19 de fev de 2013

Os segredos do Opus Dei - Grande Investigação - IV

Opus Dei nas finanças do Governo e com força na banca
'Index' proíbe 79 livros de autores portugueses
Autores e especialistas portugueses mostram-se indignados por o Opus Dei ter uma lista de livros que proíbe os seus membros de ler. José Saramago é um dos escritores mais castigados ao nível mundial, sendo um dos recordistas no número de livros proibidos. Também 'censurada', Lídia Jorge diz que o Opus Dei deveria ter "vergonha" de ter este tipo de listagem, igualmente arrasada pela Sociedade Portuguesa de Autores. A lista é, porém, 'legal'.
José Saramago e Eça de Queirós são os escritores portugueses mais castigados pela "lista negra" de livros do Opus Dei. A organização da Igreja Católica tem uma listagem de livros proibidos, com diferentes níveis de gravidade (ver topo da página), na qual põe restrições a 33 573 livros. Nos três níveis mais elevados de proibição encontram-se 79 obras de escritores portugueses. Autores portugueses contactados pelo DN mostram-se indignados com o que classificam de "Index" e "livros da fogueira".
O Opus Dei sempre teve um Guia Bibliográfico, onde incluía os livros proibidos, com uma classificação de 1 a 6 (o nível mais elevado). Há quatro anos, aquilo que era uma lista de Excel que circulava pelos membros da obra, ganhou forma na Internet (http://almudi.org) e passou a estar aberto à contribuição dos membros. Como explica o Opus Dei Portugal, passou a existir um site "tipo crowdsourcing, aberto à contribuição de interessados, moderado por dois editores: Carlos Cremades e Jorge Verdià [membros da obra]". Mudaram-se as designações, dividiram-se os livros em duas partes (literatura e não ficção), mas mantiveram-se os níveis de proibição. E há uma novidade: uma lista de filmes "desaconselhados".
"Deus é um filho da puta", escreveu Saramago num dos livros proibidos (Caim). Porém, não é preciso haver um nível tão direto de confronto à Igreja para que o livro seja proibido. Só nos três mais elevados níveis de interdição, Saramago tem 12 livros. Caim, o Evangelho Segundo Jesus Cristo, o Manual de Pintura e Caligrafia e o Memorial do Convento são definidos como os mais perigosos (6; LC-3).
A presidente da Fundação Saramago e viúva do escritor, Pilar del Río, classifica em entrevista ao DN (ver página 33) este índice de "grosseiro e repugnante", deixando várias críticas à obra: "É uma organização a que chamamos seita porque somos educados. Por acaso, eles não são." Pilar revela ainda que Saramago nunca escreveu sobre o Opus Dei porque considerava a organização "uma formiga" e mostra-se ainda chocada pelo facto de "neste nível de pensamento cartesiano e da razão haja quem se submeta à irracionalidade das seitas".
A escritora Lídia Jorge - que também tem dois livros no mais elevado nível de proibição (Costa dos Murmúrios e O Dia dos Prodígios) - confessou-se "chocada" quando confrontada pelo DN com a existência da lista. Lídia Jorge disse mesmo que os membros do Opus Dei deviam ter "vergonha" e classifica quem fez a listagem de "gente retrógrada e abstrusa". "São pessoas que desprezo porque se armam em mentores, em guardas morais, quando, no fundo, revelam uma ignorância absoluta sobre o papel da literatura." Quanto às duas obras proibidas, Lídia Jorge explica que têm "uma linguagem e uma atitude mais libertária perante a vida" e que, talvez por isso, tenham sido censuradas. O que a repugna.
SPA condena lista
O presidente da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), José Jorge Letria, disse ao DN que esta entidade "repudia a lista porque é atentatória da liberdade de expressão. Somos contra listas negras, sejam religiosas ou políticas". Jorge Letria diz ainda não estar surpreendido "com a listagem feita, porque corresponde à pior tradição das práticas da Igreja Católica, que nos faz lembrar a Inquisição". A lista inclui, aliás, associados da SPA, que a sociedade pretende proteger.
Quem já não se pode defender e está nesta lista é Eça de Queirós, outro dos autores portugueses mais proibidos. A Relíquia, O Crime do Padre Amaro e o Primo Basílio estão no mais elevado nível de proibição (6; LC-3). Porém, Eça tem quem o defenda. O antigo diretor da Biblioteca Nacional e especialista na obra queirosiana, Carlos Reis, considera que "qualquer lista de livros ou similar, que contribua para limitar o acesso das pessoas à informação e à cultura é, por princípio, inaceitável". Carlos Reis defende que esse tipo de procedimento é "contrário a princípios fundamentais" e "abre caminho a repressões ou, no mínimo, a uma 'vigilância' que nenhuma religião ou ideologia tem o direito de impor". O professor catedrático da Universidade de Coimbra e ex-reitor da Universidade Aberta diz ainda que "foi por este caminho que a História conheceu episódios tão lamentáveis como as perseguições religiosas ou as queimas de livros". E acrescenta: "Num mundo civilizado é intolerável a existência de tais instrumentos, mesmo que confinados a uma organização tão fechada e elitista como aquela de que falamos."
Carlos Reis lembra que "se Eça de Queirós é um escritor lido, estudado e admirado deve-se isso, em parte, à argúcia e à coragem com que, no seu tempo, soube enfrentar e denunciar mistificações e deformações como as que a Igreja Católica praticava. [...] O que deveria fazer pensar quem proíbe livros ou restringe o acesso a eles é qual a razão ou razões pelas quais continuamos a falar na atualidade de Eça".
Há também livros de não ficção proibidos, como o Portugal Amordaçado, de Mário Soares (5; PC-2) e A Revolução de 1383, de António Borges Coelho (6; PC-3). O historiador confessou ao DN que o facto de o seu livro estar na lista até lhe dá "vontade de rir", uma vez que "não tem que ver com a doutrina da Igreja, é um livro objetivo sobre um período fantástico da História de Portugal". Mostrou-se ainda surpreendido: "Não sabia que me tinham colocado num 'Index' em pleno século XXI mas isso muito me honra." Por o livro não ter matéria contra a Igreja, Borges Coelho considera que a proibição é "mais dirigida ao homem do que propriamente ao livro".
Legal, mas só até certo ponto
Os especialistas defendem que, do ponto de vista legal, a existência desta lista é "inatacável", uma vez que não existe uma proibição "coativa" e as pessoas têm a liberdade de escolher se fazem ou não parte da obra. O caso muda de figura se um professor que seja membro do Opus Dei não der, por exemplo, Os Maias aos seus alunos porque a organização o proíbe.
O especialista em Direitos Humanos e membro da Comissão da Liberdade Religiosa (CLR), Pedro Bacelar de Vasconcelos, considera que "a lista não levanta um problema de legalidade porque essa imposição é prescrita apenas no interior da organização, sendo uma espécie de recomendações para os fiéis". Como aceitação da proibição é "voluntária", esta é "uma questão do foro da consciência", defende.
O também constitucionalista e ex-membro da CLR Jorge Bacelar Gouveia corrobora que "o Estado não pode aplicar sanções nesta situação porque é do domínio canónico. A liberdade religiosa permite às pessoas entrar e sair quando quiserem e de cumprirem ou não as regras". Além disso, recorda, "não são proibições coativas, daí o Estado não poder intervir".
Mas a presidente da Fundação Saramago questiona: "Então e um miúdo português não pode ler Os Maias? Vão castrar o estudante? E os professores? O que fazem os professores do Opus Dei nessa situação?" Diogo Gonçalves, supranumerário e professor na Faculdade de Direito de Lisboa, garante que a situação não se coloca. "Se as suas profissões o exigirem, os membros podem ler o que quiserem. Somos libérrimos nesse aspeto", diz.
Caso um professor do Opus Dei altere o programa por não estar de acordo com o livro, já se levantariam questões legais. Pedro Bacelar de Vasconcelos explica que "não é compatível com o estatuto de professor censurar partes do programa com base nas convicções religiosas. Aí poderia estar em causa o direito ao ensino, tornando-se num problema legal ou até mesmo constitucional". Poderia estar ainda em causa, recorda, "o princípio da laicidade".
Também Carlos Reis comenta que nesta situação existiria "claramente um atropelo da liberdade de ensino. Para além do mais, quem proíbe livros esquece a lição contida na famosa imagem bíblica do fruto proibido...".
Rui Pedro Antunes
No Diário de Notícias
Veja também: Os segredos do Opus Dei - Grande Investigação - I - II - III
Leia Mais ►

Santo Gutenberg! Estadão quer a volta da monarquia e faz manchetes tétricas sobre a morte imperial

Por dentro da cripta imperial
A importância dada pelo jornal Estadão a uma pesquisa sobre a família imperial brasileira mostra mais do que um simples interesse jornalístico. O jornal expressa capa e caderno especial sobre exumação da família imperial e tenta assim reconstruir o mito monarca. Ainda que uma pesquisa tenha importância científica, a cobertura expressa claramente o pano de fundo de uma ideologia.
Nossa imprensa ainda não chegou na República. Mas vamos ter fé no Santo Gutemberg; ela vai chegar lá.  Veja abaixo reprodução de parte da capa e manchetes on-line de hoje.


Dona Amélia mumificada: pele e órgãos internos estão preservados
No Educação Política
Leia Mais ►

Tucanato, um barco à deriva em busca de rumo

Ilustração: A Justiceira de Esquerda
Duas notas, aparentemente despretensiosas, publicadas na coluna Painel da Folha de S.Paulo no final de semana, anunciam dupla ofensivas do PSDB contra o PT. Na prática, no entanto, o que elas evidenciam é que o poleiro dos tucanos continua desarvorado e que o tucanato continua à deriva.
Pela pretensa dupla ofensiva, num primeiro caso o candidato presidencial deles, senador Aécio Neves (PSDB-MG), vai apontar, em discurso no Senado previsto para o próximo dia 27, "13 fracassos" do PT no governo federal... Com base em dados levantados por técnicos do PSDB, o senador criticará o governo Dilma Rousseff por "inoperância" nas áreas de segurança e saúde, atrasos nas obras do PAC, a volta da inflação e prejuízos da Petrobras. Será um ensaio para que o parlamentar-presidenciável mineiro assuma o comando nacional do partido, em maio.
No segundo passo dessa ofensiva, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), empenhado em conter o avanço do PT e do PMDB no interior paulista, receberá a partir da próxima 4ª feira 60 prefeitos para maratona de jantares no Palácio dos Bandeirantes. Será um total de cinco jantares nos quais Geraldinho receberá os pedidos dos 60 municípios que representam 70% do eleitorado paulista.
Aécio, dessa vez vai?
Como se vê, os tucanos se mexem, com o senador Aécio, que promete fazer um discurso de impacto no Senado. Vamos ver se dessa vez vai... Ele já prometeu vários e até fez alguns. Só que, de impacto mesmo, não tiveram nada. Só espero que seja aparteado e contraditado pelos senadores do PT e da base aliada, para que o país possa comparar a era FHC (1995-2002) com a nossa (2003-2013).
Agora, a bem da verdade, o senador Aécio Neves não está disputando conosco. Ele está é correndo atrás do esvaziamento de sua candidatura dentro e fora do PSDB, vendo se a reaquece frente à ofensiva do presidente nacional do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos. O pernambucano faz mais estragos na oposição do que no nosso lado de cá...
Já o governador Alckmin faz reuniões com prefeitos do interior do Estado... Nada de viagens, nada para inaugurar, lançar ou apresentar, apenas reuniões. E no Palácio dos Bandeirantes! Imagina se fosse um governador do PT o que viria de críticas daquelas velhas, batidas, banalizadas, de aparelhar o Estado e o Governo...
Mas como são os tucanos que promovem reuniões político-partidárias em sedes de governo de Estado que governam, para a mídia, tudo é legal e legitimo. Tudo é ético. Principalmente porque o objetivo declarado é conter o crescimento do PT no Estado. É o medo deles, de todo o tucanato, seja o paulista seja o nacional, mais o da mídia, medo do PT na eleição de 2014 que se aproxima.
Leia Mais ►

Carta aberta ao senador Renan Calheiros

Para o Doutor Renan Calheiros, senador da República e presidente do Congresso Nacional.
Superadas as longas tratativas prévias, realizadas as eleições para a nova Mesa Diretora do Senado Federal, iniciado o ano legislativo e passado o Carnaval, agora que tudo começa a funcionar de verdade, decidi escrever-lhe esta carta aberta.
Primeiro, cumprimento V. Excia. por haver sido reconduzido à Presidência do Congresso Nacional. Todos nos lembramos dos constrangimentos públicos que teve que enfrentar quando renunciou a essa mesma Presidência para salvar o mandato, em 2007.
Segundo, cumprimento V. Excia. pelo compromisso que assumiu – tanto no dia da eleição como no seu discurso de posse – com a democracia e com a liberdade de expressão, um de seus “quatro vetores” de ação na presidência do Senado Federal.
Há, no entanto, pontos importantes que não ficaram inteiramente claros. Tomei a liberdade de selecionar alguns desses pontos, referentes apenas ao quarto vetor – “uma vacina definitiva contra qualquer tentativa de controle da liberdade de expressão” –, fazer citações textuais de trechos e, em seguida, formular indagações que seria do interesse geral, creio, fossem esclarecidas por V. Excia.
1. “Temos que nos engajar e assumir uma firme posição em defesa da democracia e seu mais importante reflexo, a liberdade de expressão. Haveremos de interditar qualquer ensaio na tentativa de controlar o livre debate no país. Trata-se de um antídoto contra pretensões que vêm ocorrendo em alguns países. Temos que nos inspirar sim, nas brisas de uma primavera democrática e criar uma barreira contra os calafrios provocados pelo inverno andino. Vamos criar uma trincheira sólida, se preciso legal, a fim de impedir, de barrar a passagem destes ares gélidos e soturnos.”
As lições de geografia identificam seis países andinos: Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Chile e Venezuela. Não seria interessante que V. Excia. especificasse a quais está se referindo? E, mais importante, quais são os “ares gélidos e soturnos” que precisam de um “antídoto”, provocam “calafrios” e ameaçam a democracia?
O setor de mídia é historicamente oligopolizado em toda América Latina, e não somente na região andina. Em alguns países andinos, governos democraticamente eleitos e/ou reeleitos, tem buscado aprovar legislação que discipline o mercado das empresas privadas que exploram comercialmente esse serviço público, por meio de projetos de lei submetidos à devida tramitação nas respectivas Casas Legislativas. Trata-se, portanto, de permitir que mais vozes encontrem o caminho da participação e do debate público que lhes tem sido tolhido desde o período colonial.
Quais são os países a que V. Excia. se refere?
Direito abolido
2. “Vamos preservar este modelo [democrático brasileiro] que se opõe ao pensamento único e monocrático, inservíveis à democracia. Vamos respeitar a divergência, conviver com o contraditório e até com os excessos. Isso é democracia.”
Aqui V. Excia toca num ponto fundamental:“o pensamento único e monocrático”. Nada mais nocivo à democracia do que o pensamento único, a posição monocrática. É exatamente para evitar esse tipo de pensamento que os pilares doutrinários da “mídia livre” são a diversidade e o pluralismo. A questão é saber se de fato “o modelo que se opõe ao pensamento único e monocrático”, vale dizer, a diversidade e o pluralismo, corresponde à prática histórica da mídia no Brasil. A fala de V. Excia sugere que sim. É isso mesmo?
3. “Do ponto de vista conceitual, a liberdade de manifestação do pensamento, além de ser direito natural do homem, é premissa elementar às demais liberdades, política, econômica, de associação e de credo religioso. Não por outra razão as nações livres não mexem nesse alicerce, mestre de todas as liberdades. É preciso frisar ainda que a imprensa precisa ser independente não só da tutela estatal, mas das forças econômicas.”
Nesta passagem V. Excia. parece confundir os conceitos de “liberdade de manifestação do pensamento” e de “liberdade da imprensa”. Deve ter sido um descuido.
A liberdade de pensamento nasce com os homens e a liberdade da imprensa – que, sim, precisa ser independente tanto da tutela estatal como das forças econômicas – implica a existência do papel, da tinta, da tipografia, de um público leitor e de jornais. Tudo isso só vai ocorrer junto no mundo moderno.
Nas sociedades contemporâneas, a liberdade das empresas e dos conglomerados midiáticos se justifica em torno da mediação do debate público democrático alicerçado, como já mencionei, na diversidade e na pluralidade. Dito de outra forma, a liberdade da imprensa se fundamenta na universalização da liberdade de expressão.
4. “A pretensão de abolir o direito à liberdade de expressão, a qualquer pretexto, inclusive administrativo, é totalmente imprópria, até mesmo insana. Não pode e não deve haver.”
Aqui V. Excia insinua que existe entre nós força política que pretende abolir o direito à liberdade de expressão. Não serviria ao interesse público nomear que força política pretende essa medida “imprópria e insana”?
Desde os tempos do padre Antonio Vieira, no longínquo século 17, uma das caraterísticas do Brasil, segundo o jesuíta, é exatamente o “tolher-se-lhe a fala”. Nossa sociologia histórica – e V. Excia., como graduado em Ciências Sociais, disso bem sabe – ao longo de séculos identificou o Brasil como uma sociedade sem povo, sem voz. Temos uma dívida histórica no que se refere à participação, à inclusão social, à voz de milhões de brasileiros que só recentemente começa a ser resgatada pela implantação de políticas públicas compensatórias.
Na verdade, V. Excia. sabe que o direito à liberdade de expressão da maioria dos brasileiros tem sido “abolido” historicamente. Há hoje alguma força política que pretende aprofundar a desigualdade de acesso ao debate público. Qual é ela?
A conveniência das citações
5. “Quem regula, gosta, rejeita ou critica é o consumidor da informação. Ele é quem faz isso e somente ele. Como já foi dito, o único controle tolerável é o controle remoto. E o controle remoto não deve ficar na mão do Estado, mas nas mãos dos cidadãos.”
Esse trecho me obriga a fazer duas indagações separadas.
(a) Primeiro, V. Excia. coloca o verbo “regular” fora do lugar. Explico. V. Excia. discorda de que, nas democracias representativas liberais, é o povo que “regula” através de seus representantes eleitos no Parlamento?
Infelizmente, no que se refere à Comunicação Social, a tarefa de “regular” praticamente não tem sido exercida pelo Congresso Nacional, nos últimos 24 anos.
V. Excia. certamente não desconhece que se encontra no Supremo Tribunal Federal, desde 2010, a Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão [ADO] nº 10 pedindo que se declare “a omissão inconstitucional do Congresso Nacional em legislar sobre as matérias constantes dos artigos 5°, inciso V [direito de resposta]; 220, § 3º, II [meios legais que garantam à pessoa e à família defesa contra programas de RTV e propaganda de produtos nocivos à saúde]; 220, § 5° [oligopólio ou monopólio]; 221 [princípios para a produção e programação de RTV]; 222, § 3º [observância do art. 221], todos da Constituição Federal, dando ciência dessa decisão àquele órgão do Poder Legislativo, a fim de que seja providenciada, em regime de urgência, na forma do disposto nos arts. 152 e seguintes da Câmara dos Deputados e nos arts. 336 e seguintes do Senado Federal, a devida legislação sobre o assunto”.
Acrescente-se ainda o “princípio da complementaridade” entre os sistemas privado, público e estatal (artigo 223), cuja observância deveria ser feita nas outorgas e renovações de concessões de radiodifusão.
V. Excia. não desconhece que também se encontra no Supremo Tribunal Federal, desde 2011, a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF nº 246) com o objetivo de “reparar lesão aos preceitos fundamentais”, dentre outros aquele relativo à não regulamentação do artigo 54 da Constituição que tem permitido “a aprovação, pelo Poder Legislativo, da outorga ou da renovação de concessões, permissões e autorizações de radiodifusão a pessoas jurídicas que possuam políticos titulares de mandato eletivo como sócios ou associados”.
No caso da ADPF nº 246, aliás, V. Excia. seria interessado direto de vez que, em 2007, seu conterrâneo João Lyra confirmou ser seu sócio em sociedade, entre 1999 e 2005, incluindo um jornal e duas concessões de emissoras de rádio e, mais recentemente, seu filho, o deputado federal Renan Filho, afirmou ser sócio de uma emissora de rádio que está em nome de funcionário do seu gabinete, Carlos Ricardo Nascimento Santa Ritta, nos registros do Ministério das Comunicações. O deputado Renan Filho, também se apresenta como cotista da Rádio Correio de Alagoas, embora essa emissora não exista no cadastro do MiniCom.
(b) A outra indagação se refere à afirmação – excluído o verbo regular – de que “quem gosta, rejeita ou critica é o consumidor da informação. Ele é quem faz isso e somente ele.”
V. Excia. sabe muito bem que quando se fala em liberdade de expressão há muito mais envolvido do que tão-somente o “consumo de informação”. O cidadão, por óbvio, não é um simples consumidor e a liberdade de expressão vai muito além dos mecanismos de mercado.
Por outro lado, reduzir a responsabilidade da regulação à dimensão única do “gosto” individual ignora toda a complexa questão cultural da formação do gosto e do enorme papel que a própria mídia nela desempenha.
Como se formam, desenvolvem e consolidam os hábitos culturais, incluindo os de assistir a determinados canais e/ou programas de TV ou de ler determinadas revistas e/ou jornais?
O “argumento do controle remoto” ignora o fato elementar de que não se pode gostar ou deixar de gostar daquilo que não se conhece ou cujas chances de se conhecer são extremamente reduzidas. Ademais, pressupõe um mercado de mídia democratizado, onde estariam representadas a pluralidade e a diversidade da sociedade brasileira. Esse mercado existe no Brasil?
6. “A liberdade de expressão revela o grau de civilidade e amadurecimento de uma coletividade. Tão importante quanto a liberdade de imprensa é a responsabilidade no manuseio da informação, que será consumida e reproduzida por milhões de pessoas na presunção da verdade. A imprensa é insubstituível e tem papel inquestionável nas democracias modernas, especialmente nas mais jovens, como a nossa. Ninguém quer a imprensa que se agacha, como aconteceu sob os sorrisos pálidos e acumpliciados na ditadura que eu combati na juventude. A liberdade de expressão é pedra angular da democracia.”
Neste trecho, novamente há um uso indiscriminado de conceitos diferentes como se eles tivessem o mesmo significado: “liberdade de expressão” não é equivalente a “liberdade da imprensa”.
7. “Para corrigir os excessos da imprensa, mais liberdade de expressão. (…) O ensinamento de Thomas Jefferson, um expoente democrático, merece ser lembrado, compreendido e respeitado: ‘Onde a imprensa é livre, e todo homem é capaz de ler, tudo está seguro’.”
Uma vez mais se repete a confusão entre os conceitos de liberdade de expressão e liberdade da imprensa. Todavia, faço aqui não uma indagação, mas uma observação referente à citação de Thomas Jefferson.
Quando se utiliza de um personagem que viveu séculos atrás, é enorme o risco de graves anacronismos históricos. A frase citada foi escrita por Jefferson em 1816. A “imprensa livre” a que ele se referia era a partisan press – jornais partidários que expressavam explicitamente a posição de partidos políticos. Essa imprensa praticamente desapareceu nos Estados Unidos a partir do surgimento da penny press na metade do século 19 – jornais-empresas produzidos para atender prioritariamente a interesses de anunciantes e do mercado.
Além disso, não é segredo a ambiguidade política de Jefferson e, por consequência, a oportunidade que suas “citações” oferecem para referendar diferentes posições. Para comprovar o fato cito outra frase, escrita por ele quando estava na presidência dos Estados Unidos já por seis anos, em carta dirigida a John Norvell, em 1807:
“Não se pode agora acreditar no que se vê num jornal. A própria verdade torna-se suspeita se é colocada nesse veículo poluído. A verdadeira extensão deste estado de falsas informações é somente conhecida daqueles que estão em posição de confrontar os fatos que conhecem com as mentiras do dia. Encaro realmente com comiseração o grande grupo de meus concidadãos que, lendo jornais, vive e morre na crença de que souberam algo do que se passou no mundo em seu tempo, ao passo que os relatos que leram nos jornais são uma história tão verdadeira quanto a de qualquer outro período do mundo, só que os nomes de figuras da atualidade a elas são apostos. [...] O homem que não lê jornais está mais bem informado que aquele que os lê, porquanto o que nada sabe está mais próximo da verdade que aquele cujo espírito está repleto de falsidades e erros”.
Caminho oposto
Senhor senador:
A imensa maioria dos brasileiros certamente prefere “o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras”, como reiteradas vezes tem afirmado a presidenta Dilma Rousseff e agora repete V. Excia. Essa posição, todavia, não exime os poderes Executivo e Legislativo de trabalhar pela regulamentação dos artigos da Constituição relativos à comunicação social em nome da democracia e da liberdade de expressão.
Em artigo recentemente publicado na Folha de S.Paulo, o deputado Rui Falcão, presidente do PT, partido da presidenta Dilma e de dois de seus colegas na Mesa Diretora do Senado Federal, afirmou: “Vamos também manter nossa luta pela ampliação da liberdade de expressão, focando principalmente na regulamentação dos artigos da Constituição que tratam do assunto”.
Essa é também a posição da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito a Comunicação com Participação Popular (Frentecom), criada em abril de 2011 e composta por 194 deputados federais e mais de cem entidades da sociedade civil.
O discurso de posse de V. Excia. parece indicar o caminho oposto: a manutenção do status quo no que se refere à regulamentação das normas e princípios constitucionais da Comunicação Social.
Estaria equivocada a leitura que faço das posições de V. Excia.?
Venício A. de Lima, jornalista e sociólogo, pesquisador visitante no Departamento de Ciência Política da UFMG (2012-2013), professor de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor de Política de Comunicações: um Balanço dos Governos Lula (2003-2010), Editora Publisher Brasil, 2012, entre outros livros
Leia Mais ►

Com Yoani, os anos 60 estão de volta

Não há como negar: somos um país fantástico, o único do mundo livre que preserva suas tradições, sem medo do ridículo!
Parte do país está no século 21; há algumas manchas de século 19, nos rincões mais profundos. Mas a parte mais visível, a parte pública, está em plena… Guerra Fria. É como o japonês do Gordo e do Magro. Que ficou anos na trincheira, por não ter sido informado sobre o fim da Guerra.
É um regalo para os saudosistas, para os que cultivam a memória dos anos 60, o rock, a foto do Che.
Em outros tempos, o Departamento de Estado norte-americano bancava Svetlana Alliluyeva, a filha de Stalin que abjurou o comunismo e a Rússia. Vivia-se o auge da guerra fria e a disputa entre dois modelos políticos.
Agora, em pleno 2013 (!), na era da Internet e das comunicações, na era da globalização, vinte e tantos anos após a queda do Muro de Berlim, após o desmanche da União Soviética, o país da saudade e da nostalgia revive… a Guerra Fria. Em vez do patrocínio nobre do Departamento de Estado americano à filha do maior ditador soviético, a fina flor dos exilados cubanos bancando a mocinha que não quer deixar a ilha.
E o grande fantasma comunista são dois velhinhos em final de vida, em uma ilha distante, que não representa ameaça nem aos seus vizinhos de fronteira e só interessa aos cubanos de Miami e – lógico – à fina flor da intelectualidade midiática brasileira.
Monta-se um show formidavelmente ridículo, recorrendo a uma fórmula tão velha quanto andar para frente: provoca-se e, como dois e dois são quatro, atrai-se a ira de jovens radicais – sem nenhuma expressão política maior, a não ser colocar sua energia jovem para fora – e, aí, senadores vetustos, colunistas indignados, comunicadores-humoristas alertam para o perigo da ditadura comunista, do fim da liberdade de expressão. E recria-se a velha guerra sem quartel do bem contra o mal na tenda espírita do Twitter
Daqui a pouco o fantasma do Padre Peyton ressurgirá em um perfil do Facebook, amaldiçoando os corruptos da terra com a fantasma da excomunhão.
No dia em que um historiador se debruçar sobre esses tempos loucos, não perceberá diferença entre os alucinados do Twitter e a velha mídia. Constatará que o grande personagem desses tempos de realidade virtual é o professor Hariovaldo. E comparando com outros colunistas, terá enorme dificuldade em separar a paródia do parodiado.

Luis Nassif
No Advivo
Leia Mais ►

Os limites da Pátria

 
É difícil saber se a Sra. Marina Silva é uma pessoa ingênua e de boas intenções, ou se optou, conscientemente, por defender os interesses das grandes potências que, sob o comando de Washington, exercem o solerte condomínio econômico do mundo e pretendem o absoluto império político. Há uma terceira hipótese que, com delicadeza, devemos descartar: desmesurada ambição de poder, sem as condições concretas para obtê-lo e exercê-lo.
Os admiradores lembram sempre sua origem modesta, o que não quer dizer tudo, mas não podem, com a mesma convicção, dizer que ela tenha mantido, ao longo da carreira, o que os marxistas chamam “consciência de classe”. Suas alianças são estranhas a esse sentimento. Ela se tornou uma figura homenageada pelos grandes do mundo, mas, sobretudo, do eixo Washington-Londres. Se ela mantivesse a consciência de classe, desconfiaria desses mimos. Para dizer a verdade, nem mesmo seria necessária a consciência de classe: bastaria a consciência de pátria.
A Sra. Silva, como alguns outros brasileiros que se pretendem na esquerda, é uma internacionalista. O meio ambiente, que querem preservar tais verdes e assimilados, não é o do Brasil para os brasileiros, mas é o do Brasil para o mundo. Quando a Família Real Inglesa e os círculos oficiais e financeiros norte-americanos cercam a menina pobre dos seringais de homenagens, usam de uma astúcia velha dos colonialistas, e fazem lembrar os franceses na aliança com a Confederação dos Tamoios, e os holandeses em suas relações com Calabar.
Os tempos mudam, os interesses de conquista e domínio permanecem, com sua própria dinâmica e solércia. Os limites intransponíveis da razão política são os da pátria. Todos os devaneios são admissíveis, menos os que comprometam a soberania nacional. Não são apenas os estrangeiros que adoçam os sonhos da defensora da natureza. São também brasileiros ricos e conservadores que, é claro, procuram dividir a cidadania, para que fiéis servidores políticos mantenham sua posição no Parlamento e nos outros poderes. Há informações de que grande acionista de banco poderoso se encarregou das despesas do espetáculo de lançamento do partido de dona Marina, que não quer ser chamado de partido. E não se esqueça de que quem sempre a financiou é um industrial enriquecido com a biodiversidade amazônica.
Não há coincidências em política. Os mentores da Sra. Silva querem que seu movimento, como ela anunciou, não seja de direita, nem de esquerda, e muito menos de centro – que é o equilíbrio pragmático entre as duas pontas do espectro. É interessante a ilogicidade da proposta. Como é possível dissociar a ideologia da política e, ainda mais, a ideologia do viver cotidiano? Esquerda e Direita existem na vida dos homens desde as primeiras tribos nômades, e são facilmente identificáveis na postura solidária de alguns e no egoísmo de outros. Sempre que pensamos em igualdade, somos, menos ou mais, de esquerda; sempre que pensamos na superioridade, de qualquer natureza, de uns sobre os outros, estamos na direita. Mais ainda: idéia é a imagem que construímos previamente na consciência, seja a de um objeto, seja a de uma conduta social e política.
Não é possível viver sem um lado. A doutrina da mal chamada Rede (apropriação apressada e ingênua do mundo da internet, que é um meio neutro) oferece essa aporia: é um partido sem partido, uma realidade sem geometria, uma idéia sem idéia.
Leia Mais ►

"Papa on the beach"

Il caloroso saluto di Elton John in occasione delle dimissioni di Papa Ratzinger

No Sátiro
Leia Mais ►

Charge online - Bessinha - # 1699

Leia Mais ►

Entrevista: Rafael Correa, presidente reeleito do Equador

..

Russia Today (RT): Bom dia, e muito obrigado por nos receber. Para começar, quero felicitá-los pela vitória. Gostaria de saber como passou a noite? Teve tempo para dormir o descansar um pouco?
Rafael Correa: Obrigado a RT e, através de RT, vai meu abraço a toda a América Latina e a todo o mundo. Nesse trabalho, não há muito tempo para descansar. Chegamos em casa à 1h da manhã. Faço o possível para não perturbar a vida cotidiana de minha família. Então, às 7h levo meus filhos à escola e dali vou para o Palácio, continuar trabalhando. Temos cansaço acumulado. Já estamos habituados.
RT: As pesquisas previam 60% dos votos. Acertaram.
Rafael Correa: É, foram bem precisas, porque havia indecisos. Temos alguma experiência... Tínhamos 62-61%, mas havia cerca de 20% de indecisos, os que não se haviam decidido por proposta forte como a nossa; o mais provável é que escolhessem outros setores políticos. Assim, sabíamos que os números poderiam ser menores. Seja como for, começamos a campanha com 52%. Nosso objetivo era não perder nenhum desses votos. Começamos a subir e chegamos a 57-58%. Só tenho a agradecer ao povo equatoriano.
RT: Mas não houve nervosismo. Nenhum presidente do Equador fez o que o senhor fez. E, seja como for, nenhum se manteve no poder durante todo o mandato.
Rafael Correa: Algum nervosismo sempre há. Trabalhamos, na campanha, como se não tivéssemos nenhum voto. Foram 32 dias muito intensos de campanha, fiquei sem voz, mas foi uma bela campanha, bastante bem coordenada, con mensagem profunda. Tudo funcionou quase perfeitamente: equipe de campanha, organização política, autoridades, militantes, os comitês da Revolução Cidadã, que são grupos de cidadãos que se organizam para dar apoio a essa revolução. E aí estão os resultados. São resultados contundentes. E insisto: só tenho a agradecer ao nosso povo. Claro, também, que mantenho o compromisso de não falhar com os equatorianos.
RT: O senhor diz que foi uma bela campanha. Mas o senhor criticou os meios eletrônicos e há boatos de que a CIA prepara um golpe para desestabilizar o Equador. De que se trata, exatamente?
Rafael Correa: Foi uma bela campanha, de nossa parte, porque foi campanha com alegria, com música, com um programa muito bem elaborado de governo, resumido em 10 eixos, com 35 propostas muito concretas. Sinceramente, é o melhor plano de governo da história do Equador. Mas, sim, enfrentamos campanha suja, na qual intervieram serviços de inteligência daqui e do exterior. Parte dos nossos opositores, os menos éticos, são militares da reserva, com experiência em inteligência, os quais, quando não conseguem vencer nas urnas, trabalham para destruir a moral, agridem a família, agridem a honra de amigos nossos. Tivemos, sim, algumas dessas patrañas e, sim, foram organizadas, principalmente, pelas redes sociais. Graças a Deus o povo equatoriano soube ignorá-las. A CIA também... falou-se, mas nada foi provado, que haveria 87 milhões de dólares para financiar a oposição, com o objetivo de desestabilizar o Governo, para impedir que vencêssemos e, no caso de vencermos, como aconteceu, para nos desestabilizar. Não se pode nem confirmar nem desmentir essas denúncias gravíssimas, sem investigação muito mais profunda.
RT: Sua imagem não foi abalada durante a campanha?
Rafael Correa: Não. Mas sem dúvida houve campanha suja. E a campanha de sempre, de alguns veículos , que tomam partido e não faz o trabalho de informar (...).
RT: Em 2010, houve aqui uma tentativa de golpe de Estados, que ninguém previu naquele momento. Deve-se esperar algo parecido agora? Provocação semelhante?
Rafael Correa: Não se pode excluir completamente o risco. Olhe à volta: o contexto daquele golpe de Estado foi a imprensa desinformando... E a oposição política, que se diz democrática, foram os primeiros a apoiar os golpistas, pediram a renúncia do presidente – o mais violentamente agredido. Tomaram medidas para desestabilizar o governo. E agora, na campanha, proclamavam o quanto respeitam a Constituição. Evidentemente, não se pode excluir o risco da imprensa corrupta – porque também há melhor imprensa –, a imprensa que nada tem de ética, a mesma imprensa que já não tem poder para impor e derrubar presidentes. Ontem, ficou demonstrado. Mas, sim, aquela imprensa corrupta ainda tem capacidade para provocar grande dano. Sempre podem difundir alguma outra mentira, que, sim, pode nos prejudicar muito. Por isso, não se exclui essa possibilidade. Temos de nos manter muito atentos, sempre, a essas tentativas de desestabilizar governos eleitos.
Grande parte do que houve dia 30/9/2010 aconteceu porque a imprensa informou mal, disse aos policiais e militares que perderiam benefícios, salários, até as medalhas... De fato, foram canceladas várias dessas coisas, que, em seguida, foram unificadas em salário muito maior. Mas isso, precisamente, a imprensa não informou. Enganaram muita gente. E, sim, podem criar outra vez clima semelhante. É preciso atenção extrema.
RT: Seu opositor nessas eleições, Guillermo Lasso, que alcançou 24% dos votos, disse que o senhor é o presidente dos ricos.
Rafael Correa: Eu?! Considero Guillermo Lasso homem inteligente e não acredito que tenha dito tal coisa. Até que o ouça dele mesmo, dou-lhe o benefício da dúvida, porque seria a mais rematada tolice que Lasso jamais disse. E, afinal, não chegará aos 24%. Faltam alguns votos.
RT: Mas há quem diga também que algumas reformas feitas no país, reformas tributárias, por exemplo, funcionam em benefício só dos ricos. O que o senhor tem a dizer?
Rafael Correa: Que reforma tributária beneficiou só os ricos? [risos]
RT: Foi o que disseram os opositores.
Rafael Correa: A única proposta de todos os demais candidatos foi reduzir impostos. Porque, pela primeira vez no Equador, os ricos pagam impostos. A evasão ficou impossível. Antes, eles nem se preocupavam se os impostos eram altos ou baixos, porque não pagavam imposto algum, sonegavam e nada lhes acontecia. Por isso, agora que a sonegação e a evasão ficaram impossíveis, e a proposta de eliminar todos os impostos foi derrotada nas urnas, já duas vezes. Mas os ricos nunca pagaram impostos e agora pagam. Duvido, sinceramente, que Guillermo Lasso, pessoa inteligente, tenha dito tal barbaridade. Em todo o caso, é extremamente claro quem é o candidato das elites no Equador.
RT: Ano passado, houve muita polêmica em torno do caso de Julian Assange. Quais os objetivos do Equador, quando decidiu dar-lhe asilo?
Rafael Correa: Que polêmica? Por que teria havido polêmica? Da próxima vez que a Suécia, onde vivem muitos asilados latino-americanos, decidir dar asilo a alguém, também haverá ‘polêmica’? Na minha opinião, há, nessa história, muito de neocolonialismo. Esse governo, esse presidente e esse país não aceitarão essas manobras. Não temos de pedir licença a ninguém para exercer nossa soberania. É figura definida, bem claramente, no direito internacional. O Equador exerceu a própria soberania, nos termos do Direito Internacional, e não devemos explicações a ninguém, nem temos de pedir desculpas, nem de pedir autorização a seja quem for.
Na prática, toda a solução da questão Julian Assange depende hoje da Europa. Se, amanhã, a Grã-Bretanha lhe dá o salvo conduto, acaba o problema. Se a Suécia o interrogar, como a lei sueca admite – e ninguém aqui fez qualquer coisa para impedir a marcha da justiça sueca. É bom esclarecer, porque, também aqui, não faltou informação errada –, por vídeo, como pode fazer; se enviar um Promotor à Embaixada do Equador em Londres, como também pode fazer, acaba a confusão. Assange foi convocado para interrogatório. Não há, sequer, acusação formal contra ele, de coisa alguma. Se o advogado do Sr. Assange nas cortes europeias, o Dr. Baltasar Garzón, obtiver autorização para que o asilado deixe a Embaixada do Equador em segurança, acaba-se a questão. Agora, tudo depende da Europa. O Equador fez o que tinha de fazer, no exercício de sua soberania. Não pedimos nem vamos pedir licença a seja quem for. Não devemos desculpas a ninguém, nem explicações. País algum jamais pediu desculpas a alguém, por exercer a própria soberania.
RT: Sim, mas parece que Julian Assange está convertido em prisioneiro eterno. Não vejo saída para essa situação...
Rafael Correa: Nesse caso, diga isso à Europa... Toda a solução está em mãos de países europeus: Grã-Bretanha, Suécia, as Cortes europeias.
RT: E quando o senhor supõe que se resolverá isso?
Rafael Correa: Amanhã, se a Grã-Bretanha quiser resolver. Mas há aí muita soberba, muita arrogância, muito de neocolonialismo. Querem de nós demos explicações por conceder um asilo? Como assim? O que significa isso? E querem também que revertamos decisão já tomada. Não o faremos. Nunca.
RT: O senhor acredita, como o próprio Julian Assange, que pode acontecer de ele ser extraditado para os EUA, não para a Suécia?
Rafael Correa: Bem... Havia alta probabilidade. O caso do Sr. Assange foi estudado detidamente, durante várias semanas, aqui no Equador. Entendemos que aquele pedido de asilo tinha fundamento e concedemos o asilo.
RT: Digamos que, ontem, não foi noite só de sua vitória, que foi uma pequena vitória também para Hugo Chávez, que voltou à Venezuela. O senhor foi dos primeiros a visitá-lo em Cuba e dedicou sua vitória também a Hugo Chavéz. O que sabe de seu estado de saúde e quanto imagina que possa voltar às suas funções?
Rafael Correa: Bem, estive com ele antes da operação, sem dúvidas operação delicada, mas quem o visse, sem saber da doença, diria que estava perfeitamente normal, com bom ânimo, muito bom aspecto. Mas, sim, que se tratava de operação delicada, todos sabíamos. A notícia que temos é de que se está recuperando. Excelente notícia, que tenha podido voltar à sua amada Venezuela. Ama Cuba, mas a Venezuela é sua pátria, a terra natal, e estou certo de que estar em casa será o melhor remédio para a rápida recuperação de Hugo. Desejo-lhe rápida recuperação. Que não seja cabeça dura. Das primeiras coisas que fez, depois de agradecer à Venezuela, foi mandar-me felicitações... Ele agora tem de não pensar, por uma semana, no que acontece na América Latina e concentrar-se na recuperação.
RT: O senhor acredita que a recuperação seja possível?
Rafael Correa: Não sei. São desejos. Não sei se realizarão.
RT: Digamos, no caso de que Hugo Chávez não possa voltar às funções de antes. O senhor está disposto a assumir papel mais importante na América Latina?
Rafael Correa: Sempre me fazem essa pergunta e, com todo o respeito, o que mostra é desconhecimento do que se passa na América Latina. Quem aqui está buscando algum protagonismo? Hugo tem liderança natural.
RT: Mas a questão existe, na arena internacional. Vê-se como…
Rafael Correa: Há alguns fatos, há práticas, mas ninguém busca ascensão continental. Essas coisas não funcionam assim, entre nós: se vou ser novo líder depois de Hugo, mas Hugo está aí e continua. Então eu seria o vice-líder. Nada disso funciona assim, aqui. Estamos aqui para servir o povo, ninguém está procurando... E falo por mim, por Cristina, por Evo, por Hugo, por Dilma, por todos os coordenadores desse processo de mudança histórica na nossa América Latina. Nenhum de nós busca poder para si, nada queremos para nós; queremos tudo para os nossos povos. Estaremos onde o povo mais necessite de nós, como o mais humilde dos cidadãos, como qualquer operário que constrói a pátria todos os dias, o camponês ou o presidente da República, mas sempre para servir ao povo, sem ambições pessoais
RT: Barack Obama foi reeleito. Hugo Chávez também, e o senhor, essa noite. Todos os atores chaves nesse hemisfério mantêm as respectivas posturas. Até que ponto, com os mesmos jogadores, pode mudar a situação no continente?
Rafael Correa: Mudar em que sentido?
RT: No sentido das mudanças que esse bloco queria. Para a Revolução Cidadã, por exemplo.
Rafael Correa: Entendo que o presidente Obama seja boa pessoa, mas Infelizmente nada mudou na política externa dos EUA. A moral dupla prossegue. Insistem em dar-nos aulas de Direitos Humanos e tal, e mantêm as torturas em Guantánamo. Se os grandes ditadores por aqui, os mesmos que massacram sua gente, se são aliados incondicionais dos EUA, viram grandes democratas, e são promovidos, dão-lhes emprego e os põem a dar aulas em Washington. E presidentes totalmente democráticos, você viu, ontem, como esse que aqui lhe fala, que dá a vida em defesa dos direitos humanos de seus cidadãos, se não somos seguidores incondicionais de Washington, somos nós, os ditadores, os que atentamos diariamente contra a liberdade de imprensa, contra as liberdades fundamentais. Isso, infelizmente, não mudou. Repito que o presidente Obama parece ser bom ser humano, boa pessoa, mas a política externa dos EUA, sobretudo para a América Latina, absolutamente não mudou. E tem de mudar, porque essa dupla moral é inaceitável.
RT: Depois de vencer as eleições, o senhor disse que sua meta é que a Revolução Cidadã seja irreversível. Mas que passos devem ser tomados para que assim seja?
Rafael Correa: Temos de acabar de consolidar a nova instituição do Estado. O ponto de partido é mudar as relações de poder. O problema da América Latina sempre foi as elites dominantes. Nunca foram elites progressistas, modernizadoras, que trabalhassem para o bem comum. Foram elites que se apropriaram dos frutos do progresso técnico e apropriaram-se deles de forma excludente, para ter seus bairros exclusivos – num dos quais mora o Sr. Lasso, que diz que eu representaria as elites.
A senhora, se quiser entrar no condomínio onde mora o Sr. Lasso, onde há lagos artificiais, precisa ter um cartão magnético de identificação. Eu não entro, porque sou escurinho. Para ter esses bairros exclusivos, emparedados, para ter suas escolas exclusivas que nem por isso são as que dão melhor educação, mas são tão caras que só os ricos podem frequentá-las... E os ricos casam-se entre os ricos. Para casar ‘bem’ também os filhos e perpetuar a linhagem e a dominação. Eles têm seus clubes exclusivos... Esse é o tipo de elite que manobrou a América Latina. São os poderes que manobraram nossos países, que se traduziram em estados aparentemente burgueses, de fato, aristocráticos, que representam um poucos, bem poucos, excluindo as grandes maiorias. A Revolução Cidadão implica, basicamente, mudar essa relação de poderes com vistas a atender os cidadãos, em função das imensas maiorias, em função do ser humano, antes do capital. Porque o capital também nos dominou como está dominando na Europa, vale lembrar. E converter esses estados só aparentemente burgueses em estados integrais, populares, que nos represente todos e todas.
Já avançamos muitíssimo, mas tudo ainda pode ser perdido. Essa é a mensagem do povo equatoriano, nessa reeleição. Temos de tornar irreversíveis as mudanças que já alcançamos nas relações de poder, para que, no Equador, os cidadãos, os seres humanos continuem a governar como governam hoje. Para que nunca mais voltem a governar, aqui, os banqueiros, os meios corruptos de comunicação, os países hoje hegemônicos, as burocracias internacionais como o FMI e – ainda pior – muito especialmente, o capital financeiro – todos os agentes que dominavam e governavam o Equador, antes da Revolução Cidadã.
RT: Trata-se também, um pouco, de mentalidade. Quanto mudou a mentalidade das pessoas, nesse sentido?
Rafael Correa: Mudou muitíssimo. A senhora dizia, antes da entrevista, que não conhecia o Equador, que só conheceu o país esse ano. Mas se tivesse vindo há seis anos, não havia estradas, não havia bons serviços públicos, não havia nada. Recebemos um país destroçado. Mas, mais importante que as estradas, as escolas, os hospitais, as represas, os portos e aeroportos, é a mudança na mentalidade dos equatorianos. Nos haviam castigado tanto, uma oposição com líder político medíocre, uma imprensa que, para nos controlar, roubava-nos qualquer esperança, nos convencia de que éramos os mais inúteis, mais corruptos, mais preguiçosos seres do planeta. Tanto nos bombardearam com esse discurso, que se pode definir a situação, antes, como o país da desesperança.
Essa é a maior mudança que observo: vê-se que as pessoas estão motivadas, orgulhosas do que se faz em sua terra, sentem-se representadas pelo próprio Governo, recuperaram a autoconfiança. É o essencial para seguir adiante, mais importante que as estradas e a infraestrutura reconstruída: a atitude das pessoas. E essa atitude mudou radicalmente. Mudança de 180 graus.
RT: Mas têm também muita confiança no senhor e em seu governo. Sua popularidade é incrível e continua crescendo. A que se deve isso, depois de tantos anos de governo?
Rafael Correa: É como diz Cristina Fernández [de Kirchner]: são processos inéditos na América Latina. Antes, na América Latina, um governo vencia eleições com 52% dos votos. Em um ano, o apoio popular despencava para 15%, quer dizer, o desgaste no exercício do poder era muito rápido. Agora é o contrário: o apoio popular consolida-se. Uma das explicações, de nossa querida amiga Cristina Fernández de Kirchner, presidente da Argentina, é que, afinal, os governos se parecem com o povo. Antes, eram governos que queriam imitar estrangeiros, obedeciam a interesses estrangeiros, falavam espanhol, mas pensavam em inglês, quando pensavam. Hoje temos governos honestos, que trabalham, que cometem erros, mas são dedicados, sacrificam-se, amam o país como o amam os que os elegem para representá-los. As pessoas, afinal, sentem-se representadas pelos governos.
RT: Que visão o senhor tem para o Equador dentro de quatro anos? Como vê o país?
Rafael Correa: Quando sair, quero deixar um país. Obviamente, não conseguiremos resolver todos los problemas. Mas somos o país que mais reduz a pobreza na América Latina; somos o país que mais reduz a desigualdade, e a América Latina é a região mais desigual do mundo. Somos uma das três economias que mais crescem. Somos a economia com menor taxa de desemprego, 4,1%. Mas, apesar de todos esses sucessos, não conseguiremos, nos próximos quatro anos, resolver todos os problemas. Ainda haverá pobreza, desemprego, desigualdade.
O importante é deixar o país posto, irreversivelmente, na trilha rumo à justiça social, ao desenvolvimento, na trilha desse conceito que propusemos ao mundo – o conceito do buen vivir bom viver. Para isso, como já disse, o básico é mudar as relações de poder: que o Equador seja governado pelo povo do Equador, não por banqueiros, não por empresas jornalísticas, não por países estrangeiros. Que, no Equador, o ser humano domine. Não o capital.
RT: Senhor presidente, tenho uma pergunta. Chegamos ao Equador há, mais ou menos, uma semana. Conversamos muito pelas ruas, com gente que o apoia. Mas também há quem diz que a pobreza caiu, se não me engano, em torno de 7%. Mas, hoje, há mais gente, que antes, que recebe a ‘bolsa pobreza’. Queria, por favor, que o senhor explicasse.
Rafael Correa: É o argumento que a imprensa inventou. É tão infantil. Quem diz que o Equador é o país que mais reduziu a pobreza não é o meu governo: é a ONU. Não são indicadores locais. São números da Comissão Econômica para a América Latina, CEPAL, da ONU. Para desmentir esses números, inventaram um argumento infantil.
Hoje transferimos dinheiro para os mais pobres, principalmente para mães que trabalham em casa, as mais pobres da população. Quando chegamos ao governo, eram 1.200.000; hoje, são cerca de 1.900.000. A imprensa olha esses números e conclui: a pobreza aumentou... Ninguém jamais considera que as estatísticas eram precárias, que a base era errada. Nós corrigimos a base. Incluímos cerca de 400 mil mães excluídas e retiramos da base 200 mil que não deviam estar lá. De fato, foram incluídos novos 200 mil que recebem o auxílio-pobreza. Nos depuramos, corrigimos a base. A imprensa ‘interpreta’ que há, hoje, mais pobres... Dia seguinte, não há estatísticas de tuberculosis. Construímos a pesquisa e a estatística. Descobre-se que há 20 casos de tuberculose. A imprensa ‘noticia’: “Aumentou a tuberculose”. Nada disso. Hoje já temos estatísticas. Mas... que absurdo! Antes, o auxílio-pobreza não era dado aos portadores de necessidades especiais. Agora, com as políticas de vanguarda que se desenvolvem no Equador, cerca de 150 mil deles já recebem essa transferência monetária, que é de 50 dólares. Antes, os idosos não recebiam o auxílio, nem tinham direito a aposentadoria. Dos 700 mil idosos sem aposentadoria que temos no Equador, 500 mil já recebem a transferência monetária.
Some tudo e terá os quase 2 milhões de auxílios que distribuímos. Para os gênios da mídia, significa que a pobreza aumentou. Merecem o Prêmio Nobel de Economia. Veja o nível de oposição e os jornais, jornalistas e redes comerciais de comunicação que temos de enfrentar aqui... A pobreza, aí sim, parece, sem remédio: pobreza intelectual e ética.
RT: O senhor disse também que é seu último mandato. Que se vai, depois desses quatro anos. Não imagino uma pessoa como o senhor, deixando serviço por terminar. Mas é impossível terminar todas essas mudanças em quatro anos.
Rafael Correa: Sim, mas também há outros que podem continuar construindo a patria nueva. Veja... fui imerecidamente feliz em todas as etapas da minha vida. Antes de ser presidente, estive, toda a vida, na Universidade. Era feliz dando aulas, de tênis, jeans, camiseta. E também fui muito feliz na presidência, cuidando de fazer o melhor possível pelo meu povo. Quando me aposentar, se Deus quiser, também serei feliz com minha família; Devo muito à minha família, cuja vida familiar foi muito gravemente perturbada, porque, eu na presidência, minhas filhas perderam privacidade, têm de andar com seguranças, recebem ameaças, ouvem campanhas horrendas de difamação, realmente repugnantes. Então, devo esse tempo à minha família.
E também, como a senhora já disse, minha presença é forte demais. Com certeza não perturbarei a existência de quem venha depois de mim, se continuar na política. É o que menos desejo.
Temos sido muito cuidadosos na preparação de quadros, que venham os novos quadros. Depois desses quatro anos, penso retirar-me, não só da presidência, mas também da vida pública.
RT: O senhor mencionou sua família. Dizem que leva seu filho à escola.
Rafael Correa: Sim. Hoje cedo, deixei os dois na escola.
RT: Hoje, um dia depois da reeleição? E como encontra tempo para...
Rafael Correa: Sou rápido. Retomar a vida normal, na medida do possível. Porque, não se engane, tudo isso altera a vida. Minha família não mora aqui no Palácio. Continuamos na mesma casa de classe média, ao norte de Quito. Mas foi preciso instalar segurança, sistemas de vigilância... Tudo isso atrapalha. Minha esposa, minhas filhas, têm de ter um séquito de agentes de segurança. Há quem goste, mas, para mim, essa é uma das partes mais difíceis da presidência: ter de viver cercado de seguranças, a sensação de perigo sempre iminente, nenhuma privacidade. Além dos que vivem para justificar o próprio ódio: “Correa, odeio você.” E põe-se a inventar ataques, até que ... “Ah, já entendi porque odeio você: porque você fez tal coisa...” Têm sempre de provar algum mal, para justificar o ódio. Nada é mais terrível que isso!
RT: Muito obrigada, presidente, pela entrevista e pela atenção. E, mais uma vez, desejo-lhe felicidades.
Tradução: Vila Vudu
Leia Mais ►

Equador: quatro lições de uma vitória esmagadora

 
A esmagadora vitória de Rafael Correa, com uma porcentagem de votos e uma diferença entre ele e seu mais imediato concorrente que bem gostariam de obter Obama, Hollande e Rajoy, deixa algumas lições que é bom recapitular:
Primeira, e a mais óbvia, a ratificação do mandato popular para continuar pelo caminho traçado mas, como disse Correa em sua entrevista coletiva à imprensa, avançando mais rápida e profundamente. O presidente reeleito sabe que os próximos quatro anos serão cruciais para assegurar a irreversibilidade das reformas que, ao cabo de 10 anos de gestão, será concluída com a refundação de um Equador melhor, mais justo e mais sustentável. Na coletiva de imprensa já aludida, ele disse textualmente: "Ou mudamos agora o país ou não o mudamos mais”. O projeto de criar uma ordem social baseada no socialismo do sumak kawsay, o "bem viver” dos nossos povos originários, exige atuar com rapidez e determinação. Mas, isso é sabido pela e pelo imperialismo; e, por isso, se pode prever que vão redobrar seus esforços para impedir a consolidação do processo da "Revolução Cidadã”.
Segunda lição: que se um governo obedece ao mandato popular e produz políticas públicas que beneficiam as grandes maiorias nacionais – que afinal de contas se trata da democracia –, a lealdade do eleitorado pode ocorrer com certeza. A manipulação das oligarquias midiáticas, a conspiração das classes dominantes e os estratagemas do imperialismo se esfarelam contra o muro da fidelidade popular.
Terceira, e como corolário da anterior, o esmagador triunfo de Correa demonstra que a tese conformista tão comum dentro do pensamento político convencional, a saber: que "o poder desgasta”, só é válida na democracia quando o poder se exerce em beneficio das minorias endinheiradas ou quando os processos de transformação social perdem densidade, titubeiam e terminam por deter-se. Quando, ao contrário, se governa tendo em vista o bem-estar das vítimas do sistema, acontece o que aconteceu ontem no Equador: enquanto na eleição presidencial de 2009, Correa ganhou no primeiro turno com 51% dos votos, ontem o fez – com a contagem existente no momento de escrever esta matéria (25% dos votos escrutinados) -, com 57%. Em lugar de "desgaste”, consolidação e crescimento do poder residual.
Quarta e última: com esta eleição se supera a paralisia de decisões geradaS por uma Assembleia (Congresso) Nacional que se opôs intransigentemente a algumas das mais importantes iniciativas propostas por Correa. Ainda que haja até agora poucas cifras disponíveis a respeito, não há dúvidas de que a Aliança País (partido governista) terá a maioria absoluta dos parlamentares e com chances de alcançar uma representação parlamentar que chegue a uma maioria qualificada de dois terços.
Conclusão: os tempos mudaram. A ratificação plebiscitária dum presidente que iniciou um formidável processo de mudanças sociais e econômicas dentro do Equador, que protagoniza a integração latino-americana, que incorporou seu país à ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), que pôs fim à presença estadunidense na base (militar) de Manta, que realizou uma exemplar auditoria da dívida externa reduzindo significativamente seu montante, que outorga asilo a Julian Assange e que retira o Equador do Ciadi (Centro Internacional para Arbitragem de Disputas sobre Investimentos, criado sob a égide do Banco Mundial), não é algo que se veja todos os dias. Felicitações Rafael Correa, saúde Equador!
Tradução: Jadson Oliveira – Adital.
Atilio A. Boron é diretor do PLED - Programa Latino-americano de Educação à Distância em Ciências Sociais.
Leia Mais ►

Todo o significado da vitória do presidente Rafael Correa na reeleição no Equador

 
A vitória do presidente Rafael Correa em sua 2ª reeleição no Equador neste domingo, para decepção de nossa direita e de certa mídia tupiniquim, consolida o processo de mudanças que ele próprio e seus dois governos anteriores iniciaram e que ainda tem pela frente três grandes reformas, as relativas à água - seu uso na geração de energia via hidrelétricas -, à terra e aos meios de comunicação.
Correa venceu novamente o pleito já no 1º turno, como já havia ocorrido em 2009, com ampla vantagem sobre os concorrentes. Foi seu 7º triunfo nas urnas (três eleições presidenciais e quatro plebiscitos). Nos 20 anos que antecederam sua chegada ao poder, nada menos que 14 presidentes haviam sido depostos (uma média de cerca de um presidente a cada ano e meio).
O resultado - vitória no 1º turno, com 61% dos votos, segundo as projeções de boca de urna - e a conquista da maioria na Assembleia Nacional lhe dão condições de fazer avançar também o processo de consolidação da democracia no pais. Ao contrário dos 20 anos anteriores (principalmente do período 1996-2006), com os governos Correa o Equador se livrou da instabilidade, das conspirações e golpes.
Direita não ganha uma nas urnas na América Latina...
Já a direita no nosso continente - e isso evidencia-se mais uma vez com a reeleição de Correa - colhe sucessivos fracassos e derrotas seja no Chile, seja no Panamá ou em Honduras. As críticas de nossa mídia conservadora à reeleição de Correa, principalmente com o argumento de que ele está há muito tempo no cargo - cumpriu dois mantados -, são hipócritas, já que a reeleição existe em todas as democracias.
A reeleição é comum especialmente nas democracias parlamentares, nas quais mandatos de 10, 12, 14 anos são normais. Pior é dizer, como fez a Folha de S.Paulo, que há imobilismo no Equador. Esta é, realmente, a típica colocação que merece um exame da ombudsman do jornal.
As razões da má vontade de nossa mídia conservadora - e a de todo o continente - com os governos Rafael Correa? O fato de ele prometer, no momento em que foi reeleito pela 2ª vez, ter como prioridade de seu próximo mandato o envio de um novo projeto de lei à Assembleia Nacional para regular a imprensa equatoriana. E de ser visto como um aliado do presidente da Venezuela, Hugo Chávez.
"Busquemos uma nova Lei de Comunicação, que regule os claros excessos que tem certa imprensa", disse o presidente. "O que queremos é uma imprensa honesta e responsável", afirmou. "A América Latina tem uma das piores imprensas do mundo", completou.
Leia Mais ►

Yoani reloaded

 
Primeiro de tudo: foi um erro dos manifestantes baianos impedir a exibição do documentário, ou seja lá o que for aquilo, do tal cineasta de Jequié, Dado Galvão, em Feira de Santana. Não que eu ache que dessa película poderia vir alguma coisa que preste, mas porque praticar sua arte – seja genial, banal ou medíocre – é um direito inalienável de qualquer cidadão brasileiro.
Ao impedir o documentário, os manifestantes estão ajudando a consolidar a tese adotada pela mídia de que os que são contra a blogueira Yoani Sánchez são, apenas, a favor da ditadura cubana. Fortalece, pois, esse reducionismo barato ao qual a direita latinoamericana sempre lança mão para discutir as circunstâncias de Cuba.
Minha crítica aos manifestantes, contudo, se encerra por aqui.
De minha parte, acho ótimo que tenha gente disposta a se manifestar contra Yoani Sánchez, uma oportunista que transformou dissidência em marketing pessoal. Não vi ainda nenhuma matéria que informe ao distinto público quem está pagando a turnê de Yoani por 12 (!) países – passagens aéreas, hospedagens, traslados, alimentação, lazer, banda larga e direito a dois acompanhantes, o marido e o filho.
Nem a Folha de S.Paulo, que até em batizado de boneca do PT pergunta quem pagou o vestido da Barbie, parece interessada nesse assunto. E eu desconfio por quê.
Yoani Sánchez é a mais nova porta-bandeira da liberdade de expressão em nome das grandes corporações de mídia e do capital rentista internacional. É a direita com cara de santa, candidata a mártir da intolerância dos defensores da cruel ditadura cubana, a pobre coitada que tentou, vejam vocês, 20 vezes sair de Cuba para ganhar o mundo, mas só agora, que a lei de migração foi reformada na ilha, pode viver esse sonho dourado. Mas continuo intrigado. Quem está pagando?
A mídia brasileira, horrorizada com as manifestações antidemocráticas em Pernambuco e na Bahia, não gosta de lembrar que a atormentada blogueira morou na Suíça, apesar de ter tentado sair de Cuba vinte vezes, nos últimos cinco anos. Vinte vezes!
Façamos as contas: Yoani pediu para sair de Cuba, portanto, quatro vezes por ano, de 2006 para cá. Uma vez a cada três meses. Mas, antes, conseguiu ir MORAR na Suíça. Essa ditadura cubana é muito louca mesmo.
Mas, por que então a blogueira dissidente e perseguida abandonou a civilizada terra dos chocolates finos e paisagens lúdicas de vaquinhas malhadas pastando em colinas verdejantes? Fácil: nos Alpes suíços, Yoani Sánchez poderia blogar a vontade, denunciar a polícia secreta dos Castros e contar ao mundo como é difícil comprar papel higiênico de qualidade em Havana – mas de nada serviria a seus financiadores na mídia, seja a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que lhe paga uma mesada, ou o Instituto Millenium, no Brasil, que a tem como “especialista”.
Então, é preciso fazer Yoani Sánchez andar pelo mundo. Fazê-la a frágil peregrina da liberdade de expressão, curiosamente, financiada pelos oligopólios de mídia que representam, sobretudo na América Latina, a interdição das opiniões, quando não a manipulação grosseira, antidemocrática e criminosa da atividade jornalística, em todos os aspectos.
É preciso vendê-la como produto “pró-Cuba”, nem de direita, nem de esquerda – aliás, velha lenga-lenga mais que manjada de direitistas envergonhados. Pena Yoani ter se atrasado nessa missa: Gilberto Kassab, com o PSD, e Marina Silva, com a Rede (Globo?), já se apropriaram, por aqui, dessa fantasia não-tem-direita-nem-esquerda-depois-da-queda-do-muro-de-Berlim.
No mais, se a antenada blogueira cubana tivesse ao menos feito um Google antes de embarcar para o Brasil, iria descobrir:
1) Dado Galvão, apesar de “colunista convidado” do Instituto Millenium, não é ninguém. Ela deveria ter colado em Arnaldo Jabor;
2) Eduardo Suplicy é a Yoani do PT;
3) Em Pernambuco não tem só frevo;
4) E na Bahia não tem só axé.
Leandro Fortes
No Esquerdopata
Leia Mais ►

Por que falam tanto de Yoani?

Por uma razão: ela fala coisas que os americanos querem que sejam ditas.
Yoani
Yoani
Yoani Sanchez, a blogueira cubana, recebe uma cobertura enorme da mídia brasileira e internacional por uma razão: ela critica Cuba.
Por isso ela será tratada como estrela pop na turnê mundial que começa agora, entre os brasileiros. (O governo cubano deu uma absurda contribuição à aura de ‘martírio’ de Yoani com sua indefensável política restritiva para viagens e para o livre debate político, mas isto é outro assunto.)
No Brasil, sabemos que escrever contra Lula encurta o caminho rumo a colunas no Globo, na Veja, no Estadão e na Folha. Ou a participações na CBN e na Globonews, e assim a vida caminha.
No mundo, escrever contra Cuba, ainda mais se você é cubano e ainda mais se você vive lá, como Yoani, é garantia de ampla cobertura da mídia americana, cuja repercussão é planetária.
Ao longo dos anos, esse tipo de conteúdo serviu aos interesses americanos de fazer propaganda contra qualquer coisa parecida com socialismo.
Ajudou também a dar argumentos, perante a opinião pública mundial, para que os Estados Unidos mantivessem um abjeto bloqueio econômico que impediu Cuba de se desenvolver desde a Revolução de Fidel.
Essa propaganda serviu também de apoio às inúmeras tentativas que os Estados Unidos fizeram de matar Fidel e de tornar Cuba outra vez um quintal americano encostado em Miami — ou um bordel, como era antes.
O que teria sido de Cuba sem a impiedosa perseguição americana?
Os Estados Unidos descobriram, nos anos 1950, a receita de golpes no exterior. Propaganda para desestabilizar regimes, e depois a presença nas sombras da CIA.
A receita funcionou na Guatemala e no Irã. Na Guatemala, o presidente progressista Jacobo Arbens foi sabotado por ter desapropriado terras (não cultivadas) de uma empresa americana que produzia bananas, a United Fruits. Arbens queria melhorar a vida de camponeses miseráveis.
Os americanos o tacharam de comunista por meio de aliados na mídia, financiaram um exército de mercenários sob o comando de um general assassino exilado em Honduras e acabaram derrubando Arbens.
Nasciam assim as Repúblicas das Bananas.
Num documentário, lembro a cena de Nixon, então vice-presidente, saudando diante das câmaras de televisão o general. “Pela primeira vez na história, um povo derruba um governo comunista”, disse Nixon.
O povo guatemalteco nada tivera a ver com o golpe. Foi mais uma das múltiplas mentiras contadas por Nixon em sua vitoriosa carreira.
Vale a pena uma pausa para ver Nixon em ação, logo no início do documentário.
A mesma receita foi aplicada no Irã do progressista Mossadegh, com os mesmos resultados. Num livro sobre o golpe no Irã do renomado jornalista investigativo americano Stephen Kinzer, ele ouviu um agente da CIA que, naqueles dias, era pago para escrever artigos anti-Mossadegh que eram imediatamente publicados na imprensa iraniana conservadora.
Dois sucessos não levam necessariamente a três.
Os americanos usaram a mesma tática para derrubar Fidel, e sofreram uma avassaladora derrota no episódio que passou para a história como a Invasão da Baía dos Porcos.
O povo cubano, mais que o próprio regime de Fidel, rechaçou os americanos. Os cubanos foram mais firmes que os guatemaltecos e os iranianos – provavelmente porque conhecessem muito bem os reais interesses dos Estados Unidos por trás do discurso de campeões do mundo livre.
Nos últimos anos, você recebe tratamento heroico dos Estados Unidos se falar mal do islamismo, ainda mais se for oriundo do universo muçulmano.
O melhor exemplo disso é a somali Ayaan Hirsi Ali, que ganha a vida nos Estados Unidos dando pancadas no Islã. Ayaan, antes de terminar nos Estados Unidos, viveu como refugiada na Holanda. Lá, convenceu um descendente de Van Gogh a fazer um filme antiislâmico e o resultado é que o pobre Van Gogh foi morto por um radical. Ficou pesado o ar para ela na Holanda e então os Estados Unidos a receberam com tratamento vip.
Ayaan
Ayaan
Yoani e Ayaan são casos parecidos, filhas da mesma lógica.
O maior mérito de ambas é falar o que os americanos querem que seja falado. São, para usar a expressão de Boff, escaravelhas internacionais.
Paulo Nogueira
No Diário do Centro do Mundo
Leia Mais ►

Hostilizar blogueira cubana é coisa de socialista burro

 
O que os militantes do PT e do PC do B estão fazendo com a blogueira cubana Yoani Sanchez é revoltante. A maneira como a hostilizaram em seu primeiro dia de visita ao Brasil é indigna de jovens que se dizem socialistas. Estão agindo como idiotas, vitimizando-a, levantando a bola dela. Burros.
É exatamente desse tipo de constrangimento que a dissidente mais precisa. Porque, a depender do que tem a dizer, essa moça é um dos maiores blefes que a CIA já patrocinou. Ela é uma nulidade ideológica, uma mentira evidente. Se não for uma ingênua bem tapada, sua única atenuante possível.
Yoani deu início a uma tournée internacional que vai durar três meses, durante os quais será recebida como heroína da direita internacional em 12 países. Tudo pago pelo pior tipo de gente, aí incluídos os idiotas. É só jogo de cena, um desrespeito aos cubanos que de fato são perseguidos pelo governo dos irmãos Castro.
Sim, claro que existem prisioneiros políticos em Cuba. Só que Yoani não é um deles. Gente séria, inclusive reacionários, não se submeteria à farsa da qual ela participa.
Ela prega para convertidos, não convence um único desavisado. Jornalistas sérios que a entrevistaram, sem nenhum cabresto ou viés, já demostraram a nulidade do que ela tem para contar (e conta) em seu blog. Ela mente, manipula, omite, exagera. E se faz de coitada.
O certo era deixá-la em paz com seus falsos bajuladores. A existência midiática de Yoani não traz nenhum benefício ou malefício ao povo cubano, que dirá ao brasileiro. Já não se fazem mártires como antigamente.
A juventude pretensamente socialista que empunhou faixas hostis e gritou palavras de ordem do século passado deveria estar estudando, trabalhando ou fazendo política de verdade, em vez de se comportar como moleques mal-educados. Se estivessem em Cuba, eles iam ver só a bronca que levariam do Comandante.
Leia Mais ►

Manifestantes cercam auditório e filme sobre Yoani é cancelado

Uma grande saudação aos solidários e solidárias que, agora à noite, em Feira de Santana, monstraram mais uma vez à blogueira mercenária que ela não é bem-vinda no Brasil.
Lamentável a intervenção do estúpido senador Suplicy.
A reportagem é do Globo, todo cuidado portanto.
Senador Eduardo Suplicy (PT-SP) tenta conter manifestantes Foto: Flávio Tabak/Agência O Globo
FEIRA DE SANTANA — Os protestos nos aeroportos de Recife e de Salvador, na manhã desta segunda-feira, eram o prenúncio do que ocorreria mais tarde, no primeiro evento do programa da blogueira cubana Yoani Sánchez em solo brasileiro. Durante à noite, ela levou meia hora para ingressar no Museu Parque do Saber, em Feira de Santana, onde participaria da exibição de um documentário sobre a liberdade de expressão em Cuba e Honduras, do cineasta Dado Galvão. Cerca de 80 manifestantes de movimentos de esquerda como a União da Juventude Rebelião, União da Juventude Socialista (UJS) e a Associação José Marti da Bahia cercaram o local onde seria exibido o filme. Com receio de que a quantidade de manifestantes provocasse tumulto, os organizadores do evento atrasaram a chegada da blogueira até que fosse formado um cordão de segurança por guardas municipais. A exibição do filme teve que ser cancelada.
No Solidários
Leia Mais ►