17 de mar de 2013

Dom Bergoglio e dom Paulo

Um número grande de leitores do blogue tem escrito para reclamar de meus textos sobre o novo Papa.
A queixa mais recente envolve uma citação. Em nota recente, defini o jornalista Horácio Verbitsky como uma das grandes autoridades sobre direitos humanos na Argentina. Os leitores escrevem para lembrar que Verbitsky participou do grupo armado Montoneros, que cometeu sequestros e até execuções de inimigos durante o regime militar.
Lembro a nossos amigos que a vida de todo mundo é feita de contradições. Mesmo aqueles homens que os católicos descrevem como Santos não tiveram uma existência em linha reta, certo?
Verbitsky participou de uma organização armada e não acho que, nas circunstâncias daquele tempo, isso seja necessariamente vergonhoso. Pode ser honroso, conforme o ponto de vista de tantos argentinos. O debate não é este, porém.
Mais tarde, dedicou-se a pesquisar e investigar o que se passou naquele período. E foi nessa atividade que demonstrou um rigor fora do comum. Seus livros sobre o período militar são obras únicas pela disposição de investigar e  analisar rigor uma situação bastante complexa. É impossível entender a Argentina dos anos 80 sem ler o que escreveu sobre a guerra suja, os conflitos internos do peronismo e  o regime dos generais.
Isso aconteceu em outros países. No Brasil, antigos militantes da luta armada participaram das pesquisas e da redação do livro Brasil Nunca Mais. Isso não impediu que o livro fosse referência mundial em pesquisas sobre violações de direitos humanos.
A reação diante de  meus elogios ao trabalho de  Verbitsky, ajuda a lembrar que todos temos um passado e é preciso lidar com ele. E é aí que o debate sobre a atuação de José Mario Bergoglio faz sentido.
Depois da denuncia de Verbitsky, o Premio Nobel Adolfo Perez Esquivel tentou encontrar um conceito para definir  a atuação do então bispo Bergoglio naquele período. Disse que ele não fora cúmplice dos militares e que apenas não havia demonstrado “coragem” na luta por direitos humanos, naquele momento.
Foi o que bastou para que as denuncias de Verbitsky, que citou o caso de dois jesuítas que Bergoblio teria se recusado a proteger em hora de perigoso, fossem tratadas como “difamação” por seus aliados. Vamos com calma.
Ainda que o conceito de Esquivel seja o mais adequado, a constatação de  que um bispo não demonstrou “coragem” diante de um governo capaz de produzir 30 000 mortos, sequestrar mulheres grávidas e crianças me parece grave o suficiente para discutir sua de liderança para defender os fracos e indefesos em horas difíceis.
Este ponto é importante. A atuação da Igreja argentina no período militar foi tão vergonhosa que mais tarde ela chegou a pedir desculpas a população pelo apoio ao regime, o que dá uma  ideia do sentimento de repulsa de boa parte dos argentinos pelo comportamento de tantos padres e bispos naquela época.
Falta de coragem pode ser eufemismo para muitas atitudes, nós sabemos.
Mas não é um conceito que cabe a Igreja brasileira no mesmo período.
Embora o regime de 64 tenha sido abençoado pela cúpula da Igreja, nos anos seguintes ela se tornou abrigo de boa parte das ações de oposição e resistência. Procure nas oposições sindicais e nas lideranças populares daquela época. Vai ser muito comum encontrar pessoas que, de uma forma ou de outra, tinham ligações com a luta social da Igreja.
Entre várias lideranças, poucas se destacaram como o Arcebispo de São Paulo, Paulo Evaristo Arns. Quinze anos mais velho do que Bergoglio, dom Paulo viveu um mesmo período mas atuou de forma oposta.
Seu comportamento foi exemplar em momentos decisivos.
Realizou uma missa pela morte do estudante Alexandre Vannuchi Leme, em 1973 e, dois anos depois, fez o culto ecumênico em função do assassinato do jornalista Vladimir Herzog. Criou uma comissão para investigar crimes contra direitos humanos e desafiou a ditadura ao denunciar a situação brasileira durante visita de Jimmi Carter ao país. Dom Paulo também estimulou a defesa de direitos humanos em países vizinhos, denunciando a cooperação entre as ditaduras para perseguir adversários.
No fim da ditadura argentina, o mal-estar em torno de Bergoglio era tão grande que um dos jesuítas mencionados por Verbitsky, a quem não teria prestado ajuda na hora devida, reconciliou-se com ele.
Ou seja, deu-lhe perdão.
Embora não lhe tivesse faltado coragem, Dom Paulo não foi perdoado pela valentia. 
Na mudança política promovida  a partir da posse de João Paulo II, sua diocese foi dividida, seus poderes foram diminuídos e os aliados foram encostados. Sob aplauso das fatias mais conservadores, vozes ligadas a resistência foram silenciadas, num processo dirigido pessoalmente por Joseph Ratzinger.
Se alguém quisesse contar a história como ela foi, e não como gostaríamos que tivesse ocorrido, é possível dizer que, com sua “falta de coragem” o bispo Bergoglio adivinhou o rumo que o Vaticano iria seguir nos anos seguintes.
Já a valentia de dom Paulo trouxe a admiração de tantos brasileiros, católicos ou não. Não lhe trouxe, contudo, as honrarias do sistema que transformou Bergoglio em Papa.
Curioso, não?
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Duas tonalidades de sombra

Os jornais brasileiros abrem espaço para a defesa do papa Francisco, no debate que se estabeleceu assim que foi anunciado o nome do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio para o trono do Vaticano. O ponto focal é: que papel ele jogou durante a ditadura militar?
Com tudo que tem de retrógrada e atual, essa questão central remete a um contexto muito contemporâneo: a sociedade brasileira, assim como quase todos os países latino-americanos, está dividida em dois grupos antagônicos, duas visões de mundo divergentes que se tornam cada vez mais ortodoxas conforme se agrava o radicalismo presente na mídia e nas redes sociais digitais.
Nas edições de sexta-feira (15/3), os jornais reproduzem declaração do arquiteto argentino Adolfo Pérez Esquivel – que em 1980 recebeu o Prêmio Nobel da Paz por sua campanha pacifista contra a violência política –, no qual afirma não considerar que o cardeal Bergoglio tenha sido cúmplice da ditadura, mas que lhe faltou coragem para acompanhar a luta pelos direitos humanos nos momentos mais difíceis.
Como os jornais recortam sua manifestação, melhor ler a íntegra do texto original, em seu site autobiográfico (ver www.adolfoperezesquivel.org).
Interessante destacar como Esquivel declara desejar que o novo papa “dê alento às transformações sociais que vêm ocorrendo na América Latina e em outras partes do mundo, nas mãos de governos populares que tratam de superar a noite do neoliberalismo”.
No contexto de extremismos em que tudo é enquadrado por estes dias, esse posicionamento do prêmio Nobel o colocaria automaticamente em um dos lados da conflagrada disputa por corações e mentes que se pode acompanhar nas redes sociais e na imprensa. No entanto, sua discordância quanto às acusações levantadas contra Bergoglio produz certamente algum desconforto entre seus simpatizantes e admiradores, ainda mais se considerarmos que a denúncia de que o papa foi colaborador e até mesmo cúmplice de crimes das forças de repressão na Argentina partiu de familiares de vítimas da ditadura e foi amplificado pelo livro escrito por Horacio Verbitsky, jornalista de grande reputação que, no entanto, não escapa do contexto de confronto em que vivemos (ver  “Um ersatz”).
Raciocínio em bloco
É muito mais confortável empacotar todas as informações em duas caixas separadas, uma para os correligionários e outra para os que pensam diferente. Esse comportamento foi alimentado nos últimos anos pela imprensa na América Latina, onde uma sucessão de governos contrários ao chamado “consenso de Washington”, que dominou o cenário político nos anos 1990, vem produzindo mudanças econômicas e sociais importantes desde o início deste século.
A declaração de um personagem claramente engajado como Esquivel exige uma reflexão mais elaborada, mas a imprensa tradicional não parece capaz de enxergar outras tonalidades que não o preto e o branco. Seria longo e repetitivo descrever aqui onde e como se manifesta essa dicotomia que transforma a complexidade da vida contemporânea em um confronto de radicais. Também é ocioso ficar repetindo as demonstrações de que a imprensa tradicional se comporta como um monolito, caracterizada pelo que o antigo Pasquim chamava de “raciocínio em bloco”.
Há pelo menos dez anos se observa o fenômeno do fechamento da imprensa em si mesma, alienando-se do contexto mais amplo e diversificado da sociedade e da cultura, num comportamento que, curiosamente, repete o modelo usado pela chamada imprensa alternativa nos tempos da ditadura brasileira (ver “Imprensa alternativa, procura-se”, 6/1/2004).
Se o maniqueísmo da imprensa alternativa, também chamada “nanica”, se justificava de alguma forma como resistência à violência política e à censura, a visão monolítica que a imprensa tradicional impõe a seu público pode ser vista como sinal de discordância com os caminhos a que a democracia levou o Brasil e outros países do continente – e estimula ativistas saudosos da ditadura.
Nas redes digitais, embora proliferem grupos homogêneos e radicais, há mais reflexão nas divergências e, eventualmente, algum humor entre amigos que têm pontos de vista diferentes. Na imprensa tradicional, qualquer que seja a pauta – o novo papa, a morte de Hugo Chávez ou os indicadores de inflação – o que se pode esperar é mais do mesmo: um mundo sem sutilezas.
Luciano Martins Costa
No Observatório da Imprensa
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Gaspari,o idiota

Elio Gaspari se acha. Depois de servir de capacho aos milicos, vem dar lição de civilidade, e por isso tem espaço cativo nos grupos mafiomidiáticos. Suas colunas são sempre ácidas, bem escritas, mas cheias de verdades absolutas sem lastro na realidade. São opiniões bem pagas. E não é por desinformação, não, é por intere$$e. Hoje, na Folha, bem depois do Financial Times e do The Economist, chama Guido Mantega de idiota. Na sequência faz a defesa do novo Papa, com esta pérola: “Francisco tem um "alertômetro". Evita dar a comunhão a notórios vigaristas e jamais se deixa fotografar com eles.”
A imagem abaixo descontrói o achômetro do idiota dos generais:
Na foto, Jorge Bergoglio quando ainda não era Papa Francisco, fotografado com o Papa Hóstia e dublê de ditador, condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade, Jorge Rafael Videla… Seu Bergoglio dava na boquinha!
No Ficha Corrida

Que dirá el santo Padre

Violeta Parra

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Juca Chaves comenta sobre pastor homofóbico e racista

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O jornal que incomoda fardas e batinas

 
Na manhã seguinte ao anúncio de um Papa argentino, o jornal ‘Página 12’ sacudiu Buenos Aires com a manchete: ‘!Dios, Mio!’
Na 6ª feira, dois dias depois, como relata o correspondente de Carta Maior, Eduardo Febbro, direto do Vaticano, o porta-voz da Santa Sé reclamou do que classificaria como ‘acusações caluniosas e difamatórias’ envolvendo o passado do Sumo Pontífice.
 
Em seguida atribui-as a ‘elementos da esquerda anticlerical’.
Alvo: o ‘Página 12’ .
Com ele, seu diretor, o jornalista Horácio Verbitsky, autor de um livro sobre o as suspeitas que ensombrecem a trajetória do cardeal Jorge Mário Bergoglio, durante a ditadura argentina.
A cúpula da Igreja acerta ao qualificar o ‘Página 12’ como ‘de esquerda’ – algo que ostenta e do qual se orgulha praticando um jornalismo analítico, crítico, ancorado em fatos.
Mas erra esfericamente ao espetá-lo como ‘anticlerical’.
O destaque que o jornal dispensa ao tema dos direitos humanos não se restringe ao caso Bergoglio.
Fundado ao final da ditadura, em maio de 1987, o ‘Página 12’ é reconhecido como o grande ponto de encontro da luta pelo direito à memória na Argentina.
Não foi algo premeditado.
No crepúsculo da ditadura militar, um grupo de jornalistas de esquerda vislumbrou a oportunidade de criar um veículo enxuto, no máximo 12 páginas (daí o nome), mas dotado de densa capacidade analítica.
E, sobretudo, radicalmente comprometido com a redemocratização e com os seus desafios.
A receita das 12 páginas baseava-se num cálculo curioso.
Era o máximo que se conseguiria produzir com qualidade naquele momento; e o suficiente para a sociedade reaprender a refletir sobre ela mesma.
A fidelidade a essa diretriz (hoje o total de páginas cresceu e a edição digital tem mais de 500 mil acessos/dia) levou-o, naturalmente, a investigar os crimes da ditadura.
Seu jornalismo tornou-se um acelerador da transição que os interesses favorecidos pelo regime militar gostariam de maquiar.
Não apenas interesses econômicos.
Lá, como cá, existe um núcleo de poderosas empresas de comunicação, alvo agora da ‘Ley de Medios’, no caso da Argentina, que, por interesse financeiro, identidade ideológica ou simples covardia integrou-se ao aparato repressivo.
Usufruiu e desfruta vantagens dessa intimidade. Até hoje. O quase monopólio das comunicações é uma delas – combatida agora pelo governo de lá.
Naturalmente, a pauta dos direitos humanos dispunha de um espaço acanhado e ambíguo nessa engrenagem.
Não por falta de familiaridade com o assunto.
Mais de uma centena de jornalistas foram presos e muitos desapareceram na ditadura argentina.
A principal fábrica de papel de imprensa do país foi praticamente expropriada de seus donos.
Eles estavam presos, foram torturados. E então a transferência de propriedade se deu.
A sociedade compradora tinha como participantes o próprio governo militar e os principais jornais apoiadores do regime. Entre eles o ‘El Clarín’, de oposição frontal ao governo Cristina, atualmente.
O ‘Página 12’ não se deteve diante das conveniências. E vasculhou esses impérios sombrios.
Fez o equivalente em relação aos direitos humanos em outros países. Não raro, com a mesma mordacidade que incomoda agora o Vaticano.
Quando Pinochet morreu em 2006, a manchete indagava: ‘Que terá feito o inferno para merecer isso?’
A condenação do ditador Videla à prisão perpétua, em 2010, mereceu letras garrafais: ‘Deus existe!’
Foi com essa ironia, debochada, às vezes, mas sempre intransigente em defesa dos direitos humano, que o ‘Página 12’ tornou-se um espaço apropriado pelos familiares dos desaparecidos políticos.
Por solicitação de Estela Carlotto, atual dirigente das Abuelas de Plaza de Mayo, passou a publicar, desde 1988, pequenas atualizações da trajetória familiar de vítimas da ditadura.
Os anúncios sugerem uma espécie de prosseguimento da vida dos que foram precoce e violentamente apartados dela.
Filhos que perderam os pais ainda crianças, mencionam os netos que esses avós jamais viram; avós falam dos bisnetos.
O efeito é tocante. Ao se deparar com a foto de um jovem desaparecido, sabe-se que hoje ele poderia estar brincando com os netinhos, filhos dos filho que agora tem a idade com a qual ele morreu.
Em 2007, o ‘Página 12’ recebeu na Espanha o prêmio da Liberdade de Imprensa, instituído pela Casa da América, junto com a Chancelaria espanhola e o governo da Catalunha.
Motivo: a seriedade na defesa dos direitos humanos e o compromisso com o rigor da informação, requisito da liberdade de expressão.
No momento em que pairam sombras sobre o Vaticano, o que deve fazer essa cepa de jornalismo?
O ‘Página 12’ faz o que, em geral, desagrada aos poderes terrenos e celestiais: investiga, pergunta, rememora.
Ao contrário do que sugere o porta-voz da Santa Sé, não se trata de um cacoete anticlerical.
O assunto extravasa o campo religioso e envolve uma questão de interesse político de toda a sociedade.
Trata-se de uma responsabilidade ecumênica e universal, da qual o ‘Página 12’ não abre mão: o dever de todos, sobretudo das autoridades, de zelar e fazer respeitar os direitos humanos e democráticos dos cidadãos.
Sob quaisquer circunstancias; mas principalmente quando são ameaçados. Como na ditadura dos anos 70/80.
Há dúvidas se o passado do cardeal Mario Jorge Bergoglio nesse campo honra o manto santo que agora envolve Francisco, o desenvolto sucessor do atormentado Bento XVI.
As dúvidas estão marmorizadas em um lusco-fusco de pejo, silêncios e versões contrastantes.
É preciso esclarecer.
Há nomes, testemunhos, relatos, datas e um cenário dantesco: os anos de chumbo vividos pela sociedade argentina, entre 1976 e 1983.
O país do então líder dos jesuítas, Mario Jorge Bergoglio, vivia o inferno na terra, sob a ação genocida de uma ditadura cujos atos confirmam a indiferença aterrorizante dos aparatos clandestinos em relação à vida e à dor.
O que se ouve ainda arrepia.
A mesma sensação inspira o rosto endurecido e gasto dos líderes militares, julgados e condenados. Um a um; em grande parte, graças a pressão inquebrantável das denúncias e investigações ecoadas nas edições do 'Página 12'
Em sete anos, o aparato militar montou e azeitou uma máquina de torturar, matar e eclipsar corpos que operou de forma infatigável.
Nessa moenda 30 mil pessoas foram liquidadas ou desapareceram.
Mais de 4 mil e duzentos corpos por ano.
Filhos de militantes de esquerda foram sequestrados, entregues a famílias simpáticas ao regime.
Muitos permanecem nesse limbo.
No dia em que a ‘fumata bianca’ do Vaticano anunciou o ‘habemus papam’ e em seguida emergiu a figura do cardeal argentino, no balcão do Vaticano, Graciela Yorio esmurrou as paredes de seu apartamento, a 11.200 quilômetros de distancia, em Buenos Aires.
O relato está nos jornais argentinos e também na Folha de São Paulo.
A revolta deve-se a uma certeza guardada há 36 anos na memória dessa sexagenária.
Em maio de 1976, seu irmão, padre Orlando Yorio, foi delatado à ditadura sedenta e recém-instalada.
Juntamente com o sacerdote Francisco Jalics, este vivo, na Alemanha— Yorio ficou cinco meses nas mãos dos militares.
Incomunicáveis, na temível Escola Mecânica da Marinha, adaptada para ser a máquina de moer ossos do regime.
O delator dos dois religiosos teria sido o cardeal Bergoglio -- o Papa, então com cerca de 40 anos, líder conservador dos jesuítas argentinos.
Essa é a convicção de Graciela, baseada no que ouviu do irmão, falecido em 2000, militante da Teologia da Libertação, como Jalics.
Jalics não se pronunciou. Alegando viagem, emitiu uma nota na Alemanha em que se diz em paz e reconciliado com Bergoglio.
A nota compassiva não nega a dor que leva Graciela ainda a esmurrar paredes.
A estupefação tampouco é apenas dela.
Ainda que setores progressistas argentinos optem por uma certa moderação em público, muitas vozes não se calam.
Estela Carlotto, a dirigente das Abuelas de Mayo, em entrevista ao ‘Página 12’ deste sábado, procura manter a objetividade num relato que adiciona mais nuvens às sombras.
Carlotto afirma que o Cardeal Bergoglio nunca fez um gesto de solidariedade para ajudar a luta mundialmente reconhecida das mães e avós de desaparecidos políticos argentinos.
Poderia, mas não facilitou a reunião do grupo com o Papa. Ao contrário.
O primeiro encontro, em 1980, no Brasil, só aconteceu por interferência de religiosos brasileiros.
As abuelas só seriam recebidas em Roma três anos mais tarde; de novo, graças a contatos alheios ao cardeal Bergoglio.
Prossegue Estela Carlotto.
O cardeal teria sido conivente com o sequestro de pelo menos uma criança nascida na prisão.
Procurado por familiares da desaparecida política, Elena de la Quadra, teria aconselhado: ‘Não busquem mais por essa criança que está em boas mãos’.
E desfechou sentença equivalente em relação às demais.
O ‘Jornal Página 12’ tem sido o principal eco desses relatos e dessa revolta, que muitos relativizam e gostariam de esquecer.
O que o jornal faz ao investigar as dúvidas que pairam sobre Francisco é coerente com o 'manual de redação' sedimentado na prática da democracia argentina nesses 25 anos de existência: não sacrificar a memória ao conforto das conveniências.
Pode soar anticlerical a setores da Igreja que gostariam de esquecer o que já se cometeu neste mundo, em nome de Deus.
Mas é um reducionismo improcedente, que se dissolve na trajetória reconhecidamente qualificada do 'Página 12'.
Na Argentina, graças à persistência de vozes como a de seus jornalistas, a memória deixou de ser o espaço da formalidade.
Hoje ela é vista como um pedaço do futuro. Um mirante poderoso para se entender o presente e superar as forças, e a lógica, que esmagaram a sociedade no passado.
Carta Maior orgulha-se de ser parceira do jornalismo criterioso e corajoso de ‘Página 12’ no Brasil.
Saul Leblon
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JN esquece do jornalismo e presta enorme serviço à igreja católica

Don Odilo fala em deus e Patrícia responde emocionada: "Que assim seja"
Don Odilo fala em deus e Patrícia responde emocionada: “Que assim seja”
A exemplo de quarta-feira, quando foi eleito o novo papa, o Jornal Nacional de sexta-feira também foi quase todo dedicado ao assunto. Com a íntegra em mãos, planejava contar quantas vezes, em 33 minutos de noticiário, determinadas palavras apareceram. Desisti após o primeiro bloco, quando já se somavam 23 “papas”, sete “Jesus Cristo”, seis “missa” e uma pilha de “cardeais”, “igreja”, “basílica”, “deus”, “cúria”, “senhor” etc. Montei então o roteiro de frases abaixo, todas ditas pelos apresentadores William Bonner (nos estúdios da Globo no Rio) e Patrícia Poeta (no Vaticano) e pelos repórteres da emissora que fizeram a cobertura por lá, na Argentina e em Jerusalém. É bom sublinhar que esse texto nem de longe consegue retratar o que foi essa edição do JN de fato. Tudo o que é descrito a seguir vinha acompanhado da entonação certa, trilha “emocionante”, edição cuidadosa, sorrisos etc. As frases estão em ordem de aparição no programa:
“O primeiro dia do novo papa, a primeira missa”
“Como o papa se tornou conhecido pela simplicidade”
“Um papa matutino”
“Começou impondo um estilo novo ao papado e recusou o carro oficial”
“´Também sou um peregrino´, disse”
“Comportou-se como um padre, quase um pai de família. Nem usou o trono para a homília”
“Tem a simplicidade evangélica de João 23 e o sorriso paterno de João Paulo I”
“O papa Francisco começa a conquistar um certo fascínio que já existia entre os cardeais”
“O colégio de cardeais, num grande e inteligente gesto, em poucas horas mudou o rosto da igreja”
Uchôa se questiona: “De onde vem essa inspiração, esse sentimento de humildade?"
Uchôa se questiona: “De onde vem essa inspiração,
 esse sentimento de humildade?”
Aí entra ao vivo Don Odilo Scherer, que respondeu a 4 perguntas rápidas. Terminou a última, sobre a “torcida brasileira” a seu favor, dizendo que “os cardeais deveriam escolher aquele que deus indicasse”. E Patrícia, emocionada: “Que assim seja”.
Vem então uma reportagem sobre beatificação de João Paulo 2º: “O papa peregrino, João Paulo 2º, pregou com gestos a humildade … tinha sorriso sereno e cativante … enorme carisma para se comunicar com as multidões… a igreja concluiu sua beatificação, último passo antes de torná-lo santo … O clamor começou logo após sua morte, em abril de 2005. Depois, veio a descoberta do primeiro milagre. A cura de uma freira francesa, que sofria de mal de parkinson”. Sim, amigos. O tal milagre entra dessa forma, como uma notícia banal. E, mesmo em um jornalzinho de faculdade parece-me prudente, tratando-se de um “milagre”, usar um “suposto” ou “segundo a igreja”…
Continuam as frases do JN:
“O moderado e humilde Jorge Bergoglio”
“Antes mesmo de se tornar papa, já era conhecido por cultivar hábitos simples”
“Nos primeiros gestos, nas primeiras palavras, já um jeito próximo, natural. ´Irmãos, irmãs, boa noite’. Ali estava não mais o Jorge, mas o Francisco”
“O nome já era um recado, mas era necessário mais. E para esse papa, o mais era o menos. Despojado, sem joias, apenas a batina branca”
“Repare no crucifixo, é de aço, nem mesmo é de prata”
[Deixou que] vários cardeais se apertassem no elevador com ele”
“Preferiu ir de ônibus com os cardeais, deixando o carro especial do pontífice seguir vazio”
“De onde vem essa inspiração, esse sentimento de humildade? Até agora, o próprio papa não falou nada sobre isso”
“Francisco parece já ter definido como prioridade do seu papado a solidariedade para os que mais precisam”
“Ontem ao se despedir do público, dizendo ´boa noite, bom repouso´, parecia um pai que vela pelos filhos. Sua santidade. Santa simplicidade”
Começa um bloco sobre a vida de Bergoglio na Argentina. O JN lembrou rapidamente das críticas mais fortes que pesam sobre o novo papa, seu alegado apoio à ditadura no país vizinho: “Durante a década de 1970, na ditadura argentina, Bergoglio era a principal autoridade eclesiástica do país. Um jornalista o acusou num livro de ter dado informações que levaram à prisão de 2 padres jesuítas, que supostamente teriam ligações com grupos de esquerda. Em sua defesa, Bergoglio disse que há um documento que prova o contrário. Ele pediu a renovação dos vistos de permanência no país de um deles. Já um biógrafo do papa diz que ele agiu secretamente para ajudar a retirar perseguidos políticos da Argentina”. Esse pedaço “crítico” do noticiário durou pouco mais de um minuto, e termina assim: “Papa Francisco tem posição semelhante a de Bento XVI: é contra o uso de preservativos”.
Voltam as frases:
“Na terra santa, as pessoas rezaram e se disseram contentes com a escolha de um papa humilde, de nome Francisco”
“Por todo Oriente Médio foi assim: atenções voltadas para o homem de fala suave e olhar sereno”
"Procuramos muito e achamos uma lembrancinha, tá aqui Bonner: ´Habemus Papam Franciscum´"
“Procuramos muito e achamos uma lembrancinha,
tá aqui Bonner, to mostrando pra vocês”
“Já que estamos falando de carisma, o que chamou a atenção hoje aqui nas ruas do Vaticano foi o número de fieis tirando fotos, entrando nas lojas e perguntando se tinha um santinho, um terço, uma lembrança do novo papa. Isso horas depois dele ter sido eleito. E quem procurou muito, acabou encontrando. Eu achei, nós procuramos bastante e achamos, tá aqui: “Habemus Papam Franciscum [e mostra um santinho com a cara do argentino]. Tá aqui Bonner, tô mostrando pra vocês”
No bloco final, Patrícia ameaça com um pouco de jornalismo: “Apesar de tanto segredo, a imprensa daqui começa a publicar alguns detalhes do conclave que elegeu o novo papa. De acordo com o que um respeitado vaticanista declarou a um jornal italiano, a primeira votação apresentou o italiano Ângelo Scola, o canadense Mark Ouellet e Jorge Bergoglio com mais votos”. Mas logo desconversa: “Mas isso não importa mais…”.
E segue:
“Em mais uma demonstração do bom humor que estamos começando a conhecer, o papa brindou com os cardeais que o escolheram” 
Em seguida, recebe os cumprimentos do parceiro de bancada e editor do JN, William Bonner, que encerra assim o Jornal Nacional desse 15 de março:
“Missão cumprida, Patrícia. Para você e para toda nossa equipe que fizeram esse trabalho belíssimo aí no Vaticano, parabéns”.
“Missão cumprida, Patrícia. Parabéns"
“Missão cumprida, Patrícia. Parabéns”
Lino Bocchini
No Desculpe a nossa fAlha
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Começam as reformas no Vaticano

Vinho
Hóstia
Dos Guerrilheiros Virtuais
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A propósito de Francisco

Quando me ajoelhei aos pés do altar para receber a Primeira Comunhão, meus olhos ficaram embaçados e desmaiei. No dia anterior, de retiro espiritual orientado pelas minhas inesquecíveis freiras marcelinas, ao enfrentar momentos de inequívoca materialidade almoçara risotto com espinafre demoniacamente amanteigado. Não me surpreenderia se o próprio Lúcifer tivesse estacionado na cozinha. Passei uma noite no inferno, entre 16 e 17 de maio de 1942, dia da comunhão.
Atordoado, à beira da inconsciência, degluti a hóstia que me foi imposta goela abaixo por santas razões, pois a oportunidade não poderia ser desperdiçada a bem das expectativas dos familiares presentes, e logo me reencontrei na sacristia diante de um café da manhã monumental. Boa lembrança, além de definitiva.
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Assis.
No sonho pintado por Giotto, Inocêncio III vê o santo reerguer a Igreja.
Mas este é outro Francisco…
Pela magnitude do evento, ganhei presentes diversos, como era do costume da época e do país, entre eles uma refinada edição de 1927 de I Fioretti di San Francesco, obra medieval nascida de contribuições anônimas redigidas em perfeito italiano para contar passagens salientes da vida de São Francisco de Assis. O qual fora batizado João e não nascera para ser santo, e sim rico senhor, talvez um tanto devasso.
A prima de minha mãe, que me presenteou com o livro, escreveu na dedicatória: “Este é o dia mais belo da sua vida”. Confesso que não me dei conta disso, a despeito da magnificência do desjejum. Quase 71 anos depois, tiro da estante I Fioretti ao saber que o novo papa será o primeiro Francisco da história dos sucessores de Pedro, o pescador.
Arrisco-me a entender que o nome não foi escolhido ao acaso, e logo me vem à memória um afresco da Basílica de São Francisco, em Assis, um da série deslumbrante pintada por Giotto para narrar a vida do santo ao longo das paredes da igreja superior, um dos recantos mais poéticos, e poéticos até a transcendência, em que um indivíduo possa mergulhar mundo afora. O afresco intitula-se O Sonho do Papa, e colhe o santo a reerguer literalmente a Igreja.
Francisco, em quem Dante divisou um semeador de luz com a pronta anuência do amigo Giotto, foi reformador herói, sem contar o poeta que escreveu O Cântico das Criaturas, ou Cântico ao Irmão Sol, obra-prima da língua italiana, e, portanto, o santo mais próximo de Cristo, cujo exemplo transformou na Regra da sua vida e da sua pregação em defesa da natureza e dos desvalidos.
A lição de Francisco é, na essência, um desafio à Igreja e ao papa Inocêncio III, estadista cercado pelo luxo, grudado à crosta terrestre e às suas ambições e vaidades, e em cuja época o poder temporal do Vaticano atingiu o apogeu, quando o sucessor de Pedro interferia na política do Sacro Romano Império. Francisco surge como prova dos descaminhos papais, é o manso contestador que põe o dedo na chaga em nome da ideia indiscutivelmente cristã da revelação e do amor.
Leio hoje no prefácio dos Fioretti, de autoria de um autor francês: “Vislumbrem a sociedade que nos cerca: qual é o vício radical da nossa época? (…) Somente os insensatos podem lamentar os progressos da ciência, somente os mais puros materialistas podem atribuir seu desconforto à Revolução Francesa ou à Declaração dos Diretos do Homem, quando, de verdade, ela estabelece apenas o cumprimento do Decálogo (…)”
E mais adiante: “É no coração que estamos doentes, neste centro misterioso onde se originam as fontes da vida. Discórdias internacionais e agitações internas; guerras estrangeiras e guerras civis; crises individuais pelas quais muitos entre nós vivem sem viver, são atores que interpretam seu papel em lugar de homens que conquistam sua individualidade. E isso tudo decorre de uma única causa. Povos e indivíduos esqueceram as realidades interiores, as realidades viventes, e deixaram-se seduzir pelo erro fatal de que o dinheiro é o instrumento da felicidade”.
Não há como imaginar que a igreja de Roma possa mudar, até mesmo pela rota de um reformismo lento e gradual. Da mesma forma, a leitura acima mostra que o mundo também continua o mesmo. Quanto a Jorge Mario Bergoglio, o nome que acaba de escolher para reinar parece indicar grandes propósitos, embora não se exclua que o novo papa tenha pensado, de fato, em Francisco Xavier, santo da sua Ordem, a jesuíta. Aquela nascida da espada de Inácio de Loyola no palco faustoso do barroco, iluminado pelas fogueiras dos autos de fé.
Outra a Ordem de Francisco de Assis, a figura maior da cristandade depois do próprio Cristo, a dos Frades Menores. Personagens de luminosidade cegante, que a bola de argila a nos hospedar, enquanto gira em torno do Irmão Sol, até hoje não foi capaz de merecer.
Mino Carta
No CartaCapital
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Inglaterrra prende envolvidos em espionagem. Aqui jornalistas nem sequer são convocados a depor

Quatro jornalistas e ex-jornalistas do Mirror Group Newspaper foram presos nesta semana na Inglaterra por possível envolvimento em grampo ilegal de telefones celulares no Reino Unido. Três homens e uma mulher estão detidos. Segundo a Polícia Metropolitana de Londres, eles estão arrolados no inquérito que investiga a interceptação de mensagens eletrônicas entre 2003 e 2004, que teria atingido diversas personalidades inglesas, inclusive da família real.
Foi a primeira prisão de jornalistas e ex-jornalistas do grupo de comunicação por escutas ilegais, um escândalo que se concentrava no News of the World, de Rupert Murdoch, jornal que o magnata australiano das comunicações fechou em 2011, depois da série de denúncias sobre esta espionagem.
Nesta 5ª feira (14), o primeiro-ministro David Cameron anunciou o fim "sem chegar a um acordo" da série de reuniões para debater um novo sistema de regulação de imprensa no país. Cameron comemorou porque, segundo ele, legislar sobre isso seria "um equívoco", já que colocaria em perigo a liberdade de imprensa no país.
Essa posição de Cameron não é consensual e é inevitável que o caso Mirror aumente a pressão por uma regulação da mídia escrita na Inglaterra, já que a autorregulação existente lá (e defendida pelos nossos barões da mídia no Brasil) se mostrou inócua e farsesca.
No Brasil, processo dessa natureza anda a passo de tartaruga
Já aqui no Brasil andam a passo de tartaruga o processo sobre a tentativa de invasão do meu apartamento no Hotel Naoum (quando eu ali mantinha escritório político, em Brasília) pelo repórter de Veja Gustavo Ribeiro e o do roubo pela revista das imagens das pessoas entrando e saindo do meu escritório. E simplesmente colocaram uma pedra em cima do caso Policarpo-Cachoeira, as estreitas relações que o diretor da sucursal de Veja em Brasília, Policarpo Jr., manteve com o contraventor Carlos Cachoeira.
Coisas estranhas e inexplicáveis aconteceram com o processo por invasão de minha privacidade, que corria em Brasília contra o repórter da Veja. O delegado Edson Medina de Oliveira, que presidiu o 1º inquérito e indiciou o repórter, recomendando ainda ao Ministério Público Distrital que seguisse com o processo na Justiça, foi intempestivamente e sem qualquer explicação afastado da 5ª Delegacia de Polícia da capital federal.
O promotor Bruno Osmar Freitas pediu o arquivamento do caso, o juiz Raimundo Silvino da Costa Neto acatou o pedido e o processo foi encerrado. O promotor e o juiz entenderam que não teria havido o crime de invasão de privacidade porque o repórter, denunciado por uma camareira do hotel, acabou fugindo pela escada do prédio, antes de ser pego pelos seguranças, colocados em seu encalço pelo gerente do Naoum, Rogério Tonatto.
Novo inquérito trata de outro assunto
Um novo inquérito instaurado trata de outra coisa: do roubo das imagens das pessoas entrando e saindo do meu escritório no Hotel Naoum. Segundo áudios da Operação Monte Carlo da Polícia Federal (que resultou na prisão de Cachoeira), houve negociações entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira, arapongas que lhe prestavam serviço e o diretor da Veja em Brasília, Policarpo Júnior, para que as imagens captadas pelas câmaras do sistema de segurança do hotel pudessem ser utilizadas pela reportagem publicada pela revista sobre minhas atividades na semana seguinte à tentativa de invasão do meu escritório.
O que é importante ressaltar é a dificuldade para se levar ao devido termo um processo contra a revista e jornalistas, mesmo que o inquérito tenha sido feito e que os fatos tenham sido devidamente documentados, ficando evidente a tentativa da realização do crime, com autoria conhecida e tudo. Por enquanto, o que temos de real neste caso é que aqui no Brasil o processo está emperrado e os dois jornalistas nem sequer foram convocados a depor.
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Deputado do PT homenageia o “maior grileiro do mundo”

Para o jornalista Igor Felippe, a homenagem de André Vargas (PT-PR) a Dom Cicillo deixa lição: “A grilagem terras será recompensada”.
O deputado federal André Vargas (PT-PR) apresentou em 2009 um projeto de lei (PL 6.167/09) para nomear o trecho da BR-277 entre as cidades de Paranaguá e Curitiba (PR) de Rodovia Cecílio do Rego Almeida.
Nesta quarta-feira, a homenagem foi aprovada, depois de parecer favorável de outro deputado do PT na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, José Mentor.
Por que uma homenagem dessas para um nome pouco conhecido?
Cecilio do Rego Almeida, que morreu aos 78 anos em 2008, foi presidente do Conselho de Administração do Grupo CR Almeida.
Almeida é paraense, mas mudou para o Paraná com 7 anos de idade.
O grande feito dele foi conquistar o título de “maior grileiro do mundo”, por concentrar fazendas que somadas são maiores que o estado da Paraíba.
Um homem só concentrou 6 milhões de hectares. Não, não é 6 MIL hectares, que já seria um baita latifúndio.
Em 2012, a subseção da justiça federal de Altamira, no Pará, recebeu os autos do processo sobre a grilagem.
O documento com 1.500 páginas, distribuídos em seis volumes, demonstra as irregularidades – ou melhor, crimes – de Cecilio do Rego Almeida para chegar ao topo do ranking dos grileiros.
A homenagem de André Vargas deixa uma lição: a grilagem terras será recompensada.
Abaixo, leia reportagem da Caros Amigos, de 2005 com perfil do homenageado.
Maior grileiro do mundo
Caros Amigos
Ano 09/2005
Edição 102
Na década de 1990, o empreiteiro Cecílio do Rego Almeida grilou duas fazendas no Pará, uma de 1,2 milhão de hectares e outra de 4,77 milhões de hectares. Somadas, dão uma área maior que a do Estado da Paraíba. É uma longa história, mas este mês a Polícia Federal deverá invadir a maior delas a, fim de garantir uma liminar da Justiça que contesta os direitos do empresário. Ele pode recorrer ao Tribunal Regional Federal, mas enquanto isso não pode negociar a área, deve interromper qualquer atividade ou ocupação dentro dela e dispensar a polícia particular que mantém na fazenda. Aqui se conta quem é esse brasileiro cuja fortuna chega a 5 bilhões de dólares e que concedeu a Caros Amigos uma atordoante entrevista.
João de Barros, em Caros Amigos
Cecílio do Rego Almeida é um paraense corpulento, de 75 anos de idade, cabelos inteiramente brancos e voz tonitruante, que enriqueceu construindo obras públicas – no Brasil e no exterior. Seus olhos, quando não estão ocultos sob os óculos escuros Armani, parecem dois canos de uma carabina dupla pronta para disparar sobre o interlocutor.
Com patrimônio que ele mesmo estima em algo como 5 bilhões de dólares, Cecílio já apareceu na lista da revista Forbes entre os cem homens mais ricos do mundo. A empreiteira dele, a CR Almeida Engenharia e Construções, é o quarto maior grupo econômico privado do Brasil – e a principal construtora -, com patrimônio de 3,274 bilhões de dólares, segundo a publicação Melhores e Maiores da revista Exame, do ano passado.
Dom Ciccillo, como é chamado pelos íntimos, tem gênio explosivo e teatral – e hoje é refém do temperamento que sempre cultivou. No passado comparava-se a uma bulldozer, a barulhenta máquina de terraplenagem usada na construção de estradas, cuja lâmina, enorme, derruba os obstáculos naturais de matas fechadas, transformando-as em trilhas.
Ah, mas não fossem os muitos “filhos da puta’, como ele classifica, que perpassaram seu caminho – da família aos negócios -, a vida do empreiteiro Cecílio do Rego Almeida, o dom Ciccillo, estaria infinitamente melhor. Nesse instante, por exemplo, ele não estaria às turras com autoridades da República, como o Ministério Público Federal, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), a Fundação Nacional do Índio (Funai), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) nem com o Instituto de Terras do Estado do Pará, o Iterpa, por causa do megalatifúndio que alega possuir em Altamira, no Pará, maior do que o estado da Paraíba, razão de seu título de maior grileiro do mundo.
Dom Ciccillo se diz dono de duas áreas amazônicas que totalizam quase 6 milhões de hectares. Uma é a fazenda Xingu, de 1,2 milhão de hectares, formada a partir de 1997, pela compra de antigos seringais, ao longo do rio Xingu, que pertenciam ao espólio de uma certa família Moura. Segundo a Superintendência do INCRA, a área da fazenda Xingu se sobrepõe às reservas indígenas do povo araueté, no igarapé Ipixuna, paracanã, na reserva Apyterewa, e à Floresta Nacional do Xingu. Além disso, a descrição do perímetro de todos os seringais que compõem a fazenda – seringais Forte Veneza, Humaitá, Belo Horizonte, Mossoró e Caxinguba – não bate com as coordenadas geográficas contidas nas escrituras.
A outra, a fazenda Curuá, de 4,772 milhões de hectares, é uma vastidão quase intocada. Rica em biodiversidade, sua floresta nativa hospeda cerca de 350 espécies de árvores, 1.400 de vertebrados, quinhentas de peixes e uma quantidade não estimada de insetos não catalogados pela pesquisa científica. Pontilhada por dezenas de rios perenes, muitos deles navegáveis, a região é abundante em madeiras, nobres como o mogno e em reservas minerais como o ouro.
Ocupando mais da metade da vastidão florestal chamada Terra do Meio, a Curuá, também conhecida como Ceciliolândia em alusão ao suposto proprietário, abriga ainda três terras indígenas (das tribos xipaia, curuá e caiapó-baú-mecranoti), a Floresta Nacional de Altamira e dois assentamentos do INCRA (Nova Fronteira e Santa Júlia). Por lá vivem umas duzentas famílias de ribeirinhos e extrativistas, distantes horas de barco entre si, em situação de seno-abandono – quase todos analfabetos e sem certidão de nascimento.
Uma viagem de barco de Altamira até uma das bases instaladas pela administração da fazenda Curuá – na localidade de Entre Rios, onde os cursos dos rios Curuá e Iriri se encontram antes de desembocar no rio Xingu -, pode levar até dezoito dias no inverno (a época de chuvas) e pelo menos uma semana no verão. Um vôo de Minuano leva uma hora e meia.
A grilagem e os grileiros
O interesse de dom Ciccillo pela floresta surgiu em dezembro de 1994, quando ele deparou com um anúncio publicado no jornal 0 Estado de S. Paulo que oferecia, por 40 milhões de reais, “a maior fazenda do mundo”. Meses depois, três assessores de Cecílio foram à sede do Iterpa e manifestaram, diante de diretores da entidade, o desejo do patriarca de implantar na área um projeto de preservação ambiental “auto-sustentável” batizado de Floresta para Sempre. Na ocasião, os assessores teriam sido alertados de que o Estado do Pará jamais fizera concessão de terras com aquelas dimensões a particulares. Mais: foram informados de que se tratava de patrimônio público, uma vez que não havia nos arquivos do órgão nenhum registro de título definitivo expedido pelo Estado para aquela localidade – Cecílio nega ter sido avisado e atribui a versão a ‘débeis mentais do Iterpa’.
O certo é que no dia 13 de junho de 1995 Cecílio fechou o negócio. Em nome do filho Roberto Beltrão Almeida e da Rondou Projetos Ecológicos, do grupo CR Almeida, ele comprou de Umbelino de Oliveira, empresário já falecido, o controle acionário da Incenxil – Indústria, Comércio, Exportação e Navegação do Xingu Ltda. -, que, de acordo com documentos de procedência discutível, possuía o latifúndio como um ativo da empresa, formado pela junção de dez glebas contínuas, todas elas na margem esquerda do rio Iriri. Isso é o que está registrado no Cartório de Registro de Imóveis da Comarca de Altamira, o Cartório Moreira.
A história dessas dez glebas remonta a 1923. Na ocasião, o governo do Pará arrendou quatro delas, uns 30.000 hectares, a quatro comerciantes – João Gomes da Silva, Francisco Aciolly Meirelles, Bento Mendes Leite e Anfrísio da Costa Nunes -, permitindo-lhes o extrativismo nos castanhais e seringais da área. Os quatro contratos eram idênticos. Rezavam que a concessão não podia ser repassada a terceiros, sob pena de rescisão imediata. E tinha de ser renovada anualmente; se não fosse, caducaria. Nenhum desses itens foi respeitado.
Ao contrário, no dia 9 de janeiro de 1984, o cartório Moreira, de Altamira, privatizou as terras públicas, transferindo as dez glebas – 4 milhões de hectares – aos herdeiros de um certo coronel Ernesto Acioly dá Silva. Segundo atestou o cartório, a área teria sido adquirida, por meio de “título hábil”, da Diretoria de Obra, Terras e Viação do Estado. “Título hábil”? 0 governo do Pará jamais encontrou tal documento nos seus registros de concessão de terras. Tampouco os supostos possuidores do “título hábil” o apresentaram.
Em dezembro de 1993, a área mudou de dono. Umbelino de Oliveira, representando a empresa Incenxil, compareceu ao mesmo cartório Moreira e, diante da oficiala Eugênia Silva de Freitas, após à matrícula 6.411 – a mesma que repassara as dez glebas aos herdeiros do coronel Aciolly -, um mapa, elaborado em 28 de março de 1993 pelo agrimensor Nilson Lameira de Souza, acrescendo mais 772.000 hectares de floresta aos 4 milhões de hectares, já “registrados” como propriedade particular. Para dar ao mapa idade mais antiga e legitimar as operações suspeitas realizadas no passado com a matrícula 6.411, a oficiala Eugênia lavrou a certidão como se o documento tivesse sido elaborado dez anos antes – 28 de março de 1983.
Por causa dessa trajetória sinuosa e recorrente, de registrar indiscriminadamente terras do Estado sem consultar o órgão responsável pela política fundiária do Pará (que oficialmente legitima o registro cartorial), dona Eugênia está sendo processada por crime de falsidade ideológica Os advogados que a defendem foram contratados por Cecílio do Rego Almeida.
Floresta de papel
O primeiro processo (270/96) contra as pretensões de Cecílio na Amazônia foi ajuizado na comarca de Altamira, em agosto de 1996. Trata-se da ação ordinária de nulidade e cancelamento de matricula movida pelo Instituto de Terras do Pará (Iterpa) contra a empresa Incerixil. A ação pede o cancelamento de registro da fazenda Curuá “em vista de haver restado provado, após estudos e levantamentos, realizados inclusive no próprio cartório, que jamais houve ato causal que originasse a propriedade privada em questão’.
A ação está parada há quase dez anos. Durante todo esse tempo, o Tribunal de Justiça do Estado não decidiu se tem competência jurídica para julgar a questão ou se a remete à justiça Federal.
Em março de 2003, o Ministério Público Federal pediu à Justiça Federal em Santarém que cancelasse todos os títulos de terra e registros da fazenda Curuá e denunciou criminalmente os titulares da Incenxil e dois oficiais do cartório de Altamira, entre os quais dona Eugênia, por envolvimento em falsificação para a grilagem de terras da fazenda Curuá.
Por fim, no dia 14 de abril passado, o Ministério Público Federal, por meio dos procuradores Felício Pontes Júnior, Gustavo Nogami e Ubiratan Cazetta, ajuizou uma ação civil pública contra a Incenxil para evitar que, com a criação, em novembro, da Reserva Extrativista do Riozinho do Anfrísio, pelo presidente Lula, o Ibama seja obrigado a indenizar 736.000 hectares declarados de interesse social a detentores de títulos de terra abarcados pelo decreto – a Procuradoria da República constatou que metade da área coincide com trechos grilados da fazenda Curuá. “Em vista da histórica fraude’, escreveram os procuradores, “a União poderá ser obrigada a desapropriar um imóvel que lhe pertence, ocasionando vultosos prejuízos para os cofres públicos”.
Para eles, “o alastramento da corrupção perpetrada pela Incenxil nos registros públicos do Pará significa o desordenamento agrário, a violência no campo, a devastação ambiental e o sofrimento de milhões de pessoas que poderiam e deveriam usufruir uma reforma agrária profícua’.
Em 12 de agosto passado, o juiz federal Fabiano Uerli ordenou que a empresa Incenxil “interrompesse qualquer atividade ou ocupação na fazenda Curuá” e que o imóvel “permanecesse indisponível para venda ou troca’, além de suspender qualquer pagamento de indenização por parte do Ibama. Na prática, a Ceciliolândia ficará intocada até o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, caso a empresa recorra da decisão do juiz Fabiano.
O QG de Cecílio
É de um palacete amarelo de piso de granito e paredes revestidas de madeira, que ocupa uma quadra inteira da rua Vicente Machado, no bairro Batel, em Curitiba, onde a modernidade da tecnologia não ofusca a decoração clássica do interior, que dom Ciccillo toca seu império, como presidente do conselho de administração da holding capitaneada pela CR Almeida, o mega-grupo que controla uma penca de empreiteiras menores, as estradas do sistema Ecorodovias-Imigrantes (SP), Caminho do Mar (PR) e Ecosul (RS), a indústria de explosivos Britanite e a Rondou Projetos Ecológicos.
Dom Cicillo parece estar sempre à beira de um ataque de nervos. Não, ele não conhece a revista Caros Amigos, mas espera que ela não seja “marxista”, não de Karl Marx, mas de Groucho Marx, uma vez que ultimamente só jornalistas “palhaços” o entrevistam. O repórter há de entender. Ele, um empreiteiro de obras fantásticas como a rodovia dos Imigrantes, que conquistou prêmios no estrangeiro pela preocupação ambiental do projeto, não se prestaria a perseguir ribeirinhos ou índios. Ademais, depois de cinqüenta anos construindo o Brasil, como uma pessoa com o patrimônio que ele possui poderia ter coragem de fazer grilagem? Para que uma pessoa assim faria uma coisa dessa?
E a sua trajetória pessoal, doutor Cecílio?
Ele apanha uma edição da extinta revista Manchete que o traz como um de dez personagens escolhidos pela publicação para compor a série “Do Zero ao Infinito”. No alto da página, em letras garrafais, aparece o nome “Cecílio do Rego Almeida” em vermelho, logo abaixo uma declaração dele: “Eu joguei no desenvolvimento do Brasil”. Cecílio relê a matéria saltando trechos. “Está tudo aqui, minha infância, meus primeiros negócios, pode usar e abusar.”
Em seguida, apanha livros e folhetos que revelam a pujança do grupo CR Almeida, do qual é o presidente do conselho de administração. Um livro enumera as principais obras da empreiteira – rodovias, ferrovias, aeroportos, metrôs, hidrelétricas, terminais marítimos e até o Maracanã, inaugurado quando Cecílio tinha 20 anos de idade e não era nem engenheiro. Explicação: como comprou, em 1974, a construtora Cavalcanti Junqueira, que erguera o, estádio para a Copa do Mundo de 1950, ele achou por bem incorporá-lo ao portfólio de sua empresa.
O batismo profissional de Cecílio ocorreu em 1952, quando ainda estudava na Escola Federal de Engenharia, na rodovia Curitiba-Paranaguá. A obra era tocada pela Lysímaco da Costa, a maior empreiteira paranaense da época. Quando não estava estudando, e ele sempre foi um dos melhores alunos da classe, Cecílio não saía de lá. O que via não o satisfazia.
Por exemplo, fez as contas e percebeu que uma máquina substituiria quatrocentos homens e faria “muito melhor” uma valeta longitudinal. Ganhou pontos com a ‘descoberta’. Mais: para amortizar o preço da máquina, afinal comprada pela Lysímaco, instituiu o trabalho noturno. Outro ponto para Cecílio. No final de 1957, já formado e casado havia um ano, ele era um dos engenheiros mais bem pagos do Paraná. E economizava o máximo. Seu plano era construir um império.
No Natal desse mesmo ano, Cecílio rodou a baiana na empresa em que trabalhava. Ele queria ir para casa, passar a festa em família, mas os chefes, inexplicavelmente, adiaram sua saída por seis horas. Ele se revoltou, brigou feio e pediu demissão “para não passar o vexame de ser posto para fora. Pensou em partir para a Bahia, por causa dos poços de petróleo descobertos pela Petrobras, mas a Lysímaco decidiu contratá-lo como sub-empreiteiro e ele, então, montou a Engenharia e Construções C R Almeida Ltda., em sociedade com o irmão Félix. Capital inicial: 2.500 cruzeiros. Cecílio dera o primeiro passo rumo à fortuna que almejava.
Montou o escritório na garagem da casa paterna e foi fazer bueiros de pedra. Pedras? Cecílio já sabia que era muito mais negócio fazê-los de concreto e investiu pesado na inovação. Passou a ser respeitado. Foi chamado para construir 8 quilômetros de uma estrada num charco. Criou um sistema de drenagem, deu certo e, com a bolada que faturou, passou a ganhar mercado. Para aumentar a participação em obras maiores, ele comprava empreiteiras concorrentes. Até que, em 1965, comprou a Lysímaco. Cecílio já era o maior empreiteiro do Paraná.
Marchas e contramarchas
Para as aspirações de Cecílio não podia haver coisa melhor do que o golpe de 1964. À fome dos militares por obras juntou-se a vontade de comer de Cecílio. Cedo, mão e luva perceberam afinidades que os aproximariam por longo tempo – a ponto de o magnata falar do período com imenso carinho ainda hoje. O auge da união coincide com o tempo mais bravo da repressão política da ditadura, o do general Emílio Garrastazu Médici. A CR Almeida abocanhou no período 37 grandes obras do governo federal, entre as quais a Estrada de Ferro Central do Paraná, a pavimentação da rodovia Belém-Brasília, a Rodovia Rio-Santos, o terminal marítimo do porto de Sepetiba, entre outras.
É nesse período, aliás, que Cecílio começa a ganhar notoriedade nacional – e a ser chamado de ‘dom Ciccilio’.
Acostumado a pagar as comissões de praxe – entenda-se propinas -, algo tido como absolutamente natural no ramo, Cecílio foi surpreendido pelo próprio Médici, que indicou (as eleições eram indiretas) o então deputado federal Haroldo Leon Peres, um amigo com o qual o ditador se divertia jogando biriba em Brasília, à sucessão de Paulo Pimentel no governo do Estado do Paraná. A posse se deu em 15 de março de 1971 para um mandato de cinco anos.
Tão logo assumiu o cargo, Peres chamou Cecílio para renegociar as comissões sobre as obras em andamento, acertadas no governo anterior. Cecílio disse que era impossível, mas o governador bateu o pé. Diante do impasse, Cecílio marcou o acerto para o Rio de janeiro. O fim de semana estava ensolarado e ambos resolveram passear a caráter na praia do Leme – camisa aberta no peito, bermuda e chinelos. No bolso do empreiteiro, um pequeno retransmissor emitia a conversa para o outro lado da rua, onde era captada por receptores e gravadores de agentes do temido Serviço Nacional de Informações, o SNI. A fita foi parar no Conselho de Segurança Nacional, em Brasília. E Peres teve de renunciar ao cargo que exercia havia oito meses.
Fanfarronices e ameaças 
Denúncias de fraudes, subornos, sonegação de impostos, remessa ilegal de dinheiro ao exterior, espionagem, grampos telefônicos, cárcere privado, grilagem de terras, agressões e ameaças de morte recheiam a biografia de dom Ciccillo. Com o tempo, sua fama de arquitetar vinganças e perseguir inimigos só aumentou. Para propagar a força econômica que detinha (e no início dos anos 1970 também o poder político), Cecílio apresentava-se à sociedade como um caçador de bisonte”. Ao absorver a ideologia anticomunista dos militares, Cecílio passou a andar armado e a justificar o auto-apelido – caçador de bisonte – revelador da própria truculência.
Cecílio voltaria à cena nacional em março de 1974, por conta de um drama pessoal: seu filho César Beltrão de Almeida, de 12 anos, foi sequestrado no dia 25 e libertado 35 horas depois, após o pagamento do resgate exigido de 15 milhões de cruzeiros, equivalente hoje a 1,650 milhão de reais. Em Curitiba corre a versão de que Cecílio teria castigado dois dos doze criminosos envolvidos no crime: o mentor do sequestro foi jogado de um helicóptero em alto-mar. E outro detido, que cumpria pena no Presídio de Ahu, foi brindado com injeções diárias de hormônio feminino, afinou a voz, ganhou seios, perdeu pelos e virou mulher de malandro na cadeia.
Os anos 1970 e 1980 prodigalizaram de vez Cecílio como personagem de histórias aparentemente inverossímeis. Certa vez, temendo demorar para receber um dinheiro da Companhia Vale do Rio Doce, ele chegou à sede da empresa, no Rio de Janeiro, de pijama, empurrado numa cadeira de rodas por um homem vestido de enfermeiro. Num dos braços recebia soro. Dizendo-se à beira da morte porque sua empresa estava quebrando, sensibilizou o diretor financeiro da companhia, doutor Moretzsohn, a liberar rapidamente o pagamento.
Noutra ocasião, sentindo-se prejudicado numa licitação, Cecílio viajou a Belo Horizonte com um bando de seguranças e obrigou um rival, genro de um banqueiro mineiro, empreiteiro da falida Construtora de Estradas e Estruturas S.A. (Ceesa), que ganhara a concorrência pública, a engolir uma folha do contrato vencedor. De outra feita, quando soube que a esposa de um desafeto da Companhia Paranaense de Energia (Copel) traía o marido, gravou e distribuiu cópias de vídeo da mulher frequentando um motel com o amante.
Seu currículo, porém, não apresenta apenas vitórias. Em 1986, a justiça americana descobriu que o ex-coordenador da dívida externa brasileira e então vice presidente do Morgan Bank, o venezuelano naturalizado norte-americano Toni Gebauer, aplicara um golpe na praça, surrupiando de Cecílio ao menos 2 milhões de dólares. E, em 28 de julho de 1992, Cecílio deu muita sorte ao não embarcar no Learjet que usava, prefixo PT-LHU.
O avião saiu de Curitiba com destino ao Rio de Janeiro com seis pessoas a bordo. Caiu em Iguape, São Paulo. Ninguém sobreviveu. Nunca se soube a causa do acidente.
Outra encrenca feia armada por Cecílio data de 1994. Ao ser entrevistado em sua mansão curitibana, na verdade um forte fincado num bosque, ele prendeu o repórter Policarpo Júnior e a fotógrafa Marleth Silva, ambos da revista Veja. “Se levantar daí, não sai mais da minha casa”, ameaçou. Os jornalistas esperaram um descuido do sequestrador e ligaram para a sucursal de Brasília. Os dois só foram libertados três horas depois pela Policia Civil do Paraná.
Uma de suas mais recentes estripulias veio à tona no ano passado, durante as investigações da CPI do Banestado, quando se descobriu que, no dia 9 de abril de 1998, governo FHC, Cecílio remeteu ao Brasil, a partir de uma conta de doleiros do MTB Bank, de Nova York, 11 milhões de dólares. O dinheiro foi convertido em reais sem passar pelo Banco Central, o que constitui crime financeiro. Trata-se de uma das maiores operações financeiras realizadas por pessoa física no país.
Na verdade, Cecílio não passou um ano sequer livre de encrencas nos últimos trinta anos. São incontáveis as ações que move e responde nas diversas áreas do direito, em diferentes cidades do país. Só no Paraná, hoje, contam-se pelo menos 35 processos.
A entrevista
No dia 18 de abril passado, dom Cecílio seguinte entrevista a Caros Amigos:
Qual é a origem de Cecílio do Rego Almeida?
Eu tive um grande pai. Ele nasceu em 1891 e morreu em 1987: Raymundo Ramos da Costa Almeida. A história dele está neste livreco que eu te dou, feito pelo meu irmão Carlos do Rego Almeida. O livreto conta a história de uma família pobre, mas que sempre teve honra. Aqui você terá uma ideia de quem foi meu pai, um homem de simplicidade extrema, mas que me passou e a todos os seus filhos coisas sábias. Como, por exemplo: o homem só é um verdadeiro homem quando é leal e digno com sua família, leal e digno com seus amigos e leal e digno com os menos favorecidos. Eu considero esse pensamento profundo. Aqui, então, tem a história dele, de uma família que sai de Pernambuco para o Pará, no início do surto da borracha. Então, em vez de eu ficar lendo, é mais fácil o senhor extrair o que quiser daqui…
O senhor é paraense?
Sou paraense, nascido em Óbidos. Vim com 2 anos para Curitiba. Éramos em sete irmãos – três morreram. Um deles, que era um ano e oito meses mais velho do que eu, foi um dos maiores médicos de toda a história do Paraná, chamado Félix do Rego Almeida. Ele fez para mais de 40.000 operações e sempre na Santa Casa de Misericórdia Ele atendia de quarenta a cinquenta pessoas por dia.
Seu pai fazia o quê?
Meu pai foi carteiro. Minha mãe era dona de casa, aliás, ótima dona de casa Aqui, a fotografia de um amigo dele dos Correios, João Malta de Albuquerque Maranhão. Esse João veio antes, com onze filhos. Como era muito amigo do meu pai, escreveu uma carta para que saísse do Norte porque em cem anos a nossa família não teria a oportunidade que o Sul dava Então, viemos e ficamos hospedados na casa dele, em Curitiba. E hoje essa família é como se fosse minha família, e minha família é como se fosse a família Albuquerque Maranhão.
E como foi a sua trajetória pessoal?
Fui uma criança pobre que procurou estudar, e estudar à noite, que começou a trabalhar de uma forma que parecia que eu estava no século 16, porque eu fazia bueiros de pedra: fazia uma base, fazia dois muros de pedra que em cima também era coberto de pedras enormes. Naquela época, o tubo de concreto era muito caro. De Curitiba a Paranaguá tem uma série muito grande ainda de bueiros de pedra. Eu trabalhei muito. E percebi que ia levar uns trezentos anos para ser rico se continuasse a fazer bueiros de pedra. Então, passei a fazer de concreto. Saímos da Idade Média para o século 20. Foi aí que comprei betoneiras. Os operários, eu vinha buscá-los aqui no albergue noturno. Meu transporte era um caminhão Hércules diesel 1942, que eu mesmo guiava e servia pra tudo. Bem, em 1949 eu entrei na Escola de Engenharia, quando ela foi federalizada e virou pública. E entrei um ano atrasado porque antes o ensino era pago e não tinha condição de pagar – todos ajudávamos em casa. Fiz o primeiro ano, o segundo, o terceiro. No terceiro, o professor de geologia era dono da maior empresa de engenharia do Paraná. Eu não colava, era um cê-dê-efe, cu-de-ferro. E geologia era matéria que os outros colavam. E o professor sabe quando é colado e quando não é. Duas pessoas não colavam: eu e o filho de um padeiro, Roberto Brandão. No fim do ano ou no começo do ano seguinte, esse professor me chamou para me entrevistar. Ele disse que tinha uma vaga, mas duas pessoas – eu e o Roberto, que era meu amigo. Eu disse: “Olha, professor, vamos fazer da seguinte maneira: chama o Roberto porque ele está mais na merda do que eu, então é merecedor disso, mas eu gostaria que o senhor guardasse uma vaga para mim também, no futuro. Para meu espanto, ele me chamou. Não fiz nada de errado, o Roberto é meu amigo até hoje. Estou há cinqüenta anos construindo no Brasil e tenho uma comenda por nunca ter sofrido penalidade ética alguma durante cinqüenta anos.
Vamos seguir a linha do tempo. Como era tratar, durante o regime militar, essa questão de obras, que naquela época servia à propaganda oficial do governo, da Transamazônica, do lema “País que vai pra frente”? Gostaria que o senhor fizesse uma análise desse período.
Vou te responder: entendo que foi uma ditadura, mas a mais leve das ditaduras. Hoje existe uma ditadura do PT mais forte do que a dos militares. Se você pegar o primeiro marechal, o Castelo Branco, esse homem foi um grande estadista. De total probidade. Levou gênios para o seu governo, como o Roberto Campos, o Bulhões. Só esses dois nomes transformaram o Brasil. Peguei obras nesse governo Castelo Branco. Eram concorrências. O Costa e Silva durou muito pouco tempo. Em seguida entrou o Garrastazu Médici. Eu sei que foi um governo duro. Houve mortes – houve um negócio lá no Norte do Brasil – que eu condeno. Mataram o Herzog durante o regime militar, mas na época ficava tudo na base do ouvi dizer (que foram os militares). Igual ao que faz hoje esse relator da CPMI da Terra, que fica só na base do que ouve dizer, do que está nos jornais.
Bem, mas no Médici houve muita obra, trabalhamos muito. Ele tinha um grande ministro a quem chamavam de ladrão, o Andreazza. Um absurdo o que fizeram com esse homem. Ele morreu pobre, de câncer, e a família não tinha dinheiro para enterrá-lo. Fui um dos empreiteiros que deram dinheiro. Nunca houve a menor corrupção nossa com o Andreazza. Uma coisa fantástica: você ganhava dinheiro e obras e tudo sem ter de pagar corrupção.
Como se faz a cabeça do empreiteiro para aceitar o esquema do caixa 2, a corrupção, o financiamento de campanha? É na base do, se não der, não participa?
Depois da lei 8.666, e mesmo antes dela, havia a concorrência. São os atestados que a pessoa tem. Daí inventam tudo quanto é manobra para tirar esse, pôr aquele. É inventada a manobra. Quem criou isso muito foi o genro do Antônio Carlos Magalhães, que é meu inimigo, um grande filho da puta chamado César Mata Pires. Ele inventou a coisa mais fantástica. Inventou franchising de balcões de corrupção. Conseguiu trezentas emendas no Congresso Nacional para obras dele. E eu destruí essa boca dele, fui eu.
Como o senhor briga num caso desses?
Eu sabia que ele tinha um homem no exterior, o Raul Gigante. E contratei policiais aposentados da Scotland Yard que filmaram o homem dele viajando de helicóptero para a França, para a Suíça. No dia em que ele veio para o Brasil com a mulher, fui avisado que eles estavam nos bancos 2A e 2B da British Airways. A Polícia Federal foi avisada e prenderam o cara com uma vasta documentação. Fiz isso porque ele foi muito filho da puta comigo. Eu pedi concordata em 1998 por causa desse César Mata Pires, mancomunado com a Sônia Alves, uma jornalista do Jornal da Tarde, de São Paulo. Houve um acerto com a Receita Federal e sai nesse jornal: “CR Almeida arromba os cofres públicos: 578 milhões de dólares”.
Dias antes, houve uma fiscalização da Receita, que me multou em 178 milhões de dólares. Era tão cretina a multa que, no primeiro requerimento administrativo ao próprio filho da puta que era da Receita Federal, baixaram 100 milhões de dólares. Isso foi de 1993 para 1994. Eu tinha ido para a China, nós montamos negócio na China, depois descemos para a África do Sul, porque minha mulher queria conhecer uma reserva de lá. Tive a notícia em Joanesburgo e, quando cheguei no Brasil, dei ordens para o presidente da empresa: “Peça concordata amanhã cedo. Senão, nós quebramos”.
Eu sabia que ia quebrar. E agora, há pouco tempo, desses 178 milhões sobram 2 milhões que nós estamos brigando no Conselho de Contribuintes. Não é o fim do mundo? Não pode ficar parado, tem que sair pra briga, tem que sair pra quebrar as pernas. Esse é o jogo.
E quando muda o governante muda o jogo?
Muda e não muda.
Vamos continuar, então, passeando pelos governos, estávamos no governo Figueiredo…
Bom, eu quero elogiar os governos da revolução. Agora, sou altamente conceituado no meio empresarial de empreiteiros do Brasil. Minha palavra vale, meu nome é respeitado, nunca houve um caso de entregar alguém. 0 único caso que houve foi o desse vagabundo, desse genro do Antônio Carlos Magalhães. No governo Collor fui investigado pela CPI dos Empreiteiros, inventada pelo Jarbas Passarinho, tenho documento disso.
E o que se fala do governo Collor aconteceu mesmo?
Aconteceu. E o mais digno deles era o PC Farias, um homem que tinha palavra. 0 resto era merda.
Muitos falavam em nome do presidente Collor para se beneficiar?
Alguns apareciam, como esse Edemar Cid Ferreira, esse ladrão do Banco Santos. Ele era ladrão lá atrás. E outros. Tem o episódio de um merda que chegou lá bonito, arrumado, e veio cobrar um percentual de um dinheiro que estava recebendo no governo Collor de obra que tinha sido feita no governo anterior. E o cara queria um percentual alto. Eu estava armado, revólver. Porque eu tinha briga com esse César Mata Pires. Daí o cara disse: “Estou aqui, não sei se você recebeu a fatura”. Eu disse: “Sim, recebemos”. “Não, é que eu tenho um percentual:’ Aí eu disse: “Tenho só uma pergunta a lhe fazer: o senhor comeu merda hoje, não foi?” 0 cara era maior que eu. “Como?” “0 senhor, estou perguntando, comeu merda hoje, merda, cocô?” 0 cara não sabia o que fazer. E eu: “Está me achando com cara de que, seu filho da puta! Você vem ao meu apartamento me dizer uma merda dessa, seu cretino!”. “Não, o PC, não sei que” Bem, o cara percebeu que eu estava armado e afinou.
Quem era o sujeito?
Morreu já. Era um baiano que tinha uma companhia de transporte coletivo em Salvador. Eu liguei e o PC disse:
Não, o cara é meu amigo”. Eu disse: “Mas esse filho da puta, na minha frente, e eu com a mão no revólver, esse filho de uma puta quer esse percentual”. E o PC disse: “Não foi isso que eu disse a ele”. Eu disse: “Quanto?” O PC disse: ‘A metade’.
Normalmente, quanto é a comissão?
Esse César Mata Pires paga qualquer comissão. Porque ele rouba, né? Ele foi contratado para fazer o rebaixamento da calha do rio Tietê e não fez. Ele mentiu na topografia. Deu uma enchente e morreram catorze pessoas. Ele topa qualquer negócio. É um porco. Das empreiteiras, é o que destoa, ele destoa dos outros. Porque, se você pegar a Camargo Corres, o Sebastião Camargo é um cara fantástico, meu amigo, eu ia lá pedir conselho para ele, é bem mais velho do que eu; o pessoal da Andrade Gutierrez, corretíssimo; CBPO, pessoal de primeiro mundo em São Paulo; o Lacombe, que já morreu, era corretíssimo. Todos honram o que falam.
Normalmente, quanto é a bola?
Não, isso eu não vou dizer.
E no governo do PT houve alguma mudança?
Não sei se existe porque eles não fizeram nada. Dois anos de governo sem nada, nada foi feito. Então não posso falar. E dessas obras futuras nem posso dizer porque nem saíram os editais. Mas acho que, com as parcerias público-privadas, a corrupção em obras no Brasil virou a página. Porque, na PPP, você é que entra com o dinheiro. O governo dá a concessão. Veja a nossa obra na Imigrantes. Ela consumiu 400 milhões de dólares, sem um único centavo do governo – zero. O trabalho principal foi o ambiente, uma coisa fantástica. Recebeu prêmios no estrangeiro. Você constrói para ser o dono, então isso vai sanar esse aspecto. Vai estimular a competição entre as empreiteiras.
E não vai acirrar o ânimo entre vocês?
Não. Vai ter para todos. E você não estará fazendo obras para o governo, mas para você mesmo. Você vai ter a concessão por vinte, 25 anos, vai fazer o melhor tipo de obra com o menor custo ao longo do tempo, não é isso? Senão, você perde dinheiro. Porque daí o panaca que passa de carro paga o pedágio. Também tem casos em que a gente paga uma taxa ao governo.
Com as terras do Pará o senhor faria parceria?
Eu tenho 75 anos de idade. Faz dez anos que comprei essa merda lá no Pará. Você acha que uma pessoa que construiu estradas, ferrovias, barragens, túneis, portos, aeroportos pode pensar em querer fazer uma grilagem na terra em que nasceu? Isso, qualquer cabeça sã não aceita, é impossível que venha a ser acusado de perseguir ribeirinhos ou índios. Só uma montagem feita pelo procurador da República do Pará, chamado Felício Ponte, que há dez anos não faz outra coisa a não ser perseguir a nossa empresa. Esse Felício Ponte se julga um vice-rei da Amazônia. Vou entrar com representação contra ele na Procuradoria da República e, também, vou processá-lo. Não é possível que um país como o Brasil, em plena democracia, tenha medo ou do partido dominante ou da promotoria pública. Eu não tenho.
Então, vamos esclarecer de uma vez por todas, doutor Cecílio. Quando, como e por que o senhor adquiriu as terras no Pará?
Em dezembro de 1994, h classificado em jornal de circulação nacional que anunciava a venda dessas terras no Pará. Interessei-me. Seria uma oportunidade de enfrentar um novo desafio. Fui ao então governador do Pará, Almir Gabriel, que fora senador junto com meu irmão Henrique. Queria informações sobre as terras, especialmente as anunciadas no jornal, que eram de propriedade da empresa Indústria, Comércio, Exportação e Navegação do Xingu Ltda. – Incenxil. A resposta levou à conclusão de que o Instituto de Terras do Pará (Iterpa) não era organizado o suficiente para dar informações precisas. Fui, então, apresentado ao dono da Incenxil o senhor Umbelino de Oliveira, que havia mais de trinta anos explorava as terras de forma não predatória, com extrativismo de látex, castanha, tendo sido o maior produtor do Estado do Pará durante muito tempo. Mostrei meus planos a ele e ele me disse que venderia a empresa até mais barato, pelo fato de ser um projeto inovador, que não destruiria a floresta de onde ele tinha tirado seu sustento. A compra foi feita em Belém no dia 13 de junho de 1995.
Mas por que diabo o senhor comprou essas terras no Pará, porque estavam em oferta?
Não. Se você pegar o mapa, eu nasci em Óbidos, o meridiano que passa por Óbidos passa por essas terras. Essas terras são no Pará. Eu não ia fazer uma fundação. Eu ia fazer um instituto com o nome da minha mãe para desenvolver esse projeto ao longo de duas gerações. Meu sonho era buscar o que havia de melhor de seringueiras na Ásia, que foi roubado do Brasil em 1930, mais ou menos. Esse seringueiro que se fodeu, que mataram, o Chico Mendes, era um líder mesmo, viu? Eu ia abrir essas terras aos seringueiros, dando a eles o que há de melhor em matéria de sementes, mudas. Tendo funcionários da Embrapa e aqui do Paraná da Emater, aposentados, homens de mais de 50 anos de idade que quisessem aceitar esse desafio de mudar uma região e melhorar a vida desses seres humanos. Isso é o meu sonho. Há outros. Você sabe que o jacaré é um bicho muito valioso. Claro que você não pode matar o jacaré hoje. Mas o jacaré de criatório você pode. E é a coisa mais simples do mundo fazer um criatório de jacaré. A mesma coisa, a tartaruga fluvial. Pensava também em um sócio japonês para criatório de peixes amazônicos, peixes de 2 metros, 300 quilos, desviando com dutos a água do rio para a criação. Claro, eu preciso energia, preciso a tecnologia dos japoneses em matéria do empacotamento do peixe congelado. Vá somando essas coisas. Eu ouvi que foram presos na Amazônia uns franceses que chegaram de balão – eles fizeram errado, coitados. Eles desciam na copa das árvores com uns sapatos parecidos com essas raquetes de tênis para colher microrganismos – e roubavam, também, claro, toda uma sabedoria indígena de cura com ervas, Vem aí o biodiesel. E você tem o dendê, que dá muito bem lá.
Por quanto o senhor comprou essas terras?
Paguei o equivalente a 6 milhões de dólares. O tamanho da área que comprei é de 4 milhões, 772.000 hectares.
Segundo o artigo 188 da Constituição, o senhor teria que ter uma autorização de compra pelo Congresso Nacional.
Não tinha nada A propriedade é anterior à Constituição. Depois que existia essa propriedade é que vieram com esse papo. Mas e o direito adquirido, de antes? Teria que passar pelo Congresso Nacional? Isso apareceu numa Constituição, não sei se de 64 ou 88, e a propriedade é de antes. Pode perguntar para qualquer advogado, que não precisa passar pelo Congresso. Isso é uma besteira, é coisa de comunista burro. Daí, um débil mental chamado Paraguaçu Éleris, que era diretor do Iterpa, e o outro, o presidente, que era o Barata, vieram dizer que me avisaram. Mentira Eles não avisaram merda alguma E, mesmo que tivessem avisado, eu não ia acreditar nos débeis mentais. O Iterpa foi fundado em 1975, teve vinte anos para regularizar a parte fundiária do Estado. Faltava um mês para completar os vinte anos e eles não tinham feito absolutamente nada Então, por que é que eu iria perguntar ao Iterpa se podia possuir a área?. Simplesmente não fui. Oito meses depois que as terras eram minhas, procurei o Iterpa já com um pré-projeto para fazer uma parceria com o governo do Pará. Eu queria que o povo do Pará participasse também, via governo. Com a regra lógica de que o dono era eu. Eu não ia ficar subordinado a funcionário público.
Como seria a parceria?
Faria uma parceria, eles teriam 5 por cento. Porque, se eu tivesse o governo do Pará como parceria, eu teria poder de polícia via meu parceiro. Isso era importantíssimo, ter poder de polícia isso é meu. Uma vez feita a parceria com o governo do Pará, eu traria a Universidade do Maranhão, a Universidade do Pará, a Universidade do Amazonas, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Instituto Goeldi, que faz parte do governo do Pará. Aqueles armazéns no porto de Belém, que os ingleses fizeram, que subiu a areia e não existe mais o porto lá, esses armazéns pertenciam ao Ministério dos Transportes. Eu queria ficar com eles para fazer uma Escola de Ecologia. E mais tarde pretendia fazer um negócio de turismo para hotel. Abrir novos cursos. Pra ajudar. Entrava o governo do Pará. Foi aí que o Iterpa entrou com uma ação de anulação de nossa matrícula, esse Felício Pontes com o próprio Lamarão do Iterpa, que falou de mim e eu processei e está para ser preso – ele que não fale mais um pio de mim, que ele vai ser preso, deixou de ser réu primário. Porque foi a maneira que encontrei de calar a boca desses filhos da puta. Tem também um merda de um jornalzinho de lá chamado jornal Pessoal. Esse eu também processei. Tá no bico pra ser preso. Ele já foi processado por um desembargador e foi condenado, então não é mais réu primário.
Legalmente, o senhor ainda não é dono da terra.
Besteira. Eu sou dono da terra. Estão grilando a minha terra. Mas eu estou na moita, não adianta brigar agora, não é hora. Você tem que esperar. Depois é que veio esse troço da matrícula, que esses filhos da puta agora querem anular dessa maneira, a mais cretina possível.
O que se alega para anular?
Não alega nada, eu posso dar a ação para você ver, é uma merda.
Como o senhor toma conta de uma área do tamanho da Bélgica?
Duas vezes a Bélgica. Já havia brigas na estrada BR-163. Invadiram. Eu sei como vou fazer no futuro. Não vou brigar com invasores, mas vou fazer parceria com os caras que estão na minha terra. Eu não vou brigar porque vou conseguir a expulsão deles da terra. Agora, não, mas no futuro…
O senhor está trabalhando na moita…
Estou quieto com relação às invasões. Mas é gente que está fazendo plantações. 0 cara não está derrubando madeira. Mas já teve gente lá para derrubar madeira. E esse é ladrão.
Como o senhor vai fazer com essa turma?
Ah, esse não entra, esse tem medo. Eu consegui expulsar o maior ladrão de madeira do Pará, ele agora vai derrubar madeira no Peru. Esse cara sumiu. Ele entrava com um grupo com trator, motosserra. Nós apreendíamos tudo.
Como?
Entrávamos em juízo, o juiz determinava que o secretário de Segurança providenciasse para que a Polícia Militar e a Polícia Civil fossem ao local para a apreensão, levassem fiscais do Ibama, que só eles têm poder sobre crime ambiental. Só que os caras do Ibama são mancomunados com os madeireiros, e os caras do Ibama ficavam putos mas iam, era uma ordem judicial. ‘:Ah, mas precisa de avião” Eu punha avião. Daí tiravam os caras de lá e a madeira que eles cortavam ficava lá. Eu consegui deixar a madeira num fiel depositário lá em Altamira. Daí, um ministro da época, do Meio Ambiente, chamado José Carlos Carvalho, fez um farol, desceu lá vestido de Rambo, com exército, para apreender a madeira que eu havia apreendido, e doou para uma ONG. Foi um chucho.
O que é chucho?
Chucho é marmelada, sacanagem.
Como a área do senhor é muito grande, como sabe exatamente onde eles vão atacar?
Nós temos guias. Se vierem de barco, em geral vêm de barco… 0 rio Curuá se junta ao Iriri numa ponta que é a Entre Rios, que é como se chama esse lugar onde tem pista de pouso, tem casas, tem gente nossa, tem rádio para comunicar Altamira, Altamira comunica Belém para,, em seguida, desencadear a ação. Então, nós compramos ali 4 milhões e 772.000 hectares e compramos mais uma posse de não sei quantos anos de uma família chamada Moura, de 1 milhão e 200.000 hectares. São, então, duas áreas: uma é a fazenda Curuá e a outra, que era da família Moura, fazenda Xingu.
Mas a acusação é de que a compra da Curuá foi registrada num cartório cuja funcionária teria sido processada por corrupção ou coisa do gênero.
Não foi. Tem ainda um processo. Não conseguiram comprovar. Ela está lá. Ela é de Altamira. É uma mulher que sofre de elefantíase, as pernas deste tamanho, tem dezesseis filhos adotivos, tem filhos formados, e é de uma bondade incomensurável. Dona Eugênia. Essa mulher é que querem pintar disso e eu pus advogados para defendê-la.
Não seria nenhuma troca de favor entre o senhor e ela?
Não, porque esses documentos foram feitos lá por 1984. Eu comprei a empresa que era a dona da matrícula, não tem nada a ver com dona Eugênia.
E esses 1,2 milhão de hectares?
Isso é fora, é uma outra área no rio Xingu, eu te mostro no mapa.
Se existe um vice-rei no Pará, o rei seria o senhor?
É a primeira vez que ouço isso. Isso foi inventado por você.
Rei do Pará, rei da Amazônia?
Nunca vi isso escrito em jornal, em revista. O que existia é que eu tinha uma terra tão grande que se chamava Ceciliolândia – foi coisa desse filha da puta do Roberto Guita.
Por que o senhor sempre surge na imprensa como a pessoa que é o maior grileiro do mundo?
Tudo iniciou com o Roberto Civita. Eu estava entrando num novo negócio no Brasil,que é transmissão de dados – de bancos, de grandes companhias. Aí, eu aluguei seis transponders, que servem para captar e enviar mensagens via satélite. O aluguel era de 23 milhões e 900.000 dólares por ano, quase 2 milhões de dólares por mês. E ele me atacou, pensando que eu ia entrar em televisão a cabo.
Como o senhor sabe que foi isso?
Ah, como é que eu sei? Claro que eu sei. Eu consigo saber as coisas. Ontem, nós não estávamos na CPMI e eu já sabia dessa nova ação contra as minhas terras? Como é que esse palhaço desse relator do PT (deputado João Alfredo, PT-CE)..) ele foi filho da puta, começou a me irritar. Por que eu engrossei com ele? Não aceitei fatos em jornais. Porque isso é prato requentado. São notícias requentadas. Você põe uma em cima da outra e são todas iguais, em todos os jornais, em todas as revistas.
Toda vez que o filho da puta do Felício Pontes quer alguma coisa, o Carlos Mendes, redator de O Liberal, aperta um botão e nós temos no Brasil inteiro essas notícias. São essas pessoas. E um outro jornalista, um cretino que eu mandei para lá e ficou com raiva do nosso grupo. Agora, como eu posso chamar um cara que trabalhou comigo e, depois, para ganhar 150.000 dólares – que vai ser pedida a quebra do sigilo bancário dele e ele, ó, vai para o espaço.
Quem é?
É o Tarcísio Feitosa, um merda que trabalha na Comissão Pastoral da Terra, um caboclinho, que agora está bonito lá, de caminhonete. Acho que também é do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e de outra merda lá.
Como grande proprietário rural, o que o senhor acha do MST e da UDR e como vê o futuro no campo?
Isso não é problema meu, é problema do Lula. Mas você acha que esse monte de menos favorecidos, analfabetos têm capacidade de fazer uma agricultura? Capacidade para criar umas galinhas, um porco, isso eles têm. É só ver a fazenda que o governo comprou, a fazenda Itamarati, do Olacyr de Moraes, ficaram com a metade. Eles roubavam os equipamentos da fazenda. E se foderam lá. Totalmente. E ainda queriam a outra metade do Olacyr!
Isso é negócio do Pedro Stedile, do Rainha, de tirar dinheiro de miserável. Quem tinha razão nisso era aquele coronel Neves (Neves está preso em Curitiba, acusado de tráfico de armas e formação de milícias para a UDR). Não sou favorável à tortura, à violência, acho um absurdo um sujeito entrar numa casa – essa história é complicada porque o MST invadiu, mas tudo bem – com criança, com mulher de camisola, seminua, como se pode fazer uma coisa dessa? Acho isso uma coisa brutal. Se ele realmente fez isso, eu quero que ele se foda. Agora, o contrário também é verdadeiro. Por que esse merda desse Rainha tem direito de entrar na propriedade alheia, do sujeito que comprou, pagou? Claro que tem que se formar uma reação, que é a UDR. Claro. E eu até acho a UDR muito frouxa. Se eu fosse ruralista, essa merda não estaria assim.
Estaria como?
Ah, estaria resolvido. 0 Roberto Requião fazia os sem-teto entrar nas minhas propriedades, cercava lá com tratores, arrebentava a luz e entrava na minha propriedade. Arrebentava a luz, arrebentava a água, fazia um fosso em torno das casas. Eu tinha centenas ou milhares de casas aqui em Curitiba. Vendi tudo.
Mas como o senhor acha que poderia ser resolvido o conflito?
Só na força. Não tem outra maneira: só na força! A propriedade é minha, não entra (exaltado, dá um tapa no vidro da mesa).
Entra algum vagabundo na sua casa?
O pior é que de vez em quando entra.
E o que você faz?
Vou para o banheiro onde eles colocam a mim e a minha família, enquanto rapelam a casa.
Chama a polícia…?
Chamo a polícia.
No meu caso eu tenho granadas. Tenho aqui em Curitiba e tenho em Morretes. Granadas.
Como o senhor agiria no meu caso?
Eu faria exatamente como você fez. Se eu estivesse com minha família, meus filhos pequenos, eu tirava meu relógio, tome o relógio, só não quero que façam nada com a minha mulher. 0 melhor banheiro que tenho para vocês me prenderem é aquele, tome a chave, me prendam lá. Você não foi covarde, foi inteligente. Deve ter sido preto esse filho da puta que entrou, né?
Não. Um mulato e dois brancos.
Brancos… deviam estar cheirados. Muito bem. Eu tenho uma propriedade, uma fazenda, vamos dizer, porque eu vi um palhaço do Paraná.. Porra, com uma indústria lá dentro, o melhor em matéria de plantei, de gado. Você acha que eu vou deixar vagabundo entrar e fazer churrasco com o meu gado?… Milícias? Não. Eu faria treinamento para os meus operários, com calibre 12. Treinava os meus funcionários a se defenderem. Que direito tem esse filho da puta, esse maluco do Pedro Stedile? Ele não quer a reforma agrária, ele quer a revolução. Ele quer alcançar o poder, esse idiota. Você acha que isso é uma coisa de coitadinho? Faça um somatório de tudo o que produziram todos esses assentamentos: uma merda.
Há assentamentos que são exemplo de reforma agrária, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Mas veja, esse ponto de vista é o inverso. Hoje, quantos assentamentos deram certo? Quantos? Cinco, seis. Por que eles não imitaram esses cinco, seis, para os outros? Hoje, o sem-terra é dono de botequim, é dono de loja, tem automóvel. É isso que está havendo: muita corrupção. Venda de lotes já pegaram mil vezes. Mas como o pessoal do MST é rico, e só tem comuna no INCRA, que acha que tem que tirar dos ricos para dar para os pobres… Os caras estão brincando. Eu defenderia a minha terra.
Para defender suas terras lá no Pará, o senhor precisaria de um pelotão.
Não, não, uns trinta homens armados com rifles da policia.
Para cuidar da Bélgica inteira?
Não, da Bélgica inteira, não, dos focos. Prendia os tratores, prendia o equipamento. Algemas, mandava sacos de algemas.
Com polícia particular?
Eu, não, quem faria isso seria a polícia, o Estado.
Porque o senhor tem facilidade de chamar?
Não, eu não tenho a facilidade. É uma ordem judicial, porra.
Um momento, acho que estou me expressando mal, desculpe. Quero dizer o seguinte: o senhor tem uma área de terra do tamanho de duas Bélgicas, como o senhor falou. O senhor tem tantas entradas nessa fronteira…
Agora, nessa nova terra, na fazenda Xingu, esse Bida, que matou a freira americana, já tinha desmatado 6.000 hectares. Depois desse assassinato ele voltou lá, se escondeu lá.
Nas suas terras?
Não, lá perto. Nessa CPMI eu fui chamado por causa de um artigo do Carlos Mendes. Dizia: ah, prendemos, despejamos agricultores, pequenos posseiros, coitadinhos. Não! Pegamos posseiros, porra, tinham devastado 6.000 hectares de floresta para plantar sementes para boi, para capim (pega o mapa). Essa é uma área, a de 4 milhões e 772.000, e essa é a do Xingu (de 1,2 milhão de hectares). Foi por aqui, assim, que eles .. eles querem formar tudo isso aqui como parque roubando a mim.
O senhor acha que um dia suas terras podem voltar a ser da União?
Paguem, ora. Eu ia procurar receber o valor potencial, que eu venho com isso há dez anos. Não é só a terra em si, é o valor que está acima da terra.
Mas normalmente a desapropriação é feita..
Não, você está enganado. Isso é só pra bobo.
Como seria feito então?
Em alguns casos têm que pagar o que está acima da terra, em matéria de vegetação. E pra quê o governo federal vai gastar dinheiro? Por que ele não deixa o particular fazendo o novo plano? Porque é um monte de comuna burro, que acha que só o governo… Não, esses putos querem, como tem o negócio do ouro, do índio e dos diamantes, eles querem se refestelar no roubo, na corrupção, na sacanagem. O Ibama, o INCRA e a Funai. Estão criando terreiros para eles.
O senhor ataca todos os órgãos federais.
Não, eu ataco as pessoas, algumas pessoas desses órgãos federais. E do Estado do Pará, esses idiotas do Iterpa que não fazem nada, só estão comendo.
Como o senhor vê a questão indígena?
Nas minhas terras restam 120 e poucos, entre curuás, xipaias. O chefe da tribo xipaia, que não tinha tribo nem porra nenhuma, Manuel Xipaia, tem RG do Piauí. Ele nasceu na cidade. Fez grupo escolar na cidade onde nasceu. E lá no Pará ele se pinta: “Manuel Xipaia, chefe da tribo. Levou até alguns vagabundos de Altamira para lá, pôs lá, não tem nada a ver com índio. Daí apareceu uma puta, só pode ser uma puta, de uma antropóloga comunista, querendo tirar 300.000 hectares para oito, doze pessoas. Quer dizer, é um absurdo você ser tapeado pelo Manuel Xipaia! Se eles fizerem uma lei, eu não posso fazer nada. Eu vou ser desapropriado, vou receber uma gaita e não posso fazer absolutamente nada. Mas nas coxas? Porque tem que ter uma regra de antropologia, o cemitério, não sei o que. Mas os caras não fazem nada disso.
E o que o senhor acha do programa Arpa (Áreas Protegidas da Amazônia) e como as ONGs atuam lá na sua região?
O projeto Arpa é capitaneado pela multinacional WWF, com dinheiro do Banco Mundial, da norte-americana Moore Foundation, do Banco de Cooperação da Amazônia e uma contrapartida do Ministério do Meio Ambiente. Ele pretende criar unidades de conservação na Amazônia. Para isso, desenvolve um lobby no Ministério do Meio Ambiente e no Ibama e conta com o aval de entidades como o ISA (Instituto Socioambiental da Amazônia) e outras ONGs nacionais menos conhecidas, que vivem da doação de recursos públicos. No fundo, eles querem fazer o governo brasileiro aceitar 240 milhões de dólares em doações, a serem feitas até 2012, sob a condição de criar as unidades, engessando 500.000 quilômetros quadrados da floresta amazônica e retirando da sociedade brasileira o direito de decidir qual a melhor forma de ocupar e explorar esse território, Os processos no Ibama para a criação dessas unidades de conservação não têm critérios técnicos, não levam em conta a realidade local, sem consultas públicas e debate amplo. Alguns técnicos e representantes de ONGs internacionais se reúnem lá em Brasília se debruçam sobre mapas e imagens de satélite e desenham as áreas a serem protegidas. Depois usam entidades como a Comissão Pastoral da Terra e associações de trabalhadores rurais como massa de manobra para tentar demonstrar que, para coibir a ocupação de terras públicas e atos de violência contra os moradores tradicionais, devem ser criadas unidades de conservação e reservas extrativistas. Mal sabem que áreas indígenas e florestas nacionais têm sido palco da devastação sob a falsa e tíbia proteção da Funai e do Ibama. São essas entidades que financiam e fomentam a criação e expansão de terras indígenas, que se unem às áreas de conservação, formando um imenso território contínuo. No futuro, com apoio internacional, terão condições de promover a autonomia desse território. Não sou contra reservas indígenas, áreas de conservação. Mas questiono os critérios empregados – irracionais e antinacionais. Recentemente, saiu na imprensa, o senhor Paschoal Lamy, presidente da Organização Mundial do Comércio, propôs a internacionalização da gestão dos recursos naturais que pertencem aos brasileiros, tratando o nosso território como bem público mundial. Agora, foi nomeado presidente do Banco Mundial o senhor Paul Wolfowitz, um dos falcões do presidente Bush e mentor da guerra do Iraque sob falsa alegação de que aquele país estaria desenvolvendo armas de destruição em massa. Wolfowitz será o responsável pela cobrança dos resultados dos programas que b Banco Mundial financia, e nosso governo, por ter se comprometido com o programa Arpa, estará sujeito à tutela internacional de nossos recursos naturais. Então, nós somos o ladrão de carteira..
O senhor?
Eu não, essas merdas dessas ONGs brasileiras. São ladrões de carteira, punguistas, como é?, trombadinhas. Essas ONGs são trombadinhas. Essas que deram a madeira. Tiraram um dinheirinho, 150.000 dólares para o Tarcísio comprar uma caminhonete bonita. Fizeram tudo, menos proteger o menos favorecido. O menos favorecido são eles mesmos. Essas ONGs, ONG da água! Isso aí é tudo negócio e têm vergonha de falaz Aqui no Paraná quiseram me fazer de vítima de uma ONG de um chileno vagabundo – acho que é da Amigos da Água, coisa assim – junto com um advogado polonês, um puto, vagabundo, Antonieck, coisa assim. Por que uma ONG querendo entrar na minha propriedade, que é um negócio lindo pra caralho, com portão, com guarda, não entra. “Eu sou da ONG.” Não entra, dá o fora, não deixamos entrar vagabundo aqui na propriedade, dá o fora! Esse pedaço meu é pequeno. Tem 1.000 metros por 800 e pouco num parque estadual, que faz parte de um parque nacional na Mata Atlântica. E isso foi o governador Álvaro Dias, ele fez isso. A Mata Atlântica no Paraná é altamente conservada. Mas o meu lote estava fora porque tinha sido serraria naquele local, há 120 anos atrás, e depois foi para criar boi. E eu comprei da família. E esses palhaços não entendem nada de nada. Do outro lado do rio, mais para a frente, tinha umas casas que em 1920 tinham sido construídas e hoje estão num bagaço. Eu entrei na prefeitura para restaurar as casas, fiz um negócio lindo numa das casas, a do meu encarregado, com madeira de pinho-de-riga, e esses palhaços queriam que eu desmanchasse a casa. Mas caíram na cagada de querer explorar 160 proprietários pobres, caras que têm seu lugarzinho lá com três mesinhas pra comer seu churrasco. Na hora que eu vi que estava com mais 159 palhaços, eu disse, porra, quero ser o último a desmanchar a casa lá. Acabou-se. Porque eles quiseram roubar demais. Pensei: ficar na mão de gente assim? Eu ia mandar queimar a casa desse filho da puta. Desse, eu ia mandar queimar a casa, do chileno.
Mas o senhor ia mandar queimar…
Sem gente dentro. Lógico, porra, que que há?
Pela ação deles,a sua reação seria essa?
Minha reação seria essa. Eu fiz chegar no ouvido dele. Que ele se cuidasse. Porque eu não ia engolir merda nenhuma de um chileno filho da puta e podre como ele. O nome dele eu não lembro. É Amigos da Água, aqui do Paraná. Então,
a forma de reagir é essa.
Estamos no fim… Mais duas perguntinhas. Analise o governo Lula.
Eu só posso analisar da seguinte maneira. Minha mulher votou no Lula e eu também. Interessante foi o seguinte. Eu votei aqui no Paraná, ela foi para São Paulo, votou no Lula, tomou um avião para os Estados Unidos. A filha dela estava estudando lá. Ela tem 52 anos. Infelizmente não tenho nenhum filho com ela, devia ter, o filho nós perdemos, eu queria, tenho certeza que seria formidável ter um filho com ela. Bem, eu vim para casa, estava em casa e pedi para botarem frutas, queijinho, bolacha, pus assim no lado da minha cama. E 5 e pouco da tarde ia aparecer o Lula, ele já ganhou, eu quero ver esse homem, conhecer a alma desse homem. Gravei tudo em videocassete. E notei uma coisa interessantíssima, a de que ele era um companheiro fora do comum. Que ele tinha uma vontade doentia de fazer bem para o Brasil. Que ele falava como coração. Que ele respeitava a mulher dele. Você já notou como ele respeita aquela mulher? Não que ela mande nele, não. É o respeito do macho, que ela é agradável, mãe dos filhos dele. Fez promessas, achei meio difícil ele cumprir tudo aquilo que ele disse que ia fazer. Mas só esse milagre de ele levantar nossas exportações de 63 bilhões de dólares para 118 bilhões!
Agora, tem erros incomensuráveis por causa dessa merda desse partido dele. A Marina Silva foi uma péssima escolha. Pegou uma indiazinha totalmente analfabeta e doente. E essa merda de governador que perdeu o governo do Rio Grande do Sul, um bicha, que é veado, o Olívio Dutra. Tem coisa mais ridícula do que aquele José Graziano, um que era da Fome, um barbudinho, nervoso, perdeu até o cheque que aquela nossa modelo deu para ele, de 50.000 reais, Gisele Bündchen.
Pôr o Rosseto no Incra? Um comuna! Na Embrapa também cometeu esse erro. A Embrapa é um organismo fantástico, que atravessou governos. Ele mudou regras para botar uns caras do PT.
E os acertos, além das exportações?
Economia grau dez. Agricultura grau dez. Porque o que ele tem protegido o agrobusiness no Brasil é uma coisa fantástica. Graças a isso, o Brasil está exportando o que está exportando. Criação de empregos por causa do tipo da política do Ministério da Fazenda, comandado com mão de ferro pelo Palocci. Veja o progresso que nós estamos tendo. Milhões de empregos que o Lula já criou, e todo mundo debochava do Lula. Milhões de carteiras assinadas. A indústria crescendo, a exportação de automóveis no Paraná, em São Paulo, só não cresceu no Rio Grande do Sul porque esse animal bigodudo do Olívio Dutra não permitiu, que é o maior crime que se podia fazer contra o povo do Rio Grande do Sul.
Para terminar, o senhor já apareceu entre os cem homens mais ricos do planeta, segundo a revista Porões. Como o senhor vê a pobreza no país?
Eu vou fazer a pergunta ao contrário: você quer que eu divida o meu?
Cria algum constrangimento a sua riqueza diante de tanta pobreza?
Nenhum. Nenhum. Zero. Eu só não passei fome. Vivi na merda total anos e anos. Trabalhava das 6 da tarde à 1 da madrugada. Estudava com atestado de pobreza. Não tinha roupa boa para sair. E não precisei invadir nada nem chorar pitanga pra ninguém. Lutei para conseguir o que consegui. Claro que sou um favorecido de Deus por ter esse tamanho, a força que tenho, sou eugenicamente são graças aos meus pais. Não tenho pena nenhuma. Nenhuma. É zero a pena que eu tenho. Agora, se um homem entra no meu trabalho e for vesgo, eu mando consertar” seus olhos. Se tiver lábio leporino, eu mando arrumar. Se tiver o nariz arrebentado, eu mando restaurar o nariz no melhor restaurador de nariz que tenha. Seja quem for, do primeiro ao último escalão. O operário que trabalhou na minha casa aqui em Curitiba, que quebraram o nariz dele, fala português errado, vai ser nomeado chefe lá de Morretes para morar nessa casa linda que eu te falei. Ele estava cuidando dos cavalos. Então, todos têm a oportunidade de crescer. Qualquer coisa que um filho da puta de um chefe faça mal a um subordinado, eu ponho o chefe na rua. Agora, por que é que eu vou ter dó de vagabundo na rua? Por que o filho da puta foi ter seis filhos? Por que não fodeu de camisinha, com a tabela ou não gozou fora? Que culpa eu tenho disso? Gerações de seis, oito filhos, vivendo nessa merda que nós vivemos. De 1970 para cá aumentaram 90 milhões de brasileiros, por causa dessa merda da Igreja Católica que eu faço parte. Por que isso? Não se pode ter filhos à bangu, sem controle.
O senhor é pelo controle da natalidade?
É lógico. Planejamento familiar. Eu sei que passo por grosso. Eu penso assim. Não tenho o menor constrangimento. Zero. Nada.
Igor Felippe Santos
No Viomundo
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