10 de fev de 2013

O legado miserável de Thatcher e Reagan

No livro “Doutrina do Choque”, a escritora Naomi Klein mostra que os dois armaram uma bomba relógio.
Naomi Klein
Uma aula brilhante de mundo moderno. É uma maneira sintética de definir o livro A Doutrina do Choque, da escritora, jornalista e ativista canadense Naomi Klein, 44 anos.
Vou colocar, no pé deste artigo, um documentário baseado na obra, com legenda em português. Recomendo que seja visto, e compartilhado.
Naomi, como é aceito já consensualmente, identifica em Reagan e Thatcher, cada um num lado do Atlântico, um movimento que levaria a uma extraordinária concentração de renda no mundo.
Ambos representaram administrações de ricos, por ricos e para ricos. Os impostos para as grandes corporações e para os milionários foram sendo reduzidos de forma lenta, segura e gradual.
Desregulamentações irresponsáveis feitas por Reagan e Thatcher, e copiadas amplamente, permitiram a altos executivos manobras predatórias e absurdamente arriscadas com as quais eles, no curto prazo, levantaram bônus multimilionários.
O drama se viu no médio prazo. A crise financeira internacional de 2007, até hoje ardendo mundo afora, derivou exatamente da ganância irresponsável e afinal destruidora que as desregulamentações estimularam nas grandes empresas e nos altos executivos.
No epicentro da crise estavam financiamentos imobiliários sem qualquer critério decente nos Estados Unidos, expediente com o qual banqueiros levantaram bônus multimilionários antes de levar seus bancos à bancarrota com as previsíveis inadimplências. (Ruiria, com os bancos, também a ilusão de que o reaganismo e o thatcherismo fossem eficientes.)
Tudo isso, essencialmente, é aceito.
a8
Thatcher e Reagan
O engenho de Naomi Klein está em recuar alguns anos mais para estudar a origem da calamidade econômica que tomaria o mundo a partir de 2007.
O marco zero, diz ela, não foi nem Thatcher e nem Reagan. Foi o general Augusto Pinochet, que em 1973 deu, com o apoio decisivo dos Estados Unidos, um golpe militar e derrubou o governo democraticamente eleito de Salvador Allende no Chile.
Foi lá, no Chile de Pinochet, que pela primeira vez apareceria a expressão “doutrina de choque”. O autor não era um chileno, mas o economista americano Milton Friedman, professor da Universidade de Chicago.
Frieman dominou a economia chilena sob Pinochet
Um programa criado pelo governo americano dera, na década de 1960, muitas bolsas de estudo para estudantes chilenos estudarem em Chicago, sob Friedman, um arquiconservador cujas ideias beneficiam o que hoje se conhece como 1% e desfavorecem os demais 99%.
Dado o golpe, os estudantes chilenos de Friedman, os “Chicago Boys”, tomaram o comando da economia sob Pinochet e promoveram a “Doutrina do Choque” – reformas altamente nocivas aos trabalhadores, impostas pela violência extrema da ditadura militar.
Da “Doutrina do Choque” emergiria, no Chile, uma sociedade abjetamente iníqua que anteciparia, como nota Naomi Klein, o que se vê hoje no mundo contemporâneo.
O Brasil, de forma mais amena, antecipara o Chile: o golpe militar, também apoiado pelos Estados Unidos (e pelas grandes empresas de jornalismo, aliás), veio nove anos antes, em 1964. Tivemos nossos Chicago Boys, mas em menor quantidade, como Carlos Langoni, que foi presidente do Banco Central.
Com sua sinistra “Doutrina do Choque”, Friedman, morto em 2006, é o arquiteto do mundo iníquo tão questionado e tão merecidamente combatido em nossos dias.
Um dos méritos de Naomi Klein é deixar isso claro – além de lembrar a todos que situações de grande desigualdade são insustentáveis a longo prazo, como a guilhotina provou na França dos anos 1790.
Paulo Nogueira
No Diário do Centro do Mundo
Leia Mais ►

Um mundo sem lei

 
Cinqüenta e quatro países – mais de um quarto dos membros das Nações Unidas – ajudaram os Estados Unidos a seqüestrar cidadãos no mundo inteiro (entre eles, alguns nascidos em seus próprios territórios), confina-los em prisões secretas, torturá-los e, em alguns casos, executa-los, sem qualquer simulacro de julgamento. A denúncia foi feita por uma organização civil de defesa dos direitos humanos, a Open Society Justice Iniciative, com sede em Nova Iorque.
Esses atos de violência foram cometidos contra as leis norte-americanas e as leis dos paises cúmplices. Destacaram-se, nessa sórdida vassalagem a Washington, os governos de direita de Portugal e Espanha, de Durão Barroso e José Maria Aznar - os mesmo que promoveram o Encontro dos Açores, em março de 2003. Naquela reunião, Bush e Blair decidiram invadir o Iraque, sob o pretexto de que Saddam Hussein dispunha de armas de destruição em massa.
A civilização ocidental vem enfrentando uma crise de identidade ética coincidente com o processo de acumulação brutal do capitalismo, contraposto aos ideais do Iluminismo e da Revolução Francesa. A crise chegou ao auge com o nacional socialismo. A derrota de Hitler trouxe a esperança, que a Guerra Fria adiou. Os Estados Unidos, como sempre, tomaram a vanguarda da insensatez, mediante a caça “às bruxas” do macartismo.
Os americanos, que haviam sido, no fim dos setecentos, exemplo para o mundo do primado das instituições políticas e do poder da lei, passaram a violar os seus próprios valores e princípios. Essas violações atingiram o clímax com Bush, mas continuam no governo Obama, com suas decisões mais recentes, entre elas a do direito imperial de continuar a matar quem quiser, em qualquer lugar do mundo, continuando a guerra infinita.
A idéia do Ocidente, com seus momentos de avanço e de recuo, se funda no princípio basilar do humanismo - o respeito aos direitos humanos elementares. No plano internacional, os direitos humanos se expressam no respeito à autodeterminação nacional dos povos. Ao esvaziar-se dessa diretriz milenar, o Ocidente passa a ser conceito abstrato.
Todas as instituições milenares da nossa civilização se encontram em crise, como é o caso da Igreja Católica - enredada em seus compromissos temporais e seus próprios pecados - e os estados nacionais, incapazes de assegurar aos seus cidadãos o mínimo: emprego, moradia, saúde, educação ou de salvaguardá–los da violência.
Como todos os movimentos históricos, o Ocidente - como idéia e prática do humanismo e da solidariedade - sempre foi contestado. Mas nunca esteve tão ameaçado de dissolução, mediante a violação de suas próprias idéias e leis.
Enquadrilham-se banqueiros, fabricantes de armas e líderes medíocres, para subjugar os débeis e extinguir os que ousam resistir.
Leia Mais ►

Charge online - Bessinha - # 1686

Leia Mais ►

Onde o PT acertou e onde falhou nestes dez anos

A maior virtude foi dar prioridade à redução da iniquidade; mas a gestão prática disso deixou muito a desejar.
Lula e Dilma
Lula e Dilma
Gosto de acompanhar as enquetes do Diário.
Ajudam a ver o que se passa na cabeça dos brasileiros, de um modo geral.
Há poucos dias, o tema era os dez anos de PT no poder. A maior parte das pessoas avaliou como “bom” o trabalho do PT. Um contingente expressivo, e claramente apaixonado e engajado, foi além e optou pela alternativa “excelente”. Uma minoria reprovou cabalmente a gestão petista.
Eu, pessoalmente, optei por bom. Se houvesse uma resposta entre regular e bom, seria minha escolha. Meu absoluto apartidarismo me dá a frieza necessária para um julgamento técnico, por assim dizer.
O maior acerto do PT foi no rumo e na visão de futuro. Ter como meta a redução da abjeta iniquidade social brasileira é um objetivo irrepreensível.
No meio século entre o golpe militar e a chegada de Lula ao poder, o que se viu no Brasil foi um governo de ricos, por ricos e para ricos. O Estado serviu de babá aos poderosos em detrimento dos demais.
Logo depois do golpe, a estabilidade no emprego – um direito trabalhista da era Vargas – foi ceifada. Os sindicalistas foram perseguidos e as greves proibidas.
Que poderia acontecer senão uma concentração vergonhosa de riqueza?
Foi nesse cenário que o PT surgiu, cresceu e enfim chegou ao poder.
Vistas as coisas em retrospetica, pode-se dizer que a sociedade elegeu o PT, em 2002, para reduzir a desigualdade.
Passada uma década, fica claro que o objetivo foi apenas parcialmente atingido. O Brasil avançou socialmente, mas bem menos do que deveria. Uma hipótese para isso é que a execução do PT – a capacidade de colocar em prática projetos e ideias — tenha sido apenas medíocre, muito aquém da missão igualitária do partido.
Imagine uma empresa. Você estabelece os objetivos certos. Sabe para onde deve ir. Mas, se falha na execução, ficará abaixo do esperado.
Foi esse o caso do PT em seus dez anos de poder.
Que fique claro que muito pior seria dar seguimento às políticas anteriores ao PT, fundamentadas na ditadura militar. Não há execução que salve um objetivo errado. Viveríamos hoje um caos social de proporções tenebrosas se uma mudança não ocorresse em 2002.
A hipótese da execução medíocre ganha força quando você vê os balanços que Zé Dirceu faz destes dez anos.
Num deles, ele admitiu que o PT nada fizera para melhorar o sistema penitenciário brasileiro. É um assunto que, naturalmente, se tornou importante para ele, dada a pena que recebeu.`
Em outro balanço, dias atrás, diante de militantes petistas, Dirceu foi muito além das grades porque recebeu perguntas extremamente pertinentes.
Perguntaram a ele por que o PT não buscara nestes anos todos aprovar uma legislação de imprensa que impeça abusos das empresas jornalísticas e, consequentemente, proteja a sociedade. É o que a Inglaterra e a Argentina estão fazendo.
Zé Dirceu
Dirceu atribuiu essa falha à falta de maioria do poder no Congresso, mas é evidente que houve mais que isso. Faltou, mais que maioria parlamentar, a firmeza convicta que se observa, por exemplo, em Cristina Kirchner.
Como Lula poderia levar adiante um projeto de tal envergadura enquanto mostrasse pelos barões da mídia uma reverência tão grande a ponto de comparecer ao funeral de dois deles, Frias e Roberto Marinho?
Mais uma boa pergunta foi feita a Dirceu pelos militantes petistas. Por que o governo não estimulou o surgimento de vozes alternativas ao conservadorismo das grandes corporações?
Especificamente: por que foi mantida a mesma lógica de destino de verbas publicitárias de sempre? Foi preciso que um levantamento viesse à luz para que soubéssemos que a Carta Capital, tão acusada pela direita de ser chapa branca, recebe na verdade migalhas da publicidade estatal.
As Organizações Globo – de Jabor, Merval, Noblat, Míriam Leitão, Sardenberg, Magnolli, Kamel etc etc – estão no extremo oposto da Carta Capital mesmo quando a audiência da tevê desaba a níveis inéditos e a circulação do jornal vai na mesma direção.
Alguém consegue explicar esse disparate?
Dirceu também não. Ele admitiu que alguma coisa poderia ter sido feita aí.
Deveria. Até porque o Brasil tem experiência sobre o que a mídia pode fazer quando faltam freios. É de domínio público o papel das grandes empresas de jornalismo no golpe de 1964, e na desestabilização, antes, de Getúlio Vargas.
Existe jurisprudência, portanto.
O PT fez pouco aí. Ou nada. Com isso, ganhou corpo a tese esdrúxula e cínica de que regulamentar a mídia é “censurar”.
Faltou aí, mais uma vez, competência na execução. Dados os absurdos cometidos pela mídia – a Veja chegou a publicar um dossiê que afirmava que Lula tinha conta no exterior, depois de admitir não ter tido capacidade de provar nem de desmentir as acusações – não seria tão difícil assim convencer a sociedade da necessidade de estabelecer novos parâmetros para o jornalismo.
O ensino público, a saúde pública — o progresso em pontos tão vitais foi também frustrante nestes dez anos. Parece faltar talento gerencial ao PT, e isso limita o alcance de seus projetos.
Não basta ter boas ideias: é preciso materializá-las. E isso advém de pessoas não apenas bem intencionadas, mas competentes administrativamente. Talvez a cultura do compadrio para preencher cargos executivos tenha cobrado um preço aí.
Com tudo isso, fica teoricamente aberta no Brasil a porta para um projeto que alie a visão acertada de reduzir a desigualdade com uma execução mais fina e mais competente.
Mas não se vê nada disso na cena política nacional. O que se observa, na oposição, é o velho nhenhenhém reacionário — e deslocado no tempo e no espaço – do PSDB.
Isso pode dar um tempo extra ao PT para que se aprimore na execução – desde que reconheça o quanto tem que progredir aí.
Paulo Nogueira
No Diário do Centro do Mundo
Leia Mais ►

Uma boa leitura para os homens

Marcela Serrano
A primeira e única pessoa até hoje a me falar sobre a chilena Marcela Serrano foi a minha amiga Flavia Boni Licht. Arquiteta e pessoa sensível, ela me contou, com entusiasmo e emoção, sobre um dos melhores livros que já havia lido: O Albergue das Mulheres Tristes. Gostou tanto que viajou ao Chile para conhecer Chiloé, a ilha onde a história se desenrola. Decidi conhecer essa autora dedicada ao mundo feminino. Na Feira do Livro (de Porto Alegre) de 2012, acompanhada por outra amiga, a jornalista Fabiana Kloeckner, fui de banca em banca perguntando por Marcela Serrano. A resposta, surpreendente, era sempre a mesma: “Não temos nada”. Alguns, mais gentis,  pesquisaram em seus computadores. Nada.
O encontro se deu na área internacional da Feira. Duas livrarias ofereciam obras da chilena. Com exceção de O Albergue das Mulheres Tristes. Comprei Nosotras que nos queremos tanto e Lo que está em mi corazón. Encomendei o Albergue. Só consegui as versões em espanhol. Comecei o encontro por Nosotras, o primeiro e premiado livro da autora, filha do  ensaísta Horácio Serrano e da novelista Elisa Pérez Walker (Elisa Serrana). Não consegui parar. O impacto foi grande demais. Todos os meus sentidos ficaram em alerta. Abandonei as outras leituras para me dedicar a Marcela Serrano. Já devorei quatro de suas obras – Nosotras que nos queremos tantoLo que está em mi corazónEl Albergue de las Mujeres Tristes e Dez Mulheres, a única que encontrei em português – e encomendei outras duas. O livreiro fez um alerta: vão demorar a chegar. Incrível! Seguimos de costas para a América Latina.
Marcela explora o mundo feminino, dá voz às mulheres e aos seus sentimentos. Um mundo que ela conhece bem. É a quarta de cinco irmãs e tem duas filhas. A maioria de suas personagens está na faixa dos 30/40 anos, é chilena e fala da vida em família, dos companheiros, das amizades, da profissão, dos vícios. Os relatos sempre giram em torno das relações com os homens: amigos, companheiros, pais, irmãos, avôs. Eles aparecem na fala e sob a visão das mulheres. Apenas em O Albergue – dos quatro livros que li – um homem se torna protagonista, expondo suas desilusões e medos.
Sugiro às mulheres presentearem os homens com livros de Marcela e a eles que façam uma imersão na obra dessa chilena, nascida em 1951. A leitura – estou certa -  vai ajudá-los, principalmente aqueles que se queixam de não entender o sexo oposto. Carmens, Guadalupes, Camilas, Franciscas, todas deixam claro por que amam ou desprezam seus companheiros. Simona, de Dez Mulheres, decidiu-se pelo divórcio depois de 20 anos, apesar de amar o marido. Motivo: ele dava mais atenção aos jogos de futebol na TV do que a ela e à sua depressão. Outras consideram o homem um mal necessário. Sentem-se vazias sem um companheiro. Há também as que passam os dias sonhando com o príncipe encantado e as que não acreditem na sua existência. Esse mosaico é revelador para os homens que pretendem se relacionar amorosamente bem com as mulheres,
Em seus pensamentos e falas, as personagens deixam transparecer uma paixão de Marcela: o cinema. Muitas relacionam pessoas e situações a filmes atuais e antigos. Também são citados escritores e poetas chilenos e estrangeiros. As descrições dos lugares revelam conhecimento profundo do Chile e de outros países, como a França, onde Marcela estudou, e a Itália, para onde partiu com o primeiro marido (está casada há mais de 20 anos com o terceiro) após o 11 de setembro de 1973, quando Allende foi morto. Viveu algum tempo em Chiapas no México para escrever sobre o levante Zapatista em Lo que está en mi corazón. 
Ao mesmo tempo em que expõe as alegrias e as dores das mulheres, Marcela lembra a história recente do Chile: o golpe sofrido pelo governo Allende, a ditadura, as torturas, as mortes, o exílio, o plebiscito, que derrubou Pinochet (o filme No, de Pablo Larraín, mostra bem como a oposição trabalhou para derrubar o ditador no voto).  Ela mesma foi uma exilada. Retornou ao Chile. Publicou sua primeira novela aos 40 anos, em 1991.
Marcela repudia o rótulo de que escreve para mulheres. No lançamento de Dez Mulheres, em Montevidéu, em novembro de 2012, declarou: “Dizer que escrevo para mulheres é de um sexismo feroz”. Para esse seu último livro, realizou uma “pesquisa pessoal”. Queria comprovar a tese lançada com O Albergue, de que “todas as mulheres, de uma forma ou de outra, têm a mesma história para contar”. Surpreendeu-se ao ver que, passados, 20 anos, tudo continua igual.
Trecho de Dez Mulheres – depoimento de Francisca, uma das mulheres
“Meu nome é Francisca — até o meu nome é comum, quantas Franciscas cada uma de vocês conhece? — e acabei de fazer quarenta e dois anos, uma etapa complicada. Você é jovem, mas nem tanto, ainda não é velha, mas já é um pouquinho, nem uma coisa nem outra, transição de uma coisa para a outra, começo de decadência. Às vezes me dá vontade de ter envelhecido, de ser uma anciã que já resolveu todas as suas expectativas.”
…………………………………………….
“Deixem-me contar uma coisa. Um dia meu marido me acusou de ser frígida. Coitadinho, demorou para notar! Neguei, para acalmá-lo. Eu nunca tinha me perguntado se era frígida ou não, nem me interessava por uma definição a respeito disso. Só sabia dos estados de absoluta indiferença em que mergulhava. Mas também conheço outros estados: os de paixão, os de indignação. Como todo mundo! E me apego às minhas coisas, e morro de amor e de gratidão e de masoquismo quando não estou paralisada.
Vou dar um exemplo. Só existem dois machos na minha vida. Meu marido e meu gato. Cheguei à conclusão de que ambos saíram do mesmo molde e de que há algo insano na minha maneira de amá-los.
Meu gato é um antipático. Ele é enorme, barrigudo, tem listras vermelhas e amarelas (eu o chamo de “meu tigre” por mais que as minhas filhas me gozem). Não tenho dúvida de que me ama, mas está sempre fugindo, como se achasse que fora de casa tudo é melhor. Não é fácil retê-lo, acho revoltante que ele viva a melhor das vidas à minha custa: é dono de uma casa com comida, afeto e calor, e além disso tem todo o quarteirão para correr pelos tetos e brigar. É um brigão nato. Sempre aparece ferido, com arranhões, sangue ou com menos pelo. Eu cuido dele mais que de mim mesma, passo álcool nas feridas, levo ao veterinário por qualquer coisa. Toda noite vou até o meio da rua e começo a chamá-lo, às vezes numa hora bastante avançada, de pijama, e nesse momento as minhas filhas juram que não me conhecem. Não consigo dormir enquanto ele não aparece e me levanto mil vezes até tê-lo nos meus braços. Podem dizer que é inútil amar esse gato, mas não é: uma vez que ele se entrega, é o gato mais doce do mundo. Sua principal e mais surpreendente característica é que responde quando eu o chamo. Só responde a mim, a mais ninguém. Sempre me responde, e por isso sempre o encontro.
Digamos assim: se não fosse por esta particularidade — porque ninguém vai me negar que é uma particularidade —, ele já teria sumido faz tempo. O que nos permitiu ficar quase oito anos juntos foi a minha tenacidade somada ao seu comportamento singular. Ele dorme comigo e no meio da noite levanta uma das patas — que usa como se fossem mãos humanas — e me faz um carinho no rosto. Quando estou com frio, aperto-o contra mim e ele se entrega, com absoluta docilidade.
Também é medroso: lá fora, na rua, é um valentão, mas em casa basta ouvir um ruído fora do cotidiano que imediatamente vai se esconder correndo. Quando a campainha toca, se a voz na porta é masculina ele fica apavorado e se enfia embaixo da minha colcha. Como era de se esperar, mais de uma vez alguma das meninas se sentou em cima dele porque se jogou na minha cama e não o viu. Em poucas palavras, é fóbico, tem pavor de homens. Além disso, é arrogante. A situação mais típica é a seguinte: ele sai de manhã para as suas tropelias diárias e não chega até de madrugada. Eu fico quase doida procurando-o e já estou desesperada pensando que foi atropelado por um carro a dez quadras de casa, quando ele aparece, todo contente, pousa os olhos em mim com uma indiferença profunda e se pudesse falar me diria, sem o menor sinal de arrependimento: a culpa é toda sua.
Bem, quando me perguntam por que escolhi, dentre todos os gatos que povoam o universo, aquele que mais me faz sofrer, eu respondo: porque vale a pena, acreditem. Ele me ama.
Exatamente o que diria do Vicente.”
Obras de Marcela Serrano
  • Nosotras que nos queremos tanto, Los Andes, Santiago, 1991 – Nós que nos amávamos tanto, editado em português pelo Grupo Editorial Record – R$ 42,90
  • Para que no me olvides, Los Andes, Santiago, 1993
  • Antigua vida mía, Alfaguara México, Ciudad de México, 1995
  • El albergue  de las mujeres tristes, Alfaguara México, Ciudad de México, 1998 – O Albergue das Mulheres Tristes, editado em português pelo Grupo Editorial Record – R$ 42,90
  • Nuestra señora de la soledad, Alfaguara México, Ciudad de México, 1999 – Nossa Senhora da Solidão, editado em português pelo Grupo Editorial Record – R$ 32,90
  • Un mundo raro, Mondadori, 2000
  • Lo que está en mi corazón, Planeta, 2001 – Editado em Portugal com o título O que está no  meu coração
  • El cristal del miedo, escrito em parceria com Margarita Maira; Ediciones B, 2002,
  • Hasta siempre, mujercitas, Planeta, 2004 – Editado em Portugal com o título de Até Sempre, Mulherzinhas
  • La llorona, Planeta, 2008 – La Llorona, editado em português pela Primavera Editorial – R$ 34,70
  • Diez mujeres, Alfaguara, 2011 – Dez Mulheres, editado em português pela Objetiva – R$ 39,90. A versão digital sai por R$ 26,90
Núbia Silveira
No Sul21
Leia Mais ►

Santa Catarina sitiada

Passava da meia-noite e o auxiliar de cozinha Eron de Melo, de 19 anos, estava a apenas dois pontos de ônibus de sua casa. No retorno de uma visita à namorada, era o único passageiro que transitava pela Estrada Dário Manoel Cardoso, no bairro dos Ingleses, em Florianópolis, na quinta-feira 31. Tomou um susto ao ver um homem armado abordar o motorista, ordenar que ele descesse e atear fogo na cabine. O jovem tentou fugir pela porta traseira, mas ela estava fechada. Decidiu pular a catraca e atravessar as chamas. Tornou-se a primeira vítima da nova onda de ataques promovida por facções criminosas em Santa Catarina. Com o rosto, a parte de baixo das pernas e um dos braços queimados, recebeu atendimento na UTI do Hospital Governador Celso Ramos. Está fora de perigo, mas não quer falar com jornalistas. Teme represálias, justifica a família.
Em sete dias, a Polícia Militar registrou 60 ataques em 19 municípios catarinenses. Ao menos seis atentados ocorreram na madrugada da quarta-feira 6, como a detonação de um artefato explosivo na casa de um agente penitenciário em Chapecó. Ninguém ficou ferido. Os principais alvos são bases da PM e ônibus: 20 foram incendiados. Somados aos 27 destruídos na onda de violência ocorrida em novembro, os prejuízos somam mais de 14,4 milhões de reais, estimam as empresas de transporte.
A situação repete a onda de atentados de novembro que resultou em três mortes e 54 prisões. Foto: Gilmar de Souza/ Ag. RBS/ Estadão Conteúdo
A situação repete a onda de atentados de novembro que resultou em três mortes e 54 prisões.
Foto: Gilmar de Souza/ Ag. RBS/ Estadão Conteúdo
Apesar das cenas de terror, o governador Raimundo Colombo (PSD) garante que a situação está sob controle e descartou o apoio da Força Nacional. Em vez disso, negocia com o Ministério da Justiça a transferência de presos de maior periculosidade para penitenciárias federais.
“Não tenho como dizer quando os ataques vão cessar. Mas tudo que está ao nosso alcance foi feito. Intensificamos o policiamento e prendemos 27 criminosos. Alguns deles foram surpreendidos antes dos ataques, com garrafas PET cheias de gasolina. E a PM está fazendo a escolta de ônibus nos itinerários de maior risco”, explica o secretário de Segurança Pública, César Augusto Grubba.
Em novembro passado, foram registrados 68 ataques pelo estado. A PM prendeu 54 suspeitos, 20 deles adolescentes. Três homens foram mortos em confrontos com a polícia. No início da crise, o governo atribuiu os ataques ao que chamou de “efeito Fantástico”. “É uma imitação, uma cópia. No domingo passou na tevê uma matéria sobre esses ataques em São Paulo. Os criminosos a assistem e fazem igual”, afirmou Grubba à época. Não tardou para a simplista avaliação cair por terra.
De acordo com as investigações, as ordens para os atentados de novembro partiram de dentro dos presídios. São atribuídas ao Primeiro Grupo Catarinense (PGC), facção criminosa que surgiu no sistema prisional e controla parcela significativa do varejo de drogas no estado. Embora não possa ser apontada como única motivação, os ataques começaram em represália às torturas sofridas por detentos no presídio de São Pedro de Alcântara, conforme revelou um vídeo gravado pelos próprios internos. Nas imagens, um grupo de carcereiros entra em uma cela e começa a disparar balas de borracha e a desferir violentos golpes contra presos, aparentemente sem qualquer motivo ou reação.
Segundo os relatos das vítimas, a tortura seria um revide à morte da agente penitenciária Deise Fernanda Melo Pereira, de 30 anos. À frente do grupo estaria o diretor do presídio, Carlos Alves, marido da servidora assassinada na porta de sua casa, em 29 de outubro. Após a divulgação do vídeo pela mídia, Alves pediu afastamento.
Por trás da nova onda de violência há outro episódio de tortura contra presos, dessa vez no Presídio Regional de Joinville. Mesmo em férias, João Carlos Buch, juiz corregedor do Sistema Prisional, foi procurado por familiares de detentos em 21 de janeiro. O magistrado fez uma visita-surpresa ao local e conversou com cerca de 180 internos, que confirmaram os relatos de agressões e mostraram as marcas de hematomas e feridas espalhadas pelo corpo. “Solicitei as gravações do circuito interno da cadeia e, para a minha surpresa, elas foram entregues.” As imagens são fortes. No pátio do Pavilhão 4, os presos, desarmados e nus, foram obrigados a permanecer de joelhos e com as mãos entrelaçadas sobre a cabeça, enquanto os agentes penitenciários, pelas costas, disparavam granadas de efeito moral, gás pimenta e tiros de armamento não letal contra os internos.
Toma lá. Um vídeo mostra PMs em ação contra presos sem defesa. sta seria a causa dos ataques. Foto: Reprodução de vídeo
Toma lá. Um vídeo mostra PMs em ação contra presos sem defesa.
Esta seria a causa dos ataques.
Foto: Reprodução do vídeo - Assista-o abaixo
As imagens vieram a público em 2 de fevereiro, (assista abaixo), um dia após os primeiros atentados ocorridos em Joinville. Mas o juiz corregedor assegura que determinou imediatamente a instauração de um inquérito policial para apurar os fatos. “Esse lamentável episódio de tortura foi um dos fatores determinantes para a nova onda de atentados. Em novembro do ano passado, Joinville parece ter sido poupada dos ataques que se multiplicaram pelo estado. Agora, tornou-se o principal alvo”, comenta Buch. Dos 60 casos registrados na última semana, 18 ocorreram no município localizado a 180 quilômetros da capital.
A despeito dos casos de agressão, o governo estadual credita os ataques a outros fatores. “A PM intensificou o combate à criminalidade, sobretudo ao tráfico de drogas. Prendemos 14 suspeitos ligados ao assassinato da agente penitenciária Deise Pereira e muitos parecem estar insatisfeitos com as transferências de presos para outras unidades do sistema”, diz Grubba. Mas e a violência contra os presos? “Também contribuiu, mas os responsáveis estão sendo punidos.” Segundo o secretário, o inquérito dos abusos cometidos na penitenciária de São Pedro de Alcântara foi concluído e encaminhado à Justiça. No mais recente episódio, o do presídio em Joinville, 14 funcionários foram afastados.
A despeito das considerações do secretário, o ouvidor nacional de Direitos Humanos, Bruno Renato Teixeira, vai encaminhar um ofício às autoridades estaduais com pedido de explicações. “Em novembro, estive em São Pedro de Alcântara e mediei um acordo com a secretaria de Justiça e o Departamento de Administração Prisional de Santa Catarina. O governo se comprometeu a melhorar os canais de comunicação entre familiares e presos transferidos para outras cidades e punir os agentes envolvidos em casos de tortura”, diz o ouvidor. “Só que o acordo, pelo visto, não foi cumprido.”
O resultado foi desastroso. Os abusos, avalia Guaracy Mingardi, ex-subsecretário nacional de Segurança Pública, reforçaram o poder das facções criminosas dentro dos presídios. “O Estado deveria garantir a proteção e a integridade física do apenado. Se o preso se sentir ameaçado pelos carcereiros, pode buscar essa proteção nas organizações criminosas.”
Rodrigo Martins
No CartaCapital
Leia Mais ►

Kassab vira réu no caso Controlar

Juiz aceita denúncia criminal e ex-prefeito vai responder a processo por causa de suposta fraude em contrato para a inspeção veicular
O ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD) agora é réu em ação criminal. Ele é acusado de violar a Lei de Licitações na contratação da empresa Controlar, responsável pela inspeção veicular na maior cidade do País - segundo o Ministério Público Estadual, o contrato causou prejuízo de R$ 1,1 bilhão aos cofres públicos e aos proprietários da frota de carros registrados na metrópole.
Em despacho de uma página e meia, do dia 1.º de fevereiro, o juiz Djalma Rubens Lofrano Filho, da 7.ª Vara Criminal da Capital, recebeu a denúncia do Ministério Público e mandou abrir processo contra Kassab e o empresário Ivan Pio de Azevedo, ex-presidente da Controlar. Eles podem pegar pena de 2 anos a 4 anos de detenção e multa.
"O recebimento da denúncia não significa a constatação de nenhuma irregularidade no contrato", disse o advogado Pierpaolo Bottini, que defende Kassab. Já o criminalista José Luis Oliveira Lima, que defende Azevedo, alegou que a denúncia contra seu cliente "é manifestamente improcedente".
O magistrado Lofrano Filho fundamentou sua decisão contra os réus afirmando: "Verifico que as provas que instruem a denúncia demonstram a materialidade do crime e suficientes indícios a atribuir autoria. Não é caso de rejeição liminar".
Ele mandou citar os réus para responderem à acusação, por escrito, no prazo de 10 dias, conforme prevê o artigo 396-A do Código de Processo Penal. "Como de praxe, requisitem-se as folhas de antecedentes e certidões eventualmente constantes."
A denúncia, subscrita pela procuradora de Justiça Marcia de Holanda Montenegro, foi apresentada em outubro à 14.ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça. Na ocasião, Kassab exercia o mandato de prefeito de São Paulo - por isso, detinha foro por prerrogativa de função. Quando deixou o Palácio Anhangabaú, no último dia de 2012, ele perdeu o foro especial e os autos foram remetidos pelo TJ à primeira instância da Justiça.
"Trata-se de autos vindos do Tribunal de Justiça, instância competente para processar e julgar o presente feito, já que um dos acusados deste processo, Gilberto Kassab, cumpriu até 31 de dezembro de 2012 mandato eletivo de chefe do Poder Executivo do Município de São Paulo", assinalou o juiz. O magistrado destacou que, diante do término do mandato e "com a conclusão de sua administração municipal", era "forçoso reconhecer o término de seu foro privilegiado". Por isso, o caso devia ser "remetido para a 1.ª instância do Poder Judiciário".
Vantagens
Kassab e Azevedo são acusados formalmente por crimes definidos no artigo 92 da Lei 8666/93 (Lei de Licitações), que proíbe a concessão e o recebimento de vantagens durante processos licitatórios. Para o Ministério Público, o contrato assinado pela Prefeitura em 1996 (durante a gestão Paulo Maluf) com a Controlar tinha prazo de dez anos e ficou congelado até Kassab ressuscitá-lo em 2008, dois anos após seu término.
Além disso, segundo a denúncia, a Controlar não tinha capacidade técnica exigida no início do contrato para a prestação do serviço e cobrava 20% mais do que o valor considerado justo para a inspeção. Por fim, a empresa teria dado garantias financeiras falsas para ganhar a licitação.
Em novembro de 2011, o Ministério Público Estadual apresentou uma primeira acusação contra o então prefeito na área civil, por suposto ato de improbidade administrativa. Kassab chegou a ter os bens bloqueados judicialmente - ele reverteu 40 dias depois a decisão no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Além dele, o ex-secretário do Verde e Meio Ambiente Eduardo Jorge também é alvo da ação civil pública. Nesse processo, a Promotoria contestava a prorrogação do contrato da Controlar por dez anos com efeito retroativo. Queria que ele fosse declarado nulo e nova licitação para realização da inspeção veicular em São Paulo fosse feita - a Justiça ainda não julgou o mérito dessa ação. À Justiça, a Controlar negou as fraudes assim como os demais acusados. Ontem, informou que não vai se manifestar.
No Estadão
Leia Mais ►

Sinal verde para Israel atacar a Síria

Ninguém duvida que o bombardeio da base militar de Damasco foi cometido pela força aérea israelense.
Acusado, o governo de Israel não disse nem sim, nem não. Como quem fala, consente, é fácil adivinhar a resposta. De qualquer modo o Ministro Ehud Barak insinuou claramente que seu país foi o responsável pela ação.
A uncia dúvida é que se o alvo foi um centro de pesquisas militares, onde talvez, apenas talvez, se estocasse armas químicas, ou um comboio de caminhões estacionado no local, carregado com baterias de mísseis anti- aéreos, destinados ao Hisbolá.
Aparentemente, Israel confirmou a primeira hipótese.
Seja lá como for, o que não deixa de ser condenável.
Bombardear um país usando aviões sem identificação não passa de terrorismo de estado.
Sem contar que a Convenção de Genebra e as leis internacionais condenam ataques militares a um país com quem não se está em guerra.
Mas Israel não dá a menor atenção a esse tipo de coisas.
Segundo sua doutrina de segurança, o país está perpetuamente ameaçada pelos vizinhos islâmicos hostis e tem obrigação de preventivamente agir pela força para evitar o perigo.
No caso, o possível uso pelo governo Assad de suas armas químicas e bacteriológicas contra os israelenses.
Só que Assad cansou-se de dizer que só lançaria mão delas para atingir tropas de potências estrangeiras que invadissem seu país. Para o que desse e viesse, conservaria todas elas ,não as entregando a ninguém, nem mesmo ao aliado Hisbolá.
Se, porém, caíssem nas mãos dos rebeldes, eles não teriam interesse nenhum em provocar guerra contra Israel, no momento em que precisam de todos os seus recursos para enfrentar as forças de Assad.
E o Hisbolá não seria louco de usar armas de destruição em massa contra Israel, sabendo que sofreriam a mais terrível retaliação.
Não se pode comparar Assad com Ahmadinejad ou Saddam Hussein, ambos punidos pelo Ocidente por supostamente desenvolverem programas nucleares militares.
Afinal, Assad não ameaçou Israel de destruição.
E não está sozinho na posse de armas químicas e bacteriológicas.
EUA, China, Rússia, Reino Unido, Japão, Iraque, Índia e África doSul também tem. E em grande quantidade.
Ninguém aprovaria o bombardeio desses países para destruir seus estoques.
A Rússia, por exemplo, condenou duramente a atitude de Israel, salientando o desrespeito às leis internacionais e aos princípios da ONU.
Recep Erdogan, primeiro- ministro da Túrquia – aliás, país inimigo da Síria- declarou que Israel tornou-se um “estado do terror.”
E a Arábia Saudita, talvez a maior fornecedora de armas para as forças anti-Assad, criticou o ataque contra os sírios, por ela chamado de “flagrante violação”.
E os Estados Unidos, terra do direito e da justiça?
Autoridades militares afirmaram que o alvo dos aviões de Telaviv foram baterias de mísseis anti- aereos, que seriam levados ao Hisbolá pelos caminhões da base síria.
E Obama advertiu Assad para não transferir armas que desabilitariam a região.
Aqui há dois pontos a analisar.
O presidente americano passou por cima da ação israelense, ignorando sua ilegalidade. Dizem mesmo os analistas que ele deu sinal verde para Netanyahu.
Sua tácita aprovação ao bombardeio faz supor que esse fato foi de fato real.
Em segundo lugar, noto que Obama limitou-se a falar duro com a vítima, Assad, como se ele fosse culpado pelas bombas lançadas sobre seu país.
No tortuoso raciocínio de Obama, seria isso mesmo, tanto que o presidente americano alertou que não desse armas ao Hisbolá que “desestabilizariam” a região.
Sucede que se tratava de artilharia anti- aérea, armas defensivas, portanto, cujo objetivo era simplesmente proteger o Líbano (país do Hisbolá) contra bombardeios.
Parece que, para Obama e Israel, o Hisbolá não tem o direito de se possuir mísseis anti- aéreos para que os aviões israelenses possam bombardear o Líbano sossegados, sem riscos.
Parecido com um episódio que aconteceu pouco antes de começar a 2ª Guerra Mundial.
Os checos haviam fortificado suas fronteiras com a Alemanha temendo uma invasão.
Nas negociações de paz com a Inglaterra e a França, Hitler,fez como Obama, exigiu que o governo de Praga desmontasse todas as fortificações de defesa.
Amedrontados os checos cederam e Hitler, com o sinal verde dos ingleses e franceses, aproveitou-se para invadir e conquistar sem luta a então Checoslováquia.
Voltando à Síria, alguns analistas dizem que a aprovação de Obama estendeu-se a algo mais do que o bombardeio da base de Damasco.
Também contaria com suas bênçãos um estudo do alto comando israelense que objetiva não apenas promover mais bombardeios, como também invadir e ocupar uma “zona de segurança”com 10 quilômetros de profundidade.
Isso para evitar que sobrasse para Israel disparos de mísseis ou canhões vindos por engano da luta no território sírio.
Ideia estranha. Não lembro de haver um precedente histórico pelo menos nos últimos, digamos, 70 anos.
Se fosse aceitável, todos os outros países limítrofes com a Síria – Turquia, Iraque, Jordânia e Líbano – teriam direito à mesma concessão territorial, às custas da integridade da Síria.
Na verdade, Israel já tem sua “zona de segurança” com as dimensões propostas: as colinas de Golan, conquistadas na guerra de 1967.
Nesse território, Israel anunciou a instalação de um aparato militar, que lá permaneceria, provisoriamente, até se celebrar um acordo formal de paz com a Síria.
Mas, o governo de Telaviv fez mais do que isso: construiu assentamentos para 20 mil israelenses e está colonizando a região.
Parece que não está satisfeito, quer duplicar o território sírio “provisoriamente”anexado através desta zona de segurança.
As informações sobre os planos de ataque e de expansão de Israel na Síria, com apoio de Obama, ainda precisam ser confirmadas para serem aceitas como fatos.
No entanto, poucas dúvidas existem sobre a aprovação americana ao bombardeio ilegal (e mesmo criminoso) da base militar em Damasco executado por aviões israelenses.
Outro sinal verde também foi dado.
Ao deixar de condenar a ação, a ONU liberou Israel, de fato, para continuar desafiando as leis internacionais.
Luiz Eça
No Gilson Sampaio
Leia Mais ►

A Coca-Cola e o campo de distorção da realidade

Manifestação do dia 4 de outubro de 2012 - POA
Todo ser humano é o mestre da sua própria realidade. Estamos criando ela o tempo todo, mas temos a tendência de entregar o nosso poder para autoridades externas que se proclamam conhecedoras da verdade e alegam querer o melhor para nós. 

Por trabalhar na área da educação, faz algum tempo que acompanho e observo as publicidades produzidas pela Coca-cola, que tem aproveitado a busca intrínseca do ser humano de descobrir a si próprio, de modo a associar o seu produto a esta necessidade e, assim, criar maior mercado de consumo.
Associação do produto à identidade das pessoas
"Não saber quem somos" é o incentivo por trás da mudança, crescimento e expansão em nosso mundo. Guardamos uma espécie de saudade de um estado de consciência em que consigamos ser nós mesmos, sem que estejamos limitados por padrões, julgamentos ou rótulos. Este estado de consciência, ao qual me refiro, guarda os potenciais adormecidos para a liberdade e a maestria sobre nós mesmos. Na educação, trabalhamos com esta busca de identidade na formação emocional de jovens e adultos e, a cada dez pessoas perguntadas sobre quem elas verdadeiramente são, reconhecemos que, em grande parte, a maioria vive em crise: ora se identificando com suas qualidades; ora com seus defeitos; ora com traços da personalidade como profissão ou papéis sociais que cumpre, etc. 
Ao identificar-se com papéis sociais e imagens externas a você mesmo, sua consciência é colocada sobre uma gangorra, estando sempre sujeita aos altos e baixos da sua personalidade. Por este motivo, temos uma questão que move o ser humano a ir para frente, de modo a encontrar-se e libertar-se dos condicionamentos, rótulos e julgamentos, que normalmente o tiram do seu centro de equilíbrio. 
A Coca-cola, desse modo, criou uma associação do seu produto à identidade física do ser humano, sabendo que a sua auto-estima está apoiada sobre a externalidade de si e não ao seu âmago mais profundo. 
Este objetivo não é levá-lo a conhecer-se e nem explorar seu real potencial, mas manipulá-lo a tal ponto que você faça da indústria do refrigerante o seu modo e sistema de pensar. Ninguém pode organizar a própria vida sem algum sistema de pensamento. E uma vez que tenhamos desenvolvido um sistema de pensamento qualquer, viveremos em função dele. Como isto acontece? Veremos adiante.
A utilização de palavras-chaves associadas à imagem do produto da Coca-cola, constitui naquilo que conhecemos modernamente como "mapa mental". Um mapa mental é uma ferramenta poderosa no que se refere à aprendizagem, pois por meio dele conseguimos atingir as duas áreas do cérebro, emocional e racional, e fazer com que informações sejam retidas na memória de longo prazo. Porém, a forma como a Coca-cola vem utilizando esta ferramenta produz um fenômeno também conhecido na área da educação como "campo de distorção da realidade".  Vejamos a seguinte publicidade:
Aqui temos a imagem do produto associada às palavras-chaves "Abra a felicidade". Uma imagem é o método mais poderoso de comunicar uma idéia. As imagens são um meio de exercer poder sobre as pessoas, já que possuem um impacto muito forte sobre o lado emocional do cérebro. Quando elas estão associadas a palavras-chaves e estas fazem referência às necessidades dos seres humanos, ocorre um fenômeno típico: os mapas mentais tornam as pessoas subservientes a ponto de desconectá-las das suas verdadeiras necessidades, de modo que troquem suas próprias necessidades pelo produto, sem o uso da força física ou da violência. Isto é o que chamaríamos de controle invisível da mente e é algo que viceja livre nas publicidades produzidas pela Coca-cola, fazendo com que as pessoas entreguem voluntariamente o seu próprio poder e valor. Eles iludem-nos de tal forma que não precisamos ser violentamente forçados a nada; aceitamos os valores retratados pelo mapa mental como se fossem os nossos próprios e agimos de acordo com eles. Por isso, essa indústria tem criado muitas falsas imagens a respeito de felicidade que não servem a ninguém, a não ser àqueles que as constroem. Veja esta:
Mais uma vez temos a utilização da imagem associada a palavras-chaves que fazem referência às necessidades dos seres humanos. Perceba o destaque que é dado à palavra FELICIDADE. Agora olhe estas outras:


É óbvio que nunca encontraremos a felicidade numa garrafa de plástico com líquido preto, mas é desse modo que atua-se sobre o "campo de distorção da realidade". As informações devem ser alojadas na memória de longo prazo do indivíduo, a fim de que seu cérebro reproduza estas categorias de percepção e não consiga distinguir a realidade da ilusão. Como o ser humano busca por felicidade a cada respiração, a publicidade propõe verdadeiros moldes sobre os quais se vestirão nossas tendências individuais, a fim de que possamos encontrar rapidamente em nossa memória os arquivos "instalados", sob medida, pela publicidade. Isto constituirá a nossa "história incorporada". É essa "história incorporada" ou imprinting culturalinscrito no cérebro, que funcionará como princípio gerador do que fazemos, como um conjunto de disposições para a ação, através do qual sejamos levados a facilmente organizar nosso mundo a partir das escolhas, opções e comportamento de consumidor.
Derrubado o "Tatu da Copa", símbolo da Coca-cola, em Porto Alegre.
É nosso papel desvelar os modos ocultos e invisíveis com que esta indústria se utiliza para manipular a vida das pessoas e assim produzir a dominação. Quando utilizo o termo desvelar, sustento que se trata de evidenciar aquilo de que não se quer saber ou que não se quer que saiba - coisas que, de alguma forma, as pessoas sabem, mas que estão situadas num nível de profundidade onde não se vai procurá-las. Porém, não há como escondê-las por muito tempo. Abraham Lincoln sabiamente disse que pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos por todo tempo.  
Manifestação no Largo Glênio Peres.
Fato este que, no dia 4 de outubro de 2012, ocorreu uma forte manifestação popular no Largo Glênio Peres, em Porto Alegre, contra a privatização dos espaços públicos e retirada do boneco inflável "Tatu da Copa" da Coca-cola, que teve como objetivo quebrar os grilhões do mero poder e autoridade dessa indústria que cria desilusões e ilusões e fazer com que esta estrutura de poder seja vista como ela verdadeiramente é. Nosso intuito não é o de atacar a Coca-Cola, embora pareça. Ao contrário, buscamos proteger a verdade, a fim de devolver às pessoas seu poder de auto-decisão.

O que aconteceu teve realmente um valor simbólico muito grande. Mesmo que a Brigada Militar (PM) tenha respondido com violência brutal e sem justificativa, vimos uma verdade abafada, escondida, profunda, ser-nos revelada: imprinting cultural ou "história incorporada", que nos é dada pelas idéias convencionais da sociedade de consumo, representadas ali pela Coca-Cola, sofreu o fermento da rejeição e da inadaptação, característicos de nossa cultura profundamente adolescente, que procura, ataca e subverte, agressivamente, as regras impostas pelo "status quo". 

E isto é uma ameaça intolerável e inaceitável para a hierarquia reinante, que anseia por controle porque tem medo. É o medo das mudanças. No entanto, a mudança é a única coisa que é inevitável.  Há um número cada vez maior de pessoas que vêm pensando diferente, fazendo novas perguntas e questionando a ordem existente.  O que faz com que convidem uma nova dinâmica e uma nova energia para entrar e acordar a sociedade que está dormindo o sono rígido e sufocado dos velhos hábitos, vendidos em garrafas de plástico com líquido preto, sob a falácia e distorção de que aquilo é a felicidade. Estas imagens irreais de felicidade não têm mais nenhuma conexão com o coração humano e esperam para ser transformadas por você, por pessoas inspiradas que ousam abrir novas perspectivas e que ajudem as outras a se conectar com seus corações e com seus verdadeiros desejos.

Eduardo Sejanes Cezimbra
No Blog de Um Sem-Mídia
Leia Mais ►

Feliz Ano Novo

http://thumbs.dreamstime.com/thumblarge_727/1352737566t9G6BU.jpg
 2013 - Ano da Serpente 
Leia Mais ►

Silas Malafaia e a Teologia da Estupidez: Homossexuais e Bandidos?

http://1.bp.blogspot.com/-u9kQDlsZIbU/UGpnXPWlisI/AAAAAAAAkbI/P215zAVoZIQ/s1600/malafaia.PNG 
Não há surpresas ou novidades quando o pastor Silas Malafaia fala. Cada vez em que é entrevistado ou empresta sua voz para algum programa de natureza política ou religiosa, assistimos e ouvimos o mesmo desfile de preconceitos, inverdades e sofismas. Bem sabemos que os disparates e infâmias habituais de sua retórica convicta e fundamentalista enojam e irritam. Entretanto, convém não perder a capacidade, e a paciência, de nos chocarmos e nem “acomodar com o que incomoda”, como diz a letra de uma bela canção.
E por que não devemos nos calar ou tão simplesmente dar de ombros, ignorar a ignorância? Porque o silêncio nos torna cúmplices da ignorância. Aliás, se é verdadeiro que em certas circunstâncias o silêncio pode ser mais eloquente do que a palavra, em outras o silêncio é o adubo fértil para o crescimento da ignorância e da barbárie. Por isso, cabe não calar. Falar a verdade ao poder e criticar os preconceitos é combater incansavelmente contra o silêncio que naturaliza ambos.
Voltemos, pois, a Malafaia, este paladino e missionário do ódio. Coube a jornalista Marília Gabriela a hercúlea tarefa de suportar o discurso de Malafaia, entrevistando-o em seu programa “De Frente com Gabi”. E se a jornalista por vezes se exaltou com as afirmações do pastor ou por este a atropelá-la em suas perguntas e raciocínios, penso que ela aguentou em nome de um compromisso com a verdade e com a sensatez; afinal, a mentira para ser desmascarada deve ser antes exposta.
O que disse o pastor desta vez? Num exemplo cristalino de homofobia cordial, disse que amava os homossexuais da mesma forma como ama os bandidos: “Eu amo os homossexuais como amo os bandidos”. Este amor misericordioso que Malafaia afirma cultivar não passa de um ardil ideológico que finge aceitar e acolher mas apenas para tentar “corrigir”, “reorientar”, “ajustar”. Em outras palavras, domesticar e “curar” a homossexualidade segundo os “meus valores” e “minha verdade”. Não creio que os homossexuais precisem deste amor denegador da liberdade e da autonomia individual. O amor de Malafaia é um amor tutelar, de correção moral e interesseiro.
A correlação valorativa entre “homossexuais” e “bandidos” é odiosa. Ela objetiva reforçar o vínculo entre homossexualidade e desvio, sustentando, sorrateiramente, a ideia de que a homossexualidade assim como o fenômeno da delinquência atenta e prejudica a sociedade. Em outros termos, a analogia diz o seguinte: os bandidos existem, são um fato social, mas precisamos mudá-los, puni-los e “ressocializá-los” para que não lesem a sociedade. Sem afirmar diretamente, Malafaia pensa o mesmo sobre os homossexuais; eles são um fato social, existem, mas precisamos corrigi-los para que não lesem à família, os bons costumes, às leis naturais, à palavra de Deus etc..
A piedade e a compreensão amorosa do pastor são, com efeito, estratégias retóricas para a normalização pastoral e sexual. Nesse ponto, Malafaia se serve abundantemente de preconceitos e concepções de gênero, família e sexualidade que não se sustentam, nem do ponto de vista do conhecimento científico nem socialmente – haja vista todas as transformações culturais, sociais e jurídicas das últimas décadas.
Tentando atenuar os aspectos mais, digamos, etnocêntricos e interessados de suas opiniões, o pastor recorre a ciência em vez da religião pura e simplesmente; refugia-se em argumentos pseudo-científicos e pesquisas que nunca cita a fonte, Malafaia busca, com isso, preencher de autoridade, poder de verdade e neutralidade os seus preconceitos e sua intolerância. À bem da verdade, Malafaia achincalha a ciência – mais uma razão para não nos calarmos.
Quando prenuncia, num claro julgamento moral e especulativo, que a formação de famílias homoparentais ou a criação de filhos por casais homossexuais terá consequências sociais e psicológicas nefastas e nocivas, Malafaia esquece que, segundo Freud, a família independentemente das orientações sexuais do casal é a origem e o palco da maior parte dos problemas emocionais e psíquicos por conta dos conflitos subjetivos que envolvem a constituição do eu nas relações e identificações familiares. Aliás, a grande maioria das psicoses estudadas por Freud era produto das dinâmicas emocionais, repressivas e traumáticas da família vitoriana.
O artigo “Desconstruindo preconceitos sobre a homoparentalidade” dos psicólogos Jorge Gato e Anne Maria Fontaine cita diversos estudos psiquiátricos, psicológicos, sociológicos e antropológicos que desmentem as pré-noções estigmatizantes de que a criança em famílias homoparentais sofreria danos em seu desenvolvimento psicológico. Todos os estudos mencionados pelos autores foram unânimes na constatação da não-existência de uma excepcionalidade ou de diferenças substanciais que tornem a homoparentalidade especialmente danosa para o desenvolvimento emocional, cognitivo e sexual da criança em comparação às famílias heteroparentais. Inclusive, em algumas casos, de mães lésbicas, por exemplo, estudiosos verificaram um ambiente familiar no qual as crianças sentiam-se mais a vontade, livres e confiantes em discutir temáticas de caráter emocional e sexual, ocasionando um efeito positivo no desempenho escolar.
Em contrapartida, as dificuldades das crianças criadas em famílias homoparentais aparecem exatamente no plano das relações sociais, ou seja, os obstáculos na aceitação e reconhecimento social por conta de contextos sociais discriminatórios como a escola. Mas, ainda assim, os estudos mostraram variações importantes nesse ponto a depender do país e região.
O que podemos concluir sobre os resultados das pesquisas científicas é que os problemas que estas crianças enfrentarão no futuro decorrem precisamente  de pessoas como Malafaia. Quer dizer, do preconceito, da intolerância e da ignorância que Malafaia pratica, semeia e propaga.
Portanto, o que atrapalha e lese o desenvolvimento psicológico e social é o preconceito e a intolerância, os quais Malafaia transforma em bandeira. As religiões se tornam nocivas à humanidade quando são eivadas de ódio e ignorância por profetas fundamentalistas e intolerantes que alimentam incompreensões.
Por mais que canse, devemos continuar a combater e criticar os absurdos odiosos do pastor Malafaia, pois ele, por sua retórica e status, goza de um poder de interferência na vida social capaz de favorecer violências simbólicas e físicas contra grupos e minorias sexuais que já tem de enfrentar práticas homofóbicas em seu cotidiano. Se não quisermos cair presas da retórica do preconceito e sua violência simbólica, devemos sempre exercitar a crítica pública. É com ela que podemos cultivar uma cultura de direitos humanos e de reconhecimento capaz de transformar uma esfera pública refratária ao debate racional dos direitos e das violências sofridas por minorias e grupos vulneráveis em uma esfera pública refratária a estupidez, a barbárie e ao preconceito. Para essa transformação ocorrer, então, é preciso jamais se cansar de se contrapor ao preconceito.
___________________
Artigo “Desconstruindo preconceitos sobre a homoparentalidade”: Leia-o aqui.
Entrevista de Silas Malafaia no Programa De Frente com Gabi: assista-a aqui.
Alyson Freire
No CartaPotiguar
Leia Mais ►

PT: 33 anos

Existem coisas que apesar de haverem transitado há 33 anos permanecem tão vivas e presentes. Situações únicas que acompanharão todos ao longo de suas existências.
Soava surrealista, a qualquer um, a pretensão de trabalhadores formarem um partido político para defender suas bandeiras.
A luta pela redemocratização do país e as intensas campanhas para reposição salarial (de índices surrupiados pela ditadura) deram a experiência necessária para a formação de um partido político diferente e por isso único.
Percorreu-se períodos que não havia a segurança econômica tal era a velocidade das mudanças e vinham em volume tal que eram chamadas de “pacotes” e com igual intensidade se diluíam os efeitos e acachapavam o valor de compra do salário mínimo.
Testou-se na prática teorias econômicas e receitas do Fundo Monetário Internacional e cada vez, também na prática, o poder aquisitivo minguava.
O provérbio popular de diz que: “não há mal que sempre dure”.
Assim, ousado o Brasil pela primeira vez conduziu um operário para ser seu Presidente, substituindo um sociólogo reconhecido pelas academias e que tinha mandado esquecer o que havia escrito.
Terminadas as eleições, lembram-se?
O Fundo Monetário Internacional exigiu para liberar carta de crédito o aval de Lula, que ainda era apenas um presidente eleito, tal era a situação de descrédito.
As elites temerosas de que a chegada ao poder de um simples operário significava um risco a ordem econômica.
As previsões dessas pseudo-videntes falharam.
O Brasil estabilizou-se.
O salário mínimo começou a ter ganhos reais.
O mercado interno aqueceu-se.
O Brasil chamava a atenção do mundo. Lula se reelegeu.
Prosseguiu realizando avanços estruturais e saldando compromissos.
A dívida “impagável” com o Fundo Monetário Internacional foi saldada pela primeira vez em toda a História do Brasil.
Inserido no contexto internacional o Brasil disputou e venceu a disputa pelo direito de sediar eventos mundiais: Copa do Mundo e Olimpíada.
Anteriormente o país havia fracassado tendo em vista a situação interna.
Ousadia e coragem fizeram o Partido dos Trabalhadores lançar e eleger a primeira mulher Presidenta como afirmação da igualdade de direitos entre homens e mulheres.
Mais que isto, Dilma é parte da história da resistência à imposição ditatorial que foi implantada durante o regime de exceção.
Poderia se dizer numa frase épica que: de vitimizada nos porões da ditadura à presidência do país.
O desafio era enorme. Seguir no ritmo do governo do presidente Lula e implantar seu próprio estilo.
O Brasil é um canteiro de obras, basta lançar um olhar sobre as 12 cidades sedes da Copa do Mundo de 2014 ou sair do centro das cidades e ir aos bairros e verificar “in loco” a quantidade de casas populares que se constroem diariamente.
Há tanta coisa a se dizer e por certo tantas outras ainda por se fazer.
As classes conservadoras encontram-se aturdidas.
Não bastasse a enorme popularidade e aprovação do governo Lula, agora vem a presidenta Dilma e repete o sucesso e tem 2014...
Está se construindo a felicidade do Brasil nesses 33 anos de luta do PT de todos nós.
A grande diferença quem faz é você petista, é você, militante.
Um patrimônio político que nenhum outro partido político possui.
Por isso, nesses 33 anos de história, permita-me brindar seu engajamento.
Parabéns!

Hilda Suzana Veiga Settineri
No Guerrilheiros Virtuais
Leia Mais ►

Outra carta da Dorinha

Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como se sabe, não confessa a idade mas diz ser absolutamente falso que o número do seu primeiro telefone era 2, porque o 1 era do Alexander Graham Bell.
Ela desistiu de desfilar como madrinha de bateria neste carnaval depois do lamentável incidente, ainda não devidamente esclarecido, do ano passado, quando seu tapa-sexo engatou num agogô. Dorinha ainda não sabe o que vai fazer no carnaval, só sabe que quer manter uma distância segura de qualquer desfile, inclusive porque ainda não recuperou o tapa-sexo.
Ela está até pensando em...
Mas deixemos que a própria Dorinha nos conte. Sua carta veio, como sempre, escrita com tinta lilás em papel azul, cheirando a “Oui! Oui!”, um perfume banido em vários países.
“Caríssimo! Beijos estalados, você escolhe onde. Estou num impasse. Na verdade estou numa sauna mista, o que explica a tinta corrida, mas indecisa. Ainda não decidi como fugir do carnaval. Todos sabem que já tive meus momentos de gloria na avenida, incluindo a vez em que eu e o Clóvis Bornay fomos destaques juntos e ficamos presos na fiação durante meia hora, aproveitando para pôr as fofocas em dia.
Outra vez desfilei com os seios nus, com grande sucesso, mas, infelizmente, quando o público começou a gritar “O autor! O autor!”, o Pitanguy não apareceu.
Este ano, pensei em fazer um retiro espiritual. Eu e o meu ser interior temos nos encontrado pouco, no máximo um “oi” aos nos cruzarmos, e esta seria uma oportunidade para nos conhecermos melhor, fazer cobranças e estabelecer um relacionamento estável — desde que o safado não me corte o cigarro, a bebida e o sexo. Cheguei a procurar um convento para me informar sobre internamento numa cela até Quarta-Feira de Cinzas, mas não chegamos a um acordo, por detalhes. A soror não concordou com meus pedidos: uma cela espaçosa, para no mínimo 40 pessoas, pois eu levaria alguns amigos; colchões em vez de palha nas camas de pedra, uma geladeira, alguns canapês, um sonzão e um DJ.
Meu grupo, as Socialaites Socialistas, tenta me convencer a esquecer o trauma do ano passado e sair com elas, anonimamente. Todas usarão máscaras do Renan Calheiros, ninguém me reconheceria. Não sei. Ah, decisões, decisões. Um beijo da sua hesitante Dorinha.”
Luis Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

Um Raio-X do IPCA de janeiro

http://oglobo.globo.com/in/7513933-696-2ae/FT500A/inflacao-materia.jpg 
Primeiro ponto de análise sobre a inflação de janeiro: IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Ampliado) batendo em 0,86%: não se deixe impressionar por análises alarmistas ou por comparações indevidas com a Argentina. Nem pelo lobby dos que querem a volta dos juros altos.
A alta foi puxada por fatores pontuais, que não tendem a se repetir no tempo.
***
Vamos a um pequeno raio-x do índice.
Quando mencionar percentual (%), significa a elevação do preço referido; quando falar em ponto, significa o quanto aumentou ou diminuiu o índice final.
Esses 0,86% de aumento do IPCA se deveram aos seguintes produtos:
1. Alimentação e bebidas foram responsáveis por quase metade: 0,48 ponto.
Dentre os produtos que mais pressionaram, grande parte são alimentos diretamente afetados pelo clima, não pela demanda (como tomate, batata inglesa, cebola, hortaliças, feijão etc). Outro grupo foi o de derivados do trigo e o milho, cujas cotações internacionais foram afetadas pela seca nos Estados Unidos.
2. Despesas pessoais pressionaram o índice em 0,16 ponto.
Foi o segundo maior item de pressão. Mas só o cigarro significou um aumento de 0,09 no índice final. O reajuste foi devido ao aumento do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). O outro fator de alta foi o crescimento no rendimentos dos empregados domésticos (aumentou 0,58% em janeiro contra 0,82% em dezembro) , refletindo, aí sim, melhoria de renda e da demanda.
3. Despesas com habitação reduziram o aumento em 0,08 ponto.
Aí também houve um fator pontual jogando para baixo: a redução da conta de luz. Houve aumento nas despesas com aluguel (1,56%), condomínio (1,18%) e mão de obra para pequenos reparos (0,70%), Mas a conta de energia elétrica caiu 3,91%, captando uma pequena parte da redução da conta de luz. A parte maior será no mês de fevereiro.
Por outro lado, o fim do desconto do IPI nos automóveis novos pressionou seus preços – 1,41% de aumento e pressão de 0,05 ponto no índice final.
***
Para fevereiro se terá, do lado positivo, om impacto maior da redução da conta de luz. Do lado negativo, o impacto do reajuste do preço da gasolina. Do lado dos alimentos, uma supersafra a caminho.
***
As características da inflação atual nada têm a ver com as loucuras que dominaram o país até o plano Real. Ainda é alta para os padrões globais, fruto de um conjunto de indexadores que ainda não saíram completamente nem dos contratos nem da memória atual.
No plano conjuntural, continuará refletindo as cotações internacionais de commodities (influenciando os preços internos), os movimentos fiscais de isenção ou aumento de imposto, um resto da inflação passada, na forma de indexação.
No plano estrutural, a entrada em cena da nova classe média provocará mudanças nos preços relativos, com serviços, produtos de limpeza, telefonia e TV a cabo pressionando cada vez mais o orçamento doméstico, enquanto produtos tradicionais perdem força.
O mais relevante da história é não utilizar essa alta pontual como álibi para elevação das taxas de juros, Nenhum dos itens de pressão tem a mais leve relação com os juros praticados no mercado.
Luis Nassif
No Advivo
Leia Mais ►