8 de fev de 2013

Os outros três Pês do MP: parcial, preconceituoso e partidário

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A peculiaridade brasileira

Solidão. Às vezes a presidenta que pretende
erradicar a miséria parece isolada.
Foto: Dida Sampaio/Estadão
“Nos seus derradeiros momentos como senador, Fernando Henrique Cardoso andava pelos corredores do Congresso acompanhado por Norberto Bobbio. Digo, carregava um ensaio do pensador italiano, a analisar um assunto veementemente provocado pela queda do Muro de Berlim: ainda vale falar de direita e esquerda?
A direita mundo afora decretava o fim das ideologias, - enquanto a esquerda mostrava-se reticente. Bobbio entrou em cena e afirmou: nada disso, a dicotomia não se apaga, seria como pretender negar o bem e o mal, a luz e a sombra, a verdade e a mentira. E a verdade, no caso, é outra.
A tese de Bobbio pode ser resumida na seguinte ideia: é automática e naturalmente de esquerda quem se preocupa com os destinos dos desvalidos do mundo e se empenha pela igualdade. Recordam? Liberdade, igualdade, fraternidade. A liberdade por si só não basta à democracia, a igualdade é fundamental. Quanto à fraternidade talvez seja admissível substituí-la pela solidariedade.
A julgar pelo desvelo de ponta de dedos com que FHC carregava o livrinho (ia escrever, sobraçava, mas a obra é de porte modesto) me entreguei à suposição de que o futuro presidente da República rendia-se de bom grado aos argumentos do autor, a confirmar crenças pregressas. No entanto, pouco tempo após, soletraria: esqueçam o que eu disse.
À sombra de FHC presidente, o PSDB tornou-se um partido de direita. Em lugar de abrandá-las, acentuou as disparidades ao aderir à religião neoliberal e sujeitar-se às vontades e interesses do Tio Sam. Sem contar a bandalheira da privataria, a compra dos votos a favor da reeleição e o “mensalão” tucano.
Ao entrevistar o presidente Lula no fim de 2005, pergunto se ele é de esquerda, responde nunca ter sido. “Você sabe disso”, diz, ao recordar os velhos tempos em que nos conhecemos, já faz 36 anos. Jogo na mesa a carta de Norberto Bobbio, observo: “Você sempre lutou a favor da igualdade”.
Deste ponto de vista, há toda uma orientação esquerdista nas políticas sociais implementadas pelo governo Lula e hoje fortalecidas por Dilma Rousseff. E é de esquerda em mais de um aspecto a política econômica do governo atual, mais ousada do que a do anterior ao se desvencilhar das injunções neoliberais.
Nada irrita e assusta mais a direita brasileira do que qualquer tentativa de demolir de vez a senzala. É o que me permito explicar ao correspondente de um jornal americano, perplexo diante dos comportamentos da mídia nativa, sempre alinhada de um lado só. Digo: ela é o instrumento da casa-grande. O estupor do colega do Hemisfério Norte não arrefece: “Mas os governos Lula e Dilma produziram bons resultados para todos, senhores incluídos…”
Defronto-me, de súbito, com a dificuldade de aclarar uma situação incompreensível aos olhos do semelhante civilizado, capaz de usar, para medi-la, o metro próprio da contemporaneidade do mundo. E aos meus condoídos botões segredo: difícil, difícil mesmo, talvez impossível, trazer à luz da atualidade este cenário tão peculiar, de um país que viveu três séculos e meio de escravidão e que, de certa forma, ainda não digeriu o seu passado.
O jornalista americano arregala os olhos: “Mas como é possível que Dilma Rousseff tenha índices de aprovação elevadíssimos e sofra ao mesmo tempo o ataque maciço da mídia?” A presidenta, respondo, pretende erradicar a miséria… Logo percebo que a peculiaridade verde-amarela envolve o próprio governo. Há momentos em que Dilma parece isolada. Solitária. Ela é obrigada à aliança com o PMDB para garantir a maioria em um Congresso inconfiável e a postura do próprio PT é, no mínimo, dúbia. Falta ao Brasil desta hora um verdadeiro partido social-democrático, esquerdista no sentido de Norberto Bobbio.”
Mino Carta
No CartaCapítal
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Charge online - Bessinha - # 1683

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Quem quer Joaquim Barbosa na presidência da República?

Mais cedo ou mais tarde, JB tinha que entrar nos sonhos do Perfeito Idiota Brasileiro.
Nosso Batman, aspas
Presidente Joaquim Barbosa.
Juro. Como eu gostaria de ver Joaquim Barbosa ceder à tentação e concorrer à presidência em 2014.
Teríamos uma real oportunidade de ver o quanto a voz rouca das ruas verdadeiramente admira o nosso Batman, aspas.
Era previsível que a candidatura de JB fosse ventilada e desejada pelo PIB, o Perfeito Idiota Brasileiro. Aos antigos heróis do PIB — Ali Kamel,  Reinaldo Azevedo, Jabor, Dora Kramer, Augusto Nunes, Merval Pereira, Ricardo Setti e semelhantes – somou-se agora, em seu uniforme de Batman e seu palavreado pernóstico, Joaquim Barbosa.
Uma breve pausa para risos.
Na falta de candidato forte, com o sepultamento das esperanças em Serra, ele próprio um PIB, o Perfeito Idiota Brasileiro se agarraria a qualquer esperança que aparecesse, como doentes terminais que correm a cirurgias mediúnicas na busca do milagre.
O que o PIB não percebe é que JB é um problema e não uma solução. Qualquer candidato que queira ser viável no Brasil contemporâneo tem que ser versado em justiça social.
Em todo o mundo civilizado, e o Brasil não é exceção, o maior desafio dos homens públicos é enfrentar a brutal concentração de renda ocorrida nas últimas décadas – e a abjeta iniquidade decorrente dela.
Romney perdeu de Obama, mesmo com os Estados Unidos numa crise econômica que em geral derruba presidentes em busca de segundo mandato, porque Obama explorou nele o símbolo da desigualdade americana, um magnata que despreza os pobres e paga impostos ridiculamente baixos.
François Hollande bateu Sarkozy também porque os franceses viram em Sarkozy o representante do 1% cada vez mais rico à custa dos 99%. Na Venezuela, Caprilles se apropriou dos programas sociais de Chávez, que ele desprezara antes como assistencialistas, e ainda assim foi derrotado por ampla margem porque Chávez vem tendo um enorme sucesso na redução da miséria venezuelana.
Na China, a troca de poder que está se fazendo agora depois de dez anos, como tem acontecido lá, a expressão mais utilizada é “justiça social”. O governo chinês entende que o maior desafio, para o futuro, é evitar que a sociedade se divida entre poucos ricos e muitos pobres, porque isso significa riscos para a coesão do país.
Na Inglaterra, hoje mesmo, os presidentes das filiais de três grandes multinacionais – Google, Starbucks e Amazon – estão explicando ao Parlamento por que suas empresas pagam tão pouco imposto. “É como se as multinacionais pagassem impostos voluntariamente”, disse um parlamentar.
Também por trás desse movimento (que se vai internacionalizando) de cerco a grandes corporações que fazem todos os truques possíveis para evitar impostos está a busca de justiça social.
Dentro deste mundo novo, a figura engalanada de Joaquim Barbosa surge absurdamente deslocada. É um heroi apenas para ele, o nosso PIB, o Perfeito Idiota Brasileiro.
Paulo Nogueira
No Diário do Centro do Mundo
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Zero Hora é o abre-alas no bloco dos analfabetos


O Carnaval 2013 começou bem. O estelar elenco de redatores e editores do tabloidezinho da RBS já botou sua escola na avenida. 
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Os 13 melhores comerciais do Super Bowl 2013

A final da NFL é famosa por exibir, no intervalo, as propagandas mais elaboradas (e caras) dos Estados Unidos. Fizemos uma lista com os nossos vídeos preferidos desta edição.

No Diário do Centro do Mundo
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Saber usar

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A França fica melhor sem Depardieu

Você não constroi uma sociedade decente com gente egoísta, tacanha e mesquinha como ele
Depardieu e Googoosha
Depardieu e Googoosha

Depardieu rasgou sua biografia.
Fugir do imposto na França foi um ato extraordinário de mesquinharia e de pequenez de espírito.
Que ele pensa? Que vai levar com ele no caixão sua fortuna? Ou que faltará em vida dinheiro para ele se empanturrar e saciar sua gordura patética?
Um passo ruim leva a outro, e nas últimas semanas Depardieu tem aparecido ao lado de pessoas de merecida má fama.
Por exemplo,  Gulnara Karimova, 40 anos, a filha do ditador do Usbequistão, um homem acusado de cozinhar em água fervente os opositores do regime. Nos telegramas da diplomacia americana vazados pelo Wikileaks, ela foi descrita como “a pessoa mais odiada” do país.
Gulnara é suspeita de participar em esquemas de extorsão que seu pai impõe às empresas multinacionais interessadas em fazer negócios no Usbequistão.
Recentemente, isso foi tema de um documentário de uma emissora da Suécia, que mostrou o caminho obscuro percorrido pela maior empresa sueca de telecomunicações para operar no Usbequistão.
Gulnara é cotada para substituir seu pai.
Ela tem um lado artístico também. Canta sob o codinome de Googoosha. No final de ano, Depardieu fez um dueto com ela. Depardieu deve ser o protagonista também de um filme baseado num roteiro assinado por Gulnara.
Você não constrói uma sociedade harmoniosa com pessoas egoístas e deletérias como Depardieu. Ele é o antiescandinavo por excelência.
A França fica melhor sem ele.
Definitivamente.
Paulo Nogueira
No Diário do Centro do Mundo
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Aeroporto de Lukla no Nepal

Você tem medo da decolagem...


... ou da aterrissagem?

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Sangue no espelho

“Presidente, ao contrário do que ocorre em países como os EUA, no Brasil a imprensa tem um fortíssimo poder de manipulação sobre a opinião pública. Não é fácil enfrentá-la.” O alerta foi feito pelo jornalista Samuel Wainer a Getúlio Vargas. Na série de artigos que iniciamos nesta edição, Emiliano José retrata alguns exemplos que explicitam a relação da mídia (muitas vezes golpista) com o poder. De Vargas a Goulart, da ditadura a Collor, de FHC a Lula e Dilma, todos esses personagens serão analisados à luz da intervenção da mídia, que o autor qualifica como um partido político, à Gramsci.
População lamenta a morte de Getúlio Vargas
População lamenta a morte de Getúlio Vargas
Foto: Arquivo Agência Estado
(...)Los acontecimientos sociales no son objetos
que se encuentran ya hechos en alguna parte
en la realidad y cuyas propiedades e avatares nos son dados a conocer de inmediato por los medios con mayor o menor fidelidad. Sólo existen en la medida en que esos medios los elaboran.(...) Los medios informativos son el lugar en donde las sociedades industriales producen nuestra realidad.
(Verón, Eliseo. Construir el Acontecimiento – Los medios de Comunicación Masiva y el Accidente en la Central Nuclear de Three Mile Island. Barcelona, Editorial Gedisa S.A., 1995, p. II)
Faltavam poucos minutos para as 9 horas, 24 de agosto de 1954. O jornalista Pompeo de Souza barbeava-se pacientemente, os olhos fixos no espelho, em seu apartamento no Rio de Janeiro, o rádio ligado, quando ouve uma notícia:
“O presidente Getúlio Vargas está morto. Suicidou-se com um tiro no coração às 8:25 desta manhã”.
– Fiquei paralisado e me senti um assassino. E chorei muito, convulsivamente. Nunca mais pude sentir raiva do Getúlio.
Pompeo de Souza tinha razões para chorar, fosse ele, como era, um homem honesto.
O choro era do jornalista que havia sido convictamente o cérebro e mentor principal do que ficou conhecido como República do Galeão, que conduzira até ali as investigações em torno do atentado do dia 4 de agosto do mesmo ano contra Carlos Lacerda, que levara à morte o major Rubens Florentino Vaz, segurança do político e jornalista e, presumivelmente, ferira os pés de Lacerda. Essa república era, em si, o prenúncio do golpe contra Vargas.
E Pompeo fora o condutor da imprensa golpista, que construíra de alguma forma aquele momento.
A Aeronáutica, à revelia do presidente da República, instalou um IPM e passou a conduzir tudo, arbitrariamente, constituindo-se numa espécie de república paralela, que não dava satisfações a ninguém, não obedecia a lei alguma e era guiada exclusivamente pelo antigetulismo raivoso. Não se envergonhou, sequer, de ter chamado o mais notório torturador da polícia carioca, Cecil Borer, para ser o principal interrogador, com a prática constante da tortura. À Aeronáutica juntou-se parte da Marinha e do Exército na conspiração golpista, sediada na Base Aérea do Galeão.
Não se imagine, como não se pode imaginar hoje quando forças golpistas se movimentam contra Lula, um ex-presidente, que falar em antigetulismo raivoso e golpista seja apenas uma tentação panfletária. A movimentação contra Getúlio Vargas era intensa, com nítidas inspirações golpistas, e Lacerda era o principal líder, e tudo isso ecoava por toda a grande imprensa, cuja vocação contra governos reformistas é antiga, como pode se ver, à exceção apenas do jornal Última Hora. A Aeronáutica ocupou o Rio de Janeiro, quase literalmente e ostensivamente, a demonstrar ao presidente da República que a lei e a hierarquia não eram mais parâmetros pelos quais se guiava.
Lacerda tinha força na Aeronáutica, embora também na Marinha e no Exército. O Estado é complexo, ontem e hoje. Enganam-se os que acreditam seja ele um ente uno, a obedecer linearmente às ordens de cima. Às vezes, do interior do Estado, de órgãos hierarquicamente subordinados, vêm as ações golpistas, que não nos enganemos, como naquele momento.
Os lacerdistas da Aeronáutica, e não eram poucos, esperavam uma oportunidade como aquela, desejavam um atentado como aquele, que fora providencial, como confessou alguns anos mais tarde o coronel Adhemar Scaffa Falcão, subcomandante da Base Aérea do Galeão, uma espécie de faz-tudo da insólita república.
O objetivo era político, revelou ele, como se precisasse fazê-lo. Foi claro, em entrevista ao historiador Hélio Silva:
– O objetivo não era bem apurar a morte do major Vaz, e sim transformar o atentado em motivo para uma modificação política, e assim foi feito.
Mais claro, impossível. O golpe estava em marcha acelerada.
Carlos Frederico Werneck de Lacerda tinha uma reiterada vocação golpista, e tinha talento, determinação. Do comunista que fora na juventude, não restara nada. Tornou-se um iracundo porta-voz do antigetulismo, sempre em nome da moralidade pública. Não tinha escrúpulos, não cultivava a exatidão ou respeito aos fatos como jornalista. Pensava e agia com a meta de destruir o adversário, não importando os métodos. E induzia seus seguidores a agir da mesma maneira. Ao olhar a mídia nos dias de hoje, podemos notar vários profissionais com a mesma índole, os mesmos métodos.
Voltemos ao espelho, às lágrimas de Pompeo de Souza. Jornalista respeitado, correto e moderado, conforme a avaliação de Flávio Tavares, católico e filiado ao Partido Socialista, credenciais que poderiam colocá-lo à esquerda do espectro político. Era amigo íntimo de Lacerda, no entanto.
Chefe de redação do Diário Carioca, era amigo também de Café Filho que naquele momento, e depois, se incluía entre os golpistas. Foram o talento e a habilidade de Pompeo de Souza que deram forma política e penetração e prestígio popular àquela república truculenta.
Passava boa parte do dia na Base Aérea do Galeão, preparando o esqueleto dos futuros interrogatórios e organizando a divulgação na imprensa e no rádio de tudo que ocorrera nas horas anteriores. Toda a relação com a imprensa, todas as revelações para os jornalistas e para a Câmara dos Deputados partiam dele, tudo passava pelo seu crivo.
O clima do golpe era montado por ele, em articulação com o restante da imprensa, à qual passava as informações. Além de, na noite, manchetear, titular, rever os textos que seu jornal publicaria no dia seguinte, sempre com o agressivo tom antigetulista.
A imprensa brasileira, também naquele episódio, participou ativamente do golpe, e como dirigente. Será que dá para imaginar o que fazem os editores ferrenhamente antilulistas a cada número de jornal televisivo, a cada edição de revista, de jornal? Dá, não dá?
Pompeo de Souza, quando ouviu dos militares a ideia de convocar o presidente Getúlio Vargas para depor na República do Galeão, retrucou:
– Não se deve, não se pode e não se fará.
Acrescentou, no entanto:
– Mas, exatamente por isso, vamos soltar o boato de que vai ser feito! Por isso, porque Getúlio jamais poderá ser convocado, vamos espalhar o rumor e a ideia de que vai ser convocado a depor!
Aquela notícia, e vejam o quanto uma mentira repetida muitas vezes pode se transformar em verdade, começou a se espalhar rapidamente: o presidente seria chamado a depor na República do Galeão.
Pompeo via sua estratégia de comunicação ganhar consistência, ter consequência política. Não é preciso dizer que os demais órgãos da imprensa brasileira seguiam a mesma direção, faziam tudo o que o Diário Carioca e a Tribuna da Imprensa, cujo dono era o próprio Lacerda, prescreviam. E afinal, como vimos, o pauteiro exclusivo de toda a mídia era Pompeo de Souza, porta-voz íntimo e autorizado da República do Galeão. O golpe caminhava aceleradamente.
A imprensa toda falava em crise militar, verdadeira, e estimulada, açulada por ela. Getúlio Vargas resolve dar um recado à Nação e aos golpistas, divulgado pelo jornal Última Hora, dirigido por Samuel Wainer:
– Só morto sairei do Catete.
Reúne o ministério na noite de 23 de agosto, que vara a madrugada e termina às 4 da manhã. Dá o recado: a investigação sobre o atentado se desenvolvia livremente, o governo não tinha oposto nenhuma restrição, prosseguia normalmente.
– Nada, porém, pode sobrepor-se à Constituição e às leis, nem essa investigação nem qualquer outro ato. Não sairei da Constituição um milímetro sequer!
Os ministros militares se esquivavam durante a reunião, e o presidente percebia tudo, que experiência não lhe faltava. O inimigo dava voltas em torno dele, ali no Catete. Ali pelas 4 da manhã, disse:
– Já que os senhores ministros nada decidem, eu decidirei. Como se trata de uma crise nas Forças Armadas, determino aos ministros militares que mantenham a ordem e o respeito à Constituição. Respeitada a ordem, solicitarei uma licença até que sejam apuradas todas as responsabilidades. Não quero lutas nem derramamento de sangue, mas não sou um covarde: se os insubordinados optarem por impor a violência e tentarem chegar até o Catete, levarão apenas o meu cadáver.
Ali já tinha plena consciência de que os golpistas lhe haviam bloqueado o caminho. Nem os generais de dentro do governo o apoiavam mais, nem o seu ministro da Guerra. Estava isolado, e à beira da desmoralização depois de uma vida intensa de dedicação à pátria, dedicação que ele sabia juntara erros e acertos.
Deposto, como parece que seria, passaria por covarde, que nunca fora. Esse gosto, o de ser desmoralizado, o de passar por covarde, o de ser apeado do poder, ele não daria a seus adversários. Ninguém percebeu sua intenção na noite decisiva.
Nem o ministro da Justiça, Tancredo Neves, que recebeu de presente dele a caneta de ouro com que assinava decretos e leis, ao final da última reunião ministerial: “Guarde-a como lembrança destes dias difíceis”. Nem João Goulart, a quem ele entrega, na mesma madrugada, o original da carta-testamento, em envelope fechado, com a recomendação expressa de abrir “somente se me acontecer alguma cousa”. Nem a filha Alzira, que sempre imaginou saber tudo sobre ele, e que o beijou com um “até logo” na longa madrugada de 24 de agosto.
Certamente, antes de se matar, passou em revista toda a sua vida. Especialmente quando tivera a intenção de ampliar a liberdade de expressão e de imprensa ao propiciar a criação do jornal Última Hora. Foi atacado por toda a imprensa, um escândalo foi montado, uma CPI instalada, sob o argumento de que Samuel Wainer, jornalista e proprietário e amigo de Getúlio, recebera empréstimo, legal, do Banco do Brasil, como se todo o resto dos meios de comunicação não se valessem também dos empréstimos do Banco do Brasil e da Caixa Econômica.
A imprensa adversária de Getúlio não pretendia dividir o poder da palavra, não queria a intromissão na construção da opinião pública, queria manter o monopólio do discurso nas mãos de algumas poucas famílias, e queria ser uma espécie de partido único do pensamento, como quer até hoje.
O fato é que todos, como dizia antes, foram ludibriados pela frieza de Getúlio Vargas, que, com um sentido trágico da existência, resolvera sair da vida para entrar na história, como dirá em sua carta-testamento. Que seguramente pensou em frustrar os golpistas, e o conseguiu com o tiro no próprio coração. Antes de se matar, determinara a si próprio dormir um pouco que fosse, entre 4 da manhã e pouco depois das 8, como o fez.
O restante, depois da morte, é sabido: a reação do povo foi instantânea. Tomou as ruas de todo o país, indignado, a chorar por seu líder, e a desanimar a ação imediata dos golpistas. Mais tarde, depois da eleição de Juscelino Kubitschek, ainda houve, em 1955, uma outra tentativa de golpe, sufocada pela pronta ação de Lott, determinado a dar posse a quem havia sido eleito.
Compreende-se a perplexidade de Pompeo de Souza à frente do espelho. Era um homem de princípios, mesmo que àquele momento, por razões não tão claras, estivesse tão firmemente ao lado dos golpistas. Mais tarde, em 1986, será eleito senador pelo PMDB, talvez, quem sabe, como purgação daquele então já distante 24 de janeiro de 1954.
Carregou para o túmulo muita coisa que guardava dentro de si com relação àquela conjuntura, particularmente sobre o que ocorrera na República do Galeão. Recusou-se a escrever sobre ela, apesar da insistência de amigos, como Flávio Tavares. Dele, se fica a lembrança trágica da República do Galeão, permanece, também, a recordação de um homem de sentimentos profundos, capaz de refazer-se ao longo da vida, inclusive colocando-se contra a ditadura que se antecipara, sem vitória, naqueles fatídicos dias de agosto de 1954.
Tancredo Neves, em 1961, levou-o para Brasília, onde foi chefe do Serviço de Imprensa do Conselho de Ministros, o mesmo Tancredo que se coloca inteiramente ao lado de Getúlio nos episódios de 1954. O jornalista foi um dos fundadores da Universidade de Brasília. Morreu em junho de 1991, aos 77 anos.
A lembrança do papel de Pompeo de Souza na tentativa de golpe, sufocada tragicamente com o suicídio de Getúlio, não pode obscurecer a participação orquestrada de toda a mídia (salvo, como já dito, Última Hora), sempre atuando como partido político, com posições claras contra o Getúlio que surgira das urnas de 1950, mais nacionalista, mais decidido a promover reformas, pronto a assegurar alguns direitos dos trabalhadores, a seguir construindo um Estado que desse condições ao Brasil de se desenvolver. A imprensa brasileira não compartilhava desse programa político, como não compartilha do que se iniciou em 2003, quando Lula assumiu a Presidência da República.
Aqui, no entanto, com Lula, não houve suicídio nem renúncia. Lula se reelegeu em 2006 e depois, em 2010, o povo brasileiro garantiu a continuidade desse projeto, com a eleição de Dilma Rousseff, a primeira mulher a chegar à Presidência da República.
Apesar do combate incessante da mídia, que não se conforma em ver derrotadas suas ideias neoliberais e conservadoras para o Brasil. Apesar do neolacerdismo permanente, apesar do descompromisso diário da mídia com os fatos, com a verdade, o Brasil está se transformando, a vida do povo tem melhorado, a crise está sendo enfrentada de modo diverso daquele praticado pelos países europeus, e por isso mesmo a população brasileira manifesta sua admiração e preferência tanto pela presidenta Dilma como, também, por Lula. Apesar de você...
Nota: este texto está baseado quase inteiramente no capítulo Getúlio, Mar e Lama, do livro O Dia em Que Getúlio Matou Allende e Outras Novelas do Poder, de Flávio Tavares (Editora Record, 2004), que naturalmente não tem nenhuma responsabilidade com os erros que porventura tenham sido cometidos nem com as análises políticas que o autor desenvolveu. Mantive a grafia Pompeo, que é a utilizada o tempo todo por Tavares, ao invés de Pompeu, mais corriqueira. Como Tavares o conheceu de perto, penso que utilizou a grafia verdadeira. Vali-me também do verbete de nomes de Cães de Guarda – Jornalistas e Censores, do AI-5 à Constituição de 1988, de Beatriz Kushnir (Boitempo Editorial, 2004). 
Emiliano José, professor-doutor (aposentado) em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia. Jornalista e escritor, integra o Conselho de Redação de Teoria e Debate
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Até quando?

Um país bombardeia dois países. A impunidade poderia ser assombrosa, se não fosse costumeira. Alguns tímidos protestos dizem que houve erros. Até quanto os horrores continuarão sendo chamados de erros?
Esta carnificina de civis começou a partir do seqüestro de um soldado. Até quando o seqüestro de um soldado israelense poderá justificar o seqüestro da soberania palestina?
Até quando o seqüestro de dois soldados israelenses poderá justificar o seqüestro de todo o Líbano?
E os 700 soldados libaneses que, desde que Israel foi expulso do Líbano em 2000, foram levados prisioneiros para Israel? Porque Israel nunca aceitou trocar prisioneiros de guerra?
A caça aos judeus foi, durante séculos, o esporte preferido dos europeus. Em Auschwitz desembocou um antigo rio de espantos, que havia atravessado toda a Europa. Até quando palestinos e outros árabes continuarão pagando por crimes que não cometeram?
O Hezbollah não existia quando Israel arrasou o Líbano em suas invasões anteriores. Até quando continuaremos acreditando no conto do agressor agredido, que pratica o terrorismo profissional de Estado porque tem direito de se defender do "terrorismo" civil amador?
Iraque, Afeganistão, Palestina, Líbano...
Até quando se poderá continuar exterminando países impunemente?
As torturas de Abu Ghraib, que despertaram certo mal-estar universal, nada têm de novo para nós, os latino-americanos. Nossos militares aprenderam essas técnicas de interrogatório na Escola das Américas, que agora perdeu o nome, mas não as manhas.
Até quando continuaremos aceitando que a tortura continue legitimando, como fez o Supremo Tribunal de Israel, em nome da legítima defesa da pátria?
Israel deixou de ouvir 46 recomendações da Assembléia Geral e de outros organismos das Nações Unidas.
Até quando o governo israelense continuará exercendo o privilégio de ser surdo?
As Nações Unidas recomendam, mas não decidem. Quando decidem, a Casa Branca impede que decidam, porque tem direito de veto. A Casa Branca vetou, no Conselho de Segurança, 40 resoluções que condenavam Israel.
Até quando as Nações Unidas continuarão atuando como se fossem outro nome dos Estados Unidos?
Desde que os palestinos foram desalojados de suas casas e despojados de suas terras, muito sangue correu.
Até quando continuará correndo sangue para que a força justifique o que o direito nega?
A história se repete, dia após dia, ano após ano, e um israelense morre para cada 10 árabes que morrem.
Até quando a vida de cada israelense continuará valendo 10 vezes mais?
Em proporção à população, os 50 mil civis, em sua maioria mulheres e crianças, mortos no Iraque equivalem a 800 mil norte-americanos.
Até quando continuaremos aceitando, como se fosse costume, a matança de iraquianos, em uma guerra cega que esqueceu seus pretextos?
Até quando continuará sendo normal que os vivos e os mortos sejam de primeira, segunda, terceira ou quarta categoria?
O Irã está desenvolvendo a energia nuclear? Bem, se está, é um direito seu, como de qualquer país que deseje acesso à modernidade científica. Argentina, Brasil, México e mais 60 países, no mínimo, estão tentando isso - sob boicote da meia dúzia de potências que não aceitam perder esse monopólio.
O Irã está também tentando desenvolver energia nuclear para uso militar, como fizeram há mais de meio século os EUA, Inglaterra, França, Rússia, China, Índia, Paquistão e Israel? Ninguém sabe ao certo, pairam no ar somente acusações veiculadas pelos EUA, nenhuma prova, ao menos até agora.
Mas até quando continuaremos acreditando que isso basta para provar que um país é um perigo para a humanidade? Pois a chamada comunidade internacional não se angustia em nada com o fato, reconhecido unanimente por todos os institutos ocidentais de estratégia militar, de que Israel já produziu e tem estocadas 250 bombas atômicas, embora seja um país que vive à beira de um ataque de nervos.
Quem maneja o perigosímetro universal? Terá sido o Irã o país que lançou as bombas atômicas em Hiroxima e Nagasaki?
Na era da globalização, o direito de pressão pode mais do que o direito de expressão.
Para justificar a ocupação ilegal de terras palestinas, a guerra se chama paz. Os israelenses são patriotas e os palestinos são terroristas, e os terroristas semeiam o alarme universal.
Até quando os meios de comunicação continuarão sendo medos de comunicação?
Esta matança de agora, que não é a primeira nem será - temo - a última, ocorre em silêncio? O mundo está mudo, está surdo?
Até quando seguirão soando em sinos de madeira as vozes da indignação?
Até quanto nos conformaremos com essa linguagem infame da grande mídia que, simulando "objetividade" jornalística, nos informa sobre um combate nesta linguagem: tantos "terroristas" do Hisbollah foram aniquilados pelas forças "de defesa" de Israel.
Teremos todos nós nos transformados em estúpidos, a ponto de não percebermos que a forma da linguagem determina o conteúdo da "notícia”?
Estes bombardeios matam crianças: mais de um terço das vítimas, não menos da metade. Os que se atrevem a denunciar isto são acusados de anti-semitismo.
Até quando continuarão sendo anti-semitas os críticos dos crimes do terrorismo de Estado?
Até quando aceitaremos esta extorsão?
São anti-semitas os judeus horrorizados pelo que se faz em seu nome?
São anti-semitas os árabes, tão semitas como os judeus? Por acaso não há vozes árabes que defendem a pátria palestina e repudiam o manicômio fundamentalista?
Todos agem em nome de Deus, seja o Deus cristão, o Alá muçulmano ou o vingativo e momentaneamente triunfante Jeová judeu.
Como radical humanista que sou, nada quero com qualquer desses deuses nacionalistas e odiosos. O que não me impede de discernir que, em cada momento há um "deus" dos oprimidos e outro dos opressores.
Somos a única espécie animal especializada no extermínio mútuo. Destinamos US$ 2,5 bilhões, a cada dia, para os gastos militares, uma atividade econômica extremamente lucrativa aos capitalistas que a ela se dedicam.
A miséria e a guerra são filhas do mesmo pai: como todos os deuses cruéis, come os vivos e os mortos.
Até quanto continuaremos aceitando que este mundo enamorado da morte é nosso único mundo possível?
Até quando prolongaremos nossa postura cínica de "neutralidade", de não "tomar partido" ?
É o oprimido, malgrado seja um idiota fundamentalista religioso, igual ao fundamentalista opressor? São moralmente o mesmo? Que se matem entre si, é isso? Não temos mesmo de tomar partido?
Eduardo Galeano
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A falácia da ‘alta’ carga tributária do Brasil

Por trás da campanha antifisco das empresas de mídia se esconde a vontade de pagar ainda menos impostos.
Otávio Frias Filho, dono da Folha

Estava na Folha, num editorial recente.
A carga tributária brasileira é alta. Cerca de 35% do PIB. Esta tem sido a base de incessantes campanhas de jornais e revistas sobre o assim chamado “Custo Brasil”.
Tirada a hipocrisia cínica, a pregação da mídia contra o “Custo Brasil” é uma tentativa de pagar (ainda) menos impostos e achatar direitos trabalhistas.
Notemos. A maior parte das grandes empresas jornalísticas já se dedica ao chamado ‘planejamento fiscal’. Isto quer dizer: encontrar brechas na legislação tributária para pagar menos do que deveriam.
A própria Folha já faz tempo adotou a tática de tratar juridicamente muitos jornalistas – em geral os de maior salário – como PJs, pessoas jurídicas. Assim, recolhe menos imposto. Uma amiga minha que foi ombudsman era PJ, e uma vez me fez a lista dos ilustre articulistas da Folha que também eram.
A Globo faz o mesmo. O ilibado Merval Pereira, um imortal tão empenhado na vida terrena na melhora dos costumes do país, talvez pudesse esclarecer sua situação na Globo – e, transparentemente, dizer quanto paga, em porcentual sobre o que recebe.
A Receita Federal cobra uma dívida bilionária em impostos das Organizações Globo, mas lamentavelmente a disputa jurídica se trava na mais completa escuridão. Que a Globo esconda a cobrança se entende, mas que a Receita Federal não coloque transparência num caso de alto interesse público para mim é incompreensível.
A única vez em que vi uma reprovação clara em João Roberto Marinho, acionista e editor da Globo, foi quando chegou a ele que a Época fazia uma reportagem sobre o modelo escandinavo. Como diretor editorial da Editora Globo, a Época respondia a mim. O projeto foi rapidamente abortado.
Roberto Irineu Marinho, presidente da Globo
Roberto Irineu Marinho, presidente da Globo

Voltemos ao queixume do editorial da Folha.
Como já vimos, a carga tributária do Brasil é de 35%. Agora olhemos dois opostos. A carga mais baixa, entre os 60 países que compõem a prestigiada OCDE, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, é a do México: 20%. As taxas mais altas são as da Escandinávia: em redor de 50%.
Queremos ser o que quando crescer: México ou Escandinávia?
O dinheiro do imposto, lembremos, constrói estradas, portos, aeroportos, hospitais, escolas públicas etc. Permite que a sociedade tenha acesso a saúde pública de bom nível, e as crianças – mesmo as mais humildes — a bom ensino.
Os herdeiros da Globo – os filhos dos irmãos Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto – estudaram nas melhores escolas privadas e depois, pelas mãos do tutor Jorge Nóbrega, completaram seu preparo com cursos no exterior.
A Globo fala exaustivamente em meritocracia e em educação. Mas como filhos de famílias simples podem competir com os filhos dos irmãos Marinhos? Não estou falando no dinheiro, em si – mas na educação pública miserável que temos no Brasil.
Na Escandinávia, a meritocracia é para valer. Acesso a educação de bom nível todos têm. E a taxa de herança é alta o suficiente para mitigar as grandes vantagens dos herdeiros de fortunas. O mérito efetivo é de quem criou a fortuna, não de quem a herdou. A meritocracia deve ser entendida sob uma ótima justa e ampla, ou é apenas uma falácia para perpetuar iniquidades.
Recentemente o site da Exame publicou um ranking dos 20 países mais prósperos de 2012 elaborado pela instituição inglesa Legatum Institute. Foram usados oito critérios para medir o sucesso das nações: economia, empreendedorismo e oportunidades, governança, educação, saúde, segurança e sensação de segurança pessoa, liberdade pessoal e capital social. A Escandinávia ficou simplesmente com o ouro, a prata e o bronze: Noruega (1ª), Dinamarca (2ª) e Suécia (3ª).
Se quisermos ser o México, é só atender aos insistentes apelos das grandes companhias de mídia. Se quisermos ser a Escandinávia, o caminho é mais árduo. Lá, em meados do século passado, se estabeleceu um consenso segundo o qual impostos altos são o preço – afinal barato – para que se tenha uma sociedade harmoniosa. E próspera: a qualidade da educação gera mão de obra de alto nível para tocar as empresas e um funcionalismo público excepcional. O final de tudo isso se reflete em felicidade: repare que em todas as listas que medem a satisfação das pessoas de um país a Escandinávia domina as posições no topo.
O sistema nórdico produz as pessoas mais felizes do mundo.
A Escandinávia é um sonho muito distante? Olhemos então para a China. À medida que o país foi se desenvolvendo economicamente, a carga tributária também cresceu. Ou não haveria recursos para fazer o extraordinário trabalho na infraestrutura – trens, estradas, portos, aeroportos etc – que a China vem empreendendo para dar suporte ao velocíssimo crescimento econômico.
Hoje, a taxa tributária da China está na faixa de 35%, a mesma do Brasil. E crescendo. Com sua campanha pelo atraso e pela iniquidade, os donos da empresa de mídia acabam fazendo o papel não de barões – mas de coronéis que se agarram a seus privilégios e mamatas indefensáveis.
A Noruega foi eleita a nação mais desenvolvida do mundo
Paulo Nogueira
No Diário do Centro do Mundo
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Falando sem dizer

Derrotada em todas as opções para o comando do Congresso, a oposição retoma a pressão sobre os parlamentares brasileiros.
O clima é de fim de mundo.
Até jornalistas bem informados descrevem um universo apocalíptico, onde todos são corruptos, malandros, hipócritas – e quem não é apenas funciona como a exceção que confirma a regra.
Eu acho este raciocínio mais perigoso do que a própria corrupção que se procura denunciar, pois aponta para uma situação sem saída.
Quem descreve um mundo assim está dizendo que não há solução dentro das regras do jogo. Se todos são corruptos, não é dali que se deve esperar a salvação, certo?
Nós sabemos muito bem o que essa turma está falando sem dizer...
Não custa lembrar que nem Renan Calheiros nem Henrique Alves foram condenados em último recurso pela Justiça. Numa democracia, todos são inocentes até que se prove o contrário, correto?
Não temos tribunais de exceção. Nem admitimos linchamentos.
Os dois são acusados pelo Ministério Público, o que é muito diferente. Eu posso até achar que o ministério tem razão em suas denúncias, mas isso não encerra a discussão.
O Ministério Público tem obrigação de denunciar toda possibilidade de crime, que deve ser investigada e examinada, com isenção, pela Justiça. Até lá, no entanto, é preciso ter cautela.
Reportagem do Valor Econômico lembrou que a principal acusação contra Henrique Alves, a de que possuía milhões de dólares no exterior, feita por sua ex-mulher, “posteriormente não se comprovou”.
E, se você se lembra do mensalão, irá lembrar-se que até um ex-ministro, Luiz Gushiken, passou sete anos na galeria dos acusados, aquela que os jornais publicavam diariamente, com retratinho de quem parecia procurado, até que acabou absolvido por falta de provas.
Quem gosta de berrar todo mundo é ladrão deveria saber que, naquela época, teve professor de colégio que se atreveu a dar sermão de cidadania para filhos de Gushiken em plena sala de aula – e não apareceu para se desculpar depois que tudo foi esclarecido.
O mesmo ocorreu com parlamentares como Paulo Rocha, o professor Luizinho...
Mesmo quem considera que Renan é culpado de tudo o que se diz a seu respeito, deveria recordar que seu comportamento não impediu que fosse ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso.
De duas uma: ou Renan era virgem até se tornar um aliado do governo Lula, ou estão ele só incomoda porque aliou-se a Lula.
O mesmo, vamos combinar, vale para Henrique Alves. É estatisticamente impossível que só depois de 40 anos de Congresso ele começasse a cometer atos considerados condenáveis...
O debate que não quer terminar diz respeito a uma questão – o voto popular.
E isso é muito velho.
Procura-se sugerir que Renan e Henrique Alves foram eleitos porque têm esquemas, distribuem benefícios e favores escusos.
Ignora-se que eles praticam a regra do jogo que está aí. É o jogo do dinheiro, do aluguel de mandatos, da liberdade oferecida ao poder econômico para colonizar o Estado brasileiro.
Eu acho que isso sim ameaça a democracia. E, francamente, eu acho que já vivi o bastante para encontrar duas regras básicas para o funcionamento dos nossos regimes democráticos no Brasil.
Quando o dinheiro aluga o poder, todos ficam felizes. Quando isso não acontece mais, chamamos as baionetas do autoritarismo.
Foi assim 1964. Tentou-se fazer assim em 1956, em 1961...
No Brasil de hoje vivemos uma situação em que o dinheiro já não compra mais a felicidade de quem sempre mandou no País.
Os caras gastam, gastam, gastam, mas a turma que chegou ao Planalto a partir de 2002 pode até colocar no cofre, mas insiste em fazer o Bolsa Família, em aumentar a aposentadoria, em proteger o emprego...
Não há guerra ideológica, o PT de hoje está longe de ser o partido de raízes socialistas de seu nascimento, muitos petistas não se distinguem dos adversários que tanto denunciaram ao longo de 20 anos, mas mesmo esse pequeno desgaste, esse atrito, quase migalha, parece estar passando da conta...
O pessoal não suporta. E fica impaciente, nervoso. E é por isso que Renans incomodam, Henriques incomodam. São o alvo visível, fácil, de um ataque maior.
Num conto policial de 1957, Luís Lopes Coelho, um dos pioneiros do gênero na literatura brasileira, já falava de “deputados negocistas” que fechavam negócios com “malandros.”
Era um dado assim, banal, do país daquele tempo, a democracia que sobreviveu a um suicídio presidencial e a duas aventuras militares do pessoal que não conseguia fazer a UDN chegar ao governo pelo voto...
Imagine que apenas sete anos depois desse conto ter sido publicado, em clima de grande indignação ocorreu o golpe de 64, que iria acabar com a subversão e a corrupção – mas só serviu para provar com 100% de acerto que a indignação de natureza moral é um excelente combustível para medidas de caráter autoritário.
O país não precisa da indignação seletiva. Nem dos moralistas de marketing.
O necessário é respeitar a democracia e modificá-la por dentro, conforme suas regras e seu compasso.
E o ano de 2013 pode ser uma excelente oportunidade para fazer isso.
Mais do que nunca o País precisa debater uma reforma política que garanta que cada homem e cada mulher vale um voto – em vez de eleitores de 1 centavo e outros de 1 bilhão.
Num país com liberdade para os partidos políticos, com campanha na TV e uma imensa dívida social, apesar dos progressos recentes, é fácil saber quem tem a ganhar com esse regime – e quem teria a perder.
Quem se habilita? Pela resposta, já se sabe o compromisso de cada um.
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Dez anos depois…

Ninguém pode negar: o Brasil mudou para melhor. Dez anos de governos do PT proporcionaram profundas mudanças econômicas e sociais. A sociedade mudou. A desesperança dos anos 1990 foi transformada em otimismo e em uma nova pauta de desejos e exigências. Os governos do PT geraram também uma aglutinação oposicionista composta de forças liberais, de seitas conservadoras, de grupos rentistas, de famílias que controlam grandes meios de comunicação, de altos funcionários de carreiras de Estado e, por último e com menos importância, três ou quatro partidos políticos.
Em 1998, as classes de renda A, B e C somavam 53% da população brasileira. Hoje, somam 84%.  Foto: Agência Brasil
Em 1998, as classes de renda A, B e C somavam 53%
da população brasileira. Hoje, somam 84%.
Foto: Agência Brasil
As estatísticas econômicas e sociais são avassaladoras quando são comparados os governos do PSDB (1995-2002) com os governos de Lula-Dilma (2003-2012). Alguns poucos exemplos são suficientes para comprovar as diferenças.
No início dos anos 2000, pesquisas apontavam que o desemprego era um grande problema nacional. Em 2003, a taxa de desemprego era superior a 12%. Em 2012, foi de 5,5%. Em 1998, as classes de renda A, B e C somavam 53% da população brasileira. Hoje, somam 84%. O volume de vendas do mercado varejista praticamente dobrou de tamanho entre 2002 e 2012. Em 2002, somente 33,9 % dos domicílios possuíam máquina de lavar. Em 2011, este número aumentou para 51%. Em 2002, 86,6% dos domicílios possuíam geladeira; em 2011, saltou para 95,8%. E, certamente, milhões de brasileiros trocaram eletrodomésticos velhos por novos.
O emprego e o consumo levaram as classes de renda C e D às localidades onde vivem ou trabalham os ricos e aqueles que recebem altas rendas. Esse foi o momento em que os mais necessitados perceberam que não basta ter emprego. O emprego é essencial, mas é preciso ter transporte, saneamento, iluminação pública, moradias dignas, coleta de lixo, áreas de lazer etc… é preciso ter direito às cidades. Sob estas condições, indivíduos que já realizam o consumo (uma atividade privada) passaram a desejar o investimento (público) para todos.
Este é o desafio da década: manter o emprego, o crescimento da renda, e socializar a oferta de bem-estar. Essa é a nova utopia de grande parte da sociedade. Se o PT deseja continuar mudando e transformado o Brasil terá que abraçar essa utopia. O modelo de crescimento com geração de emprego e distribuição de renda, implementado nos últimos 10 anos, precisa incorporar no seu âmago a multiplicação do bem-estar social – que significa a socialização da oferta de serviços e equipamentos públicos de qualidade.
Não há qualquer projeto político alternativo ao projeto implementado pelo PT nesses últimos anos. A aglutinação oposicionista não tem projeto. Ela busca tão somente (o que não é pouco) aumentar a rejeição ao PT, a Lula e à presidente Dilma. Pode-se, por exemplo, criticar o governo por não permitir o aumento da gasolina e reduzir a capacidade de investimento da Petrobras, mas vale também o argumento de que o governo autorizou o aumento da gasolina e neutralizou a redução de tarifas de energia elétrica.
No segundo semestre de 2012, um colunista de rádio criticou a presidenta Dilma por fazer o movimento de redução dos juros. Dizia ele, em tom de sentença: “não é possível reduzir juros por decreto”. Mas, os juros baixaram. Recentemente, ele disse: “os juros no Brasil ainda são uns dos mais altos do mundo”. E, talvez sem perceber, logo em seguida proclamou em tom de concordância: “parte do mercado percebe a necessidade de os juros subirem porque a inflação está se acelerando”. É a prática do vale-tudo: dizer, desdizer e dizer novamente. A coerência não importa. O que importa é fazer oposição no programa de rádio diário.
A aglutinação oposicionista busca juntar um enorme entulho de rejeição ao governo, ao presidente Lula e ao PT. O objetivo é afogá-los nesse lixão. O lixo pode ser rotulado de corrupção, alianças espúrias (com velhos corruptos), incompetência, voluntarismo, autoritarismo, ingerência política em empresas estatais, enriquecimento ilícito, indicações políticas (e não técnicas) para cargos públicos, obras paralisadas, filas no SUS, desperdício de recursos públicos e possibilidade de racionamento de energia elétrica.
É neste ziguezague que a aglutinação oposicionista busca espalhar rejeição para um candidato qualquer tentar vencer as eleições presidenciais de 2014. Não importa o candidato, suas ideias, projetos etc. O que importa é interromper a história. Afinal, ela tem incomodado e muito.  A aglutinação oposicionista está contrariada porque perdeu ganhos financeiros, perdeu o monopólio de decidir grandes questões nacionais, não têm livre acesso aos corredores do Palácio do Planalto… e perdeu controle sobre o futuro. Não aceitam civilizadamente o resultado das urnas: afinal, estudaram nas melhores escolas, em universidades americanas, falam duas ou três línguas e tomaram toddynho na infância. Seu destino não poderia ser a oposição. Eles não aceitam não ocupar posições de comando. O caminho tem sido o do vale-tudo.
A aglutinação oposicionista não somente quer interromper a história. Eles querem apagá-la.  Aliás, nem consideram história o que aconteceu no Brasil nos últimos dez anos. Chamam o período de “tempos estranhos”. Um articulista de uma grande revista escreveu: “Lula será apenas outra má lembrança destes tempos estranhos”.
João Sicsú
No CartaCapital
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Após conversar com Barbosa, Serra decide estudar para concursos públicos

Após conversar com Barbosa, Serra decide estudar para
concursos públicos
Barbosa convenceu Dilma a abandonar o laquê
BRASÍLIA - Depois de convencer o novo presidente da Câmara, Eduardo Henrique Alves, de que a palavra final sobre a cassação de deputados condenados é do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa abriu seu gabinete para visitações. "O primeiro a entrar foi José Serra. Foi difícil, mas o convenci a estudar para o concurso público que seleciona escriturários do Banco do Brasil", anunciou. "Disse a ele que o Brasil não merecia alguém tão supremamente superior e belo na Presidência e ele, então, se sensibilizou", concluiu.
Em seguida, Barbosa convenceu Eike Batista a deixar a calvície agir naturalmente sobre seu ser, a diretoria do Country Club da Zona Sul carioca a aceitar ex-BBBs como sócios e o jogador Adriano a emplacar como pastor evangélico. "Meu gabinete está de portas abertas para José Dirceu", enfatizou, após convencer Silas Malafaia a assumir o romance com Alexandre Frota.
A assessoria de Aécio Neves negou que Barbosa tenha convencido o mineiro a assumir sua verdadeira identidade e se candidatar ao governo do Rio.
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