17 de fev de 2013

Rogério Correia: “Se o Gurgel não abrir inquérito contra o Aécio, estará prevaricando”

 
Em Minas, o ex-procurador Alceu Marques Torres arquivou duas representações  contra Aécio e Andrea Neves. Em 31 de maio de 2011, os deputados Rogério Correia, Sávio Souza Cruz e Antonio Júlio entregaram a Roberto Gurgel outra denúncia. Ela está na gaveta do procurador-geral da República há 22 meses e 17 dias
17 de abril de 2011. Madrugada de domingo, Leblon, Zona Sul carioca. O senador Aécio Neves (PSDB-MG), dirigindo uma Land Rover, é parado pela polícia numa blitz de trânsito. Convidado a fazer o teste do bafômetro, ele se recusa. A carteira de habilitação, vencida, é apreendida. Leva duas multas.
A partir daí, o poderoso bunker montado para protegê-lo foi sofrendo alguns abalos.
O Movimento Minas Sem Censura (MSC), bloco de oposição que reúne parlamentares do PT, PMDB, PCdoB e movimentos sociais, descobriu fatos até então desconhecidos. Além de denunciá-los publicamente, fez representações a várias instâncias, pedindo que fossem investigados.
Essas ações não deram em nada até agora.
Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), as tentativas para instalar CPIs não prosperaram. Lá, como em São Paulo, vige a lei da mordaça tucana.
Alceu José Marques Torres, procurador-geral da Justiça de Minas até início de dezembro de 2012, arquivou as duas representações feitas contra o senador, a irmã Andrea Neves e a rádio Arco-Íris.
“Como o procurador nada apurou, nós entramos com a segunda representação”, diz o deputado estadual Rogério Correia (PT-MG), líder do MSC. “O promotor João Medeiros Silva Neto, do Ministério Público do Estado de Minas, abriu inquérito para investigá-la. Porém, o doutor Alceu avocou para si o processo e arquivou. O então procurador-geral prevaricou.”
Em 31 de maio de 2011, Rogério e os colegas Luiz Sávio de Souza Cruz e Antônio Júlio, ambos do PMDB, foram a Brasília.
Entregaram pessoalmente a Roberto Gurgel representação denunciando Aécio e a irmã dele, Andrea Neves, por ocultação de patrimônio e sonegação fiscal. A representação está na gaveta do procurador-geral da República há 22 meses e 17 dias.
“Como em 2010 Aécio se tornou oficialmente sócio da rádio Arco-Íris, cujo valor de mercado é de R$ 15 milhões, se tinha patrimônio total declarado de R$ 617.938,42?”, questiona Sávio Souza Cruz, vice-líder do MSC. “Como Aécio viajava para cima e para baixo em jatinho da Banjet, cujo dono preside a Codemig e é dono de empresas que prestam serviços ao governo de Minas? Por que Aécio indicou Oswaldinho para presidir a Codemig?”
Rogério Correia denuncia: “Há fortes indícios de ocultação de patrimônio e sonegação fiscal. Aécio se recusa a prestar esclarecimentos sobre o seu patrimônio. Andrea destinou dinheiro público para empresas da família. Isso é improbidade administrativa!”
“Em Minas, o Aécio tudo pode”, continua Souza Cruz. “Nós poderíamos ter copiado tantas coisas aprazíveis da Bahia, acabamos por reproduzir uma das menos positivas, o Aecinho Malvadeza.”
“Está tudo dominado”, ele sentencia. “A Assembleia Legislativa homologa tudo o que é do interesse do Aécio. O ex-procurador geral de Justiça de Minas virou o zagueiro do Aécio, nós passamos a chamá-lo de ‘Aéceu’.”
AS DENÚNCIAS MENOSPREZADAS PELA MÍDIA CORPORATIVA
Rádio Arco-Íris, Banjet, Oswaldinho, aplicação de verbas públicas em empresas da família, voos em jatinho do presidente da Codemig, suspeitas de ocultação de patrimônio e sonegação fiscal, blindagem.
Nenhuma dessas denúncias, praticamente desprezadas pela mídia corporativa, é novidade. Todas, desde 2011, têm sido feitas e reiteradas (confira aqui, aqui e aqui).
O ponto de partida, relembramos, foi o flagrante do teste do bafômetro, em 17 de abril de 2011, na cidade do Rio de Janeiro.
O carro que o senador dirigia na hora da blitz — Land Rover TDV8 Vogue, ano 2010, placa HMA 1003, valor mercado R$ 255 mil, comprado após as eleições de 2010 — pertencia à rádio Arco-Íris, de Belo Horizonte (MG), cujos sócios são Aécio, a irmã Andrea e sua mãe, Inês Maria Neves Faria.
Há anos é propriedade da família Neves. Em 1987, o então deputado federal Aécio Neves ganhou a concessão para explorá-la do à época presidente da República José Sarney, atualmente senador.
Por coincidência, Aécio votou a favor da ampliação do mandato de Sarney para cinco anos, o que lhe valeu entre adversários a alcunha de “Aecinco”. Antonio Carlos Magalhães, ministro das Comunicações naquele momento, assinou a outorga. Inicialmente a sede da emissora ficava em Betim, depois foi transferida para BH.
A matéria abaixo de Veja, publicada na seção Radar, em 1987, circulou muito após o teste do bafômetro. Ela diz que Aécio já seria proprietário de outras três rádios, em Cláudio, Formiga e São João Del-Rei. Investigação feita em 2011 revelou que oficialmente ele era sócio apenas da Arco-Íris. Estavam em nome de Andrea outra emissora e um jornal em São João Del-Rei.
Aécio, aliás, só passou a integrar legalmente a sociedade da rádio Arco-Íris dois meses após ser eleito senador.  Mais precisamente a partir de 28 de dezembro de 2010 com valor declarado à Junta Comercial de Minas Gerais de R$ 88 mil, o equivalente a 88 mil cotas. A mãe, dona Inês Maria Neves Faria, repassou-lhe a maior parte das suas.
Em consequência, as 200 mil cotas da empresa ficaram assim distribuídas:  Andrea, 102 mil (51%); Aécio, 88 mil (44%); e dona Inês Maria, 10 mil (5%).
Foi a sétima alteração contratual da empresa, que iniciou atividades em 1986. Abaixo a última página do contrato.
A rádio Arco-Íris, além da Land Rover, era proprietária em 2011 de outros 11 veículos registrados no Departamento de Trânsito de Minas (Detran-MG).
Dos 12 veículos, seis são carros de passeio de luxo, em geral não utilizados para fins empresariais.
Mais surpreendentes foram as frequentes autuações dos veículos da Arco-Íris no Estado do Rio de Janeiro. Afinal, ela é retransmissora da rádio Jovem Pan FM, tem sede em BH, não possui departamento de Jornalismo e se atém a músicas para jovens.
As multas aplicadas em 2011 no Toyota Fielder (HEZ1502) e na Land Rover TDV8 Vogue (HMA 1003) decorreram de excesso de velocidade nas cidades de Búzios, Rio Bonito e Rio de Janeiro e em rodovias fluminenses. A informação é do Detran-MG. Abaixo uma do Toyota Fielder (HEZ1502) .
MILAGRE DOS PEIXES 
Aécio governou Minas de janeiro de 2003 a abril de 2010. Durante os dois mandatos, a irmã Andrea comandou o Núcleo Gestor de Comunicação Social da Secretaria de Governo, criado por decreto em 3 de abril de 2003, pelo próprio governador.
O setor tinha as funções de:
1) coordenar, articular e acompanhar a execução de toda a política de comunicação social do Estado, inclusive a das secretarias, autarquias, empresas públicas e fundações estaduais;
2) decidir a alocação de recursos financeiros de toda a publicidade do Estado de Minas Gerais, sua administração direta e indireta, até mesmo das empresas controladas pelo poder público mineiro, bem como o patrocínio de eventos e ações culturais e esportivas.
De 2003 a 2010, as despesas com “divulgação governamental” somaram R$ 489 milhões. No primeiro mandato, foram R$ 157 milhões; no segundo, R$ 325 milhões, de acordo com o Sistema Integrado de Administração Financeira do Tesouro (Siafi).
Nesses valores não estão incluídos os gastos com publicidade de empresas públicas ou de economia mista controladas pelo Estado, como as companhias  Mineradora (Codemig), Energética (Cemig), Saneamento (Copasa) e Gás (Gasmig), assim como as do Banco de Desenvolvimento de Minas (BMDG) e Loteria estadual (LEMG). Eles totalizaram mais de R$ 325 milhões de 2003 a 2009, conforme o Tribunal de Contas do Estado.
Pois era Andrea que orientava, determinava e supervisionava quanto, quando, como e onde aplicar todos esses recursos do Estado e suas empresas, diretamente ou via agências de publicidade.
No decorrer das gestões do irmão-governador, o seu núcleo aplicou, a título de publicidade, dinheiro de estatais mineiras e da administração direta estadual na rádio Arco-Íris e em outras empresas de comunicação dos Neves.
Exatamente quanto não se sabe, pois o ex-procurador-geral Alceu José Marques Torres nem ao menos  investigou quanto de dinheiro público a rádio Arco-Íris recebeu.
Por falar em patrimônio, em fins de 2010, quando Aécio passou a ser oficialmente sócio da rádio Arco-Íris, o capital social registrado não representava o valor real. Somente os 12 veículos em nome da empresa valiam aproximadamente R$ 714 mil em maio de 2011. Já o valor comercial da emissora, de acordo com fontes do mercado, era de aproximadamente R$ 15 milhões.
Contudo, no início de 2010, ao registrar a candidatura ao Senado, Aécio declarou à Justiça Eleitoral patrimônio total de R$ 617.938,42. Um decréscimo de cerca de 20% em relação ao de 2006. Apenas a parte dele no valor dos automóveis da rádio Arco-Íris seria de R$ 314 mil!  Um milagre dos peixes às avessas.
BANJET, CODEMIG, BANDEIRANTES, IM: RELAÇÕES FAMILIARES E COMERCIAIS
Em 2011, o Minas Sem Censura fez outra denúncia contra o senador tucano: Aécio usava gratuitamente os jatinhos da Banjet Taxi Aéreo Ltda, para deslocamentos no Brasil e exterior. “Uma cortesia da empresa”, justificou-se na época.
A Banjet fazia parte do grupo do extinto Banco Bandeirantes, sendo seus donos os empresários Clemente Faria e Oswaldo Borges da Costa Filho.
Oswaldinho (como Oswaldo Borges da Costa Filho é conhecido em Minas) é casado com Beatriz Faria Borges da Costa, filha do banqueiro Gilberto de Andrade Faria, que foi padrasto de Aécio. Gilberto, falecido em 2008, casou-se em segundas núpcias com dona Inês Maria, com quem viveu durante 30 anos.
Clemente, morto em acidente aéreo em julho de 2012, é o outro filho do primeiro casamento do banqueiro Gilberto Faria. Clemente, portanto, era cunhado do Oswaldinho, seu sócio na Banjet.
Pois Oswaldinho e Clemente eram sócios em outras empresas, entre elas a Star Diamante Ltda (nome fantasia Starminas), criada em setembro de 2003. Em 4 de fevereiro de 2004, Clemente transferiu todas as suas cotas para Oswaldo Borges da Costa Neto, que já era sócio, e Oswaldinho, a quase totalidade. Costa Neto é  filho de Oswaldinho e ficou com 259.999 cotas das 260 mil cotas da empresa. Abaixo fragmento da última página do contrato social de constituição dela.
A essa altura, Oswaldo Borges da Costa Filho  já presidia a Companhia Mineradora de Minas (Comig), como mostra nota publicada pelo jornal Estado de Minas  em 24 de setembro de 2003, página 17.
No final de 2003, a Comig teve nome e objeto social alterados para Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig).
Codemig é uma empresa pública e como tal o diretor-presidente deve ser eleito pelo seu conselho. Mas, na prática, é quem o governador indicar. Em 2003, com Aécio no poder, Oswaldinho  – genro do padrasto de Aécio -- passou a presidir a Comig, depois a Codemig, cargo que ocupa até hoje.
Não haveria aí conflito de interesses?
Explico. A mineração é uma das áreas de atuação da Codemig. Além disso, Oswaldo Borges da Costa Filho era sócio ou integrava a diretoria de várias empresas, segundo levantamento feito na Junta Comercial de Minas Gerais em 16 de maio de 2011. Entre elas, a Minasmáquinas S/A e a Bamaq S/A – Bandeirantes Máquinas e Equipamentos, que também pertenceram ao grupo do extinto Banco Bandeirantes e mantêm relações comerciais com o Estado de Minas Gerais, segundo o Minas Sem Censura.
Curiosamente, um dos endereços do liquidado Banco Bandeirantes — Avenida Rio de Janeiro, 600,  Belo Horizonte – era o mesmo da IM Participações e Administração Ltda.
Gilberto Faria, relembramos,  era dono do extinto Banco Bandeirantes e  foi padrasto de Aécio.
A IM, por sua vez, tem como sócios os irmãos Neves da Cunha — Aécio, Andrea e Ângela, a mais nova do clã.  A mãe é a administradora. Dona Inês Maria atuou também na gestão do Bandeirantes e foi sócia do marido, o banqueiro Gilberto Faria, em algumas empresas, como a Trevo Seguradora.
A investigação pedida pela oposição mineira poderia esclarecer, por exemplo, se houve alguma triangulação entre o Banco Bandeirantes e a IM.
ASSESSORIA DE AÉCIO: ”MOTIVAÇÃO MERAMENTE POLÍTICA”
Esta repórter buscou falar com o senador e a irmã, para saber o que teriam a dizer sobre as representações feitas contra ambos pelo Minas Sem Censura.
Foram muitos e-mails e  telefonemas para o gabinete de Aécio, em Brasília, com a secretária driblando: “os assessores de imprensa estão em Minas”, “estou tentando contatá-los, mas não consigo”.
Até que, depois de muita insistência, veio esta resposta:
A assessoria do senador Aécio Neves informa que se trata de antigas iniciativas de dois deputados de oposição ao PSDB de Minas Gerais, amplamente noticiadas à época e sobre as quais foram prestados todos os esclarecimentos. É nítida a motivação meramente política das mesmas. Registre-se que uma delas chegou a ser apresentada por duas vezes, tendo sido, nas duas ocasiões, investigada e arquivada por falta de fundamento.
De Andrea, nenhum retorno. Em 2003, o então governador Aécio Neves nomeou-a para a presidência do Servas (Serviço Voluntário de Assistência Social), cargo que ocupa até hoje. Está na terceira gestão. O site da entidade informa:
O Serviço Voluntário de Assistência Social – Servas é uma associação civil, de direito privado, sem fins econômicos, que tem como objetivo promover e executar ações sociais em Minas Gerais, dotado de autonomia administrativa, financeira e operacional. É reconhecido como entidade de utilidade pública nos níveis municipal, estadual e federal. Existe desde 1951.
Andrea Neves da Cunha permanece na presidência do Servas, de janeiro de 2011 até a presente data, dando continuidade aos programas já existentes, em parceria com o Governo de Minas, empresas e entidades de classe.
Após vários e-mails e telefonemas ao setor de Comunicação do Servas nos últimos 25 dias, a chefe do setor alegou: “Andrea está de férias, não posso encaminhar para ela”.
Em resposta a mais um e-mail enviado por esta repórter, ela respondeu nessa quinta-feira 14: “A senhora Andrea já retornou de férias, mas ainda não pude tratar com ela sobre seu pedido. Havendo um retorno, informo”.
DENÚNCIA CONTRA AÉCIO E ANDREA NA GAVETA DE GURGEL HÁ QUASE 23 MESES
Em 31 de maio de 2011,os deputados Sávio de Souza Cruz, Antonio Júlio e Rogério Correia entregaram nas mãos do procurador-geral da República, em Brasília, a representação contra Aécio e Andrea.
Gurgel fez questão de ir com os parlamentares até o setor de protocolo da Procuradoria Geral da República (PGR). Aí, a representação recebeu o número 1.00.000.006651/2011-19.
“Ligávamos de vez em para o setor de protocolo e a informação era de que não havia novidade”, diz  Correia. “Sabíamos apenas que a representação não havia sido arquivada nem inquérito aberto.”
“No dia 29 de janeiro, ligamos e nos disseram que no dia 18 de dezembro de 2012, a Coordenadoria de Comunicações Administrativas (CCA) remeteu a representação e um relatório para o doutor Gurgel”, acrescenta Correia. “Nos disseram que estão na mesa dele.”
Ao Viomundo, a Secretaria de Comunicação da PGR limitou-se a dizer antes do Carnaval: “O documento protocolado pelos deputados encontra-se em análise no gabinete do procurador-geral”.
Nesta sexta-feira 15, voltamos a contatar a Secretaria de Comunicação da PGR para saber se havia tido alguma mudança  nesse período. A resposta foi “não“.
Fontes da própria PGR nos disseram que até 28 de janeiro de 2013 — portanto, um dia após Correia ligar para lá — não havia sido dado qualquer despacho na representação protocolada em 31 de maio de 2011, que continua na gaveta do procurador.
Oficialmente não é da alçada da CCA dar parecer jurídico sobre qualquer representação. É um setor grande da PGR. Aí, ficam expediente, protocolo, arquivo, publicação.
Além disso, mesmo não existindo arquivamento, o status da representação dos deputados mineiros contra Aécio e Andrea estava gravado como “arquivado” no sistema. Isso sempre acontece quando o processo está parado há mais três meses.
“Diante de todas essas denúncias, não há outra saída para doutor o Roberto Gurgel a não ser abrir inquérito junto ao STF contra Aécio Neves”, espera Rogério Correia. “Do contrário, ele estará prevaricando.” Sávio Souza Cruz afirma: “Espero que o procurador-geral da República cumpra a Constituição”.
A propósito. Enquanto a representação contra Aécio e Andrea Neves dorme há quase 23 meses na gaveta de Gurgel, ele decidiu, em cinco meses, o destino das acusações feitas em setembro de 2012 pelo publicitário Marcos Valério de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria recebido vantagens financeiras do esquema do mensalão.
No dia 6 de fevereiro, o procurador-geral resolveu mandar para Minas o processo. Nessa quinta 14, o Ministério Público Federal (MPF), em Belo Horizonte, recebeu o depoimento de Valério contra Lula.
“A denúncia de Marcos Valério, réu já condenado, querendo benefício para reduzir pena, foi rapidamente remetida ao MPF  para investigação”, compara Correia. ” Já a de duas bancadas, representando 19 deputados estaduais, contra Aécio e Andrea está sem nenhuma providência desde maio de 2011.”
“Parece que o Marcos Valério, como fonte de denúncia, tem mais credibilidade para o procurador-geral do que as bancadas estaduais de Minas dos dois maiores partidos do Brasil”, diz Sávio Souza Cruz. Correia finaliza: “É o cúmulo do partidarismo”.
Conceição Lemes
No Viomundo
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O Bodoque de Deus

 
O universo, se o pudéssemos ver do lado de fora, seria belo espetáculo pictórico, mas sem sentido, com suas esferas de gás em chamas e corpúsculos sólidos, cálidos uns, gelados outros, flutuantes e indiferentes ao próprio mistério. Sem vida inteligente, também de necessidade duvidosa, o mundo nada seria.
O universo existe na mente dos homens, e a mente dos homens é um ato de transcendência, que a fisiologia pode mapear, mas não decifrar. Queiramos ou não, a ciência é inútil para explicar o mundo material e, muito mais ainda, a vida e, nela, como epicentro do mistério, a inteligência humana.
O homem, conforme a teologia comum às principais religiões, é transgressor. No mito judaico, que a Bíblia recolhe, são os dois fundadores da espécie, Adão e Eva, que tentam decifrar o próprio enigma, ao comer do fruto proibido – a conselho do diabo, dissimulado na serpente, o que não deixa de ser uma desculpa apologética. O fruto proibido é o conhecimento, ou seja, a chave do bem e do mal.
Voltando ao Universo e à sua provável inutilidade – a não ser como continente da vida – a ciência, se um dia chegar a localizar, no tempo e em alguma galáxia primeva, seu início, jamais terá a resposta maior: por que ele surgiu, que vontade lhe deu o primeiro impulso. Só a Fé em um Criador único oferece a resposta, ainda que precária.
O meteoro que se fragmentou na atmosfera dos Urais é – entre outros sinais – aviso de nossa precariedade. Em algum momento da Eternidade o sistema solar deixará de existir - segundo os astrofísicos, quando a Via Láctea chocar-se com Andrômeda, daqui a 4 bilhões de anos. Em sua ilusão, o homem pensa que a ciência salvará a espécie, migrando-a para lugar seguro, ainda a tempo. É mais provável que, bem antes, um acidente cósmico dê ponto final a esse animal frágil, sem garras e sem mandíbulas fortes, de anatomia torpe, se comparada à de alguns insetos e aves, e que só construiu sua história a partir de circunstâncias do acaso, como a mobilidade das mãos e o uso da linguagem complexa.
Algumas línguas usam um só vocábulo para definir tempo e espaço, aqui e agora, e outras incluem a idéia de sempre. Esse deve ser o resumo de toda a filosofia: o mundo é aqui e agora, na eternidade de um segundo. Devemos viver “aqui”, nesta tênue camada do planeta que nos oferece as condições físicas da vida, e “agora”, com a consciência de que a vida é uma aventura coletiva e solidária da matéria convertida em natureza e a vida disso consciente. Essa é a herança da Criação, se nela cremos, ou de outras e imperscrutáveis razões.
Quando um meteoro de peso cai sobre a Terra – como o dos Urais – uma imagem pobre e vulgar assiste à nossa angústia, a de Deus atirando-nos, com seu bodoque, seixos menores, como advertência contra a insolência, antes que nos mande os calhaus do fim.
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Deus hipotético

Um religioso dirá que não faltam provas da existência de Deus e da sua influência em nossas vidas. Quem não tem a mesma convicção não pode deixar de se admirar com o poder do que é, afinal, apenas uma suposição.
A hipótese de que haja um Deus que criou o mundo e ouve as nossas preces tem sobrevivido a todos os desafios da razão, independentemente de provas.
Agora mesmo assistimos ao espetáculo de uma empresa multinacional às voltas com a sucessão no comando do seu vasto e rico império, e o admirável é que tudo — o império, a riqueza e o fascínio dos rituais e das intrigas da Igreja de Roma — seja baseado, há 2000 anos, em nada mais do que uma suposição.
Todas as religiões monoteístas compartilham da mesma hipótese, só divergindo em detalhes como o nome do seu deus. E todas têm causado o mesmo dano, em nome da hipótese.
Não é preciso nem falar no fundamentalismo islâmico, que aterroriza o próprio islã. Há o fundamentalismo judaico, com sua receita teocrática e intolerante para a sobrevivência de Israel.
O fundamentalismo cristão, que representa o que há de mais retrógrado e assustador no reacionarismo americano, e as religiões neopentecostais que se multiplicam no Brasil, quase todas atuando no limite entre o curandeirismo e a exploração da crendice.
A Igreja Católica pelo menos dá espetáculos mais bonitos, mas luta para escapar do obscurantismo que caracterizou sua história nestes 2000 anos, contra um conservadorismo ainda dominante. A hipótese de Deus não tem inspirado as religiões a serem muito religiosas.
Há aquela parábola do Dostoievski sobre o encontro do Grande Inquisidor com Jesus Cristo, que volta à Terra — o filho da hipótese tornado homem — para salvar a humanidade outra vez, já que da primeira vez não deu certo.
Os dois conversam na cela onde Cristo foi metido por estar perturbando a ordem pública, e o Grande Inquisidor não demora a perceber que a pregação do homem ameaçará, antes de mais nada, a própria Igreja, a religião institucionalizada e os privilégios do poder.
Não me lembro como termina a parábola. Desconfio que, se fosse hoje, deixariam o Cristo trancado na cela e jogariam a chave fora.
Luis Fernando Veríssimo
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Candidatos de Fantasia

Ao longo dos últimos 20 anos, a política brasileira, no fundamental, foi regida pela polarização PT/PSDB. Desde 1994, todos nossos presidentes da República saíram de um dos dois partidos.
Seria razoável imaginar que essa polaridade será rompida na próxima eleição? Parecem significativas as chances de que o futuro presidente venha de outra legenda?
Quem acompanha os comentaristas e analistas da “grande imprensa” deve estar acreditando que sim. De tanto ouvir falar em terceiros ou quartos nomes, talvez suponha que esse longo ciclo se encerrará ano que vem.
Não há, no entanto, sustentação para a hipótese, salvo especulações despropositadas. O que quer dizer que teremos mais uma eleição que culminará com o eleitorado escolhendo entre os candidatos de um ou outro.
Isso, é claro, não implica que não possamos ter várias candidaturas, vindas de muitos partidos. Em 1994, foram oito; em 1998, doze. Na primeira eleição vencida pelo PT, seis candidatos disputaram. Na segunda, oito. Em 2010, passaram a nove.
Em todas essas eleições, tivemos nomes que saíram “consagrados” das urnas, saudados como fenômenos por conseguir desempenho considerado surpreendente.
Em 1994, o fato novo foi o pitoresco Enéas Carneiro, com seus quase 7,5% dos votos válidos. Em 1998, foi Ciro Gomes, que beirou 11%. Na seguinte, Garotinho quase obtém 18%. Em 2006, Heloisa Helena chegou a 8%. Na mais recente, Marina Silva arremeteu no final e ultrapassou 19%.
Ou seja: mesmo em uma eleição tão sui generis quanto a primeira de Fernando Henrique, costuma aparecer alguém para atrapalhar a bipolaridade. No máximo, porém, como Garotinho ou Marina, se aproximam dos 20%.
Curioso é especular a respeito dessas “surpresas” no médio prazo. Sem falar de Enéas, que já morreu, todos emagreceram: Ciro, que parece haver desistido da política nacional; Heloísa Helena, que virou vereadora; Garotinho, que sobrevive graças a seu feudo no Norte Fluminense.
E Marina?
Hoje, quando escrevem sobre as perspectivas da eleição, os comentaristas gostam de lembrar sua performance na anterior, como se significasse uma espécie de piso. Como se tivesse formado base sólida na sociedade, tão expressiva quanto o quinto do eleitorado que sufragou seu nome.
Dá-se o caso que a votação que recebeu foi muito mais determinada por fatores de rejeição aos outros candidatos que por sua capacidade de atrair apoios. Se não houvesse um eleitorado incomodado com Dilma e Serra, que não os queria por motivos diferentes, Marina pouco iria além dos 7 a 8% que tinha desde o início de 2010 e que eram genuinamente seus, motivados por sua biografia, agenda e imagem.
E Eduardo Campos?
Desde o fim da eleição do ano passado e agora depois da escolha dos novos presidentes do Senado e da Câmara, nossa mídia anda cheia de especulações sobre o “crescimento” de sua candidatura ao Planalto. Como se não apenas fosse candidato, mas tivesse elevada possibilidade de vencer.
A tese do crescimento do governador de Pernambuco deriva de um suposto duvidoso: de que o aumento do número de prefeituras conquistadas pelo PSB em 2012 expresse um realinhamento relevante de opiniões e preferências na sociedade. De que uma parcela expressiva do eleitorado “votou no PSB”.
Nada autoriza acreditar nisso. O PSB entrou na eleição de 2012 pequeno na identificação popular e assim saiu. Aqui e ali, as pessoas votaram em seus candidatos, sem que esse comportamento possa ser considerado reflexo de qualquer mudança em suas simpatias.
Como partido de massa, o PSB inexistia antes da eleição e continua a inexistir.
Tampouco faria sentido falar em “crescimento da candidatura” do governador Eduardo Campos como se tivesse havido aumento de sua visibilidade, propiciada pela exposição da campanha. Ele começou o ano de 2012 quase desconhecido fora de seu estado e o terminou da mesma maneira.
Ao contrário do PT e outros partidos ideológicos, o PSB nada mais é que um agregado de quadros políticos e lideranças que se associaram para perseguir alguns (poucos) objetivos comuns, sem, necessariamente, compartilhar convicções e projetos.
Ou alguém acha que, por exemplo, Cid Gomes, está engajado na candidatura do correligionário?
No fundo, o PSB tem mais semelhanças com o PMDB que com os partidos à esquerda. A velha ideia da federação de oligarquias regionais, que tão bem descreve aquilo em que se tornou o antigo MDB, se aplica igualmente a ele. Em cada lugar, dança conforme a música: aqui situacionista, ali de oposição.
Fantasie-se o quanto se queira, o mais provável é que tenhamos a sexta eleição polarizada por tucanos e petistas. E que, nela, o grande favorito seja o PT.
Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
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Marina Silva lança Rede: que partido será esse?


marina ae ok Marina Silva lança Rede: que partido será esse?
Gosto muito da Marina Silva, principalmente pela coragem de lutar por seus ideais, desde quando nos conhecemos, muito tempo atrás, nos movimentos sociais lá no Acre.
Apesar da velha amizade, porém, às vezes tenho dificuldades para entender o que ela quer dizer e como pretende atingir seus objetivos. A última conversa mais longa que tivemos foi quando ela deixou o Ministério do Meio Ambiente, no final do governo Lula, e foi para o PV.
"Marina foi mordida pela mosca verde", foi mais ou menos o título da entrevista que publiquei aqui no Balaio, já antecipando sua entrada no Partido Verde para se condidatar à Presidência da República, projeto que ela ainda negava e seria inviável se permanecesse no PT.
E Marina acabou sendo a grande surpresa das eleições presidenciais de 2010, quando alcançou 20 milhões de votos, provocando um segundo turno entre Dilma e Serra.
Logo depois da eleição, ela deixaria o PV ao descobrir que o partido, assim como os outros, tinha donos - e os verdes mais antigos não pretendiam abrir mão do seu poder na direção para dar espaço aos "marineiros" que chegaram depois.
Os seguidores de Marina, autodenominados "marineiros" e sonháticos", começaram desde então a planejar um novo partido para chamar de seu, diferente de todos os outros.
Mil e uma reuniões depois, finalmente eles promovem neste sábado, em Brasília, um evento bastante festivo para lançar oficialmente a Rede, nome provisório do novo partido, que precisa juntar 500 mil assinaturas até o dia 23 de setembro para poder disputar as próximas eleições.
Como aconteceu ao trocar o PT pelo PV, também agora Marina nega que o objetivo principal seja lançar sua candidatura à Presidência. "Se dentro dessa estratégia uma candidatura, seja lá de quem for, que esteja apto a levar nossas ideias para frente, se colocar, nós vamos até ter candidato", desconversou.
A pedido dela, a coordenação do evento até vetou o uso de imagens da ex-senadora no local do encontro, o Espaço Unique, assim como em material de divulgação, para evitar que a nova sigla seja chamada de "Partido da Marina", o que parece meio inevitável.
Em reuniões fechadas durante toda a sexta-feira, os líderes da Rede discutiram o estatuto do novo partido e o nome de batismo. Algumas propostas, digamos, mais exóticas, provocaram discussões, como não aceitar doações de empresas, mas apenas de pessoas físicas, e a de limitar o mandato de seus parlamentares a 16 anos (alguns acham que oito anos está de bom tamanho).
Até agora, nenhuma liderança política nacional de peso atendeu aos convites feitos por Marina. Apenas três deputados federais sem maior expressão - Walter Feldman (PSDB-SP), Domingos Dutra (PT-MA) e Alfredo Sirkis (PV-RJ) - confirmaram a adesão ao novo partido, além de Heloisa Helena (PSOL), ex-candidata à Presidência, hoje vereadora em Maceió.
Por mais que você não goste deles, ainda não se inventou uma forma de criar um partido político sem políticos. Para fundar seu novo partido, o PSD, no ano passado, o ex-prefeito Gilberto Kassab arrebanhou 52 parlamentares e mesmo assim teve dificuldades para reunir as assinaturas necessárias ao registro no TSE.
Se os "marineiros" alcançarem seu objetivo, o Rede será o 31º partido do país.
Ricardo Kotscho
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Opus Dei nas finanças do Governo e com força na banca
Opus Dei nas finanças do Governo e com força na banca
Conhecida como 'maçonaria branca', o Opus Dei tem mais de 1500 membros em Portugal. Apesar de negar a existência de uma estratégia de poder, conta com figuras de destaque na banca e na política. Há mais de dez anos que um governo não tinha um elemento ligado à obra, mas a última minirremodelação pôs no Executivo um cooperador que até há três meses geria a financeira da Escola de Negócios da obra.
O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, colocou recentemente uma das mais importantes áreas da governação nas mãos de um cooperador do Opus Dei: o secretário de Estado Manuel Rodrigues. O novo homem-sombra de Vítor Gaspar nas Finanças junta assim duas áreas às quais a obra é constantemente associada: a política e a banca, nas quais sempre teve membros influentes.
Para muitos uma "igreja dentro da Igreja", o Opus Dei é a única prelazia pessoal reconhecida pelo Vaticano e ajuda em Portugal mais de 1550 membros a "aproximarem-se de Deus". No País, tal como no resto do mundo, a esmagadora maioria dos seus membros mantém-se no anonimato, um obscurantismo que, a par de girar em torno de uma pessoa (o prelado Javier Echevarría), faz que muitos o considerem uma "seita religiosa". A designação ofende os seus membros, que primam por ser discretos e dizem agir individualmente nas suas profissões. Esteja ou não montada uma teia de influências em Portugal, é certo que o Opus Dei conta (entre numerários, supranumerários e cooperadores - três diferentes níveis de ligação à obra) com pessoas que são influentes na política e, principalmente, no sector bancário.
Voltemos então às Finanças. Até integrar o Governo, Manuel Rodrigues acumulou as funções de vice-presidente do PSD com as de professor da AESE - Escola de Direção e Negócios, instituição dirigida por membros e uma das obras cooperativas do Opus Dei Portugal. Professor de Economia e Finanças, Manuel Rodrigues tirou também o seu MBA noutra estrutura do Opus Dei: o IESE Business School da Universidade de Navarra. Além disso, no último mês de setembro, Manuel Rodrigues assumiu o cargo de diretor-geral da sociedade de capital de risco da AESE, a Naves, funções que deixou a 26 de outubro para integrar o Governo, tal como consta da declaração de rendimentos entregue no Tribunal Constitucional a 21 de dezembro.
No cargo governamental que ocupa, Manuel Rodrigues (que o DN tentou contactar por todos os meios, sem êxito) vai igualmente lidar de perto com a banca, área que os elementos do Opus Dei - incluindo alguns dos seus mais destacados membros - conhecem bem. Apesar de alguns elementos da obra terem perdido o poder que noutros tempos tiveram no BCP, há outros que continuam muito bem colocados na banca. O presidente do Conselho de Administração do BPI e da Fundação Calouste Gulbenkian, Artur Santos Silva, participou em alguns eventos do Opus Dei a convite de Carlos da Câmara Pestana, que durante anos foi o representante do segundo maior acionista do BPI (o Itaú) e um dos vice-presidentes do banco.
Apesar da aproximação, quando confrontado pelo DN, Artur Santos Silva não falou sobre a participação nestes eventos, disse apenas ser "muito amigo do dr. Câmara Pestana" e garantiu: "Não sou, nem pretendo ser, membro do Opus Dei." Quanto a Câmara Pestana não há qualquer dúvida de que é uma figura de destaque da obra e preside o Itaúsa - Investimentos Itaú S.A., que pertence ao Itaú Brasil.
O Itaú decidiu alienar a sua participação no BPI, o que não significa que o Opus Dei fique fora de cena. É que a participação de 18,9% do Banco Itaú no BPI - de acordo com o contrato de promessa de compra e venda já assinado - vai ser vendida ao banco espanhol La Caixa, instituição associada ao Opus Dei por ter sido parceira da Fundação Senara (sedeada em Madrid, que pertence à obra e foi criada pelo fundador da prelatura, o espanhol Josemaría Escrivá de Balaguer).
Câmara Pestana é supranumerário, o que significa que é membro da obra, frequenta os centros, participa em retiros e outros eventos, mas é casado. Além disso, ocupa cargos em estruturas ligadas ao Opus Dei, como a Fundação Maria Antónia Barreiro, em que é membro do conselho geral. Artur Alves Conde, membro do Opus Dei, professor e um dos fundadores da AESE, também foi, até 2010, administrador da seguradora do BPI (a BPI Vida), chegando a ser presidente do conselho fiscal do banco.
O 'banco do Opus Dei'?
Um dos argumentos utilizados pelos membros da prelatura para reforçar a ideia de que a obra nunca pretendeu controlar a banca é o facto de muitos dos membros já se terem enfrentado ferozmente no mundo empresarial. E um dos episódios mais conhecidos foi a oposição de Câmara Pestana às intenções de um dos mais destacados membros do Opus Dei, o banqueiro e fundador do BCP, Jorge Jardim Gonçalves, na OPA que o BCP fez ao BPI em 2006.
Jardim Gonçalves teve um primeiro contacto com a obra quando estudava na Universidade de Coimbra, mas, curiosamente, foi o PREC que o empurrou para o Opus Dei. Sem emprego em Portugal depois das nacionalizações, o madeirense foi para Madrid trabalhar no Banco Popular Espanhol em pleno "Verão Quente". Foi aí que, por influência da sua mulher, Maria da Assunção, acabaria por se tornar supranumerário do Opus Dei, ainda no ano de 1975.
Precisamente 30 anos depois, Jardim Gonçalves escolheu como seu sucessor na presidência do então maior banco privado português o antigo secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros de Cavaco Silva e também supranumerário Paulo Teixeira Pinto - que viria a abandonar a organização em 2007. Quando fez a escolha, Jardim Gonçalves desvalorizou a ligação publicamente: "É uma coincidência. Ele ser do Opus Dei é um problema dele. Nunca falámos sobre isso. Cada um tem os seus caminhos. A escolha teve que ver com o que a pessoa é e pode continuar a ser. As pessoas da prelatura tiveram a mesma surpresa do que os jornalistas, quando o nome do sucessor foi conhecido." Ao DN, Teixeira Pinto não quis falar sobre o Opus Dei, uma vez que nunca o faz, nem fará, por uma "questão de princípio".
Se houve solidariedade entre supranumerários nesta sucessão, o mesmo não se pode dizer quanto à OPA do BCP sobre o BPI. Câmara Pestana estava de um lado da barricada e Jardim Gonçalves e o seu delfim, Teixeira Pinto, do outro. Opus Dei, Opus Dei, negócios à parte. Câmara Pestana, então número dois do BPI, foi um dos grandes responsáveis pelo falhanço dos dois irmãos supranumerários na OPA, tendo convencido o Banco Itaú a não vender as ações ao BCP ao preço de sete euros por título.
Três membros do Opus Dei de costas voltadas, mas só fora das portas dos centros da obra. Apesar de toda a troca de farpas públicas, longe dos olhares dos media Câmara Pestana, Teixeira Pinto e Jardim Gonçalves tratavam-se cordialmente em sessões espirituais no Oratório de S. Josemaría, no Lumiar.
Organização "perigosa" e "reacionária"
Os críticos do Opus Dei não têm dúvidas de que a obra procura ter influência na banca e na política nos vários países por onde passa. E Portugal não é exceção. O presidente da Associação Ateísta Portuguesa, Alfredo Esperança, considera o Opus Dei uma das organizações "mais perigosas e reacionárias da Igreja Católica". O ateu acredita que o Opus Dei tem "muito mais influência do que a maçonaria, que está fragmentada em várias organizações". "Basta ver o que aconteceu no BCP", remata. Alfredo Esperança lembra ainda que o Tribunal Federal Suíço, com sede em Lausana, definiu o Opus Dei num acórdão como "uma seita, uma associação secreta que atua ocultamente, com um máximo de opacidade nos seus assuntos".
Apesar de muitos ex-membros terem criticado o Opus Dei em conversas com o DN, não quiseram dar a cara. O mesmo não aconteceu com a presidente da Fundação Saramago, Pilar del Río, que confessou ao DN que cresceu perto do Opus Dei, uma vez que o seu pai era membro da obra. Porém, a prelatura não lhe merece o mínimo respeito, classificando-a de "uma seita para castrar". "Castra as pessoas física e intelectualmente e só tem um único objetivo: poder!", afirma.
O Opus Dei Portugal, através do gabinete de comunicação, garante que "nunca" procurou obter influência na sociedade, lembra que "as leis são para serem cumpridas" e que "é moralmente grave obter tratamentos de favor". O diretor de comunicação, Pedro Gil, assegura que "a autonomia e liberdade de cada pessoa são valores cruciais que não podem ser postos em causa".
'Maçonaria branca' perde
Apesar de conhecida como a "maçonaria branca", os membros do Opus Dei consideram ofensiva a comparação com os pedreiros-livres. Dizem que não têm mais influência do que a maçonaria, uma vez que não têm "influência nenhuma". Certo é que, olhando aos grandes cargos da sociedade, a prelatura perde na contagem de espingardas para os que veneram o "Grande Arquiteto do Universo". Os deputados maçons são largas dezenas, enquanto o social-democrata Mota Amaral - garante a prelatura - é hoje o único deputado que pertence ao Opus Dei.
O próprio responsável do gabinete de comunicação da obra, Pedro Gil, esclarece que "qualquer membro da Prelatura do Opus Dei que atua na área pública, fá-lo sempre por exclusiva iniciativa própria, com total liberdade e responsabilidade pessoal sem qualquer mandato do Opus Dei". Assim, acrescenta, "Mota Amaral representa na Assembleia da República exclusivamente quem o elegeu, não a obra".
Apesar de recusar qualquer tipo de influência, dois destacados membros do Opus Dei já ocuparam o cargo de segunda figura da Nação. O fundador do CDS, Francisco Oliveira Dias - atualmente também membro do Conselho Geral da Fundação Maria Antónia Barreiro -, e Mota Amaral foram ambos presidentes da Assembleia da República (AR).
Mota Amaral, ainda hoje deputado do PSD, garante ao DN que nunca foi instrumentalizado: "Pertenço ao Opus Dei há mais de 50 anos e o facto de ser membro nunca afetou a minha liberdade política. Seria inadmissível que alguém da obra me desse instruções ou pedisse favores." O social-democrata é numerário e quando está em Lisboa (o que acontece em metade da semana) dorme num dos centros da obra. É assim há mais de 30 anos. Porém, "para que as coisas não se confundissem, quando fui presidente do Parlamento fiz questão de ficar na residência oficial", explicou o parlamentar.
Ao contrário de Mota Amaral (presidente da AR de 2002 a 2005), a escolha de Francisco Oliveira Dias, médico de profissão, não foi fácil. A eleição só foi decidida ao fim de três votações. Na altura, um deputado socialista, o historiador César Oliveira, chegou a confidenciar ao médico do CDS que "a maçonaria queria o lugar". Por essa altura (1981-82), na hierarquia do Estado, Oliveira Dias apenas tinha à sua frente um homem que é próximo do Opus Dei, apesar de não ser membro: o ex-presidente da República Ramalho Eanes.
Além de ter frequentado a AESE, Eanes tirou o doutoramento na instituição em que, por norma, se formam os membros do Opus: a Universidade de Navarra, em Espanha, controlada pelo Opus Dei e criada por Josemaria Escrivá de Balaguer.
A atual presidente da AR, Assunção Esteves, também admitiu que chegou a ser "convidada pela maçonaria e pelo Opus Dei".
Próximos mas não membros
Associado à prelatura por, ao longo dos anos, ter participado em eventos promovidos pela obra, o casal Eanes é admirador confesso do fundador do Opus Dei, tendo ido a Roma à canonização de Balaguer em outubro de 2002. Uma admiração partilhada pelo antigo ministro da Solidariedade Social do CDS Bagão Félix, que já participou num retiro do Opus Dei. Porém, não aderiu à obra.
Dizer "não" ao Opus Dei foi também o que fizeram Marcelo Rebelo de Sousa e Diogo Freitas do Amaral, ambos convidados no final dos anos 70 por Adelino Amaro da Costa. A pedido do seu amigo democrata-cristão, Marcelo chegou a fazer donativos a um dos projetos da obra. O antigo ministro do CDS- que morreu na queda do avião em Camarate, também fatal para o então primeiro-ministro Sá Carneiro - foi um dos destacados membros da obra, que abandonaria para se poder casar (era membro celibatário).
Antes de sair da obra, Amaro da Costa convidou amigos para integrar a prelatura, entre os quais dois ex-ministros de Cavaco Silva: Roberto Carneiro (Educação) e Miguel Beleza (Finanças). Este último revelou ao DN que não se recorda se "o convite foi feito formalmente", mas admite que falou "várias vezes e de forma profunda com Amaro da Costa sobre o assunto e a fé no geral". Mas Miguel Beleza nunca se sentiu "suficientemente vocacionado para aderir". Por outro lado, o também ex-ministro de Cavaco, Arlindo Cunha, chegou a ser membro da obra, mas já saiu.
O antigo primeiro-ministro e atual alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres, chegou a viver numa residência da obra e, embora não seja membro, costuma ser associado à organização. Foi, curiosamente, nos governos de Guterres que mais se falou em disputas nas pastas entre o Opus Dei e a maçonaria - o que ambas as organizações negam. Ao DN, na grande investigação sobre a maçonaria, o grão-mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL) disse claramente que o "Opus Dei não é nenhum inimigo. Muitas vezes associam-se os maçons a um certo anticlericalismo, o que não é verdade. Não há inimizade nenhuma".
O GOL, a mais influente obediência maçónica do País, sempre gozou de alguma influência junto do PS, daí que a maioria dos socialistas não visse com bons olhos a aproximação ao Opus Dei - geneticamente ligado à direita. Aliás, a prelatura - que tem uma lista negra de livros - definiu Portugal Amordaçado, do histórico socialista Mário Soares, como uma das obras proibidas.
Apesar disso, a mulher de Mário Soares e também fundadora do PS, Maria Barroso, já participou em eventos da obra social da prelatura, tendo também integrado a comitiva portuguesa que assistiu à canonização do fundador. Uma aproximação promovida por uma "grande amiga", já falecida, e que pertencia à obra, Ana Boléo Tomé. "Não pertenço ao Opus Dei, mas tenho pela obra o maior respeito. Consideram-me cooperadora porque gosto de cooperar com todas as organizações inspiradas nos grandes movimentos cristãos. Gosto de fazer alguma coisa pelos outros", disse ao DN a antiga primeira dama.
Apesar das restrições que impedem os membros da obra de participar em eventos públicos, não é vedada a presença em comícios políticos. No entanto, como explicou ao DN um antigo numerário, "a opção política está limitada a dois partidos: o PSD e o CDS".
A aproximação de Zita
Seria impensável ver um membro do Partido Comunista no Opus Dei. No entanto, uma ex--delfim de Álvaro Cunhal, Zita Seabra, tem vindo a aproximar-se da obra. A também ex--deputada do PSD já participou em eventos do Opus Dei, numa identificação que terá começado com a publicação de um livro de monsenhor Hugo de Azevedo (membro histórico da obra) sobre Josemaría Escrivá. Também o livro Opus Dei, da autoria de John L. Allen (correspondente da CNN no Vaticano, acusado de o ter escrito por encomenda da prelatura), foi publicado em Portugal pela Alêtheia, editora de Zita Seabra. Além de presidente desta editora, Zita preside uma empresa sedeada em Óbidos, a Várzea da Rainha Impressores (VRI), que, por sua vez, tem como acionista a Naves, uma sociedade financeira detida maioritariamente pela... escola superior afeta ao Opus: a AESE.
Confrontada pelo DN, Zita Seabra mostrou-se indignada com estas ligações, classificando-as como "insinuações" ao mesmo tempo que recusou explicar a ligação ao Opus Dei. Considerou as questões como "jornalismo de sarjeta", afirmando que a VRI nada tinha que ver com a AESE nem com o Opus Dei. Os sites e documentos oficiais da Naves e da AESE dizem o contrário. Fonte oficial do Opus Dei confirmou igualmente que Zita Seabra já participou em eventos da obra.
Em sentido inverso, o deputado do CDS João Rebelo deixou de ser cooperador do Opus Dei em 2002, por "questões pessoais de fé". Sobre os anos em que colaborou diz "só ter as melhores memórias". E acrescenta: "Conheci pessoas extremamente inteligentes, com quem ainda hoje mantenho uma boa relação." Os cooperadores não estão obrigados ao celibato nem a todos os rituais, mas participam em eventos e missões da obra.
Em situação idêntica está o histórico do CDS e antigo número dois da AR, Narana Coissoró, que apesar de pertencer à religião hindu ainda hoje é cooperador do Opus Dei - condição que permite que fiéis de outras religiões participem nas atividades. A ligação de Narana Coissoró começou através da filha, Smitá, que tem inclusive um cargo dirigente: vice-secretária da assessoria regional do Opus Dei Portugal.
Ao DN, Narana Coissoró explicou que, enquanto "mero cooperante", é "mais um amigo. O meu contributo é dar lições, dar palestras, quase sempre sobre o Oriente e a Índia nas instituições ligadas à obra". Narana Coissoró rejeita a existência de qualquer ideia de obscuridade associada à prelatura. "É falso. Chamam-lhe a maçonaria branca, mas não é nenhuma maçonaria. Não é secreta. Não tem mandamentos. Não tem graus", justifica.
João Rebelo partilha a mesma opinião e considera que a comparação é sinónimo de ignorância, evidenciando uma diferença: "Se for a uma missa dada por um sacerdote do Opus Dei ninguém lhe nega a entrada, mas não o deixarão certamente ir a uma sessão da maçonaria."
Rui Pedro Antunes
No Diário de Notícias
Veja também: Os segredos do Opus Dei - Grande Investigação - I
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