16 de fev de 2013

Os segredos do Opus Dei - Grande Investigação - I

Opus Dei nas finanças do Governo e com força na banca
Mais seis mil membros só na última década
O Opus Dei está hoje presente em todos os continentes e continua a crescer. A sua legitimidade na Igreja tem vindo a tornar-se cada vez mais sólida. Apesar de a organização procurar ser um exemplo de moralidade, já foi envolvida em escândalos de corrupção. Tem membros poderosos, entre os quais se inclui um antigo n.º 1 do FBI.
O Opus Dei não para de crescer um pouco por todo o mundo. Na última década, a prelatura ganhou mais de seis mil membros - a um ritmo de mais de 600 adesões por ano - e instalou-se em seis novos países. Indonésia, Roménia e Coreia do Sul foram os últimos a receber a obra, que conta com 90 260 membros espalhados por 66 países.
O crescimento do Opus Dei tem sido sempre gradual e sustentado desde que a 2 de outubro de 1928, durante um retiro em Madrid, Josemaría Escrivá de Balaguer, por "inspiração divina", decidiu fundar o Opus Dei. Houve, no entanto, uma travessia no deserto até a obra se conseguir afirmar na Igreja Católica, onde sempre teve - e continua a ter - críticos.
A procura de influência junto do Vaticano começou quando Josemaría Escrivá de Balaguer estabeleceu a sua residência em Roma, em 1946. Apesar disso, manteve a sua força em Espanha, que dura até aos dias de hoje. Atualmente, cerca de 38% dos membros do Opus Dei (35 mil) são espanhóis. Aliás, os três líderes da obra desde a sua criação nasceram todos na Espanha (Balaguer, Portillo e Echevarría).
O Opus Dei tem também grande representação nos EUA, onde o poder está centralizado numa sede nacional em Manhattan, na esquina da Lexington Avenue com a 34.ª Avenida. O edifício, batizado com o nome de Murray Hill Place, acabou de ser construído em 2001 e custou 52,8 milhões de euros, suportados - garante o Opus Dei - apenas por donativos.
É também conhecida a influência do Opus Dei na América Latina, onde membros da obra terão sido preponderantes no derrube do regime socialista de Salvador Allende, no Chile. Aliás, a história também influencia as visões negativas que hoje se tem da obra. O professor norte-americano Brian Smith, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA), afirma no livro A Igreja e a Política no Chile que os membros do Opus Dei "estavam entre os principais administradores do brutal e opressivo regime militar do general Pinochet".
A obra também é historicamente associada ao ditador espanhol Francisco Franco. E percebe-se porquê: oito membros do Opus Dei foram ministros em Governos de Franco. Porém, pouco depois do Maio de 68, Rafael Calvo Serer, numerário, meteu-se em problemas com o regime quando escreveu um artigo dizendo que Franco deveria "retirar-se a tempo". Aí teve de ser Balaguer a interceder e a pedir a Franco que deixasse Calvo Serer partir para o exílio.
Os escândalos financeiros
Outra das páginas que mancham a história do Opus Dei são os escândalos "Matesa" e "Rumasa". A Matesa era uma empresa ligada à indústria têxtil, com sede no País Basco e criada em 1956. Gerida por Juan Vila Reyes - alegado membro da obra, formado na escola de finanças do Opus Dei em Barcelona -, a empresa terá lesado o Estado espanhol em mais de dez mil milhões de pesetas, metade dos quais resultado de um empréstimo fraudulento para comprar maquinaria. O que nunca aconteceu. O problema é que a fraude - que levou ao despedimento de mais de duas mil pessoas e lesou os cofres públicos castelhanos - não impediu Reys de fazer donativos de 2,4 mil milhões de pesetas à obra.
Um ano depois de o papa João Paulo II ter tornado o Opus Dei na única prelatura pessoal da Igreja Católica, a obra viu-se novamente envolta num escândalo. Em 1983, o grupo espanhol Ramasa, que controlava diversos bancos, faliu, sendo o seu presidente José Maria Ruiz-Mateos, membro do Opus Dei. A Ramasa tinha um passivo superior a mil milhões de libras, para o qual terão contribuído doações, como uma de sete milhões de libras que alegadamente foi feita a um instituto de educação do Opus Dei no arquipélago normando.
Nos dois casos, as próprias autoridades identificaram ligações ao Opus Dei. Existem outras acusações (nunca confirmadas) de que o Opus controla as finanças do Vaticano através de sociedades offshore. Os críticos acusam até a obra de ter "comprado" a influência de que goza no Vaticano. Recorde-se que o Opus Dei - que inclui a Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz - conta com 36 bispos, dos quais 21 pertencem à cúpula de sacerdotes da obra e 15 são diocesanos.
Embora a maioria dos mais de 90 mil membros seja composta por cidadãos comuns, existem no Opus figuras conhecidas em diversas áreas ao nível mundial. Na política destacam-se o ex-presidente da Polónia, Lech Walesa, o antigo primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti, o antigo presidente da Comissão Europeia Jacques Santer ou o antigo presidente do Parlamento Europeu Gil Robles. Ainda na política, o candidato às primárias republicanas do último ano, Rick Santorum, também tem ligações ao Opus Dei, tal como o atual ministro do Interior de Mariano Rajoy, Jorge Fernandéz Diaz.
No desporto, destacam-se nomes como o do antigo treinador do Benfica e atual selecionador da Irlanda, Giovanni Trapatonni, ou o antigo presidente do Comité Olímpico Internacional Juan Samaranch. A lista é tão vasta que até o poderoso FBI já foi dirigido por um membro do Opus Dei: Louis Free (nomeado por Clinton em 1993, só saiu do cargo meses antes do 11 de Setembro, já durante o mandato de Bush "filho").
Rui Pedro Antunes
No Diário de Notícias
Veja também: Os segredos do Opus Dei - Grande Investigação - II - III - IV - V - VI - VII - VIII  - IX
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Charge online - Bessinha - # 1697

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Nanopolímeros repelem líquidos e óleo das superfícies

A empresa Ultra Tech International Inc. criou um produto feito com nanopolímeros impermeabilizantes. Chamado de Ultra Ever Dry, a invenção chama a atenção porque repele qualquer líquido, evita corrosão e contaminação.
Segundo a empresa, o produto é super-hidrofóbico e oleofóbico, ou seja, afasta água e óleo. Ele usa uma nanotecnologia própria para cobrir um objeto e criar uma barreira de ar. Isso o torna capaz de repelir completamente qualquer líquido.
A fabricante fez um vídeo. Em uma rápida sequência, é possível ver o teste do produto em vários tipos de materiais, como água, óleo e lama. O Ultra Ever Dry sai limpo em todas as experiências. O vídeo sugere que o usuário use equipamento de proteção individual, como óculos e luvas, que também são vendidos pela empresa.
O produto funciona entre -34°C a 149°C. Nessas temperaturas, ele adere em materiais como aço, metais, plásticos, couro, tecido, madeira, concreto, entre outros.
O fabricante explica que o produto funciona com um sistema de duas partes vendidas separadamente: a cobertura básica e a cobertura de topo. Para funcionar, as duas precisam ser aplicadas. Porém, a empresa não esclarece por quanto tempo a superfície que recebe o produto permanece protegida.
Veja o vídeo abaixo:
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Gurgel investiga senador Petecão por omitir bens. Por que não Alvaro Dias, que fez o mesmo?

Os senadores Álvaro Dias (PSDB-PR), o ex-senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO),
e Pedro Taques (sentado) na fila de cumprimentos, após sabatina para reconduzir o
Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, ao cargo.
O Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel abriu o inquérito 3598 no Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar a omissão de bens do senador Sérgio Petecão (PSD-AC), em sua declaração à Justiça Eleitoral.
Segundo o PGR, Petecão escondeu a propriedade de duas casas lotéricas, lotes de terra, 480 cabeças de gado e uma casa.
A situação é a mesma do senador milionário Alvaro Dias (PSDB-PR), que escondeu da Justiça Eleitoral aplicações de R$ 6 milhões, nas eleições de 2006. No fim do ano passado, uma disputa patrimonial promovida por um filha fora do casamento, revelou uma fortuna de R$ 16 milhões do senador tucano, até então desconhecida pelo eleitor.
Por que Gurgel não denunciou Alvaro Dias, também?
Coincidentemente o senador tucano declarou, na quinta-feira (14), ser contra qualquer interpelação sobre Gurgel pelo Senado, mesmo depois do sinistro engavetamento pelo PGR da Operação Vegas da Polícia Federal, o que permitiu à organização do bicheiro Carlinhos Cachoeira continuar operando ao longo de 2010 e 2011, sem ser incomodada.
ZéAugusto
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Expressão “Deus seja louvado" poderá ser obrigatória em cédulas do Real

Eduardo da Fonte
Eduardo da Fonte afirma que frase
respeita "tradição cultural" do brasileiro.
Proposta em tramitação na Câmara torna obrigatória a impressão da frase "Deus seja louvado" em todas as cédulas do Real. O autor, deputado Eduardo da Fonte (PP-PE), argumenta que o Projeto de Lei 4710/12 pretende evitar que a expressão seja suprimida das cédulas, como solicitou recentemente a Procuradoria da República em São Paulo.
Na ação civil pública, apresentada em novembro último, o Ministério Público Federal aponta que não há previsão legal para a inclusão da frase nas notas do Real e que o Estado brasileiro é laico e deve se desvincular de manifestações religiosas. Além disso, para o MP, a expressão privilegiaria uma religião em detrimento das outras.
Eduardo da Fonte, no entanto, entende que há um erro de interpretação da palavra “laico”. Ele afirma que Estado laico é aquele que não adota uma religião oficial e no qual há separação entre a Igreja e o Estado, de modo que não haja envolvimento entre os assuntos de um e de outro, muito menos sujeição de um em relação ao outro.
“A expressão ‘Deus seja louvado’ respeita a tradição cultural de nosso povo e não necessariamente representa apoio a nenhuma religião”, argumenta. “O respeito e o culto a um ser supremo, que representa a divindade, está presente em todas as religiões”, completa Da Fonte.
O projeto altera a Lei 9.069/95, que, entre outras medidas, estabelece regras e condições para a emissão do Real.
Tramitação
O projeto será analisado de forma conclusiva pelas comissões de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.
Íntegra da proposta:
Murilo Souza
No Agência Câmara de Notícias
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Renúncia do papa não deverá mudar perfil conservador da Igreja Católica

Para Frei Betto, Bento XVI será o principal cabo eleitoral no conclave da sucessão
Renúncia do papa não deverá mudar perfil conservador da Igreja Católica
Bento XVI atribuiu sua retirada à idade avançada; na sucessão, em março, 
118 cardeais têm direito a voto
(Foto: Alessandro Bianchi/Reuters
A saída do papa Bento XVI e a eleição de seu sucessor não devem apontar para mudanças significativas na postura conservadora da Igreja Católica. "Ele vai ser o principal cabo eleitoral do conclave na sucessão. Então não vão eleger ninguém que não seja do seu agrado. Ele mesmo vai soprar dois ou três nomes", avalia o teólogo e escritor Frei Betto. "Seja quem for eleito, vai depender dele enquanto ele estiver vivo. Nós só vamos conhecer o novo papa depois que Bento XVI morrer. Porque jamais o sucessor ousará desagradá-lo."
Na opinião do professor Jorge Claudio Ribeiro, do Departamento de Ciências da Religião da PUC de São Paulo, as mudanças são uma questão de sobrevivência para a Igreja Católica. “Ou a Igreja muda ou se tornará irrelevante, por dois motivos: vai perder a credibilidade e por causa disso vai perder fiéis. Já está perdendo, mas vai perder definitivamente”, analisa Ribeiro. Para ele, especulações sobre se o papa será ou não da América do Sul, por exemplo, ser negro ou branco, são irrelevantes diante de algo mais importante. “O que precisa é alguém com olhar atento e amoroso para as pessoas. Não tem cabimento um papa reprovar a homossexualidade nos dias de hoje. Onde é que tem na Bíblia que Jesus reprovava?”
Mas o conservadorismo, uma das marcas de Bento XVI, não abandonará o Vaticano após o conclave que elegerá o novo papa em meados de março. O papa renuncia, mas manterá o poder, acredita Frei Betto. Não haverá mudanças em questões como celibato, participação das mulheres na Igreja, reconhecimento do casamento entre homossexuais e outras. “Tudo isso vai continuar fechado enquanto Bento XVI estiver vivo. Mesmo que o novo papa esteja disposto a abrir o debate sobre essas questões”, arrisca o frade dominicano, que acha difícil apontar favoritos entre os cardeais na sucessão, à medida que o atual papa manterá sua influência. “Isso tudo é especulação. Mas eu acredito que vai ser um europeu, porque Bento XVI vai ser o principal cabo eleitoral. E a minha avaliação é que ele não escolherá um não-europeu.”
Fatores da renúncia
Para Frei Betto, embora a renúncia seja, “primeiro, um grande gesto de humildade, o que para Igreja é muito importante”, há também fortes motivações políticas para a atitude de Bento XVI. “Acho que é o resultado não só do estado de saúde dele e da idade avançada, mas de outros cinco fatores: os casos de pedofilia na Igreja, a corrupção no banco do Vaticano, o vazamento de documentos sigilosos, a traição do mordomo e o desgaste da Igreja Católica na Europa.” Como exemplo desse desgaste, o escritor diz que em países como Bélgica e Holanda, por exemplo, são realizados seminários que ficam praticamente vazios.
Segundo o próprio papa, o motivo principal foi sua saúde e idade avançada. “Cheguei à certeza de que, pela idade avançada, já não tenho forças para exercer adequadamente o ministério petrino”, disse ele no comunicado em que tornou pública a renúncia, na última segunda-feira (11).
Entre os atuais 209 cardeais da Igreja Católica, 118 têm direito a voto (ainda não têm 80 anos). Cinco são brasileiros: Geraldo Magella, arcebispo emérito de Salvador; Raymundo Damasceno, cardeal-arcebispo de Aparecida; João Braz Avis, ex-arcebispo de Brasília, atual prefeito da Congregação para a Vida Consagrada; Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo; e Odilo Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo. Bento XVI deveria vir ao Brasil em julho, para a Jornada Mundial da Juventude.
No Rede Brasil Atual
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Bento XVI: já vai tarde

A renúncia do papa evidencia a exaustão histórica de uma burocracia planetária, incapaz de administrar democraticamente suas divergências, cada vez mais afunilada pela disputa de poder entre as várias facções direitistas.
Inspirada em várias fontes, eis algumas reflexões (e revelações para quem não sabe) sobre a renúncia de Beto XVI: um mix de dinheiro, poder e sabotagens, corrupção, espionagem, escândalos sexuais – a presença ostensiva desses ingredientes de filme de terror no noticiário constituía o dia-a-dia do Vaticano.
Tal frequência e a intensidade anunciavam algo nem sempre inteligível ao mundo exterior: o acirramento da disputa sucessória de Bento XVI nos bastidores da Santa Sé. Desta vez, mais do que nunca, a fumaça que anunciará o “habemus papam” refletirá o desfecho de uma fritura política de vida ou morte entre grupos radicais de direita na alta burocracia católica.
Mais que de saúde, razões de Estado teriam levado Bento XVI a anunciar a renúncia de seu papado.
A verdade é que a direita formada pelos grupos da Opus Dei foi o muro de arrimo deste Bento – no Brasil, sobretudo gente do PSDB como o jurista Ives Gandra, o jornalista Carlos Alberto di Franco, este, aliás, mentor do governador Geraldo Alckmin na organização. O falecido bispo de Guarulhos, D. Luiz Bergonzini, que serviu como cabeça-de-turco de Serra na campanha de 2010, acusando Dilma de “aborteira” em panfletos com assinatura falsa da CNBB, era igualmente vinculado à extrema direita católica. O ex-chefe da Casa Civil do governo de São Paulo Sidney Beraldo, agora no TCE, apontado então como um tucano com fortes vínculos junto a D. Bergonzini; ambos conterrâneos de São João da Boa Vista, onde Beraldo foi prefeito e Bergonzini nasceu e atuou.
A revista Época, pertencente às Organizações Globo, documentou na reportagem “O governador e a Obra” a iniciação do tucano Geraldo Alckmin na Opus Dei. Aliás, a revista IstoÉ também fez um ilustrativo mapeamento dos vínculos entre tucanos e os responsáveis pelo panfleto anti-aborto da extrema direita religiosa, em 2010.
Na União Européia, os “Legionários” e a “Comunhão e Libertação” (este último ligado ao berlusconismo) já haviam precipitado o fim do seu papado nos bastidores do Vaticano. Sua desistência oficializa a entrega de um comando de que já não dispunha. Devorado pelos grupos dos quais inicialmente tentou ser o porta-voz e controlar, Bento XVI jogou a toalha.
O gesto evidencia a exaustão histórica de uma burocracia planetária, incapaz de administrar democraticamente suas divergências, cada vez mais afunilada pela disputa de poder entre as várias facções direitistas, cuja real distinção resume-se ao calibre e volume das armas disponíveis na guerra de posições: ironicamente, Ratzinger foi a expressão brilhante e implacável dessa engrenagem comprometida.
Quadro ecumênico da teologia, inicialmente um simpatizante das elaborações reformistas de pensadores como Hans Küng (vide seu perfil feito por José Luís Fiori na Carta Maior), Joseph Ratzinger escolheu o apoio da direita para galgar os degraus do poder interno no Vaticano.
Em meados dos anos 70/80, ele consolidaria essa comunhão emprestando seu vigor intelectual para se transformar em uma espécie de Joseph McCarthy do fundamentalismo católico. Foi assim que exerceu o comando da temível Congregação para a Doutrina da Fé. À frente desse arremedo da Santa Inquisição, Ratzinger foi diretamente responsável pelo desmonte da Teologia da Libertação.
O teólogo brasileiro Leonardo Boff, um dos intelectuais mais prestigiados desse grupo, dentro e fora da igreja, foi um dos seus alvos: advertido, punido e desautorizado, seus textos foram interditados e proscritos. Por ordem direta do futuro papa. Antes de assumir o cargo supremo da hierarquia, Ratzinger “entregou o serviço” cobrado pelo conservadorismo.
Tornou-se mais uma peça da alavanca movida por gigantescas massas de forças que decretariam a supremacia dos livres mercados nos anos 80; a derrota do Estado do Bem Estar Social; o fim do comunismo e a ascensão dos governos neoliberais em todo o planeta. Não bastava conquistar Estados, capturar bancos centrais, agências reguladoras e mercados financeiros, era necessário colonizar corações e mentes para a nova era.
E dá-lhe pedofilia por debaixo dos paramentos sacrossantos!
Sob a inspiração de Ratzinger, seu antecessor, João Paulo II, liquidou a rede de dioceses progressistas no Brasil, por exemplo. As pastorais católicas de forte presença no movimento de massas foram emasculadas em sua agenda “profana”. A capilaridade das comunidades eclesiais de base da igreja ficou restrita ao catecismo convencional e, naturalmente, à Nova Carismática e o nunca por demais esquecido Padre Marcelo Rossi (cruzes!).
Ratzinger recebeu o Anel do Pescador em 2005, no apogeu do ciclo histórico que ajudou a implantar. Durou pouco. Três anos depois, em setembro de 2008, as finanças do conservadorismo sofreriam um abalo do qual não mais se recuperaram.
Resta desde então a imensa máquina de desumanidade que o Vaticano ajudou a lubrificar neste ciclo – como já havia feito em outros, é só invocar a História, a começar do que resta na memória popular de Papas como Rodrigo Borgia, ou Alexandre VI, com reputação de cruel e devasso, que nomeou o próprio filho Cesare Borgia, além de muitos outros parentes, como cardeais; de Júlio III, a nomeação como cardeal-sobrinho do amante de 17 anos, Innocenzo, sem esquecer Pio XII, contemporâneo do nazismo e aliado de Hitler, graças a quem subiu ao poder, ficando indelevelmente marcado por essa aliança e total “cegueira” e silêncio ultrajantes quanto ao Holocausto.
Fome, exclusão social, desolação juvenil não são mais ecos de um mundo distante. Formam a realidade cotidiana no quintal do Vaticano, em uma UE destroçada para a qual a Igreja Católica não tem mais nada a dizer há séculos. Sua tentativa de dar uma dimensão terrena ao credo conservador perdeu qualquer sentido perante a crise social devastadora.
Será lembrado (ou esquecido) como o Papa dos ricos e pedófilos.
Vade retro, Satanás!
Ou melhor: já vai tarde.
Márcia Denser
No Blog do Saraiva
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Rede Globo censura homenagem a Dilma

Durante a transmissão do desfile da escola paulista Nenê de Vila Matilde, a Rede Globo ignorou a ala de homenagem à presidenta Dilma Rousseff. A decisão da emissora gerou protestos pelas redes sociais que, em contrapartida, exigem a imediata regulamentação dos meios de comunicação no Brasil. A Nenê de Vila Matilde foi a primeira a desfilar no segundo dia (8) do carnaval paulista. A escola homenageou as lutas populares com o enredo "Da Revolta dos Búzios à atualidade. Nenê canta a igualdade".
No Facebook, Marco Costenaro, mostrou o que a Globo censurou durante a cobertura do desfile da escola: “Este vídeo (acima) é do desfile da Nenê de Vila Matilde que homenageia a presidenta Dilma e não foi mostrado e citado na transmissão da Rede Globo”.
“Por isso defendemos a regulação da mídia para ampliarmos o direito a liberdade de expressão e combater o monopólio das empresas que comercializam informação, entretenimento e conteúdo midiático e são concessionárias públicas”, escreveu.
Para o internauta, “a censura só existe de um lado, do lado dos grupos empresariais comandando pelas ‘famílias’ Frias, Civita, Marinho e Mesquita, que decidem o que vc vai ver, ouvir e saber”.
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“A Globo quer derrubar Dilma Rousseff”

 
Paulo Henrique Amorim nasceu no Rio de Janeiro em 1942. Formado em jornalismo, entrou logo para a carreira e teve lugar de destaque nos lugares em que trabalhou. Em 1961, fez uma grande cobertura quando o então presidente Jânio Quadros renunciou à presidência e o governador Leonel Brizola mobilizou soldados, para garantir a posse do vice João Goulart. Esses dias, que marcaram fortemente a história moderna do Brasil, foram acompanhados e divulgados pelo renomado jornalista. Nos anos 70, o jornalista fazia muitas coberturas internacionais, como o Escândalo Watergate, a Crise dos Mísseis de Cuba, o fim da União Soviética, a queda do Muro de Berlim, os conflitos de Kosovo e Sarajevo. Por muitos anos ele foi um dos apresentadores mais importantes da Rede Globo de Televisão. E também colaborador da Revista Veja. Paulo Henrique abriu sucursais, para esses dois veículos, em Nova Iorque e Londres. Entre os anos de 1997 e 1999, ele esteve na TV Bandeirantes, apresentando o “Jornal da Band” e o programa “Fogo Cruzado”. Entre 2001 e 2003, esteve na TV Cultura, onde apresentou o “Conversa Afiada”. Em 2003 mudou-se para a TV Record, onde apresentou os programas ”Edição de Notícias” e “Tudo a Ver”. Em fevereiro de 2006, passou a apresentar a revista eletrônica “Domingo Espetacular”, onde ainda está. PHA (como é conhecido nas rodas jornalísticas) tem um blog de sucesso de público e crítica na internet chamado “Conversa Afiada”. Nele o carro-chefe são os comentários originais sobre política. Figuras como ex-governador de São Paulo José Serra, apelidado de Padim Pade Cerra pelo jornalista, são combatidos sem dó e nem piedade pela publicação online. Em 2005, publicou em conjunto com a jornalista Maria Helena Passos o livro:”Plim-Plim: A peleja de Brizola contra a fraude eleitoral”, um livro reportagem sobre o Caso Proconsult, uma tentativa de fraudar as eleições para governador do Rio em 1982 . Na entrevista a seguir, nos chama muita atenção, a reposta de PHA sobre o novo presidente do Senado Federal, Renan Calheiros, quando o mesmo diz que a grande imprensa, apelidada pelo deputado federal do PT de Pernambuco Fernando Ferro, e popularizada por ele de PiG ou Partido da Imprensa Golpista, quer destruir o alagoano de qualquer maneira.
Panorama Mercantil - O senhor é um dos jornalistas mais experientes do país, conhecendo bem o funcionamento de vários veículos de comunicação do Brasil. Com essa bagagem toda, pode afirmar que existe liberdade de imprensa ou isso é uma grande utopia?
Paulo Henrique Amorim - É uma utopia. A liberdade de imprensa é dos donos da imprensa. Liberdade de expressão – que é outra coisa, mais ampla, mais profunda – só na blogosfera.
Panorama - Como enxerga o jornalismo que é feito por aqui comparando com outras nações como por exemplo a Argentina, que muitos consideram ter uma imprensa mais qualificada e diversificada do que a nossa?
PHA - A imprensa brasileira é sofrível. É a pior das “jovens democracias”, como a Argentina, Portugal, Espanha. Só no Brasil ainda tem “coluna social” ilustrada e em nenhum outro lugar do mundo há mais colunas do que reportagens, como aqui.
Panorama - Todo mundo sabe que a obsessão do líder da Igreja Universal Edir Macedo, é fazer a Rede Record ser a emissora número um do país. O senhor é uma das estrelas da emissora, acha que isso será possível enquanto tempo, já que a Globo ainda é líder com uma margem considerável mesmo perdendo muito da sua audiência nos últimos tempos?
PHA - A Globo é um tigre de papel (Expressão antiga da cultura chinesa, muito usada pelo líder chinês Mao Tsé-tung para qualificar o seu rival Chiang Kai-shek. Seria algo que parece ameaçador mas que na verdade é inofensivo). Especialmente o seu jornalismo.
Panorama - O deputado Federal do PT pelo estado de Pernambuco Fernando Ferro, criou a sigla PiG (Partido da Imprensa Golpista) que o senhor popularizou. Claramente quem são os membros do PiG e se eles hoje são a verdadeira oposição política do país?
PHA - As Organizações Globo, a revista Veja, que chamo de detrito sólido de maré baixa, e os jornais Estadão e Folha de S.Paulo. E seus penduricalhos – portais na internet, revistas, rádios etc. Sim, eles são uma parte importante da oposição.
Panorama - O senhor afirmou em setembro de 2007 que a absolvição do senador alagoano Renan Calheiros, foi a maior derrota da imprensa brasileira depois da reeleição do presidente Lula. Continua com a mesma opinião? E se continua, nos explique porque chegou a tal conclusão?
PHA - Porque, como agora, em janeiro de 2013, o PiG quer destruir o Renan, pelo fato de ele ser da base da presidenta Dilma Rousseff. Quando era Ministro da Justiça do FHC, Renan era um santinho do pau oco.
Panorama - Quando alguns dizem que o senhor é um jornalista vendido ou melhor, um jornalista governista, não fica ofendido com isso?
PHA - Quem disse isso foi processado (O ex-colunista polêmico da revista Veja Diogo Mainardi), me deve R$ 300 mil e fugiu para a Itália.
Panorama - Por quê o senhor acredita que grande parte da imprensa, tenta desqualificar o ex-presidente Lula, mesmo ele tendo sido reeleito e saído da presidência com uma aprovação popular elevadíssima?
PHA - Por preconceito racial e de classe. Porque ele é de origem pobre e nordestino – duas circunstâncas que põem fogo no rabo dos “liberais” brasileiros.
Panorama - O senhor acredita que uma parte da imprensa boicotou o livro ‘A Privataria Tucana’ do jornalista Amaury Ribeiro Jr, para não prejudicar o então candidato a prefeitura de São Paulo José Serra?
PHA - Sim. O Cerra, Padim Pade Cerra (Aqui trocando o S pelo C como faz intencionalmente em seu blog), devido à sua tardia conversão à Fé, tem o melhor PiG do Brasil. Ele pode fazer qualquer coisa – inclusive chefiar o clã Privateiro – que o PiG perdoa.
Panorama - Dilma Rousseff foi derrotada pela Globo?
PHA - Ela e o Lula ganharam. Mas, se ficarem quietos, ela pode vir a ser derrubada. A Globo quer derrubá-la, como ajudou a matar Vargas e a derrubar Jango. Só não derrubou o Lula porque foi mais esperto que ela.
Panorama - Qual a real força de um colunista de um veículo impresso atualmente perante aos leitores depois da popularização da internet e sobretudo dos blogs como o famoso e reconhecido Conversa Afiada que lhe pertence?
PHA - Os colonistas (Não se refere a cólon. Mas, a jornalistas que se prestam ao serviço de serem piores que os patrões, como diz o fundador da revista Carta Capital Mino Carta) do PiG fazem a agenda política. Imprensam o Congresso Nacional contra a parede e amedrontam o Governo. Não ajudam a ganhar eleição, mas ajudam a dar o Golpe.
Panorama - Muita gente diz que a qualidade editorial na era digital piorou, acredita que isso é um fato?
PHA - Piorar em relação à imprensa escrita é impossível.
Panorama - Muitos jornalistas que já entrevistamos nos dizem que a revista Veja é desonesta. Se ela é isso, porque continua sendo o farol da classe média, e a revista mais vendida do Brasil?
PHA - A Veja fala a língua de uma facção pré-fascista da classe média brasileira, especialmente a de São Paulo. Eles se entendem. Com a provisória interrupção das atividades do trio sertanejo Caneta-Cachoeira-Demóstenes, a Veja caiu muito – na visão desses Falangistas.
Panorama - Sabemos que foram muitas, mas nos fale de uma matéria em especial que o fez pensar: “Puxa, valeu escolher a profissão de jornalista”?
PHA - A que eu vou fazer amanhã.
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Cristo traído

Os varões da minha família eram fervorosamente anticlericais, as damas não perdiam a missa domingueira e muitas outras funções. O esquema é bastante comum na Itália. O derradeiro grande líder do Partido Comunista Italiano, Enrico Berlinguer, aos domingos levava mulher e filhas até a porta da igreja e dali saía para um passeio. Voltava para buscá-las.
João XXIII. único, autênticoe ousado reformador. Foto:
João XXIII. único, autêntico
e ousado reformador.
O anticlericalismo à moda peninsular tem origem na constante e imperiosa interferência eclesiástica na vida do país e de vários mais. A Igreja de Pedro sempre teve uma presença poderosa desde os tempos do Sagrado Romano Império, que precisava do seu endosso para vingar. Dentro da Itália, o papa dispôs de poder temporal, como dono de uma larga fatia do território, do VIII século ao XIX. Foi o tempo do papa-rei.
Para livrar-se dos inimigos, o pontífice nunca hesitou em convocar exércitos estrangeiros. Pela última vez quando Garibaldi enxotou Pio VII para o Vaticano e proclamou a República Romana em 1849. Desta vez, o papa convocou os franceses com um novo, revolucionário modelo de fuzil, e os garibaldini capitularam depois de seis meses de cerco. Vinte e um anos depois quem invadiu Roma foram os bersaglieri do rei piemontês. Mais uma vez o papa refugiou-se no Vaticano e a cidade se tornou capital da Itália unificada.
Tratou-se de um fecho temporário das guerras do Risogimento, destinadas a unificar a Península e a criar uma nação, encerradas finalmente com o conflito de 1914-1918 e a anexação de Trento e Trieste. O golpe de Mussolini levou em 1929 aos Pactos de Latrão, e a Igreja voltou a exercer um papel fortemente político durante o fascismo e mais ainda logo após. Dos púlpitos, de cardeais a párocos de campo fizeram propaganda a favor do Partido Democrata-Cristão e, portanto, da divisão do mundo em dois blocos antagônicos.
A interferência prosseguiu décadas adentro e hoje chega a se agudizar, tanto mais nestes dias de véspera eleitoral: a Itália vai às urnas no próximo dia 24. Os candidatos da direita e do centro conservador não perdem a ocasião para ajoelhar-se aos pés do altar e deglutir hóstias. É o momento em que o sangue anticlerical ferve. As questões em jogo, na Itália e no mundo todo, transcendem a fé, sincera ou não.
Vivemos uma época intelectualmente e moralmente pobre, instigada pelos avanços tecnológicos e arrepiada por demandas inovadoras em choque com a doutrina eclesiástica. De aborto a casamento gay. Enquanto isso, a Igreja de Pedro tenta em desespero impor seus vetos e se agarra aos dogmas, cada vez mais inviáveis à luz da razão. Nesta moldura, credos mais terrenos passam a representar uma concorrência maciça e desapiedada.
As feições atuais do renunciante Ratzinger mostram a gravidade e a tensão da luta. Em quase oito anos de pontificado, Bento XVI envelheceu como se tivesse decorrido o dobro. Não conhecemos os motivos determinantes da renúncia, mas admitamos que ele se sinta inadequado ao enfrentamento de uma situação tão complexa e obsedante como a atual, inquietada por divergências internas e surdos confrontos de bastidor. Não lhe faltam agora os elogios, assemelhados e epitáfios, e, em meio aos encômios, exalta-se a excelência do teólogo. Sejamos claros, não se trata de um Hans Küng, tampouco de um Carlo Maria Martini.
Se Martini tivesse sido o eleito em 2005, é plausível supor que algo teria mudado no sentido da contemporaneidade. Ratzinger limitou-se a confirmar o passado, o qual remonta à época em que, oficializada a religião, consumou-se a traição à palavra de Jesus. Arrisco-me a dizer, sem temer o Inferno, que o verdadeiro Judas é a própria Igreja, poder igual aos outros, humanos e não divinos, muito mais duradouro e fortalecido sempre e sempre pela carência experimentada pelo homem diante do mistério indecifrável.
Na história, e até na hagiografia, há inúmeros papas hipócritas, tirânicos e devassos. Há, também, estadistas. João Paulo II foi um deles, em proveito de seu abrangente Estado, sem atentar para a lição de igualdade e amor pregada por Cristo, e sem respeito pela mais exaltante das virtudes teologais, a caridade. Voltado integralmente às tarefas de senhor de um poder terreno. Se vieram à tona escândalos como a dos padres pedófilos, useiro e vezeiro, foi porque não houve como continuar a escondê-los. E nem se diga o quanto Wojtyla foi decisivo, pela mão de certo monsenhor Marcinkus, na definição dos alcances do IOR, o Banco do Vaticano, Instituto das Obras da Religião, a entender que obra da religião é também a reciclagem de dinheiro mafioso.
Figura ímpar, entre os pontífices recentes, João XXIII, o campônio Roncalli, um reformador encarado como subversivo pelos cinco anos do seu pontificado. Impossível imaginar o desempenho do papa Luciani, João Paulo I. Durou na cátedra de Pedro por um mês e morreu durante a noite, depois de tomar uma chávena de chá. Sobre o seu criado-mudo havia apontamentos a respeito das atividades do monsenhor Marcinkus. Banqueiro de Deus, dizia-se então.
Mino Carta
No CartaCapital
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As usinas de Fernando Lyra

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Um leitor, em comentário sobre a morte de Fernando Lyra, identificou-o como “usineiro”. Nada o teria feito rir melhor. Há Lyras e Lyras no nordeste. Fernando procedia de família de pequenos agricultores de Lagoa do Gato, um dos lugares mais pobres do Agreste. Seu pai, ao deixar a região, fez-se modesto empresário. Com o tempo seus negócios cresceram e permitiram a Fernando formar-se em direito em Caruaru. Essa origem de classe, associada a outras virtudes suas, fizeram-me admirador e amigo de Lyra nos últimos trinta anos – títulos que compartilho com centenas de outras pessoas.
A notícia de sua morte chegou-me em hora pessoal já amarga: acabara de sepultar a mãe de Wania, minha mulher, em Belo Horizonte, o que me tocara fundamente, por ter sido, contra o lugar comum, uma amiga muito querida há 54 anos.
Em seguida à notícia, comentamos, o médico Aloizio Costa e Silva e eu, a esfuziante personalidade de Fernando Lyra, como a ele se referiu, em minha presença, o professor Affonso Arinos de Mello Franco. Todos admiravam a capacidade política do parlamentar pernambucano, fosse como analista dos movimentos históricos, que o faziam antecipar os fatos, fosse como o articulador que conseguia submeter as circunstâncias aos seus projetos – todos eles em favor da nação e de nosso povo. Essas eram as usinas que Lyra sabia administrar.
É bom repetir que os pernambucanos, os gaúchos e os mineiros – sem desmerecer o patriotismo dos outros brasileiros – tiveram o privilégio histórico de comprometer-se mais com a construção da nacionalidade. Em Guararapes nasceu a própria idéia de Nação, e nação mestiça, com a aliança de índios, negros e brancos, que expulsou os holandeses; coube ao Rio Grande riscar, com sangue, a fronteira meridional, em 300 anos de refregas com os castelhanos; em Minas, ferida em suas entranhas para a extração do ouro e gemas, nasceu a consciência do Estado para garantir a soberania nacional. Não é por acaso que essas três grandes províncias tenham sido aliadas nos momentos mais fortes de nossa história ainda curta.
Fernando via essa aliança necessária, com seu instinto de animal político, sem as construções demoradas do pensamento acadêmico. Ele quase a sentia na pele. Talvez tenha sido essa consciência poderosa que o levou a Belo Horizonte, no momento mesmo da posse de Tancredo, como governador de Minas, a fim de instá-lo a disputar a presidência da República. Fernando, no livro que escreveu sobre esses fatos, e que tive a alegria de prefaciar, disse acreditar que Tancredo não queria a chefia do Estado.
Nisso, ele se equivocava: Tancredo chegara ao Palácio da Liberdade convencido de seu dever de dar um fim à Ditadura e presidir à reconstrução do Estado Republicano, mediante a aglutinação do centro político. A leitura de seu discurso de posse, a partir da frase inicial – O primeiro compromisso de Minas é com a liberdade – não deixa dúvida. Tratava-se de claro manifesto de ação política.
Isso não diminui, em nada, os méritos de Lyra, que se empenhou, dia e noite, na luta pela vitória de Tancredo e na difícil missão que o mineiro lhe impusera, a de Ministro da Justiça da transição. Tancredo – que ocupara o mesmo cargo nas horas graves de 1954 – sabia que a esse Ministério, desde o Império, cabiam as tarefas mais duras da condução da política interna e da articulação com o Parlamento, hoje deslocadas para o gabinete presidencial. Lyra assim entendeu a missão e a cumpriu, com autoridade, diligência e sem jactância.
Ele soube assessorar-se de acadêmicos de sua confiança, como os professores José Paulo Cavalcanti Filho, Christóvam Buarque, Joaquim Falcão, Marcelo Cerqueira e Sigmaringa Seixas, dando ao Ministério talvez o mais importante suporte intelectual de sua história. Foi essa equipe que, sob a chefia do Ministro, cumpriu a corajosa decisão de Sarney, a de se desfazer da legislação autoritária do regime militar.
Recordo-me, pessoalmente, de um fato significativo. No minuto seguinte ao da posse no Ministério, Fernando mandou que os guardas armados das entradas do edifício se recolhessem às suas repartições. O Ministério se abria ao povo.
Ao cuidar da organização e administração da Comissão Arinos, como um de seus membros, ajudei Fernando nessa tarefa de que Tancredo, pessoalmente, nos encarregara. Foi assim que, a pedido do presidente eleito, convidamos o professor Arinos a chefiar o grupo. Foi quando o grande jurista se referiu “à esfuziante juventude” de Lyra, ao mesmo tempo em que manifestou o seu respeito à sabedoria de Tancredo em nomeá-lo para a pasta da Justiça.
Como amigo, sofro a perda de Fernando com quem conversava quase todas as semanas, e sempre sobre o Brasil. Como cidadão, lamento a sua falta nesses próximos e atribulados meses do processo sucessório que já se abriu. Ele saberia construir a aliança necessária entre as lideranças regionais, em favor da democracia brasileira.
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