19 de jan de 2013

As Oposições e Suas Batalhas

O ano mal começou e a nova batalha das oposições, partidárias e extraparlamentares, já está em pleno andamento. Se a primeira quinzena de janeiro transcorreu assim, imagine-se o restante do ano. É fácil perceber o que as move e aonde pretendem chegar.
A espetacularização do julgamento do “mensalão” foi feita com o único objetivo de desconstruir a imagem do PT no plano moral. O que buscavam era marcar o partido e suas principais lideranças com o estigma da corrupção, a fim de erodir suas bases na sociedade.
Só quem acredita em histórias da carochinha levou a sério a versão de que a imprensa oposicionista tinha o desejo sincero de renovar nossos costumes políticos e promover a “limpeza das instituições”. Seus bons propósitos são tão verdadeiros quanto os de Pedro Malasartes, personagem de nosso folclore famoso pelo cinismo e pela falta de escrúpulos.
Por maiores que tenham sido seus esforços, obtiveram, no entanto, sucesso apenas parcial na empreitada, como vimos quando as urnas da eleição municipal foram abertas. Os resultados nacionais e algumas vitórias, como a de Fernando Haddad, em São Paulo, mostraram que os prejuízos sofridos pelo PT em decorrência do julgamento ficaram aquém do que calculavam.
Essa frustração as levou ao ponto em que estão hoje. De um lado, a insistir no moralismo e na tentativa de transformar o “mensalão” em assunto permanente da agenda nacional. Querem forçar o País a continuar a debatê-lo indefinidamente, como se tivesse a importância de temas como a democracia, o desenvolvimento econômico, o meio ambiente e a educação.
De outro, a diversificar os ataques, assestando as baterias em direção a novos alvos, procurando atingir a imagem administrativa da presidenta e do governo Dilma. Por extensão, de todo o PT. Não chega a ser um projeto original.
Nas disputas políticas, nenhuma novidade há em acusar os adversários, simultaneamente, de corrupção e incompetência. Em dizer que, além de se apropriar de recursos públicos, não sabem governar, e que não há, portanto, qualquer razão para apoiá-los, nem sequer o argumento do “rouba, mas faz”.
Neste início de ano, o discurso das oposições, em especial da armada midiática, é afirmar que o PT rouba e não faz.
Atravessamos os primeiros 15 dias de 2013 como se vivêssemos uma crise gravíssima e difusa, como se o Brasil estivesse na iminência da paralisia total.
Quem acompanhou o noticiário só ouviu falar em problemas, gargalos e decepções. É o inverso do que ela costuma fazer em janeiro, quando a maioria de seus leitores está de férias e pensa em outras coisas. Em vez das habituais reportagens amenas sobre a musa do verão e os preparativos para o carnaval, tudo o que publicam tem um tom catastrófico.
Os mais radicais não escondem a satisfação com o fraco desempenho do PIB em 2012 e os problemas de abastecimento elétrico em diversas regiões.
Ficaram algo tristes com as modestas tragédias naturais do começo do ano. Por enquanto, o que lhes resta é torcer por calamidades espetaculares.
“Pibinho”, crise de gestão, apagão, desindustrialização, inflação, desemprego, falta de ar refrigerado no Santos Dumont, a disparada no preço do tomate, tudo vai mal no Brasil, segundo a mídia oposicionista. Por culpa de Lula, que “não soube aproveitar a sorte” e “desperdiçou a herança de FHC”, e de Dilma que é “centralizadora”, “estatista” e “antiquada”.
Batem em tudo que veem e, se não veem, inventam. Nos últimos dias, até o Bolsa Família entrou na linha de mira dos “grandes jornais”. Sem falar na raiva contra Hugo Chávez, a quem parecem detestar somente por ser amigo de petistas – visto que nunca dedicaram aversão igual aos govenantes de direita do continente.
São como os lutadores de boxe que não possuem em seu repertório um soco capaz de nocautear o adversário. Lembram os enfezados pesos-moscas orientais, que brigam desferindo a esmo diretos, cruzados, jabs e uppercuts – além de, vez por outra, golpes baixos. Funciona? Até agora, pode-se dizer que não.
Apesar do coro negativista, as pessoas comuns continuam satisfeitas com o País e o governo, e esperançosas em relação ao futuro. Em recente pesquisa da Vox Populi, 68% dos entrevistados disseram esperar que a situação de suas famílias venha a melhorar nos próximos 6 meses, contra 2% que temem que piore. E o mais provável é que os otimistas tenham razão.
Esta semana, outro patético esforço de mobilizar os “indignados” conseguiu colocar dez cidadãos na Avenida Paulista. Portavam cartazes pedindo “Basta!”. Ficaram falando sozinhos.
Uma coisa é conseguir a adesão de meia dúzia de ministros do Supremo, a maioria já alinhada com a oposição. Outra é encher as ruas. Isso, ela nunca soube fazer.
E não consegue aprender.
Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
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O que o doping ensina

 
A entrevista de Lance Armstrong a Oprah Winfrey, muitíssimo melhor do que o esperado – principalmente porque a apresentadora soube prensar o ciclista –, prendeu a atenção do mundo tal qual uma final de futebol ou de um seriado. A confissão do uso de substâncias proibidas veio inteligentemente no início, num aparentemente pueril ping-pong de sim ou não, e com a admissão feita, Lance já estava devidamente desarmado para então contar as histórias que viveu, venceu, negou, lutou para negar e se rendeu.
O agora sete vezes perdedor da Volta da França demonstrou nervosismo por vezes também por ser confrontado, possivelmente sem saber, com declarações em que desmentia categoricamente o uso de EPO (eritropoietina, um estimulante para que a medula óssea produza as hemácias e permita uma melhor oxigenação), testosterona e outros dopantes. Mesmo com tantos nomes de ex-companheiros e pessoas que ajudaram a delatá-lo e permitiram a investigação que culminou em sua derrocada esportiva e moral, Armstrong evitou falar dos outros, mas indiretamente deu as letras. Deixou claro que o mundo do ciclismo vive à base de doping. “Entre 300 ciclistas, 5 não se dopam”, chegou a comentar, e reiterou que nunca se sentiu arrependido por ter ganhado na base da trapaça porque “era a maneira de igualar as condições”.
Porque é simples: todos trapaceiam. Não só no ciclismo.
No mundo dos iguais bolados e anabolizados, Lance era o melhor, e notória e abertamente faria tudo para ser o melhor e vencer. Daí sua cabeça deitar no travesseiro sem peso, mesmo utilizando o câncer como mote. Lance era o desigual num mundo de desiguais, que morreriam abraçados se os antidopings, defasados, não acusassem as evidências. E levantar a questão de liberar o doping no ciclismo é admitir a derrota do esporte.
O esporte em geral vive de seus dopings. O atletismo é uzeiro e vezeiro, a natação vira e mexe aparece com seus casos, o automobilismo teve os seus, aqui, inclusive. E há seus paralelos e metáforas neste último. O carro da Brawn de 2009 era anabolizado com aquele difusor duplo que era proibido no início da temporada, mas que a FIA deu um jeito de liberar por conta da situação da equipe recém-comprada da Honda. Bem como a Benetton de 1994 com os auxílios eletrônicos proibidos e seu assoalho diferenciado. E a asa que flexiona, e a espionagem que se faz para obter dados de outra equipe, e o time que ordena troca de posições.
No jornalismo, o doping é usar escuta ilegal, inventar entrevista ou acrescentar palavras que o interlocutor disse – alguns casos no meio – , roubar a notícia do outro sem dar o crédito, usar a informação com um outro fim que não informar – aliás, colegas, Oprah deu um banho de como se fazer uma entrevista ontem; é uma lição e tanto. Se os fracos não superam seus limites, procuram os últimos meios. O importante é competir, contanto que ganhe.
Longe de ser conivente com o ciclista, principalmente porque sua admissão só se deu porque não tinha mais jeito de esconder sua farsa – sua personalidade suja vai ficar para sempre. A grande questão é que parece que a criação humana é feita, em maior ou menor escala, com a intenção de se suceder a qualquer custo: no tapete que se passa no colega de trabalho para subir de cargo, no uso do acostamento na estrada parada pelo excesso de tráfego, no furo da fila do banco ou do show, na carteirinha de meia-entrada, na comissão que se leva para escolher um negócio em detrimento de outros, na propina que se paga ou que se recebe para que não haja multa. O exemplo de Armstrong, mundial porque ele se fez grande desta forma e se tornou pequeno igualmente, é apenas um reflexo social e leva a uma reflexão. Geralmente os maus exemplos ensinam muito melhor, e se houve um choque geral pela forma com que Lance obtinha seus êxitos sem achar aquilo um descalabro, é porque há realmente algo a se mudar – sem precisar de lei de moral e bons costumes. É questão de adotar outras posturas se o caráter já não estiver desviado. Porque não adianta depois passar o resto da vida pedindo desculpas.
Um dia, as pessoas vão entender que a única trapaça aceitável na existência é no truco.
Victor Martins
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Janis, the way she was

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Charge online - Bessinha - # 1657

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Um dia na vida do Perfeito Idiota Brasileiro

Charles Chaplin pelo artista plástico chileno Cornejo Sanchez
O texto abaixo é uma versão revisada, atualizada e abrasileirada do Manual do Perfeito Idiota Latino-americano, dos anos 1990.
PIB. Chamemos de PIB. O Perfeito Idiota Brasileiro.
Vamos descrever o dia do PIB. Vinte e quatro horas na vida de um PIB para que os pósteros, a posteridade, tenham uma idéia do Brasil de 2012.
Ele acorda às sete horas da manhã. Tem que preparar o próprio café da manhã. Já faz alguns anos que sua mulher parou de fazer isso para ele, e ficou caro demais para ele pagar uma empregada doméstica.
Ele lamenta isso.  Era bom quando havia uma multidão de nordestinas sem instrução nenhuma que saíam de suas cidades por falta de perspectiva e iam dar no Sul, onde acabavam virando domésticas.
PIB dá um suspiro de saudade. Chegou a ter uma faxineira e uma cozinheira nos velhos e bons tempos. Num certo momento, PIB percebeu que as coisas começaram a ficar mais difíceis. Havia menos mulheres dispostas a trabalhar como domésticas, e os salários foram ficando absurdos.
Para piorar ainda mais as coisas, ao contrário do que sempre acontecera, a última empregada de PIB recusou votar no candidato que ele indicou.
Mulherzinha metida.
Foi por coisas assim que PIB aderiu ao movimento  Cansei, ao lado de ativistas notáveis como Boris Casoy, Hebe Camargo, Agnaldo Rayol e João Dória Júnior. Empolgante o Cansei. PIB quase fora a uma manifestação. Só desistiu porque era sábado e sábado a feijoada era sagrada. O protesto com certeza fora um sucesso.
O povo unido jamais será vencido.
PIB tomou o café na cozinha, com o Globo nas mãos. Assinava o jornal fazia muitos anos. Se todos os brasileiros fossem como o Doutor Roberto Marinho, PIB pensou, hoje seríamos os Estados Unidos. Bonito o choro do Bonner ao anunciar no Jornal Nacional a morte de Roberto Marinho.
Por que ainda não ergueram estátuas para ele?
Com o Globo, PIB iniciou sua sessão de leituras matinais. Mais ou menos quarenta minutos, antes de ir para o escritório.
Leu Merval. Quer dizer, leu o primeiro parágrafo e mais o título porque naquele dia o texto, embora magnífico, estava longo demais. Havia um artigo de Ali Kamel. “Um cabeça”, pensou PIB. “Deve ter o QI do Einstein.” Mas também aquele artigo –embora brilhante, um tratado perfeito sobre o assistencialismo ou talvez sobre o absurdo das cotas, PIB já não sabia precisar — parecia um pouco mais comprido do que o habitual. Deixou para terminar a leitura à noite.
PIB vibrou porque, se não bastassem Merval e Kamel, havia ainda Jabor.
Um gênio. Largou o cinema para iluminar o Brasil com sua prosa espetacular. Um verdadeiro santo. Podia estar com a sala da casa cheia de Oscar.
Começou a ler Jabor e refletiu. “Impressão minha ou hoje aumentaram o tamanho do Jabor?” PIB sacudiu a cabeça, na solidão da cozinha, num gesto de reverência extrema por Jabor, mas também achou melhor deixar para ler mais tarde. Era seu dia de sorte. Também o historiador Marco Antônio Villa estava no Globo. “Os primeiros 18 meses do governo Dilma foram fracassos sobre fracassos” era a primeira linha. Bastava. Villa sempre surpreendia com pensamentos que fugiam do lugar comum.
Como uma terrorista chegou ao poder? Bem, tenho que comprar algum livro de história do Villa. Ele com certeza escreveu vários.
Completou a sessão de leituras da manhã na internet. Leu Reinaldo Azevedo.  Quer dizer, naquela manhã, leu um parágrafo. Na verdade, metade. Menos. O título. Não importava. Azevedo era capaz de mesmerizar toda uma nação com a luz cintilante de meia dúzia entre milhares de linhas que produzia incessantemente. PIB deixava escapar um sorriso de admiração a cada vez que lia a palavra “petralha” em Azevedo.
Rei é rei. Um cabeça pensante. Por que será que não ocorreu a nenhum presidente da República contratar esse homem como assessor especial? Se o Brasil bobear, a Casa Branca vem e contrata.
Debate é assim. Medalhinha. Chamar um tal de Nassif de Nassífilis. PIB julgava FHC um banana. Não sabia debater. Bananão. Como FHC podia dizer coisas assim? “Eu não estou aqui para ver o PT se arrebentar. O Brasil precisa de partidos que tenham uma certa história, e o PT tem.” Isso em 2005, quando era o momento de derrubar o lulopetismo. E essa outra? “Por que o mensalão se tornou conhecido? Porque o Roberto Jefferson teatralizou o mensalão.” E essa então? “O Lula, ao invés de renunciar e desistir, disse: eu vou brigar. O Lula foi decisivo naquele momento, em dissipar o mensalão.”
Ba-na-não! Graças a Deus já passou dos 80 e não pode mais atrapalhar o Brasil. O campo ficou livre para o Serra e o Aécio!
Ainda na internet, uma passagem pelo Blog do Noblat. Naquele dia, no blog havia uma coluna assinada por Demóstenes. PIB deu parabéns mentais a Noblat por abrir espaço a Demóstenes, nosso campeão mundial da moralidade, nosso Catão. PIB guardara um texto de Demetrio Magnolli, outro cérebro avançado, em que este prestava um justo tributo à nossa reserva moral no senado. Saíra na edição das 100 pessoas mais influentes da revista Época. Anotou um trecho: “Não é preciso concordar com tudo que ele fala ou faz para homenageá-lo. Demósteneses não é mais um comerciante num mercado em que se trafica influência em troca de cargos ou privilégios. Ele tem princípios e convicções.”
Por que falam tanto do tal do Assange e do Wikileaks quando temos tantos caras muito melhores?
A caminho do trabalho, PIB ligou na CBN. Ouviu uma entrevista com o filósofo Luiz Felipe Pondé. “Meu pequeno carro não contribui para o aquecimento do planeta”, disse Pondé, o nosso Sócrates, o Aristóteles verde-amarelo. Pondé ganhara imediatamente a admiração de PIB quando reclamara dos pobres que estavam congestionando os aeroportos. A última vez que viajara para Miami ficara revoltado com as pessoas inferiores que iam voar.
Bem, preciso anotar aquela. Meu pequeno carro não contribui para o aquecimento global.
Isso o levou a reparar nos ciclistas nas ruas de São Paulo. Cada dia parecia haver mais. Mau sinal. Havia muitas bicicletas no trajeto. PIB sentiu vontade de atropelá-las em grupo e fazer um strike. Odiava ciclistas. Atrapalhavam os motoristas. Tivera vontade de vomitar quando vira a foto de um ciclista inglês de bunda de fora — branca e mole como um pudim —  numa marcha nudista por mais espaço e segurança em Londres para as bicicletas.
Abria uma única exceção: Soninha. Desde que ela continuasse a posar pelada em nome das bicicletas.
Hahaha. Hohoho.
Na CBN ouviu também informações e comentários sobre o mundo. “Prestígio em Paris dá vantagem a Sarkozy nas eleições presidenciais”, a CBN avisou. PIB admirava Sarkozy. Proibir a burca foi um gesto histórico. As muçulmanas deveriam ser gratas a Sarkozy. Elas haveriam de votar maciçamente nele para dar a ele o segundo mandato para o qual a CBN dizia que ele era o favorito.
Os maridos obrigam as coitadas a usar burca.
O tema do islamismo estava ainda em sua mente quando se instalou em seu cubículo de gerente na empresa. PIB refletiu sobre o mundo. Tinha lido em algum lugar que no Afeganistão as pessoas queriam que os soldados americanos fossem embora.  Os afegãos estavam queimando bandeiras dos Estados Unidos. A mesma coisa estava ocorrendo no Iraque. E no Iêmen. Em todo o Oriente Médio, fora Israel.
Ingratos. Como eles não percebem que os Estados Unidos estão lá para promover a democracia e levar a civilização? Os americanos estão acima de interesses mesquinhos por coisas como o petróleo.
Era um perigo o avanço muçulmano. Não que apoiasse, mas PIB entendia o norueguês que matara 77 pessoas por considerar que o governo de seu país era leniente demais com os muçulmanos.
A raça branca está em perigo.
Entretido em salvar a raça branca, PIB não percebeu o tempo passar. Só notou pela fome que já era hora de comer. A opção, mais uma vez, foi pelo Big Mac do shopping, e mais a Coca dupla. Detestava os ativistas dos direitos dos animais porque combatiam os Big Macs. PIB estava tecnicamente obeso, mas na semana que vem iniciaria uma dieta e começaria também a se exercitar.
Fim do expediente. A estagiária estava com um decote particularmente ousado. Talvez estivesse sem sutiã. PIB a chamou algumas vezes para discutir assuntos que na verdade não tinham por que ser discutidos. A questão era olhá-la. Valeu o dia, refletiu. Home office é uma bobagem porque não permite esse tipo de coisa: olhar para meninas gostosas no escritório.
Na volta, mais uma vez foi tomado pela tentação de atropelar os ciclistas. “Quando você deseja muito uma coisa, todo o universo conspira a seu favor”. PIB se lembrou da frase de seu escritor favorito, Paulo Coelho. Então ele desejou muito que as bicicletas sumissem.
Xiitas. 
Algum colunista escrevera isso sobre os ciclistas. PIB não lembrava quem era, mas concordava inteiramente. Os ciclistas são gente esquisita que deve fazer ioga e praticar meditação, suspeitava PIB.
Tudo gay!
Já incorporara para si mesmo a frase genial de Pondé.
Meu carro pequeno não contribui para o aquecimento global.
No churrasco de domingo, ia soltar essa. Teve um breve lapso de inquietação quando se deu conta de que os brasileiros que tanto contribuíam para a elevação do pensamento nacional já não eram tão novos assim, O próprio Merval era imortal apenas pela sua contribuição às letras, reconhecida pela Academia. Então lhe veio à cabeça a juventude sábia e influente de Luciano Huck, e ficou mais sossegado.
A mulher não percebeu quando ele chegou. Não era culpa dela. A televisão estava ligada com som alto na novela da Globo. PIB lera várias vezes que as novelas tinham uma “missão civilizadora” no Brasil. Mais uma dívida dos brasileiros perante Roberto Marinho: a perpetuação das novelas cvilizadoras. A mídia impressa brasileira reconhecia a missão civilizadora na forma de uma cobertura maravilhosa das novelas. Uma vez um leitor da Folha reclamou por encontrar na Ilustrada seis artigos sobre novelas.
O brasileiro só sabe reclamar. E reivindicar. Uma besta!
PIB deu um alô que não foi ouvido. Ou pensou ter dado. Sentou ao lado da mulher, e o silêncio confirmou para ele sua tese: depois de muitos anos de casamento as pessoas se entendem tão bem que não precisam trocar uma só palavra. Nem se tocar. É quando o casamento chega ao estágio da perfeição: ninguém tem que fazer nada. É o estágio superior em que o matrimônio se santifica pela ausência do sexo. A cada quinze dias, PIB tomava Viagra e descarregava as tensões sexuais com uma escorte que cobrava 400 reais.
Tá barato. Um dia ela topa beijar!
Não ligava muito para as novelas civilizadoras. Mas soubera no escritório que Juliana Paes aparecia de vez em quando pelada. Passou por sua cabeça um pensamento rápido.
Talvez eu devesse pedir para a patroa me avisar quando a Juliana Paes ficar sem roupa.
Terminada a novela, era a sua vez na televisão. Futebol. Bacana o futebol passar bem tarde, depois da novela. Provavelmente a Globo pensara nisso para ajudar os pobres que moravam longe e demoravam horas para chegar em casa depois do trabalho.
“Boa noite, amigos da Globo!”
A voz do Brasil se apresentou. “The voice”, pensou PIB em inglês.
Um carisma total o Galvão. Subaproveitado. Devia estar no Ministério da Economia, e não narrando escanteios e tiros de meta.
PIB lera que Galvão estava morando em Mônaco. Sabichão. Ficava muito mais fácil, assim, cobrir a Fórmula 1. Nunca alguém da estatura moral de Galvão optaria por Mônaco para não pagar imposto. Galvão certamente faria bonito na Dança dos Famosos de seu amigo Fausto Silva, o Faustão, outro civilizador, especulou PIB em sua mente criativa.
PIB não torcia a rigor para time nenhum. Era, essencialmente, anticorintiano. Com seu segundo saco de pipocas na mão, viu, contrariado, o Corinthians vencer.
Amanhã os boys vão estar insuportáveis.
PIB queria muito ver o Jô.
Era um final de dia perfeito, ainda mais porque antes havia o aperitivo representado por William Waack. PIB achava um privilegio poder ver Waack não apenas na Globo como na Globonews. Os Marinhos podiam cobrar pela Globonews, mas não faziam isso para proporcionar cultura de graça aos brasileiros. PIB zapeava quando Waack dava suas lições na televisão, em busca quem sabe de uma mulher pelada no horário tardio, mas os fragmentos que pescava eram suficientes.
Jô. Não posso perder Jô. Uma enciclopédia. Podia ser editorislista do Estadão. Hoje ele vai entrevistar o Mainardi!
Manhattan Connection era simplesmente obrigatório, embora PIB o dividisse com vários outros enquanto manejava o controle remoto.  Outro dia PIB vira um cara que merecia atenção: Marcelo Madureira. Com sua memória fotográfica, PIB instantaneamente o reconheceu: trabalhara como humorista na Praça da Alegria. Ou na Zorra Total?
PIB bem que queria ver Jô. Ou pelo menos incluí-lo no zapeamento. Duas palavras de Jô valiam por mil das pessoas normais. Faziam você pensar e, além do mais, rir porque o cara tinha um estoque ilimitado de piadas.
Não vejo graça nenhuma no Woody Allen. Mas em compensação o Jô!
Mas não foi possível ver o gordo que ensina e alegra milhões de brasileiros.
PIB acabou dormindo no sofá, do qual sua mulher achou preferível não o tirar, e onde ele roncou tão alto quanto o som da tevê — e teve, como sempre, o sono límpido, impoluto, irreprochável dos perfeitos idiotas.
Paulo Nogueira
No Diário do Centro do Mundo
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Mega, de Kim Dotcom, pode desmantelar o copyright para sempre

mega 
Pouco antes do lançamento oficial previsto para hoje, o Mega de Kim Dotcom está no ar para alguns poucos membros da imprensa. A página mega.co.nz agora redireciona para kim.com/mega (no Safari) e mostra uma mensagem de erro para quem usa o Chrome. Aqui está tudo o que nós sabemos até agora sobre o novo Megaupload:
Antes de mais nada, ele está incompleto – e de acordo com o TechCrunch, o site vai mostrar um mapa do que vem aí. Isso inclui algumas coisas ambiciosas como um SDK com API e recursos colaborativos como mensagens entre usuários.
Ele parece um Dropbox simplificado que oferece 50GB de armazenamento gratuitamente e três possibilidades de assinatura: Pro 1, €10 (500GB), Pro 2 por €20 (2TB), e Pro 3 €30  (4TB).
Em um primeiro momento o Mega parece só mais um serviço de armazenamento online como o Dropbox ou o Google Drive, mas ele é muito mais do que isso. O Mega é uma arma mirada direto nos detentores de direitos autorais. É possivelmente o mais privado e invencível serviço de compartilhamento de arquivos de todos os tempos.
Quando você entra, encontra uma ferramenta de drag & drop. É a ferramenta de upload do Mega.
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A partir daí, você imediatamente é perguntado se concorda com termos e condições. Nosso advogado nos disse que ele não é bem escrito, mas absolve o Mega de qualquer coisa que você faça com o serviço. Bem inteligente, Kim.
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Após concordar, você chega ao Cloud Drive – o gerenciador de arquivos onde aparece tudo o que você tem. Quando você seleciona um dos seus arquivos ou pastas para enviar você percebe quão rápido isso é. Eu enviei o disco Kill Em All do Metallica em alguns minutos.
Com um único clique no botão direito, eu posso gerar um link de download para o álbum. E então eu posso enviar para quem eu quiser. É um Megaupload com um gerenciador de arquivos.
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Então o que impede o Mega de seguir no mesmo caminho do Megaupload? A privacidade, que é uma medida de gênio. Todos os seus arquivos são criptografados localmente antes de serem enviados, então o Mega não tem ideia do que eles são. Podem ser fotos de família, documentos de trabalho ou a discografia completa da sua banda preferida. Pronto: online e fácil para compartilhar. E o mais importante, o Mega não tem a chave necessária para descriptografar. Entendeu? É um golpe de mestre da subversão dos direitos autorais.
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Para explicar melhor, os termos do Mega dizem que ninguém pode acessar as suas coisas sem a sua chave pessoal de descriptografia. E eles não tem ela. Só você. A empresa, no entanto, estipula na política de privacidade que pode cooperar com a lei. Mas grande coisa; o que eles podem fazer? Quando o Twitter e o Facebook cooperam com autoridades, eles têm acesso aos seus dados. Tudo o que o Mega tem é um arquivo criptografado.
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Então por que é um matador de copyright? Bem, na verdade, é muito mais do que isso: permite as trocas de dados mais privadas de qualquer serviço online disponível atualmente. Autoridades vão ter dificuldade para pegá-los.
Isso é importante porque a troca de dados privada sempre foi um problema com serviços online. Veja o Google: algumas vezes eles recebem pedidos para liberar seus dados – aqueles que você acha que são privados. O Google faz isso porque pedem para ele fazer, e porque ele pode fazer. Se autoridades pedirem para Kim Dotcom e a sua empresa divulgarem seus dados, eles não vão conseguir. E tirar as informações do Mega – como detalhes técnicos de como as chaves funcionam – é legalmente problemático.
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Então agora duas grandes questões continuam, e nós não podemos responder simplesmente ao observar o site. A primeira, o quão seguro é o Mega? Hackers podem invadir? E o FBI?
A segunda questão é, quais são os planos de Kim Dotcom para o serviço? Ele mostrou um mapa vago do que vem aí, mas não podemos ter certeza de nada. Estamos ansiosos para ouvir o que ele vai dizer na conferência de lançamento que será feita no domingo. [TechCrunch]
Informações adicionais por Melissa Ulto
Mario Aguilar
No Gizmodo
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Silvio Tendler apoia a Aldeia Maracanã

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A multidinha do Globo

Tinha menos manfestante do que na manifestação dos 20 do Lula…
O Globo – o que troca a notícia – deu em manchete:

“Manifestantes protestam contra jantar do PT para arrecadar recursos.”


Crédito: Dodge Guarani Kaiowá
Contudo, tratava-se de uma única manifestante na porta do recinto com um cartaz, como o próprio texto deixa claro.
(…)
Mas a notícia de que aconteceria o jantar acabou chamando a atenção de moradores vizinhos, que se revoltaram com a iniciativa. A advogada Marília Gabriela Ferreira compareceu à porta da galeteria para protestar, com um cartaz que dizia: “Querem ajudar seus amigos? Dividam com eles parte da pena restritiva de liberdade”.
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O Direito de Matar

 
O Presidente Barack Obama se nega a informar em que dispositivo da Constituição se ampara para ordenar o assassinato de cidadãos norte-americanos. Seu concidadão, Vicki Divoll, ex-assessor do Senado para as questões de segurança e ex-consultor jurídico da CIA, em título de artigo publicado ontem pela edição online do New York Times, faz-lhe a pergunta direta: Presidente, quem lhe disse que o Senhor pode matar americanos?
O autor cita três casos conhecidos de cidadãos americanos assassinados no Exterior, sob a ordem direta de Obama: Anwar al-Awlaki, um clérigo muçulmano, nascido no Novo México; Samir Khan, naturalizado norte-americano e Abdulrahman al-Awlaki, de 16 anos, natural do Colorado, sobrinho do clérigo Anwar. Podem argumentar que todos têm nomes árabes. Árabes são o nome e o sobrenome também do Presidente. Esses são os casos conhecidos, mas há outros, certamente.
Há dias, Obama sancionou lei do Congresso, autorizando o monitoramento de todos os cidadãos estrangeiros que se tornem suspeitos de atividades contra o seu país. Como se sabe, pelo que ocorreu a bin-Laden e a outros, os norte-americanos se arrogam o direito de não só vigiar, mas de matar, fora das operações de guerra declarada, qualquer cidadão estrangeiro, em qualquer lugar do mundo, em nome de sua segurança. O lema do governo dos Estados Unidos passa a ser, assim, o de Vigiar e Matar.
Essa arrogante postura de juiz universal, com o poder de vida e de morte, tem acompanhado os Estados Unidos desde os seus primeiros anos, embora haja, ali, os que a combatam. Sem ir muito longe, no passado, é de se lembrar o assassinato de Augusto César Sandino, o grande herói do povo da Nicarágua, por ordem de Washington. O crime foi cometido por Anastásio Somoza, que se tornou ditador e legou o país aos dois filhos. A dinastia acabou com o movimento revolucionário que tem o nome do próprio Sandino.
Divolli, em seu texto, argumenta que essas ordens de Obama, se levadas ao exame dos tribunais, serão declaradas inconstitucionais. O Presidente pode declarar a guerra, ad-referendum do Congresso, mas não pode mandar matar ninguém em particular – e em nenhum lugar, dentro ou fora dos Estados Unidos. O poder executivo não é um órgão da Justiça.
O assassinato de bin-Laden, assistido – e aplaudido – ao vivo, da Casa Branca, pelo Presidente e sua equipe mais restrita, foi, além de um crime, pela execução em si mesma, de um homem não condenado por tribunal competente, manifestação insolente de arrogância imperial, na violação da soberania do Paquistão. Se os norte-americanos se debruçarem no exame da História, irão descobrir que os ventos da desforra custam a se organizar no horizonte, mas, uma vez reunidos, são mais devastadores do que os tornados e tsunamis.
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Uma reflexão sobre a morte de Aaron Swartz

O (suposto) suicídio do gênio da programação e ativista Aaron Swartz não é somente uma tragédia, mas um sinal da enorme dimensão do conflito político e ideológico envolvendo defensores de uma Internet livre e emancipatória, de um lado, e grupos organizados dentro do sistema que pretendem privatizar e limitar o acesso à produção intelectual humana, de outro. Neste sábado (12/01), colunistas de cultura digital de diversos jornais escreveram sobre a morte do jovem Swartz, aos 26 anos, encontrado morto em um apartamento de Nova Iorque (cf. os textos de John Schwartz, para o New York Times; Glenn Greenwald, para o The Guardian; Virginia Heffernan, para o Yahoo News; e Tatiana Mello Dias, para o Estadão). Diante da turbulenta vida do jovem Swartz e seu projeto político de luta pela socialização do conhecimento, difícil crer que o suicídio tenha motivações estritamente pessoais, como uma crise depressiva. A morte de Swartz pode significar um alarme para uma ameaça inédita ao projeto emancipatório da revolução informacional. O sistema jurídico está sendo moldado por grupos de interesse para limitação da liberdade de cidadãos engajados com a luta de uma Internet livre. Tais cidadãos são projetados midiaticamente como inimigos desestabilizadores da ordem (hackers). Os usuários da Internet, sedados e dominados pela nova indústria cultural, pouco sabem sobre o que, de fato, está acontecendo mundo afora.
A visão pública da Internet do wiz-kid Swartz: os anos de formação
Nascido em novembro de 1986 em Chicago, Aaron Swartz passou a infância e juventude estudando computação e programação por influência de seu pai, proprietário de uma companhia de software. Aos 13 anos de idade, foi vencedor do prêmio ArsDigita, uma competição para websites não-comerciais "úteis, educacionais e colaborativos". Com a vitória no prêmio, Swartz visitou o Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde conheceu pesquisadores da área de Internet. Aos 14 anos, ingressou no grupo de trabalho de elaboração do versão 1.0 do Rich Site Summary (RSS), formato de publicação que permite que o usuário subscreva a conteúdos de blogs e páginas (feed), lendo-o através de computadores e celulares.
Aos 16 anos frequentou e abandonou a Universidade de Stanford, dedicando-se a fundação de novas companhias, como a Infogami. Aos 17 anos, Aaron ingressou na equipe do Creative Commons, participando de importantes debates sobre propriedade intelectual e licenças open-sources (cf. a participação de Swartz em um debate de 2003). Em 2006, ingressou na equipe de programadores da Reddit, plataforma aberta que permite que membros votem em histórias e discussões importantes. No mesmo ano, tornou-se colaborador da Wikipedia e realizou pesquisas importantes sobre o modo de funcionamento da plataforma colaborativa (cf. 'Who Writes Wikipedia?'). Em 2007, fundou a Jottit, ferramenta que permite a criação colaborativa de websites de forma extremamente simplificada (veja aqui). Em pouco tempo, Swartz tornou-se uma figura conhecida entre os programadores e grupos de financiamento dedicados a start-ups de tecnologia. Entretanto, a inteligência e o brilhantismo de Swartz pareciam não servir para empreendimentos capitalistas. Tornar-se rico não era seu objetivo, mas sim desenvolver ferramentas e instrumentos, através da linguagem de programação virtual, para aprofundar a experiência colaborativa e de cooperação da sociedade.
Aos 21 anos, Aaron ingressou em círculos acadêmicos (como o Harvard University's Center for Ethics) e não-acadêmicos de discussão sobre as transformações sociais e econômicas provocadas pela Internet, tornando-se, aos poucos, uma figura pública e um expert no debate sobre a "sociedade em rede". O vídeo abaixo, gravado em São Francisco em 2007, mostra o raciocínio rápido e preciso de Swartz sobre a arquitetura do poder na rede e as mudanças fundamentais da transição da mídia antes e depois da Internet.


Ativismo cívico e projetos políticos na rede: para além de empresas e lucros
A partir de 2008, Aaron Swartz - um "sociólogo aplicado", como ele se autodenominava - engajou-se em uma série de projetos de cunho político, voltados ao ativismo cívico de base (grassroots) e ao compartilhamento de conteúdo on-line. Dentre eles, destacam-se três projetos específicos: (i) Watchdog, (ii) Open Library e (iii) Demand Progress.
O Watchdog é um website que permite a criação de petições públicas que possam circular on-line. Trata-se de um projeto não lucrativo, cujo mote é Win your campaign for change. O objetivo é fomentar a prática cidadã de monitoramento de condutas ilícitas, como se todos fossem "cães de guarda" da democracia. O segundo projeto, Open Library, pretende criar uma página da web para cada livro já publicado no mundo. O objetivo é criar uma espécie de "biblioteca universal" com bibliotecários voluntários, sendo possível o empréstimo on-line de e-books. Trata-se de um projeto sem fins lucrativos, nos quais programadores são responsáveis pelo registro e criação das páginas (em códigos abertos) para todos os livros (como diz o site: "Open Library is an open project: the software is open, the data are open, the documentation is open, and we welcome your contribution. Whether you fix a typo, add a book, or write a widget-it's all welcome. We have a small team of fantastic programmers who have accomplished a lot, but we can't do it alone!"). O terceiro e mais interessante projeto é o Demand Progress, plataforma criada por Swartz para conquistar mudanças progressistas em políticas públicas (envolvendo liberdades civis, direitos civis e reformas governamentais) para pessoas comuns através do lobbying organizado de base. A atuação do DP se dá de duas formas: através de campanhas on-line para chamar atenção das pessoas e contatar líderes do Congresso, e através do trabalho de advocacia pública em Washington "nas decisões por trás das salas que afetam nossas vidas".
Em 2008, indignado com a passividade dos cientistas com relação ao controle das informações por grandes corporações, Swartz publicou um manifesto intitulado Guerilla Open Access Manifesto. Trata-se de um texto altamente revolucionário, que encerra-se com um chamado: "Não há justiça em seguir leis injustas. É hora de vir para a luz e, na grande tradição da desobediência civil, declarar nossa oposição a este roubo privado da cultura pública. Precisamos levar informação, onde quer que ela esteja armazenada, fazer nossas cópias e compartilhá-la com o mundo. Precisamos levar material que está protegido por direitos autorais e adicioná-lo ao arquivo. Precisamos comprar bancos de dados secretos e colocá-los na Web. Precisamos baixar revistas científicas e subi-las para redes de compartilhamento de arquivos. Precisamos lutar pela Guerilla Open Access. Se somarmos muitos de nós, não vamos apenas enviar uma forte mensagem de oposição à privatização do conhecimento – vamos transformar essa privatização em algo do passado" (cf. 'Aaron Swartz e o manifesto da Guerrila Open Acess').
A força criadora do jovem Aaron Swartz residia em um profundo espírito crítico e questionador. Nesta entrevista abaixo (sobre o Progressive Change Campaign), Swartz explica como seu ativismo começou: "Eu sinto fortemente que não é suficiente simplesmente viver no mundo como ele é e fazer o que os adultos disseram o que você deve fazer, ou o que a sociedade diz o que você deve fazer. Eu acredito que você deve sempre estar questionando. Eu levo muito a sério essa atitude científica de que tudo que você aprende é provisional, tudo é aberto ao questionamento e à refutação. O mesmo se aplica à sociedade. Eu cresci e através de um lento processo percebi que o discurso de que nada pode ser mudado e que as coisas são naturalmente como são é falso. Elas não são naturais. As coisas podem ser mudadas. E mais importante: há coisas que são erradas e devem ser mudadas. Depois que eu percebi isso, não havia como voltar atrás. Eu não poderia me enganar e dizer 'Ok, agora vou trabalhar para uma empresa'. Depois que percebi que havia problemas fundamentais os quais eu poderia enfrentar, eu não podia mais esquecer isso". Nesta entrevista, Aaron (aos 22 anos), esclarece que livros como Understanding Power (de Noam Chomsky) foram fundamentais para compreender os problemas sistêmicos da sociedade contemporânea. Todavia, a situação não é imodificável. O primeiro passo é acreditar que é possível fazer algo.
A luta e a resposta do sistema: do movimento Anti-SOPA à batalha judicial do JSTOR
No final de 2010, Aaron Swartz identificou uma anomalia procedimental com relação a uma nova lei de copyright, proposta por Republicanos e Democratas em setembro daquele ano. A lei havia sido introduzida com apoio majoritário, com um lapso de poucas semanas para votação. Obviamente, segundo o olhar crítico de Swartz, havia algo por trás desta lei. O objetivo camuflado era a censura da Internet.
A partir da união de três amigos, Swartz formulou uma petição on-line para chamar a atenção dos usuários da Internet e de grupos políticos dos Estados Unidos. Em dias, a petição ganhou 10.000 assinaturas. Em semanas, mais de 500.000 assinaturas. Com a circulação da petição, Democratas adiaram a votação do projeto de lei para uma analise mais profunda do documento. Ao mesmo tempo, empresas da Internet como Reddit, Google e Tumblr iniciaram uma campanha massiva para conscientização sobre os efeitos da legislação (a lei autorizaria o "Departamento de Justiça dos Estados Unidos e os detentores de direitos autorais a obter ordens judiciais contra sites que estejam facilitando ou infringindo os direitos de autor ou cometendo outros delitos e estejam fora da jurisdição estadunidense. O procurador-geral dos Estados Unidos poderia também requerer que empresas estadunidenses parem de negociar com estes sites, incluindo pedidos para que mecanismos de busca retirem referências a eles e os domínios destes sites sejam filtrados para que sejam dados como não existentes", como consta do Wikipedia).
Em outubro de 2011, o projeto foi reapresentado por Lamar Smith com o nome de Stop Online Piracy Act. Em janeiro de 2012, após um intenso debate promovido na rede, a mobilização de base entre ativistas chamou a atenção de diversas organizações, como Facebook, Twitter, Google, Zynga, 9GAG, entre outros. Em 18 de janeiro, a Wikipedia realizou um blecaute na versão anglófona, simulando como seria se o website fosse retirado do ar (cf. 'Quem apagou as luzes em protesto à SOPA?' e 'O apagão da Wikipedia'). A reação no Congresso foi imediata e culminou na suspensão do projeto de lei. Vitória do novo ativismo cívico? Para Swartz, sim. Uma vitória inédita que mostrou a força da população e da mobilização possível na Internet. Mas não por muito tempo. Em um discurso feito em maio de 2012 - que merece ser visto com muita atenção -, Aaron foi claro: o projeto de lei para controlar a Internet irá voltar, com outro nome e outro formato, mas irá voltar...

Mas não foi somente através da liderança no movimento de peticionamento on-line que culminou nos protestos contra o SOPA que Swartz chamou a atenção das autoridades estadunidenses. Em 2008, Aaron foi investigado pelo FBI por ter baixado milhões de documentos públicos do Judiciário mantidos pela empresa Pacer (que cobra pelo acesso a documentos públicos!). A investigação, entretanto, não resultou em processo criminal ou civil.
O processo kafkiano que pode estar relacionado com a morte de Swartz teve início em Julho de 2011, quando o ativista foi processado por "fraude eletrônica, fraude de computador, de obtenção ilegal de informações a partir de um computador protegido", a partir de uma acusação da companhia JSTOR - uma das maiores organizações de compilação e acesso pago a artigos científicos. O ocorrido foi o seguinte: Aaron programou um dos computadores públicos da Massachussets Institute of Technology (MIT) para acessar o banco de dados da JSTOR e fazer download de artigos científicos de diversas áreas do conhecimento. Em poucos dias, Swartz baixou mais de 4 milhões de artigos científicos (e não se sabe qual era o plano inicial de Swartz, ou seja, de que modo ele pretendia publicar esses documentos de acordo com a tese do open acess movement). Pelo fato de Swartz ter feito o download de muitos documentos ao mesmo tempo (mas o acesso pelo computador da instituição não permite isso?), foi processado por fraude eletrônica e obtenção ilegal de informações.
O sentido de um processo kafkiano (referente ao Processo da obra literária de Franz Kafka) deve ser melhor explicado. A questão é que Aaron Swartz não cometeu, a princípio, nenhum ato ilícito (ele poderia fazer o download de artigos científicos como qualquer acadêmico logado a uma máquina com acesso ao JSTOR pode). E mesmo depois de acusado, entregou-se à Justiça e afirmou que não tinha intenção de lucrar com o ato. Diante do aviso de que a distribuição dos arquivos infringiria leis nacionais, Aaron devolveu os arquivos digitalizados para a JSTOR, que retirou a ação judicial de caráter civil. Ou seja: caso encerrado, correto?
Errado. Após o acordo entre Aaron e a JSTOR, a Promotoria de Justiça de Boston, através da US Attorney Carmen Ortiz, indiciou Aaron Swartz por diversas ofensas criminais, pedindo a condenação do ativista em 35 anos de prisão (sic!) e o pagamento de 1 bilhão de dólares de multa. O processo penal teve início, sendo oferecido a Swartz a oportunidade de fazer um acordo penal que reconhecesse sua culpa (plead guilty). Irredutivelmente - mesmo sendo aconselhado por alguns advogados -, Swartz recusou-se a declarar-se culpado, por não considerar seus atos como ilícitos. Mesmo com a intervenção da JSTOR, que reconheceu não se sentir prejudicada pelos atos de Swartz, a Promotoria continuou a amedrontar Aaron Swartz. O processo penal - extremamente custoso nos Estados Unidos - esvaziou suas poucas reservas financeiras e gerou um enorme trauma psicológico. O julgamento da ação penal estava marcado para Abril de 2013 e Aaron Swartz recusava-se a comentar o assunto em entrevistas, palestras e eventos. Alguns especulam que o suicídio está ligado com o processo penal, considerado por muitos como uma resposta do governo dos Estados Unidos contra o ativismo libertário de Aaron (na opinião de Greenwald, "Swartz was destroyed by a "justice" system that fully protects the most egregious criminals as long as they are members of or useful to the nation's most powerful factions, but punishes with incomparable mercilessness and harshness those who lack power and, most of all, those who challenge power"). 
Até o momento, não há cartas ou posts de Swartz sobre o assunto. Não há, aliás, confirmação concreta de que houve suicídio (ou se foi uma morte herzogiana, comum na história brasileira). Trata-se de um grande mistério. Para a família de Swartz, uma coisa é clara: se houve suicídio, o bullying judicial realizado pelo Judiciário estadunidense foi um fator que levou o jovem ativista a encerrar a própria vida, em um sinal de protesto contra todo o injusto sistema.
As lições de um jovem revolucionário
Há muito o que extrair das falas, dos textos e das ações do gênio da informática Aaron Swartz. Ativista político, sociólogo aplicado, defensor da Internet livre, criador de mecanismos de compartilhamento de dados e crítico da forma como a sociedade global está se estruturando contra as liberdades básicas, Swartz deixa aos jovens da era da Internet um forte recado revolucionário: a mudança começa em cada um. Todo indivíduo possui autonomia para pensar e contestar o que está posto. Além de contestar, a ação colaborativa pode modificar as instituições existentes em uma perspectiva pós-capitalista. O conhecimento pode ser compartilhado, softwares podem ser desenvolvidos em conjunto e projetos podem ser executados com o financiamento coletivo.
Informação é poder. Swartz enxergou muito além do que seus contemporâneos e tentou mobilizar os usuários de Internet para construção de um outro mundo. Infelizmente, não foi apoiado da forma como precisava. A reverberação de suas ideias e suas ações ainda é muito fraca. Mas isso não é motivo para desistência. A brevíssima vida deste jovem estadunidense pode inspirar corações e mentes. Em tempos de discussão no Brasil sobre o Marco Civil da Internet, corrupção da política e agigantamento do Judicário, o resgate a seu pensamento é necessário. Ainda mais em um país que conta com mais de 80 milhões de usuários de Internet. A questão é saber se as pessoas terão curiosidade e interesse em compreender o projeto de vida de Swartz ou se irão continuar lendo matérias produzidas por corporações interessadas na limitação da liberdade na Internet.
Eu fico com o projeto de Swartz. Aliás, fique livre para copiar esse texto.
No E-mancipação
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Militarizando a América Latina

 
Dezembro passado marcou o centésimo octagésimo nono aniversário da Doutrina Monroe, a declaração política do presidente James Monroe, em 1823, que essencialmente tornou a América Latina um quintal exclusivo dos Estados Unidos. E se alguém tem alguma dúvida sobre o que estava no coração da doutrina, desde 1843 os Estados Unidos intervieram no México, Argentina, Chile, Haiti, Nicarágua, Panamá, Cuba, Porto Rico, Honduras, República Dominicana, Guatemala, Costa Rica, El Salvador, Uruguai, Granada, Bolívia e Venezuela. No caso da Nicarágua, nove vezes; Honduras, oito.
Algumas vezes a intrusão dispensou as gentilezas diplomáticas: a infantaria dos Estados Unidos assaltou o castelo de Chapultepec na cidade do México em 1847, os fuzileiros navais caçaram insurgentes na América Central e o general “Black Jack” Pershing perseguiu Pancho Villa em Chihuahua em 1916.
Em outros casos a intervenção foi tramada nas sombras — um pagamento secreto, um piscar de olhos para alguns generais ou o estrangulamento econômico de algum governo que teve a temeridade de propor reforma agrária ou redistribuição da riqueza.
Por 150 anos a história desta região, que se espalha por dois hemisférios e inclui de tundras congeladas a desertos escorchantes e florestas tropicais, foi em grande parte determinada pelo que acontecia em Washington. Como o velho ditador mexicano Porfirio Diaz colocou certa vez, a grande tragédia da América Latina era ficar tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos.
Mas a América Latina de hoje não é a mesma de 20 anos atrás. Governos de esquerda ou progressistas dominam a maior parte da América do Sul.
A China substituiu os Estados Unidos como o maior parceiro comercial da região e o Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela se juntaram em um mercado comum, o Mercosul, que é o terceiro maior do planeta.
Outras cinco nações são membros-associados. A União das Nações Sul-Americanas e a Comunidade de Estados Latino Americanos e do Caribe deixaram de lado aquela relíquia da Guerra Fria, a Organização dos Estados Americanos. A penúltima inclui Cuba, mas exclui os Estados Unidos e o Canadá.
Na superfície, a Doutrina Monroe parece estar morta.
Motivo pelo qual as políticas do governo Obama em relação à América Latina parecem tão perturbadoras. Depois de décadas de paz e desenvolvimento econômico, por que os Estados Unidos estão engajados em um grande investimento militar na região? Por que Washington virou os olhos para dois golpes bem sucedidos — e uma tentativa — nos últimos três anos? E por que Washington se distancia das práticas predatórias dos chamados fundos-abutre, cuja cobiça ameaça desestabilizar a economia argentina?
Como aconteceu na África e na Ásia, o governo Obama militarizou sua política externa em relação à América Latina. Washington espalhou uma rede de bases da América Central à Argentina. A Colômbia agora tem sete grandes bases e há outras instalações militares dos Estados Unidos em Honduras, Costa Rica, Equador, Guatemala, Panamá e Belize.
A Quarta Frota, no Atlântico Sul

A recém-reativada Quinta (sic) Frota patrulha o Atlântico Sul. Os fuzileiros navais estão na Guatemala perseguindo traficantes de drogas e as Forças Especiais estão em Honduras e na Colômbia. Quais são suas missões? Quantos homens são? Não sabemos porque muito disso fica obscuro sob o manto da “segurança nacional”.
O investimento militar é acompanhado da tolerância por golpes. Quando os militares e a elite hondurenha derrubaram o presidente Manuel Zelaya em 2009, em vez de condenar a derrubada o governo Obama fez lobby — sem sucesso, na maior parte das vezes — para que as nações latinoamericanas reconhecessem o governo instalado ilegalmente.
A Casa Branca também ficou silente, no ano seguinte, sobre a tentativa de golpe contra o esquerdista Rafael Correa no Equador e se negou a condenar o golpe “parlamentar” contra o presidente progressista Fernando Lugo, o chamado Bispo Vermelho, no Paraguai.
Memórias obscuras de golpes maquinados e apoiados pelos Estados Unidos no Brasil, Argentina, Chile e Guatemala são difíceis de esquecer no continente, como um recente comentário do ministro da economia da Argentina deixou claro. Chamando de “colonialismo legal” a decisão de uma corte de apelação dos Estados Unidos pela qual Buenos Aires deveria pagar U$ 1,3 bilhão em danos a credores de dois fundos-abutre, o ministro disse que “tudo o que precisamos agora é que o [juiz Thomas] Griesa nos mande a Quinta (sic) Frota”.
Muito do investimento militar dos Estados Unidos acontece por trás da retórica da guerra contra as drogas, mas uma olhada na posição das bases na Colômbia sugere que a proteção de oleodutos, não os traficantes, tem mais a ver com as ordens recebidas pelas Forças Especiais. O Plano Colômbia, que já custou perto de U$ 4 bilhões, foi concebido e defendido pela companhia de petróleo e gás Occidental Petroleum, de Los Angeles.
A Colômbia tem atualmente cinco milhões de refugiados, o maior número do mundo. Também é um lugar muito perigoso se você é sindicalista, apesar de Bogotá supostamente ter instituído o Plano de Ação do Trabalho, como parte do tratado de livre comércio que fechou com Washington. Mas desde que o governo Obama declarou oficialmente que o governo colombiano cumpre as regras do Plano, os ataques contra sindicalistas aumentaram.
“O que aconteceu desde isso [os Estados Unidos deram sua declaração] foi um surto de represálias contra sindicalistas e ativistas, que realmente acreditavam no Plano”, diz Gimena Sanchez-Garzoli, de uma organização que monitora a América Latina, WOLA. A Human Rights Watch chegou à mesma conclusão.
A guerra contra as drogas tem sido um desastre completo, como um crescente número de líderes latinoamericanos está concluindo. Pelo menos 100 mil pessoas morreram ou desapareceram apenas no México e o comércio de drogas corrompe governos, militares e forças policiais da Bolívia aos Estados Unidos. Antes que a gente pense que se trata de um problema latinoamericano, vários policiais do Texas foram recentemente indiciados por ajudar a transportar drogas do México para os Estados Unidos.
O governo Obama deveria se integrar aos líderes regionais que decidiram examinar a questão da legalização e desmilitarização da guerra contra as drogas. Estudos recentes demonstram que há um grande aumento da violência assim que os militares se tornam parte do conflito e que, como Portugal e a Austrália deixaram claro, a legalização não leva a um aumento no número de viciados.
Uma das grandes iniciativas dos Estados Unidos na região é o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, NAFTA, ainda que tenha causado aumento da pobreza, do deslocamento social e mesmo do tráfico de drogas. Em seu livro “Drug War Mexico”, Peter Walt e Roberto Zapeda apontam para a desregulamentação que abriu as portas também para traficantes, um perigo sobre o qual a Alfândega dos Estados Unidos e a Drug Enforcement Administration (DEA) haviam sido alertadas desde 1993.
Ao reduzir ou eliminar tarifas, o NAFTA inundou a América Latina com milho barato, subsidiado pelo governo dos Estados Unidos, o que colocou milhões de pequenos fazendeiros na falência, forçando-os a imigrar, enchendo cidades já estressadas ou a aderir à produção de plantas mais lucrativas — maconha e cocaína. Desde 1994, quando o NAFTA entrou em vigor, até 2000, cerca de 2 milhões de fazendeiros mexicanos deixaram suas terras e centenas de milhares de pessoas não documentadas imigraram para os Estados Unidos por ano.
De acordo com a ONG de ajuda humanitária Oxfam, o tratado de livre comércio com a Colômbia vai resultar em redução de renda para 1,8 milhão de fazendeiros locais e perda para entre 48 e 70% dos 400 mil colombianos que hoje trabalham ganhando o salário mínimo local, equivalente a 328,08 dólares.
“Comércio livre” evita que países emergentes protejam suas próprias indústrias e recursos e os jogam contra o poder industrial dos Estados Unidos. Este campo desigual resulta em pobreza para os latinoamericanos, mas enormes lucros para as corporações norte-americanas e algumas das elites locais.
A Casa Branca continuou a demonização de Hugo Chávez da Venezuela que herdou do governo Buch, apesar do fato de Chávez ter sido eleito por grandes margens e seu governo ter promovido uma grande redução da pobreza. De acordo com as Nações Unidas, a desigualdade na Venezuela é a mais baixa da América Latina, a pobreza foi cortada pela metade e a extrema pobreza em 70%. Estes tipos de números são coisas que o governo Obama supostamente comemora.
Quanto aos ataques de Chávez aos Estados Unidos, dado o apoio norte-americano ao golpe contra ele em 2002, à colocação de Forças Especiais e da CIA na vizinha Colômbia e à atitude blasé de Washington em relação a golpes, não se pode culpar os chavistas por um certo grau de paranoia.
Washington deveria reconhecer que a América Latina está experimentando novos modelos políticos e econômicos numa tentativa de reduzir a pobreza, o subdesenvolvimento e as crônicas divisões entre ricos e pobres na região. Em vez de marginalizar líderes como Chávez, Correa, Evo Morales da Bolívia e Cristina Kirchner da Argentina, o governo Obama deveria aceitar que o fato de que os Estados Unidos não são mais o Colosso do Norte que consegue sempre o que quer. De qualquer forma, são os Estados Unidos que estão sendo marginalizados na região, não seus oponentes.
Em vez de assinar leis estranhas como o “Ato para Enfrentar o Irã no Hemisfério Ocidental” (bens a Deus), a Casa Branca deveria fazer lobby para tornar o Brasil um membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, promover o fim de seu bloqueio ilegal e imoral contra Cuba e exigir que o Reino Unido acabe com seu apoio à colônia das ilhas Falkland, ou Malvinas. O fato é que o Reino Unido pode “possuir” terra há mais de 15 mil quilômetros de Londres só porque tem Marinha superior. O colonialismo acabou.
E embora o governo norte-americano não possa intervir diretamente nos tribunais, na atual disputa entre os fundos Elliot Management, Aurelius Capital Managemente e a Argentina, a Casa Branca poderia deixar claro que acha desprezíveis as tentativas dos fundos-abutre de faturar com a crise econômica da Argentina de 2002. Também há a questão prática: se os fundos-abutre forçarem Buenos Aires a pagar o valor total das dívidas, que eles compraram por apenas 15 centavos de dólar, vai ameaçar as tentativas de países como a Grécia, Espanha, Irlanda e Portugal de lidar com seus credores. Dado que os bancos dos Estados Unidos — inclusive os abutres — tiveram papel na criação da crise, é um dever do governo norte-americano ficar ao lado do governo Kirchner nesta questão. Se a Quinta (sic) Frota se envolver, talvez devesse bombardear a sede do Elliot Management nas ilhas Caimã.
Depois de séculos de exploração colonial e dominação econômica dos Estados Unidos e Europa, a América Latina finalmente está se tornando independente. Em grande parte evitou os danos da recessão mundial de 2008 e os padrões de vida na região estão melhorando — de forma dramática em países que Washington classifica como “de esquerda”. Nos dias de hoje os laços da América Latina são mais com os países BRICS — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — que com os Estados Unidos e a região está forjando sua própria agenda internacional. Existe oposição unânime contra o bloqueio a Cuba e, em 2010, o Brasil e a Turquia apresentaram o que é provavelmente a solução mais sensível para acabar com a crise nuclear com o Irã.
Nos próximos quatro anos o governo Obama tem a oportunidade de reescrever sua longa e vergonhosa história dos Estados Unidos na América Latina e substituí-la por outra, baseada em respeito mútuo e cooperação. Ou pode voltar a jogar com as obscuras Forças Especiais, a subversão silenciosa e a intolerância com as diferenças. A escolha é nossa.
Conn Hallinan can be read at dispatchesfromtheedgeblog.wordpress.com and middleempireseries.wordpress.com
No Viomundo
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José Serra oferece consultoria para Cristiano Ronaldo

José Serra oferece consultoria para Cristiano Ronaldo
Após ficar em segundo lugar, Cristiano Ronaldo foi sondado pelo Vasco da Gama
ZURIQUE - Minutos após perder novamente a bola de ouro da FIFA para o argentino Lionel Messi, o craque português Cristiano Ronaldo recebeu um telegrama do Brasil: "Uma pena. Tenho experiência para lhe ajudar. Entre em contato. José Serra", dizia o texto.
Gestor competente, Serra reuniu Rubens Barrichello, o técnico Cuca, Diego Hipólito e o motociclista Alexandre Barros para montar uma empresa de consultoria que vai atender clientes na situação de Ronaldo. Animado com a nova empreitada, o tucano organizou um evento na Mooca para lançar o slogan da empresa: "O importante é competir, o resto é trololó".
Além do prêmio de melhor jogador do mundo conferido a Messi, a FIFA distribuiu outras medalhas para aqueles que se destacaram em 2012.
Veja a lista completa:
Segundo melhor time do Rio de Janeiro
Vasco da Gama
Troféu Fair Play
Seguranças do São Paulo F. C.
Melhor tatu bola
Ronaldo Fenômeno
Melhor Gestão
Patricia Amorim
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No Mali, não há uma guerra do bem contra o mal

Sem qualquer controle, sem debate, sem votação parlamentar, sem nenhuma sutileza. A Grã-Bretanha está agora envolvida em mais um conflito militar em um país muçulmano, fiquem sabendo. Aeronaves britânicas estão voando rumo ao Mali, enquanto a França bombardeia o país, argumentando que a milícia islâmica malinesa poderia criar um “estado terrorista” que ameaçaria a Europa. A Anistia Internacional e especialistas da África Ocidental alertam para o potencial desastre da intervenção militar estrangeira, mas as bombas “chovendo” nas cidades malinesas de Konna, Léré e Douentza sugerem que eles foram definitivamente ignorados.
A agonia no Mali surgiu apenas atualmente em nossas manchetes, mas as raízes são antigas. Como as outras potências coloniais ocidentais que invadiram e conquistaram a África a partir do século 19, a França usou táticas de dividir para reinar no Mali, levando a amargura entrincheirada entre os povos nômades Tuaregues – a base da revolta atual – e outras comunidades do Mali.
Para alguns ocidentais, este é um passado distante que deve ser ignorado, não remexido, e certamente não será usado para impedir nobres intervenções, mas as consequências ainda são sentidas diariamente. Inicialmente, o ministro de Relações Exteriores francês, Laurent Fabius, sugeriu que o legado colonial descartaria uma intervenção liderada pela França, mas pode se dizer que o envolvimento direto francês ocorreu de forma muito mais rápida do que o esperado.
É que esta intervenção é, na verdade, consequência de outra. A guerra da Líbia é frequentemente apontada como uma história de sucesso para o intervencionismo liberal. No entanto, a queda da ditadura de Muammar Kaddafi teve consequências que os serviços de inteligência ocidentais provavelmente nunca sequer se preocuparam em imaginar. Tuaregues – que tradicionalmente vieram do norte do Mali – compunham grande parte do exército de Kaddafi. Quando o ditador foi expulso do poder, eles voltaram para sua terra natal: às vezes à força. Do mesmo modo, negros africanos foram atacados no pós-Kaddafi na Líbia, um fato incômodo amplamente ignorado pela mídia ocidental.
Inundados com armas da Líbia em tumulto, tuaregues viram uma abertura para seu sonho de longa data rumo à autodeterminação nacional. Com a propagação de uma rebelião, o democraticamente eleito presidente malinês Amadou Toumani Touré foi deposto em um golpe militar e o exército manteve a sua dominação – apesar de permitir que um governo civil lidere a transição para tomar o poder.
Pode não haver certamente simpatia pela milícia agora em luta contra o governo do Mali. Originalmente, eram os nacionalistas seculares do Movimento Nacional para a Libertação de Azawad que lideravam a revolta, mas eles já foram deixados de lado por jihadistas islâmicos com uma velocidade que chocou os analistas estrangeiros. Em vez de alcançar a independência tuaregue, eles têm ambições muito mais amplas, ligando-se a grupos semelhantes do norte do Nigéria. A Anistia Internacional relata atrocidades horrendas: amputações, violência sexual, o uso de crianças-soldado, e desenfreadas execuções extrajudiciais.
Mas não caiam em uma narrativa tão frequentemente empurrada pela mídia ocidental, que estereotipa aquilo que se considera o mal, assim como temos visto a brutal guerra civil imposta na Síria. A Anistia relata brutalidades por parte das forças do governo de Mali, também. Quando o conflito originalmente explodiu, tuaregues foram presos, torturados, bombardeados e mortos pelas forças de segurança, “aparentemente, apenas por motivos étnicos", diz a Anistia. Em julho passado, 80 presos detidos pelo exército foram despojados de suas roupas íntimas, encarcerados em uma cela de 5m², cigarros foram queimados em seus corpos, e eles foram obrigados a sodomizar um ao outro. Já em setembro de 2012, 16 pregadores muçulmanos pertencentes ao grupo Dawa foram presos em um posto de controle e sumariamente executados pelo exército. Estes são atos cometidos por aqueles que agora são nossos aliados.
Quando o Conselho de Segurança da ONU, por unanimidade, abriu o caminho para a força militar ser usada, especialistas fizeram avisos claros e que ainda devem ser ouvidos. O International Crisis Group pediu foco em uma solução diplomática para restaurar a estabilidade, argumentando que a intervenção poderia exacerbar um conflito étnico crescente. A Anistia advertiu que "uma intervenção armada internacional pode aumentar a escala de violações dos direitos humanos que já estamos vendo neste conflito". Paul Rogers, professor de estudos de paz na Bradford University argumentou que as guerras passadas mostram que "uma vez iniciadas, elas podem tomar direções alarmantes, ter resultados muito destrutivos, e muitas vezes aumentar os próprios movimentos que se destinam a combater".
É concebível que esta intervenção pode – por um tempo – atingir seus objetivos de empurrar as milícias islâmicas e reforçar o governo do Mali. Mas a guerra da Líbia foi vista como um sucesso, também, e aqui estamos agora, envolvidos com a seu efeito bumerangue catastrófico. No Afeganistão, as forças ocidentais permanecem engajadas em uma guerra sem fim, que já ajudaram a desestabilizar o Paquistão, levando a ataques que mataram centenas de civis e desencadeando mais caos. O preço das intervenções ocidentais pode muitas vezes ser ignorado pelos nossos meios de comunicação, mas ainda é pago.
A intervenção ocidental liderada pela França, apoiada pela Grã-Bretanha e com possíveis ataques dos norte-americanos, sem dúvida, estimula a narrativa promovida pelos grupos radicais islâmicos. Como aponta o professor Rogers, a ação no Mali vai ser retratada como "mais um exemplo de um ataque contra o Islã". Com o alcance rápido e moderno da comunicação, grupos radicais na África Ocidental usarão esta escalada de guerra como prova de outra frente aberta contra os muçulmanos.
É preocupante – para dizer o mínimo – como o primeiro-ministro britânico, James Cameron, conduziu a Grã-Bretanha no conflito do Mali, sem sequer uma pretensão de consulta. As tropas não serão enviadas, nos é dito, mas o termo "planejamento deficiente" existe por uma razão: é uma escalada que certamente poderia provocar maior envolvimento britânico. O Ocidente tem um histórico terrível de alinhar-se com o mais duvidoso dos aliados: o lado que escolheram está longe dos direitos humanos que democratas os democratas amam.
Mas as consequências podem ser mais profundas. Além de espalhar caos pela região, a França já mapeou seus alvos que podem ser atingidos por terroristas, e o mesmo podem acontecer com seus aliados. É uma responsabilidade de todos nós questionar o que nossos governos estão fazendo em nossos nomes. Se não aprendermos com o que ocorreu no Iraque, Afeganistão e Líbia, então não haverá esperança.
Owen Jones, colunista do jornal britânico The Independent. Siga-o em twitter.com/@owenjones84
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Um olhar sobre os dez anos de governo do PT

Em 24 de janeiro de 2003, na terceira edição do Fórum Social Mundial, ainda no primeiro mês de governo, Lula fez um emblemático discurso para uma multidão no Anfiteatro Por do Sol, em Porto Alegre. Como membro do comitê organizador, eu estava lá. Fiquei caminhando no meio da multidão para sentir o clima entre os que ouviam Lula atentamente. Aliás, não eram necessárias muitas palavras, pois Lula personificava, naquele momento, muito do “outro mundo possível” que os participantes do FSM buscavam. Isto era particularmente verdadeiro para os milhares de estrangeiros presentes, sem entender português, mas felizes naquele ato. O fato é que a emoção de estar vivendo algo novo tomava conta daquele ambiente. É a maior lembrança que guardo do ato.
Passados 10 anos, uma jornalista me passou a transcrição do discurso com o objetivo de fazer uma entrevista. Lendo e relendo, fui lembrando da onda de esperança que havia tomado conta do país. Lula, com aquela aguda intuição e capacidade de sintonizar com o que multidões sentem e querem, tinha consciência que seria cobrado depois. Por isto, traçou rumos, abriu horizontes, mais do que metas de governo. Penso que vale a pena a gente ver se em 10 anos temos novos rumos e se nosso horizonte se alargou.
De fato, o Brasil não é o mesmo de 10 anos atrás. Só não vê que mudou quem até agora não se conforma com um governo clara e amplamente apoiado por camadas populares da população, como sendo seu governo legítimo. Aliás, só isto já é uma grande mudança num país de tradição elitista, patrimonialista, latifundiária e autoritária, que nunca reconheceu verdadeiramente a cidadania, com igualdade de condição política, nos milhões de mulheres e homens trabalhadores, favelados, camponeses, quilombolas, indígenas, pobres e excluídos. O governo petista é expressão da vontade política dessas maiorias e, portanto, de sonhos e desejos de participar da moldagem do Brasil. Em 10 anos de hegemonia petista, estamos diante de uma nova realidade em termos econômicos, sociais e políticos, com um povão que estima seu governo e que recuperou sua própria autoestima. Isto não é pouco, mas, no meu modo de ver, não quer dizer que seja suficiente ou o único caminho, historicamente possível, para se avançar em termos de democracia, justiça social e sustentabilidade.
De fato, não precisou 10 anos para ver que o governo do PT não seria de reformas estruturais no modelo de desenvolvimento do Brasil. Pelo contrário, tratou-se de radicalizar uma dimensão de justiça social nas políticas e processos econômicos e sociais existentes, definindo patamares mínimos de inclusão, de ampliar a voz da cidadania pela abertura do Estado e seus órgãos à participação, ao menos para expressar demandas, e de fazer valer a emergência do poder do Brasil na geopolítica mundial. Isto tudo aconteceu de forma inovadora e é de celebrar. O PT mostrou que é possível fazer hoje justiça social e crescer no capitalismo, ao mesmo tempo, que a participação cidadã engrandece a democracia e não afeta a tal eficiência do Estado e suas políticas, que o mundo espera do Brasil, de sua ativa cidadania, novas respostas para a gestão compartilhada do Planeta que a humanidade tem em comum.
A lista de feitos é grande. Lembro aqui as políticas para enfrentar a exclusão social e desigualdade: Bolsa Família e segurança alimentar, políticas afirmativas para a promoção de igualdade étnica, racial, de gênero, ações em favor dos não plenamente reconhecidos como cidadãos (por serem portadores de deficiências, idosos, por suas orientações sexuais). As políticas agressivas em termos de direito ao trabalho e renda: geração de milhões de empregos com valorização sistemática do salário mínimo – salário de referência para a maior parte dos contratos de trabalho – , facilitação do acesso ao crédito, aumento sistemático do Pronaf e política de compras pela CONAB de alimentos da agricultura familiar. As políticas de educação, talvez as menos reconhecidas: valorização do magistério, expansão do ensino universitário público e o Pro-Uni, cotas e SISU, expansão de escolas técnicas profissionalizantes. Políticas de participação cidadã, uma marca do jeito petista de governar: as conferências nacionais, desde o município e os estados até o nível federal, mobilizando milhões de pessoas, mesmo sem poder deliberativo, mas ativadores da cidadania e termômetros das demandas; a multiplicação de conselhos paritários, uns mais influentes que outros, mas uma realidade institucional da democracia brasileira hoje; a abertura das portas do Palácio do Planalto ao povão, quebrando barreiras entre cidadania e governantes. E, finalmente, mas não menos importante, é o acesso de milhões a bens e serviços antes impossíveis, popularizando o consumo e ampliando enormemente o mercado interno, puxando o próprio crescimento do país. No plano da economia, mais que celebrar uma década de crescimento, destaco a decidida política recente de redução dos juros, quebrando uma perversa lógica de fazer riqueza fácil por rentistas financiando o Estado, uma herança maldita de longa data.

Mas o que poderia ser feito, com a grande legitimidade conquistada nas urnas e na prática política,  que não aconteceu, também é uma lista grande. Ao invés de investimentos para garantir o direito à mobilidade, incentivou-se o carro individual, com redução de impostos e crédito facilitado, congestionando e parando as cidades, das grandes até as pequenas. Na segurança pública pouco se inovou e continuamos com medo e, pior, vendo cidadãos exterminados sumariamente. Está se fazendo algo em termos do enorme déficit de moradia, mas continuamos não enfrentando a vergonhosa negação do direito à água e ao saneamento de amplas camadas populares nas nossas cidades. Em matéria de prevenção, sobretudo num país de chuvas tropicais torrenciais, continuamos uma nulidade. Talvez na saúde resida o câncer maior, literalmente. Os esforços são notáveis, os resultados ainda pífios. Não é possível que o Brasil não possa ter uma garantia do direito à saúde para todos e todas, sem distinção, no nível em que se encontra! No plano das relações mundiais, o Brasil moldado pelo PT é um ator ouvido hoje, mesmo se discordamos do modo como isto se faz. Pessoalmente, acho que a mudança mais importante seria ver se o que fazemos é o que o mundo precisa, o que a cidadania planetária demanda, esquecendo o imperialista “interesse” nacional. Ser mais uma potência dominadora, com veto do Conselho de Segurança, não é o caminho para criar outro mundo.
Mas, para finalizar, destaco a mudança fundamental que faltou. Tem a ver com o paradigma econômico. O PT vai ser responsabilizado por não ter usado a sua legitimidade para apontar no rumo de um novo modelo econômico e social, de participação, justiça social e sustentabilidade, tudo junto. Não basta fazer crescer o que aí está e impor parâmetros de justiça social para melhor distribuir riquezas geradas. Mudanças substantivas na economia são necessárias para atender parâmetros de democracia e justiça social. O agronegócio cresceu espantosamente nos governos petistas e a reforma agrária ficou para calendas gregas. Nas minhas estimativas, 70 mil grandes propriedades do agronegócio no Brasil têm 200 milhões de hectares, um quarto do território nacional. Ao mesmo tempo, uns 4 milhões de famílias penam para ter terra ou ampliar suas terras e poder se inserir. O modelo no campo brasileiro é excludente e festejado pelo seus sucessos econômicos, isto no governo do PT! O modelo econômico que foi reativado pelos governos do PT aponta as mesmas opções estratégicas de antes: exportações baseadas em “commodities” minerais e agrícolas, agronegócio, grandes projetos sob a liderança de grandes grupos econômicos e financeiros, energia mesmo ao custo de impactos socioambientais, industrialização e consumismo individual como condição. Enfim, um modelo que é responsável pela crise social, ambiental e climática que a humanidade enfrenta. Nada avançamos em termos de mudança de rumo, buscando a sustentabilidade da vida e da sociedade ao invés da sustentabilidade de uma economia condenada.
O desafio que temos após 10 anos de governo do PT é como criar uma nova onda de mudanças democráticas no país, mais radicais em termos de mudança estrutural, de direitos e de participação cidadã, de sustentabilidade da sociedade com respeito ao nosso bem comum maior, o patrimônio natural de que somos gestores. Não temos como avançar em justiça social sem enfrentar a questão da sustentabilidade. Isto ainda está longe do ideário do PT.
Cândido Grzybowski, sociólogo e diretor do Ibase
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