15 de fev de 2013

Guido aposta no road-show e quer ficar até o fim

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Ao completar dez anos no governo federal, o ministro  da Fazenda Guido Mantega faz planos para ficar até o final do governo de Dilma Rousseff e nem passa pela sua cabeça a ideia de deixar o cargo para ser candidato a governador de São Paulo, como alguns jornais andaram especulando.
Guido já está na Fazenda há sete anos (antes, foi ministro do Planejamento e presidente do BNDES) e tem pela frente agora o seu maior desafio: fazer a economia brasileira voltar a crescer entre 3,5% e 4% este ano, como é o desejo de Dilma, um trunfo fundamental para a campanha da presidente à reeleição.
No próximo ano, se tudo der certo, Guido baterá o recorde de permanência no Ministério da Fazenda, atualmente de Pedro Malan, que ficou no cargo durante os oito anos do governo FHC.
Para alcançar este objetivo, a grande aposta do ministro agora é o road-show planejado pelas principais capitais mundiais para "vender o Brasil", e atrair novos investimentos estrangeiros, que no ano passado chegaram a US$ 60 bilhões. Em Moscou, onde está no momento participando da reunião do G-20, ele já começou este trabalho.
As medidas tomadas para baixar juros, impostos, tarifas de energia e folhas de pagamento do governo e das empresas, o chamado "custo Brasil", serão os principais argumentos usados por Guido Mantega para atrair investidores, em especial para as áreas de infra-estrutura.
Outros trunfos do ministro serão o equilíbrio das contas públicas, as mudanças no regime de concessões e o aumento da corrente de comércio exterior. Quando Guido assumiu a Fazenda, esta corrente, que soma importações e exportações, era de US$ 100 bilhões. Agora, já ultrapassou os US$ 500 bilhões.
Se Guido Mantega está com este pique todo e vontade de ir até o final do governo, e a presidente Dilma também quer que ele fique, podem tirar o cavalinho da chuva os especuladores que jogam na troca do ministro da Fazenda.
Dilma é Guido e não abre - e vice-versa.
Ricardo Kotscho
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As distorções na cobertura política

 
O pronunciamento em que a presidenta Dilma Rousseff anunciou oficialmente a redução das tarifas de energia elétrica, em rede nacional de rádio e televisão, no dia 23 de janeiro, provocou reação irada da oposição política, isto é, de partidos e da grande mídia.
Depois de meses vendo, ouvindo e lendo a monótona repetição diária do discurso adversário único da grande mídia, a população brasileira teve a oportunidade de ouvir da própria presidenta a posição oficial do governo. Algum contraditório foi finalmente apresentado, mesmo que para isso o governo tenha sido obrigado a recorrer às prerrogativas legais que lhe facultam a convocação de uma rede nacional de radiodifusão.
Além do fato em si – a redução das tarifas –, os trechos do pronunciamento que mais irritaram a oposição foram aqueles em que a presidenta identifica como precipitadas, desinformadas, sempre do contra e alarmistas as pessoas que desacreditaram não só da redução das tarifas de energia elétrica, mas também de outras políticas públicas implantadas no país, em contraposição ao time vencedor, que tem sido aquele dos que têm fé e apostam no Brasil. Disse ela:
Surpreende que, desde o mês passado, algumas pessoas, por precipitação, desinformação ou algum outro motivo, tenham feito previsões sem fundamento, quando os níveis dos reservatórios baixaram e as térmicas foram normalmente acionadas. Como era de se esperar, essas previsões fracassaram. (…) Cometeram o mesmo erro de previsão os que diziam, primeiro, que o governo não conseguiria baixar a conta de luz. Depois, passaram a dizer que a redução iria tardar. Por último, que ela seria menor do que o índice que havíamos anunciado. (…) Neste novo Brasil, aqueles que são sempre do contra estão ficando para trás, pois nosso país avança sem retrocessos, em meio a um mundo cheio de dificuldades. Hoje, podemos ver como erraram feio, no passado, os que não acreditavam que era possível crescer e distribuir renda. Os que pensavam ser impossível que dezenas de milhões de pessoas saíssem da miséria. Os que não acreditavam que o Brasil virasse um país de classe média. Estamos vendo como erraram os que diziam, meses atrás, que não iríamos conseguir baixar os juros nem o custo da energia e tentavam amedrontar nosso povo, entre outras coisas, com a queda do emprego e a perda do poder de compra do salário. (…) O Brasil está cada vez maior e imune a ser atingido por previsões alarmistas. Nos últimos anos, o time vencedor tem sido o dos que têm fé e apostam no Brasil. [Pronunciamento da presidenta da República sobre a redução da tarifa de energia elétrica].
Falar versus fazer
O episódio confirma uma das principais características da grande mídia brasileira: a distância abismal entre o que alardeia como bandeira sua e seu comportamento real.
É flagrante a ausência do “outro lado” na cobertura política que a grande mídia oferece, como já mencionado. Por exemplo: após o pronunciamento da presidenta, é extremamente significativo o quase silêncio em relação às “quedas de energia” que provocaram enormes paralisações em eventos da grandeza do Superbowl, nos Estados Unidos (New Orleans, em 3 de fevereiro), e na partida de abertura do torneio internacional de basquete da Liga das Américas, na Venezuela (Barquisimeto, em 8 de fevereiro). A omissão interessada substitui regras básicas de qualquer manual de redação.
Não se trata, evidentemente, apenas da questão da energia elétrica. Prevalecem pesos e medidas diferentes, dependendo do lado “político” envolvido.
A esse comportamento assimétrico soma-se a acusação de que o governo politizou a questão da energia elétrica. Trata-se de um descarado cinismo não reconhecer que o tema estava desde sempre politizado, e para apresentar (finalmente) sua posição o governo teria, necessariamente, de identificar a posição contrária – como bem o fez.
Aparentemente, a “carapuça” de precipitados, desinformados, sempre do contra e alarmistas encontrou seus destinatários e foi por eles assumida.
Basta cumprir a Constituição
No final das contas, a reação irada da oposição – partidos e grande mídia – ao pronunciamento da presidenta põe uma vez mais em evidência as enormes distorções que existem na cobertura política oferecida ao país.
A melhor forma de tratar esse problema é, simplesmente, cumprir o que há mais de 24 anos está escrito na Constituição.
A regulamentação do “princípio da complementaridade” (artigo 223) possibilitaria o fortalecimento dos sistemas estatal e público, alternativas ao sistema privado, hoje hegemônico. Além disso, impediria o oligopólio midiático, direto e/ou indireto, de alguns poucos grupos empresariais (vetado pelo § 5º do artigo 220) e o controle que ainda exercem sobre a agenda pública e a liberdade de expressão no Brasil.
A ver.
Venício A. de Lima, jornalista e sociólogo, pesquisador visitante no Departamento de Ciência Política da UFMG (2012-2013), professor de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor de Política de Comunicações: um Balanço dos Governos Lula (2003-2010), Editora Publisher Brasil, 2012, entre outros livros
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Sexto sentido de caballos y lobos presagió la caída del bólido de Cheliábinsk

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Los habitantes del zoológico de Cheliábinsk, sobre todo los caballos y los lobos, tuvieron signos de inquietud horas antes de la llegada del meteorito, cuyos fragmentos cayeron esta mañana sobre esa ciudad rusa de los Urales, causando destrucciones y más de un millar de heridos, según datos de última hora.
“En la noche, los animales sintieron pánico. Sobre todo los lobos y los caballos. Ahora ya se calmaron. Esperamos que esta noche (cuando, según se espera, pasará cerca de la Tierra el asteroide DA14) todo vaya a estar bien”, declaró a RIA Novosti una empleada del zoo.
Al mismo tiempo, la llegada del bólido no fue captada por los sistemas de defensa antiaérea rusos y estadounidenses, que son por ahora incapaces de detectar a tiempo la caída de meteoritos, según comentó a RIA Novosti el redactor jefe de la revista rusa “Defensa Nacional”, Ígor Korótchenko.
Los fragmentos del meteorito, que se desintegró en las capas bajas de la atmósfera terrestre, cayeron sobre la provincia de Cheliábinsk en la mañana de este viernes. La “lluvia de fuego” produjo una honda expansiva que hizo saltar los cristales en numerosos edificios, incluidos colegios y hospitales, y causó casi un millar de heridos, en su mayoría de carácter leve.
Mientras, una representante del zoológico de Ekaterimburgo, otra ciudad rusa de los Urales, a unos 200 kilómetros de Cheliábinsk, comunicó que sus animales no reaccionaron de ninguna manera ante la llegada del bólido, en cambio las autoridades confirmaron el paso del meteorito por esa ciudad.
No RIA Novosti
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De Chávez para Merval

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Presidenta não prepara reforma ministerial


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A presidenta Dilma Rousseff não está preparando uma reforma ministerial, esclareceu na tarde desta sexta-feira (15) a ministra-chefe da Secretaria de Comunicação Social, Helena Chagas, em conversa com jornalistas no Palácio do Planalto. O esclarecimento foi dado em decorrência das insistentes demandas jornalísticas sobre eventual mudança nos comandos de ministérios. A ministra informou ainda que  a agenda da presidenta na próxima semana está ocupada com uma série de eventos, como o anúncio de medidas do Brasil Sem Miséria, a audiência com o primeiro-ministro da Federação da Rússia, Dimitri Medvedev, e a viagem para a África.
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SC: Escolas estaduais irão retomar as aulas em situação precária

Governador Raiumundo Colombo, PSD (ex-Demo),
ainda não assumiu o governo.
Estrutura precária, forros desabando, mato por todos os lados, fiação exposta e hidrantes quebrados. Essa foi a situação encontrada na última semana, em seis escolas estaduais que chegaram a ser interditadas desde 2011, na Grande Florianópolis.
Só em Palhoça, três unidades apresentam problemas de conservação e necessitam de reparos para o início do ano letivo, segundo a Defesa Civil do munícipio. Enquanto isso, alunos terão de continuar a estudar em salas de aula improvisadas, bilbiotecas e ginásios, conforme o relato de professores e pais entrevistados.
Para o presidente da Associação de Pais e Professores (APP) da Escola Anísio Vicente de Freitas, em Santo Amaro da Imperatriz (foto abaixo), é triste ver a que ponto chegou a instituição em que ele estudou e que escolheu para matricular seus três filhos. A unidade, que já teve 800 alunos, neste ano deve receber 500.
Fotos: Betina Humeres
— Penso no futuro, em ter uma boa escola para meus netos. A Anísio é um patrimônio da comunidade— lamenta.
Goteiras e forro despencando
Uma das escolas, a Laurita de Souza, em São José, passou por reforma recente, mesmo assim apresenta problemas, como goteiras nas salas de aula e parte do forro despencando. 
Nada de novo após desabamento 
 
Preocupante, é como a direção resume a situação da Escola Básica Vicente Silveira, no Bairro Passa Vinte, em Palhoça. Em novembro do ano passado, três salas de aula vieram ao chão. A única providência tomada até hoje foi a retirada do entulho.
A diretora, Terésia Artifom, afirma que não vai iniciar as aulas caso a área não seja isolada.
— Não vou correr o risco de algum aluno ou até mesmo funcionário se machucar naquele local — explica.
Um verdadeiro piscinão se formou no pátio num buraco onde estava parte da estrutura que desabou.
Dois embargos em Palhoça
A Defesa Civil de Palhoça vistoriou três escolas afetadas no município. O diretor, Diego Schmidt Concado, diz que a Escola Dom Jaime Câmara (foto abaixo) é única liberada.
A Vicente Silveira e a Venceslau Bueno precisam se adequar até dia 18. A Promotoria de Justiça da Infância e Juventude entrou com uma ação civil pública contra o Estado, após o desabamento da Vicente Silveira.
Segundo informações do gabinete do promotor da Infância e Juventude, Aurélio Giacomelli da Silva, outra ação está em andamento, relacionada à falta de acessibilidade na Escola Venceslau Bueno.
Risco de acidente na Capital
Em Florianópolis, a Defesa Civil recomendou à direção da Escola Laura Lima, no Bairro Monte Verde, que o refeitório receba novos cabos de sustentação, pois um se rompeu. Segundo o agente da Defesa Civil Marcos Roberto Leal, há risco de desabamento. Só com a reforma, haverá liberação.
Burocracia emperra licitações
Segundo a gerente financeira da Secretaria de Desenvolvimento Regional da Grande Florianópolis (SDR), Loreni Flores, cinco escolas serão reformadas, menos a Laurita de Souza, reformada em 2011.
— Estamos em licitação e, muitas vezes, esbarramos na burocracia — explica.
Foram liberados R$ 700 mil para limpeza de caixa d'água, fossas, terrenos e troca de maçanetas. Serão providenciados os tapumes e cabos metálicos exigidos.
::: Escolas que sofreram interdição
Florianópolis
Escola Estadual Laura Lima (Monte Verde)
- Interdição: 2012.
- Motivo: duas alas interditadas, estrutura comprometida.
- Situação: licitação aberta no último dia 4 para reforma geral. Estado vai instalar estrutura metálica no pátio.
- Valor: R$ 1,2 milhão.
Santo Amaro da Imperatriz
Escola Básica Anísio Vicente de Freitas
- Interdição: novembro de 2012.
- Motivo: estrutura comprometida em duas alas e interditada até a colocação de tapumes para isolar a área.
- Situação: em licitação para reforma geral prevista para março.
- Valor: R$ 800 mil.
Palhoça
Escola Estadual Dom Jaime Câmara (Bela Vista)
- Interdição: fim de novembro de 2012.
- Motivo: risco de desabamento.
- Situação: Foram feitas melhorias provisórias, mas há uma licitação em andamento para reforma geral, em março.
- Valor: R$ 1,2 milhão.
Escola Estadual Vicente Silveira (Passa Vinte) - Interdição: novembro de 2012.
- Motivo: três salas desabaram.
- Situação: em licitação para reforma geral, em março. Estado providencia tapumes para isolar a área.
- Valor: R$ 1,9 milhão.
Escola Estadual Venceslau Bueno (Centro) - Interdição: novembro de 2012.
- Motivo: forro desabando no corredor.
- Situação: em processo de licitação para reforma geral. Obras previstas para 25 de fevereiro.
- Valor: R$ 1,3 milhão.
São José
Escola Estadual Laurita Dutra
- Interdição: 2011.
- Motivo: telhado comprometido em dois pontos.
- Situação: salas afetadas reformadas em 2011. Há quatro infiltrações, goteiras e forro solto.
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O segredo por trás da renúncia do Papa Bento XVI

Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção
Os especialistas em assuntos do Vaticano afirmam que o Papa Bento XVI decidiu renunciar em março passado, depois de regressar de sua viagem ao México e a Cuba. Naquele momento, o papa, que encarna o que o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama “uma continuidade pesada” de seu predecessor, João Paulo II, descobriu em um informe elaborado por um grupo de cardeais os abismos nada espirituais nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro. O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas e privilégios a frente das instituições religiosas.
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A história secreta da renúncia de Bento XVI: o Vaticano não é mais do que
um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema

Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres, sob o mandato de Bento XVI o Vaticano foi um dos Estados mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas. Bento XVI foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo II: “desde 1981 seguiu o reino de seu predecessor acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos 1984-1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla”. Esses dois textos citados pelo especialista francês são um compêndio prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e científicas do mundo moderno.
O Monsenhor Georg Gänsweins, fiel secretário pessoal do papa desde 2003, tem em sua página web um lema muito paradoxal: junto ao escudo de um dragão que simboliza a lealdade o lema diz “dar testemunho da verdade”. Mas a verdade, no Vaticano, não é uma moeda corrente. Depois do escândalo provocado pelo vazamento da correspondência secreta do papa e das obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana agiu como faria qualquer Estado. Buscou mudar sua imagem com métodos modernos. Para isso contratou o jornalista estadunidense Greg Burke, membro da Opus Dei e ex-integrante da agência Reuters, da revista Time e da cadeia Fox. Burke tinha por missão melhorar a deteriorada imagem da igreja. “Minha ideia é trazer luz”, disse Burke ao assumir o posto. Muito tarde. Não há nada de claro na cúpula da igreja católica.
A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras mãos invisíveis, foi uma operação sabiamente montada cujos detalhes seguem sendo misteriosos: operação contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiração para empurrar Bento XVI à renúncia e colocar em seu lugar um italiano na tentativa de frear a luta interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks fizeram afundar a tarefa de limpeza confiada a Greg Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos não é fácil de redesenhar.
Bento XVI acabou enrolado pelas contradições que ele mesmo suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada pública sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de São Pio X, fundada pelo Monsenhor Lefebvre, saudaram a figura do Papa. Não é para menos: uma das primeiras missões que Ratzinger empreendeu consistiu em suprimir as sanções canônicas adotadas contra os partidários fascistóides e ultrarreacionários do Mosenhor Levebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógada que, de Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultradireita do mundo.
Bento XVI não foi o sumo pontífice da luz que seus retratistas se empenham em pintar, mas sim o contrário. Philippe Portier assinala a respeito que o papa “se deixou engolir pela opacidade que se instalou sob seu reinado”. E a primeira delas não é doutrinária, mas sim financeira. O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas maquiadas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por João Paulo II, que, para muitos especialistas, explica a crise atual.
Em setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Próximo à Opus Deis, representante do Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou da preparação da encíclica social e econômica Caritas in veritate, publicada pelo papa Bento XVI em julho passado. A encíclica exige mais justiça social e propõe regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi teve como objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano. As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo norteamericano Paul Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época.
João Paulo II usou o argumento da soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia. Não é de se estranhar, pois devia muito a ele. Nos anos 70, Marcinkus havia passado dinheiro “não contabilizado” do IOR para as contas do sindicato polonês Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais. Marcinkus terminou seus dias jogando golfe em Phoenix, em meio a um gigantesco buraco negro de perdas e investimentos mafiosos, além de vários cadáveres. No dia 18 de junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres. O corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. Seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.
vaticano
A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de
decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos:
corrupção, capitalismo suicida e proteção de privilegiados.

Ettore Gotti Tedeschi recebeu uma missão quase impossível e só permaneceu três anos a frente do IOR. Ele foi demitido de forma fulminante em 2012 por supostas “irregularidades” em sua gestão. Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no momento em que o Vaticano estava sendo investigado por suposta violação das normas contra a lavagem de dinheiro. Na verdade, a expulsão de Tedeschi constitui outro episódio da guerra entre facções no Vaticano. Quando assumiu seu posto, Tedeschi começou a elaborar um informe secreto onde registrou o que foi descobrindo: contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de “políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado”. Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas.
Aí começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhece bem o Vaticano diz que o banqueiro amigo do papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, Monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pela comissão de cardeais que fiscaliza o funcionamento do banco. Sua destituição veio acompanhada pela difusão de um “documento” que o vinculava ao vazamento de documentos roubados do papa.
Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se autoalimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema.
Eduardo Febbro
Tradução: Katarina Peixoto
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A nova inquisição espanhola: agora, são os bancos que imolam “hereges”

(manifestação contra os despejos diante de uma agência bancária na Espanha)
- Pedro, 68, e Julita, 67, moradores de Calvià, Mallorca. Tomaram uma overdose de soníferos no dia 12 de fevereiro.
- Homem de 55 anos, morador de Alicante. Se enforcou em sua casa no dia 13 de fevereiro.
- Francisco Bretón, 36 anos, morador de Córdoba. Se atirou de seu apartamento no quarto andar no dia 8 de fevereiro.
- Homem não-identificado, morador de Málaga. Ateou fogo ao próprio corpo em plena rua no dia 2 de janeiro.
- Victoria Mesa, 52 anos, moradora de Málaga. Se jogou do balcão de seu apartamento em 14 de dezembro de 2012.
- Amaya Egaña, 53 anos, moradora de Baracaldo, País Basco. Se jogou da janela do quarto andar de sua casa em 9 de novembro de 2012.
 - José Miguel Domingo, 54 anos, morador de Granada. Enforcou-se em casa em 25 de outubro de 2012.
- Jovem não-identificado, se jogou de uma ponte nas ilhas Canárias em 23 de outubro de 2012.
Como nos registros da Inquisição catalogados por José Saramago em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, as imolações se sucedem. A diferença é que agora não é a igreja, mas os bancos a cobrar as vidas dos “hereges”, condenados por não pagarem as hipotecas de suas próprias casas. Diante da realidade de que serão jogados na rua, optam pelo suicídio. Aqui é possível ver uma lista com os suicídios que chegaram ao conhecimento público. Podem ser muitos mais, já que existe uma tradição no jornalismo de não noticiar suicídios.
Em um recente congresso de psiquiatria na Espanha, informa o jornal El Mundo, se especulou que podem estar acontecendo nada menos que nove suicídios por dia relacionados à crise econômica. A maioria deles causados pelos despejos que ocorrem no país desde que estourou a bolha imobiliária que provocou o endividamento de milhões de espanhóis. De acordo com Stop Desahucios, entidade que representa os que estão prestes a ser desalojados de suas moradias pelos bancos, sedentos por cobrar juros e dividendos de famílias arruinadas, já aconteceram no país mais de 400 mil despejos de 2007 para cá. Só no ano passado foram mais de 180 mil. Atualmente, são 517 despejos por dia. É desesperador.
A situação chegou a um ponto que o governo neoliberal do PP resolveu liberar seus parlamentares para aceitarem uma petição popular contra os despejos, que está sendo apreciada no Congresso espanhol desde a última terça-feira 14. Mais de um milhão de assinaturas foram recolhidas para apresentar a petição, que propõe a suspensão dos despejos, moratória universal, quitação da dívida com a entrega do imóvel e criação de um parque de moradias para aluguel social mais amplo que o oferecido pelo governo. Os políticos do PP só cederam no último momento, justamente ao vir à tona o suicídio do casal de Mallorca. Quantos mais precisarão morrer para pôr fim a essa santa inquisição da grana?
E eu fico me perguntando: o que farão com todas essas casas e apartamentos vazios? Imóveis fantasmas de um país na bancarrota.
Cynara Menezes
No Socialista Morena
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João Paulo I: A última noite do papa sorriso e outras mortes no Vaticano

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Quantos papas, no curso da história, terão morrido envenenados? A pergunta é formulada por John Cornwell, em seu livro Um ladrão na noite, que a Editora Viking lançou recentemente, na Inglaterra [1989], e cujo tema é a morte, até hoje não convenientemente esclarecida, do papa João Paulo I. O autor cita um número muito maior de pontífices assassinados do que se poderia esperar.
João 8º, o primeiro papa a ser morto, foi envenenado em 882 por membros de sua própria corte. A poção demorou tanto a agir, que ele foi eliminado a pancada. Aproximadamente dez anos mais tarde, o corpo do papa Formoso, envenenado por uma facção dissidente de seu séquito, foi exumado pelo seu sucessor, Estevão VII, solenemente excomungado, mutilado, arrastado pelas ruas de Roma e lançado nas águas do Tibre.
No século 10, João X foi envenenado no cárcere por Marozia, filha de sua amante e mãe de João XI. Ainda no mesmo século, foram envenenados Benedito VI e João XIV.
O novo milênio não se mostrou mais benévolo para os santos padres: o primeiro a ser envenenado foi Silvestre II, conhecido como O Mago, por suas alegadas transações com o diabo, e, poucas décadas depois, Clemente II e seu sucessor Dâmaso II – embora não se exclua a hipótese de este último ter sucumbido à malária. No apagar das luzes do século 13, Celestino V foi envenenado por seu sucessor, Bonifácio VIII. Nos primeiros anos do século 14, Benedito XI teria morrido por ter ingerido vidro moído misturado com figos. Cerca de 150 anos se passaram, até a morte de Paulo II, depois de comer “dois grandes melões”. Embora a causa da morte possa ter sido o pecado mortal da gula, suspeitou-se de veneno. E, em 1503, Alexandre VI, o famigerado papa da família Borgia, morreu provavelmente envenenado de uma poção destinada à outra pessoa. A maneira de sua morte sugere arsênico: sua carne enegreceu, em torno de sua língua, monstruosamente aumentada, formou-se espuma, e seu corpo ficou inchado de gases, tão intumescido que os encarregados de seu sepultamento foram obrigados a pular em cima de seu estômago para que a tampa do caixão pudesse ser fechada.
Nem todas as tramas tiveram êxito. Cerca de dez anos após a morte de Alexandre VI, o colégio elegeu Leão X, que o autor descreve como “um homem tão ávido por dinheiro, que leiloava chapéus cardinalícios”. Cinco cardeais contrataram um cirurgião florentino para assassiná-lo pela introdução de veneno no ânus, ostensivamente para tratar das hemorróidas papais, mas a conspiração foi descoberta.
Teriam cessado os assassinatos pontifícios com o advento dos tempos modernos? Cornwell não responde à pergunta, mas, segundo o que ele descreve como um livrinho infame intitulado Os documentos do Vaticano, de um certo Nino Lo Bello, um assassinato dessa natureza havia ocorrido em 1939. No princípio de fevereiro daquele ano, Pio XI, de 82 anos, planejava um discurso especial contra o fascismo e o antissemitismo e denunciaria a concordata firmada com Mussolini. Il Duce tinha, pois, motivo forte para dar cabo do idoso papa. Conta-se que, 24 horas antes de Pio ler seu discurso em uma reunião especial de bispos, recebeu uma injeção do doutor Francesco Petacci. Além de suas funções médicas dentro do Vaticano, Petacci era o pai de Clara Petacci, amante de Mussolini. Os defensores da teoria da conspiração acreditam que Petacci tenha injetado veneno no papa, pois ele morreu na manhã seguinte, antes de poder ler seu discurso, cujo texto nunca foi encontrado.
E agora surge o caso de Albino Luciani, eleito no dia 26 de agosto de 1978, no quarto escrutínio, numa das eleições mais rápidas da história do Vaticano, e morto no dia 28 de setembro do mesmo ano, um dos reinados mais curtos da história do papado. Mas não o mais curto de todos. Este triste privilégio coube a Urbano VII, que, em 1590, ocupou o trono de São Pedro durante 13 dias, morrendo de morte natural, assim como Celestino III, que, em 1045, foi papa por 22 dias e Marcelo II, que reinou 23 dias, em 1555. O único que teve morte violenta foi o já citado Dâmaso II, cujo papado, em 1048, durou 24 dias.
No prefácio de Um ladrão na noite, John Cornwell escreve: “Esta é a história de uma investigação das circunstâncias da morte súbita do papa João Paulo I [...] e as alegações de que teria sido assassinado por altos prelados da Igreja Católica Romana.” O Vaticano esperava que o autor obtivesse provas conclusivas da falsidade dessas teorias. Cornwell se confessa um católico relapso. Passou sete anos estudando em seminários ingleses, mas deixou a Igreja em consequência de uma decisão consciente de rejeitar tanto a vocação como a fé em Deus. Não obstante, dedicou-se a um projeto de investigação de fenômenos “sobrenaturais”, como a história de padre Pio, o Estigmático, as mais recentes provas a respeito do Santo Sudário de Turim e as aparições de Maria às crianças de Medjugorje, na Iugoslávia. Foram essas últimas que levaram o escritor a Roma, em outubro de 1987, e ali foi súbita e surpreendentemente estimulado pelo Vaticano a considerar um projeto inteiramente diferente: a verdadeira história da morte de João Paulo I.
O primeiro encontro de Cornwell foi com o arcebispo John Foley, presidente da Comissão de Comunicação Social, “um homem grande e calvo [...] o rosto inocente e redondo como uma bolacha”. Depois de uma troca de amenidades, Foley surpreendeu o autor, dizendo: “Há quem diga que o papa João Paulo I foi envenenado por um de nós, aqui, no Vaticano. Um de nós está sendo apontado como suspeito principal. E pena que alguém como você não escreve a verdade sobre o que realmente aconteceu [...]. Estou certo de que seria mais interessante do que toda essa ficção sensacionalista.”
Desnecessário dizer que John Cornwell aceitou a missão e acabou produzindo Um ladrão na noite, um trabalho minucioso e, supõe-se, fiel a verdade, o que lhe falta em emoção e drama sobra em precisão e inteireza. É, na verdade, mais um relatório do que uma obra de leitura e como relatório deve ser lido.
Cabe, aqui, uma biografia de Albino Luciani. Nasceu em 17 de outubro de 1912. Filho de um operário francamente socialista. Frequentou o seminário locais e foi ordenado em 1935, sendo nomeado vigário-geral de Belluno, sua terra natal, em 1948.
Em 1958 foi designado bispo de Vittoria Veneto. A partir de 1969, quando já era Patriarca de Roma, passou a adotar um ponto vista mais de direita. Sua eleição como papa causou quase tanta estupefação como sua morte 33 dias depois. Como podia o “candidato de Deus” escolhido com tal entusiasmo por cardeais orientados pelo “Espírito Santo” já estar morto?
Como causa mortis, infarto do miocárdio, o papa tinha 66 anos incompletos e gozava de boa saúde. Não morrera dormindo, dizia o comunicado, mas sentado na cama lendo, com os óculos sobre o nariz.
Na quinzena que se seguiu a morte do papa choveram declarações porta-vozes do Vaticano, de membros da papal e de importantes testemunhas, oficiais ou não. Nessas declarações, Cornwell detectou dez contradições que persistem até hoje e que envolvem um grave desacordo a respeito dos seguintes pontos:
1º Quem encontrou o corpo?
2º Onde o corpo foi encontrado?
3º A causa oficial da morte.
4º A estimativa da hora da morte.
5º A hora e a legalidade do embalsamamento.
6º O que o papa tinha nas mãos no momento da morte.
7º O verdadeiro estado de sua saúde nos meses anteriores a sua morte.
8º O paradeiro dos objetos pessoais do papa que estavam na alcova papal.
9º Se a Cúria havia ou não ordenado e realizado uma autópsia secreta.
10º Se os embalsamadores haviam ou não sido chamados antes de o corpo ser oficialmente encontrado.
Os boatos de que João Paulo I teria sido assassinado começaram a circular no mesmo dia de sua morte. Uma das primeiras suspeitas foi levantada por uma organização ligada ao ultra-tradicionalista arcebispo Lefebvre: o papa fora assassinado por “liberais” da Igreja Católica, porque planejava abolir as modificações introduzidas pelo Concílio do Vaticano. Algumas das discrepâncias acima citadas não haviam escapado à atenção do grupo.
A Rádio Vaticano anunciou em 29 de setembro que, ao morrer, o papa lia A imitação de Cristo, popular obra de devoção dos católicos. Outras fontes disseram que se tratava de sermões e discursos ou, alternativamente, de um discurso que iria proferir ante uma assembleia de jesuítas.
A agência noticiosa italiana Ansa, por sua vez, afirmou que o corpo não fora encontrado pelo secretário papal, padre John Magee, mas por uma irmã, Vincenza, que trazia o desjejum do pontífice, e que seus restos mortais foram descobertos não às 5h30, mas às 4h30. Que teria acontecido nessa hora crucial?
Mas o despacho mais estranho, também divulgado pela Ansa, dizia que os embalsamadores, os irmãos Ernesto e Renato Signoracci, foram apanhados em suas casas por um carro do Vaticano às 5 horas da manhã e levados diretamente à morgue da pequena cidade-estado, onde começaram seu trabalho. Em outras palavras, os irmãos haviam sido chamados antes da descoberta oficial do corpo. O Vaticano nunca se pronunciou a respeito.
A teoria da conspiração dos tradicionalistas continuava a vir à tona, até atingir um bizarro auge em 1983, no livro de Jean-Jacques Thierry, A verdadeira morte de João Paulo 1º, segundo o qual o secretário de Estado, cardeal Jean Villot, teria colocado um sósia no lugar de Paulo VI e de ter planejado o assassinato de João Paulo I, depois de o infeliz papa ter descoberto um ninho de maçons no Vaticano.
No mesmo ano foi publicado Pontífice, de Max Morgan-Witts e Gordon Thomas, que também defendia a teoria do assassinato, sugerindo que se tratava de um boato circulado pela KGB para desacreditar o Vaticano.
Também em 1983 surgiu um roman à clef, intitulado A batina vermelha, do francês Roger Peyrefitte, que combinava uma trama da KGB com uma conspiração da Máfia, dos maçons e do Banco do Vaticano. Usando para seus personagens pseudônimos mal disfarçados (o arcebispo Paul Marcinkus, por exemplo, chama-se Larvenkus), Peyrefitte sugere uma reviravolta na motivação: o papa não era um reacionário morto por liberais. Ao contrário: era um reformador liberal decidido a acabar com a corrupção. O pano de fundo da intriga era baseado em fatos bem conhecidos. O Banco do Vaticano tinha de fato fortes elos com Roberto Calvi, o ambicioso presidente do Banco Ambrosiano de Milão. Calvi, por sua vez, estava ligado a Michele Sindona, um advogado e financista siciliano, que estivera preso nos Estados Unidos e na Itália por estelionato. Ambos eram amigos do presidente do Banco do Vaticano, o notório arcebispo Paul Marcinkus, e estavam associados a Lício Gelli, um financista italiano que controlava a loja pseudomaçônica P-2.
No dia 17 de junho de 1982, após o colapso do Banco Ambrosiano, Calvi foi encontrado enforcado debaixo de uma ponte em Londres. Até hoje não se sabe se foi suicídio ou assassinato e, em 1986, Sindona morria envenenado numa prisão italiana. Em fins de 1987, Gelli fora extraditado da Suíça para Itália, onde era procurado pela Justiça.
No romance de Peyrefitte, Marcinkus e Villot assassinam o papa com veneno injetado. Ao crime estão associados Calvi, Sindona e Gelli. O motivo imediato dos prelados era evitar sua demissão. No caso de Marcinkus, sua exoneração teria posto a descoberto o envolvimento maior do Banco do Vaticano em extensas negociatas com a Máfia e os maçons.
Em 1984, o assunto ressurgiu num livro de David Yallop, Em nome de deus, com a volta de todos os personagens centrais. Assim como os autores que o precederam, Yallop, na opinião de Cornwell, é forte em motivação e mistérios circunstanciais e fraco em provas conclusivas que ligassem os prelados ao assassinato. E os teóricos da conspiração, fictícios ou reais, o que poderiam atribuir a esses homens de Deus para trair sua vocação e correr o risco da excomunhão e danação eterna, sem falar nos castigos no mundo dos vivos? Na verdade, o único com um passado não imaculado era Marcinkus, que, segundo revela Cornwell, esteve envolvido em escândalos financeiros já em 1972, quando foi investigado pelo FBI por envolvimento na falsificação de bônus no valor de US$1 bilhão. Sua amizade com Sindona e Calvi era conhecida. Os quatros autores são unânimes em afirmar que o novo papa estava de olho nele e a ponto de expô-lo. As repercussões no mundo financeiro e as implicações para as finanças do Vaticano teriam sido incalculáveis. Até onde iria Marcinkus para evitar o desastre?
Foi enfrentando esse labirinto de contradições que John Cornwell iniciou sua investigação. Avistou-se com Deus (no sentido figurado, é claro) e todo mundo. Entrevistou o próprio Marcinkus, que, entre outras coisas, afirmou jamais se ter envolvido nas finanças do Vaticano. Esteve com dom Diego Lorenzo, o secretário italiano do papa morto. Compareceu a uma missa rezada por João Paulo 2º e dele ouviu palavras de encorajamento: “Quero que você saiba que tem meu apoio e a minha bênção neste seu trabalho.”
Em janeiro, Cornwell procurou David Yallop, que entrevistara a irmã Vincenza e os irmãos Signoracci. A primeira havia morrido em junho de 1983 e os embalsamadores se mostraram tão confusos em seu depoimento a Yallop, e mais tarde a Cornwell, que a hipótese de uma esclerose avançada não podia ser afastada.
Antes de voltar a Roma, Cornwell se avistou com um cardiologista norte-americano que passava as férias em Londres. O médico foi taxativo: “Os cadáveres não ficam sentados, sorridentes e lendo.”
De regresso ao Vaticano, o autor voltou a se encontrar com o bispo John Magee, que lhe narrou um episódio ocorrido um dia antes da morte de João Paulo I. O papa acusou dores e mandou chamar a irmã Vincenza, recusando-se a ver um médico. Sentindo-se melhor, jantou bem, e Magee perguntou: “Santo Padre, já escolheu a pessoa que vai promover o retiro da próxima Quaresma?” Respondeu afirmativamente e acrescentou logo em seguida: “O tipo de retiro de que gostaria neste momento seria uma boa morte.” A morte, segundo Magee, era um dos assuntos constantes de suas conversas. Seu papado seria de curta duração e ele seria substituído “pelo estrangeiro”. E citou uma prece: “Senhor, concede-me a graça de aceitar a morte que me abaterá.” No dia seguinte, Deus atendeu o pedido daquele homem modesto e bondoso, cujo mais constante pedido, formulado milhares de vezes durante o seu curto reinado, era: “Senhor, por favor, leva-me.” A magnitude de sua missão o assustava.
Num dos últimos parágrafos de Um ladrão na noite, John Cornwell diz, mas não assegura: “João Paulo, quase com certeza, morreu de embolia pulmonar, devido a uma condição de coagulabilidade anormal do sangue. Necessitava de descanso e medicação monitorada. Se estes tivessem sido receitados, ele, quase sem dúvida, teria sobrevivido. As advertências de uma doença mortal estavam claras, à vista de todos. Pouco ou nada foi feito para socorrê-lo ou salvá-lo.”
Como sempre, as doenças, vistas em retrospecto, são bem mais fáceis de diagnosticar e de curar.
Texto extraído da revista Manchete, de 1989, número 1.942, ano 38, páginas 30 a 34
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A invasão real da África não está nos noticiários

Uma invasão da África de grandes proporções está em andamento. Os Estados Unidos estão instalando tropas em 35 países africanos, a começar pela Líbia, Sudão, Argélia e Níger. Isto foi informado pela Associated Press no dia de Natal, mas ficou omisso na maior parte da imprensa anglo-americana.
Invasão França
Desembarque francês em Tombuktu, janeiro de 2013
A invasão pouco tem a ver com "islamismo" e, quase tudo a ver com a aquisição de recursos, nomeadamente minérios, e com uma aceleração da rivalidade com a China. Ao contrário da China, os EUA e seus aliados estão preparados para utilizar um grau de violência já demonstrado no Iraque, Afeganistão, Paquistão, Iémen e Palestina. Tal como na guerra-fria, uma divisão de trabalho exige que o jornalismo ocidental e a cultura popular providenciem a cobertura de uma guerra sagrada contra um "arco ameaçador" de extremismo islâmico, não diferente da falsa "ameaça vermelha" de uma conspiração comunista mundial.
A recordar a Luta pela África no fim do século 19, o US African Command ( Africom ) construiu uma rede de pedintes entre regimes colaboracionistas africanos ansiosos por subornos e armamentos americanos. No ano passado, o Africom ensaiou a Operação Esforço Africano (Operation African Endeavor), com as forças armadas de 34 países africanos a nela tomarem parte, comandadas por militares estadunidenses. A doutrina "soldado para soldado" do Africom insere oficiais dos EUA a todo nível de comando, desde o general até o primeiro-sargento.
É como se a orgulhosa história de libertação da África, desde Patrice Lumumba até Nelson Mandela, estivesse destinada ao esquecimento por uma nova elite colonial negra ao serviço do mestre cuja "missão histórica", advertiu Frantz Fanon há meio século, é a promoção de "um capitalismo desenfreado embora camuflado".
Um exemplo gritante é o Congo Oriental, um tesouro de minerais estratégicos, controlado por um grupo rebelde atroz conhecido como M23, o qual por sua vez é dirigido pelo Uganda e o Ruanda, os procuradores de Washington.
Planejada há muito como uma "missão" para a Otan, para não mencionar os franceses sempre zelosos, cujas causas coloniais perdidas continuam em prontidão permanente, a guerra à África tornou-se urgente em 2011 quando o mundo árabe parecia estar se libertando dos Mubaraks e outros clientes de Washington e da Europa. A histeria que isto provocou em capitais imperiais não pode ser exagerada. Bombardeiros da Otan foram despachados não para Tunis ou Cairo mas sim para Líbia, onde Muammar Kadafi dominava as maiores reservas petrolíferas da África. Com a cidade líbia de Sirte reduzida a escombros, as SAS britânicas dirigiram as milícias "rebeldes" para o que se revelou como um banho de sangue racista.
O povo nativo do Saara, os tuaregues, cujos combatentes berberes Kadafi havia protegido, fugiu através da Argélia para o Mali, onde os tuaregues desde a década de 1960 reivindicam um estado separado. Como destaca o sempre vigilante Patrick Cockburn, é esta disputa local, não a Al-Qaida, que o Ocidente mais teme no Noroeste da África... "por pobres que possam ser, muitas vezes os tuaregues vivem em cima de grandes reservas de petróleo, gás, urânio e outros minérios valiosos".
Quase certamente a consequência do ataque francês/estadunidense ao Mali em 13 de Janeiro, o cerco a um complexo de gás na Argélia que acabou de forma sangrenta, inspirou em David Cameron um momento “11 de setembro”. O antigo relações públicas da Carlton TV enfureceu-se acerca de uma "ameaça global" que exigiria "décadas" de violência ocidental. Ele queria dizer a implementação dos planos de negócios do Ocidente para a África, juntamente com a violação da Síria multiétnica e a conquista do Irã independente.
Cameron agora ordenou o envio de tropas britânicas para o Mali e enviou para lá um drone da RAF, enquanto o seu prolixo chefe militar, general sir David Richards, dirigiu "uma mensagem muito clara a jihadistas de todo o mundo: não nos provoquem e não nos embaracem. Trataremos disto de forma robusta" – exatamente o que jihadistas querem ouvir. O rastro de sangue de vítimas do terror do exército britânico, todos muçulmanos, seus "sistêmicos" casos de torturas atualmente a caminho do tribunal, acrescenta ironia às palavras do general. Certa vez experimentei os meios "robustos" de sir David quando lhe perguntei se lera a descrição da corajosa feminista afegã Malalai Joya do comportamento bárbaro de ocidentais e seus clientes no seu país. "O senhor é um apologista do Talibã" foi a sua resposta (posteriormente desculpou-se).
Estes comediantes lúgubres são extraídos diretamente [do escritor] Evelyn Waugh e permitem-nos sentir a estimulante aragem da história e da hipocrisia. O "terrorismo islâmico", que é a sua desculpa para o roubo continuado das riquezas da África, foi praticamente inventado por eles. Já não há qualquer desculpa para engolir a linha da BBC/CNN e não conhecer a verdade. Leiam Secret Affairs: Britain's Collusion with Radical Islam de Mark Curtis (Serpent's Tail)  ou Unholy Wars: Afghanistan, America and International Terrorism, de John Cooley (Pluto Press) ou The Grand Chessboard de Zbigniew Brzezinski (HarperCollins) que foi o parteiro do nascimento do moderno terror fundamentalista. Com efeito, os mujahedin da Al-Qaida e os Talibans foram criados pela CIA, o seu equivalente paquistanês, o Inter-Services Intelligence, e o MI6 britânico.
Brzezinski, conselheiro de segurança nacional do presidente Jimmy Carter, descreve uma diretiva presidencial secreta em 1979 que principiou aquilo que se tornou a atual "guerra ao terror". Durante 17 anos, os EUA deliberadamente cultivaram, financiaram, armaram e fizeram lavagem cerebral a extremistas da jihad que "saturaram de violência uma geração". Com o nome de código Operation Cyclone, este foi o "grande jogo" para deitar abaixo a União Soviética mas que deitou abaixo as Torres Gémeas.
Desde então, as notícias que pessoas inteligentes e educadas tanto distribuem como ingerem tornou-se uma espécie de jornalismo Disney, fortalecido, como sempre, pela licença de Hollywood para mentir e mentir. Está para ser lançado o filme Dreamworks sobre a WikiLeaks, uma trama inspirada por um livro de tagarelices pérfidas de dois jornalistas do Guardian que se enriqueceram, e há também o Hora negra (Zero Dark Thirty), filme que estimula a tortura e o assassinato, dirigido pela ganhadora do Oscar Kathryn Bigelow, a Leni Riefenstahl do nosso tempo, que promove a voz do seu mestre tal como fez a realizadora de estimação do Fuhrer. Este é o espelho de sentido único através do qual nós mal vislumbramos aquilo que o poder faz em nosso nome.
John Pilger, jornalista
Tradução: Resistir.info
No Vermelho
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Meteoro ou meteorito? Ambos

Situações como a que ocorreu na Rússia não são raras, mas não se podem prever.
Traço de gases de combustão deixados pelo meteoro
Reuters
Foi um “meteoro” ou “meteorito” o que caiu na Rússia esta sexta-feira, provocando centenas de feridos? Ambos, explica Rui Jorge Agostinho, director do Observatório Astronómico de Lisboa.
Na terminologia científica, há três nomes para um corpo celeste como aquele. Quando ainda está a navegar no espaço, diz-se “meteoróide”. No momento em que atinge a atmosfera terrestre, passa a “meteoro” – que é o nome que se dá não à partícula em si, mas ao rasto luminoso que deixa no céu, devido à combustão causada pelo atrito com o ar.
Muitos meteoros não passam disso, com o corpo que veio do espaço a desintegrar-se na atmosfera. Mas se alguns resíduos chegam ao chão e são encontrados, então a estes chamam-se “meteoritos”.
“Obviamente que neste caso há meteoritos”, afirma Rui Agostinho, com base nas imagens até agora divulgadas do episódio na Rússia.
A esmagadora maioria dos meteoritos que chegam à Terra provêm da cintura de asteróides que existe entre Marte e Júpiter. Quando os asteróides chocam entre si, explica Rui Agostinho, muitas vezes ejectam material desta cintura para o interior do sistema solar. Algumas destas partículas podem chegar à Terra, como ocorreu na Rússia.
Partículas como estas viajam a velocidades hipersónicas. Segundo as autoridades russas, o meteoro desta sexta-feira terá entrado na atmosfera a 30 quilómetros por segundo, quase 90 vezes a velocidade do som. Sob o atrito do ar, o meteoro trava até atingir a barreira do som. “Neste momento dá-se uma explosão sónica”, afirma Rui Agostinho.
Foi a onda sonora desta explosão que causou a maior parte dos danos na Rússia, sobretudo vidros partidos.
O episódio ocorrido na Rússia não é raro. “Objectos com aquele tamanho até são relativamente frequentes. Mas nem todos chegam até ao chão”, afirma Rui Agostinho. Situações semelhantes podem ocorrer em qualquer parte do mundo, com consequências distintas caso se dêem sobre o mar ou regiões despovoadas, ou em áreas urbanas.
Não são eventos previsíveis, como as chuvas de estrelas cadentes, que estão associadas à passagem de cometas.
O caso da Rússia não estará associado à aproximação do asteróide DA14, com 45 metros de diâmetro e que poderá ser visto com binóculos ou telescópios esta sexta-feira, quando passar a 35.000 quilómetros da Terra. “Não há ligação com isso. A órbita do DA14 é muito estável”, diz Rui Agostinho, que dará uma palestra esta sexta-feira sobre os asteróides, às 21h, no Observatório Astronómico de Lisboa. A palestra poderá ser seguida em directo na Internet e o Observatório terá as portas abertas, embora as condições do tempo possam prejudicar a visualização do DA14.
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Quando a máscara do Barbosão caiu...


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Até tu Joaquim Barbosa, já bateu em mulher?
É o que revela a revista Veja de 14/05/2003, Edição 1802 em matéria de Policarpo Júnior.
O então Presidente Lula, queria nomear ao STF um Ministro nordestino (Ayres Britto), um paulista ( César Peluso) e, um Ministro negro.
O Ministro Joaquim Barbosa tinha um currículo notável, mas acabou sendo a indicação mais trabalhosa. Tendo em visto que o então Ministro da Justiça Márcio Thomás Bastos foi informado de um episódio constrangedor da biografia de Barbosa Gomes. Muitos anos atrás, quando ainda morava em Brasília, ele estava se separando de sua então mulher, Marileuza, e o casal disputava a guarda do único filho – Felipe, hoje com 18 anos. Na ocasião, Barbosa Gomes descontrolou-se e agrediu fisicamente Marileuza, que chegou a registrar queixa na delegacia mais próxima. O governo ficou com receio de que Barbosa Gomes se transformasse num caso como o de Clarence Thomas, o juiz negro da Suprema Corte americana que, ao ser nomeado para o cargo, foi acusado de assédio sexual, gerando um desgastante escândalo.
Enquanto o governo decidia o que fazer, os comentários pipocaram no próprio Supremo. A ministra Ellen Gracie, a única mulher da corte, no intervalo entre uma sessão e outra, mostrou-se preocupada. "Vai vir para cá um espancador de mulher?", perguntou ao colega Carlos Velloso. "Foi uma separação traumática", conciliou Velloso. "Mas existe alguma separação que não é traumática?", interveio o ministro Gilmar Mendes. Para desanuviar o ambiente, o ministro Nelson Jobim saiu-se com uma brincadeira machista, a pretexto de justificar a agressão: "A mulher era dele". O governo preocupou-se à toa. Indagado sobre o episódio pelo ministro da Justiça, Barbosa Gomes explicou que fora um desentendimento árduo, mas superado. Dias depois, Barbosa Gomes encaminhou ao Gabinete Civil da Presidência da República uma carta, contornando o caso.
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De papa a papa

Bento XVI preferiu fazer a igreja investir contra grande segmento do seu rebanho, ansioso por compreensão
O Vaticano é a grande caixa-preta, a maior e mais duradoura de todos os tempos. Sua vida interior só pôde ser sondada, até hoje, por especulações, por combinação de mínimas certezas factuais com hipóteses à vontade dos autores. Os antecedentes da renúncia de Bento 16 (grafia adotada pela Folha para o nome oficial Bento XVI) e seu próprio papado não prometem melhor destino informativo.
Minha curiosidade concentrou-se, há tempos, em um ponto mais modesto, e, ainda assim, não menos irrespondido. Bento XVI é reconhecido como intelectual de alto nível e, ainda, com talento político comprovado por seus mais de 50 anos bem-sucedidos nas lutas ferinas no Vaticano.
Como foi possível que não buscasse alguma fórmula doutrinária de convivência da igreja com os aspectos da modernidade avessos à doutrina católica? Sua fixação foi bater de frente, incitar a intolerância, fazer acusações graves, a exemplo da atribuição, aos usuários de camisinha, de maior disseminação da Aids.
Bento XVI não cuidou de proteger a doutrina do seu rebanho, argumento muito propalado. Antes preferiu fazer a igreja investir contra grande segmento desse rebanho, ansioso por maior compreensão, e contra todos os demais.
Um dos momentos grandiosos da face pacífica do século passado deu-se em 1962. Foi o Concílio Vaticano 2º (nome oficial: Vaticano II). Convocado pelo ex-cardeal de Veneza, Angelo Roncalli, apenas três meses depois de tornar-se em 1959 o papa João 23 (ou, como escolheu, João XXIII), o concílio foi por ele levado a fazer a igreja reconhecer-se como parte do mundo dos homens e a reconhecê-los todos, sem distinção de espécie alguma.
O milenar estigma mantido pela Igreja Católica contra os judeus, precursor não letal, mas socialmente venenoso, daquele que vicejaria na Alemanha, na Rússia e em tantos países mais, cedeu à conciliação não só com os judeus, mas com as outras igrejas católicas, com os protestantes em geral, com as crenças e ritos ditos "primitivos", com os casos de Estado antirreligioso e com todo obscurantismo.
O ecumenismo ganhou o mundo. Os católicos mesmos ganharam de volta a sua igreja, capazes de entender a missa e os seus ritos agora rezados em suas línguas, e não mais no obscuro latim. E com os celebrantes não mais de costas para os fiéis. A igreja reconhecia a humanidade. E os direitos humanos.
O teólogo Joseph Ratzinger foi um dos produziram, no Vaticano II, os documentos doutrinários inspirados pelo "papa Buono" e pelos cardeais que o acompanharam no "aggiornamento" - a atualização da Igreja Católica apesar da resistência, nas palavras de João XXIII, "dos que só veem no mundo moderno traição e ruína". Referia-se aos "consumidos pelo fervor" mas "de escassa razão e ponderação".
A ação de João XXIII foi tão significativa que abriu uma crise no comunismo internacional: encabeçada pelos grandes PCs da França e da Itália, numerosa e expressiva corrente dos comunistas incorporou o espírito reformista do Concílio Vaticano II, exprimindo-o, por todo o mundo, inclusive em "best-sellers" como "Do Anátema ao Diálogo", do filósofo comunista francês Roger Garaudy.
O Concílio Vaticano II fez seu cinquentenário no ano passado. A Igreja Católica, em especial o Vaticano, e, em particular, o papa Bento XVI, não lhe dedicaram nenhuma celebração. Ah, mas não o esqueceram. Antes que o ano findasse, Bento XVI e a Cúria Romana restabeleceram o uso do latim - completaram o retrocesso feito pelo papado de João Paulo II e seu culto à personalidade.
Janio de Freitas
No fAlha
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