os sinais, até o final de semana, foram de provável ausência do convidado. E, a comparecer, seria para reafirmar a recusa à renúncia. É a posição transmitida por seus principais aliados entre os evangelistas da Câmara.
A reunião cordial foi adotada pelos líderes, ao fim de mais de duas horas de discussão, como alternativa à alegada falta de recurso do Regimento para a substituição compulsória de Marco Feliciano.
A alegação é discutível, a começar de que a necessária atividade da Comissão está inviabilizada e, também para casos assim, a Câmara dispõe de Comissão de Ética e de Corregedoria. A alegação da falta de instrumentos resulta mais do temor de enfrentar o problema.
O impasse em torno do pastor-deputado Marco Feliciano, com suas manifestações racistas e anti-homossexuais, é o primeiro embate relevante em que os evangélicos se põem como um novo bloco orgânico, ideologicamente bem definido e poderoso.
Este novo evangelista e o bloco ruralista não precisam estar de acordo em tudo para comprovar o adiantamento da direita, como bancada no Congresso, sobre os que se dizem "a esquerda".
A perspectiva dessa situação delineia-se neste fato incontestável: nenhum segmento político está em mais condições de crescer, nas eleições do ano próximo para o Congresso, do que os evangélicos. A contribuição que podem levar só é promissora para eles e seu projeto de poder político.
Janio de Freitas
No fAlha
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PSDB lidera contratações sem concurso público

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De 105,5 mil servidores não concursados que trabalham nos Estados, 37,6 mil são contratados pelos oito governadores tucanos; no ranking elaborado pelo IBGE e divulgado pelo jornal O Estado de S.Paulo, PT e PMDB são os próximos da lista
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O Imperador do Rio

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Lá pelos idos de 1500, D. Manoel I, Rei de Portugal, chamou Cabral à sala do trono e lhe deu a seguinte missão: “Cabral, você é homem de minha confiança, pegue um tabelião, Pero Vaz de Caminha e vá tomar posse das terras de Vera Cruz, antes que um aventureiro espanhol o faça. Você terá todo o apoio da corte e todos os recursos necessários para tal missão”.
Comandando uma frota de caravelas, acompanhado do tabelião Caminha e do bispo Henrique de Coimbra, saíram de Lisboa e rumaram em direção à America. Chegaram à costa e desembarcaram no que é hoje a Bahia. Foram recebidos pelos povos que ali viviam a quem chamaram de índios. Montaram uma cruz e rezaram uma missa, pois o bispo, para marcar posição e ter direito nos futuros butins, não podia deixar passar esta oportunidade. Isto já era uma a primeira tentativa de eleger um papa sul-americano, um futuro descendente da Terra Brasilis, mas deu argentino. A Europa já estava dominada, agora seria a vez do Novo Mundo.
O tabelião registrou na escritura: “A terra é boa e se plantando tudo dá. Mas devemos mudar a sede mais para o sul, pois esse povo que encontramos aqui será difícil dominar e impor nossa cultura. Mais ao sul, dentro do nosso programa de colonização, poderemos trazer gente da África que são mais dóceis e que se submeterão mais facilmente. A gente traz uns tambores e vamos deixá-los praticarem suas festas e crenças populares enquanto nós comandamos”. Também foi proposto pelo tabelião dividir a terra que era enorme, em capitanias que o Rei distribuirá para os puxa-sacos da corte e seus descendentes, transformando-as em hereditárias. E assim foi feito.
Neste momento Cabral sofreu o primeiro revés, pois o Rio de Janeiro, onde ele queria se instalar, foi incluído na capitania de São Vicente, sob o comando de Martim Afonso de Souza. Além disso, havia Estácio de Sá, fundador da cidade e os franceses que também queriam ficar por aqui. Tiveram que se submeter ao “índio” Araribóia, o Sepé daquelas bandas, para expulsarem Villegagnon e tomarem conta do “campinho”.
Martim Afonso, que tinha uma boa visão de futuro vislumbrou que esse futuro estava ali, na futura terra de São Paulo, abandonou o Rio de Janeiro. Mas teria que dividir espaço com o Padre José de Anchieta. Sempre eles. Trazendo uns italianos – matarazzos, uns japoneses – yakisobas, uns árabes – salim, pode ser Paulo ou Pedro, fariam daquela terra o celeiro do futuro país chamado Brasil.
Então Cabral viu a oportunidade de assumir a terra que ele tanto sonhava e que chamava de maravilhosa. “Aqui fundarei meu reino” vaticinou.
Passados cinco séculos, em 2013, ao sofrer mais uma derrota com a derrubada do veto da Presidenta à lei de distribuição dos royalties do petróleo, explodiu: “essa é a última vez que nos passam a perna”. Convocou uma reunião imediata do gabinete de governo, composto pelos mamadores-mor, cabos eleitorais, secretários com ou sem nenhuma importância e o poder clerical – a igreja, uns pais-de-santo e alguns pastores. Estes eram poucos, pois apesar de influentes eram muito vorazes. Tinha que ter quórum para apresentar sua estratégia e os planos para o futuro do Rio.
Iniciou, como sempre, a reunião com um discurso, que teve diagnóstico e propostas, cientificamente traçadas.
“Pessoal, nós precisamos dar um basta nesse passa-a-perna constante no Rio de Janeiro. Custou-nos muito, inclusive vidas e orgulho (aqui ele se referia aos cavalos amarrados no obelisco pela gauchada) manter e fazer prosperar este território. Aqui, que já foi sede do Reino de Portugal, foi capital da República, está virando a casa da mãe joana. Primeiro veio a turma do Getúlio que encheram a cidade de gaúchos que nunca mais foram embora e o pior, continuaram vindo para cá. Depois veio um mineiro invejoso, que não tinha mar no seu estado, e mudou a capital para Brasília. Perdemos uma enormidade de empregos públicos e nos deixou na obrigação de criar empregos privados e ter que trabalhar. Para nos massacrar mais ainda, os ditadores militares, todos gaúchos e, aquele que não era gaúcho estudou no colégio militar de lá, e fez a bobagem de juntar o Estado da Guanabara, nosso estado cidade, ao antigo Estado do Rio, feudo dos parentes do Getúlio. Quando nós estávamos começando a tirar o pé do barro, digo o governo e as pessoas ligadas à ele, não o povo, com os royalties do petróleo de Campos e o turismo, o resto, digo o resto do País, querem que nós dividamos a grana do pré-sal com todos eles. Sabem quem foi que iniciou isto? Um gaúcho, um tal de Ibsen. Já havia uma combinação entre nós, São Paulo e o Espírito Santo. Ficaríamos senhores de tudo e, no futuro tomaríamos conta do que sobrou do Brasil. A sorte deles é que não tem obelisco em Brasília e nem dá para ir a cavalo para lá. Tem um amigo empreiteiro que nos emprestaria um avião, mas desisti e resolvi partir para o Plano B, que vou relatá-lo a vocês relembrando as palavras de Duque de Caxias: aquele que for carioca siga-me”.
Desse ponto o Imperador começou a relatar seu plano e justificar cada ação a ser tomada do que ele chamou de Plano Diretor Geral Para a Tomada de Vergonha na Cara pelos Cariocas, o PDGPTVCC.
“Nossa única salvação é nos separar do Brasil. Declarar independência. Nosso território será formado pelo que hoje conhecemos como Zona Sul, do lado de cá do túnel. A fronteira será o maciço da Tijuca, desde a Barra de Guaratiba, passando pelo canal de Marapendi, deixando fora Jacarepaguá, indo até o Arsenal da Marinha. O Cristo Redentor nos dá o limite do Rio de Janeiro. De cima do Morro do Corcovado, de os braços abertos e posicionado de frente para a Baía da Guanabara nos diz: o Rio de Janeiro é isto, é daqui para frente, à minha frente. Assim nos livramos da maior parte das favelas do Rio. Como nós cariocas sempre tivemos uma ligação muito grande com Miami, nosso quintal e nosso shopping center, vamos fazer uma proposta ao Obama para anexá-la ao ECU – Estados Cariocas Unidos. Ele vai topar, pois os democratas sempre perderam as eleições na Flórida, será vantagem para ele estabelecer o terceiro mandato nos EUA, pois no fundo ele sempre quis ser um Fidel ou um Chaves.
Por aqui ocuparemos dois territórios que tradicionalmente faz parte do mundo carioca: Angra dos Reis, não a cidade, mas a enseada que abrange as localidades de Bracuí e Frade. Também tomaremos a região dos lagos, anexando São Pedro da Aldeia, Cabo Frio e Búzios. Infelizmente nem tudo é bônus, temos também o ônus. Devemos anexar Campos, pois ali estão nossos poços de petróleo. Não se preocupem que o nosso especialista em ocupação, um gaúcho, já tem tudo planejado. Ele usará sua experiência em ocupações de territórios conflagrados e os contingentes policiais das UPP´s – Unidade de Polícia Pacificadora que sairão das favelas que ficarão no antigo Estado do Rio. Como estado soberano criaremos a CIA – Carioca´s Intelligence Agency, que será responsável pelas informações e contrainformações no nosso País. Reativaremos o Forte de Copacabana, para defender nossa costa de invasões estrangeiras e dos niteroienses que sempre tiveram desejo de morar no Rio. A rampa de asa delta da Pedra Bonita será usada pela nossa força aérea, composta pelos paragliders e afins. Também montaremos um batalhão especializado em guerra de selva que será treinado na floresta da Tijuca. Incorporaremos os moradores das favelas remanescentes como forças de reação às invasões das facções do tráfico oriundas do estado vizinho.
Nossa economia será a produção e exportação do petróleo de Campos com a criação da PCSA – Petróleo Carioca S/A, aos moldes da empresa venezuelana, mas sem essa de bolivarianismo. A segunda fonte será o turismo, pois o Rio continuará sempre lindo. Ampliaremos o aeroporto Santos Dumont para receber os aviões de grande porte americanos do norte e europeus. Desativaremos e destruiremos a ponte Rio-Niterói do nosso lado, de modo a permitir a expansão do aeroporto.
Esse é o nosso, o meu plano. Alguma pergunta?”
Nesse momento, um membro da plateia, aquele que tem pé grande, pediu a palavra e enfiou o pé na jaca, passando a fazer considerações sobre o plano, praticamente inviabilizando-o.
“Majestade, acho o plano muito bem organizado, porém tenho algumas dúvidas que quero expor: fecharemos os túneis e o metrô para que não haja invasão terrestre? Quanto à anexação de Campos, o que fazemos com a família Garotinho? Na definição do território, Vossa Majestade esqueceu que ficam fora do território o sambódromo, nossa maior fonte de renda turística, e o Maracanã. A Copa do Mundo será lá e nós não temos estádios do lado de cá. Também ficam comprometidas as Olimpíadas, pois os brasileiros querem saber de futebol e nada de maratona, salto em altura, salto com vara, etc. Como ficam os grandes clubes do Rio sem o Maraca e o Engenhão? A Globo que é nossa, não vai poder transmitir jogos do brasileirão e nem da Libertadores, no máximo poderá mandar um correspondente internacional. Sua Majestade já combinou com os clubes? Quanto a Miami, lembremos que teremos que administrar os “gusanos”, isto é, os cubanos dissidentes que estão sempre pedindo ajuda para fazer propaganda contra a Ilha. Vivem de esmolas. Outro ponto turístico são os passeios às “comunidades”, aos bailes funk, que estarão do outro lado. Europeu sugou todo o sangue que podia de nós e agora vem redimir seus pecados com trabalhos assistenciais nas comunidades. Quem vai levar a fama e a grana é o governador vizinho. Por último Majestade, haverá um probleminha para criar a CIA, pois todo carioca inteligente foi embora do Rio. Para finalizar acho que o nome a ser adotado ECU é bem apropriado porque se implantarmos isto que está proposto nós seremos nada mais que um CU, embora unidos.”
Nesse instante, sua Majestade ficou pensando, olhando para o infinito e disse: “o pior de tudo que Delta agora é só uma empresa aérea dos EUA. O jeito é tentar negociar”.
O telefone do gabinete toca e uma voz do outro lado canta o samba de João Nogueira – Baile no Elite: “…num quarto sem forro/ perto do pronto-socorro/ uma sirene me acordou/ em estado desesperador/ me levantei lavei o rosto/ quase morro de desgosto/ foi tudo um sonho e se acabou”.
Mogli Veiga, engenheiro, aventureiro e questionador.
No Sul21
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Por que Haddad merece aplausos por Pinheirinho 2

Por pouco não se repetiu a brutalidade de Pinheirinho 1.
A polícia já estava repetindo o que fizera em Pinheirinho
A polícia já estava repetindo o que fizera em Pinheirinho
Algumas semanas atrás, escrevi um artigo sobre o excelente documentário do jovem alagoano Fabiano Amorim a respeito do deprimente caso de Pinheirinho.
Milhares de pessoas foram brutalmente desalojadas de suas casas num terreno pertencente à massa falida de um homem – Naji Nahas, frequentador das páginas policiais por golpes financeiros — que jamais fez nada ali.
Amorim, com razão, criticou a indefensável omissão do PT no episódio. Admistração com foco social jamais pode deixar uma coisa daquelas  acontecer. É abjeto. É vergonhoso.
Agora, uma resposta animadora veio do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. Sua ação foi vital para que se evitasse um novo Pinheirinho, e isto tem que ser registrado e aplaudido.
Não é mais que a obrigação, é certo. Mas isto não foi feito em Pinheirinho. E o governador Alckmin não fez o óbvio, nem antes e nem agora. Vaias, portanto, para Alckmin e palmas para Haddad.
A polícia militar já estava prestes a repetir a operação de Pinheirinho, com luz verde de Alckmin, e em circunstâncias nebulosas, num terreno em São Paulo ao qual os moradores deram o nome de Pinheirinho 2 em homenagem a Pinheirinho.
Pinheirinho
Pinheirinho
Reproduzo  abaixo um trecho de um artigo do UOL.
Segundo o presidente da Associação dos Moradores do Pinheirinho 2, Jean Carlos da Silva, a invasão foi autorizada pelo dono do terreno. “Ele e pessoas dele disseram a pessoas da associação que as pessoas poderia entrar, ocupar a área e que 15 dias após faria a negociação”, diz. Segundo Jean, o acordo é que lotes seriam vendidos por R$ 5 para R$ 7 mil. A associação acabou com o acordo semanas depois, quando o valor subir para até R$ 18 mil.
O dono do terreno, Heraclides Bataglia  Camargo Filho, está sendo investigado.  Existe a suspeita de que ele tenha estimulado a ocupação para receber depois o dinheiro da desapropriação.
Dava para impedir Pinheirinho e nada ocorreu. Dava para impedir Pinheirinho 2 e algo que se fez.
Avançamos.
Paulo Nogueira
No Diário do Centro do Mundo
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Do golpe militar às Diretas-Já

O golpe militar de 1964 serviu aos interesses – ideológicos, políticos e empresariais – dos barões da mídia. Com exceção do Última Hora, os principais jornais, revistas, emissoras de TV e rádio participaram da conspiração que derrubou João Goulart. O editorial da Folha de S.Paulo de 17 de fevereiro de 2009, que usou o neologismo “ditabranda” para qualificar a sanguinária ditadura, ajudou a reavivar esta história sinistra – além de resultar num manifesto de repúdio com 8 mil adesões de intelectuais e na perda de mais de 2 mil assinantes. Afinal, não foi apenas a Folha que clamou pelo golpe. Vários livros documentaram a participação ativa da mídia, inclusive listando veículos e jornalistas a serviço dos golpistas [9]. Os editoriais da época escancararam essa postura ilegal.
“Graças à decisão e heroísmo das Forças Armadas, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo a rumos contrários à sua vocação e tradições... Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares”, comemorou o jornal O Globo. “Desde ontem se instalou no país a verdadeira legalidade... A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas”, afirmou, descaradamente, o Jornal do Brasil. “Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr. João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comunos-carreiristas-negocistas-sindicalistas”, disparou o fascistóide Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa.
Na sequência, alguns veículos ingeriram seu próprio veneno e sentiram a fúria dos fascistas, que prenderam, mataram, cassaram mandatos e impuseram a censura. Lacerda, que ambicionava ser presidente, foi escorraçado pelos generais. Já o Estadão, com a sua linha liberal-conservadora, discordou do rumo estatizante do regime e teve várias edições censuradas. Este não foi o caso do grupo Frias, que tornou a Folha da Tarde “uma filial da Operação Bandeirantes”, a temida Oban, e no jornal de maior “tiragem” do país devido ao grande número de “tiras” (policiais) na sua redação [10]. Também não foi o caso da Rede Globo, que ergueu seu império graças ao irrestrito apoio à ditadura [11].
Até quando a ditadura já dava sinais de fraqueza, a TV Globo insistiu em salvá-la. Nas eleições de 1982, a corporação de Roberto Marinho montou um esquema, através da empresa Proconsult, para fraudar a apuração dos votos e evitar a vitória do recém-anistiado Leonel Brizola. A fraude foi denunciada por Homero Sanchez, ex-diretor de pesquisas da própria emissora. Ela também tentou desqualificar todos os principais líderes da oposição à ditadura. Numa entrevista ao jornal The New York Times, Roberto Marinho confessou: “Em um determinado momento, me convenci que o Sr. Leonel Brizola era um mau governador... Passei a considerar o Sr. Brizola daninho e perigoso e lutei contra ele. Realmente, usei todas as possibilidades para derrotá-lo”.
A manipulação mais grosseira, que popularizou o refrão “O povo não é bobo, fora Rede Globo”, ocorreu na campanha pelas Diretas-Já. Até duas semanas antes da votação da emenda Dante de Oliveira, que instituía a eleição direta para presidente, ela omitiu a mobilização que contagiava milhões de brasileiros. Ela recusou até matéria paga com chamadas para o comício em Curitiba (PR). Já o ato na capital paulista, que reuniu 300 mil de pessoas em 25 de janeiro de 1984, foi apresentado pelo âncora da emissora como “festa em São Paulo; a cidade comemora seus 430 anos”. “O Jornal Nacional sonegou ao público o fato – notório, na época – de que o ato fazia parte da campanha nacional por eleições diretas. Sonegou que essa campanha era liderada publicamente pelos principais expoentes da oposição” [12]. Um verdadeiro crime!
Das greves à histeria na Constituinte
Alguns veículos perceberam o naufrágio da ditadura militar e jogaram papel positivo na luta pela redemocratização. O caso mais curioso foi o da Folha, que até usou suas capas para convocar os comícios das Diretas-Já. O grupo Frias, que apoiara os generais “linha dura”, mudou de lado por oportunismo político e “mercadológico” [13]. Apesar destas nuances, nenhum barão da mídia abdicou de sua visão de classe. Jornalões e emissoras de TV e rádio nunca vacilaram diante das lutas dos trabalhadores, procurando criminalizar suas greves e satanizar suas lideranças. Numa das massivas assembléias em Vila Euclides, em maio de 1980, os metalúrgicos do ABC paulista destruíram câmeras e veículos da TV Globo, indignados com as suas recorrentes manipulações.
Esta opção de classe ficou visível durante os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte, em 1987/1988. Meticulosa pesquisa de Francisco Fonseca, da Fundação Getúlio Vargas, prova que os quatro principais diários do país (Jornal do Brasil, O Globo, Estadão e Folha) uniformizaram os seus ataques aos direitos trabalhistas. “Através dos editoriais, que definem a linha editorial e ideológica de cada veículo, a grande imprensa operou nos debates constituintes, sobretudo nos temas que se referiam aos direitos sociais... Alguns dos direitos propostos, como a diminuição da jornada de trabalho, a ampliação da licença-maternidade, a licença-paternidade e o aumento do valor da hora extra, foram tratados como catastróficos à produção” [14].
“A Constituinte embarcou em um caminho de distribuição de benefícios sociais cujo produto só pode ser um e único: a redução da taxa de investimentos, com o conseqüente atraso econômico”, afirmou o editorial terrorista do JB (28/02/88). “Concessões feitas em total descompasso com os efeitos não prejudicarão apenas os trabalhadores, [mas também] a estabilidade institucional”, ameaçou o golpista O Globo (15/11/87). O Estadão, com sua linha liberal-conservadora, pregou a supremacia do deus-mercado, afirmando que tais direitos “acarretariam pernicioso desestímulo aos melhores” (18/06/87). Já a Folha atacou a “demagogia”, inclusive nas propostas do adicional de férias, aviso prévio aos demitidos e limite de seis horas nos turnos ininterruptos (08/07/88).
Além de rejeitar qualquer avanço trabalhista, a mídia bombardeou o direito de greve e procurou fragilizar o sindicalismo. “A liberdade de greve é um abuso conceitual”, atacou o JB (07/07/88). A Folha exagerou ao dizer que as propostas dos constituintes estimulariam o “direito irrestrito de greve... [com] artigos condenáveis” (15/07/88). Já O Globo, no editorial “A porta da anarquia”, afirmou que este direito “significa a porta aberta à desordem e ao caos” (17/08/88). E o Estadão explicitou sua aversão às greves, principalmente no setor público. “São exércitos de empregados que agem com todas as regalias e mordomias de funcionários públicos, promovendo greves que ganham, hoje, aspectos nitidamente políticos e ideológicos, que levam à violência” (19/11/88).
Diante da ascensão das forças democráticas nos anos de 1980 e das conquistas da “Constituição-cidadã”, segundo a célebre definição do deputado Ulisses Guimarães, a mídia percebeu os riscos na origem e deu seu grito de guerra. “A hora é dos liberais acordarem, porque depois será tarde... Os liberais brasileiros têm diante de si uma ingente tarefa; se não se organizarem para combater o populismo estatizante (...), o Brasil corre o risco de regredir”, alertou o Estadão. “Não há outro caminho senão o de todos nos unirmos pondo acima de superadas divergências ideológicas ou de futuras disputas eleitorais os supremos objetivos da nação”, clamou o golpista Roberto Marinho.
NOTAS
9- Renê Armand Dreifuss. 1964: A conquista do estado. Editora Vozes, RJ, 1981.
10- Beatriz Kushnir. Cães de guarda. Boitempo Editorial, SP, 2004.
11- Valério Brittos e César Bolaño. Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia. Editora Paulus, SP, 2005.
12- Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl. Videologias. Boitempo Editorial, SP, 2004.
13- Armando Sartori. “Oportunismo mercadológico”. Revista Retrato do Brasil, setembro de 2006.
14- Francisco Fonseca. “O conservadorismo patronal da grande imprensa brasileira”. Dezembro de 2002.
- Extraído do quarto capítulo do livro “A ditadura da mídia” (Editora Anita Garibaldi).
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O general merecidamente esculachado

Castelo Branco foi uma página sombria na história brasileira.
Estátua de Castelo Branco, no Rio, merecidamente "esculachada"
Sejamos diretos: que sentido existe em erigir uma estátua para Castelo Branco, o primeiro general no poder durante a ditadura militar?
Castelo Branco, essencialmente, ajudou a derrubar, em 1964, um regime eleito pelos brasileiros. João Goulart assumira a presidência depois da renúncia de Jânio Quadros, e num golpe de estado foi substituído em 1964 por um general que jamais recebeu um voto na vida.
Uma estátua para ele?
Ponto para os ativistas que promoveram um “esculacho” na estátua de Castelo no Rio de Janeiro. Imite os bons e você será um deles, escreveu Sêneca. Pois nossos esculachadores se inspiraram no exemplo de ativistas que têm promovido um “escracho” em símbolos de ditaduras em países como Argentina e Chile.
Qualquer um pode erguer uma estátua. Mas só o povo tem o poder de consagrá-la, ignorá-la ou até destruí-la. Em Londres, uma estátua de Margareth Thatcher foi decapitada em 2003.
Cheers!
Sob apoio do conservadorismo brasileiro – representado por políticos como Carlos Lacerda e por toda a grande mídia — e dos Estados Unidos (pelas mãos da famigerada CIA), a administração militar brasileira comandou uma espetacular concentração de renda sob o pretexto de “modernizar” a economia. O economista-chefe da ditadura, Delfim Netto, alegava que o bolo tinha que crescer antes de ser dividido. O problema era que o momento da divisão jamais chegou para os desfavorecidos sob os militares.
Sequer reclamar eles podiam, pois as greves foram proibidas. Nos subterrâneos, foram perseguidas, torturadas e mortas pessoas que, como Dilma quando universitária, reagiram ao golpe. Os insurgentes eram, em geral, jovens cultivados intelectualmente e bem intencionados, dispostos a morrer – e a matar — pela causa. Gosto da definição de Luís Carlos Prestes, o lendário líder comunista brasileiro: os guerrilheiros eram “patriotas equivocados”. (Prestes e o Partido Comunista não apoiaram a luta armada.)
Sob os militares foi destruída uma das mais eficientes escadas para a ascensão social: a educação pública. As escolas públicas, até o regime militar, tinham alto nível. Foram se transformando em uma réplica tosca do que foram. Os colégios particulares acabaram por se tornar a única alternativa para pais interessados em ver seus filhos terem um ensino decente. Evidentemente, os garotos pobres ficaram de fora da mudança das escolas públicas para as privadas.
Uma estátua para Castelo Branco?
Não fosse o brasileiro tão cordial, ela teria sido decapitada há muito tempo, como aconteceu com a estátua de Thatcher. Ainda que tardio, o esculacho deve ser aplaudido.
Não é revanchismo. É justiça.
Paulo Nogueira
No Diário do Centro do Mundo
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Memórias de abril e o golpe da informação

Historiador da CIA revela como ideias e recursos dos EUA seduziram a imprensa brasileira nos anos 1950 e semearam o golpe. Hoje, ainda, não se pode piscar diante do apetite voraz da direita – a colonizadora e a colonizada
Há 48 anos, quando o Brasil vislumbrava reformas constitucionais necessárias a seu desenvolvimento, os Estados Unidos financiaram e orientaram o golpe militar. E interromperam uma vez mais um projeto nacional proposto em 1930 por Vargas. Os acadêmicos podem construir teses sofisticadas sobre a superioridade dos países nórdicos para explicar o desenvolvimento cultural e econômico da Europa e dos norte-americanos e as dificuldades dos demais povos em acompanhá-los, mas a razão é outra. Com superioridade bélica, desde sempre, impuseram-se como conquistadores do espaço e saqueadores dos bens alheios, os quais lhes permitiram o grande desenvolvimento científico e militar nos séculos 19 e 20 e sua supremacia sobre o resto do mundo.
O golpe de 1964 não se iniciou com a renúncia de Jânio, três anos antes. Podemos ver sua origem mais próxima em 1953. Naquele ano, diante da resistência de Getúlio Vargas, que quis limitar as remessas de lucros e criou a Petrobras e a Eletrobrás para nos dar autonomia energética, a ação “diplomática” dos Estados Unidos cercou o governo. Com o aliciamento de alguns jornalistas e dinheiro vivo distribuído aos grandes barões da imprensa da época, construiu a crise política interna. Entre a lei que criou a Petrobras e a morte de Getúlio, em 24 de agosto, dez meses depois, o Brasil viveu período conturbado igual ao de agosto de 1961 a abril de 1964.
A propósito do projeto de Getúlio, seria importante a tradução e publicação, no Brasil, de um livro no qual essa operação é narrada em detalhes: "The Americanization of Brazil – A Study of US Cold War Diplomacy in The Third World", 1945-1954. Enfim um estudo sobre a diplomacia americana para o Terceiro Mundo em tempos de Guerra Fria. O autor, Gerald K. Haines, é identificado pela editora SR Books como historiador sênior a serviço da CIA, o que lhe confere toda a credibilidade.
Haines mostra como os donos dos grandes jornais da época foram “convencidos” a combater o monopólio estatal, até mesmo com textos produzidos na própria embaixada, no Rio. E lembra a visita ao Brasil do secretário de Estado Edward Miller, com a missão de pressionar o governo brasileiro a abrir a exploração do petróleo às empresas norte-americanas. O presidente da Standard Oil nos Estados Unidos, Eugene Holman, orientou Miller a nos vender a ideia de que, só assim, o Brasil se desenvolveria. O povo brasileiro foi às ruas e obrigou o Congresso a impor o monopólio.
A domesticação dos meios de informação do Brasil começara ainda no governo Dutra. Os americanos usaram as excelentes relações entre os intelectuais e jornalistas e o embaixador Jefferson Caffery, nos meses em que o Brasil decidira por aliar-se aos Estados Unidos na luta contra o nazifascismo, em benefício de sua expansão neocolonialista. A criação da Petrobras levou os ianques ao paroxismo contra Vargas, e os meios de comunicação acompanhavam a histeria americana. A estatal era vista como empresa feita com o amadorismo irresponsável dos ignorantes. A revista Fortune, citada por Haines, disse que a Petrobras “apenas dança um samba com os problemas básicos do petróleo”.
A morte de Vargas não esmoreceu os grupos que tentaram, em 11 de novembro do ano seguinte, impedir a posse de Juscelino, eleito em 3 de outubro. O golpe de Estado foi frustrado pela ação rápida do general Teixeira Lott. Em 1964, a desorganização das forças populares favoreceu a vitória dos norte-americanos, que voltaram a domesticar a imprensa e o Parlamento e manipularam os chefes militares brasileiros.
Os êxitos do governo atual e a nova arregimentação antinacional contra a Petrobras – agora com o pré-sal – devem mobilizar os trabalhadores que não estão dispostos a viver o que já conhecemos. Sabem que a situação internacional tende para a direita, e não podemos repetir apenas que o povo esmagará os golpistas. É necessário não só exercer a vigilância, mas agir, de forma organizada e já, para promover a unidade nacional em defesa do desenvolvimento de nosso país.
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O nome feio

No meu tempo... Parênteses: sempre que um cronista começa a crônica com “no meu tempo” significa que está sentimentalizando sua velhice para não precisar lamentá-la, o que não interessaria a ninguém. No meu tempo, como eu dizia quando me interrompi tão rudemente, ler ou ouvir um “nome feio” fora de contexto era sempre uma felicidade.
Me lembro da minha surpresa ao descobrir que havia nomes feios nos dicionários. Agradávamos aos nossos pais, dando a impressão de que fazíamos uma pesquisa etimológica séria no dicionário, quando na verdade estávamos procurando “bunda”. No meu tempo, entre parênteses, “bunda” era nome feio.
Em Porto Alegre, há muitos anos, existia uma loja chamada Casa Carvalho. O nome da loja aparecia em letras aplicadas à sua fachada e, dependendo da sua faixa etária e da sua disposição para pensar em bobagem, você ou pertencia ao grupo que vivia em alegre expectativa do dia em que o “v” de “Carvalho” caísse, ou ao grupo mais velho que vivia em sobressalto com a possibilidade de isto ocorrer.
Que eu me lembre, o desejado ou temido nunca aconteceu e a loja chegou ao fim dos seus dias com o “Carvalho” intacto. Mas, durante toda a sua existência, apenas aquele pequeno detalhe separou o estabelecimento do vexame e a cidade de um abalo moral.
No Rio, entre Copacabana e Ipanema, existe uma rua que eu já ouvi ser chamada de “Quase, quase”. Trata-se da Bulhões de Carvalho, que depende apenas de uma letra para deixar de ser um nome de família e se transformar numa raridade anatômica. No meu tempo isto seria motivo para muita risada, mas como hoje não existe mais “nome feio”, e até em conversa de criança palavrão é usado como pontuação, perdeu a graça.
Posso imaginar um avô atual chamando a atenção do neto para a consequência de um único erro de grafia no nome da rua e o neto fazendo uma cara de “Me poupe”.
Eu e o hipotético avô acima pertencemos à última geração que espantou o Condor, o que explica nossa ingenuidade. Na apresentação dos filmes da distribuidora Condor aparecia um pássaro condor na beira de um precipício pensando em alçar voo, e era comum, era quase obrigatório, a plateia espantar o condor, que sem este incentivo jamais voaria.
Nunca mais se espantou o condor, se é que o condor ainda existe. Olha aí, acabei me lamentando.
Luis Fernando Veríssimo
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Azenha: Globo e governo Dilma parecem estar perto da vitória

Azenha anunciou que vai fechar o Viomundo depois de perder ação na justiça movida pela Globo. É uma notícia-bomba. Uma derrota parcial da luta pela democratização no país. E quando alguém perde, outro alguém ganha. Os vencedores são os grandes grupos econômicos de comunicação, mas também uma boa parte do governo que anda mais preocupada com negócios do que em construir políticas públicas que modifiquem a imensa concentração deste segmento.
No momento, estou em Tunis, na Túnisia, cobrindo o Fórum Social Mundial. Antes de vir pra cá estive em Brasília. Conversei com muita gente. E confirmei o que já imaginava. Primeiro, que o governo Dilma não vai mexer no que considera um vespeiro, a regulamentação da comunicação. Segundo, que o ministro Paulo Bernardo deixou de ser apenas uma adversário desta tese. Passou a se um inimigo. E mais do que isso, agora instrumentaliza nossa luta para conquistar ainda mais poder.
Bernardo hoje é o homem dos grandes grupos de comunicação no PT. É o sujeito que livra as teles e a Globo dos “monstros” que querem a regulamentação e a democratização. E o que fazemos, no fundo, o ajuda a ampliar seu poder. Foi neste contexto que seu secretário-executivo, Cezar Alvares, teria dito a frase de que o governo Dilma não faria a regulamentação das comunicações. Aquilo não foi um deslize. Foi a assinatura de um contrato público com o povo da radiodifusão. Foi a Carta ao Povo Brasileiro de Dilma com esses setores. Eles queriam um sinal claro. Bernardo deu.
Mas não é só isso. Paulo Bernardo (e não só ele) também tem se referido a blogueiros como vagabundos e pilantras. E completa a frase com “e o governo ainda sustenta essa gente…”. Convenhamos, isso é bobagem. O que não é bobagem é que ele tem feito pressão pessoal para que ninguém mais apoie os poucos veículos que ainda recebem alguma verba publicitária. (Aliás, se você quer saber o tamanho deste apoio, leia este artigo do Miguel do Rosário.)
Nos Correios, por exemplo, a ordem é clara. Se algum centavo for destinado a esse “povo”, cabeças rolarão. Procure algo dos Correios em qualquer veículo da mídia alternativa ou livre. Mas também procure na Veja, na Globo, na Folha e no Estadão…
Azenha não está anunciando o fechamento do seu blogue por causa da Secom e do Paulo Bernardo. Mas também não está fazendo isso só por causa da Globo. Se a gente tivesse nesta luta pela democratização da mídia, mas não se sentisse sendo usado, talvez ele não tivesse tomado esta atitude.
Espero que ela ainda reflita e que um movimento cidadão o anime a seguir em frente. Azenha nunca teve um centavo de recurso público no seu blogue. E desde que o conheço nunca se mostrou interessado neste tipo de financiamento. Mas ele sonhou junto com muitos de nós que teríamos condição de melhorar a correlação de forças da comunicação no Brasil. Imaginou que tínhamos aliados. E ouviu, como eu, discursos de muitos se comprometendo com a causa.
E com o tempo passando, foi percebendo que só estávamos sendo usados. É este o exato sentimento: usados. E talvez essa sua decisão seja um sinal para um movimento que pode se tornar bastante importante. O Azenha não pode ficar sozinho nisso. É hora de refletir.
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