28 de jan de 2013

PSDB esconde e proíbe seus gays

 
“Caso Anastasia” provoca revolta nos defensores da pluralidade sexual que denunciam o PSDB por apagar da mídia opção sexual de seus líderes

Em pleno século XXI, quando as liberdades e opções individuais são bandeiras de diversos partidos, inclusive do PSDB, onde sua maior liderança, o ex-presidente FHC, defende publicamente a descriminalização da maconha, outros temas são tratados como Tabu e apagados da mídia.
Na última semana de dezembro de 2012, chegou à redação do Novojornal denúncia informando que, com a ajuda da grande mídia e através de decisões judiciais, o PSDB vem conseguindo, nos últimos anos, impedir que a população tome conhecimento real do que pensam e fazem suas lideranças em relação à sexualidade.
Nossa reportagem saiu a campo na procura de resposta para tão controverso tema e descobriu uma estrutura profissional atuando para o PSDB através de equipes de busca e análise das diversas mídias, das tradicionais imprensa escrita, falada e televisada, até as recentes mídias sociais.
De posse das informações, passam a agir agências de notícias e escritórios de advocacia especializados em conseguir decisões judiciais para que os “relutantes” sejam obrigados a retirar qualquer menção sobre a opção sexual de suas lideranças.
“O Caso Anastasia”, citado na denúncia recebida por Novojornal, foi comprovado.
Anastasia, antes e durante seu mandato como vice-governador de Minas, na gestão de Aécio Neves, atuou como ativista ligado ao Movimento Gay de Minas (MGM), onde presidia e promovia ao lado de Oswaldo Braga, Danilo de Oliveira, dentre outros o evento anti-homofobia, “Rainbow Fest”.
Isso constava na Wikipédia, que teve o texto modificado em poucas horas após tal fato ser abordado nas redes sociais. Seu nome foi removido da página principal de Domínio do MOVIMENTO HOMOSSEXUAL BRASILEIRO na enciclopédia virtual, seção Minas Gerais.
Para quem não sabe, a Wikipédia tem a comunidade de moderadores mais forte da internet, o que resulta em uma análise antes que um artigo entre definitivamente no ar. O nome de Anastasia esteve muito tempo na página do grupo, o mais atuante de Minas. A explicação encontrada por Novojornalpara retirada de seu nome foi que a remoção atendeu interesse do próprio movimento.
Porém, tal ação fora documentada através de imagens. Como podiam ser vistas antes da intervenção e como ficou após a remoção. Entretanto, o caso mais ruidoso envolvendo o governador de Minas Gerais diz respeito a ele ter sido escolhido por Waldir Leite para edição de 2010 dos “Golden Gays”.
Waldir Leite é escritor e jornalista. Trabalhou como roteirista de novelas na Globo e na Record.
Foi repórter e editor do Jornal do Brasil, além de crítico literário do Caderno B, o suplemento de cultura do mesmo jornal. Atualmente assina um blog de cultura e comportamento com o seu nome.
Foi neste blog que ocorreu a intervenção que causou maior repercussão entre as ações do PSDB no intuito de apagar da mídia a opção sexual de Anastasia. Agora, ao consultar o Blog não se encontra a lista contendo o nome de Anastasia.
Na matéria retirada, de acordo com Waldir Leite, autor da lista dos Golden Gays, que ocorre desde 2002; “o ex-militante gay Anastasia é apaixonado por Aécio Neves, a quem, entre os amigos mais íntimos, só se refere como 'meu bofe".
Segundo Waldir Leite; “os homens públicos que são gays têm mania de arrumar um casamento às pressas para disfarçar sua homossexualidade. Foi para disfarçar sua homossexualidade que Henrique Meirelles, o todo-poderoso da economia brasileira, casou-se em 2002 com a psiquiatra Eva Missini.
Banqueiro bem sucedido no Brasil e nos Estados Unidos, em 2004 Meirelles decidiu seguir carreira política e concorreu ao cargo de Deputado Federal por Goiás onde foi eleito com votação recorde. Ciente de que era conhecido como gay na sua terra natal, onde já tinha dado muita pinta, sua primeira providência antes de concorrer ao pleito foi se casar.
Um casamento discreto, às pressas, em que os amigos que sempre freqüentavam suas festas nem foram convidados. Um casamento de conveniência.
Agora que se tornou uma estrela da política brasileira, Henrique Meirelles anda muito comedido. O chato de ser político é isso: o sujeito não pode ser ele mesmo. Não pode dar pinta. Não pode rodar a baiana. Não pode pegar bofes na sauna. É o preço que se paga. Mas na época em que era “apenas” Presidente do Banco de Boston e uma das estrelas do mercado financeiro internacional Meirelles soltava a franga.
Rapazes bonitões de Goiás viviam lhe fazendo visitas íntimas na mansão em que morava em Boston. Sempre que podia o banqueiro vinha passar temporadas em São Paulo onde costumava dar festas de arromba, em que não faltavam champanhe e rapazes bonitos.
Principalmente rapazes bonitos.
“O Meirelles sempre foi uma bicha festeira. Suas festas marcaram época em São Paulo”, diz um velho amigo do banqueiro, figura assídua da sua lista de convidados. No seu aniversário, dia 31 de Agosto, o Presidente do Banco Central gostava de dar festas temáticas, onde muitas vezes costumava aparecer fantasiado, para deleite das bichas amigas.
Numa de suas festas mais famosas, denominada de Noite das Arábias, Henrique Meirelles apareceu fantasiado de Scherazade. Waal! Certamente nessa época ele ainda não tinha aspirações políticas”.
E prossegue; “Presidente homossexual da República brasileira. De forma alguma! Afinal, não podemos esquecer Itamar Franco, que era uma doidivanas, uma maluca! O curioso é que Itamar foi vice de Fernando Collor, que também tem um prontuário gay. No livro escrito por Pedro Collor ele conta em detalhes o caso amoroso que o irmão Fernando teve com um certo Coronel Darío, um militar que foi Ajudante de Ordens nos anos dourados da Casa da Dinda. Very sexy!
Collor também teve um envolvimento com o deputado Paulo Otávio. Mas a vida gay de Fernando Collor começou ainda na juventude, quando ele era um garotão sarado e cheio de tesão. Foi nessa época que o Caçador de Marajás teve um romance com o costureiro francês Pierre Cardin, que foi a Alagoas acompanhar as filmagens de Joana, a Francesa, filme de Cacá Diegues, estrelado por Jeanne Moreau.
Segundo Wandir Leite, na época, a estrela francesa era casada com Cardin. Pois bem. Enquanto La Moreau filmava com Cacá, Cardin se esbaldava com o adolescente Fernando Collor nas canaviais da periferia de Maceió.
No livro de Pedro Collor ele também conta que o seu irmão tinha um fetiche um tanto quanto gay: gostava de consumir cocaína através de supositário. Ui! Talvez por tudo isso Collor tenha sido o melhor presidente do Brasil pós democracia.
Ao falar de gays na política brasileira não podemos esquecer jamais de Delfim Neto, a Ministra da Fazenda que reinou absoluta na época do governo militar. Essa era uma danada! Tão danada que tinha um grupo de rapazes ao seu dispor que eram conhecidos como os Delfim Boys.
Os Delfim Boys eram garotões másculos e viris que a poderosa Delfim protegia e amava com todas as suas forças. Generosa, a Ministra sempre cuidou para que o futuro dos seus rapazes fosse promissor. Muito deles depois que abandonaram as asas protetoras de tia Delfim se tornaram ricos e poderosos, graças a influência da Ministra protetora.
Um dos mais famosos Delfim Boys era um segurança bonitão que Delfim, apaixonado, ajudou muito. Anos depois, quando saiu da michetagem, ele acabou se tornando um poderoso empresário. Em sociedade tudo se sabe!
A lista de bibas na política brasileira é extensa. Henrique Meirelles não é o único gay nascido em Goiás a se tornar uma celebridade da política nacional. Seu conterrâneo Maguito Vilella também sempre foi do babado. Como vemos, as meninas de Goiás são danadinhas! Representando Pernambuco temos o ex-governador e hoje Senador Jarbas Vasconcelos. Esse tá sempre "namorando" misses e moças bonitas.
Sua assessoria gosta de mostrá-lo como um machão pegador, mas lá em Pernambuco o que se conta é que ele gosta mesmo é de rapazes. Em Minas temos o nosso Aécio Neves, sempre muito namorador, mas que ostenta em seu curriculo amoroso romances com outros homens. Que ótimo!"
Na vida privada do cidadão comum, suas opções religiosas, políticas e sexuais dizem respeito apenas a ele. Porém, ao homem público, a quem a sociedade delega pelo voto poderes para atuar com imparcialidade no combate ou na defesa de temas de extrema importância para suas vidas, estas opções devem ser de conhecimento público.
Após consultar sua assessoria jurídica e ouvir sociólogos, psicólogos e militantes que atuam no tema,Novojornal concluiu que cabe a imprensa divulgar com independência estas opções, ressaltando que a competência, comportamento moral e ético do homem público não tem qualquer relação com sua opção sexual, religiosa e política.
Evidente que aqueles que privam da intimidade do homem público têm conhecimento de suas opções e ações, porém, como dito anteriormente, através de seus mandatos irão decidir sobre temas que refletem no futuro de todos.
Ao fecharmos esta matéria, como se a confirmar a atuação deste grupo, nossa reportagem teve acesso ao Acórdão da 16ª Turma do TJMG em ação movida por Danilo de Castro que pede que a justiça impeça que seu nome seja divulgado por Novojornal após publicação da transcrição de conversas gravadas pelo Advogado J. Engler sobre sua opção sexual, de seu filho Rodrigo de Castro e do Senador Aécio Neves.
A justificativa da 16ª Turma Cível foi:
“Sendo grosseiras, de mau gosto e de natureza duvidosa, as notícias veiculadas aos agravantes, pelos agravados, no site www.novojornal.com, estas desafiam reprimenda ainda que em caráter provisório, razão pela qual a tutela antecipada pretendida deve ser deferida”
É inacreditável que o Poder Judiciário transformou-se em crítico literário e queira impor sua análise e interpretação crítica a sociedade através de decisões. Até pouco tempo a justiça analisava apenas a legalidade de uma prática. Informamos que a decisão não é definitiva e que Novojornal irá recorrer.
Documentos que fundamentam esta matéria
Do NovoJornal
No Sintonia Fina
Leia Mais ►

O fogo na casa noturna do Brasil: Idiotia e Progresso

O idiota solitário
O horrível incêndio na casa noturna do Sul do Brasil no fim de semana vai, como Samantha Pearson escreveu na segunda-feira, aumentar o escrutínio sobre o Brasil. Para um país escalando a tábua da liga econômica global e que se prepara para mostrar seu progresso na Copa do Mundo e nos Jogos Olímpicos, a lista de erros e fracassos que levou ao fogo da noite de sábado é o pior tipo de propaganda.
Mas é justo questionar o governo de um país quando um idiota solitário começa um incêndio num palco?
Muitas perguntas estão sendo feitas sobre as origens do incêndio de sábado. A mídia local noticiou, por exemplo, que a casa noturna estava no processo de renovar sua licença de operação e que a licença dos bombeiros tinha expirado em agosto. Mas não dá para apontar o Brasil como único lugar que tem casas noturnas problemáticas.
Além disso, houve notícia de que os seguranças inicialmente impediram que as pessoas escapassem do clube antes de pagar a conta (é uma prática comum para visitantes de bares e clubes no Brasil abrir uma conta para pagar na saída). Mas, seja qual for o tempo que se passou antes que descobrissem o que realmente estava acontecendo, seria difícil esperar que fizessem o contrário.
Outras perguntas são mais difíceis de descartar. Havia apenas uma saída em funcionamento, aparentemente mal sinalizada. (Muitas pessoas morreram presas nos banheiros, ou porque achavam que era a saída ou porque esperavam sair pelas janelas). O teto do clube estava coberto por isolamento acústico que qualquer inspetor dos bombeiros teria identificado como perigosamente inflamável. Um extintor de incêndio entregue a um integrante da banda para lidar com o início do incêndio aparentemente não funcionou.
Os regulamentos básicos, propriamente cumpridos, teriam evitado a tragédia e salvado a vida de 231 jovens. As autoridades, com razão, vão passar por duro escrutínio.
Finalmente, e quanto ao ato que diretamente causou as mortes? Existe confusão sobre o que aconteceu. Alguns relatos mencionam um sinalizador aceso por um integrante da banda; outros mencionam estrelinhas; outros falam num fogo de artifício colocado no palco que se chama “sputnik”, que solta faíscas coloridas.
O uso de qualquer aparato pirotécnico em espaço público confinado é ilegal no Brasil. E, certamente, qualquer idiota, em qualquer lugar, sabe que isso é incrivelmente estúpido e perigoso?
Não o idiota que o fez em Santa Maria, no sábado. Ele aparentemente disse depois que nunca tinha tido problemas no passado.
Falando à Folha de S. Paulo, Valdir Pignatta da Silva, um especialista em segurança contra incêndios da Universidade de São Paulo, disse que esta é uma questão cultural. Os brasileiros, ele disse, não estão alertas sobre a ameaça de incêndios — ao contrário dos ingleses, que relembram incêndios desde o século 17.
A ideia de que os frequentadores de casas noturnas britânicas são protegidos pela memória coletiva do Grande Incêndio de Londres não resiste a uma avaliação. E os brasileiros, tão rápidos em enfatizar e questionar seu papel no mundo, não deveriam se culpar muito pela idiotia de Santa Maria.
O empresário que soltou fogos de artifício durante um show de heavy metal no clube Station, em Rhode Island, nos Estados Unidos, em 2003, causando a morte de 100 pessoas, não se comportou de forma menos idiota.
Existem idiotas em todo o mundo e é difícil legislar contra eles. Até sábado, o Brasil não tinha tido uma tragédia nesta escala em mais de meio século. Se os eventos terríveis do fim-de-semana resultarem em aplicação mais severa das regulamentações, o Brasil terá feito progresso.
Jonathan Wheatley
No Finacial Times
Leia Mais ►

A maneira exemplar como os argentinos lidaram com uma tragédia parecida com a de Santa Maria

Em 2004, uma danceteria pegou fogo e deixou 194 mortos. Todos os condenados foram presos
Memorial em homenagem à tragédia da boate Cromagnón numa estação ferroviária
Memorial em homenagem à tragédia da boate Cromañón numa estação ferroviária

A tragédia na boate Kiss, em Santa Maria, que deixou 231 mortos e pelo menos 106 feridos, tem um antecedente tristemente similar na Argentina. Em 30 de dezembro de 2004, a República Cromañón, em Buenos Aires, pegou fogo durante um show da banda Callejeros. Como no caso da Kiss, a causa foi um despropositado espetáculo de pirotecnia: um sinalizador atingiu o teto e o material inflamável se encarregou de realizar o estrago. Foram 194 mortos e ao menos 1432 feridos.
É cedo para apontar os culpados pelo que houve na Kiss. As tevês, no entanto, já estavam crucificando os seguranças, que teriam impedido os clientes de sair antes de pagar a comanda. Também culparam as comandas, aliás.
Vai ser uma longa batalha, mas o caso da Argentina é didático em relação à rapidez da justiça, principalmente para os nossos padrões, e à incansável mobilização dos familiares das vítimas. Tênis dos jovens foram pendurados nos fios de alta tensão do bairro Once, conferindo uma beleza prosaica e mórbida ao lugar. Protestos na Plaza de Mayo, passeatas, memoriais, atos, missas e sites como quenoserepita.com.ar pressionaram as instituições sem cessar. As coisas não demoraram muito a acontecer: em 2006, o então prefeito de Buenos Aires, Aníbal Ibarra, foi destituído. Dezenas de casas noturnas foram interditadas. A rua onde ficava a Cromañón, calle Bartolomé Mitre, ganhou um santuário e foi fechada (por causa de problemas no trânsito, ela foi reaberta há poucas semanas, mas o santuário continua em pé).
No começo deste ano, enfim, todos os condenados pelo incêndio foram presos, acusados do delito de incêndio culposo seguido de morte.  Entre eles, o antigo líder da banda, Patricio Santos Fontanet, assim como o saxofonista, o baixista, os guitarristas e o cenógrafo. O diretor geral de fiscalização e controle da cidade, Gustavo Torres, também rodou. O empresário do grupo foi preso, bem como o gerente da boate e seu braço direito, além de diversas autoridades responsáveis pela fiscalização dos nightclubes portenhos. As penas variam entre 10 anos e 9 meses (para o gerente Omár Chaban) e 3 anos (para os músicos).
Levou oito anos para que fosse feita justiça na Argentina. No caso de Santa Maria, a luta dos pais e mães que perderam seus filhos está só começando. Mas, se eles querem que algo aconteça, vale dar uma olhada no que os vizinhos conquistaram com sangue, suor, lágrimas e panelaços.
A rua Once
A rua Once


Kiko Nogueira
No Diário do Centro do Mundo
Leia Mais ►

Sobre a cultura da noite, a tragédia de Santa Maria e a corrupção

Nosso colunista mostra o acúmulo de erros com base em 13 anos tocando em bares
Podemos evitar que isso se repita
Santa Maria, RS, perto do amanhecer
Antes de começar, deixo meus sinceros sentimentos a amigos e familiares das vítimas do acidente ocorrido na casa noturna Kiss na madrugada de sábado para domingo. Desde que acordei, ouvi muito sobre isso, e acho que posso contribuir com algumas informações adquiridas em 13 anos de experiência tocando em bares e casas noturnas.
O ocorrido impressionou muita gente, mas não a mim. Chocou, claro, ver o sofrimento das pessoas. Nunca imaginei um acidente dessa magnitude. Mas conforme ouvia certas informações, pensava comigo: “É … não dava para esperar nada melhor mesmo”.
A primeira coisa que causou estranheza em quem não conhece este universo é que os seguranças tentaram manter os convidados dentro da casa para pagar suas comandas. Segundo Taís, uma sobrevivente entrevistada pelo SBT, os seguranças encaminharam as pessoas para a fila de pagamento mesmo após o acidente; um deles teria dito que o fogo estava sob controle – isto é, ele estava ciente do ocorrido.
Em geral, seguranças são freelancers. Ganham entre R$ 50 e 100 reais por noite. Não recebem nenhuma instrução que não seja “evite brigas e não deixe ninguém ir embora sem pagar”. Não é sempre, é bom lembrar, mas é o mais comum.
A casa também não tinha alvará, e isto também tem sido muito noticiado. Aqui, chegamos a um problema mais complexo. Primeiro, o alvará de funcionamento não tem objetivo de dar segurança a ninguém. É uma taxa como tantas outras, um caça níquel das prefeituras. Eu, que jamais fui dono de bar, não conheço valores, mas já ouvi dezenas de pessoas afirmando que é abusiva.
Quando os dificultadores entram em cena, abrem espaço para corrupção. Conseguir licença para abrir uma casa noturna é algo tão intencionalmente complicado e burocrático que acaba corrompendo grande parte dos empresários. Com isso suas casas ficam sem alvarás. Sem alvará, a policia recebe suborno. Com suborno, não há controle – quem pode dizer que havia saídas de emergência suficientes se a checagem está sendo feita através de dinheiro?
Tenho visto gente falando da espuma acústica também. As de alto nível são auto-extinguíveis. Eu já vi demonstrações – a espuma pega fogo e encolhe, não espalha. A cola, hoje, também não é mais tóxica necessariamente. A Cascola fabrica um produto sem tuluol, componente mais tóxico da composição.
O problema é que muitas vezes se usa material de baixa qualidade. Aí o ciclo é o mesmo. Mercado pobre, prefeitura abusiva, policia corrupta, e o empresário opta por economizar em segurança. Às vezes me parece o Titanic, em escala menor. Lembra a cena do dono dizendo que não precisava de mais botes salva-vidas porque o barco era inafundável?
Soluções para o mercado da noite existem aos montes. A mais urgente, na minha visão, é proibir o uso das comandas. Na maioria dos países desenvolvidos, paga-se no momento do consumo. Aqui, a alegação é que é para não aumentar as filas no bar. Não é verdade. Comandas são utilizadas porque com elas consome-se mais. Se você paga por cada Coca-Cola, vê o dinheiro saindo; se o consumo é anotado num sistema, muitas vezes nem sabe o preço que está pagando. Só nota no fim da noite. Agora, veja que isto, sozinho, poderia ter evitado grande parte daquelas mortes.
Mas esta seria uma medida paliativa. É preciso mudar essa cultura, e o começo disso está no Estado – quando as prefeituras derem o bom exemplo, deixando de abusar dos empresários, quem sabe os empresários sejam capazes de instruir melhor seus funcionários. Taxas e multas têm que ser equivalentes ao tamanho do estabelecimento. Dessa forma, você cobra algo possível de ser pago, e não um valor que só vai fomentar a corrupção.
Com tudo isso, não estou de forma nenhuma eximindo os culpados. Os seguranças que foram desumanos e indecentes são culpados. Assim como os donos da casa. Mas a policia também é. E a prefeitura também.
Emir Ruivo, músico e produtor. Com sua banda Aurélio & Seus Cometas, em que canta e toca guitarra, ele possui dois álbuns lançados pela gravadora Atração Fonográfica.
Leia Mais ►

Quem são os culpados pelo incêndio em Santa Maria?

Dois músicos e o dono da boate Kiss foram presos. Serão os únicos a pagar?
flores
Dois músicos e mais o dono da boate Kiss acabam de ser presos. Tiveram culpa? Sem dúvida. Serão os únicos a pagar? Há grandes chances.
Quem são os verdadeiros e grandes responsáveis? Com todas as letras: governadores, prefeitos, sub-prefeitos, fiscais, técnicos, bombeiros. Todos aqueles que com atitudes relapsas vão contribuindo para que “pequenas consequências” possam um dia se encontrar todas ao mesmo tempo numa noite de verão e, juntas, formarem o apocalipse. Até quem vendeu o sinalizador e quem, conscientemente, fez a instalação de um forro volátil é cúmplice. Mas quem irá pagar o pato? Eu não me espantaria se o próximo a ser preso for um dos seguranças que, cumprindo ordens, barrou a saída do público (sem saber, obviamente, a extensão do incêndio).
Da forma com que tratam essas tragédias, a culpa poderia ser minha também. Pai irresponsável que sou, nunca confiro se as “baladas” a que meu filho semanalmente frequenta ocorrem em casas com alvarás. Poderia ser dele também, afinal, na faixa dos 20 anos, universitário, já estaria na hora de saber como detectar na escuridão de uma boate o prazo de validade num extintor de incêndio. É assim?
Enquanto escrevo, neste momento uma reportagem na TV ensina como funcionam os sinalizadores. Também não poderei mais isentar-me dessa culpa no futuro. Aliás, a cada nova tragédia, aprendemos para que e como funcionam os reversos dos aviões, os frisos nas pistas dos aeroportos e as rebimbocas das parafusetas. E daí? Daí a culpa é do piloto, do operário, do estagiário e, principalmente, do dono do bordel. Nunca de quem deveria fiscalizar previamente.
Durante a cobertura jornalística apressada da TV, alguns comentários como “As pessoas precisam verificar, quando entram nesses lugares, se há saídas de emergência”, são ouvidos repetidas vezes. Você faz isso? Quem faz isso? Em minha próxima viagem devo pedir para ir à cabine do comandante antes do pouso para ver se ele está obedecendo os padrões direitinho? Que jovem de 18, 19 ou 20 anos irá fazer um reconhecimento de área e verificação dos equipamentos de segurança numa festa? Mesmo que o mais nerd dos nerds da faculdade seja arrastado para participar de uma balada, nem ele faria isso.
E não é para fazer mesmo! Exatamente, não é responsabilidade sua. Nem minha.
enterro
Se o estabelecimento comercial existe, está aberto – e faturando – isso implica compreender que esteja apto para receber o público. Com pulserinhas sim, mas também com extintores, com saídas de emergência, com alvará, com registros, com sinalização adequada, com brigada de incêndio, com tudo como manda o figurino. Com todos os pressupostos. Com responsabilidade, acima de tudo. Há responsáveis. Muitos. Senão, como estaria funcionando, não é verdade?
Uma mortandade como a ocorrida em Santa Maria não acontece devido a um único fator ainda que o fogo de artifício sinalizador tenha sido, literalmente, o estopim da catástrofe. São vários os ingredientes para que algo daquela dimensão aconteça.
O revoltante é que todos eles, sem exceção, eram evitáveis.
Superlotação, crianças brincando com fogo, forro acústico altamente inflamável, pé-direito baixo, falta de sinalização e/ou saídas de emergência, etc, etc. Seria possível listar nem sei mais quantas, porém todas passíveis de medidas preventivas. O descaso com elas é que leva a essas consequências.
Portanto, se a saída da área VIP foi facilitada (alguém mais lembrou de Titanic?), se havia 500 pessoas a mais que a capacidade, se o poder público não vistoriou, tudo deve ser levado às últimas instâncias, pois são inúmeras as casas noturnas espalhadas pelo país que replicam esses mesmos padrões de “entretenimento”. E como ir para a balada é o que 99,9% dos jovens fazem nas madrugadas dos finais de semana, faz suscitar a velha questão: “Nem sei como isso não acontece mais vezes”.
Então, se não desejamos que isso termine só com a prisão do proprietário da boate e dos músicos, é preciso que se exerça forte cobrança sobre as autoridades não só pelas investigações e punições pela tragédia na Kiss, mas pelo cumprimento de normas daqui para frente. Todas elas. Sem jeitinho.
Mauro Donato
No Diário do Centro do Mundo
Leia Mais ►

Dilma pede que ministro da Saúde permaneça em Santa Maria

 
A presidenta Dilma Rousseff telefonou nesta segunda-feira (28) para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e pediu que ele permaneça no Rio Grande do Sul monitorando o trabalho de apoio aos feridos durante o incêndio ocorrido no último domingo (27) em uma boate de Santa Maria.
O Ministério da Saúde deslocou para Santa Maria membros da Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS) e intensificou ações das Unidades de Suporte Avançado do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), equipados com respiradores. Mobilizou hospitais das redes pública e privada da região, com 64 leitos de UTI e 36 leitos de semi-UTI, em Porto Alegre.
O Ministério da Saúde se articulou com o governo e a Polícia Rodoviária do Paraná para envio de duas aeronaves, equipe médica completa e equipamentos para transporte das vitimas do incêndio. Da cidade de Tatuí, em São Paulo, foram enviadas cinco ambulâncias UTI do SAMU, com 30 respiradores e 30 oxímetros (mede a quantidade de oxigênio no sangue) para Santa Maria, onde também o Ministério da Saúde montou uma estrutura composta de 20 equipes de médicos e psicológicos de apoio e assistência, 24 horas por dia, aos familiares das vítimas da tragédia.
Padilha também colocou à disposição dois centros de queimados de referência em Porto Alegre, a Unidade de Emergência do Grupo Hospitalar Conceição (GHC) e leitos de UTI nas cidades de Canoas e Caxias.
No Blog do Planalto
Leia Mais ►

O cara de pau

Maílson diz que PT destrói o que ele construiu
Ciete Silvério/A2 ComunicaÃ: Retrato do Dr. Mailson da Nobrega em seu escritório.
Data: 01/03/2010
Local: Sao Paulo/SP
Foto:Ciete Silvério/A2 Comunicação
Ministro da Fazenda que deixou o cargo com inflação de quase 80% ao mês aponta destruição do seu legado pelo governo Dilma
Maílson da Nóbrega, ministro da Fazenda entre janeiro de 1988 e março de 1989, que deixou o cargo com inflação de quase 80% ao mês, acusa agora o governo do PT de destruir o que ele construiu. Em artigo publicado no detrito de maré baixa a revista Veja desse final de semana, o ex-ministro diz que "os governos do PT têm promovido o desmonte sistemático das instituições fiscais duramente construídas nos anos 1980, e também com a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), de 2000". Para Maílson, o PT sempre se insurgiu contra a "evolução institucional" que se construiu nos anos anteriores.
Leia Mais ►

Os sem noção

Vejam a charge macabra de Chico Caruso (O Globo), divulgada despudoramente por Ricardo Noblat. Vejam que a mulher com as mãos na cabeça seria Dilma Rousseff. Que grosseria. Que estupidez.
São esses aí os que "são sempre do contra" que a Dilma falou.
Gerson Carneiro e Luis Carlos
Leia Mais ►

"A sociedade é conservadora"

 
A Frente Parlamentar Evangélica tem hoje 79 parlamentares, entre deputados e senadores, o que representa 13% do Congresso Nacional. Os integrantes do grupo estão entre os grandes opositores dos chamados projetos progressistas, como a Lei Gabriela Leite. Presidente da Frente Evangélica, o deputado João Campos (PSDB-GO) afirma categoricamente que a proposta “não tem nenhuma chance de lograr êxito”. Para ele, o Congresso está mais conservador porque esse é o perfil da sociedade brasileira. “Esse projeto é um plágio do projeto do Gabeira que já derrubamos. Conhecendo a Casa como eu conheço, não há chance de prosperar”, comenta Campos.
O representante dos evangélicos diz que é preciso ampliar as políticas de inclusão social e a criação de vagas no mercado de trabalho para tirar as mulheres da prostituição. “As mulheres ficam nessa vida por falta de oportunidades, elas não querem viver disso. Nossa defesa é da dignidade da pessoa humana”, diz João Campos. O deputado acredita que a bancada de perfil progressista vai encolher. “As pessoas que defendem essas ideias merecem nosso respeito e têm legitimidade para discutir. Vamos fazer esses debates sem levar para o lado pessoal. Mas a maioria da sociedade é conservadora e a Casa representa a sociedade”, finaliza o presidente da Frente Parlamentar.
O deputado Jean Wyllys lembra que o fenômeno não acontece somente no Congresso, mas também nos estados e nos municípios. “Tanto católicos de direita quanto os neopentecostais tomaram assento nas assembleias estaduais e nas câmaras de vereadores. O número é crescente, mas eles não são maioria. Temos uma configuração no Congresso que permite a existência de uma bancada de fundamentalistas religiosos. Não vemos isso em outros países como Portugal, que tem tradição católica, mas permitiu a aprovação do casamento igualitário”, comenta Wyllys.
A saída da senadora Marta Suplicy (PT-SP) para assumir o Ministério do Turismo foi a mais recente redução da chamada bancada progressista, que hoje tem entre seus representantes mais aguerridos, além de Wyllys, os deputados Érika Kokay (PT-DF), Manuela d’Ávila (PCdoB-RS), Domingos Dutra, Luiz Couto (PT-PB) e Jandira Feghali (PCdoB-RJ).
Para Antônio Augusto de Queiroz, analista político e diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), a tendência é de crescimento dos segmentos mais conservadores a cada eleição. “O custo alto das campanhas não deixa espaço para o voto de opinião, como o dos candidatos com perfil mais progressista. Os conservadores votam em função de orientação religiosa, e os candidatos alinhados com esse perfil têm mais acesso a financiamento”, explica.
No Correio Braziliense
Leia Mais ►

O festival de desinformação que segura o desenvolvimento

Hoje em dia, provavelmente o maior custo que o país carrega é o chamado “custo mídia” – o festival de desinformação que tomou conta da cobertura dos grandes veículos.
Há um caminhão de questões para serem criticadas. O governo Dilma está longe do estado da arte da gestão; as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) ainda enfrentam problemas de gerenciamento; não se avançou em nada na redução da burocracia pública; abandonaram-se as minirreformas que ajudavam a destravar a economia.
Cada tema desse dá espaço a campanhas críticas relevantes, necessárias para aprimorar os trabalhos, evitar o acomodamento e manter o governo com rédea curta,
* * *
Mas há uma invencível dificuldade da mídia em produzir a crítica técnica.
Há muito reclama-se do custo Brasil, expresso especialmente nas tarifas públicas. Um dos grandes problemas surgidos nos anos 90 foi com a matriz elétrica. Tinha-se, até então, energia barata, fruto de décadas de investimento em hidrelétricas já amortizadas.
Com a privatização, matou-se essa vantagem competitiva. Criou-se um modelo de mercado que desorganizou a geração, praticamente quebrou a distribuição e, ao final, legou uma das tarifas de energia mais altas do planeta.
* * *
Decidiu-se, então, reduzir as tarifas – mais para as empresas (que necessitam de competitividade), menos para os consumidores domésticos.
Trata-se de medida de largo alcance. Segundo as contas da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) significará uma economia anual de R$ 31,5 bilhões para o setor produtivo.
Permite não apenas tornar os produtos internos mais competitivos em relação aos importados, como melhor as decisões de investimento em muitos setores.
* * *
Aliás, faz parte da estratégia adotada de baratear os novos investimentos, onde entra também a redução da taxa Selic, melhoria do câmbio, desonerações da folha etc.
Os efeitos são claramente quantificáveis.
Imagine uma empresa que fature R$ 100 milhões/ano e lucre 20%, ou R$ 20 milhões. Logo, suas despesas totais são de R$ 80 milhões. Suponha que R$ 30 milhões sejam com folha salarial e R$ 10 milhões com custo de energia.
Na hora de analisar o investimento, se for recurso próprio, o empresário irá comparar com o chamado custo de oportunidade – no caso, a aplicação remunerada pela Selic, a taxa básica de juros da economia, com plena liquidez e sem risco.
Com a Selic a 12,5%, para que o investimento tenha o mesmo retorno, em 15 anos, ele terá que investir R$ 132,7 milhões na empresa.
* * *
As medidas de redução de investimento impactam diretamente o investimento necessário
Com a redução da Selic de 12,5% para 7,5%, sua capacidade de investimento aumenta para R$ 176,5 milhões. Ou seja, 33% de aumento.
Com a redução da conta de energia em 27%, sua capacidade de investimento aumenta para R$ 150,6 milhões, uma alta de 14%.
Com a desoneração da folha de pagamentos, a capacidade de investimento aumenta em 30%, para R$ 172,5 milhões.
Somando-se tudo, a capacidade de investimento pode aumentar em 91%, indo para R$ 253,4 milhões.
Ora, não existe mágica na redução. Não existe almoço-grátis.
Cota de depreciação - 1
Uma das medidas utilizadas foi aproveitar o vencimento de concessões e acabar com a cota de amortização. Antes, o governo cobrava pela concessão, o concessionário pagava e incluía a amortização do investimento na tarifa. O consumidor acabava pagando pelo investimento. Decidiu-se mudar a sistemática, deixando de lado a modalidade de concessão onerosa pela concessão pela menor tarifa. Mais ainda.
Cota de depreciação – 2
Na hora de renovar concessões antigas, deu aos concessionários a possibilidade de renovar de forma não onerosa, desde que aceitasse a nova modalidade de pagamento – que levaria em conta as despesas operacionais da concessão. Para reduzir a conta, no caso das concessões que vencem até 2015, houve a proposta de ressarcir as empresas pelo tempo que faltava para vencer o contrato. Como discutir a legitimidade da proposta?
Cota de depreciação – 3
De repente, descobre-se que o mercado precificava as empresas levando em conta a renovação da concessão, a manutenção dos ganhos com a tal taxa de depreciação, mesmo ela não se constituindo em direito líquido e certo da companhia. Acionistas ganharam rios de dinheiro em cima da desinformação do mercado, contando com um faturamento futuro que não poderia se manter após o final da concessão.
Cotas de depreciação - 4
As cotações de uma companhia dependem do fluxo futuro de resultados. Em geral, o mercado projeta o fluxo passado para o futuro e, a partir daí, calcula o chamado preço justo da ação. Ora, no caso das concessões, ponto central de análise é o prazo dos contratos e de que maneira se dará sua renovação. Vendeu-se a ideia de que, mesmo com a renovação, o fluxo de resultados seria mantido. É evidente que houve um passa-moleque no mercado.
Cota de depreciação – 5
Em vez de investir contra os que manipularam os preços (escondendo informações relevantes), houve um enorme alarido de lobistas contra o que diziam ser “insegurança jurídica” dos contratos. Que mané insegurança? Tem-se periodicamente leilões de energia, com novos investidores entrando no mercado, apostando em novas fontes, sem um pingo de receio quanto à segurança jurídica. No entanto, espalhou-se a lenda da insegurança, com propósitos eminentemente políticos.
Almoço grátis
Não se ficou só nisso. Se desonera a conta de tributos, diz-se que o governo está dando presente tirando dinheiro dos impostos. Se há aporte do Tesouro, diz que o governo está oferecendo almoço com dinheiro do contribuinte. Mas é claro! Alguém acha que essa entidade chamada governo tem fontes próprias de receita? Há um tiroteio insano no ar que impede que as boas iniciativas sejam valorizadas e impede que os fracassos relevantes sejam apontados.
Luis Nassif
No Advivo
Leia Mais ►

O que a morte não cessa de nos dizer

 
A dor provocada por tragédias como a ocorrida neste final de semana na cidade de Santa Maria sacode a sociedade como um terremoto, despertando alguns de nossos melhores e piores sentimentos. Um acontecimento brutal e estúpido que tira a vida de 233 pessoas joga a todos em um espaço estranho, onde a dor indescritível dos familiares e amigos das vítimas se mistura com a perplexidade de todos os demais. Como pode acontecer uma tragédia dessas? A boate estava preparada para receber tanta gente? Tinha equipamentos de segurança e saídas de emergência? Quem são os responsáveis?
Essas são algumas das inevitáveis perguntas que começaram a ser feitas logo após a consumação da tragédia? E, durante todo o domingo, jornalistas e especialistas de diversas áreas ocuparam os meios de comunicação tentando respondê-las. As redes sociais também foram tomadas pelo evento trágico. Os indícios de negligência e falhas básicas de segurança já foram apontados e serão objeto de investigação nos próximos dias. Mas há outra dimensão desse tipo de tragédia que merece atenção.
É uma dimensão marcada, ao mesmo tempo, por silêncio, presença e exaltação da vida. O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, disse na tarde deste domingo que o momento não era de buscar culpados, mas sim de prestar apoio e solidariedade às milhares de pessoas mergulhadas em uma profunda dor. Não é uma frase fácil de ser dita por uma autoridade uma vez que a busca por culpados já estava em curso na chamada opinião pública. E tampouco é uma frase óbvia. Ela guarda um sentido mais profundo que aponta para algo que, se não representa uma cura imediata para a dor, talvez expresse o melhor que se pode oferecer para alguém massacrado pela perda, pela ausência, pela brutalidade de um acontecimento trágico: presença, cuidado, atenção, uma palavra.
Quem já perdeu alguém em um acontecimento trágico e brutal sabe bem que o caminho da consolação é longo, tortuoso e, não raro, desesperador. E é justamente aí que emerge uma das melhores qualidades e possibilidades humanas: a solidariedade, o apoio imediato e desinteressado e, principalmente, a celebração do valor da vida e do amor sobre todas as demais coisas. A vida é mais valiosa que a propriedade, o lucro, os negócios e todas nossas ambições e mesquinharias. Na prática, não é essa escala de valores que predomina no nosso cotidiano. Vivemos em um mundo onde o direito à vida é, constantemente, sobrepujado por outros direitos. Tragédias como a de Santa Maria nos arrancam desse mundo e nos jogam em uma dimensão onde as melhores possibilidades humanas parecem se manifestar: o Estado e a sociedade, as pessoas, isolada e coletivamente, se congregam numa comunhão terrena para tentar consolar os que estão sofrendo. Não é nenhuma religião, apenas a ideia de humanidade se manifestando.
Uma tragédia como a de Santa Maria não é nenhuma fatalidade: é obra do homem, resultado de escolhas infelizes, decisões criminosas. Nossa espécie, como se sabe, parece ter algumas dificuldades de aprendizado. Nietzsche escreveu que muito sangue foi derramado até que as primeiras promessas e compromissos fossem cumpridos. É impossível dizer por quantas tragédias dessas ainda teremos que passar. Elas se repetem, com variações mais ou menos macabras, praticamente todos os dias em alguma parte do mundo e contra o próprio planeta.
Talvez nunca aprendamos com elas e sigamos convivendo com uma sucessão patética de eventos desta natureza, aguardando a nossa vez de sermos atingidos. Mas talvez tenhamos uma chance de aprendizado. Uma pequena, mas luminosa, chance. E ela aparece, paradoxalmente, em meio a uma sucessão de más escolhas, sob a forma de uma imensa onda de compaixão e solidariedade que mostra que podemos ser bem melhores do que somos, que temos valores e sentimentos que podem construir um mundo onde a vida seja definida não pela busca de lucro, de ambições mesquinhas e bens materiais tolos, mas sim pela caminhada na estrada do bom, do verdadeiro e do belo. A morte nos deixa sem palavras. Mas ela nos diz, insistentemente: é preciso, sempre, cuidar dos vivos e da vida.
Ilustração: Jean-François Millet/The Angelus
No RS Urgente
Leia Mais ►

Jornalismo com sensibilidade

Leia Mais ►

Charge online - Bessinha - # 1669

Leia Mais ►

Blogoosfero: plataforma livre para a democracia na rede

Leia Mais ►